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Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Um dinossauro pescoçudo nanico é o mais novo dinossauro brasileiro

Os maiores animais a caminharem em terra firme foram os dinossauros saur√≥podes, apelidados de pesco√ßudos. Algumas esp√©cies de pesco√ßudos,¬† como o Argentinosaurus ou o Patagotitan, encontrados na Argentina, podiam ultrapassar 30 metros de comprimento. Verdadeiros colossos capazes de fazer a terra tremer! Mas nem todos os saur√≥podes eram assim… Existiram centenas de esp√©cies desses dinossauros em quase todos os continentes e, apesar da maioria ser conhecida pelo seu grande tamanho, algumas formas adotaram uma tend√™ncia contr√°ria. Existem alguns casos de pesco√ßudos an√Ķes, formas com a altura de um cavalo ou de um camelo, como Magyarosaurus ou Europasaurus, encontrados em ambientes de ilhas antigas. Via de regra, essas formas an√£s s√£o encontradas em ambientes de ilhas, pois devido a restri√ß√£o de √°rea e recursos, a miniaturiza√ß√£o do corpo pode ser uma vantagem. Por√©m, para nossa surpresa, f√≥sseis de uma nova esp√©cie de dinossauro pesco√ßudo an√£o foram encontradas aqui no interior do Brasil, em um lugar que esteve bem longe do mar durante toda a Era dos Dinossauros. Essa esp√©cie de dinossauro foi descoberta na cidade de Ibir√°, no interior de S√£o Paulo, e se tornou uma das menores esp√©cies de dinossauros pesco√ßudos conhecidas do mundo!

Reconstituição da nova espécie de dinossauro anão de Ibirá. Arte por Matheus Gadelha.

Por mais de 15 anos o Prof. Marcelo Fernandes (UFSCar) e seu grupo de pesquisa, eu inclusa, t√™m coletado f√≥sseis no Noroeste Paulista, em uma localidade onde s√£o encontrados abundantes f√≥sseis de dinossauros. As rochas e f√≥sseis dessa localidade datam do Per√≠odo Cret√°ceo e t√™m aproximadamente 80 milh√Ķes de anos. Dentre os f√≥sseis recuperados est√£o restos de dinossauros carn√≠voros, crocodilos, tartarugas e v√°rios outros animais da “Era dos Dinossauros”. Muitos restos de dinossauros herb√≠voros foram encontrados na localidade, mas at√© o momento nenhuma esp√©cie de pesco√ßudo havia sido nomeada para a regi√£o.

Eu procurando por fósseis no sítio onde foram encontrados fósseis do pequeno pescoçudo em Ibirá, SP. Foto por Tito Aureliano.

Fui eu quem trabalhou pela primeira vez, durante a minha gradua√ß√£o, com os f√≥sseis do pequeno dinossauro pesco√ßudo de Ibir√°. √Äquela √©poca, o dinossauro n√£o ganhou nome, mas foi reconhecido como diferente das outras esp√©cies descritas para o Brasil at√© ent√£o. Muito tempo se passou, mais f√≥sseis desse pequeno dinossauro foram encontrados e, finalmente, alguns anos atr√°s, a miss√£o de liderar a descri√ß√£o da esp√©cie desse misterioso dinossauro nanico foi dada ao paleont√≥logo Bruno Navarro, atualmente estudante de doutorado no Museu de Zoologia da USP, e especialista em dinossauros saur√≥podes. Bruno, Marcelo e eu contamos com a ajuda de uma excelente equipe de colaboradores nesse processo e, no √ļltimo dia 15 de setembro, apresentamos formalmente essa nova esp√©cie de dinossauro ao mundo cient√≠fico.

O colega Bruno Navarro em Ibirá, SP, procurando por fósseis. Foto do arquivo pessoal de Bruno.

