É possível o estudo científico do pensamento e da criatividade? – Parte I

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Por Ana Arantes, dO Divã de Einstein

“We can built a world in wich men and women will be better poets, better artists, better composers, better novelists, better scholars, better scientists – in a word, better people. We can, in short, have a better world”

B. F. Skinner, 1971

A Lecture on “Having” a Poem

    Tô meio nervosa com essa minha estréia aqui no Tubo de Ensaios e no ScienceBlogsBr…

    Pensei em bilhões e bilhões de assuntos para escrever, mas o povo aqui costuma ser sério, compenetrado, científico… e eu não escrevo assim nO Divã de Einstein – ele é sério e científico, mas não e lá muito compenetrado. Então, depois de muito trabalho, escrevi um ensaio sobre um tema que me interessa muito e sob uma perspectiva que eu conheço quase-muito-bem, que é a Análise do Comportamento.

    A idéia é discutir, do ponto de vista de B.F. Skinner, como a Ciência do Comportamento lida com os temas do pensamento e da criatividade e quais as implicações desses pressupostos para a construção de tecnologias para a compreensão, a pesquisa e o ensino da criatividade.

    Ao se discutir as noções de pensamento e criatividade em Skinner devemos principalmente levar em conta que esses conceitos, retirados do vocabulário mentalista, serão analisados por ele em termos operacionais. Isto implica em, primeiramente, qualificar o significado de tais termos no uso tanto por leigos como por estudiosos e, posteriormente, descrever em que situações palavras como “pensamento” e “criatividade” são empregadas. A estratégia empregada, então, é a de desconstrução dos significados de pensar em diversos tipos de comportamentos diferentes, analisando-os em termos das variáveis das quais são funções. Nesse processo, Skinner elimina os conceitos cognitivistas e mentalistas (processos mediacionais) através da descrição e da explicação do pensar enquanto comportamento.

    Partindo do conceito de mente, o autor faz reflexões críticas acerca dos problemas do dualismo, da introspecção e do pensar como armazenamento de informações. Sua crítica parte do reconhecimento de que os processos ditos mentais pressupõem variáveis não manipuláveis e, portanto, são apenas descritivos, não preenchendo os quesitos formadores de seu conceito de ciência, que são a manipulação, o controle e a previsão dos comportamentos. Outra crítica as psicologias cognitivistas e mentalistas é feita no que diz respeito ao método de investigação usado para se observar os fenômenos mentais, a introspecção, que Skinner renega enquanto método científico legítimo.

    Durante sua obra, Skinner desenvolve duas linhas principais de investigação para analisar o pensamento e o comportamento criativo. A primeira delas parte do ponto de vista evolutivo, tentando compreender as mudanças ambientais que levaram ao desenvolvimento desses comportamentos e a sua importância para a adaptação do homem ao ambiente em que está inserido. A segunda linha de raciocínio é empregada na estratégia de cobrir a explicação funcional dos comportamentos identificados como pensamento, analisando-os sob o referencial de seus estímulos controladores, das variáveis das quais são função.

    Divido aqui o texto em duas partes, iniciando com as críticas do autor ao modelo mentalista de estudo do pensamento e com a proposição do modelo comportamental para o estudo do tema. No posts seguintes, tratarei das implicações do modelo proposto por Skinner e do desenvolvimento da Ciência do Comportamento de Pensar.

1. Críticas ao modelo mentalista

     A crítica de Skinner as linhas psicológicas mentalistas começa com a crítica à sua implicação mais clara: o dualismo. Ele parte pressuposto epistemológico de que a ciência do comportamento, se devidamente incluída no campo das ciências, não pode lidar com um objeto insubstancial, tal como a mente cartesiana. Um dos problemas apontados por Skinner seria o de não poder manipular as variáveis de modo a produzir uma tecnologia útil, pois “se pudermos observar cuidadosamente o comportamento humano, de um ponto de vista objetivo e chegar a compreendê-lo pelo que é, poderemos ser capazes de adotar um curso mais sensato de ação” (Skinner, 1953).

     Não se trata de uma questão de facilidade, a complexidade dos processos ditos mentais não se reduz quando o objeto é o comportamento e não a mente. “O comportamento é uma matéria difícil, não porque seja inacessível, mas porque é extremamente complexo. O comportamento (…) é mutável, fluido e evanescente, e por esta razão faz grandes exigências técnicas à engenhosidade e energia do cientista” (Skinner, 1953). A noção de mente é problemática para uma ciência do comportamento porque a mente não é parte da natureza, não tem nenhuma propriedade de um objeto natural. É impossível observar os processos mentais interiores; a introspecção não pode ser levada a sério enquanto método científico pela razão última de que não temos órgãos sensoriais capazes de perceber os processos internos. “Nós temos mais informações sobre nós mesmo do que sobre outras pessoas, mas é apenas o mesmo tipo de informação – sobre estímulos, respostas e conseqüências, alguns destes internos e, neste sentido, privados. Nós não temos enervações sensoriais vindas das partes do cérebro que se engajam em ‘processos cognitivos'” (Skinner, 1986).

     Mesmo que abandonemos a noção de mente e a substituíssemos pela idéia de cérebro (solução muito adotada para se eliminar o mentalismo), voltaríamos ao mesmo ponto. O que pode ser observado pelos modernos aparelhos de imagem cerebral (PETscan e tomógrafos) são áreas cerebrais em funcionamento, mas o próprio funcionamento, os processos realizados pelo cérebro não são observáveis. “Vemos os materiais que processamos e o produto, mas não a produção” (Skinner, 1989). 

     Esse argumento não implica na negação das neurociências e de sua utilidade para a explicação completa do comportamento humano complexo, mas apenas na distinção clara dos limites da ciência do comportamento. “Os analistas do comportamento deixam o que está dentro da caixa preta para aqueles que dispõem dos instrumentos e métodos necessários ao seu estudo apropriado. Existem duas falhas inevitáveis em qualquer ponto de vista comportamental: uma entre ação estimuladora do ambiente e a resposta do organismo, e a outra entre as conseqüências e a mudança resultante no comportamento. Ao fazê-lo [o estudo], completa a descrição; não fornece uma explicação diferente. O comportamento humano inevitavelmente será explicado, e só poderá ser explicado através da ação conjunta da etologia, da ciência do cérebro e da análise do comportamento” (Skinner, 1989).

