Experimento micro-ondas – Dia 20: mudou o pH, e agora?!

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Primeiramente, minhas sinceras desculpas. Não tive como manter o ritmo de atualização que esperava devido a algumas pendências a resolver. Mas vamos lá:

Muito se fala, mas pouco realmente se sabe sobre o funcionamento do forno de micro-ondas. Um equipamento quase místico que é onipresente na maioria das residências, ele não resistiu a formação de uma lenda urbana em seu entorno.

Recentemente chegou até mim uma lenda urbana que fala sobre os efeitos nocivos do uso do micro-ondas para aquecimento de alimentos, utilizando como base um experimento que supostamente mostrava uma planta morrendo depois de 9 dias regadas com água fervida no forno de micro-ondas, como abordei no texto anterior: http://scienceblogs.com.br/ensaios/2014/02/experimento-microondas-dia-03/

Por sua forma de funcionamento ser ligeiramente mais complexa, muitas pessoas ficam criando mitos e lendas ao redor deste inofensivo eletrodoméstico. Aí é claro, os charlatões de plantão aproveitam para arrebanhar audiência para suas ideias de conspiração, assunto que eu abordei no texto anterior também.

O problema aumenta quando as poucas pessoas que se interessam por entender como o aparelho funciona se deparam com outra lenda urbana: a de que o forno de micro-ondas funciona de modo a fazer com que as moléculas de água supostamente entrassem em ressonância com a frequência emitida pelo forno. O que não é o que realmente acontece.

“O que aquece os conteúdos em um forno de micro-ondas é principalmente o campo elétrico e o efeito é o seguinte. Uma molécula de água – e água é abundante nos alimentos – tem maior concentração de cargas negativas em um de seus extremos e de cargas positivas no outro. Assim, as moléculas de água tendem a se alinhar com um campo elétrico que atua sobre elas. Mas o campo elétrico, no caso, é oscilante, invertendo sua orientação bilhões de vezes por segundo. Portanto, as moléculas tenderão a se alinhar em uma direção, logo em seguida em direção oposta e depois na mesma direção, etc. Durante esse movimento as moléculas interagem com as suas vizinhas e a energia que absorvem do campo elétrico vai sendo distribuída, aquecendo o conteúdo do forno” explica Otaviano Helene, professor da USP, em matéria para o Observatório da Scientific American [1].

Veja a Figura 1 para um melhor entendimento:

Figura 1: Exemplificação do alinhamento molecular com o campo elétrico oscilante. [2]

Figura 1: Exemplificação do alinhamento molecular com o campo elétrico oscilante. [2]

Agora que entendemos um pouco melhor de como realmente funciona, vamos partir para as perguntas que geralmente são levantadas:

1 – Poderia o aquecimento no micro-ondas alterar propriedades do alimento?

Ao que muitos céticos prontamente respondem um enfático “não”, a resposta é sim.

Detalhe: não é devido ao método e sim ao aquecimento da própria água. Ferver água no fogão e no micro-ondas resultam na mesma coisa. Acompanhe:

Primeiro, peguei água da torneira. Segundo a conta de água, seu pH é de 6,01. Meu medidor mostrou 6.0 ±0.1, o que está bem dentro do esperado. Veja a Figura 2:

Figura 2: Medindo o pH da água saída da torneira.

Figura 2: Medindo o pH da água saída da torneira.

Então, peguei esta mesma água e fervi no forno de micro-ondas. Tenho tempo cronometrado para que ela apenas comece a ferver. Medi o pH mais uma vez, conforme a Figura 3:

Figura 3: Medindo o pH da água após ser fervida no forno de micro-ondas.

Figura 3: Medindo o pH da água após ser fervida no forno de micro-ondas.

Agora foi para pH 6.8 ±0.1.

Se eu fosse apenas ligeiramente tendencioso, já teria me aproveitado dessa leitura e afirmado que o micro-ondas é prejudicial e blá blá blá. Mas, calma lá. Veja o que acontece quando eu fervo a água de torneira no fogão, na Figura 4:

Figura 4: Medindo o pH da água fervida no fogão.

Figura 4: Medindo o pH da água fervida no fogão.

Ahá! Mesma coisa. pH de 6.8 ±0.1.

O que podemos concluir então é que não é o método, e sim o ato da fervura que muda essa coisa misteriosa chamada pH. Muda também o gosto pelo mesmo motivo.