Comparando os f√≥sseis do pequeno dinossauro de Ibir√° com materiais de outros animais do mesmo grupo encontrados no Brasil e no mundo, foi poss√≠vel concluir que ele pertencia √† fam√≠lia dos saltassauros, um grupo de titanossauros que inclui algumas esp√©cies de j√° de tamanho bastante reduzido. Al√©m disso, o pequeno dinossauro de Ibir√° apresentava v√°rias caracter√≠sticas √ļnicas, n√£o compartilhadas com seus parentes mais pr√≥ximos, logo, uma nova esp√©cie poderia ser batizada. O nome escolhido foi Ibirania parva. Ibirania √© a jun√ß√£o das palavras Ibir√° – cidade onde a esp√©cie foi encontrada – e ania que em grego significa ‚Äúcaminhante, peregrino‚ÄĚ. J√° parva √© o latim para ‚Äėpequeno‚Äô. Como a palavra Ibir√° vem do Tupi para ‚Äú√Ārvore‚ÄĚ – √© poss√≠vel traduzir o nome desse dinossauro como ‚Äúo pequeno peregrino das √°rvores‚ÄĚ.

Reconstituição artística de Ibirania parva por Hugo Cafasso.

Desde o princípio era possível notar que os fósseis desse pescoçudo de Ibirá eram muito pequenos quando comparado a outros titanossauros, mas ao estimar o tamanho aproximado de um dos espécimes analisados, nos surpreendemos. Ele teria entre 5 e 6 metros de comprimento e seria da altura de uma vaca, o que o colocaria entre as menores espécies de saurópodes já descritas do mundo! Para checar se o tamanho reduzido seria porque o  espécime era apenas um jovem quando morreu, resolvemos analisar o tecido ósseo fossilizado do dinossauro ao microscópio. Essas amostras foram analisadas pelo paleontólogo Tito Aureliano, atualmente estudante de doutorado da Unicamp. A partir da análise do tecido ósseo foi possível concluir que Ibirania realmente era uma espécie de titanossauro anão, já que os fósseis pertenciam a um animal adulto no momento de sua morte, ou seja, ele não cresceria mais ao longo de sua vida.

Tamanho estimado de Ibirania parva comparado a um humano de 1,80m. Em destaque as partes descobertas do esqueleto.

Vértebra dorsal de Ibirania parva. Imagem de Navarro et al. (2022). Escala = 10cm.

No interior de S√£o Paulo, durante o final do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° 80 milh√Ķes de anos, caminharam muitos dinossauros pesco√ßudos de grande tamanho, e at√© gigantes, como o Austroposeidon. Mas havia algo de especial na regi√£o de Ibir√°, que favoreceu a exist√™ncia de pesco√ßudos nanicos. Diferente de outros an√Ķes que viviam em ilhas tropicais onde hoje √© a Europa, como Magyarosaurus ou Europasaurus, Ibirania vivia no interior do Brasil, em um ambiente semi-√°rido com per√≠odos chuvosos intercalados por secas intensas. Foi esse ambiente hostil, com recursos limitados periodicamente, que selecionou esses pequenos dinossaurinhos herb√≠voros, que ao inv√©s de migrar, provavelmente permaneciam residentes na regi√£o.

Ibirania √© a primeira esp√©cie comprovadamente an√£ das Am√©ricas e viveu em um contexto muito diferente dos outros dinossauros pesco√ßudos an√Ķes j√° encontrados. Ela acrescenta novas informa√ß√Ķes sobre a evolu√ß√£o dos titanossauros e tamb√©m sobre a ocorr√™ncia de nanismo em dinossauros saur√≥podes. Ibirania recebeu o apelido carinhoso de ‚ÄúBilbo‚ÄĚ, em refer√™ncia ao hobbit de “O Senhor dos An√©is”, por ser um nanico entre gigantes. Se voc√™ quiser saber todas as descobertas que este ‚Äėdinossauro-Hobbit‚Äô j√° forneceu, assista √† playlist: https://www.youtube.com/watch?v=_kH96sPGjfg&list=PLHPifkNwYyYYNFP-wvUXNti7NGkfNQ8hz.

O estudo foi publicado na revista Ameghiniana e pode ser acessado AQUI.

