Zoneamento agroecológico a cana

por Glenn Makuta

Quinta-feira, dia 17 de setembro de 2009, foi lan√ßado o zoneamento agroecol√≥gico da cana-de-a√ß√ļcar (ZAE Cana) no Brasil. √© uma iniciativa com muitos aspectos positivos, sim, mas nem por isso s√£o apenas as mil maravilhas. aparentemente apresenta mais pontos positivos que negativos…

Pra começar, eis o vídeo de lançamento do ZAE Cana:

O v√≠deo √© lindo, isso √© ineg√°vel: belas imagens, frases de impacto, uma musiquinha cont√≠nua, calma e com alguma identidade folcl√≥rica genuinamente brasileira…

Ent√£o vamos ver… vou apontando alguns aspectos que achei relevante, tanto positiva como negativamente:

– a iniciativa √© de entidades respeitadas que agiram sinergicamente como embrapa (empresa brasileira de pesquisa agropecu√°ria), unicamp(universidade estadual de campinas), ibge (instituto brasileiro de geografia e estat√≠stica), cepagri (centro de pesquisas metereol√≥gicas e clim√°ticas aplicadas a agricultura), conab (companhia nacional de abastecimento), inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais), cprm (companhia de pesquisa de recursos minerais), al√©m da participa√ß√£o dos minist√©rios do meio ambiente (MMA), de agricultura, pecu√°ria e abastecimento (MAPA), de minas e energia (MME), ci√™ncia e tecnologia (MCT), do planejamento, or√ßamento e gest√£o, e da casa civil. o estudo foi detalhado abordando diversos aspectos, como as condi√ß√Ķes do solo e do clima de cada regi√£o, tudo tendo a cana como referencial.

– regulamenta pol√≠ticas p√ļblicas para a ocupa√ß√£o de terras por planta√ß√Ķes de cana-de-a√ß√ļcar, delimitando seu cultivo apenas a √°reas j√° degradadas pela agricultura intensiva ou semi-intensiva, lavouras especiais (perenes, anuais) e pastagens, limitando e ordenando sua expans√£o. al√©m disso considerou-se caracter√≠sticas clim√°ticas e do solo, relacionados com os requerimentos desta cultura, classificando cada um dos tr√™s tipo de uso da terra (agr√≠cola, pecu√°ria ou agropecu√°ria) em aptid√Ķes agr√≠colas alta, m√©dia ou baixa. √© poss√≠vel verificar isso em mapas detalhados em n√≠vel nacional ou estadual aqui.

Рalgumas áreas foram excluídas do zoneamento:

1. as terras com declividade superior a 12%, observando-se a premissa da colheita mec√Ęnica e sem queima para as √°reas de expans√£o. [acabar com queimadas para colheita √© bem importante, j√° que os principais fatores de ecotoxicidade assim como de toxicidade humana, est√£o relacionadas √†s queimadas. a degrada√ß√£o do solo tamb√©m √© bastante reduzida se suspendermos a queimada. a mecaniza√ß√£o da colheita tamb√©m √© um grande diferencial, pois d√° condi√ß√Ķes de trabalho mais dignas ao passo que gera outro grande problema social: emprega m√£o-de-obra especializada em operar m√°quinas para colheita de cana em detrimento de m√£o-de-obra pouco ou nada qualificado que √©/era utilizado na colheita manual, agravando ainda mais a situa√ß√£o de oportunidade de trabalho para classes mais baixas];

queimadas da cana para colheita, ainda bastante comuns no estado de s√£o paulo
2. as √°reas com cobertura vegetal nativa [√≥timo! o que sobra de Cerrado e outros biomas tende a continuar intacto, pelo menos em rela√ß√£o a cana…];
3. os biomas Amaz√īnia e Pantanal [esse ponto √© um ponto cr√≠tico para gringos, creio eu, j√° que o que eles conhecem de brasil √© que temos o que erroneamente √© conhecido como o “pulm√£o do planeta”. sabiam que os usineiros brasileiros usam como argumento o fato dos canaviais estarem distantes destes biomas para justificar a “sustentabilidade” da produ√ß√£o sucroalcooleira? pois √©! os outros biomas nem s√£o levados em considera√ß√£o!] al√©m da Bacia do Alto Paraguai;
4. as áreas de proteção ambiental e remanescentes florestais;
5. as terras ind√≠genas [tamb√©m acho √≥timo n√£o mexer com terras ind√≠genas, apesar de que h√° √≠ndios muito mais “cara-p√°lida” que muitos de n√≥s];
6. dunas;
7. mangues;
8. escarpas e afloramentos de rocha;
9. reflorestamentos e
10. áreas urbanas e de mineração.