1.1  – O que diabos é esse pH?

Em resumo, é uma forma de indicar a acidez ou alcalinidade de uma solução aquosa. O tal número é cologaritmo de base 10 da atividade de íons de H+. A faixa de medição vai de 0 a 14 (não é o limite, é uma convenção de uso), sendo 0 um ácido MUITO forte e 14 uma base MUITO forte. A água pura, neutra, deveria ter um pH de 7.0. [3]

1.2  – Porque o ato da fervura altera o pH?

Nossa água de torneira, longe de ser pura, possui uma série de sais de cálcio, magnésio, sódio e potássio, além de outras coisas como oxigênio e dióxido de carbono dissolvidos. É desta mistura de componentes que vem o gosto da água.

O dióxido de carbono (CO2) dissolvido reage com a própria água e cria ácido carbônico (H2CO3), que por sua vez se dissocia para criar pequenas quantidades de íons H+ e HCO3. Então o pH da água é regulado pelas quantidades de dióxido de carbono e íons de bicarbonato (HCO3).

Mas os íons de bicarbonato (HCO3) são vulneráveis a calor e sofrem termólise (também chamada de decomposição térmica), transformando-se em um íon carbonato e dióxido de carbono, como a seguinte reação:

2HCO3 ↔ CO3-2+ CO2 + H2O

Quando a água é fervida, tanto os dióxidos de carbono quanto os oxigênios dissolvidos na água são expelidos fora de nossa solução. Mesmo que a água resfrie, a reentrada de dióxido de carbono não consegue equiparar a perda dos bicarbonatos. Isso significa que teremos uma concentração reduzida de bicarbonatos e íons H+, diminuindo o caráter ácido da solução e por consequência, aumentando seu pH. [4] [5]

 

Então não, o forno de micro-ondas não tem a capacidade de alterar características físico-químicas da água mais do que o seu fogão convencional. Nada a se preocupar.

 

2 – Poderia a água fervida no micro-ondas causar alterações no crescimento de plantas?

Sim, claro que pode. Assim como a água fervida no fogão. Não vou me cansa de repetir, o efeito do aumento do pH provém do aquecimento em si, e não da forma com que você faz isso. Para plantas que preferem solos mais básicos (alcalinos), regar com água fervida pode ajudá-las a se desenvolver melhor.

3 – Você espera alguma diferença no desenvolvimento das plantas?

Sim, exclusivamente devido ao pH. Ambas águas mineral e de torneira possuem pH próximo de 6.0 ±0.1 e as fervidas de 6.8 ±0.1. Se existir algum efeito, ele será identificado num par mais ácido (torneira e mineral) ou mais básico (fervidas).

4 – É verdade que o forno de micro-ondas opera numa frequência que causa câncer?

Se isso fosse verdade, deveríamos estar muito mais preocupados com nossos roteadores WiFi, televisão e aparelhos de celular. Todos operam na faixa eletromagnética dos micro-ondas. Roteadores de WiFi operam inclusive na exata mesma frequência (2.4GHz) do que a maioria dos fornos de micro-ondas convencionais.

E lembre-se: seu micro-ondas está ligado poucos minutos por dia e está envolto por uma Gaiola de Faraday muito boa, feito para que as ondas não escapem. Seu roteador é feito para transmitir mais sinal para o maior número de lugares possível. O mesmo vale para aparelhos de celular, rádios UHF, televisão, entre muitos outros.

A resposta é Não.

5 – Como está o andamento do experimento?

Em ritmo de encerramento. Os feijõezinhos já estão sofrendo e serão replantados em breve, estando já fora do experimento e devidamente pesados e fotografados. O resto das plantas será pesada e fotografada individualmente para que possamos conferir se houve alguma diferença em seu desenvolvimento.

O exército de plantas utilizado para o experimento está começando a mostrar sinais de definhamento: precisam sair de seus vasinhos. Depois de todo o empenho, nada como uma repaginada no jardim e uma boa salada!

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Os textos continuarão vindo, apesar da longa pausa que fui obrigado a fazer. O experimento continuou sem interrupções e estarei compilando os resultados para publicação aqui na semana que vem. Prometo que não vai demorar muito.

O próximo texto será surpresa!

Até a próxima!