     A objeção behaviorista ao mentalismo, expressa principalmente na rejeição do dualismo, se manifesta na incapacidade que este demonstra de obter uma resposta a pergunta sobre como uma substância imaterial (não natural) pode afetar uma substância material (coisa natural). Chega-se, portanto, a inferência de que as causas ditas mentais do comportamento são causas fictícias.

     A objeção central de Skinner ao mentalismo é, no entanto, a de que este não consegue explicar aquilo a que se propõe. Parte dessa insuficiência se deve ao método introspectivo, como dito anteriormente e parte a circularidade das explicações propostas.  As explicações mentalista inferem uma entidade fictícia a partir do comportamento observável então afirmam que a entidade inferida é a causa do comportamento. Em razão das ficções mentais parecerem explicações, elas tendem a impedir a investigação das origens ambientais do comportamento, que levariam a uma explicação científica satisfatória. “Como a análise experimental do comportamento tem mostrado, o comportamento é modelado e mantido por suas conseqüências, mas apenas pelas conseqüências que permanecem no passado. Nós fazemos o que fazemos por causa do que aconteceu, e não do que acontecerá. Infelizmente o que aconteceu deixa poucos traços observáveis, e a razão pela qual fazemos o que fazemos, bem como o quão dispostos estamos a fazer algo, estão, conseqüentemente, muito além do alcance da introspecção” (Skinner, 1989).

     Uma dessas ficções explicativas mais combatidas por Skinner é a da idéia cognitivista do pensar como armazenamento de informações. Segundo essa visão, para responder novamente a um determinado estímulo, deveria haver
uma memória, ou uma espécie de cópia, armazenada em algum lugar da mente ou do cérebro, que quando acessada tornaria possível a repetição de um comportamento. Segundo Skinner, se usarmos a contingência de três termos como modelo explicativo para entendermos qualquer emissão de comportamento, não há necessidade de apelarmos a explicações mediacionais internas como a do armazenamento de informações. As explicações das relações entre o organismo e o ambiente são, portanto, suficientes para a total compreensão funcional. Para ele: “a objeção dos estados interiores não é a de que eles não existem, mas a de que não são relevantes para uma análise funcional” (Skinner, 1953).

      O que se coloca para Skinner é a questão da modificação produzida no organismo quando da emissão de um comportamento. Do mesmo modo que a teoria da seleção de Darwin, a causalidade de Skinner exclui qualquer suposição de que o comportamento possa ocorrer a partir de um projeto futuro. São as conseqüências ocorridas no passado que determinam a probabilidade de ocorrência do comportamento em uma situação futura. Não por que essas conseqüências são armazenadas ou memorizadas para serem recuperadas e orientarem uma ação futura, mas por que as ocorrências passadas modificam o organismo, i. e, alteram sua forma de se relacionar com o ambiente. Com esta noção de causalidade, Skinner combate a noção de um agente iniciador (das concepções mentalistas) e suprime a necessidade de procurar instâncias armazenadoras de informação ou memória. Nesse sentido, “as contingências que afetam um organismo não são armazenadas por ele. Elas nunca estão dentro dele; elas simplesmente o modificam. Daí resulta que o organismo se comporta de maneiras especiais sob tipos especiais de controle por estímulos. Os estímulos futuros serão eficazes se se assemelharem aos que foram parte de contingências anteriores; um estímulo acidental pode nos fazer lembrar uma pessoa, um lugar ou um acontecimento se tal estímulo tiver alguma semelhança com essa pessoa, lugar ou acontecimento. Ser lembrado significa ser tornado capaz de responder” (Skinner, 1974).

2. Pensamento como comportamento

     No entender de Skinner, o que comumente é identificado como o processo cognitivo superior do pensamento pode ser descrito como uma série de comportamentos ou processos comportamentais que não são públicos, mas cujos produtos finais, ou os estímulos controladores, podem ser observados ou inferidos de eventos observáveis. “Não se trata de nenhum processo misterioso responsável pelo comportamento, mas do próprio comportamento em toda a complexidade de suas relações de controle, relativas tanto ao homem que se comporta como ao meio em que ele vive” (Skinner, 1957).
    

     No intuito de explicar as variáveis que controlam diversos tipos de comportamento diferentes que podem ser chamados de pensamentos, Skinner faz uma espécie de catalogação desses possíveis comportamentos (ou processos comportamentais), analisando funcionalmente cada um deles e especulando sobre sua importância adaptativa e seu possível caminho evolutivo. É importante notar que com isso ele pretende identificar o termo “pensar” com comportamento operante, ou seja, sujeita-lo apenas as leis que regem o comportamento operante, sem que para explica-lo seja necessário recorrer a nenhum tipo de processo mediacional ou cognitivo.

     Vale ainda ressaltar que para cumprir seu projeto de explicar os comportamentos de pensar como tal, o primeiro passo foi substituir o substantivo “pensamento” pelo verbo “pensar”, eliminando assim a idéia do pensamento como uma coisa a ser descrita e levantando a questão do pensar enquanto uma ação direta no mundo, um comportamento que opera modificações no ambiente que o produziu, ou seja, um operante. Com isso, ele elimina ainda o peso mentalista do termo pensamento enquanto construto teórico cognitivista que nomeia um processo mental. Assim, “pensar significa muitas vezes o mesmo que comportamento. Dizemos, nesse sentido, que se pensa matematicamente, musicalmente, politicamente, verbalmente ou não verbalmente e assim por diante. Em um sentido ligeiramente diverso, significa comportar-se em relação a estímulos. (…) Pensar também é identificado com certos processos comportamentais, como aprender, discriminar, generalizar e abstrair. Esses processos não são comportamento, mas sim modificações no comportamento. Não há ação, nem mental, nem qualquer outra” (Skinner, 1968).

