√Č poss√≠vel o estudo cient√≠fico do pensamento e da criatividade? – Parte I

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Por Ana Arantes, dO Div√£ de Einstein

“We can built a world in wich men and women will be better poets, better artists, better composers, better novelists, better scholars, better scientists – in a word, better people. We can, in short, have a better world”

B. F. Skinner, 1971

A Lecture on “Having” a Poem

    T√ī meio nervosa com essa minha estr√©ia aqui no Tubo de Ensaios e no ScienceBlogsBr…

    Pensei em bilh√Ķes e bilh√Ķes de assuntos para escrever, mas o povo aqui costuma ser s√©rio, compenetrado, cient√≠fico… e eu n√£o escrevo assim nO Div√£ de Einstein – ele √© s√©rio e cient√≠fico, mas n√£o e l√° muito compenetrado. Ent√£o, depois de muito trabalho, escrevi um ensaio sobre um tema que me interessa muito e sob uma perspectiva que eu conhe√ßo quase-muito-bem, que √© a An√°lise do Comportamento.

    A id√©ia √© discutir, do ponto de vista de B.F. Skinner, como a Ci√™ncia do Comportamento lida com os temas do pensamento e da criatividade e quais as implica√ß√Ķes desses pressupostos para a constru√ß√£o de tecnologias para a compreens√£o, a pesquisa e o ensino da criatividade.

    Ao se discutir as no√ß√Ķes de pensamento e criatividade em Skinner devemos principalmente levar em conta que esses conceitos, retirados do vocabul√°rio mentalista, ser√£o analisados por ele em termos operacionais. Isto implica em, primeiramente, qualificar o significado de tais termos no uso tanto por leigos como por estudiosos e, posteriormente, descrever em que situa√ß√Ķes palavras como “pensamento” e “criatividade” s√£o empregadas. A estrat√©gia empregada, ent√£o, √© a de desconstru√ß√£o dos significados de pensar em diversos tipos de comportamentos diferentes, analisando-os em termos das vari√°veis das quais s√£o fun√ß√Ķes. Nesse processo, Skinner elimina os conceitos cognitivistas e mentalistas (processos mediacionais) atrav√©s da descri√ß√£o e da explica√ß√£o do pensar enquanto comportamento.

    Partindo do conceito de mente, o autor faz reflex√Ķes cr√≠ticas acerca dos problemas do dualismo, da introspec√ß√£o e do pensar como armazenamento de informa√ß√Ķes. Sua cr√≠tica parte do reconhecimento de que os processos ditos mentais pressup√Ķem vari√°veis n√£o manipul√°veis e, portanto, s√£o apenas descritivos, n√£o preenchendo os quesitos formadores de seu conceito de ci√™ncia, que s√£o a manipula√ß√£o, o controle e a previs√£o dos comportamentos. Outra cr√≠tica as psicologias cognitivistas e mentalistas √© feita no que diz respeito ao m√©todo de investiga√ß√£o usado para se observar os fen√īmenos mentais, a introspec√ß√£o, que Skinner renega enquanto m√©todo cient√≠fico leg√≠timo.

    Durante sua obra, Skinner desenvolve duas linhas principais de investiga√ß√£o para analisar o pensamento e o comportamento criativo. A primeira delas parte do ponto de vista evolutivo, tentando compreender as mudan√ßas ambientais que levaram ao desenvolvimento desses comportamentos e a sua import√Ęncia para a adapta√ß√£o do homem ao ambiente em que est√° inserido. A segunda linha de racioc√≠nio √© empregada na estrat√©gia de cobrir a explica√ß√£o funcional dos comportamentos identificados como pensamento, analisando-os sob o referencial de seus est√≠mulos controladores, das vari√°veis das quais s√£o fun√ß√£o.

    Divido aqui o texto em duas partes, iniciando com as cr√≠ticas do autor ao modelo mentalista de estudo do pensamento e com a proposi√ß√£o do modelo comportamental para o estudo do tema. No posts seguintes, tratarei das implica√ß√Ķes do modelo proposto por Skinner e do desenvolvimento da Ci√™ncia do Comportamento de Pensar.

1. Críticas ao modelo mentalista

     A cr√≠tica de Skinner as linhas psicol√≥gicas mentalistas come√ßa com a cr√≠tica √† sua implica√ß√£o mais clara: o dualismo. Ele parte pressuposto epistemol√≥gico de que a ci√™ncia do comportamento, se devidamente inclu√≠da no campo das ci√™ncias, n√£o pode lidar com um objeto insubstancial, tal como a mente cartesiana. Um dos problemas apontados por Skinner seria o de n√£o poder manipular as vari√°veis de modo a produzir uma tecnologia √ļtil, pois “se pudermos observar cuidadosamente o comportamento humano, de um ponto de vista objetivo e chegar a compreend√™-lo pelo que √©, poderemos ser capazes de adotar um curso mais sensato de a√ß√£o” (Skinner, 1953).

     N√£o se trata de uma quest√£o de facilidade, a complexidade dos processos ditos mentais n√£o se reduz quando o objeto √© o comportamento e n√£o a mente. “O comportamento √© uma mat√©ria dif√≠cil, n√£o porque seja inacess√≠vel, mas porque √© extremamente complexo. O comportamento (…) √© mut√°vel, fluido e evanescente, e por esta raz√£o faz grandes exig√™ncias t√©cnicas √† engenhosidade e energia do cientista” (Skinner, 1953). A no√ß√£o de mente √© problem√°tica para uma ci√™ncia do comportamento porque a mente n√£o √© parte da natureza, n√£o tem nenhuma propriedade de um objeto natural. √Č imposs√≠vel observar os processos mentais interiores; a introspec√ß√£o n√£o pode ser levada a s√©rio enquanto m√©todo cient√≠fico pela raz√£o √ļltima de que n√£o temos √≥rg√£os sensoriais capazes de perceber os processos internos. “N√≥s temos mais informa√ß√Ķes sobre n√≥s mesmo do que sobre outras pessoas, mas √© apenas o mesmo tipo de informa√ß√£o – sobre est√≠mulos, respostas e conseq√ľ√™ncias, alguns destes internos e, neste sentido, privados. N√≥s n√£o temos enerva√ß√Ķes sensoriais vindas das partes do c√©rebro que se engajam em ‘processos cognitivos'” (Skinner, 1986).

     Mesmo que abandonemos a no√ß√£o de mente e a substitu√≠ssemos pela id√©ia de c√©rebro (solu√ß√£o muito adotada para se eliminar o mentalismo), voltar√≠amos ao mesmo ponto. O que pode ser observado pelos modernos aparelhos de imagem cerebral (PETscan e tom√≥grafos) s√£o √°reas cerebrais em funcionamento, mas o pr√≥prio funcionamento, os processos realizados pelo c√©rebro n√£o s√£o observ√°veis. “Vemos os materiais que processamos e o produto, mas n√£o a produ√ß√£o” (Skinner, 1989). 

     Esse argumento n√£o implica na nega√ß√£o das neuroci√™ncias e de sua utilidade para a explica√ß√£o completa do comportamento humano complexo, mas apenas na distin√ß√£o clara dos limites da ci√™ncia do comportamento. “Os analistas do comportamento deixam o que est√° dentro da caixa preta para aqueles que disp√Ķem dos instrumentos e m√©todos necess√°rios ao seu estudo apropriado. Existem duas falhas inevit√°veis em qualquer ponto de vista comportamental: uma entre a√ß√£o estimuladora do ambiente e a resposta do organismo, e a outra entre as conseq√ľ√™ncias e a mudan√ßa resultante no comportamento. Ao faz√™-lo [o estudo], completa a descri√ß√£o; n√£o fornece uma explica√ß√£o diferente. O comportamento humano inevitavelmente ser√° explicado, e s√≥ poder√° ser explicado atrav√©s da a√ß√£o conjunta da etologia, da ci√™ncia do c√©rebro e da an√°lise do comportamento” (Skinner, 1989).

