Laboratórios híbridos de interface arte/neurociências – L’IMPLORANTE LAB

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– Por Jose Otavio Pompeu e Silva

Um encontro inusitado entre cientistas e artistas em um laboratório montado para funcionar durante o congresso IBRO 2015 que acontecerá no Rio de Janeiro e é um dos maiores encontros entre neurocientistas do mundo. Serão duas apresentações de uma performance que une a proposta de uma pesquisadora de pós-doutorado, a atriz Dorys Calvert; um aluno de mestrado, o pintor Danilo Moveo; a aluna de doutorado e videomaker Cristina Amazonas que assina a direção de arte e o som do pesquisador e DJ Eufrásio Prates. José Otávio e Maira Fróes, dois neurocientistas da UFRJ, comandam a interface arte/ciência que simula uma rede neural com oscilações entre dados eletrofisiológicos e artísticos criando um ambiente de imersão em que o tema universal dos sentimentos profundos da mulher é mostrado no texto das cartas da artista francesa Camille Claudel.

O laboratório ArtSci L’Implorante trabalha com o conceito de ruído que está por trás de toda rede comportamental e cognitiva, integrando performance teatral, pintura abstrata ao vivo e música eletrônica holofractal, combinada com abordagens neurofisiológicos clássicas, representada por gravações electrodérmicas e eletroencefalográficas diretamente obtidas a partir dos arteistas e complementado por impressões subjetivas . Um encontro entre o subjetivo e o objetivo, artistas e cientistas contemporâneos em busca das bases neurobiológicas da experiência humana. Vamos exercer nesses ambientes o potencial de inspirar e propor abordagens inovadoras para lidar com afirmações científicas para uma cognição emocional e afetiva incorporada no comando da criação humana.

unnamed (1)Brainstorms
arte / neurociência e ciência / interfaces de sujeitos

. UMA QUESTÃO DE CORPO
8 de julho quarta-feira 17:00
Conceitos emergentes e conhecimentos experimentais de comportamentos emocionais e cognitivos incorporadas

. UMA QUESTÃO DE COR
9 de julho quinta-feira 17:00
Paletas da experiência humana objetiva e subjetiva com cores

. UMA QUESTÃO DE SOM
Sexta-feira 10 de julho 17:00
Palavras sonoras, soando imagens sonoras e
cérebros sonoros na ciência

Experiência interativa
A geração das interfaces de artsci ao vivo (a qualquer momento)

Sul America Centro de Convenções – Mezanino
Av Paulo de Frontin , 1 -. Cidade Nova, no Rio de Janeiro
anatomiadaspaixoes.blogspot.com

Artistas, cientistas:
Caetano DABLE,
Cecilia Hedin-Pereira,
Cristina Amazonas,
Dandara Dantas,
Danilo Moveo,
Dorys Calvert,
Eufrasio Prates,
Fernando de La Rocque,
Franey Nogueira,
Gabriel Brasil,
João Bosco
Bedeschi Filho,
José Otávio
Pompeu e Silva,
Maira Fróes,
Mario Fiorani Jr

 

Memorial à Ivar Lovaas: Como nasce – e cresce – uma ciência.

BannerDivã

Por Aninha Arantes, dO Divã de Einstein

Este post é uma tradução, autorizada pelo autor, de dois comentários à nota de falecimento do Professor Ivar Lovaas, pioneiro da Análise do Comportamento Aplicada e um dos maiores pesquisadores e difusores do Método ABA para o tratamento de pessoas com autismo e outros déficits cognitivos.

Ole Ivar Lovaas nasceu na Noruega, mas desenvolveu seus trabalhos na UCLA (University of California in Los Angeles), onde fundou um centro para tratamento de autistas: o The Lovaas Institute. Foi um dos maiores pesquisadores do autismo e responsável pelo desenvolvimento de um dos métodos mais bem sucedidos e recomendados (inclusive pela Associação Médica dos EUA) para a reinserção social e adaptação de pessoas com autismo. O texto a seguir é de autoria do Professor James T. Todd, do Departamento de Psicologia da Eastern Michigan University, e foi publicado originalmente em resposta a um comentário de uma leitora no Autism Blog, de Lisa Jo Rudy, no dia 4 de agosto deste ano – dois dias depois da morte de Lovaas. Republico aqui, traduzido, o que acho a mais concisa e objetiva explicação de como as descobertas experimentais de vários cientistas se acumulam e se completam para dar suporte a tecnologias que melhoram a vida das pessoas.

“O Behaviorismo, como uma filosofia específica da ciência, foi inicialmente desenvolvido por John B. Watson nas primeiras décadas do século XX. O principal objetivo de Watson era tratar o comportamento objetivamente, usando as técnicas da ciência natural. O comportamento dos organismos é o resultado natural de sua história genética e interacional. Uma abordagem completa do comportamento pode ser encontrada na análise completa desses fatores. Watson nunca desenvolveu completamente muitos aspectos críticos do seu Behaviorismo, apenas apontou a necessidade de uma maior sofisticação na abordagem, antes de entrar para a carreira publicitária. A devoção de Watson ao condicionamento pavloviano e a rejeição qualificada da Lei do Efeito, de Edward Thorndike (que descrevia os efeitos de recompensas e punições) deixou sua formulação sem os princípios comportamentais necessários para dar conta, minimamente, dos comportamentos mais complexos. Os equívocos sobre determinados aspectos de sua teoria metafísica, especialmente na análise do comportamento privado – como o pensamento – levaram muitas pessoas a ver o seu Behaviorismo como irremediavelmente mecanicista e superficial, apesar de haver maior profundidade do que é aparente em uma primeira leitura. Há muitos outros nomes associados ao Behaviorismo precoce, tais como Albert Weiss e Knight Dunlap, cujas idéias foram, de certa forma, mais completamente desenvolvida do que as de Watson. Faltava-lhes a verve retórica de Watson, e suas opiniões agora vêm até nós, em grande parte, como informações históricas incidentais. Ao considerar as contribuições de Watson para a Psicologia, é melhor ignorar totalmente o parágrafo obrigatório e superficial que vemos nos capítulos iniciais dos livros de introdução à Psicologia, e mesmo em Histórias da Psicologia de nível um pouco superior. Ao contrário do que essas obras podem levar a crer, suas reais contribuições ajudaram a estabelecer a Psicologia como uma disciplina acadêmica distinta da Filosofia e da Biologia, e a tornar a observação objetiva do comportamento o dado padrão em toda a Psicologia (mesmo em áreas como a psicologia cognitiva, que não estendem a objetividade para a teorização), ajudando no estabelecimento do condicionamento pavloviano como base dos tratamentos para transtornos de ansiedade.