     Uma das situações mais comuns em que se emprega o termo “pensar” é a situação de se resolver problemas. Ter um problema é estar diante de uma situação em que uma resposta apresenta certa probabilidade de ser emitida, mas por falta de uma estimulação discriminativa adequada isso não ocorre. Portanto, o processo de resolução de problema pode ser considerado como constituído, basicamente, por respostas manipulativas e discriminativas: diante de um problema manipulamos variáveis a fim de produzir estímulos discriminativos que permitam a emissão da resposta discriminativa consumatória (Lopes & Abib, 2002). Ou seja, para Skinner o problema é uma questão para a qual não há resposta até o momento e sua solução é o comportamento responsável pela mudança da situação. O comportamento de pensar enquanto “resolver um problema” seria um encadeamento de comportamentos que, para o indivíduo que “pensa”, ocorreria para mudar a si mesmo ou a situação até que ocorra uma resposta (solução do problema). “Resolver um problema é um evento comportamental” (Skinner, 1963).

      Skinner cita várias formas segundo as quais nos comportamos no sentido de gerar comportamentos que levariam à solução de uma determinada situação. Para cada uma dessas formas de comportamento usa-se comumente a expressão “pensar”: (1) quando se faz algo que torna possível outro comportamento; (2) quando nenhum estímulo efetivo está disponível e as pessoas expõem algum; (3) quando não se pode descobrir um estímulo, às vezes deixa-se um outro acessível de reserva até que a resposta ocorra; (4) quando junta-se várias coisas diferentes para possibilitar uma resposta única; (5) faz-se o inverso quando separa-se coisas de modo que se possa lidar mais facilmente com elas em outra ocasião; (6) marca-se coisas de modo que se possa nota-las mais facilmente em outra ocasião; (7) compara-se coisas, colocando-as “lado a lado” de modo que se possa ver mais facilmente se elas combinam entre si; (8) especula-se sobre as coisas, no sentido de que se olha para elas de diferentes ângulos e (9) depois de “pensar” por algum tempo chega-se a uma decisão (a própria palavra deriva da expressão “por fim a alguma coisa”) (Skinner, 1989).

Referências:

Baum, W. (1994). Compreender o behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.

Lopes, C. E. & Abib, J. A. D. (2002). Teoria da percepção no Behaviorismo Radical. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 18, 2. 129-137.

Skinner, B. F. (1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1963). Contingences of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. New York: Appleton-Century- Crofts.

Skinner, B. F. (1970). Creating the creative artist. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972). New Yark: Appleton- Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1971a). A lecture on “Having” a poem. Em B. F. Skinner (Org.). Cumulative records: A selection of papers – Third edition (1972) . New Yark: Appleton- Centur
y-Crofts.

Skinner, B. F. (1971b). Beyond freedom and dignity. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Applenton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1978). The shaping of phylogenic behavior. Em B. F. Skinner. Reflections on behaviorism and society. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

Skinner, B. F. (1986). Upon Further Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

Skinner, B. F. (1989). Questões recentes na análise comportamental. Campinas: Papirus.

Tourinho, E. Z.; Teixeira, E. R. e Maciel, J. M. (2000). Fronteiras entre análise do comportamento e fisiologia: Skinner e a temática dos eventos privados. Psicologia: Reflexão e Crítica. 13, 3. 425-434.

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Assim (não) é, (nem) se lhe parece…

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Aſsi como em todas couſas humanas há continua
mudança, aſsi he tambem nas lingoagêns.

(Dvarte Nvnez de Lião, 1606)

Preconceito é um pré-conceito?

Philip Durkin, etimólogo-chefe da Oxford English Dictionary, define assim “falácia etimológica”:

“[…] is the idea that knowing about a word’s origin, and particularly its original meaning, gives us the key to understanding its present-day use.” [“[…] é a ideia de que conhecer a origem das palavras, e particularmente seu significado original, dá a nós a chave para entender seu uso atual.”], e segue: “Very frequently, this is combined with an assertion about how a word ought to be used today: certain uses are privileged as ‘etymological’ and hence ‘valid’, while others are regarded as ‘unetymological’ and hence ‘invalid’ (or at least ‘less valid’).” [“Muito frequentemente, isso é combinado com uma afirmação sobre como uma palavra deve ser usada hoje em dia: certos usos são privilegiados como ‘etimológicos’ e, portanto, ‘válidos’, enquanto outros são considerados como ‘não-etimológicos’ e, portanto, ‘inválidos’ (ou ao menos, ‘menos válidos’).“] [1, p. 27.]

Um exemplo de falácia etimológica é a própria falácia etimológica. Se fizermos a etimologia da palavra ‘etimologia’, verificamos que ela vêm do grego ετυμολογίαetumología‘, de έτυμοsétumos‘ (‘verdade, verdadeiro’) e λόγοs ‘lógos’ (‘palavra, discurso’), para os gregos antigos era mesmo o ‘estudo dos significados e formas verdadeiros das palavras’. Mas hoje entende-se a etimologia somente como o ‘estudo da origem e evolução das palavras’.

Outro exemplo muito frequente é a palavra ‘preconceito’. No meio da discussão sobre, digamos, preconceito racial, alguém saca: “Mas preconceito é *pré*-conceito, eu tenho é *pós*-conceito”. Em sua origem preconceito vem mesmo de ‘pre’+’conceito’, um conceito formulado anteriormente. Mas repare que, de um lado isso não pode ser levado muito a sério: não costuma ser viável se ter um conceito formulado a respeito de algo do qual jamais se ouviu falar antes. De outro, o significado em ciências sociais é diferente, não depende de uma preconcepção, trata-se tão somente de uma ‘visão, geralmente negativa, injustificada a respeito de um indivíduo por pertencer a um determinado grupo social’ [2], não depende de haver ou não um contato prévio na formulação dessa opinião.

Ou podemos pensar na palavra ‘prejuízo’. Seu sentido mais comum no português contemporâneo é de dano, perda. Ninguém dirá que ‘arcar com o prejuízo’ signifique pagar por ter sido preconceituoso. Salvo em inglês, em que ‘prejudice‘ tem o mesmo sentido de ‘preconceito‘.