– estabelece que o pa√≠s disp√Ķe de 64,7 milh√Ķes de hectares=647 mil km2 de √°reas potenciais para ocupa√ß√£o por canaviais. isso corresponde a mais de 7 (SETE) vezes a √°rea remanescente de mata atl√Ęntica ou 1,5 vezes maior que o que resta de Cerrado, isso sem mencionar os outros biomas menores (em extens√£o). considerando isso, restam”apenas” 7,5% do territ√≥rio nacional potenciais para o plantio de cana (se plantassem em toda √°rea com potencial de plantio, seria praticamente um novo bioma pouqu√≠ssimo biodiverso e de origem antr√≥pica). isso pelo menos √© √≥timo pelo fato de que n√£o mais ser√° preciso devastar novas √°reas para este fim, uma vez que a vontade econ√īmica dos governantes √© de produzir cada vez mais cana.

o brasil é exemplo em alguns aspectos da produção de cana, pois somos capazes de utilizar o máximo da tecnologia a que temos acesso, produzindo muito mais do que seria esperado com a tecnologia vigente. só para ilustrar um fato que foi espantoso para mim quando fiquei sabendo, a lavagem da cana é feito com a água que extraem da própria cana, não necessitando de água de rios para isso.
Рsegundo o documento, um dos impactos esperados é a produção de biocombustíveis de forma sustentável e ecologicamente limpa. isso parece piada, pois uma coisa é querer reduzir os danos causados no ambiente nos processos de produção e uso dum combustível, mas dizer que se espera produzir um biocombustível limpo é uma mentira. o biocombustível é queimado e emite poluentes e isso já é o suficiente para que não seja limpo.
além disso, um dos grandes problemas da produção de biocombustíveis a partir de cana é a produção de vinhoto: para cada litro de bioetanol obtidos da cana, 14 litros de vinhoto são produzidos. esse grande volume é reutilizado para adubação do solo, mas boa parte acaba caindo em rios nas proximidades do canavial, e claro, sem tratamento.
– ao meu ver esta foi uma √≥tima forma de conter os √Ęnimos de ruralistas como o ministro da agricultura reinolds stephanes, por que se dependesse dele, o pa√≠s viraria um gigante deserto agr√≠cola. e obviamente os ruralistas do pantanal e da amaz√īnia devem se sentir injusti√ßados com isso.
– uma das inten√ß√Ķes desse estudo √© tamb√©m a possibilidade de se conseguir cr√©ditos de carbono, e atrair investimentos nacionais e internacionais. ao meu ver o que fundamenta cr√©ditos de carbono s√£o meram
ente aspectos econ√īmicos e nada ambiental. n√£o acho que concentrar as emiss√Ķes de carbono seja mais ben√©fico que fragment√°-lo, ao contr√°rio da l√≥gica aplicada em fragmentos vegetacionais.
Gostaria de conhecer um pouco mais de manejo de solo pois acredito que em longo prazo monoculturas danifiquem muito este recurso natural. por enquanto só fica a suposição quanto a isso.
Mais uma vez friso que este zoneamento parece ser bastante positivo. os pontos fracos ficam no argumento de combust√≠vel limpo e do papo furado da sustentabilidade (que teoricamente deveria abranger as sustentabilidade ambiental, social e econ√īmica). a cana brasileira tem em m√£os boa fatia do mercado mundial, possibilitando esse tipo de iniciativa. este zoneamentos agroecol√≥gicos √© bem completo e releva aspectos importantes para que possamos usufruir mais apropriadamente dos recursos naturais dispon√≠veis, minimizando os danos desta atividade na escala em que √© praticada (nesta escala, a principal v√≠tima √© o cerrado: uma √°rea bastante extensa dela √© tomada por atividades n√£o apenas sucroalcooleiras, mas agropecu√°rias diversas).
j√° que √© op√ß√£o deste pa√≠s a produ√ß√£o agr√≠cola em n√≠vel industrial, o ideal seria que cada uma das principais culturas fosse feito um zoneamento agroecol√≥gico pr√≥prio, mas √© pouco prov√°vel que haja interesses pol√≠tico e econ√īmico t√£o engajados como no caso da cana.