Começando em 1920, e continuando até a sua morte em 1990, BF Skinner ampliou e elaborou as formulações de Watson, legando-nos o “Behaviorismo Radical” que nós associamos a ele até hoje. (“Radical”, aqui, significa “raiz” ou “fundamental”, e não “extremo”.) Basicamente, a abordagem de Skinner abrange todos os comportamentos, incluindo a parte dos comportamentos que é privada ao indivíduo, tais como sentir e sonhar, e trata-os como eventos reais e objetivos existentes no tempo e no espaço. (Sim, pensar, sentir e sonhar estão dentro do escopo do sistema de Skinner, não importa o que os textos introdutórios dizem). Nesse sentido, Skinner concorda com Watson: o comportamento é o que surge quando histórias genéticas e ambientais de um organismo se encontram com os eventos atuais. A Análise do Comportamento consiste em encontrar, na história do organismo, os eventos que se relacionam ordenadamente com o comportamento presente. Skinner, é claro, enfatizou a importância do “condicionamento operante”, essencialmente uma versão muito mais sofisticada da Lei do Efeito de Thorndike. Tanto o condicionamento pavloviano, quanto o condicionamento operante estavam, então, disponíveis para descrever uma quantidade surpreendente de comportamentos dos organismos, que podiam ser previstos e controlados com uma precisão tipicamente associada com as hard sciences. A enorme variabilidade nos dados dos comportamentos, previamente proveniente de estudos com labirintos e outras técnicas, foi transformada em curvas muito suaves e regulares, demonstrando a realidade das “leis do comportamento”. Hoje em dia, nós associamos o trabalho de Skinner com ratos e pombos, especialmente na área de “esquemas de reforçamento”, em que diferentes padrões de recompensas produzem importantes efeitos comportamentais. Mas, a partir desta formulação, dezenas de milhares de experiências sobre os princípios básicos do comportamento vieram à luz. A contingência de três termos de Skinner, popularmente concebida e simplificada em “antecedente-comportamento-consequência”, é uma ferramenta analítica de extraordinário poder, especialmente em sua versão mais tecnicamente sofisticada. As variáveis responsáveis por praticamente qualquer episódio especificamente definido de comportamento podem ser descobertas através da análise. Também é uma maneira altamente eficaz de estabelecer comportamentos novos: reforçe o comportamento requerido, e você tem grande probabilidade de ter mais do mesmo. (Às vezes, é mais fácil falar do que fazer!) Claro, não podemos esquecer as contribuições culturais de Skinner, implorando-nos para perceber – com livros como o tão incompreendido Beyond Freedom and Dignity (1971), e o essencial Ciência e Comportamento Humano (1953) – que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, como sociedade, advêm do nosso próprio comportamento. Para resolver esses problemas é necessária uma ciência do comportamento efetiva. Para uma descrição mais completa do pensamento e das teorias de Skinner, eu recomendo começar pelo livro Ciência e Comportamento Humano, disponível no site da Fundação BF Skinner. E, para uma visão mais técnica, embora ainda amplamente acessível, ler os artigos da Edição Especial da American Psychologist, de novembro de 1992. A leitura do “best of” de Skinner, recolhidos no livro Cumulative Record seria um excelente passo seguinte.

Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz.

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes.

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade.

Eliminar a automutilação e ensinar habilidades acadêmicas para crianças com autismo, restabelecer habilidades de vida independente em pessoas com lesões cerebrais, treinar hábitos de higiene adequados em crianças com enurese, melhorar o atendimento médico a pessoas doentes, estabelecer hábitos de estudo eficazes em crianças em situação de risco, reduzir os hábitos repetitivos como a mania de roer unhas e a tricotilomania e reforçar o comportamento social adequado em pessoas com déficits de habilidades sociais são ilustrativos, mas não esgotam a gama de problemas de comportamento endereçados aos analistas do comportamento aplicados. Há, é claro, e sopa de letrinhas das coisas que realmente são – fundamentalmente – ABA, ou derivadas dela: Treino por Tentativas Discretas (Discrete Trial Training, TDT), Treino de Resposta Pivotal (Pivotal Response Training, PRT), Intervenção Comportamental Precoce Intensiva (Early Intensive Behavioral Intervention, EIBI), Modelo Denver, Apoio Comportamental Positivo (Positive Behavior Support, PBS) e muitos outros. Tem incomodado, ultimamente, os constantes esforços por parte dos promotores de algumas dessas coisas em tentar passá-las como não sendo ABA, ou como não sendo em grande parte baseadas em ABA, mas como algo completamente diferente. Olhe sob o capô: se é de alguma forma eficaz com autismo, você irá encontrar algum tipo de gestão de contingências em funcionamento.

Nomes associados aos esforços iniciais em construir a ABA incluem Paul Fuller, Nathan Azrin, Teodoro Ayllon, Donald Baer, Sidney Bijou, Todd Risley, Jack Michael, Montrose Wolf, Charles Ferster, Kurt Salzinger, Israel Goldiamond, e muitos outros. Aqueles que conhecem um pouco da história recordarão o primeiro esforço sistemático para aplicar ABA ao autismo por Mont Wolf, Todd Risley e Hayden Mees: “Aplicação de princípios do condicionamento operante à problemas comportamentais de uma criança autista” (Application of Operant Conditioning Principles to the Behaviour Problems of an Autistic Child) publicado em março de 1964 no Behaviour Research and Therapy. Eu acho que um bom lugar para encontrar uma visão abrangente da moderna ABA é no excelente livro de Cooper, Heward e Heron, Análise Aplicada do Comportamento (Applied Behavior Analysis). Alguns elementos da ABA também estão contidos na referida edição da American Psychologist, de novembro 1992. No entanto a ABA é um campo enorme, com uma história que remonta, se incluirmos a pesquisa básica, a bem mais de 100 anos. Assim, é impossível para um único livro para captar tudo.