A lista é extensa, quase inesgotável. ‘Formidável’ vem do latim formidabilis ‘terrível’ (> formidare ‘temer’ > formido ‘terror, fantasma’) e, em geral, é algo positivamente admirável (ainda que haja uma acepção que conserva o sentido original). Mesmo ‘terrível’, com frequência é usado em um sentido positivo: “Ele é terrível com a bola” pode muito bem significar que o jogador é muito habilidoso e não um perna-de-pau. Ou ‘sinistro’ que também tem sido usado em um sentido positivo. Esses exemplos nos mostram não apenas que as palavras mudam de sentido – sem que a derivação do sentido original signifique que os novos sentidos sejam errados -, mas que é um fenômeno que não está restrito a um passado remoto. Podemos organizar esses exemplos em grau de modificação de sentido – adquirindo um sentido de certo modo oposto ao original – do já consolidado ao ainda em processo incipiente: formidável, assombroso, espantoso, terrível, sinistro. (Aparentemente há uma necessidade vocabular de expressar a admiração em nível hiperbólico – algo que de tão bom chega a assustar – e à medida em que a expressão anterior se consolida no novo uso, perde essa vivacidade, então uma nova expressão ainda com significado de ‘algo que mete medo’ é cooptada. Edmund Burke, por certo, acharia isso sublime [3, 4].)

As palavras também podem derivar de sentido para o lado negativo. ‘Ordinário’, inicialmente, é simplesmente ‘algo comum, dentro da ordem natural das coisas’, ‘medíocre’, também originalmente, é apenas ‘algo mediano’ – mas a carga negativa atualmente é a mais comum: “Seu ordinário” é uma ofensa e “desempenho medíocre” é uma avaliação ruim.

Ou quando alguém diz: “fui de carro até o trabalho”, ninguém imagina que a pessoa foi de carruagem. “Carro” vem do lat. carrus ‘veículo romano, ou celta, de duas rodas, puxado a cavalo, usado em batalhas’ (que por sua vez deve ter vindo do celta ou do gaulês ‘karros‘ < proto I.E. *kers- “correr”). O sentido de veículo de rodas a tração animal ainda é mantido em certos usos: como “carro de boi”, e o sentido mais geral de veículo sobre rodas é empregado, por exemplo, em empresas de ônibus, que referem aos veículos como carros. Naturalmente, não faz sentido afirmar que carro não possa ser usado como sinônimo de automóvel de passageiro.

“Simpósio” vem do grego συμπόσιον,ou sumpósion,ou (“banquete, festim” < συμπίνω sumpínō “beber junto” < συμ sum “junto” e πίνω “beber”). Mas um simpósio técnico não precisa ser um festim (ainda que, em geral, haja uma confraternização em um bar, isso não faz parte do programa) – um simpósio de combate e prevenção do alcoolismo não é um oxímoro.

“Escravo” vem do lat. sclavus, slavus (do gr. biz. ‘sklábos‘, ‘sklabénós‘ < eslov. ‘Slověninŭ‘ < ‘Slověnci‘ “povo famoso” < proto-I.E. *kleu- ‘ouvir’)  referências aos Sclāvus
‘eslavos’  (principais povos escravizados na Europa Central durante a
Idade Média por germânicos e bizantinos). Ninguém vai imaginar que não se possa aplicar o termo para se referir aos cativos de origem africana nas Américas.

Se as origens não necessariamente têm a ver com os significados atuais das palavras, para que serve a etimologia afinal de contas? E o que legitima ou não o uso com este ou aquele significado? Abordarei isso em oportunidades futuras.

Mas se alguém então lhe disser que não é preconceituosa em relação a um grupo de pessoas porque ela tem um pós-conceito, diga-lhe: assim não é, nem se lhe parece.

Referências:
[1] Philip Durkin. The Oxford Guide to Etymology, 2009. Nova Iorque: Oxford University Press. 347 pp.
[2] Tommy Boone. Dealing with prejudice.
[3] Edmund Burke. A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful.
[4] Andrea Peixoto. Sublime.

Uma luz dentro de células

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Por Joey Salgado


A Fernanda Poletto, do excelente Bala Mágica, publicou recentemente um texto falando sobre Armas Mágicas (quanta mágica por aqui…), o qual recomendo fortemente a leitura. O conceito de Armas Mágicas se resume a uma metodologia capaz de promover a internalização de fármacos em tumores, através da utilização de peptídeos chamados de iRGD. Os iRGD “guiam” o fármaco até o tumor e “abrem a porta” para que o mesmo entre na célula tumoral, aumentando assim a especificidade de sua ação. 

Achei sensacional a utilização desses peptídeos iRGD para o carregamento do fármaco e, por conta disso, recordei-me de um trabalho relativamente recente (2006 tá novo ainda?), onde uma certa sequência de peptídeos mostrou-se fundamental para a proposta de uma nova técnica. Em 2006 (quatro anos… tá novo, foi a menos de uma Copa do Mundo atrás…), Jones e colaboradores, da Universidade de Standford (sempre eles…) demonstraram a possibilidade de se utilizar oligopeptídeos contendo oito resíduos de arginina como cross-coupling peptides (ou CCP) de moléculas conjugadas com luciferina (lembra dela?). O princípio da técnica é demonstrado na figura abaixo.[1]

luciferin_conjugates.gif

Vamos por partes. Oligopeptídeos de arginina, principalmente esses contendo oito unidades desse aminoácido, são chamados de cross-coupling peptides justamente por possuírem a capacidade de permearem através da membrana lipofílica de células, chegando ao citoplasma da mesma. A subunidade em verde da molécula na figura acima diz respeito à sequência de CPPs. Pelo fato de permearem por membranas lipofílicas, ao mesmo tempo que são solúveis em meio aquoso, CPPs podem ser conectados a outros peptídeos, fármacos ou agentes marcadores, formando os chamados “conjugados”, que podem ser carregados para dentro de uma célula. Já na época do trabalho, o mesmo grupo de pesquisas havia apresentado a utilização de CPPs conjugados com ciclosporina A, um imunossupressor, para “entrega” de drogas em tecidos vivos.[2] O problema, de certa forma, é que a velocidade com que a entrega do fármaco era realizada, ou de qualquer outra molécula conjugada ao CPP, era desconhecida até então. Sabia-se que o CPP realizava a entrega, visto que os efeitos do fármaco eram observados, mas não se tinha ideia de quanto tempo era necessário para o mesmo permear para dentro da célula e/ou para liberar o fármaco.