Referências:

[1] – Observatório SciAm, Scientific American Ano 12, nº139, pág 20 – Dezembro 2013;

[2] – http://www.pueschner.com/basics/phys_basics_en.php

[3] – http://pt.wikipedia.org/wiki/PH

[4] – http://www.hindu.com/seta/2005/08/25/stories/2005082500271600.htm

[5] – http://www.hc-sc.gc.ca/ewh-semt/pubs/water-eau/ph/index-eng.php

 

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Experimento Micro-ondas: Dia 03

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Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Agora que você já conhece um pouco mais do experimento que está sendo realizado ou o que, chegou a hora de saber o porquê.

Toda nova tecnologia, quando chega ao grande público, vira alvo de polêmicas e conspirações. Com o forno de micro-ondas não foi nada diferente. Criado por acidente em 1947 pela Raytheon, empresa estadunidense que desenvolve sistemas de radares ativos para fins militares e aeroespaciais, o aparelho até hoje é um verdadeiro mistério na cozinha de muitas pessoas. Exploraremos melhor a história e funcionamento do forno de micro-ondas em um futuro próximo.

Polêmicas em torno do micro-ondas ganham força com o alcance e a relativa facilidade de se criar e disseminar conteúdo (as vezes de péssima qualidade) pela Internet. Muitos blogs, quando não atrelados a uma rede que lhes ateste credibilidade (como o nosso querido ScienceBlogs) acabam divulgando conteúdo sensacionalista e por vezes completamente errado. Se é feito por ingenuidade ou com intenções perversas não é nosso foco aqui. O problema é que muitas dessas informações caem nas mãos (ou olhos) de muitas pessoas, que na base da confiança cega e falta de ceticismo acabam acreditando em tudo que leem ali.

Nesse sentido, há o excelente E-Farsas, uma iniciativa de Gilmar Lopes, um Analista de Sistemas que analisa as várias polêmicas e supostas notíciais que circulam na Internet, fazendo e incentivando o bom uso do ceticismo.

Recentemente voltou a circular um velho mito sobre o forno de micro-ondas: que ele teria a capacidade de “alterar a estrutura molecular de água e criar compostos tóxicos”. A alegação era evidenciada a partir de um “experimento” no qual durante 9 dias se molhou uma planta com água fervida no fogão e outra fervida no micro-ondas, e aquelas fervida no micro-ondas morria ao final dos 9 dias. Este suposta notícia foi requentada; surgiu em 2010 comentando sobre a experiência das plantinhas que supostamente havia sido feita em 2006 por uma jovem chamada Arielle Reynolds, para uma feira de ciências em Knoxville, Tennessee, EUA. [1][2]

Figura 1: Primeiro dia do suposto experimento. A planta da esquerda recebe água fervida em micro-ondas e a da direita fervida no fogão.

Figura 1: Primeiro dia do suposto experimento. A planta da esquerda recebe água fervida em micro-ondas e a da direita fervida no fogão.

 

Figura 2: Ao quinto dia, é visível a diferença no desenvolvimento das duas plantas.

Figura 2: Ao quinto dia, é visível a diferença no desenvolvimento das duas plantas.

 

Figura 3: Visivelmente, há algo de errado com a planta da esquerda.

Figura 3: Visivelmente, há algo de errado com a planta da esquerda.

Esbarrei com esta “notícia” há algumas semanas por um compartilhamento do Facebook. Li com atenção e fiquei um pouco incomodado com algumas coisas:

  • Porque o texto não apresenta nenhuma indicação de quais seriam estes “compostos tóxicos” ou ao menos apontaria alguma fonte para consulta aprofundada?
  • Porque o experimento foi realizando com apenas duas plantas? Uma amostragem dessas é minúscula para tirar uma conclusão de tal magnitude.
  • Já que os resultados foram tão surpreendentes, porque não replicaram o experimento mais vezes e com outras plantas, para aumentar credibilidade?
  • Porque justificavam a falta de artigos e publicações sobre o assunto como uma conspiração das fabricantes de eletrodomésticos?

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O tom sensacionalista, alarmista e pouco técnico da maioria dos textos que encontrei falando sobre os perigos do uso de fornos de micro-ondas fez soar meu alerta cético interior. Me lembrou muito aqueles pseudodocumentários sobre alienígenas, 11 de setembro, Área 51 e afins. Mas dessa vez era um pouco diferente.