A perda de Lovaas, em si, é uma ocasião de grande tristeza para os seus amigos e colegas. Mas suas contribuições vivem em suas obras e nas obras de seus alunos. Aqueles dentre nós que vieram depois aspiram imitar seu modelo e, assim, talvez, contribuir com uma fração do que ele fez para ajudar pessoas com autismo a conseguir muito mais independência e dignidade do que era possível antes do trabalho de Lovaas mostrar como poderia ser feito.”

Auld lang syne*… (3)

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Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossas vidas, mais amores.

Em cismar sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá,
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.

Não permita deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que eu não encontro por cá,
Sem qu’inda aviste as palmeiras
Onde canta o sabiá.

(Gonçalves Dias in Primeiros Cantos)

Disclaimer: Sei que o ideal seria
se pudesse oferecere referências melhores – se não de material de
primeira mão, ao menos de artigos acadêmicos que analisaram tais
documentos ou, no máximo, de livros-textos da área -, mas acabei usando
como atalho, para esta série sobre os países participantes da Copa 2010,
referências terciárias – e que nem dizem respeito diretamente à questão
etimológica. Em muitos casos, a Wikipedia (anglófona, claro) foi
utilizada como material para consulta incial (procurei verificar por
fontes independentes mais confiáveis). Então fiquem ainda mais atentos
para o fato de que as informações podem não ser suficientemente acuradas
(eufemismo para incorreção).

República da Coreia (kor. 대한민국 大韓民國 Daehan-minguk) ou Coreia do Sul. Naturalmente, partilha boa parte de sua história com a Coreia do Norte, da qual se separou em consequência dos primórdios da Guerra Fria entre a URSS – com os soviéticos influenciando a porção norte e os EUA, a porção sul. Situação definida até hoje após o armistício que suspendeu a Guerra da Coreia. kor. Han “coreano” deve estar ligada à raiz coreana com significado de “grande, líder” (talvez ligado ao mongol khan). Após a queda dos gojoseon, os coreanos organizaram-se em uma confederação denominada 삼한 samhan (“três han”). Apesar da dinastia chinesa Han ter se aventurado em território coreano, não deve ser a origem da denominação sul-coreana do país e do povo. [1]

Estados Unidos da América (ing. United States of America). Os nativos americanos chegaram ao território dos atuais EUA provavelmente da Ásia – em uma ou mais ondas – através do estreito de Behring (descoberto à época do último glacial). A data é disputada entre 12.000 e 40.000 anos a.C. ou até mais. Em 1513, o espanhol Ponce de León aportou na região da Flórida. Franceses também estabeleceram colônias. Os ingleses fixaram-se na Virgínia em 1607. Em 1776, as treze colônias inglesas declararam independência. Política expansionista levou à compra da Louisiana da França, ao extermínio de nações indígenas a Oeste e à Guerra Mexicano-Americana, com anexação de vasto território do Texas à Califórnia. O Alaska foi comprado dos russos. O Havaí foi incorporado depois que residentes americanos e europeus derrubaram a monarquia local no fim do séc. 19. Os estadunidenses são também conhecidos por americanos e eles frequentemente denominam seu país como America. América foi a denominação dada a todo o continente do Novo Mundo pelo cartógrafo germânico Martin Waldseemüller em 1507, em homenagem ao cartógrafo e explorador florentino Américo Vespúcio – o primeiro a perceber que o que hoje conhecemos como América do Sul não fazia parte da Ásia como se pensava até então. [2, p. 24-5.]

Inglaterra (ing. England). País membro do Reino Unido (ao lado da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales).  Restos de hominídeos datam de 700.000 a.C., e desde o fim do último glacial tem sido ocupado por populações humanas. Diversas tribos celtas habitaram a ilha, ocupada pelo Império Romano no ano 43 d.C e permacendo até 410. Em 1066, Guilherme, o Conquistador, liderou a conquista normanda – o que determinou a influência da língua francesa na língua inglesa, de origem germânica. Várias dinastias se sucederam no trono: Valois, Plantagenetas, Tudor… Um breve período republicano liderado por Cromwell se sucedeu entre a deposição de Carlos I em 1653 e a restauração da monarquia em 1660 com a ascenção de Carlos II. Em 1707, com o Ato da União, formalizou o tratado com a Escócia, criando o Reino Unido. Desde então, a Inglaterra é governada por monarquia parlamentarista do Reino Unido. Ing. England vem do ing. méd. Englonde, Yngelonde < ing. ant. Englaland “terra dos anglos” (em oposição aos saxões), Os anglos eram uma tribo germânica da região de Angeln da península da baía de Kiel no Mar Báltico (área atualmente em território alemão) < Angel, Angul, literalmente ângulo, pelo formato. [3]

Estados Unidos Mexicanos (esp. Estados Unidos Mexicanos) ou México. A região é habitada desde pelo menos 21.000 a.C. Diversas civilizações floresceram antes da chegada dos espanhois: olmecas, maias e, principalmente, astecas. No séc. 16, Cortés destruiu o império asteca, estabelecendo o domínio espanhol. Em 1813, foi declarada a independência, reconhecida pela coroa espanhola em 1821. Diversas formas de governo foram estabelecidas, inicialmente Império e posteriormente República. Uma vasta área do Texas à Califórnia foi perdida com o resultado da Guerra Mexicano-Americana. O nome do país é uma referência à sua principal cidade e capital Cidade do México. A origem do nome da cidade é debatida. Alguns autores atribuem ao nahuatl Mextli, nome de uma divindade, significando Mēxihco “morada de Mextli”. Outros, que viria de mētztli (“lua”) e xictli (“umbigo, centro”), isto é, “centro da Lua” ou “centro do lago Lua”. [4]

República do Chile (esp. República de Chile). As planícies chilenas são ocupadas desde pelo menos o fim do último glacial. Eventualmente o povo Mapuche desenvolveu-se, resistindo às investidas incas. Em 1520, o navegador português Fernão de Magalhães atravessou o estreito de Magalhães. A conquista espanhola foi completada por Pedro de Valdivia, sendo anexado ao Vice-Reino do Peru. Em 1818, conquistou a independência. A origem do nome do país tem múltiplas versões. Em uma delas, teria sido derivado do nome inca para o vale do Aconcágua: Chili, por sua vez, originado do nome de um cacique: Tili. Uma das mais correntes é a de que provém do mapuche: chilli (“onde a terra termina”). [5, p. 44]

República Eslovaca (eslovaco: Slovenská Republika)  ou Eslováquia. Artefatos arqueológicos de cerca de 270.000 a.C. atestam a antiguidade da ocupação da área. Celtas, romanos, tribos germânicas já controlaram a região. Povos eslavos chegaram ao local no século 5 d.C. O Império Morávio formou-se e desintegro-se no séc. 9. O território foi incorporado pelo Reino da Hungria. Após a Primeira Guerra, com a região da Morávia e da Boêmia, surgiu a Tchecoeslováquia. Em 1993, a união se dissolveu, havendo a separação entre a República Tcheca e a República Eslovaca. O nome se refere ao povo eslovaco < eslovaco Slovák e tem a mesma origem do nome dos eslovenos.