No sentido de se desenvolver uma técnica que permitisse avaliar a eficiência e a velocidade da “entrega” de um determinado conjugado com CPP, em tempo-real e in vivo, chegou-se a conjugados de CPP com luciferina, como já demonstrado na figura acima. A luciferina (destacada em azul) está conectada ao CPP (em verde) através de uma molécula-ponte (em vermelho). Tal molécula-ponte está conectada ao CPP por uma ligação disulfeto S-S (em vermelho e verde), que quando na presença de glutationa intracelular (GSH) é rapidamente clivada, liberando a molécula de luciferina. Utilizando-se tal conjugado em células de organismos transfectados com o gene luc de vaga-lumes, responsável pela expressão da enzima luciferase, o par luciferina/luciferase emite luz, que pode ser registrada em tempo-real por uma câmera.

Dessa forma, mostrou-se ser possível averiguar a eficiência e a velocidade de permeação de CPPs de arginina, utilizando-se esse conjugado com luciferina como modelo para entrega intracelular de drogas. Apesar do sucesso obtido pelos autores, parte da complicação em se utilizar tal técnica reside na síntese do conjugado, que não é trivial, e no fato de que devem ser utilizados organismos geneticamente modificados para avaliação do modelo. Contudo, a técnica equivalente, que utiliza CPPs conjugados com moléculas fluorescentes, apesar de possibilitar que se faça a avaliação da liberação de drogas in vitro, não é funcional para sistemas in vivo e não permite o acompanhamento da mesma em tempo-real. Outra opção, o uso de CPPs conjugados com moléculas contendo radioisótopos, possibilita a observação in vivo, mas não tem resolução suficiente para determinar se o conjugado marcado se encontra dentro ou fora da célula e não permite saber se a molécula marcada que simula o fármaco ainda está ligada ao CPP (o radioisótopo emite radiação independente se foi liberado dentro do meio celular ou não).

Este é um exemplo de um belo trabalho, na minha opinião, que apresenta uma técnica fenomenal, capaz de modelar em tempo-real a entrada em células de drogas conjugadas a CPPs, e que ao mesmo tempo permite as observações da liberação intracelular da mesma e da interação com um receptor enzimático.

Que beleza esses peptídeos, né não?!

Referências e notas:

[1] Jones, L. R.; GOun, E. A.; Shinde, R.; Rothbard, J. B.; Contag, C. H.; Wender, P. A.; “Releasable Luciferin-Transporter Conjugates: Tools for the Real-Time Analysis of Cellular Uptake and Release” J. Am. Chem. Soc. 2006, 128, 6526. DOI: 10.1021/ja0586283.

[2] Rothbard, J. B.; Garlington, S.; Lin, Q.; Kirschberg, T.; Kreider, E.; McGrane, P. L.; Wender, P. A.; Khavari, P. A.; “Conjugation of arginine oligomers to cyclosporin A facilitates topical delivery and inhibition of inflamation” Nat. Med. 2000, 6, 1253. DOI: 10.1038/81359.

Todos os nomes*…

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Poema para Luís de Camões
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum.
Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

(José Saramago in ‘Provavelmente Alegria‘)

E qual designa a perda maior?

José de Sousa Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/nov/1922 – Lanzarote, Canárias, 18/jun/2010) escritor português, Nobel de Literatura de 1998 e Prêmio Camões de 1995.

José, do lat. Ioseph < gr. ΙωσηφIoseph‘ < heb. יוֹסֵף ‘Yosef’ (“ele acrescentará”). É um nome bíblico por excelência, embora o escritor tenha sido ateu, fiel ao seu materialismo comunista. Esp. José, fr. Joseph, ing. Joseph.

Sousa < Souza. Originalmente topônimos de várias localidades da Península Ibérica. Correspondente ao esp. Sosa. Algumas fontes especulam que teria origem no port. ant. sausa (“pântano salgado”) do lat. salsa, us “salgada,o”.

Saramago (ár. سارماق ‘sarmaq‘ – mas essa denominação em árabe é aplicada para outras plantas, em especial da família das Amaranthaceae [1,2]), rábano-silvestre, nabiço ou cabresto (Raphanus raphanistrum L.), espécie selvagem da qual procedem os rábanos cultivados. Esp. rabanillo, fr. ravenelle, ing. wild radish. Planta amarga a que os interioranos de Portugal se voltavam em tempos de safras magras. O pai de José Saramago chamava-se José de Sousa e – por motivos um tanto discutidos – acrescentou a alcunha de Saramago (algumas fontes dizem que se tratava de um epíteto insultoso; outras, que foi uma autodenominação voluntária). [3]

Em “Pequenas Memórias”, o nobelista descreve o registro de seu nome:
Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamado ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai) e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lacônico José de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.” [Nota: em Portugal, “apelido” tem o significado de “sobrenome”; no Brasil, é o mesmo que “alcunha”.]

E ele acrescentou o sal na amargura da vida.

Referências
[1] R.A. Blackelock. 1950. The Rustam Herbarium, ‘Iraq. Part IV.
[2] J. Aquilina. 1973. Maltese Plant Names.
[3] José Saramago. Autobiography.

*Todos os nomes, nome do romance de José Saramago de 1997.

One Cup, three billion hearts…*

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O anjo das pernas tortas
A Flávio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita

Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

Rio de Janeiro, 1962

(Vinicius de Moraes in ‘Livro de Sonetos‘)

Todos juntos na mesma emoção?

A Fifa estima que a audiência televisiva acumulada da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha foi de cerca de 26 bilhões de telespectadores, ou mais de 400 milhões por jogo. E acredita que esse será o tamanho da audiência da Copa 2010 na África do Sul. [1] Uma audiência que perde apenas para os Jogos Olímpicos: em 2008, em Pequim, a audiência acumulada total estimada foi de 40 bilhões e 4,7 bilhões de telespectadores únicos [2, 3]. Fazendo uma extrapolação linear, a audiência da Copa do Mundo de Futebol alcança um universo de 3,06 bilhões de pessoas – nenhum esporte isoladamente atrai tanto público.