     A obje√ß√£o behaviorista ao mentalismo, expressa principalmente na rejei√ß√£o do dualismo, se manifesta na incapacidade que este demonstra de obter uma resposta a pergunta sobre como uma subst√Ęncia imaterial (n√£o natural) pode afetar uma subst√Ęncia material (coisa natural). Chega-se, portanto, a infer√™ncia de que as causas ditas mentais do comportamento s√£o causas fict√≠cias.

     A obje√ß√£o central de Skinner ao mentalismo √©, no entanto, a de que este n√£o consegue explicar aquilo a que se prop√Ķe. Parte dessa insufici√™ncia se deve ao m√©todo introspectivo, como dito anteriormente e parte a circularidade das explica√ß√Ķes propostas.  As explica√ß√Ķes mentalista inferem uma entidade fict√≠cia a partir do comportamento observ√°vel ent√£o afirmam que a entidade inferida √© a causa do comportamento. Em raz√£o das fic√ß√Ķes mentais parecerem explica√ß√Ķes, elas tendem a impedir a investiga√ß√£o das origens ambientais do comportamento, que levariam a uma explica√ß√£o cient√≠fica satisfat√≥ria. “Como a an√°lise experimental do comportamento tem mostrado, o comportamento √© modelado e mantido por suas conseq√ľ√™ncias, mas apenas pelas conseq√ľ√™ncias que permanecem no passado. N√≥s fazemos o que fazemos por causa do que aconteceu, e n√£o do que acontecer√°. Infelizmente o que aconteceu deixa poucos tra√ßos observ√°veis, e a raz√£o pela qual fazemos o que fazemos, bem como o qu√£o dispostos estamos a fazer algo, est√£o, conseq√ľentemente, muito al√©m do alcance da introspec√ß√£o” (Skinner, 1989).

     Uma dessas fic√ß√Ķes explicativas mais combatidas por Skinner √© a da id√©ia cognitivista do pensar como armazenamento de informa√ß√Ķes. Segundo essa vis√£o, para responder novamente a um determinado est√≠mulo, deveria haver
uma mem√≥ria, ou uma esp√©cie de c√≥pia, armazenada em algum lugar da mente ou do c√©rebro, que quando acessada tornaria poss√≠vel a repeti√ß√£o de um comportamento. Segundo Skinner, se usarmos a conting√™ncia de tr√™s termos como modelo explicativo para entendermos qualquer emiss√£o de comportamento, n√£o h√° necessidade de apelarmos a explica√ß√Ķes mediacionais internas como a do armazenamento de informa√ß√Ķes. As explica√ß√Ķes das rela√ß√Ķes entre o organismo e o ambiente s√£o, portanto, suficientes para a total compreens√£o funcional. Para ele: “a obje√ß√£o dos estados interiores n√£o √© a de que eles n√£o existem, mas a de que n√£o s√£o relevantes para uma an√°lise funcional” (Skinner, 1953).

      O que se coloca para Skinner √© a quest√£o da modifica√ß√£o produzida no organismo quando da emiss√£o de um comportamento. Do mesmo modo que a teoria da sele√ß√£o de Darwin, a causalidade de Skinner exclui qualquer suposi√ß√£o de que o comportamento possa ocorrer a partir de um projeto futuro. S√£o as conseq√ľ√™ncias ocorridas no passado que determinam a probabilidade de ocorr√™ncia do comportamento em uma situa√ß√£o futura. N√£o por que essas conseq√ľ√™ncias s√£o armazenadas ou memorizadas para serem recuperadas e orientarem uma a√ß√£o futura, mas por que as ocorr√™ncias passadas modificam o organismo, i. e, alteram sua forma de se relacionar com o ambiente. Com esta no√ß√£o de causalidade, Skinner combate a no√ß√£o de um agente iniciador (das concep√ß√Ķes mentalistas) e suprime a necessidade de procurar inst√Ęncias armazenadoras de informa√ß√£o ou mem√≥ria. Nesse sentido, “as conting√™ncias que afetam um organismo n√£o s√£o armazenadas por ele. Elas nunca est√£o dentro dele; elas simplesmente o modificam. Da√≠ resulta que o organismo se comporta de maneiras especiais sob tipos especiais de controle por est√≠mulos. Os est√≠mulos futuros ser√£o eficazes se se assemelharem aos que foram parte de conting√™ncias anteriores; um est√≠mulo acidental pode nos fazer lembrar uma pessoa, um lugar ou um acontecimento se tal est√≠mulo tiver alguma semelhan√ßa com essa pessoa, lugar ou acontecimento. Ser lembrado significa ser tornado capaz de responder” (Skinner, 1974).

2. Pensamento como comportamento

     No entender de Skinner, o que comumente √© identificado como o processo cognitivo superior do pensamento pode ser descrito como uma s√©rie de comportamentos ou processos comportamentais que n√£o s√£o p√ļblicos, mas cujos produtos finais, ou os est√≠mulos controladores, podem ser observados ou inferidos de eventos observ√°veis. “N√£o se trata de nenhum processo misterioso respons√°vel pelo comportamento, mas do pr√≥prio comportamento em toda a complexidade de suas rela√ß√Ķes de controle, relativas tanto ao homem que se comporta como ao meio em que ele vive” (Skinner, 1957).
    

     No intuito de explicar as vari√°veis que controlam diversos tipos de comportamento diferentes que podem ser chamados de pensamentos, Skinner faz uma esp√©cie de cataloga√ß√£o desses poss√≠veis comportamentos (ou processos comportamentais), analisando funcionalmente cada um deles e especulando sobre sua import√Ęncia adaptativa e seu poss√≠vel caminho evolutivo. √Č importante notar que com isso ele pretende identificar o termo “pensar” com comportamento operante, ou seja, sujeita-lo apenas as leis que regem o comportamento operante, sem que para explica-lo seja necess√°rio recorrer a nenhum tipo de processo mediacional ou cognitivo.

     Vale ainda ressaltar que para cumprir seu projeto de explicar os comportamentos de pensar como tal, o primeiro passo foi substituir o substantivo “pensamento” pelo verbo “pensar”, eliminando assim a id√©ia do pensamento como uma coisa a ser descrita e levantando a quest√£o do pensar enquanto uma a√ß√£o direta no mundo, um comportamento que opera modifica√ß√Ķes no ambiente que o produziu, ou seja, um operante. Com isso, ele elimina ainda o peso mentalista do termo pensamento enquanto construto te√≥rico cognitivista que nomeia um processo mental. Assim, “pensar significa muitas vezes o mesmo que comportamento. Dizemos, nesse sentido, que se pensa matematicamente, musicalmente, politicamente, verbalmente ou n√£o verbalmente e assim por diante. Em um sentido ligeiramente diverso, significa comportar-se em rela√ß√£o a est√≠mulos. (…) Pensar tamb√©m √© identificado com certos processos comportamentais, como aprender, discriminar, generalizar e abstrair. Esses processos n√£o s√£o comportamento, mas sim modifica√ß√Ķes no comportamento. N√£o h√° a√ß√£o, nem mental, nem qualquer outra” (Skinner, 1968).