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Glenn Makuta, biólogo, mestrando em comportamento e ecologia, escreve no blog sinantrópica. Mande seus textos para serem publicados aqui!

O matador de passarinhos

separando o joio do alpiste
por Ricardo Braga Neto (Saci)
O conhecimento humano √© mesmo muito vasto. Sabemos como ir √† Lua, como escrever uma pe√ßa de teatro, a usar veneno de sapo para ca√ßar. Sabemos! No plural: os seres humanos sabem. Eu sou um desses, logo eu sei? N√£o sou nenhum Neil Armstrong, nem William Shakespeare, quem dera um Yanomami. Bem que eu gostaria. Mas eu sei que eles sabem algo que eu n√£o sei. Se um alien√≠gena chegasse ao planeta agora, eu teria orgulho em contar para ele que o r√°dio foi uma grande inven√ß√£o que revolucionou a comunica√ß√£o entre as pessoas. Mas se foi Guglielmo Marconi que aprimorou id√©ias malucas de James Maxwell sobre ondas eletromagn√©ticas que se propagavam no espa√ßo, id√©ias que foram testadas por outra pessoa, Heinrich Hertz em 1888, seria justo citar apenas um inventor para o r√°dio? Sabemos, no plural, pois individualmente sabe-se muito pouco, quase nada sobre a maioria das coisas. E a ess√™ncia da ci√™ncia √© essa. Nada mais que um ac√ļmulo coletivo de experi√™ncias, buscando um meio objetivo de tentar entender o mundo em que evolu√≠mos.
Pouco mais de um s√©culo depois, outro grande invento da humanidade deu √† comunica√ß√£o asas velozes do tamanho do mundo. E a produ√ß√£o de ci√™ncia acompanhou a ascens√£o da internet e dos gigabytes. N√£o existem apenas mais pessoas fazendo pesquisa, cada pessoa faz mais. A comunica√ß√£o online foi a alavanca dessa conquista, mas em geral os pesquisadores brasileiros exploram pouco os recursos da web. Se por um lado cada pesquisador cumpre sua fun√ß√£o publicando suas id√©ias e resultados relevantes em revistas de alto fator de impacto, ‘peer reviewed’ com um corpo editorial rigoroso, isso est√° perfeitamente correto. Isso √© lastro cient√≠fico. Por√©m, por outro lado, a comunica√ß√£o cient√≠fica complementar desses mesmos resultados para o restante da sociedade em ve√≠culos especializados fica relegada ao terceiro plano, √† pen√ļltima p√°gina da agenda, a uma id√©ia lembrada em um momento inoportuno. Infelizmente, muitas vezes os respons√°veis pelas pautas jornal√≠sticas cometem gafes com imprecis√£o, s√£o apressados e n√£o permitem a revis√£o de conte√ļdo antes de apertar a tecla PRESS. Contudo, algumas vezes, alguns jornalistas cometem delitos dignos de mea culpa.
Um exemplo fresquinho vem de uma entrevista na revista √Čpoca sobre o pesquisador Alexandre Aleixo, do Museu Paraense Em√≠lio Goeldi (MPEG), vinculado ao Minist√©rio da Ci√™ncia e Tecnologia (MCT). Ainda que o conte√ļdo das respostas de Aleixo reflita a experi√™ncia e profissionalismo de algu√©m que √© “apenas” o curador da cole√ß√£o de aves do MPEG, a abordagem da entrevistadora induz o leitor de forma subliminar a se armar contra um absurdo √≥bvio: est√£o matando passarinhos indefesos e chamando isso de ci√™ncia. A repercuss√£o n√£o foi das menores: a entrevista, publicada em 31/10/08, foi a mais comentada na √ļltima semana no site da √Čpoca. A Assessoria de Comunica√ß√£o do MPEG escreveu uma resposta ao editor da revista protestando com toda a raz√£o. Aparentemente, tomando alguns coment√°rios a esse artigo e o posicionamento incisivo da entrevistadora, o p√ļblico n√£o tem uma id√©ia clara da realidade de pesquisa b√°sica sobre biodiversidade, seja na Amaz√īnia ou em qualquer outro lugar do mundo.
Esse tipo de desservi√ßo jornal√≠stico √† imagem de cientistas brasileiros id√īneos e produtivos n√£o deve ficar impune, mas sim gerar uma revolta inteligente por parte dos pesquisadores, uma revolta tranquila, que os leve a tomar as r√©deas da comunica√ß√£o dos resultados de suas pesquisas √† sociedade. A ignor√Ęncia leva ao medo. E o medo ao erro. Pois bem, um bom modo de vencer o medo √© dialogar com as pessoas sobre nosso trabalho, usando canais de divulga√ß√£o r√°pidos, precisos e eficientes. Este blog [ULE, Uni√£o Local de Ec√≥logos (Inpa)] √© um exemplo metaf√≠sico (e gratuito) que isso n√£o √© t√£o inacess√≠vel assim. Acreditamos que isso aumentar√° muito a visibilidade do nosso trabalho. Um jornalista especializado em meio ambiente me escreveu recentemente: “O blog √© bem interessante. Primeiro, porque √© um canal de divulga√ß√£o r√°pido e preciso; segundo, porque facilita a vida dos rep√≥rteres, dado que a maioria dos pesquisadores tem pouqu√≠ssimo tempo para atender a jornalistas e com o blog a informa√ß√£o √© mais rapidamente divulgada. Boa iniciativa. Espero que prospere. Qualquer novidade √© s√≥ entrar em contato.”
Parcerias entre jornalistas e pesquisadores devem ser estimuladas, sempre buscando devolver ao p√ļblico um pouco do investimento; afinal muito dos recursos que bancam as pesquisas s√£o p√ļblicos. Cr√≠ticas saud√°veis sempre ser√£o bem-vindas, mas abordagens infantis dentro de um peri√≥dico do escopo da revista √Čpoca devem ser recha√ßadas com veem√™ncia.
Publicado originalmente no blog da ULE (União Local de Ecólogos, Inpa) :: http://uleinpa.blogspot.com/
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Saci √© bi√≥logo e trabalha com ecologia de fungos na Amaz√īnia. Dentre outras safadezas, escreve para o blog da ULE, Uni√£o Local de Ec√≥logos (Inpa) [http://www.uleinpa.blogspot.com/].