A história oficial (adotada pela Fifa [4]) reconhece tsu’chu (蹴鞠 cùjú – cù ‘chutar’ e jú ‘bola de couro’) como um precursor do futebol. Como o conhecemos, o futebol derivou de um jogo com diversas variantes e que daria origem também ao rúgbi. (A rigor, futebol é uma designação genérica de diversos
esportes aparentados.) A maior parte das transformações com sucessivos códigos de regras deu-se na Inglaterra. Pelo código de Cambridge, introduziram-se o chute a gol, o passe para a frente, a lateral e o impedimento de se correr enquanto a bola era segura pelas mãos. Sim, o jogo era jogado a maior parte do tempo com as mãos e ainda assim era chamado de futebol – football de foot ‘pé’ e ball bola – segundo alguns autores, em oposição a jogos de montaria como polo; era jogado a pé (isso explicaria que jogos em que o contato com o pé seja proibido tenham sido denominados football, mas muitas palavras calcadas empregam termos equivalentes a ‘pontapé, chute’ na composição da palavra). A antiguidade do termo foot-ball, sendo o primeiro registro datado de 1423-1424 [5] (em uma lei que o proibia!), atesta a antiguidade de suas raízes mesmo na Europa). A formação do The Football Association na Inglaterra com suas regras (as Laws of the Game, ‘Regras do Jogo’ – pouco modificada até os dias de hoje), em 1863, demarca a origem do futebol moderno – que é designado association football, mas, dada sua proeminência ante às demais codificações, é conhecido simplesmente como football e formas variantes. Em uma corruptela com a palavra ‘association‘, surge na Inglaterra, em fins do século 19, a variante assoccer – em 1899, a variante é encurtada ainda mais para soccer, enquanto o rúgbi era chamado de ‘rugger‘. Mas na Inglaterra o futebol é designado mesmo como football. (Nos EUA, soccer continua a designar futebol e football é usado para se referir ao futebol americano. Na Austrália, há o futebol australiano que chamam de Australian (rules) football e o futebol é football mesmo, sendo chamado também de soccer [6-7] – mas footbal pode designar diferentes modalidades/codificações a depender da região.)

Na Itália o jogo é denominado de calcio (‘chute’), do lat. calceus (‘calçado’) > calx, cis (‘calcanhar’) desde os tempos da encarnação medieval do ancestral do futebol. [O calcio fiorentino ainda é jogado em festivais (no jogo a bola pode ser impulsionada com as mãos e com os pés, o número de jogadores depende do tamanho do campo e há dez juízes). O termo calcio apoia a interpretação predominante de que o significado original de footbal associava a condução da bola com os pés.] Na maioria das demais línguas, ou se emprega por empréstimo direto o termo football – a prática se espalhou pelo mundo por intermédio dos trabalhadores ingleses nas diversas colônias do Império Britânico e das companhias transnacionais, ou ocorre uma adaptação fonética ou é traduzido com termos equivalentes para ‘pé’ e ‘bola’. Os franceses, tão ciosos de sua língua a ponto de sugerir um logiciel como substituto de software, adotam football sem modificações – e uma das revistas mais conceituadas sobre o esporte é a France Football [8]. Esp. fútbol, ale. Fußbal (os alemães empregam football para se referir ao futebol americano), neerl. Voetball, os japoneses fizeram apenas uma transliteração (com as
adaptações fonéticas próprias): フットボール ‘futtobōru’ (ou também サッカー
‘sakkā’, de soccer) – houve uma tradução com o termo 蹴球(しゅうきゅう) ‘shūkyū’ (shū ‘chute’ e ‘kyū’ bola), mas quase nunca é usado – o primeiro caracter é o mesmo de cùjú -; ao contrário do coreano, que utiliza os mesmo caracteres chineses, ou na forma dos caracteres coreanos: 축구 ‘chukgu’) -, rus. Футбол ‘futbol’, ind. फ़ुटबॉल ‘fu.tbôl’. No chinês, 足球 ‘zúqíu’ (zú ‘pé’ e qíu
‘bola’ – repare que o caracter para bola é o mesmo para o japonês, com pronúncia próxima), curiosamente, é uma tradução de football e não uma variação do cùjú como seria esperado (mas isso pela tradição ter se perdido no tempo e haver sido reintroduzida por meio dos ingleses),o mesmo ocorrendo no grego, com ποδόσφαιρο (podósfero de pous,podós ‘pé’ e sfairo ‘bola, esfera’) e não uma variação de ἐπίσκυρος (epískyros) ou φαινίνδα (phenínda) – jogos gregos antigos ligados à origem do futebol (em sentido amplo). Em finlandês: jalkapallo (jalka ‘pé, perna’ + pallo ‘bola’), os islandeses têm knattspyrna (knöttur ‘esfera, bola’ + spyrna ‘chute’) e também fótbolti (curiosamente knattspyrna é uma palavra de gênero feminino e fótbolti, masculino). Ár. كرة القدم (kúrat al-qádam) (kúrat ‘bola’ + al ‘de’ + qádam ‘pé’), heb. כדורגל (kadurégel) (kadur ‘bola’ + régel ‘pé’). Os croatas, sérvios e bósnios (que usam a mesma língua, mas a chamam de croata, sérvio e bósnio) dizem nogomet (nòga ‘perna’ + suf. -met ‘si mesmo’) – os bósnios e sérvios usam também fudbal, mas os sérvios escrevem em cirílico ногомет ‘nogomet’ e фудбал ‘fudbal’. Em turco, há a forma futbol e também ayaktopu (ayak ‘pé’ + top ‘bola’). Em guarani vakapi ‘pele, couro de vaca’ é usado para se referir ao jogo.