Uma coisa é um pseudodocumentário revisionista, que buscar “relativizar” e “reavaliar” fatos e evidências em busca de uma explicação alternativa para corroborar devaneios de conspiracionistas, onde existe um sentimento de impotência frente ao que está sendo exibido. Outra coisa completamente diferente é a exibição de um suposto experimento, malconduzido, que detalha um aparte da realidade. Isso nós podemos fazer, qualquer um de nós.

O simples experimento que criei utiliza elementos básicos do método científico. Não precisa de muito investimento (minhas estimativas iniciais colocam os custos do experimento em R$120-R$150) nem muito tempo dedicado. Apenas precisa de nossa iniciativa, da não conformação frente a uma notícia mal dada ou um experimento malconduzido.

Reconheço que o ônus da prova recai sobre quem afirma a hipótese, em conduzir um experimento decente, replicável, detalhado e devidamente documentado. Minha intenção aqui é tentar mostrar para o grande público não apenas se a água do micro-ondas faz mal ou não, mas também sobre os benefícios de duvidarmos de informações e explicações reconhecidamente ruins. Quero incentivar o maior número de pessoas possível de que é sim tangível você separar algumas horas por mês e conduzir um experimento científico simples de seu interesse. Não para necessariamente descobrir uma coisa nova ou almejando um Nobel e sim para entender um pouco melhor como o mundo ao nosso redor funciona.

Anseio o dia em que a prática científica amadora seja tão comum quanto tomar café-da-manhã ou assistir à novela das 8. Anseio o dia em que as pessoas não se contentem com as respostas deglutidas e tendenciosas, mas formem as suas próprias quando possível.

Chega de reflexões, vamos às plantinhas:

Figura 4: Olá, eu sou um feijão.

Figura 4: Olá, eu sou um feijão.

Todas as plantas estão se desenvolvendo, sobrevivendo e germinando. Umas mais, outras menos, o que será objetivamente avaliado por meio de comparação de biomassa e fotos ao final. Além de ser muito cedo para dizer quais plantinhas estão vivendo melhor, o que cada planta está recebendo está documentado e só será revelado ao final do experimento.

Figura 5: O saudável grupo C, com 6 Torenia fournieri e 6 Cuphea gracilis.

Figura 5: O saudável grupo C, com 6 Torenia fournieri e 6 Cuphea gracilis.

E devo confessar, é quase terapêutico acordar um pouco mais cedo e ir regar as plantinhas, acompanhar sua germinação e crescimento. Recomendo a todos, principalmente para os mais agitados e estressados, replicarem o experimento. Além do exercício científico e relaxamento, acompanhar o crescimento de rúculas e chicórias pode render uma boa salada no final do experimento. Ou você acha que minha mãe está ajudando de graça?

Figura 6: Os 52 pés de Rúculas, futuramente serão salada.

Figura 6: Os 52 pés de Rúculas, futuramente serão salada.

No próximo texto, vamos explorar um pouco melhor o que é verdade e o que não é nas alegações de efeitos dos fornos micro-ondas.

Até a próxima!

Ah, e aceito sugestões de preparo de saladas que envolvam grandes quantidades de Rúculas e Chicórias.

Tulio Baars – http://alexaradio.org/

Fontes:

[1]: “Alimentos preparados no micro-ondas fazem mal à saúde?”http://www.e-farsas.com/alimentos-preparados-micro-ondas-saude.html

[2]: Tudo começou nesta página: “Microwaved Water – See What It Does to Plants” – http://www.rense.com/general70/microwaved.htm

LOGBOOK 06/02/2014 até 08/02/2014:

– Rúculas de modo geral germinam muito rápido, talvez não sejam adequadas para timelapse;

– Conseguir uma GoPro ou câmera automática para fotos da germinação das Chicórias;

– Há uma visível diferença de crescimento entre alguns grupos de feijão. Ansioso para saber que água recebem;

– Quantidade de água ótima encontrada: 100mL de água por planta. Necessita de mais observações para determinar as diferenças de quantidade de água para cada espécie;

– Ideia para experimento futuro: relacionar o desenvolvimento e germinação em função da diferença entre a temperatura da água regada em relação a temperatura ambiente: plantas preferem água gelada quando está mais quente?