S. de Down: uma possibilidade de um futuro melhor?

Por Sandra Goraieb
Talvez em futuro breve, uma gestante que se descubra esperando um bebê portador da Síndrome de Down vai poder minimizar os efeitos da Síndrome através de terapia intrauterina. Isto porque um estudo conduzido pela Dr.a Catherine Spong da National Institutes of Health РBethesda, e publicado na Obstetrics and Gynecology, conseguiu reduzir os sinais e sintomas da síndrome em ratos, que atingiram as metas de desenvolvimento da mesma forma que ratos normais.
Para entender melhor, a Síndrome de Down ocorre quando o feto humano possui um cromossomo 21 a mais, ou seja, onde deveria existir um par, existem 3 cromossomos 21. Em ratos, uma síndrome similar ocorre na trissomia do gene 16. Em ambos os casos acontecem retardos no desenvolvimento motor e sensorial e poderão ter dificuldade no aprendizado e sofrer de sintomas de Alzheimer na vida adulta.
Em ratos trissomicos, a inibi√ß√£o de um neurotransmissor chamado GABA (√°cido gamaaminobenz√≥ico), pode melhorar as capacidade cognitivas. Isto levou a se pensar que este tratamento pudesse ser aplicado tamb√©m √†s crian√ßas portadoras da S√≠ndrome. Por√©m, este tratamento s√≥ seria poss√≠vel ap√≥s o nascimento. O ideal seria poder iniciar a corre√ß√£o das altera√ß√Ķes ainda na fase intrauterina.
Outras altera√ß√Ķes acontecem nas c√©lulas da Glia. Estas s√£o c√©lulas que fazem parte do sistema nervoso que sustentam e regulam o desenvolvimento dos neur√īnios atrav√©s da libera√ß√£o de algumas prote√≠nas, como a ADNP. No caso da S√≠ndrome de Down ocorre uma diminui√ß√£o da disponibilidade destas prote√≠nas. Al√©m disso, alguns segmentos destas prote√≠nas chamados NAP e SAL, quando agregados a culturas de neur√īnios de pessoas portadoras da s√≠ndrome e que degenerariam, parecem exercer um efeito protetor sobre estes neur√īnios.
Ent√£o o grupo da Dr.a Spong, injetou NAP e SAL em ratas gr√°vidas (modelo Ts65Dn para S. de Down) com fetos triss√īmicos obtendo resultados bastante interessantes, pois ao nascerem, os ratos tratados demonstraram-se similares aos ratos sadios em 4 de 5 par√Ęmetros motores e um de quatro par√Ęmetros sensitivos. Considerando que ratos triss√īmicos apresentam-se em deficit em todos os par√Ęmetros, o resultado foi bastante significativo (p<0,01). Os ratos tratados tamb√©m mostraram n√≠veis normais de ADNP nas c√©lulas da glia. Os pesquisadores agora observam como os ratos tratados se comportar√£o em rela√ß√£o ao aprendizado.
Apesar destes resultados, não é certo que este procedimento poderá ser efetivo também em humanos, mas existe um certo otimismo entre os especialistas.
Tomara que aconteça de verdade. Muitas crianças poderiam ter garantidos um desenvolvimento motor e cognitivo melhor e consequentemente um futuro mais tranquilo para eles e seus pais.
Para saber mais:
Toso L, Cameroni I, Roberson R, Abebe D, Bissell S, Spong CY.
Prevention of Developmental Delays in a Down Syndrome Mouse Model.
Obstet Gynecol. 2008 Dec;112(6):1242-1251.
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Sandra Goraieb √© m√©dica, especialista em Anestesiologia e em Medicina Intensiva, e diretora cient√≠fica do Projeto Millebolleblu. Escreve o blog Mam√£e passou a√ß√ļcar em mim.