Assista também ao vídeo de divulgação:

Referência:

A. Navarro, B., M. Ghilardi, A. ., Aureliano, T., Díez Díaz, V., N. Bandeira, K. L., S. Cattaruzzi, A. G., V. Iori, F., M. Martine, A., B. Carvalho, A., Anelli, L. E., A. Fernandes, M., & Zaher, H. (2022). A NEW NANOID TITANOSAUR (DINOSAURIA: SAUROPODA) FROM THE UPPER CRETACEOUS OF BRAZIL. Ameghiniana, 59(5), 317-354. https://doi.org/10.5710/AMGH.25.08.2022.3477

A separação dos continentes em uma visão histórica

Texto por M√°rio G. F. Esperan√ßa J√ļnior

As paisagens que reconhecemos √† nossa volta possuem uma hist√≥ria bastante din√Ęmica. Por exemplo: rios mudam de curso, lagos secam, mares retraem e avan√ßam sobre os continentes… Em um intervalo de tempo mais amplo, montanhas s√£o formadas e erodidas, oceanos se fecham, novas esp√©cies de organismos surgem enquanto outras s√£o extintas. Evid√™ncias geol√≥gicas mostram que esses processos s√£o recorrentes e se sucederam por todo o planeta desde seus prim√≥rdios.

No sul do Brasil, afloram rochas do per√≠odo Permiano, intervalo que compreende de 298 a 252 milh√Ķes de anos atr√°s. Essas rochas s√£o ricas em f√≥sseis da extinta Flora Glossopteris, plantas as quais tamb√©m s√£o encontradas em dep√≥sitos sedimentares da √Āfrica, Ant√°rtida, Austr√°lia e √ćndia. Atualmente, estas regi√Ķes est√£o separadas por extensos oceanos, que s√£o barreiras intranspon√≠veis para grande parte dos organismos terrestres, incluindo as plantas. Sendo assim, pode-se deduzir que tais √°reas estiveram unidas durante o Permiano, e mais tarde se afastaram at√© chegarem em suas localiza√ß√Ķes atuais. Dessa forma, as floras e faunas que antigamente colonizaram regi√Ķes cont√≠guas, passaram a ser encontradas na forma de f√≥sseis em lugares distantes.

A evolu√ß√£o desse pensamento cient√≠fico levou muitos anos at√© chegar aos moldes que hoje conhecemos. Mas para entendermos a sucess√£o dos fatos que nos levam a resposta acerca de tais semelhan√ßas fossil√≠feras, precisamos voltar alguns s√©culos atr√°s…

As primeiras ideias

Com a chegada dos europeus ao continente americano no s√©culo XV e com a confec√ß√£o dos primeiros mapas em escala global, notou-se que a costa oeste da √Āfrica e leste da Am√©rica do Sul possuem contornos semelhantes, assim sugerindo que tais continentes estivessem em algum momento unidos. √Äquela √©poca, contudo, perduravam as ideias b√≠blicas de que a Terra seria jovem, e o conhecimento cient√≠fico limitava-se √† observa√ß√£o direta do meio devido √† aus√™ncia de tecnologia capaz de comprovar tais fen√īmenos. Somente no s√©culo XVII √© que surgiram as primeiras evid√™ncias acerca de uma idade para a Terra. Ao observar intrus√Ķes de granitos, bem como o ciclo de eros√£o e deposi√ß√£o de sedimentos, o naturalista escoc√™s James Hutton deduziu que havia muito tempo envolvido nesses processos, concluindo que a Terra seria muito antiga, ‚Äúsem vest√≠gio de um come√ßo, nem perspectiva de um fim‚ÄĚ (Hutton, 1788). D√©cadas mais tarde, o matem√°tico irland√™s Lord Kelvin calculou a idade do planeta, que estaria entre 20 e 400 milh√Ķes de anos, dado o presente equil√≠brio t√©rmico e fluxo de calor da superf√≠cie. Esse c√°lculo foi posteriormente refinado, mas somente no final do s√©culo XIX, com a descoberta da radioatividade por Henri Becquerel e o subsequente desenvolvimento das t√©cnicas de data√ß√£o radiom√©tricas, √© que se chegou √† atual idade de 4,56 bilh√Ķes de anos. Essa escala de tempo √© grande o suficiente para explicar processos naturais muito lentos para a humanidade, por√©m recorrentes na hist√≥ria da Terra.

