Alea jacta est*

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Por Fernando “Joey Salgado” Heering Bartoloni

O Problema de Monty Hall √© um exemplo interessante de que o simples c√°lculo de uma probabilidade n√£o necessariamente leva √† resposta correta, sendo necess√°rio se entender todo o desenvolvimento l√≥gico de um dado problema.
Retomando brevemente o que j√° foi dito: ap√≥s voc√™ ter escolhido a porta de n√ļmero 2, seu orientador abre a porta de n√ļmero 3 para lhe revelar uma pilha de relat√≥rios da gradua√ß√£o √°vidos por corre√ß√£o, que dever√£o ser passados para algum outro aluno de p√≥s coitado (ou voc√™ achou que ele ia corrigir? r√°!). Ou seja, sua porta de n√ļmero 2 ou cont√©m seu exemplar final da tese, chave para abrir os grilh√Ķes das sombras, ou uma segunda pilha de relat√≥rios precisando de corre√ß√£o. Ainda, h√° a possibilidade de que voc√™ continue apostando na porta de n√ļmero 2 ou mude para a de n√ļmero 1, esperando que um golpe de sorte lhe seja ben√©fico. Tecnicamente, pensando em termos somente dessa segunda etapa, onde ambas as portas possuem chances iguais de terem qualquer um dos dois itens, trocar ou n√£o trocar de porta n√£o influ√™ncia no resultado, uma vez que a chance de ser vitorioso √© de 50%. 
Entretanto, a resposta correta é trocar de porta, de qualquer forma, para se aumentar as possibilidades de se ganhar o tão desejado prêmio. O motivo?
Dois cen√°rios diferentes podem ocorrer decorrentes da primeira escolha de portas: voc√™ escolheu a porta que cont√©m a tese (cen√°rio A) ou a porta que cont√©m a pilha de relat√≥rios (cen√°rio B). No cen√°rio A, as duas portas que sobraram cont√©m itens iguais. Uma vez que seu orientador precisa abrir uma delas para lhe revelar o conte√ļdo como sendo uma pilha de relat√≥rios, a escolha de qual ser√° √©, em si, irrelevante. Ou seja, trocar a escolha da porta ir√° inevitavelmente fazer com que voc√™ passe a noite em claro. No cen√°rio B, seu orientador possui duas portas com itens diferentes, sendo que ele dever√° abrir uma delas para lhe mostrar o conte√ļdo. Como definido no problema (e um pouco por sadismo tamb√©m) seu orientador, que sabe qual √© o conte√ļdo de cada uma das portas, ir√° escolher a porta que cont√©m a pilha de relat√≥rios para ser aberta (aumentando a tens√£o final e a sudorese). Ou seja, no cen√°rio B, a op√ß√£o de trocar de porta ir√° lhe beneficiar e garantir seu sono. Como o cen√°rio B possui uma probabilidade duas vezes maior (2 em 3, ou 66,666…%) de acontecer do que o cen√°rio A (1 em 3, ou 33,333…%), trocar de porta sem pestanejar √©, no fim das contas, a melhor op√ß√£o para se livrar de uma tarefa herc√ļlea e ser admitido no Olimpo dos p√≥s-graduados.
Fez bem quem optou trocar de porta: Davi e Hugo.
E melhor fez o Igor, que optou por fundir o cérebro do orientador.
*express√£o em latim para “os dados est√£o lan√ßados”.

√Č a porta dos (p√≥s-graduandos) desesperados!

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Por Fernando “Joey Salgado” Heering Bartoloni

Li o t√£o aclamado livro de Leonard Mlodinow, The Drunkard’s Walk (Penguin Books, adaptado para o portugu√™s como O Andar do B√™bado, Ed. Jorge Zahar).

Ainda n√£o me decidi se gostei ou n√£o gostei deste livro em que Mlodinow mostra como nossa no√ß√£o de racionalidade √© muito subjetiva e alheia a processos rand√īmicos que ocorrem em nossas vidas. Apesar da leitura ser meio densa, uma vez que ele enrola demais para chegar aos finalmentes de certos pontos e devido a um preciosismo dispens√°vel no formalismo matem√°tico usado em alguns momentos, incontestavelmente, as hist√≥rias contadas por Mlodinow s√£o excelentes. Tanto que teve uma que me deixou deveras pensativo.