A Ciência e sua sombra.

Por Daniel Christino.
Dentre todos os objetos dispon√≠veis ao escrut√≠nio da raz√£o nenhum √© mais interessante do que o pr√≥prio homem. H√° muito o intelecto humano se diverte com esse movimento de virar-se sobre si mesmo. Somos, neste aspecto, bastante √ļnicos na natureza. Segundo Rilke, ao contr√°rio de n√≥s, os animais conseguem “vislumbrar o aberto”. N√£o est√£o obrigados a olhar sempre sobre o pr√≥prio ombro.
Não têm história ou mundo. Não são capazes de perceber sua sombra como um índice de si mesmos.
Dentre os poss√≠veis discursos que escolhemos para falar de n√≥s mesmos dois se destacam. O primeiro encontra-se no dom√≠nio do mito e das religi√Ķes e podemos defini-lo,¬†grosso modo, como moralidade. O Bem e o Mal. Via de regra tal discurso aponta para uma dimens√£o transcendental da qual √© poss√≠vel colocar a natureza humana sob perspectiva. Seu pressuposto √© o de que precisamos ir al√©m do homem para poder pens√°-lo. O contr√°rio seria equivalente a tentar “saltar a pr√≥pria sombra”.
O segundo pertence ao √Ęmbito da ci√™ncia, e afirma ser poss√≠vel compreender o homem a partir da pr√≥pria condi√ß√£o humana, isto √©, como ele se d√° enquanto fen√īmeno material e finito, sem o aux√≠lio de uma perspectiva transcendental de tipo religioso. Segundo esta vertente supor que esteja aberto ao homem uma perspectiva n√£o humana √© simplesmente absurdo. Ao homem s√≥ √© poss√≠vel o que est√° dentro dos limites de sua humanidade. Ambos s√£o, como dizia Cassirer, “constru√ß√Ķes simb√≥licas”, derivadas da capacidade de enuncia√ß√£o da nossa linguagem e, neste aspecto, limitados por ela.
A ferramenta te√≥rico-epistemol√≥gica que o discurso cient√≠ fico desenvolveu para pensar o problema do homem e sua sombra foi a d√ļvida. Obviamente n√£o meramente a d√ļvida hiberb√≥lica e argumentativa de Descartes, embora esta esteja, de fato, no centro da quest√£o, mas a d√ļvida metodol√≥gica, integrada √†s pr√≥prias condi√ß√Ķes do exerc√≠cio da atividade cient√≠fica. Isto se d√° porque ci√™ncia √© m√©todo e n√£o a confian√ßa cega no m√©todo. Este √© um erro que se comete ami√ļde, pensar a ci√™ncia como se fosse uma cren√ßa na verdade ou na capacidade do homem de encontrar uma verdade universal racionalmente justific√°vel. Este valor ideol√≥gico do Iluminismo n√£o sobreviveu ao pr√≥prio desenvolvimento cient√≠fico, em √ļltima an√°lise. A raz√£o tornou-se muito mais humilde em sua busca pela verdade e abra√ßou, em seu m√©todo, a incompletude e o racioc√≠nio aproximativo. Quem melhor exemplificou este frescor intelectual e esta din√Ęmica epistemol√≥gica foi Richard Feynman. Numa¬†confer√™ncia em 1966 ele elabora esta posi√ß√£o metodol√≥gica numa f√≥rmula genial: “Science is the belief in the ignorance of the experts”.
Obviamente cada ramo cient√≠fico determina suas condi√ß√Ķes de verdade, mas elas n√£o s√£o mais universais e absolutas e t√™m validade provis√≥ria. O que, entretanto, dispara o processo de supera√ß√£o ou substitui√ß√£o destas condi√ß√Ķes de verdade √© a d√ļvida, ou melhor, as consequ√™ncias rigorosas do fato de que se pode duvidar, desde que metodologicamente embasado, das pr√≥prias condi√ß√Ķes de verdade de um determinado campo ou subcampo cient√≠fico. O importante √© perceber que a historicidade da ci√™ncia n√£o significa uma relativiza√ß√£o de seus princ√≠pios fundamentais, mas um aprofundamento. Longe de ser uma pr√°tica engessada e im√≥vel, a atividade cient√≠fica √© sempre aberta e fluida . Discutir esta condi√ß√£o em rela√ß√£o a si mesma e seu objeto √© o que mant√©m a ci√™ncia perpetuamente diante de si mesma. Dito de outro modo, em cada experimento, em cada projeto de pesquisa, est√° n√£o apenas uma quest√£o problema relacionada a um t√≥pico espec√≠fico, mas toda a ci√™ncia. √Č como ela joga luz sobre a pr√≥pria sombra.
PS. O link para a conferência do Feynman é este http://www.fotuva.org/online/frameload.htm?/online/science.htm
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Daniel Christino escreve no Pasmo Essencial. √Č graduado em jornalismo e filosofia, mestre em filosofia e doutorando em comunica√ß√£o. Atualmente √© professor da Universidade Federal de Goi√°s.