A comprova√ß√£o da exist√™ncia de um tempo profundo talvez tenha sido um dos principais fatores para o estabelecimento de uma teoria que explicasse o encaixe dos continentes percebido s√©culos antes. Tais ideias foram fomentadas no in√≠cio do s√©culo XX com o trabalho do ge√≥logo austr√≠aco Eduard Suess (Fig. 1), ao notar a presen√ßa das folhas f√≥sseis do tipo Glossopteris na Am√©rica do Sul, √Āfrica e √ćndia. A coocorr√™ncia das mesmas plantas em √°reas distantes e separadas por oceanos √© um indicativo de que essas massas de terra j√° estiveram conectadas, por fim denominando essa antiga regi√£o como Terra de Gondwana (Suess, 1885). A fim de explicar tal observa√ß√£o, Suess deduziu que o resfriamento do planeta causaria o adensamento de certas √°reas que consequentemente afundariam formando os oceanos. Entre essas regi√Ķes, haveria pontes de terra permitindo o interc√Ęmbio da fauna e flora, sendo que estas conex√Ķes mais tarde submergiriam resultando no padr√£o geogr√°fico atual. Essa teoria, no entanto, n√£o foi bem aceita por n√£o existirem evid√™ncias f√≠sicas de tais fen√īmenos. Nos anos subsequentes, propuseram-se, ainda, que uma massa de terra prim√°ria poderia ter sido partida em continentes menores devido √† expans√£o volum√©trica do planeta (Mantovani, 1889), e tamb√©m que a movimenta√ß√£o das mesmas seria fruto da for√ßa das mar√©s ‚Äď hip√≥teses que foram rejeitadas por f√≠sicos e matem√°ticos.

Fig. 1. Autores de importantes trabalhos na construção da geologia moderna. Da esquerda para a direita: James Hutton, Eduard Suess, Alfred Wegener, Arthur Holmes e John Tuzo Wilson. Modificado de commons.wikimedia.org.

Foi assim que, em 1915, o meteorologista alem√£o Alfred Wegener prop√īs que as massas continentais outrora estivessem amalgamadas no supercontinente Pangeia (Fig. 2), dadas semelhan√ßas n√£o somente entre os f√≥sseis, mas tamb√©m com as rochas e estruturas geol√≥gicas encontradas nos dois lados do Atl√Ęntico (Wood, 1980). Por exemplo, a presen√ßa de f√≥sseis de Mesossauros, antigos r√©pteis marinhos encontrados na Am√©rica do Sul e √Āfrica, tamb√©m apontavam para tal proximidade. Al√©m disso, a ampla presen√ßa de rochas glaciais, denominadas de tilitos, sugeria uma uni√£o de diversas √°reas pr√≥ximo ao polo sul. Com essas e outras evid√™ncias, prop√īs-se a teoria do afastamento, ou deriva dos continentes, fen√īmeno que seria decorrente da rota√ß√£o da Terra (Wegener, 1915). Contudo, a explica√ß√£o de Wegener sobre o motor respons√°vel pela deriva n√£o foi bem aceita pela comunidade cient√≠fica. O verdadeiro mecanismo respons√°vel pela afastamento dos continentes s√≥ foi estabelecido anos mais tarde pelo ge√≥logo ingl√™s Arthur Holmes. Conforme a ideia apresentada, existiriam fluxos convectivos verticais abaixo dos continentes, constantemente alimentados pelo calor gerado por elementos radioativos do interior da Terra. Tais fluxos arrastariam as massas continentais continuadamente, ocasionando na forma√ß√£o de assoalho oce√Ęnico nas regi√Ķes em que as correntes quentes sobem, e na cria√ß√£o de montanhas na borda em que o fluxo frio desce (Holmes, 1931). Entretanto, as evid√™ncias do processo descrito por Holmes surgiram somente anos depois com a amplia√ß√£o do conhecimento sobre o fundo oce√Ęnico.

Fig. 2. Configuração atual dos continentes (à esquerda) e uma definição atualística da Pangeia durante o período Permiano, com os contornos dos continentes modernos (à direita).
 