– Borrifar folhas com água, é uma boa ideia? Algumas parecem levemente ressequidas quando vistas com uma lupa.

 

Acompanhe o experimento desde o começo:

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Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Experimento Micro-ondas: Dia 01

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Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Olá, meu nome é Tulio Baars e eu amo ciência.

Não é como uma música especial ou um filme que se tem um apreço. Eu realmente amo a ciência. Sem delongas, para mim é a mais pura e linda forma de expressão humana, criando uma forma de contemplar e entender o Universo, do micro ao macro, em uma escala sem precedentes. Me pego as vezes, em momentos de reflexão, pensando emocionado no quão insignificantemente especiais nós somos, assunto que já abordei em um texto no blog do meu projeto principal (http://alexaradio.org/singularidade-insignificancia-a1/).

Minha ideia é tentar aplicar ao máximo o método científico e o ceticismo no meu dia a dia. O ceticismo não serve apenas para questionar hipóteses novas, mas é uma filosofia de vida. É uma forma não de interpretar o mundo, mas de interpretar e avaliar com clareza as informações que recebemos dele. E é partindo dessa ideia que bolei um experimento simples, mas digno de acompanhamento.

Depois de muito ler sobre os alegados “perigos” dos microondas, principalmente utilizando como evidência uma planta que morria ao ser regada com água aquecida num forno micro-ondas, resolvi fazer algo a respeito. Elaborei um simples e barato experimento para testar a hipótese da alegação alarmista, utilizando o pouco que conheço do método científico. Convido você, leitor, a embarcar nessa “jornada” em busca de confirmar ou refutar uma lenda urbana, divulgando os benefícios do pensamento sistemático ao mesmo tempo em que eu mesmo aperfeiçoo minhas noções do mesmo. Convido você também a comentar sua opinião e quaisquer sugestões, elogios e críticas.

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O teste, que tem a duração estimada em 15 dias (estendível se necessário), busca avaliar o efeito de cada tipo de água escolhido em dois momentos da vida de uma planta: vida adulta e germinação. Os tipos de água escolhidos são: água mineral, água de torneira não-filtrada, água de torneira fervida em fogão e água de torneira fervida em forno micro-ondas.

Para o teste de sobrevivência em vida adulta, selecionei duas espécies de plantas, Torenia fournieri (Torênia) e Cuphea gracilis (Cufeia) para o teste. A escolha não foi arbitrária, resistência a calor, durabilidade, idade e preço foram levados em conta. São 60 mudas, 30 de cada, distribuídas do seguinte modo:

– 12 mudas (6 de cada espécie) receberão água mineral;

– 12 mudas (6 de cada espécie) receberão água de torneira não-filtrada;

– 12 mudas (6 de cada espécie) receberão água de torneira fervida em fogão;

– 24 mudas (12 de cada espécie) receberão água de torneira fervida em forno micro-ondas.

A terra utilizada é padrão para todos os testes, aumentando ainda mais a credibilidade deste (simples) experimento.

Para o teste de germinação, escolhi duas plantas que tem uma relativa boa capacidade de germinação nesta época do ano: Eruca sativa (Rúcula) e Cichorium endívia (Chicória). São 52 de cada, em uma sementeira, conforme a Figura 1:

sementeira

Figura 1: sementeira para testes de germinação.

Para efeitos didáticos, também separei 20 copinhos com o clássico feijão-no-algodão, que todos já fizemos nas séries iniciais, conforme a Figura 2:

feijões

Figura 2: Feijões-no-algodão para testes de germinação.

O procedimento de pesquisa é simples. Todos os dias de manhã, às 7h30, pegarei uma medida de cada água que já deixei preparada no dia anterior e rego as plantas, todas na mesma quantidade. Após regar, peso individualmente cada planta (que já foi individualmente catalogada) e tiro uma foto.

Ao final do dia, as 19h30, somente o procedimento de regar é repetido.

O objetivo é ter um acompanhamento da evolução do peso de cada planta ao longo de todo o procedimento, por meio de um banco de dados. Cada planta recebeu uma etiqueta individual, que a caracteriza em um grupo de 12 plantas, conforme a Figura 3:

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Figura 3: Exemplo de uma Torenia fournieri fotografada e catalogada.