Na verdade, √© uma demonstra√ß√£o muito clara de que o emprego da l√≥gica para a solu√ß√£o de um problema n√£o depende somente da matem√°tica, mas do problema como um todo. Irei apresent√°-lo em uma vers√£o modificada em rela√ß√£o ao livro e deixarei o “enigma” aqui pendente at√© semana que vem, quando irei publicar a solu√ß√£o do mesmo. Palpites ou resolu√ß√Ķes completas s√£o bem vindas nos coment√°rios. At√© por quem j√° leu o livro, ainda mais porque me parece que esse “estudo de caso” √© bem conhecido de maneira geral. ūüėČ
Seguinte…
Digamos que seu orientador do doutorado, que por acaso tamb√©m ministra uma disciplina da gradua√ß√£o em que voc√™ √© monitor, lhe oferece a oportunidade de escolher uma entre tr√™s portas, numeradas de 1 a 3, para “ganhar” seja l√° o que for que estiver escondido atr√°s da mesma (a p√≥s-gradua√ß√£o, afinal, √© uma loteria…).
Ele ent√£o lhe diz que uma das portas esconde o exemplar final da sua tese, pronta para ser depositada e defendida no prazo, enquanto que as outras duas escondem pilhas de centenas de relat√≥rios da turma do diurno e noturno da “Introdu√ß√£o √† Org√Ęnica Experimental”, que devem ser corrigidos at√© o dia seguinte. Voc√™ deve escolher uma entre as tr√™s portas, ao passo que, ap√≥s a sua escolha, o seu orientador, que est√° ciente do que est√° por tr√°s de cada uma delas, abre uma das duas portas que n√£o foram escolhidas para revelar o que voc√™ “perdeu”. Digamos que voc√™ escolheu a porta de n√ļmero 2. Seu orientador, ent√£o, abre a porta de n√ļmero 3, somente para lhe revelar uma pilha de relat√≥rios sem notas. Por enquanto, ufa! Logo ap√≥s esse sopro de al√≠vio moment√Ęneo, ele lhe oferece trocar de porta ou continuar na mesma. Ou seja, uma vez que voc√™ viu que a porta de n√ļmero 3 n√£o possui sua t√£o sonhada tese, voc√™ deve decidir se continua apostando na porta de n√ļmero 2, ou se muda de aposta para a porta de n√ļmero 1. Dito se a troca ser√° realizada ou n√£o, seu orientador ir√° revelar, com um prazer s√°dico, diga-se de passagem, se a sua madrugada ser√° passada na companhia prazerosa de Morfeu, ou na companhia amarga da Cafe√≠na. 
A pergunta, finalmente, √©: qual o melhor neg√≥cio? Se manter firme e forte com a porta de n√ļmero 2, ou mudar de ideia e trocar a aposta para a porta de n√ļmero 1?
Divirtam-se!

Fim de jogo

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Por Fernando “Joey Salgado” Heering Bartoloni
Aproximadamente h√° quinhentas e quatro horas, ou vinte e um ciclos claro/escuro, no dia 27 de novembro outubro de 2010, passei por uma das experi√™ncias mais assustadoras e, ao mesmo tempo, gratificantes que um homem ou mulher podem ter: uma defesa de doutorado (o que mais poderia ser?).
Meus 23,6 MB de produ√ß√£o cient√≠fica, intitulados “Mecanismos do Sistema Per√≥xi-Oxalato em Meios Aquosos e da Quimiluminesc√™ncia de 1,2-Dioxetanonas”, foram avaliados por uma banca composta pelos professores Fernando Coelho (UNICAMP), Jos√© Carlos Netto-Ferreira (UFRRJ), Frank Quina (IQUSP) e Omar El Seoud (IQUSP), bem como pelo meu orientador Josef Wilhelm “Willi” Baader. Todos os professores fizeram valiosas sugest√Ķes e muitas perguntas, algumas que pude responder e outras que nem consegui compreender. De maneira geral, achei que me sa√≠ bem (quem assistiu tamb√©m achou), n√£o falei nenhuma besteira e, principalmente, n√£o chorei quando o resultado da aprova√ß√£o da banca foi divulgado. 
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A banca (da esquerda para direita): professores José Carlos, Fernando, Willi, Omar e Frank.
Rindo de que ou de quem? 
Devo dizer que foram quase cinco anos, ou praticamente sete anos, se contado o tempo de inicia√ß√£o cient√≠fica, agradabil√≠ssimos dentro do grupo de pesquisa do Prof. Willi. Apesar de ter terminado essa fase de pr√©-cientista, sei que n√£o irei me afastar do meu (agora) ex-laborat√≥rio, uma vez que pretendo manter colabora√ß√Ķes com o mesmo durante meu p√≥s-doutorado, de alguma forma que ainda n√£o foi concebida. Mas inventarei algo. 
Aliás, no momento em que iniciava a preparação esse texto, recebi um e-mail de aprovação do meu pedido de bolsa de pós-doutorado para trabalhar com o Prof. Erick Bastos da UFABC, o que, de certa forma, me instigou ainda mais a escrevê-lo (e a abrir uma garrafa de cerveja também, claro). Terminei um jogo, mas começarei outro logo mais.
Espero continuar assim por tanto tempo quanto minha curiosidade científica permitir.
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Essa foto vou guardar para quando me candidatar a Vereador.