Japão (jap. 日本国, にっぽん ou にほん Nihon-koku ou Nippon-koku). O arquipélago é habitado desde pelo menos 30.000 a.C. Diversos reinos dividiram o território, unificado durante o período Nara no séc. 8. O poder alternou-se entre o imperador, os senhores feudais e o chefe do exército (xogum). Em 1867, a restauração Meiji, trouxe novamente o poder para a mão do imperador. Política expansionista levou a conquistar territórios na China, parte da ilha Sacalina do Império Russo, a Coreia e Taiwan. Na Segunda Guerra expandiu seu império por vasta área do Pacífico. Mas foi derrotada pelos aliados e teve seu território bombardeado por dois artefatos atômicos. Uma monarquia parlamentarista constitucional foi imposta pelos EUA. O caracter 日 ni “sol” e 本 hon “origem, verdade, livro”. O nome Japão vem do nome chinês dado ao país, registrado por Marco Polo como Cipangu ou Zipangu, e através do malaio Jepang, registrado por comerciantes portugueses no séc. 16. (Alguns autores, no entanto, consideram que os próprios japoneses teriam dado nome ao país. No séc. 7, descontentes com a denominação Wa dada pelos chineses, teriam criado onome Jih-pen. [6, p. 15])

República Portuguesa ou Portugal. A região é habitada desde talvez uns 1,2 milhão de anos atrás, com a chegada dos primeiros hominídeos à Europa. Substituindo os neandertais (ou talvez se misturando com eles), os homens modernos ocuparam a região. Diversas tribos germânicas entre visigodos, ostrogodos, suevos e outros após a queda do Império Romano formaram
vários reinos cristãos independentes. Após a Reconquista, expulsando os mouros da península ibérica, o rei Alfonso 3o, de Leão, condeceu o condado de Portucales ao então duque galego Vímara Peres. Em 1095, declarou independência do Reino de Leão. Entre 1580 e 1640, constituiu com o Reino da Espanha a União Ibérica, sob uma única coroa. Entre 1808 e 1821, fugindo de Napoleão, a coroa portuguesa estabeleceu-se no Rio de Janeiro no vice-reino do Brasil. A partir de 1910 estabeleceu-se o republicanismo como forma de governo. Portugal vem de Portucales (através da forma Portugale), do latim Portus Cale, nome romano para a região do rio Douro. A denominação Cale é debatida. Alguns apontam para o grego καλλις kallis (“belo”) – os gregos estabeleceram colônias na região. Outro que viria do celta – antigos habitantes locais – cale ou cala, que significaria “porto” (e Portugal teria origem em um pleonasmo). [7, p. 55 e 215.]

Referências
[1] Lee,K.-B. &  Yi, K.-B. 1984. A new history of Korea. Harvard University Press. 474 pp.
[2] Channing, E. 2008. A short history of the United States. BiblioBazzar. 452 pp.
[3] Websters New World College Dictionary. 3rd ed.
[4] Palacios, E.J. 1922. De dónde viene el nombre de México, México- Tenochtitlan-Aztlán?
[5] Encina, F.A., and Leopoldo Castedo (1961). Resumen de la Historia de Chile. vol. 1. 4a. ed. Zig Zag.
[6] Cannon, G.H. &  Warren, N.W. 1996. The Japanese contributions to the English language […] Harrassowitz Verlag. 257 pp.
[7] Charnock, R.S.1859. Local etymology […] Houlston & Wright. 325 pp.

*Título de poema escocês de Robert Burns de 1788. Esc. Auld lang syne
= ing. old long since = port. há muito muito tempo.

Auld lang syne*… (2)

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Trem das Onze
Não posso ficar]
[
nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã,
Se eu perder esse trem
Que sai agora as onze horas
Só amanhã de manhã.

Além disso mulher
Tem outra coisa,
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar,
Sou filho único
Tenho minha casa para olhar
E eu não posso ficar.

Letra e música: Adoniran Barbosa.

Disclaimer: Sei que o ideal seria
se pudesse oferecere referências melhores – se não de material de
primeira mão, ao menos de artigos acadêmicos que analisaram tais
documentos ou, no máximo, de livros-textos da área -, mas acabei usando
como atalho, para esta série sobre os países participantes da Copa 2010,
referências terciárias – e que nem dizem respeito diretamente à questão
etimológica. Em muitos casos, a Wikipedia (anglófona, claro) foi
utilizada como material para consulta incial (procurei verificar por
fontes independentes mais confiáveis). Então fiquem ainda mais atentos
para o fato de que as informações podem não ser suficientemente acuradas
(eufemismo para incorreção).

Mas não tá cedo ainda?

Comunidade da Austrália (ing. Commonwealth of Australia). Os primeiros habitantes da região devem ter chegado entre 42.000 e 48.000 anos atrás – talvez por porções descobertas de terras durante o último glacial, quando o nível do mar era bem mais baixo do que atualmente. Os primeiros europeus avistaram e aportaram na ilha em 1606. Em 1770, James Cook mapeou parte da costa australiana e a reclamou para o Império Britânico. Em 1942, mas com efeito retroativo a 1939, a Austrália desvinculou-se constitucionalmente do Reino Unido. O nome vem do latim australis (“do sul” < auster “vento sul”; curiosamente, a base é a raiz proto-IE *aus- “brilhar a aurora”, que se conecta com a noção de “oriente”, como no ing. east) e a designação Australia foi oficialmente adotada pelo Almirantado Britânico em 1824. Os holandeses, naturalmente, tinham outro nome para a ilha-continente: Nova Holanda. [1]

República da Sérvia (sérvio Република Србија, Republika Srbija). Outro país surgido da fragmentação da Iugoslávia. Por volta do séc. 14, houve um Império Sérvio, mas conquistado pelos otomanos e depois pelos austro-húngaros. Após a Primeira Guerra, reuniu-se às demais nações eslavas austrais formando os estados iugoslavos. Com as várias guerras sangrentas de separação após o colapso da URSS, a união dissolveu-se. O próximo da província separatista é Kosovo, de maioria muçulmana albanesa. “Sérvio” > sérvio Срби, Sbri provavelmente se liga à base proto-IE *ser- “vigiar, proteger”. Acredita-se que as primeiras menções nos registros ocidentais aos sérvios seja de Plínio, o Velho, e de Ptolomeu, referindo-se aos Serboi, tribo sármata do cáucaso (embora outras interpretações seja que Serboi sejam os sorábios da Lusácia germânica ou aos sirácios do Mar Negro – a possibilidade de “sérvio” não ser um nome de origem eslava leva à especulação de que os sérvios – e os croatas – não sejam de origem eslava [2, pp: 56-7]).