Muito além do River Raid

Por Daniel Christino.
Eu adoro jogar videogame. Essa confiss√£o j√° me rendeu alguns olhares estranhos na Universidade. ‚ÄúMas voc√™ n√£o tem algo mais importante para fazer?‚ÄĚ, diziam. ‚ÄúN√£o!‚ÄĚ, respondia meio injuriado. Embora seja uma chatice jogar ‚Äúa s√©rio‚ÄĚ qualquer jogo de videogame, pensar sobre o impacto das novas m√≠dias sobre os modelos de produ√ß√£o cultural j√° canonizados √© um campo de estudos acad√™micos cada vez mais promissor.
Sem querer entrar numa de ‚Äúpeer-reviewing‚ÄĚ, pelo menos n√£o agora, indico dois artigos muito legais sobre como os estudos sobre games atravessam diversas √°reas de pesquisa: Dynamic Lighting for Tension in Games e Tragedies of the ludic commons – understanding cooperation in multiplayer games.
O primeiro deles possui uma liga√ß√£o bastante clara com o cinema e com a narratologia (ou teoria da narrativa). O modo como um jogo explora os efeitos de luz para compor um determinado clima sup√Ķe uma no√ß√£o de narratividade visual muitas vezes importada do cinema. Por outro lado, os games, por trabalharem com um ambiente completamente virtual e manipul√°vel (dentro de certos limites tecnol√≥gico de velocidade de processamento e mem√≥ria), potencializam os usos poss√≠veis da ilumina√ß√£o para cria√ß√£o destes efeitos. Ao contr√°rio do cinema, os games t√™m controle completo sobre o ambienta no qual a a√ß√£o ocorre. No cinema, isso s√≥ acontece nas CGI (imagens geradas por computador).

There are many lighting design techniques exhibited in theatre, film, architecture and dance that address the role of lighting on emotions and arousal. Currently, game developers and designers adopt cinematic and animation lighting techniques to enrich the aesthetic sense of the virtual space and the gaming experience. For example, game lighting designers manually manipulate material properties and scene lighting to set a mood and style for each level in the game.