O mais interessante de tê-las fotografadas de forma individual e diária é depois poder fazer um timelapse para cada planta e acompanhar seu desenvolvimento de forma visual. Vale lembrar que o experimento está sendo realizado com duplo-cego, graças a ajuda de minha mãe.

Aliás, cabe aqui um sincero agradecimento a ela, que sempre me incentivou a perseguir as respostas para minhas inquietações e que não apenas ajudou a custear e transportar os insumos, plantas e apetrechos, mas ficou até a noite me ajudando a etiquetar e catalogar cada plantinha. Valeu, mãe!

Os resultados colhidos serão agrupados em forma de um artigo e devidamente submetido aos periódicos adequados. Por enquanto, você pode acompanhar o andamento do experimento por aqui. Ou pela televisão, se você é da região de Rio do Sul – SC. Hoje mesmo (05/02/14) a RBA TV veio aqui fazer uma reportagem sobre o experimento.

Os textos serão organizados e escritos de modo a serem facilmente lidos para qualquer um, mas sem dispensar o devido rigor científico. Ao final de cada texto teremos um indicativo do que vem a seguir e um pouco de transcrições do meu logbook, onde escrevo tudo aquilo digno de nota dos experimentos realizados.

Nos próximos dias, vocês poderão conhecer com um pouco mais de detalhes as plantas que usamos, as motivações para o experimento, o que é real e o que não é com os mitos do micro-ondas e é claro, quem sou eu que estou aqui tomando seu tempo.

Lembrando que tenho 17 anos e ainda sou muito novato nestes assuntos (quaisquer que sejam, rs). Aceito de bom grado sugestões de condução do experimento, dicas de literatura a ser consultada, críticas e elogios.

Até a próxima!

Tulio Baars – http://alexaradio.org/

 

LOGBOOK 05/02/2014:

– Deixar mais água fervida preparada para regar, grande demora em esfriar totalmente;

– Documentar temperatura ambiente na hora de cada regada;

– Documentar hora de cada regada;

– Aumentar quantidade de água para as plantas, todas se mostram levemente desidratadas;

Acompanhe o experimento desde o começo:

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Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

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Um garoto contra um mito: Tulio vs Microondas

tulio

Não existe nada mais poderoso do que uma mente humana focada (fenômeno também conhecido como “um cabra encanado”).

E se essa pessoa encanada ainda tiver iniciativa e gostar de pôr a mão na massa, pronto, temos um desbravador. Não vou falar que essa pessoa é uma cientista, porque há gente assim em todas as áreas, nas artes e na filosofia, e na falta de palavra genérica melhor usei “desbravadores” mesmo.

E sabe do que desbravadores não gostam? Respostas fáceis.

Vamos começar um experimento neste blog com um desbravador: Tulio Baars – o cara interessado por astronomia que com 16 anos fez um curso a distância; aprendeu sobre uma tal Anomalia Magnética do Atlântico Sul; se inscreveu num programa da NASA e ganhou dela um kit para coletar seus dados; se interessou por Perturbações Ionosféricas Súbitas; falou com a Universidade de Stanford e ganhou mais dois kits para pesquisa e depois mais um detector de raios cósmicos.

Mas chega de puxar o saco dele, veja a história toda aqui.

Mesmo com tanta atenção voltada para o universo, o Tulio não se desligou das pequenas perguntas terrenas – curiosidade não é seletiva e perguntas são perguntas. Ficou encucado agora com um monstro cheio de mistérios e magias: o forno de microondas.

Tão presente e tão controverso, uns dizem que ficar perto dele dá câncer, tomar água fervida nele dá câncer, comida requentada nele dá câncer, e por aí vai. [Fora aqueles shows pirotécnicos com metais dentro de microondas que sempre aparecem na TV com um aviso “Não façam isso em casa”.]

Um experimento tem rodado o mundo das internets, usando água fervida (e esfriada depois, claro) para regar plantas, onde supostamente essas plantas sofrem mais em comparação com as regadas com água normal.

O Tulio não se aguentou e vai tocar mais esse experimento no maior estilo FAÇA-VOCÊ-MESMO. Nós do ScienceBlogs Brasil vamos acompanhar e publicar esse experimento que qualquer um pode fazer em casa. De hoje em diante vamos publicar o diário do Experimento Microondas.

Fique ligado. E se quiser fazer o seu em casa, escreva para a gente!

Siga o experimento:

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