Nova Zelândia (ing. New Zealand, maori Aotearoa). Os primeiros habitantes devem ter sido polinésios, por volta de 1250 a.C. O primeiro europeu a chegar às ilhas foi o explorador holandês, Abel Tasman, em 1642, que as batizou de Staten Landt (“terras dos Estados Gerais (Holandeses)”). Mas o massacre impostos pelos maoris à tripulação fez com que nenhum europeu aportasse por lá até 1769, quando James Cook alcançou as ilhas em sua expedição. Vários tratados foram estabelecidos com os maoris, até que, em 1840, o Império Britânico clamou para si a autoridade sobre as terras. Em 1947, foi considerado um país independente dentro da Comunidade Britânica. O nome Nova Zeelandia foi dado por cartógrafos holandeses, em referência à província nederlandesa da Zelândia (ned. Zeeland “terras do mar”, por se tratar de um conjunto de ilhas e penínsulas). Aotearoa (“terra das longas nuvens brancas”) era o nome dado pelos maoris para a ilha Norte, atualmente se refere a todo o país. [3]

República Italiana (it. Repubblica italiana) ou Itália. A região é habitada desde pelo menos o Paleolítico. Uma longa história dos etruscos e do Império Romano de desenvolveu – estendendo-se por quase toda a Europa e adjacências. Fragmentando-se em vários estados, o país foi unificado somente no início do séc. 19. Não se conhece a etimologia do nome, mas se especula que esteja ligado ao osco Víteliú (“terra dos bezerros”, compare com a palavra “vitela”), essa interpretação é reforçada por ser o touro símbolo das tribos do sul da região. [4, p. 208]

Reino da Dinamarca (din. Kongeriget Danmark). Indícios de ocupação humana na área correspondente à Dinamarca europeia continental datam de 130.000 a 110.000 mil anos atrás. Durante os séc. 8 a 11, os exploradores e guerreiros vikings estenderam os domínios dinamarqueses até a América. Durante a Idade Média e a Era Moderna, Dinamarca, Noruega e Suécia estiveram unidos em várias ocasiões sob um único governo, na União Kalmar. Eventualmente a união se desfez. A origem e significado de Danmark é bastante debatida. Uma versão bastante comum é que dan significa “terras planas” (ligado ao al. Tenne “eira” e ing. den “caverna, covil”) e mark “floresta ou fronteira” (ligado ao ing. marsh “marca”), alguns ligam ao nome do primeiro rei Dan. [5, p. 152]

República de Côte d’Ivoire (fr. République de Côte d’Ivoire) ou Costa do Marfim. A região é habitada desde pelo menos o começo do Neolítico. Diversos reinos, incluindo muçulmanos, floresceram na área antes do domínio europeu, que chegaram em 1483. Em 1843, a França assumiu o controle na forma de protetorado. Em 1960, o país conseguiria sua independência.Como o nome sugere, um importante produto explorado durante a era colonial foi o marfim. Atualmente o comércio é ilegal, mas a população local de elefantes encontra-se seriamente ameaçada – talvez com pouco mais de 500 indivíduos somente. [6, pp: 177-80.] Ing. “Ivory” e fr. “ivoire” do lat. eboreus “de marfim” < ebur, ebor “marfim” < egíp. ‘b, ‘bw âbu “elefante, marfim”. “Marfim” < ár. عظم الفيل aẓm al-fīl, “osso de elefante” (de عظم aẓm, “osso”e فيل fīl, “elefante”). [7, p. 168.]

Confederação Suíça (al. Schweizerische Eidgenossenschaft, fr. Confédération Suisse, it. Confederazione Svizzera, romanche Confederaziun Svizra, lat.Confœderatio Helvetica). Habitantes humanos – neandertais – estão presentes na região desde cerca de 150.000 anos a.C. O território já esteve sob domínio dos francos, do Sacro Império Romano e de diversas casas reais como a dos Savoia e dos Habsburgo. Durante a Idade Média, vários cantões uniram-se em uma confederação. Nessa época várias vitorias em batalhas deram origem à fama do exército suíço – a Guarda Suíça.  Em 1648, com o Tratado de Westfália, foi reconhecida a independência da Confederação Suíça em relação ao Sacro Império Romano e a condição de neutralidade nas guerras travadas entre os estados e nações europeias – neutralidade mantidade até os dias de hoje. Em 1798, a Suíça foi conquistada pelo exército napoleônico. Com a guerra entre a França e outras potências europeias: Rússia e Áustria, a Confederação readquiriu autonomia. Mas foi no Congresso de Viena de 1815 que a independência foi reconhecida e a neutralidade reenfatizada. “Suíça” vem do alemânico Schwiizer, referindo-se aos habitantes do cantão Schwyz, possivelmente relacionado ao Ant. Alto-Alemão suedan “queimar”. “Helvécia” e o lat. helvetica referem-se aos helvécios, tribo celta que, durante o Império Romano, ocupava o platô suíço, talvez ligado à raiz elw “muitos, ricos, numerosos”.