O segundo entende o videogame como um modelo de intera√ß√£o social, ou seja, discute o modo como um contexto de simula√ß√£o pode iluminar aspectos comportamentais dos indiv√≠duos. O estudo retira sua for√ßa da met√°fora do jogo e enfatiza uma das suas principais caracter√≠sticas: a rela√ß√£o entre os jogadores. Mesmo as brincadeiras de amarelinha ou pique-pega podem ser entendidas como simula√ß√Ķes. H√° um conjunto de regras n√£o-naturais em funcionamento normatizando o modo como a a√ß√£o pode ou n√£o acontecer. O legal dos videogames √© sua capacidade modelar, ou seja, nele possu√≠mos algum controle sobre o ambiente no qual a a√ß√£o se desenvolve e, por conta disso, podemos isolar ou testar vari√°veis de modo muito mais preciso. Neste caso os pesquisadores optaram por estudar o modo com o jogo apresenta alguns conflitos e a rela√ß√£o entre a solu√ß√£o destes conflitos e a vida social ‚Äúreal‚ÄĚ do indiv√≠duos. Em outras palavras, o artigo pressup√Ķe que a simula√ß√£o dos games pode nos ajudar a entender melhor a din√Ęmica social de pequenos grupos. √Č o caso quando eles estudam a trapa√ßa (cheating) como um dilema social. O game dado como exemplo √© o Diablo.

Accounts of cheating in games almost always invoke the eloquent example of Blizzard’s Diablo (Blizzard Entertainment, 1996), among the first truly successful commercial online games. It is generally acknowledged that the gaming experience was seriously affected by the amount of cheating apparent among many participants. In a somewhat informal survey conducted by the gamer magazine Games Domain (Greenhill 1997), 35% of the Diablo-playing respondents confessed to having cheated in the game (n=594). More interesting, however, were the answers to the question of whether a hypothetical cheat and hack free gaming environment would have increased or decreased the game’s longevity and playability. Here, 89% of the professed cheaters stated that they would have preferred not being able to cheat. This response distribution clearly tells of a social dilemma. Arguably, the players queried are tempted to cheat but understanding that this temptation applies to other players as well, would prefer that no-one (including themselves) have full autonomy.

Certo. Os artigos foram linkados a partir do site da Game Studies cuja base de dados encontra-se, hoje, aberta ao p√ļblico. H√° outros tantos em bases de dados restritas. Os games n√£o s√£o apenas divers√£o interessante, s√£o tamb√©m objetos acad√™micos relevantes tanto por sua popularidade quando pelas quest√Ķes que levantam. Estamos muito al√©m do River Raid. Divirtam-se.
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Daniel Christino escreve no Pasmo Essencial. √Č graduado em jornalismo e filosofia, mestre em filosofia e doutorando em comunica√ß√£o. Atualmente √© professor da Universidade Federal de Goi√°s.

Sobre blogs de ciências

por Charles Morphy D. Santos.

"Tudo o que tem a fazer √© escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que souber (…) Se come√ßasse a escrever rebuscadamente, ou como se estivesse defendendo ou apresentando alguma coisa, achava logo que podia cortar esses floreados ou ornamentos, jog√°-los fora e come√ßar com a primeira proposi√ß√£o afirmativa verdadeira e simples que tivesse escrito"

Ernest Hemingway, A moveable feast (Paris é uma festa), p. 29.

O fil√≥sofo John Wilkins, no seu artigo The roles, reasons and restrictions of science blogs, publicado na edi√ß√£o de agosto da Trends in Ecology and Evolution , define um blog como "fundamentalmente uma p√°gina da web atualizada constantemente, com entradas (‘postagens’) que t√™m uma data, tempo e, se muitos autores contribu√≠rem para o blog, selos com autor e nome". Para ele, um das raz√Ķes flagrantes para a exist√™ncia de blogs √© a comunica√ß√£o cient√≠fica. Al√©m disso, essa tamb√©m √© uma forma de desmistificar a ci√™ncia e de fazer frente a perspectivas contr√°rias, presentes no discurso p√ļblico (e.g., anti-evolucionistas), √†quelas cient√≠ficas. Ainda segundo Wilkins, um blog que representa uma comunidade cient√≠fica ou subdisciplina ir√° ele mesmo se transformar em uma comunidade.

Tomadas em conjunto, essas idéias parecem expressar, no geral, o que pensam as pessoas que se dedicam a escrever nesses veículos que Рerroneamente Рsão considerados como web 2.0 (essa denominação foi usada inclusive no artigo sobre blogs científicos veiculado na edição de julho da Scientific American Brasil. A tal web 2.0 Рdiscutida por muitos teóricos que trabalham com cibercultura, entre eles o brasileiro André Lemos Рdemandaria muito mais interação e possibilidade de interferência que o simples postar-comentar-responder dos blogs). Porém, há sempre o outro lado da moeda, que o próprio Wilkins lembra: blogs carecem de controle de qualidade e editoração adequada. Além disso, ainda há o preconceito da "velha guarda" da ciência (sem conotação pejorativa), que privilegia o trabalho "real" em detrimento do que é divulgado na rede.