     Uma das situa√ß√Ķes mais comuns em que se emprega o termo “pensar” √© a situa√ß√£o de se resolver problemas. Ter um problema √© estar diante de uma situa√ß√£o em que uma resposta apresenta certa probabilidade de ser emitida, mas por falta de uma estimula√ß√£o discriminativa adequada isso n√£o ocorre. Portanto, o processo de resolu√ß√£o de problema pode ser considerado como constitu√≠do, basicamente, por respostas manipulativas e discriminativas: diante de um problema manipulamos vari√°veis a fim de produzir est√≠mulos discriminativos que permitam a emiss√£o da resposta discriminativa consumat√≥ria (Lopes & Abib, 2002). Ou seja, para Skinner o problema √© uma quest√£o para a qual n√£o h√° resposta at√© o momento e sua solu√ß√£o √© o comportamento respons√°vel pela mudan√ßa da situa√ß√£o. O comportamento de pensar enquanto “resolver um problema” seria um encadeamento de comportamentos que, para o indiv√≠duo que “pensa”, ocorreria para mudar a si mesmo ou a situa√ß√£o at√© que ocorra uma resposta (solu√ß√£o do problema). “Resolver um problema √© um evento comportamental” (Skinner, 1963).

      Skinner cita v√°rias formas segundo as quais nos comportamos no sentido de gerar comportamentos que levariam √† solu√ß√£o de uma determinada situa√ß√£o. Para cada uma dessas formas de comportamento usa-se comumente a express√£o “pensar”: (1) quando se faz algo que torna poss√≠vel outro comportamento; (2) quando nenhum est√≠mulo efetivo est√° dispon√≠vel e as pessoas exp√Ķem algum; (3) quando n√£o se pode descobrir um est√≠mulo, √†s vezes deixa-se um outro acess√≠vel de reserva at√© que a resposta ocorra; (4) quando junta-se v√°rias coisas diferentes para possibilitar uma resposta √ļnica; (5) faz-se o inverso quando separa-se coisas de modo que se possa lidar mais facilmente com elas em outra ocasi√£o; (6) marca-se coisas de modo que se possa nota-las mais facilmente em outra ocasi√£o; (7) compara-se coisas, colocando-as “lado a lado” de modo que se possa ver mais facilmente se elas combinam entre si; (8) especula-se sobre as coisas, no sentido de que se olha para elas de diferentes √Ęngulos e (9) depois de “pensar” por algum tempo chega-se a uma decis√£o (a pr√≥pria palavra deriva da express√£o “por fim a alguma coisa”) (Skinner, 1989).

Referências:

Baum, W. (1994). Compreender o behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.

Lopes, C. E. & Abib, J. A. D. (2002). Teoria da percepção no Behaviorismo Radical. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 18, 2. 129-137.

Skinner, B. F. (1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1963). Contingences of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. New York: Appleton-Century- Crofts.

Skinner, B. F. (1970). Creating the creative artist. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972). New Yark: Appleton- Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1971a). A lecture on “Having” a poem. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972) . New Yark: Appleton- Centur
y-Crofts.

Skinner, B. F. (1971b). Beyond freedom and dignity. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Applenton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1978). The shaping of phylogenic behavior. Em B. F. Skinner. Reflections on behaviorism and society. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

Skinner, B. F. (1986). Upon Further Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

Skinner, B. F. (1989). Quest√Ķes recentes na an√°lise comportamental. Campinas: Papirus.

Tourinho, E. Z.; Teixeira, E. R. e Maciel, J. M. (2000). Fronteiras entre análise do comportamento e fisiologia: Skinner e a temática dos eventos privados. Psicologia: Reflexão e Crítica. 13, 3. 425-434.

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Assim (n√£o) √©, (nem) se lhe parece…

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AŇŅsi como em todas couŇŅas humanas h√° continua
mudan√ßa, aŇŅsi he tambem nas lingoag√™ns.

(Dvarte Nvnez de Li√£o, 1606)

Preconceito é um pré-conceito?

Philip Durkin, etim√≥logo-chefe da Oxford English Dictionary, define assim “fal√°cia etimol√≥gica”:

“[…] is the idea that knowing about a word’s origin, and particularly its original meaning, gives us the key to understanding its present-day use.” [“[…] √© a ideia de que conhecer a origem das palavras, e particularmente seu significado original, d√° a n√≥s a chave para entender seu uso atual.”], e segue: “Very frequently, this is combined with an assertion about how a word ought to be used today: certain uses are privileged as ‘etymological’ and hence ‘valid’, while others are regarded as ‘unetymological’ and hence ‘invalid’ (or at least ‘less valid’).” [“Muito frequentemente, isso √© combinado com uma afirma√ß√£o sobre como uma palavra deve ser usada hoje em dia: certos usos s√£o privilegiados como ‘etimol√≥gicos’ e, portanto, ‘v√°lidos’, enquanto outros s√£o considerados como ‘n√£o-etimol√≥gicos’ e, portanto, ‘inv√°lidos’ (ou ao menos, ‘menos v√°lidos’).“] [1, p. 27.]

Um exemplo de fal√°cia etimol√≥gica √© a pr√≥pria fal√°cia etimol√≥gica. Se fizermos a etimologia da palavra ‘etimologia’, verificamos que ela v√™m do grego őĶŌĄŌÖőľőŅőĽőŅő≥őĮőĪetumolog√≠a‘, de ő≠ŌĄŌÖőľőŅs√©tumos‘ (‘verdade, verdadeiro’) e őĽŌĆő≥őŅs ‘l√≥gos’ (‘palavra, discurso’), para os gregos antigos era mesmo o ‘estudo dos significados e formas verdadeiros das palavras’. Mas hoje entende-se a etimologia somente como o ‘estudo da origem e evolu√ß√£o das palavras’.

Outro exemplo muito frequente √© a palavra ‘preconceito’. No meio da discuss√£o sobre, digamos, preconceito racial, algu√©m saca: “Mas preconceito √© *pr√©*-conceito, eu tenho √© *p√≥s*-conceito”. Em sua origem preconceito vem mesmo de ‘pre’+’conceito’, um conceito formulado anteriormente. Mas repare que, de um lado isso n√£o pode ser levado muito a s√©rio: n√£o costuma ser vi√°vel se ter um conceito formulado a respeito de algo do qual jamais se ouviu falar antes. De outro, o significado em ci√™ncias sociais √© diferente, n√£o depende de uma preconcep√ß√£o, trata-se t√£o somente de uma ‘vis√£o, geralmente negativa, injustificada a respeito de um indiv√≠duo por pertencer a um determinado grupo social’ [2], n√£o depende de haver ou n√£o um contato pr√©vio na formula√ß√£o dessa opini√£o.

Ou podemos pensar na palavra ‘preju√≠zo’. Seu sentido mais comum no portugu√™s contempor√Ęneo √© de dano, perda. Ningu√©m dir√° que ‘arcar com o preju√≠zo’ signifique pagar por ter sido preconceituoso. Salvo em ingl√™s, em que ‘prejudice‘ tem o mesmo sentido de ‘preconceito‘.