República de Honduras (esp. República de Honduras). Vários povos habitavam a região antes da chegada de Colombo às Américas. O principal foram os maias. Colombo aportou na costa hondurenha em 1502. Em 1821, obteve independência da Espanha em conjunto com outras regiões da América Central. Entre 1822 e 1838, integrou a República Federal da América Central. A origem do nome é alvo de disputadas. Em esp. honduras significa “profundezas”, e uma frase é atribuída a Colombo “Gracias a Dios que hemos salido de esas Honduras” [“Graças a deus saímos dessas profundezas”], mas não há registro de primeira mão. Uma explicação alternativa é que se ligaria ao leonense asturiano fondura “ancoradouro”. [8, p. 14.] Há um Rio Hondo (“rio fundo”) em Belize, não sei se teria alguma ligação com o nome. Até 1973, Belize era conhecida como Honduras Britânica, em oposição à Honduras Espanhola, que de
u origem à Honduras atual: que abarca a região oeste, que era conhecida como Higueiras até 1580, sendo Honduras reservada à região leste.
 

Referências
[1] Adamant Media. 2001. Early voyages to Terra Australis, now called Australia […] Adegi Graphics. 343 pp.
[2] Fine, J.V.A. 1991. Early medieval Balkans […] University of Michigan Press. 336 pp.
[3] Barber, L. 1989. New Zealand: a short history. California University. 252 pp.
[4] Herring, E. & Lomas, K. 2000. The emergence of states identities in Italy in the first millennium BC. University of London. 225 pp.
[5] Skovgaard-Petersen, K. 2002. Historiography at the court of Christian IV (1588-1648): […] Museum Tusculanum Press. 454 pp.
[6] Blanc, J.J. 2007. African elephant status report 2007 […] IUCN. 275 pp.
[7] Bassetto, B.F. 2001. Elementos de filologia românica. EdUSP. 380 pp.
[8] Tábora, J.M. 2002. Folklore y Turismo. Ed. Guaymuras. 143 pp.

*Título de poema escocês de Robert Burns de 1788. Esc. Auld lang syne = ing. old long since = port. há muito muito tempo.

Auld lang syne*…

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Valsa da Despedida

Adeus amor
Eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas onde eu for irei sentir
Os teus passos junto a mim

Estando em luta
Estando a sós
Ouvirei a tua voz.

A noite brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do seu.

Então na terra
Onde for
Viverá o nosso amor.

A luz que brilha em teus olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do teu.

No céu na terra
Onde for
Viverá o nosso amor.

Letra: João de Barro; Adaptação de composição de: Robert Burns


Disclaimer: Sei que o ideal seria se pudesse oferecere referências melhores – se não de material de primeira mão, ao menos de artigos acadêmicos que analisaram tais documentos ou, no máximo, de livros-textos da área -, mas acabei usando como atalho, para esta série sobre os países participantes da Copa 2010, referências terciárias – e que nem dizem respeito diretamente à questão etimológica. Em muitos casos, a Wikipedia (anglófona, claro) foi utilizada como material para consulta incial (procurei verificar por fontes independentes mais confiáveis). Então fiquem ainda mais atentos para o fato de que as informações podem não ser suficientemente acuradas (eufemismo para incorreção).


Já vai, já?

República dos Camarões (ing. Republic of Cameroon ou fr. République du Cameroun). Há uma longa história de ocupação do território. Mas o nome se deve ao explorador e navegador português que, em 1472, alcançou a foz do que é hoje denominado Rio Wouri em Douala – notando a abundância de crustáceos como lagostins e camarões, batizou o curso d’água de Rio Camarões ou Rio dos Camarões. Ao controle português, sucederam-os holandeses e alemães. Após a Primeira Guerra, franceses e britânicos partilharam o território: com o Camarão Francês à leste (ocupando 80% do território) e o Camarão Inglês à oeste – coletivamente as colônias seram chamadas de “The Cameroons“. Após a Segunda Guerra, Ahmadou Ahidjo proclamou a independência do lado francês – a 1o de janeiro de 1960. Em 1972, as colônias finalmente se reunificaram sob a República de Camarões. [1, p. 13]

República Democrática Popular da Coreia ( 조선민주주의인민공화국, 朝鮮民主主義人民共和國 Chosŏn Minjujuŭi Inmin Konghwaguk) ou Coreia do Norte. A península da Coreia é ocupada desde pelo menos o paleolítico superior. Até 1905, com a Guerra Russo-Japonesa, toda a península era governada pelo Império Coreano. O Japão anexou a Coreia, perdendo-a após a Segunda Guerra. O território foi dividido em uma área sob o comando soviético e uma sob o comando americano – divididos pelo paralelo 38. Em 1950, iniciou-se uma guerra entre as Coreias, com a Coreia do Norte, comunista, buscando a unificação – a tentativa foi frustrada pela intervenção americana em favor da porção sul. Em 1953 foi declarado um armistício que dura até hoje – formalmente a guerra nunca foi encerrada. O nome Coreia provém da dinastia Goryeo ou Koryŏ, que governou a península de 918 a 1392. Chosŏn vem do Reino de Gojoseon, que teria sido fundado em 2333 a.C. e da Dinastia Joseon (1392-1897) – a primeira referência escrita é nos documentos chineses, que denomina a região de Chaoxian (Chosŏn é a pronúncia coreana): de chao “manhã, aurora” e xian “fresco, calmo”, pela posição a leste do país em relação à China (na direção da manhã). [2, pp: 16-7]

República da África do Sul (ing. Republic of South Africa, afrik. Republiek van Suid-Afrika, ndeb. iRiphabliki yeSewula Afrika, xhosa iRiphabliki yaseMzantsi Afrika, zulu iRiphabliki yaseNingizimu Afrika, n. sotho Rephaboliki ya Afrika-Borwa, sotho Rephaboliki ya Afrika Borwa, tswana Rephaboliki ya Aforika Borwa, swati iRiphabhulikhi yeNingizimu Afrika, venda Riphabuḽiki ya Afurika Tshipembe, tsonga Riphabliki ra Afrika Dzonga). Humanos modernos habitam a região desde pelo menos 100 mil anos atrás. Em 1487, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas, rebatizado posteriormente de Cabo da Boa Esperança. A região dá nome à Cidade do Cabo. Foi ocupada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. No século 19, ocorre a Guerra dos Boeres, em que os colonos descendentes de holandeses, alemães e franceses, enfrentaram o poder britânico por minas de diamante. Em 1910, foi declarada a independência do Império Britânico, efetivada em 1931. De 1948 a 1994 vigorou a política do apartheid (do afrik. “separação”), política oficial de segregação racial. Em 1994, Nelson Mandela foi eleito presidente. E desde então a África do Sul foi readmitida na comunidade internacional – suspensa em diversos órgãos e competições internacionais pela política racista. A etimologia do termo “África” é controversa. Afri (plural de Afer) é a denominação dos romanos para diversos povos ao sul do Mediterrâneo; o historiador Flavius Josefo associava a denominação ao neto de Abraão, Efer, cujos descendentes teriam colonizado a Líbia; Leo Africano considerava que seria ligado ao grego Αφρική Aphrike (a “não” e phrike “frio, horror” – portanto “sem frio”) e várias mais foram propostas. South vem o ing.ant. suð (“do sul”), provavelmente com base no proto-germânico *sunthaz, de onde viriam o al. Süd, Süden, o fr. sud, o esp. sur, sud e o port. sul – por empréstimo das línguas germânicas. [3, 4]