Assim como o papel das revistas de hard-science , blogs s√£o meios para a divulga√ß√£o de id√©ias. √Č inocente quem pensa que o trabalho publicado (impresso) passa por um crivo t√£o grande de qualidade quanto seria de se esperar – basta relembrarmos dos recentes epis√≥dios de manipula√ß√£o de dados em artigos da prestigiada Science . Al√©m do mais, mesmo publica√ß√Ķes de menor √≠ndice de impacto, mas de vital import√Ęncia para √°reas espec√≠ficas das ci√™ncias, tamb√©m t√™m problemas com o peer-review . Pesquisadores da "periferia" da ci√™ncia, como os brasileiros, sempre sofrem mais para terem seus artigos publicados, sendo eles valiosas contribui√ß√Ķes para o campo de escrut√≠nio ou n√£o. Enquanto isso, profus√Ķes de textos "copy-and-paste " saem todos os meses, mais onerando do que desenvolvendo as ci√™ncias como um todo.

Nesse √≠nterim, o que talvez conspire contra os blogs seja o pr√≥prio r√≥tulo ‘blog’, muito relacionado a di√°rios pessoais on-line que, para muitos, caracterizam a gera√ß√£o e-mail (gera√ß√£o web? gera√ß√£o internet? gera√ß√£o orkut?). Blogs cient√≠ficos podem significar muito mais do que isso. Para tanto, ao serem preparados, e independentemente da linha de argumenta√ß√£o ou do assunto comentado, as postagens precisam ser cuidadosamente constru√≠das e divulgadas. √Č claro que a ci√™ncia exposta n√£o deve ser vetusta e herm√©tica, sob o risco de afastarmos ainda mais o p√ļblico j√° pouco afeito a exposi√ß√Ķes aprofundadas sobre o conhecimento cient√≠fico. No entanto, n√£o h√° motivos para que uma postagem em um blog n√£o seja t√£o zelosa sobre seu conte√ļdo e forma quanto um texto para uma revista tradicional. Quem leu o artigo do Wilkins p√īde perceber claramente que n√£o h√° nada ali que j√° n√£o havia sido discutido anteriormente na pr√≥pria blogosfera.

Um outro aspecto interessante, levantando no Roda da Ci√™ncia, diz respeito ao papel dos blogs na educa√ß√£o. Escrevi anteriormente no blog ‚ÄúUm longo argumento‚ÄĚ o seguinte par√°grafo:

"A aula n√£o pode se ater √† superficialidade dos livros did√°ticos, devendo ser acrescida das discuss√Ķes filos√≥ficas e hist√≥ricas pertinentes. A leitura √© fundamental para o professor, incluindo as obras originais e comp√™ndios sobre os t√≥picos estudados. Atualmente, h√° ferramentas dispon√≠veis na internet, tais como blogs, revistas de divulga√ß√£o online, portais com obras completas de autores consagrados das ci√™ncias e da filosofia, e s√≠tios com apresenta√ß√Ķes, exerc√≠cios e document√°rios que podem ser importantes fontes de informa√ß√£o para o docente ‚Äď e tamb√©m para os alunos, especialmente quando orientados de forma adequada".

Blogs n√£o s√£o substitutos da divulga√ß√£o tradicional (em papel) e n√£o devem ser vistos dessa forma. N√£o obstante, eles s√£o ferramentas complementares, que permitem uma dimens√£o extra para a publica√ß√£o da pesquisa cient√≠fica, com recursos pr√≥prios que permitem grande dinamismo e um maior alcance para o que √© discutido. Obviamente, a import√Ęncia dos blogs para a comunidade cient√≠fica ainda n√£o pode ser analisada em uma perspectiva hist√≥rica, mas seu impacto no ensino de ci√™ncias, por exemplo, pode ser notado por muitos dos que utilizam tal ferramenta.

Independentemente do rótulo, o que se escreve deve ser "verdadeiro", como Hemingway diz. O meio faz parte, mas não é ele próprio a mensagem.

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Charles Morphy D. Santos escreve no Um longo argumento e é doutor em ciências pela USP-RP.