A lista √© extensa, quase inesgot√°vel. ‘Formid√°vel’ vem do latim formidabilis ‘terr√≠vel’ (> formidare ‘temer’ > formido ‘terror, fantasma’) e, em geral, √© algo positivamente admir√°vel (ainda que haja uma acep√ß√£o que conserva o sentido original). Mesmo ‘terr√≠vel’, com frequ√™ncia √© usado em um sentido positivo: “Ele √© terr√≠vel com a bola” pode muito bem significar que o jogador √© muito habilidoso e n√£o um perna-de-pau. Ou ‘sinistro’ que tamb√©m tem sido usado em um sentido positivo. Esses exemplos nos mostram n√£o apenas que as palavras mudam de sentido – sem que a deriva√ß√£o do sentido original signifique que os novos sentidos sejam errados -, mas que √© um fen√īmeno que n√£o est√° restrito a um passado remoto. Podemos organizar esses exemplos em grau de modifica√ß√£o de sentido – adquirindo um sentido de certo modo oposto ao original – do j√° consolidado ao ainda em processo incipiente: formid√°vel, assombroso, espantoso, terr√≠vel, sinistro. (Aparentemente h√° uma necessidade vocabular de expressar a admira√ß√£o em n√≠vel hiperb√≥lico – algo que de t√£o bom chega a assustar – e √† medida em que a express√£o anterior se consolida no novo uso, perde essa vivacidade, ent√£o uma nova express√£o ainda com significado de ‘algo que mete medo’ √© cooptada. Edmund Burke, por certo, acharia isso sublime [3, 4].)

As palavras tamb√©m podem derivar de sentido para o lado negativo. ‘Ordin√°rio’, inicialmente, √© simplesmente ‘algo comum, dentro da ordem natural das coisas’, ‘med√≠ocre’, tamb√©m originalmente, √© apenas ‘algo mediano’ – mas a carga negativa atualmente √© a mais comum: “Seu ordin√°rio” √© uma ofensa e “desempenho med√≠ocre” √© uma avalia√ß√£o ruim.

Ou quando algu√©m diz: “fui de carro at√© o trabalho”, ningu√©m imagina que a pessoa foi de carruagem. “Carro” vem do lat. carrus ‘ve√≠culo romano, ou celta, de duas rodas, puxado a cavalo, usado em batalhas’ (que por sua vez deve ter vindo do celta ou do gaul√™s ‘karros‘ < proto I.E. *kers- “correr”). O sentido de ve√≠culo de rodas a tra√ß√£o animal ainda √© mantido em certos usos: como “carro de boi”, e o sentido mais geral de ve√≠culo sobre rodas √© empregado, por exemplo, em empresas de √īnibus, que referem aos ve√≠culos como carros. Naturalmente, n√£o faz sentido afirmar que carro n√£o possa ser usado como sin√īnimo de autom√≥vel de passageiro.

“Simp√≥sio” vem do grego ŌÉŌÖőľŌÄŌĆŌÉőĻőŅőĹ,ou sump√≥sion,ou (“banquete, festim” < ŌÉŌÖőľŌÄőĮőĹŌČ sump√≠nŇć “beber junto” < ŌÉŌÖőľ sum “junto” e ŌÄőĮőĹŌČ “beber”). Mas um simp√≥sio t√©cnico n√£o precisa ser um festim (ainda que, em geral, haja uma confraterniza√ß√£o em um bar, isso n√£o faz parte do programa) – um simp√≥sio de combate e preven√ß√£o do alcoolismo n√£o √© um ox√≠moro.

“Escravo” vem do lat. sclavus, slavus (do gr. biz. ‘skl√°bos‘, ‘sklab√©n√≥s‘ < eslov. ‘SlovńõninŇ≠‘ < ‘Slovńõnci‘ “povo famoso” < proto-I.E. *kleu- ‘ouvir’)  refer√™ncias aos SclńĀvus
‘eslavos’  (principais povos escravizados na Europa Central durante a
Idade M√©dia por germ√Ęnicos e bizantinos). Ningu√©m vai imaginar que n√£o se possa aplicar o termo para se referir aos cativos de origem africana nas Am√©ricas.

Se as origens não necessariamente têm a ver com os significados atuais das palavras, para que serve a etimologia afinal de contas? E o que legitima ou não o uso com este ou aquele significado? Abordarei isso em oportunidades futuras.

Mas se alguém então lhe disser que não é preconceituosa em relação a um grupo de pessoas porque ela tem um pós-conceito, diga-lhe: assim não é, nem se lhe parece.

Referências:
[1] Philip Durkin. The Oxford Guide to Etymology, 2009. Nova Iorque: Oxford University Press. 347 pp.
[2] Tommy Boone. Dealing with prejudice.
[3] Edmund Burke. A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful.
[4] Andrea Peixoto. Sublime.

Uma luz dentro de células

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Por Joey Salgado


A Fernanda Poletto, do excelente Bala M√°gica, publicou recentemente um texto falando sobre Armas M√°gicas (quanta m√°gica por aqui…), o qual recomendo fortemente a leitura. O conceito de Armas M√°gicas se resume a uma metodologia capaz de promover a internaliza√ß√£o de f√°rmacos em tumores, atrav√©s da utiliza√ß√£o de pept√≠deos chamados de iRGD. Os iRGD “guiam” o f√°rmaco at√© o tumor e “abrem a porta” para que o mesmo entre na c√©lula tumoral, aumentando assim a especificidade de sua a√ß√£o. 

Achei sensacional a utiliza√ß√£o desses pept√≠deos iRGD para o carregamento do f√°rmaco e, por conta disso, recordei-me de um trabalho relativamente recente (2006 t√° novo ainda?), onde uma certa sequ√™ncia de pept√≠deos mostrou-se fundamental para a proposta de uma nova t√©cnica. Em 2006 (quatro anos… t√° novo, foi a menos de uma Copa do Mundo atr√°s…), Jones e colaboradores, da Universidade de Standford (sempre eles…) demonstraram a possibilidade de se utilizar oligopept√≠deos contendo oito res√≠duos de arginina como cross-coupling peptides (ou CCP) de mol√©culas conjugadas com luciferina (lembra dela?). O princ√≠pio da t√©cnica √© demonstrado na figura abaixo.[1]

luciferin_conjugates.gif

Vamos por partes. Oligopept√≠deos de arginina, principalmente esses contendo oito unidades desse amino√°cido, s√£o chamados de cross-coupling peptides justamente por possu√≠rem a capacidade de permearem atrav√©s da membrana lipof√≠lica de c√©lulas, chegando ao citoplasma da mesma. A subunidade em verde da mol√©cula na figura acima diz respeito √† sequ√™ncia de CPPs. Pelo fato de permearem por membranas lipof√≠licas, ao mesmo tempo que s√£o sol√ļveis em meio aquoso, CPPs podem ser conectados a outros pept√≠deos, f√°rmacos ou agentes marcadores, formando os chamados “conjugados”, que podem ser carregados para dentro de uma c√©lula. J√° na √©poca do trabalho, o mesmo grupo de pesquisas havia apresentado a utiliza√ß√£o de CPPs conjugados com ciclosporina A, um imunossupressor, para “entrega” de drogas em tecidos vivos.[2] O problema, de certa forma, √© que a velocidade com que a entrega do f√°rmaco era realizada, ou de qualquer outra mol√©cula conjugada ao CPP, era desconhecida at√© ent√£o. Sabia-se que o CPP realizava a entrega, visto que os efeitos do f√°rmaco eram observados, mas n√£o se tinha ideia de quanto tempo era necess√°rio para o mesmo permear para dentro da c√©lula e/ou para liberar o f√°rmaco.

No sentido de se desenvolver uma t√©cnica que permitisse avaliar a efici√™ncia e a velocidade da “entrega” de um determinado conjugado com CPP, em tempo-real e in vivo, chegou-se a conjugados de CPP com luciferina, como j√° demonstrado na figura acima. A luciferina (destacada em azul) est√° conectada ao CPP (em verde) atrav√©s de uma mol√©cula-ponte (em vermelho). Tal mol√©cula-ponte est√° conectada ao CPP por uma liga√ß√£o disulfeto S-S (em vermelho e verde), que quando na presen√ßa de glutationa intracelular (GSH) √© rapidamente clivada, liberando a mol√©cula de luciferina. Utilizando-se tal conjugado em c√©lulas de organismos transfectados com o gene luc de vaga-lumes, respons√°vel pela express√£o da enzima luciferase, o par luciferina/luciferase emite luz, que pode ser registrada em tempo-real por uma c√Ęmera.