República Francesa (fr. République française) ou França. Francia era a denominação da região norte da Europa dominada pelos francos. O nome do povo pode ter se originado do proto-germânico frankon “um tipo de lança ou machado de atirar” ou do termo germânico para “livre” (em oposição aos eslavos, povos escravizados na Europa Central). A área do território atual da França correspondia mais ou menos à região romanda da Gália, povoada pelos celtas gauleses (sim, quem lê “Asterix e os Gauleses” saberá), chamada pelos romanos de Gallus – daí, certamente, o galo ser símbolo nacional da França. [5, p. 42]

República Helênica (gr. Ελληνική Δημοκρατία Ellīnikī́ Dīmokratía) ou Grécia. Do lat. Græci (“helenos”), gr. Grakoi. Segundo Aristóteles Graikhos provinha de Graii, como se denominavam os dóricos de Épiro. Ελλάς Hellas, como os gregos chamam a seu país, deriva da tribo que habitava a região da Tessália, os Helli ou Selli [6, pp: 39-40]. Os turcos denominam a Grécia de Yunanistan (“terra dos jônios”), enquanto árabes e hindus se referem a Yunan. [5, p. 57]

República Federal da Nigéria (ing.Federal Republic of Nigeria). A região é ocupada desde pelo menos 10.000 a.C. Diversos reinos se sucederam como o de Calabar, os estados de Igbo, o reino de Nri, o Império Songhai… Nos fins do séc. 19 e início do séc. 20, o Império Britânico invadiu a região, criando a Colônia e Protetorado da Nigéria. Em 1960, a Nigéria declarou independência. O nome provém do Rio Níger (que também dá o nome ao país vizinho mais ao norte, Níger). Especula-se que o nome do rio provenha do tuaregue ngher, abreviação de egereou n-igereouen de (egereou “rio grande, mar” e n-igereouen plural de egereou) e não do latim niger “negro” (suas águas não são escuras e, apesar dos povos nas proximidades serem de pele negra, nenhum outro rio da África Negra recebeu denominação similar – mas poderia ser o caso disso ter ocorrido por ser dos primeiros locais fora do norte da África explorada pelos navegadores europeus). [7]

República da Eslovênia (esloveno Republika Slovenija). É um dos países resultantes da desintegração da Iugoslávia. Apesar de sua história recente como unidade política autônoma, a identidade de uma nação eslovena existe de longa data – desde pelo menos o séc. 16. A região é ocupada desde cerca 250 mil anos atrás, pelos neandertais. Os eslavos devem ter chegado por volta do séc. 6. Slověně “tribo eslava oriental” vem possivelmente do eslavo sláva “glória, fama” ou de slovo “ouvir” (nesse último caso, slověně significaria originalmente “povo que fala (a mesma língua)”. Há outras especulações sobre a origem do termo eslavo, como que seria afim à raiz proto-I.E. *(s)lawos “povo, pessoas”. [8, p. 310-1]

República Argelina Democrática e Popular (ár. الجمهورية الجزائرية الديمقراطية الشعبية Al-Yumhūriyya al-Yazāiiriyya ad-Dīmuqrāţiyya ash-Sha`biyya; tamazight Tigduda tamegdayt taɣerfant tažžayrit; fr. République Algérienne Démocratique et Populaire) ou Argélia. Na Antiguidade, os povos númidas desenvolveram um importante reino. Os habitantes locais acabaram por originar os bérberes atuais. O comando passou das mãos dos conquistadores espanhóis para o do Império Otomano e depois para o jugo francês. A independência foi conquistada em 1962. O nome do país deriva do nome de sua principal cidade e capital: Argel (fr. Alger, ár. الجزائر al-Jezair “as ilhas”, possível contração de جزائر بني مازغان jazā’ir banī mazghanā “as ilhas de Mazghanna” como denominados por geógrafos medievais árabes – referência às ilhas próximas às costas, onde devem ter sido instalados os primeiros portos). [9, p. 54] 

Referências
[1] Collins, H.T.M et al. 1993. Destination: Cameroon. Diane Publishing. 58 pp.
[2] Seth, M.J. 2006. A concise history of Korea. Rowman & Littlefield. 257 pp.
[3] Beck, R.B. 2000. The history of South Africa. Greenwood Publishing. 248 pp.
[4] Ross, R. 2008. A concise history of South Africa. Cambridge University Press. 251 pp.
[5] Taylor, I. 2005. Words and places […] Read Books. 392 pp.
[6] Mure, W. 1854. A critical history of the language and literature  of ancient Greece. vol. 1. Longman.517 pp.
[7] Niger. Online Etymology Dictionary.
[8] Quiles, C. 2007. A grammar for modern Indo-European […] Indo-European Association. 389 pp.
[9] Ring, T.; Salkin. R.M. & La Boda, S. 1996. International Dictionary of Historic Places: Middle East and Africa. vol. 4. Taylor & Francis. 900 pp.

*Título de poema escocês de Robert Burns de 1788. Esc. Auld lang syne = ing. old long since = port. há muito muito tempo.

Assim (não) é, (nem) se lhe parece…

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Aſsi como em todas couſas humanas há continua
mudança, aſsi he tambem nas lingoagêns.

(Dvarte Nvnez de Lião, 1606)

Preconceito é um pré-conceito?