Para o português foram propostas várias alternativas: balípodo (gr. bállo ‘lançar’), ludopédio (lat. ludus, i ‘jogo’ + gr. pedíon, ou ‘planta do pé’), pedibola (lat. pes,pedis ‘pé’), podabolismo, bolapé, pebol… Obviamente nenhum pegou. O futebol na acepção moderna adentrou ao nosso léxico já em 1889 – na forma foot-boll -, em 1899 escrevia-se foot-ball (por isso muitos clubes brasileiros nascidos no início do século 20 têm como parte de seu nome oficial essa forma – como o Grêmio Foot-ball Porto Alegrense de 1905, Coritiba Foot Ball Club de 1909, o Santos Futebol Clube foi fundado em 1912 com a denominação de Santos Foot-ball Clube) e a forma futebol consolidou-se em 1933 (o São Paulo Futebol Clube é de 1935). [5]

Três bilhões de apaixonados incorrigíveis. E possivelmente outro tanto de ressentidos figadais: mas que talvez tenham um pouco de futebolite não-diagnosticada – ao menos entre aqueles que desejariam praticar o cùjú com o couro dos que assopram entusiasticamente suas vuvuzelas.

[1] Gleeson. No TV audience increase expected for 2010 World Cup. Reuters.

[2] Beijing Olympic Broadcasting. Beijing 2008.
[3] The final tally… Nielsen.
[4] Fifa History of Football. Fifa.
[5] Houaiss. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. V. 1.0.5a.
[6] Australian Football. Australian Institute of Sport.
[7] Football. Australian Institute of Sport.
[8] France Football. L’Equipe.

*”Uma Copa, três bilhões de corações”: Referência mashup de um clipe de filme altamente não recomendável e de um documentário oficial – “Two billion hearts” (“Todos os corações do mundo”) – sobre a Copa 1994, nos EUA, (a audiência única estimada na época era de dois bilhões de pessoas), dirigido por Murilo Salles.

Que se faça a luz!

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Por Joey Salgado

Não há quem nunca tenha se impressionado com vaga-lumes perambulando noite adentro. Aquelas gracinhas luminosas piscando feito luzes de natal, parecem faíscas geradas espontaneamente no ar, como inclusive observou Aristóteles e seus asseclas pouco mais de um par de milhares de anos atrás.[1] Para a mente mais inquisidora, seguinte à observação do fato de um inseto curiosamente poder emitir luz, talvez venha esse questionamento: como ele consegue fazer isso? De fato, o processo é um tanto complicado, envolvendo substratos específicos e catálise por enzimas adequadas, além de um ou outro metabólito biológico.
Expandindo-se o número de dados oferecidos para apreciação de vocês, leitores, cito o exemplo dos lightsticks, aqueles brinquedinhos de festas de casamento que geralmente são distribuídos quando a banda já começou a tocar “Balão Mágico” e coisas do gênero. Como o nível alcoólico no sangue geralmente está alto nessa altura do campeonato, talvez isso não desperte tanto o interesse e curiosidade das pessoas quanto vaga-lumes, geralmente encontrados em ambientes mais “verdes” e “limpos”. Mas lightsticks tem mais em comum com esses insetos do que outros insetos tem com vaga-lumes, por incrível que pareça.
vagalumes_lightsticks.png
Nesse ponto, talvez seja importante se definir alguns termos. Uma reação química que emita luz como um dos seus produtos de reação é dita quimiluminescente, como definido por Wiedemman em 1888.[2] Se o mesmo processo ocorre em um organismo vivo, e não dentro de uma vidraria de laboratório, refere-se ao mesmo por bioluminescência. Interessante ressaltar que Wiedemman, na mesma publicação,[2] diferenciou a quimiluminescência, fenômeno de “luz fria”, da incandescência, que é a emissão de luz por certos materiais mediante aquecimento. A incandescência, como bem se sabe, resulta do efeito fotolétrico, estudado intensamente por Planck e racionalizado em termos matemáticos por Einstein, o que daria o prêmio Nobel de Física para o último em 1921. A quimi e bioluminescências também são diferentes em seus princípios de funcionamento da triboluminescência, que é a emissão de luz por cristais macerados mecânicamente. Em um quarto escuro, com a visão bem acostumada para a falta de luminosidade, é possível se observar a emissão de luz a partir de cristais de açúcar de cozinha comum, quando submetidos a esmagamento (tentem, é uma ótima brincadeira!). 
A semelhança entre quimi e bioluminescências vem, principalmente, pelo fato de que em ambas há a formação de um intermediário peroxídico cíclico orgânico durante a reação química. Exemplifico esse intermediário de forma geral logo abaixo. Notem que o mesmo é uma cadeia fechada (cíclica), no formato de um anel de quatro átomos (dois de carbono e dois de oxigênio) e que possui uma ligação peroxídica (que é essa ligação química entre dois átomos de oxigênio, O-O). Nesse exemplo, os carbonos estão fazendo apenas duas ligações cada um (para fins de simplificação) sendo que cada um possui mais duas posições livre para se ligar a outros átomos.
intermediário_peroxídico.png
Na reação bioluminescente de vaga-lumes, uma molécula chamada luciferina, na presença de ATP (que é uma “fonte de energia disponível” em seres vivos), oxigênio molecular (O2) e de uma enzima chamada luciferase, forma exatamente esse intermediário peroxídico (notem o mesmo, destacado em vermelho, dentro de uma estrutura molecular mais complexa) (Figura 1).[3,4] Tal intermediário é formado em várias etapas e então decompõem para formar uma molécula de oxiluciferina no ‘estado eletrônico excitado’ (representado pelo símbolo S1). Um ‘estado eletrônico excitado’ pode ser entendido como um estado de maior energia da molécula, que está pronto para perder essa energia em excesso por emissão de calor ou de luz. No caso da oxiluciferina, a mesma perde essa energia emitindo luz, no final do processo de bioluminescência (Figura 1).[3] A reação quimiluminescente que ocorre dentro de lighsticks também leva a formação de um intermediário contendo esse anel peroxídico (Figura 2). Tal mecanismo descrito na Figura 2 foi formulado à medida que uma série de moléculas chamadas 1,2-dioxetanonas foram sintetizadas e estudadas em laboratório, demonstrando que as mesmas decompõem emitindo luz, quando da adição de um catalisador comum a essas duas reações (Figura 3, os grupos ligados ao anel peroxídico pelos carbonos pode mudar, sendo que nesse caso exemplificou-se com a molécula contedo dois grupos metila, -CH3).[5] Utilizando os resultados obtidos no estudo da reação envolvida em lighsticks (chamada de peróxi-oxalato) e 1,2-dioxetanonas, chegou-se à síntese e posterior estudo de moléculas chamadas 1,2-dioxetanos-aril-substituídos, que são capazes de decompor emitindo luz (Figura 4),[5] por uma via mecanística muito parecida com a da bioluminescência de vaga-lumes (Figura 1) (como sempre, notem a formação do anel peroxídico destacado em vermelho). Tanto a bioluminescência de vaga-lumes (Figura 1) quanto a decomposição de 1,2-dioxetanos-aril-substituídos (Figura 4) possuem eficiências de emissão de luz extremamente altas, o que faz desses 1,2-dioxetanos importantes ferramentas analíticas.[5]
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– Figura 1 –