Dessa forma, mostrou-se ser poss√≠vel averiguar a efici√™ncia e a velocidade de permea√ß√£o de CPPs de arginina, utilizando-se esse conjugado com luciferina como modelo para entrega intracelular de drogas. Apesar do sucesso obtido pelos autores, parte da complica√ß√£o em se utilizar tal t√©cnica reside na s√≠ntese do conjugado, que n√£o √© trivial, e no fato de que devem ser utilizados organismos geneticamente modificados para avalia√ß√£o do modelo. Contudo, a t√©cnica equivalente, que utiliza CPPs conjugados com mol√©culas fluorescentes, apesar de possibilitar que se fa√ßa a avalia√ß√£o da libera√ß√£o de drogas in vitro, n√£o √© funcional para sistemas in vivo e n√£o permite o acompanhamento da mesma em tempo-real. Outra op√ß√£o, o uso de CPPs conjugados com mol√©culas contendo radiois√≥topos, possibilita a observa√ß√£o in vivo, mas n√£o tem resolu√ß√£o suficiente para determinar se o conjugado marcado se encontra dentro ou fora da c√©lula e n√£o permite saber se a mol√©cula marcada que simula o f√°rmaco ainda est√° ligada ao CPP (o radiois√≥topo emite radia√ß√£o independente se foi liberado dentro do meio celular ou n√£o).

Este √© um exemplo de um belo trabalho, na minha opini√£o, que apresenta uma t√©cnica fenomenal, capaz de modelar em tempo-real a entrada em c√©lulas de drogas conjugadas a CPPs, e que ao mesmo tempo permite as observa√ß√Ķes da libera√ß√£o intracelular da mesma e da intera√ß√£o com um receptor enzim√°tico.

Que beleza esses peptídeos, né não?!

Referências e notas:

[1] Jones, L. R.; GOun, E. A.; Shinde, R.; Rothbard, J. B.; Contag, C. H.; Wender, P. A.; “Releasable Luciferin-Transporter Conjugates: Tools for the Real-Time Analysis of Cellular Uptake and Release” J. Am. Chem. Soc. 2006, 128, 6526. DOI: 10.1021/ja0586283.

[2] Rothbard, J. B.; Garlington, S.; Lin, Q.; Kirschberg, T.; Kreider, E.; McGrane, P. L.; Wender, P. A.; Khavari, P. A.; “Conjugation of arginine oligomers to cyclosporin A facilitates topical delivery and inhibition of inflamation” Nat. Med. 2000, 6, 1253. DOI: 10.1038/81359.

Todos os nomes*…

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Poema para Lu√≠s de Cam√Ķes
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho p√°ra,
Na figura do corpo est√° a escala do mundo.
Olho cansado as m√£os, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
S√£o as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da √ļltima raz√£o, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das est√°tuas jazentes, repousando,
N√£o mortas, n√£o geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as m√£os presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na l√°grima comum.
Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
J√° n√£o fosse este canto.

(Jos√© Saramago in ‘Provavelmente Alegria‘)

E qual designa a perda maior?

Jos√© de Sousa Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/nov/1922 – Lanzarote, Can√°rias, 18/jun/2010) escritor portugu√™s, Nobel de Literatura de 1998 e Pr√™mio Cam√Ķes de 1995.

Jos√©, do lat. Ioseph < gr. őôŌČŌÉő∑ŌÜIoseph‘ < heb. ◊ô◊ē÷Ļ◊°÷Ķ◊£ ‘Yosef’ (“ele acrescentar√°”). √Č um nome b√≠blico por excel√™ncia, embora o escritor tenha sido ateu, fiel ao seu materialismo comunista. Esp. Jos√©, fr. Joseph, ing. Joseph.

Sousa < Souza. Originalmente top√īnimos de v√°rias localidades da Pen√≠nsula Ib√©rica. Correspondente ao esp. Sosa. Algumas fontes especulam que teria origem no port. ant. sausa (“p√Ęntano salgado”) do lat. salsa, us “salgada,o”.

Saramago (√°r. ō≥ōßōĪŔÖōßŔā ‘sarmaq‘ – mas essa denomina√ß√£o em √°rabe √© aplicada para outras plantas, em especial da fam√≠lia das Amaranthaceae [1,2]), r√°bano-silvestre, nabi√ßo ou cabresto (Raphanus raphanistrum L.), esp√©cie selvagem da qual procedem os r√°banos cultivados. Esp. rabanillo, fr. ravenelle, ing. wild radish. Planta amarga a que os interioranos de Portugal se voltavam em tempos de safras magras. O pai de Jos√© Saramago chamava-se Jos√© de Sousa e – por motivos um tanto discutidos – acrescentou a alcunha de Saramago (algumas fontes dizem que se tratava de um ep√≠teto insultoso; outras, que foi uma autodenomina√ß√£o volunt√°ria). [3]

Em “Pequenas Mem√≥rias”, o nobelista descreve o registro de seu nome:
Que esse Saramago n√£o era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a fam√≠lia era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Goleg√£ o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcion√°rio (chamado ele Silvino) estava b√™bado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai) e que, sob os efeitos do √°lcool e sem que ningu√©m se tivesse apercebido da onom√°stica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lac√īnico Jos√© de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.” [Nota: em Portugal, “apelido” tem o significado de “sobrenome”; no Brasil, √© o mesmo que “alcunha”.]

E ele acrescentou o sal na amargura da vida.

Referências
[1] R.A. Blackelock. 1950. The Rustam Herbarium, ‘Iraq. Part IV.
[2] J. Aquilina. 1973. Maltese Plant Names.
[3] José Saramago. Autobiography.

*Todos os nomes, nome do romance de José Saramago de 1997.

One Cup, three billion hearts…*

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O anjo das pernas tortas
A Fl√°vio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés Рum pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita

Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
√Č pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. √Č pura dan√ßa!

Rio de Janeiro, 1962

(Vinicius de Moraes in ‘Livro de Sonetos‘)

Todos juntos na mesma emoção?

A Fifa estima que a audi√™ncia televisiva acumulada da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha foi de cerca de 26 bilh√Ķes de telespectadores, ou mais de 400 milh√Ķes por jogo. E acredita que esse ser√° o tamanho da audi√™ncia da Copa 2010 na √Āfrica do Sul. [1] Uma audi√™ncia que perde apenas para os Jogos Ol√≠mpicos: em 2008, em Pequim, a audi√™ncia acumulada total estimada foi de 40 bilh√Ķes e 4,7 bilh√Ķes de telespectadores √ļnicos [2, 3]. Fazendo uma extrapola√ß√£o linear, a audi√™ncia da Copa do Mundo de Futebol alcan√ßa um universo de 3,06 bilh√Ķes de pessoas – nenhum esporte isoladamente atrai tanto p√ļblico.