Nesse sentido, o conhecimento a respeito da Dorsal Mesoatl√Ęntica exerceu um papel fundamental no entendimento da deriva continental. Esta cadeia de montanhas submarina foi inicialmente identificada em 1872, em uma expedi√ß√£o liderada pelo naturalista escoc√™s Charles W. Thomson com o objetivo de investigar a √°rea por onde passariam cabos submarinos de tel√©grafo, ligando a Europa √† Am√©rica do Norte. Mas foi somente ap√≥s a Segunda Guerra Mundial que realmente se intensificaram as pesquisas sobre o assoalho marinho, o que incluiu os primeiros mapeamentos do fundo oce√Ęnico realizados por sonar (Heezen et al., 1959). Com isso, constatou-se que a Dorsal Mesoatl√Ęntica, em quase sua totalidade, inclui um vale em rifte ‚Äď regi√Ķes de vulcanismo intenso em que terremotos s√£o frequentes. Al√©m disso, data√ß√Ķes do assoalho marinho mostraram que o mesmo √© composto por rochas vulc√Ęnicas jovens. Dessa maneira, a forma√ß√£o da litosfera oce√Ęnica √© o resultado da atividade vulc√Ęnica recente desses riftes, que pouco a pouco afastam por√ß√Ķes mais antigas, expandindo o oceano (Heezen, 1960; Dietz, 1961). Assim, ao menos parte das ideias de Holmes j√° possu√≠a alguma comprova√ß√£o no in√≠cio da d√©cada de 60.

O nascimento de uma teoria unificadora

No entanto, existia uma interessante quest√£o em aberto: j√° que o assoalho dos oceanos √© criado ao longo das dorsais, haveria algum mecanismo capaz de destru√≠-lo? Com o avan√ßo do mapeamento do fundo marinho durante a d√©cada de 60, o ge√≥logo canadense John Tuzo Wilson constatou que certas falhas geol√≥gicas, dorsais e fossas submarinas se interconectam formando grandes placas. Assim, a litosfera seria dividida em diversas placas r√≠gidas que se movimentam e submergem sob os arcos vulc√Ęnicos ao envelhecerem e resfriarem. √Ä medida que o oceano √© destru√≠do, os continentes circundantes se aproximam e eventualmente colidem formando cadeias de montanhas, a exemplo dos Himalaias (Wilson, 1963; 1965; 1966). Dessa forma, a abertura e fechamento dos oceanos seria um encadeamento c√≠clico, e portanto, repetitivo ao longo da hist√≥ria da Terra (Fig. 3). Mais tarde, esse processo foi denominado, em sua homenagem, de Ciclo de Wilson ‚Äď uma importante contribui√ß√£o ao que hoje conhecemos por Teoria da Tect√īnica de Placas (Fig. 4).

Fig. 3. O Ciclo de Wilson. 1 ‚Äď Desenvolvimento de rifte sobre um continente est√°vel; 2 ‚Äď Com a continuidade do processo, surge um oceano com uma dorsal entre duas massas de terra; 3 ‚Äď O oceano se expande afastando os continentes; 4 ‚Äď A litosfera oce√Ęnica esfria e adensa, afundando na astenosfera e resultando numa fossa adjacente a um arco vulc√Ęnico; 5 ‚Äď O oceano √© consumido, reaproximando os continentes; 6 ‚Äď Os continentes colidem formando uma √ļnica massa de terra com uma cadeia montanhosa; 7 ‚Äď As montanhas s√£o erodidas.

Atualmente, o avan√ßo tecnol√≥gico permite inferir temperaturas para o interior da Terra atrav√©s de tomografia s√≠smica. Com isso, comprovou-se a exist√™ncia de regi√Ķes quentes pr√≥ximas √†s dorsais, enquanto que as temperaturas s√£o mais baixas onde antigas placas oce√Ęnicas afundaram. Essa ascens√£o de material quente e descida de rochas frias demonstra o processo de convec√ß√£o proposto por Holmes no come√ßo do s√©culo passado. O desenvolvimento da tecnologia permitiu, tamb√©m, mensurar com grande precis√£o a taxa de afastamento dos continentes (e portanto, a taxa de expans√£o do assoalho oce√Ęnico). No caso do Atl√Ęntico, o afastamento varia de 1,8 cent√≠metro por ano, pr√≥ximo √† Isl√Ęndia; at√© 3,5 cent√≠metros ao ano, entre o Brasil e o sul da √Āfrica (Grotzinger e Jordan, 2013), velocidades realmente lentas para a percep√ß√£o da humanidade. Entretanto, dist√Ęncias consider√°veis podem ser alcan√ßadas, levando-se em considera√ß√£o o amplo intervalo de tempo que compreende a fascinante hist√≥ria da Terra.