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– Figura 2 –

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 – Figura 3 –

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– Figura 4 –

Agora vem o pulo do gato: de fato, foi o estudo de tais 1,2-dioxetanos-aril-substituídos que permitiu que se entendesse melhor o funcionamento da bioluminescência de vaga-lumes, inclusive, melhorando a compreensão do processo que leva à formação do ‘estado excitado’ emissor de luz. E para tal, foi necessário antes disso estudar a reação de 1,2-dioxetanonas e a reação peróxi-oxalato, que ocorre em lightsticks. Tanto o preparo de 1,2-dioxetanonas e 1,2-dioxetanos-aril-substituídos quanto o estudo dos mecanismos de decomposição dessas moléculas e da reação peróxi-oxalatonão é trivial e fez (e ainda faz…) muitos alunos de pós-graduação e pesquisadores arrancarem os cabelos. A síntese de moléculas peroxídicas isoláveis, ou seja, que podem ser sintetizadas, purificadas, identificadas por técnicas espectrocópicas adequadas, como 1,2-dioxetanonas (Figura 3) e 1,2-dioxetanos-aril-substituídos (Figura 4) é muito complicada, levando de três a quatro anos até que se tenha sucesso em sua preparação. Um processo complicado e trabalhoso para, ao final, “destruir” a substância preparada para vê-la emitindo luz. A recompensa para todo esse esforço é, obviamente, gerar conhecimento que sustente a proposta para o funcionamento de um processo biológico intrigante e, porque não, elegante.
Notem como, algumas vezes, antes de se entender como certas coisas ocorrem em organismos biológicos, é necessário ficar um bom tempo na bancada do laboratório de química. É necessário se usar bem o tubo de ensaio antes de se trazer certos fatos à luz, rs.
Fonte das fotos: vaga-lume e lightsticks.
Referências e notas:
[1] Campbel, A. K.; Chemiluminescence: Principles and Applications in Biology and Medicine; Elis Howard Ltd.: Chichester, 1988.
[2] Wiedemann, E.; Ann. Phys. Chem. 1888, 24, 446. (Em alemão)
[3] Shimomura, O.; Chemical and Biological Generation of Excited States; Adam, W.; Cilento, G., eds.; Academic Press Inc.: New York, 1982.
[4] Interessante notar que, em química orgânica, geralmente não se representa um átomo de carbono pelo seu símbolo “C” em estruturas. Logo, em cada “esquina” formada por ligações químicas (no encontro entre “arestas”, onde não há símbolo algum), deve-se enxergar a presença de um átomo de carbono, com seu respectivo número de hidrogênio, de forma a completar suas quatro ligações de ‘direito’.
[5] Baader, W. J.; Bastos, E. L.; Stevani, C. V.; The Chemistry of Peroxides, Rappoport, Z., ed.; WIley & Sons: Chichester, 2005.
—————-
Em tempo, eu Fernando “Joey Salgado” Heering Bartoloni sou químico, atualmente no doutorado, estudando alguns sistemas orgânicos quimiluminescentes. E estou mais careca a cada ano. Não tenho palavras para expressar minha felicidade por estar participando do Tubo de Ensaios, nessa fantástica oportunidade que me foi dada pelo SBBr. Obrigado.

Você me conhece…

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O lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
(Carlos Drummond de Andrade in ‘Poesia Completa‘)

Disclaimer necessário:

Não sou filólogo, não tenho formação em Letras, não trabalho na área. Sou apenas um leigo curioso a respeito da origem e significado das palavras, bem como sua evolução e relações – poderá notar que esse viés é totalmente atribuível à minha formação. Sim, sou formado em Ciências Biológicas. Mas antes que bradem: “mais um!”, quero acalmar a todos dizendo que não pretendo aqui, neste Scienceblogs Brasil e sua comunidade, onde tenho a partir de agora a honra de blogar, criar e manter um blogue sobre Biologia. O SBBr está muito bem servido de uma equipa incrivelmente capacitada de profissionais da área. Até por isso, quando me inscrevi no concurso para novos blogues, procurei apresentar um projeto distinto: um que dissesse respeito à etimologia de expressões, não necessariamente científicas, usadas em nosso dia-a-dia ou em jargões.

Pretendo fazer uma pesquisa decente para embasar meus textos, mas não pretendo infalibilidade. Ao contrário, conclamo aos leitores que sejam críticos em relação às informações que eu apresentar neste espaço (ou em qualquer outro), aliás, como deve ser em relação a qualquer outra fonte de informação.

Com este alerta e agradecendo imensamente à equipa do SBBr pela oportunidade, além de dar os parabéns aos demais novos sciblings (Amigo de Montaigne, Fernanda Poletto/Bala Mágica, Roberto Berlinck/Quiprona – a esta altura já bem estabelecidos) e aos colegas tuboensaístas: Aninha Arantes e ‘drn1978’, e vamos então à primeira postagem.

Eu te conheço?

Γνῶθι σεαυτόν (‘gnōthi seauton‘), conhece a ti mesmo, estaria inscrito sobre o portão de entrada do Templo de Apolo em Delfos[1]. Sua tradução para o latim “nosce te ipsum” inspirou incontáveis obras. Do poema do poeta inglês John Davies ,”Nosce teipsum” (“teipsum” junto), de 1599 [2], à música de uma improvável banda italiana neo-clássica com toques de folk, Ataraxia, “Nosce te ipsum” (“te ipsum” separado), faixa do álbum “Ad perpetuam rei memoriam” [3].

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