A hist√≥ria oficial (adotada pela Fifa [4]) reconhece tsu’chu (ŤĻīťě† c√Ļj√ļ – c√Ļ ‘chutar’ e j√ļ ‘bola de couro’) como um precursor do futebol. Como o conhecemos, o futebol derivou de um jogo com diversas variantes e que daria origem tamb√©m ao r√ļgbi. (A rigor, futebol √© uma designa√ß√£o gen√©rica de diversos
esportes aparentados.) A maior parte das transforma√ß√Ķes com sucessivos c√≥digos de regras deu-se na Inglaterra. Pelo c√≥digo de Cambridge, introduziram-se o chute a gol, o passe para a frente, a lateral e o impedimento de se correr enquanto a bola era segura pelas m√£os. Sim, o jogo era jogado a maior parte do tempo com as m√£os e ainda assim era chamado de futebol – football de foot ‘p√©’ e ball bola – segundo alguns autores, em oposi√ß√£o a jogos de montaria como polo; era jogado a p√© (isso explicaria que jogos em que o contato com o p√© seja proibido tenham sido denominados football, mas muitas palavras calcadas empregam termos equivalentes a ‘pontap√©, chute’ na composi√ß√£o da palavra). A antiguidade do termo foot-ball, sendo o primeiro registro datado de 1423-1424 [5] (em uma lei que o proibia!), atesta a antiguidade de suas ra√≠zes mesmo na Europa). A forma√ß√£o do The Football Association na Inglaterra com suas regras (as Laws of the Game, ‘Regras do Jogo’ – pouco modificada at√© os dias de hoje), em 1863, demarca a origem do futebol moderno – que √© designado association football, mas, dada sua proemin√™ncia ante √†s demais codifica√ß√Ķes, √© conhecido simplesmente como football e formas variantes. Em uma corruptela com a palavra ‘association‘, surge na Inglaterra, em fins do s√©culo 19, a variante assoccer – em 1899, a variante √© encurtada ainda mais para soccer, enquanto o r√ļgbi era chamado de ‘rugger‘. Mas na Inglaterra o futebol √© designado mesmo como football. (Nos EUA, soccer continua a designar futebol e football √© usado para se referir ao futebol americano. Na Austr√°lia, h√° o futebol australiano que chamam de Australian (rules) football e o futebol √© football mesmo, sendo chamado tamb√©m de soccer [6-7] – mas footbal pode designar diferentes modalidades/codifica√ß√Ķes a depender da regi√£o.)

Na It√°lia o jogo √© denominado de calcio (‘chute’), do lat. calceus (‘cal√ßado’) > calx, cis (‘calcanhar’) desde os tempos da encarna√ß√£o medieval do ancestral do futebol. [O calcio fiorentino ainda √© jogado em festivais (no jogo a bola pode ser impulsionada com as m√£os e com os p√©s, o n√ļmero de jogadores depende do tamanho do campo e h√° dez ju√≠zes). O termo calcio apoia a interpreta√ß√£o predominante de que o significado original de footbal associava a condu√ß√£o da bola com os p√©s.] Na maioria das demais l√≠nguas, ou se emprega por empr√©stimo direto o termo football – a pr√°tica se espalhou pelo mundo por interm√©dio dos trabalhadores ingleses nas diversas col√īnias do Imp√©rio Brit√Ęnico e das companhias transnacionais, ou ocorre uma adapta√ß√£o fon√©tica ou √© traduzido com termos equivalentes para ‘p√©’ e ‘bola’. Os franceses, t√£o ciosos de sua l√≠ngua a ponto de sugerir um logiciel como substituto de software, adotam football sem modifica√ß√Ķes – e uma das revistas mais conceituadas sobre o esporte √© a France Football [8]. Esp. f√ļtbol, ale. Fu√übal (os alem√£es empregam football para se referir ao futebol americano), neerl. Voetball, os japoneses fizeram apenas uma translitera√ß√£o (com as
adapta√ß√Ķes fon√©ticas pr√≥prias): „Éē„ÉÉ„Éą„Éú„Éľ„Éę ‘futtobŇćru’ (ou tamb√©m „āĶ„ÉÉ„āę„Éľ
‘sakkńĀ’, de soccer) – houve uma tradu√ß√£o com o termo ŤĻīÁźÉÔľą„Āó„āÖ„ĀÜ„Āć„āÖ„ĀÜÔľČ ‘shŇękyŇę’ (shŇę ‘chute’ e ‘kyŇę’ bola), mas quase nunca √© usado – o primeiro caracter √© o mesmo de c√Ļj√ļ -; ao contr√°rio do coreano, que utiliza os mesmo caracteres chineses, ou na forma dos caracteres coreanos: ž∂ēÍĶ¨ ‘chukgu’) -, rus. –§—É—ā–Ī–ĺ–Ľ ‘futbol’, ind. ŗ§ęŗ§ľŗ•Āŗ§üŗ§¨ŗ•Čŗ§≤ ‘fu.tb√īl’. No chin√™s, Ť∂≥ÁźÉ ‘z√ļq√≠u’ (z√ļ ‘p√©’ e q√≠u
‘bola’ – repare que o caracter para bola √© o mesmo para o japon√™s, com pron√ļncia pr√≥xima), curiosamente, √© uma tradu√ß√£o de football e n√£o uma varia√ß√£o do c√Ļj√ļ como seria esperado (mas isso pela tradi√ß√£o ter se perdido no tempo e haver sido reintroduzida por meio dos ingleses),o mesmo ocorrendo no grego, com ŌÄőŅőīŌĆŌÉŌÜőĪőĻŌĀőŅ (pod√≥sfero de pous,pod√≥s ‘p√©’ e sfairo ‘bola, esfera’) e n√£o uma varia√ß√£o de ŠľźŌÄőĮŌÉőļŌÖŌĀőŅŌā (ep√≠skyros) ou ŌÜőĪőĻőĹőĮőĹőīőĪ (phen√≠nda) – jogos gregos antigos ligados √† origem do futebol (em sentido amplo). Em finland√™s: jalkapallo (jalka ‘p√©, perna’ + pallo ‘bola’), os islandeses t√™m knattspyrna (kn√∂ttur ‘esfera, bola’ + spyrna ‘chute’) e tamb√©m f√≥tbolti (curiosamente knattspyrna √© uma palavra de g√™nero feminino e f√≥tbolti, masculino). √Ār. ŔÉōĪō© ōßŔĄŔāōĮŔÖ (k√ļrat al-q√°dam) (k√ļrat ‘bola’ + al ‘de’ + q√°dam ‘p√©’), heb. ◊õ◊ď◊ē◊®◊í◊ú (kadur√©gel) (kadur ‘bola’ + r√©gel ‘p√©’). Os croatas, s√©rvios e b√≥snios (que usam a mesma l√≠ngua, mas a chamam de croata, s√©rvio e b√≥snio) dizem nogomet (n√≤ga ‘perna’ + suf. -met ‘si mesmo’) – os b√≥snios e s√©rvios usam tamb√©m fudbal, mas os s√©rvios escrevem em cir√≠lico –Ĺ–ĺ–≥–ĺ–ľ–Ķ—ā ‘nogomet’ e —Ą—É–ī–Ī–į–Ľ ‘fudbal’. Em turco, h√° a forma futbol e tamb√©m ayaktopu (ayak ‘p√©’ + top ‘bola’). Em guarani vakapi ‘pele, couro de vaca’ √© usado para se referir ao jogo.