Fig. 4. As placas tect√īnicas e alguns exemplos dos est√°gios do Ciclo de Wilson (conforme fig. 3). 1 ‚Äď Grande Vale do Rifte (√Āfrica); 2 ‚Äď Mar do Jap√£o; 3 ‚Äď Oceano Atl√Ęntico (fotografia da por√ß√£o emersa da Dorsal Mesoatl√Ęntica, Isl√Ęndia); 4 ‚Äď Andes (Vulc√£o El Cotopaxi, Equador); 5 ‚Äď Mar Mediterr√Ęneo; 6 ‚Äď Himalaias (√Āsia); 7 ‚Äď Eur√°sia central. Modificado de commons.wikimedia.org (autores: √Üvar Arnfj√∂r√į Bjarmason, peterhartree, David Ceballos, Shivam Maini).

Referências

Dietz, R.S. 1961. Continent and ocean-basin evolution by spreading of the sea floor. Nature 190, 854-857.

Grotzinger J., Jordan T.H. 2013. Para entender a Terra. 6. ed. Porto Alegre: Bookman.

Heezen, B.C., Tharp, M., Ewing, M. 1959. The floors of the ocean, I. The North Atlantic. Geological Society of America, Special Paper 65.

Heezen, B.C. 1960. The rift in the ocean floor. Scientific American 203, 98-110.

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A rainha das “cobras-cegas”

Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f√≥ssil de uma esp√©cie de “cobra-cega”, que viveu no Sudeste do Brasil h√° mais de 85 milh√Ķes de anos. Al√©m de o f√≥ssil ser muito importante para o entendimento da evolu√ß√£o do grupo, a esp√©cie √© a maior j√° encontrada entre as cobras-cegas vivas ou extintas. Boipeba tayasuensis, como foi batizada, tinha cerca de 1 metro de comprimento, e sua descoberta preenche uma grande lacuna na hist√≥ria evolutiva das serpentes Scolecophidia.

Boipeba tayasuensis, uma grande cobra-cega do Cret√°ceo do Brasil. Arte de Jorge Blanco.

O fóssil de Boipeba foi encontrado no município de Taiaçu no Oeste do Estado de São Paulo, próximo à Monte Alto, localidade já conhecida pela ampla ocorrência de fósseis do Período Cretáceo. O principal responsável pelo estudo foi Thiago S. Fachini, estudante de doutorado, orientado pela Professora Annie S. Hsiou, ambos da USP de Ribeirão Preto. O estudo ainda contou com a participação de outros dois colegas brasileiros, Silvio Onary e Mário Bronzati, e dois pesquisadores australianos.

O trabalho foi publicado dia 19 de novembro na revista iScience e baseia-se na descri√ß√£o de uma v√©rtebra bem distinta, grande, para uma “cobra-cega”, e com um formato notavelmente achatado. Da√≠ o nome Boipeba, que significa “cobra-achatada” em Tupi-Guarani. O ep√≠teto espec√≠fico, “tayasuensis”, faz refer√™ncia ao munic√≠pio de Taia√ßu, assim, a combina√ß√£o do nome da nova esp√©cie f√≥ssil significa “cobra-achatada de Taia√ßu”.

A distinta vértebra de Boipeba tayasuensis (Fachini et al. 2020).

Boipeba tayasuensis era uma serpente de m√©dio porte, com comprimento estimado em 1 metro, tamanho bastante semelhante ao de outras cobras f√≥sseis do mesmo per√≠odo. O interessante, todavia, √© o fato de Boipeba ser uma serpente Scolecophidia, ou seja, um tipo de “cobra-cega”. Atualmente, as cobras-cegas s√£o pequenas serpentes escavadoras, de h√°bitos essencialmente subterr√Ęneos, que tem os seus olhos bastante reduzidos. As esp√©cies atuais de Scolecophidia n√£o ultrapassam 30 cm de comprimento, o que torna Boipeba uma gigante das cobras-cegas. Mesmo as outras formas f√≥sseis conhecidas n√£o t√™m tamanho compar√°vel ao da “cobra-achatada de Taia√ßu”. O fato de ela ser t√£o grande d√° uma pista aos pesquisadores sobre as tend√™ncias evolutivas do grupo. A “miniaturiza√ß√£o” em Scolecophidia pode ter sido uma tend√™ncia mais recente, acompanhando fatores ambientais e ecol√≥gicos.