Para o portugu√™s foram propostas v√°rias alternativas: bal√≠podo (gr. b√°llo ‘lan√ßar’), ludop√©dio (lat. ludus, i ‘jogo’ + gr. ped√≠on, ou ‘planta do p√©’), pedibola (lat. pes,pedis ‘p√©’), podabolismo, bolap√©, pebol… Obviamente nenhum pegou. O futebol na acep√ß√£o moderna adentrou ao nosso l√©xico j√° em 1889 – na forma foot-boll -, em 1899 escrevia-se foot-ball (por isso muitos clubes brasileiros nascidos no in√≠cio do s√©culo 20 t√™m como parte de seu nome oficial essa forma – como o Gr√™mio Foot-ball Porto Alegrense de 1905, Coritiba Foot Ball Club de 1909, o Santos Futebol Clube foi fundado em 1912 com a denomina√ß√£o de Santos Foot-ball Clube) e a forma futebol consolidou-se em 1933 (o S√£o Paulo Futebol Clube √© de 1935). [5]

Tr√™s bilh√Ķes de apaixonados incorrig√≠veis. E possivelmente outro tanto de ressentidos figadais: mas que talvez tenham um pouco de futebolite n√£o-diagnosticada – ao menos entre aqueles que desejariam praticar o c√Ļj√ļ com o couro dos que assopram entusiasticamente suas vuvuzelas.

[1] Gleeson. No TV audience increase expected for 2010 World Cup. Reuters.

[2] Beijing Olympic Broadcasting. Beijing 2008.
[3] The final tally… Nielsen.
[4] Fifa History of Football. Fifa.
[5] Houaiss. Dicion√°rio eletr√īnico Houaiss da l√≠ngua portuguesa. V. 1.0.5a.
[6] Australian Football. Australian Institute of Sport.
[7] Football. Australian Institute of Sport.
[8] France Football. L’Equipe.

*”Uma Copa, tr√™s bilh√Ķes de cora√ß√Ķes”: Refer√™ncia mashup de um clipe de filme altamente n√£o recomend√°vel e de um document√°rio oficial – “Two billion hearts” (“Todos os cora√ß√Ķes do mundo”) – sobre a Copa 1994, nos EUA, (a audi√™ncia √ļnica estimada na √©poca era de dois bilh√Ķes de pessoas), dirigido por Murilo Salles.

Que se faça a luz!

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Por Joey Salgado

N√£o h√° quem nunca tenha se impressionado com vaga-lumes perambulando noite adentro. Aquelas gracinhas luminosas piscando feito luzes de natal, parecem fa√≠scas geradas espontaneamente no ar, como inclusive observou Arist√≥teles e seus asseclas pouco mais de um par de milhares de anos atr√°s.[1] Para a mente mais inquisidora, seguinte √† observa√ß√£o do fato de um inseto curiosamente poder emitir luz, talvez venha esse questionamento: como ele consegue fazer isso? De fato, o processo √© um tanto complicado, envolvendo substratos espec√≠ficos e cat√°lise por enzimas adequadas, al√©m de um ou outro metab√≥lito biol√≥gico.
Expandindo-se o n√ļmero de dados oferecidos para aprecia√ß√£o de voc√™s, leitores, cito o exemplo dos lightsticks, aqueles brinquedinhos de festas de casamento que geralmente s√£o distribu√≠dos quando a banda j√° come√ßou a tocar “Bal√£o M√°gico” e coisas do g√™nero. Como o n√≠vel alco√≥lico no sangue geralmente est√° alto nessa altura do campeonato, talvez isso n√£o desperte tanto o interesse e curiosidade das pessoas quanto vaga-lumes, geralmente encontrados em ambientes mais “verdes” e “limpos”. Mas lightsticks tem mais em comum com esses insetos do que outros insetos tem com vaga-lumes, por incr√≠vel que pare√ßa.
vagalumes_lightsticks.png
Nesse ponto, talvez seja importante se definir alguns termos. Uma rea√ß√£o qu√≠mica que emita luz como um dos seus produtos de rea√ß√£o √© dita quimiluminescente, como definido por Wiedemman em 1888.[2] Se o mesmo processo ocorre em um organismo vivo, e n√£o dentro de uma vidraria de laborat√≥rio, refere-se ao mesmo por bioluminesc√™ncia. Interessante ressaltar que Wiedemman, na mesma publica√ß√£o,[2] diferenciou a quimiluminesc√™ncia, fen√īmeno de “luz fria”, da incandesc√™ncia, que √© a emiss√£o de luz por certos materiais mediante aquecimento. A incandesc√™ncia, como bem se sabe, resulta do efeito fotol√©trico, estudado intensamente por Planck e racionalizado em termos matem√°ticos por Einstein, o que daria o pr√™mio Nobel de F√≠sica para o √ļltimo em 1921. A quimi e bioluminesc√™ncias tamb√©m s√£o diferentes em seus princ√≠pios de funcionamento da triboluminesc√™ncia, que √© a emiss√£o de luz por cristais macerados mec√Ęnicamente. Em um quarto escuro, com a vis√£o bem acostumada para a falta de luminosidade, √© poss√≠vel se observar a emiss√£o de luz a partir de cristais de a√ß√ļcar de cozinha comum, quando submetidos a esmagamento (tentem, √© uma √≥tima brincadeira!). 
A semelhan√ßa entre quimi e bioluminesc√™ncias vem, principalmente, pelo fato de que em ambas h√° a forma√ß√£o de um intermedi√°rio perox√≠dico c√≠clico org√Ęnico durante a rea√ß√£o qu√≠mica. Exemplifico esse intermedi√°rio de forma geral logo abaixo. Notem que o mesmo √© uma cadeia fechada (c√≠clica), no formato de um anel de quatro √°tomos (dois de carbono e dois de oxig√™nio) e que possui uma liga√ß√£o perox√≠dica (que √© essa liga√ß√£o qu√≠mica entre dois √°tomos de oxig√™nio, O-O). Nesse exemplo, os carbonos est√£o fazendo apenas duas liga√ß√Ķes cada um (para fins de simplifica√ß√£o) sendo que cada um possui mais duas posi√ß√Ķes livre para se ligar a outros √°tomos.
intermediário_peroxídico.png
Na rea√ß√£o bioluminescente de vaga-lumes, uma mol√©cula chamada luciferina, na presen√ßa de ATP (que √© uma “fonte de energia dispon√≠vel” em seres vivos), oxig√™nio molecular (O2) e de uma enzima chamada luciferase, forma exatamente esse intermedi√°rio perox√≠dico (notem o mesmo, destacado em vermelho, dentro de uma estrutura molecular mais complexa) (Figura 1).[3,4] Tal intermedi√°rio √© formado em v√°rias etapas e ent√£o decomp√Ķem para formar uma mol√©cula de oxiluciferina no ‘estado eletr√īnico excitado’ (representado pelo s√≠mbolo S1). Um ‘estado eletr√īnico excitado’ pode ser entendido como um estado de maior energia da mol√©cula, que est√° pronto para perder essa energia em excesso por emiss√£o de calor ou de luz. No caso da oxiluciferina, a mesma perde essa energia emitindo luz, no final do processo de bioluminesc√™ncia (Figura 1).[3] A rea√ß√£o quimiluminescente que ocorre dentro de lighsticks tamb√©m leva a forma√ß√£o de um intermedi√°rio contendo esse anel perox√≠dico (Figura 2). Tal mecanismo descrito na Figura 2 foi formulado √† medida que uma s√©rie de mol√©culas chamadas 1,2-dioxetanonas foram sintetizadas e estudadas em laborat√≥rio, demonstrando que as mesmas decomp√Ķem emitindo luz, quando da adi√ß√£o de um catalisador comum a essas duas rea√ß√Ķes (Figura 3, os grupos ligados ao anel perox√≠dico pelos carbonos pode mudar, sendo que nesse caso exemplificou-se com a mol√©cula contedo dois grupos metila, -CH3).[5] Utilizando os resultados obtidos no estudo da rea√ß√£o envolvida em lighsticks (chamada de per√≥xi-oxalato) e 1,2-dioxetanonas, chegou-se √† s√≠ntese e posterior estudo de mol√©culas chamadas 1,2-dioxetanos-aril-substitu√≠dos, que s√£o capazes de decompor emitindo luz (Figura 4),[5] por uma via mecan√≠stica muito parecida com a da bioluminesc√™ncia de vaga-lumes (Figura 1) (como sempre, notem a forma√ß√£o do anel perox√≠dico destacado em vermelho). Tanto a bioluminesc√™ncia de vaga-lumes (Figura 1) quanto a decomposi√ß√£o de 1,2-dioxetanos-aril-substitu√≠dos (Figura 4) possuem efici√™ncias de emiss√£o de luz extremamente altas, o que faz desses 1,2-dioxetanos importantes ferramentas anal√≠ticas.[5]
luciferina.bmp
– Figura 1 –

peroxioxalato.bmp
– Figura 2 –

dioxetanona.bmp
 – Figura 3 –

dioxetanoarilico.bmp
– Figura 4 –

Agora vem o pulo do gato: de fato, foi o estudo de tais 1,2-dioxetanos-aril-substitu√≠dos que permitiu que se entendesse melhor o funcionamento da bioluminesc√™ncia de vaga-lumes, inclusive, melhorando a compreens√£o do processo que leva √† forma√ß√£o do ‘estado excitado’ emissor de luz. E para tal, foi necess√°rio antes disso estudar a rea√ß√£o de 1,2-dioxetanonas e a rea√ß√£o per√≥xi-oxalato, que ocorre em lightsticks. Tanto o preparo de 1,2-dioxetanonas e 1,2-dioxetanos-aril-substitu√≠dos quanto o estudo dos mecanismos de decomposi√ß√£o dessas mol√©culas e da rea√ß√£o per√≥xi-oxalaton√£o √© trivial e fez (e ainda faz…) muitos alunos de p√≥s-gradua√ß√£o e pesquisadores arrancarem os cabelos. A s√≠ntese de mol√©culas perox√≠dicas isol√°veis, ou seja, que podem ser sintetizadas, purificadas, identificadas por t√©cnicas espectroc√≥picas adequadas, como 1,2-dioxetanonas (Figura 3) e 1,2-dioxetanos-aril-substitu√≠dos (Figura 4) √© muito complicada, levando de tr√™s a quatro anos at√© que se tenha sucesso em sua prepara√ß√£o. Um processo complicado e trabalhoso para, ao final, “destruir” a subst√Ęncia preparada para v√™-la emitindo luz. A recompensa para todo esse esfor√ßo √©, obviamente, gerar conhecimento que sustente a proposta para o funcionamento de um processo biol√≥gico intrigante e, porque n√£o, elegante.
Notem como, algumas vezes, antes de se entender como certas coisas ocorrem em organismos biol√≥gicos, √© necess√°rio ficar um bom tempo na bancada do laborat√≥rio de qu√≠mica. √Č necess√°rio se usar bem o tubo de ensaio antes de se trazer certos fatos √† luz, rs.
Fonte das fotos: vaga-lume e lightsticks.
Referências e notas:
[1] Campbel, A. K.; Chemiluminescence: Principles and Applications in Biology and Medicine; Elis Howard Ltd.: Chichester, 1988.
[2] Wiedemann, E.; Ann. Phys. Chem. 1888, 24, 446. (Em alem√£o)
[3] Shimomura, O.; Chemical and Biological Generation of Excited States; Adam, W.; Cilento, G., eds.; Academic Press Inc.: New York, 1982.
[4] Interessante notar que, em qu√≠mica org√Ęnica, geralmente n√£o se representa um √°tomo de carbono pelo seu s√≠mbolo “C” em estruturas. Logo, em cada “esquina” formada por liga√ß√Ķes qu√≠micas (no encontro entre “arestas”, onde n√£o h√° s√≠mbolo algum), deve-se enxergar a presen√ßa de um √°tomo de carbono, com seu respectivo n√ļmero de hidrog√™nio, de forma a completar suas quatro liga√ß√Ķes de ‘direito’.
[5] Baader, W. J.; Bastos, E. L.; Stevani, C. V.; The Chemistry of Peroxides, Rappoport, Z., ed.; WIley & Sons: Chichester, 2005.
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Em tempo, eu Fernando “Joey Salgado” Heering Bartoloni sou qu√≠mico, atualmente no doutorado, estudando alguns sistemas org√Ęnicos quimiluminescentes. E estou mais careca a cada ano. N√£o tenho palavras para expressar minha felicidade por estar participando do Tubo de Ensaios, nessa fant√°stica oportunidade que me foi dada pelo SBBr. Obrigado.

Voc√™ me conhece…

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O lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manh√£.
S√£o muitas, eu pouco.
Algumas, t√£o fortes
como o javali.
N√£o me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encant√°-las
Mas l√ļcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e s√ļbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
(Carlos Drummond de Andrade in ‘Poesia Completa‘)

Disclaimer necess√°rio:

N√£o sou fil√≥logo, n√£o tenho forma√ß√£o em Letras, n√£o trabalho na √°rea. Sou apenas um leigo curioso a respeito da origem e significado das palavras, bem como sua evolu√ß√£o e rela√ß√Ķes – poder√° notar que esse vi√©s √© totalmente atribu√≠vel √† minha forma√ß√£o. Sim, sou formado em Ci√™ncias Biol√≥gicas. Mas antes que bradem: “mais um!”, quero acalmar a todos dizendo que n√£o pretendo aqui, neste Scienceblogs Brasil e sua comunidade, onde tenho a partir de agora a honra de blogar, criar e manter um blogue sobre Biologia. O SBBr est√° muito bem servido de uma equipa incrivelmente capacitada de profissionais da √°rea. At√© por isso, quando me inscrevi no concurso para novos blogues, procurei apresentar um projeto distinto: um que dissesse respeito √† etimologia de express√Ķes, n√£o necessariamente cient√≠ficas, usadas em nosso dia-a-dia ou em jarg√Ķes.

Pretendo fazer uma pesquisa decente para embasar meus textos, mas n√£o pretendo infalibilidade. Ao contr√°rio, conclamo aos leitores que sejam cr√≠ticos em rela√ß√£o √†s informa√ß√Ķes que eu apresentar neste espa√ßo (ou em qualquer outro), ali√°s, como deve ser em rela√ß√£o a qualquer outra fonte de informa√ß√£o.

Com este alerta e agradecendo imensamente √† equipa do SBBr pela oportunidade, al√©m de dar os parab√©ns aos demais novos sciblings (Amigo de Montaigne, Fernanda Poletto/Bala M√°gica, Roberto Berlinck/Quiprona – a esta altura j√° bem estabelecidos) e aos colegas tuboensa√≠stas: Aninha Arantes e ‘drn1978’, e vamos ent√£o √† primeira postagem.

Eu te conheço?

őďőĹŠŅ∂őłőĻ ŌÉőĶőĪŌÖŌĄŌĆőĹ (‘gnŇćthi seauton‘), conhece a ti mesmo, estaria inscrito sobre o port√£o de entrada do Templo de Apolo em Delfos[1]. Sua tradu√ß√£o para o latim “nosce te ipsum” inspirou incont√°veis obras. Do poema do poeta ingl√™s John Davies ,”Nosce teipsum” (“teipsum” junto), de 1599 [2], √† m√ļsica de uma improv√°vel banda italiana neo-cl√°ssica com toques de folk, Ataraxia, “Nosce te ipsum” (“te ipsum” separado), faixa do √°lbum “Ad perpetuam rei memoriam” [3].

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