Mas não é só o tamanho que torna Boipeba importante. Fósseis de serpentes são muito raros no Cretáceo, ainda mais na Bacia Bauru, unidade geológica na qual ela foi encontrada. Outros fósseis associados à serpentes já haviam sido descobertos, mas este é o primeiro descrito formalmente como espécie. Boipeba, portanto, amplia o nosso conhecimento sobre a diversidade de organismos do Cretáceo da Bacia Bauru e torna a rede ecológica deste antigo paleoambiente mais complexa.

No Cret√°ceo brasileiro, o √ļnico outro registro inequ√≠voco de uma esp√©cie de serpente √© de Seismophis septentrionalis, do Cenomaniano do Maranh√£o (Bacia de S√£o Lu√≠s-Graja√ļ). Tetrapodophis amplectus, comumente referida como a “cobra com patas” do Aptiano-Albiano da Bacia do Araripe, √© questionada por muitos autores e tem uma hist√≥ria bastante complexa (leia mais sobre isso aqui).

Outro aspecto que destaca a descoberta de Boipeba para a Ci√™ncia √© a idade do seu f√≥ssil. Ela √© a esp√©cie mais antiga de cobra-cega j√° descoberta. Os registros mais antigos de Scolecophidia at√© ent√£o encontrados, eram datados do final do Paleoceno e in√≠cio do Eoceno da Europa e √Āfrica (cerca de 56 milh√Ķes de anos atr√°s). Contudo, an√°lises moleculares estimavam o surgimento do grupo para o Cret√°ceo. Boipeba confirma essa hip√≥tese. A diversifica√ß√£o inicial das cobras-cegas pode ter acontecido na Am√©rica do Sul e o Brasil pode ter sido um dos palcos principais deste evento evolutivo.

Boipeba estende o registro de Scolecophidia para o Cret√°ceo Superior do Brasil, preenchendo uma lacuna no espa√ßo e no tempo para a compreens√£o evolutiva do grupo. As previs√Ķes moleculares agora ganharam sustento de evid√™ncias paleontol√≥gicas.

Boipeba √© mais uma descoberta recente que demonstra como o territ√≥rio brasileiro √© importante para a Paleontologia mundial. As contribui√ß√Ķes que o artigo de Boipeba traz s√£o fundamentais para os estudiosos de evolu√ß√£o de serpentes e, com certeza, atrair√£o a aten√ß√£o de paleont√≥logos do mundo para os estratos rochosos do interior de S√£o Paulo.

NOTA: o grupo mais popularmente conhecido como “cobra-cega” s√£o as cec√≠lias, ou gimnofionas, que s√£o um tipo de anf√≠bio. As Scolecophidia, um grupo de serpente, todavia, tamb√©m podem ser chamadas de “cobras-cegas” por conta de seus olhos reduzidos.

Referência:

Fachini, T. S., Onary, S., Palci, A., Lee, M. S. Y., Bronzati, M., Hsiou, A. S. CRETACEOUS BLINDSNAKE FROM BRAZIL FILLS MAJOR GAP IN SNAKE EVOLUTION. iScience, 1-40. doi: https://doi.org/10.101 /j.isci.2020.101834

Vespersaurus: Um novo dino brasileiro

Estudo publicado nesta quarta-feira (26/06/19) na revista¬†Scientific Reports, do grupo Nature, apresenta uma nova esp√©cie de dinossauro brasileiro, que viveu no Per√≠odo Cret√°ceo, h√° cerca de 90 milh√Ķes de anos.

Figura-4
Reconstrução em vida de Vespersaurus paranensis. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

O fóssil foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, PR, e foi estudado por paleontólogos das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Maringá (UEM), além de pesquisadores do Museo Argentino de Ciências Naturales e do Museu de Paleontologia de Cruzeiro do Oeste. A nova espécie foi nomeada Vespersaurus paranaensis.

Vesper (do latim) significa oeste/entardecer, em referência ao nome da cidade onde foi descoberto o fóssil, e paranaensis faz uma homenagem ao Estado do Paraná, já que este é o primeiro dinossauro paranaense descrito.

Os f√≥sseis da nova esp√©cie de dinossauro pertencem a um grupo de dinossauros carn√≠voros chamados de Noasaurinae. Os Noasaurinae s√£o abelissauros diferent√Ķes, de pequeno porte, encontrados desde a Argentina at√© Madagascar (com poss√≠veis registros na √ćndia). Estes ter√≥podes viveram em uma √©poca em que¬†os¬†continentes do sul ainda estavam unidos, formando o Gondwana, e transitavam de um lado para o outro, cruzando um imenso deserto que¬†existia entre o Brasil e a √Āfrica.
Restos de Noasaurinae j√° eram conhecidos para o Brasil (veja Lindoso et al., 2012 e Brum et al., 2016), mas este √© o material mais completo encontrado at√© o momento. √Č tamb√©m o material mais completo de dinossauro¬†ter√≥pode descrito para o Brasil at√© agora, com quase metade do esqueleto encontrado.

Figura-3
Representação tridimensional do esqueleto de Vespersaurus paranensis indicando (em cor sólida) os ossos que foram encontrados. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

O novo dinossauro possu√≠a v√©rtebras pneum√°ticas, que conferiam leveza ao seu esqueleto, como nas aves viventes, e um bra√ßo muito reduzido (com menos da metade do comprimento da perna). Por√©m, a sua caracter√≠stica anat√īmica mais peculiar¬†eram os p√©s. Seu peso era praticamente todo suportado por um √ļnico dedo central, sendo o animal funcionalmente monod√°ctilo, como os cavalos. Os dedos que flanqueavam¬†o d√≠gito central, por sua vez, possu√≠am grandes garras em forma de l√Ęmina, que¬†deveriam servir para cortar e raspar carne.

Figura-1
Pata direita de Vespersaurus paranensis como preservada na rocha, note a garra do quarto dedo em forma de l√Ęmina. Foto de Paulo Manzig.

As rochas do noroeste paranaense, nas quais Vespersaurus foi preservado formaram-se em ambientes desérticos, o que sugere que o animal deveria ser adaptado a esse tipo de clima. Na década de 70, em rochas relacionadas, o paleontólogo Giuseppe Leonardi descobriu uma ampla assembleia de pegadas fósseis. Algumas, feitas por um pequeno dinossauro bípede, carnívoro, aparentemente monodáctilo. À época não se conhecia nenhum animal com tais características ao qual elas pudessem ser atribuídas. Muito tempo depois, o produtor parece ter sido encontrado.

Figura-5
Reconstrução em vida do pé de Vespersaurus paranensis. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

Vespersaurus paranaensis n√£o √© primeira esp√©cie¬†cret√°cica a ser encontrada no noroeste do Paran√°. No mesmo s√≠tio fossil√≠fero em Cruzeiro do Oeste foram descobertos tamb√©m o lagarto Gueragama sulamericana e in√ļmeros indiv√≠duos do pterossauro Caiuajara dobruskii.¬†A descoberta de mais¬†uma esp√©cie f√≥ssil em Cruzeiro do Oeste deve impulsionar¬†as pesquisas paleontol√≥gicas na regi√£o.

Veja o artigo:

Langer et al., 2019. A new desert-dwelling dinosaur (Theropoda, Noasaurinae) from the Cretaceous of south Brazil. Scientific Reports https://www.nature.com/articles/s41598-019-45306-9

Demais referências:

Brum, A.S., Machado, E.B., de Almeida Campos, D. and Kellner, A.W.A., 2016. Morphology and internal structure of two new abelisaurid remains (Theropoda, Dinosauria) from the Adamantina Formation (Turonian‚ÄďMaastrichtian), Bauru Group, Paran√° Basin, Brazil.¬†Cretaceous Research,¬†60, pp.287-296.

Lindoso, R.M., Medeiros, M.A., de Souza Carvalho, I. and da Silva Marinho, T., 2012. Masiakasaurus-like theropod teeth from the Alc√Ęntara Formation, S√£o Lu√≠s Basin (Cenomanian), northeastern Brazil.¬†Cretaceous Research,¬†36, pp.119-124.