Philip Durkin, etimólogo-chefe da Oxford English Dictionary, define assim “falácia etimológica”:

“[…] is the idea that knowing about a word’s origin, and particularly its original meaning, gives us the key to understanding its present-day use.” [“[…] é a ideia de que conhecer a origem das palavras, e particularmente seu significado original, dá a nós a chave para entender seu uso atual.”], e segue: “Very frequently, this is combined with an assertion about how a word ought to be used today: certain uses are privileged as ‘etymological’ and hence ‘valid’, while others are regarded as ‘unetymological’ and hence ‘invalid’ (or at least ‘less valid’).” [“Muito frequentemente, isso é combinado com uma afirmação sobre como uma palavra deve ser usada hoje em dia: certos usos são privilegiados como ‘etimológicos’ e, portanto, ‘válidos’, enquanto outros são considerados como ‘não-etimológicos’ e, portanto, ‘inválidos’ (ou ao menos, ‘menos válidos’).“] [1, p. 27.]

Um exemplo de falácia etimológica é a própria falácia etimológica. Se fizermos a etimologia da palavra ‘etimologia’, verificamos que ela vêm do grego ετυμολογίαetumología‘, de έτυμοsétumos‘ (‘verdade, verdadeiro’) e λόγοs ‘lógos’ (‘palavra, discurso’), para os gregos antigos era mesmo o ‘estudo dos significados e formas verdadeiros das palavras’. Mas hoje entende-se a etimologia somente como o ‘estudo da origem e evolução das palavras’.

Outro exemplo muito frequente é a palavra ‘preconceito’. No meio da discussão sobre, digamos, preconceito racial, alguém saca: “Mas preconceito é *pré*-conceito, eu tenho é *pós*-conceito”. Em sua origem preconceito vem mesmo de ‘pre’+’conceito’, um conceito formulado anteriormente. Mas repare que, de um lado isso não pode ser levado muito a sério: não costuma ser viável se ter um conceito formulado a respeito de algo do qual jamais se ouviu falar antes. De outro, o significado em ciências sociais é diferente, não depende de uma preconcepção, trata-se tão somente de uma ‘visão, geralmente negativa, injustificada a respeito de um indivíduo por pertencer a um determinado grupo social’ [2], não depende de haver ou não um contato prévio na formulação dessa opinião.

Ou podemos pensar na palavra ‘prejuízo’. Seu sentido mais comum no português contemporâneo é de dano, perda. Ninguém dirá que ‘arcar com o prejuízo’ signifique pagar por ter sido preconceituoso. Salvo em inglês, em que ‘prejudice‘ tem o mesmo sentido de ‘preconceito‘.

A lista é extensa, quase inesgotável. ‘Formidável’ vem do latim formidabilis ‘terrível’ (> formidare ‘temer’ > formido ‘terror, fantasma’) e, em geral, é algo positivamente admirável (ainda que haja uma acepção que conserva o sentido original). Mesmo ‘terrível’, com frequência é usado em um sentido positivo: “Ele é terrível com a bola” pode muito bem significar que o jogador é muito habilidoso e não um perna-de-pau. Ou ‘sinistro’ que também tem sido usado em um sentido positivo. Esses exemplos nos mostram não apenas que as palavras mudam de sentido – sem que a derivação do sentido original signifique que os novos sentidos sejam errados -, mas que é um fenômeno que não está restrito a um passado remoto. Podemos organizar esses exemplos em grau de modificação de sentido – adquirindo um sentido de certo modo oposto ao original – do já consolidado ao ainda em processo incipiente: formidável, assombroso, espantoso, terrível, sinistro. (Aparentemente há uma necessidade vocabular de expressar a admiração em nível hiperbólico – algo que de tão bom chega a assustar – e à medida em que a expressão anterior se consolida no novo uso, perde essa vivacidade, então uma nova expressão ainda com significado de ‘algo que mete medo’ é cooptada. Edmund Burke, por certo, acharia isso sublime [3, 4].)

As palavras também podem derivar de sentido para o lado negativo. ‘Ordinário’, inicialmente, é simplesmente ‘algo comum, dentro da ordem natural das coisas’, ‘medíocre’, também originalmente, é apenas ‘algo mediano’ – mas a carga negativa atualmente é a mais comum: “Seu ordinário” é uma ofensa e “desempenho medíocre” é uma avaliação ruim.

Ou quando alguém diz: “fui de carro até o trabalho”, ninguém imagina que a pessoa foi de carruagem. “Carro” vem do lat. carrus ‘veículo romano, ou celta, de duas rodas, puxado a cavalo, usado em batalhas’ (que por sua vez deve ter vindo do celta ou do gaulês ‘karros‘ < proto I.E. *kers- “correr”). O sentido de veículo de rodas a tração animal ainda é mantido em certos usos: como “carro de boi”, e o sentido mais geral de veículo sobre rodas é empregado, por exemplo, em empresas de ônibus, que referem aos veículos como carros. Naturalmente, não faz sentido afirmar que carro não possa ser usado como sinônimo de automóvel de passageiro.

“Simpósio” vem do grego συμπόσιον,ou sumpósion,ou (“banquete, festim” < συμπίνω sumpínō “beber junto” < συμ sum “junto” e πίνω “beber”). Mas um simpósio técnico não precisa ser um festim (ainda que, em geral, haja uma confraternização em um bar, isso não faz parte do programa) – um simpósio de combate e prevenção do alcoolismo não é um oxímoro.

“Escravo” vem do lat. sclavus, slavus (do gr. biz. ‘sklábos‘, ‘sklabénós‘ < eslov. ‘Slověninŭ‘ < ‘Slověnci‘ “povo famoso” < proto-I.E. *kleu- ‘ouvir’)  referências aos Sclāvus
‘eslavos’  (principais povos escravizados na Europa Central durante a
Idade Média por germânicos e bizantinos). Ninguém vai imaginar que não se possa aplicar o termo para se referir aos cativos de origem africana nas Américas.

Se as origens não necessariamente têm a ver com os significados atuais das palavras, para que serve a etimologia afinal de contas? E o que legitima ou não o uso com este ou aquele significado? Abordarei isso em oportunidades futuras.

Mas se alguém então lhe disser que não é preconceituosa em relação a um grupo de pessoas porque ela tem um pós-conceito, diga-lhe: assim não é, nem se lhe parece.

Referências:
[1] Philip Durkin. The Oxford Guide to Etymology, 2009. Nova Iorque: Oxford University Press. 347 pp.
[2] Tommy Boone. Dealing with prejudice.
[3] Edmund Burke. A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful.
[4] Andrea Peixoto. Sublime.

Todos os nomes*…

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Poema para Luís de Camões
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum.
Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

(José Saramago in ‘Provavelmente Alegria‘)

E qual designa a perda maior?

José de Sousa Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/nov/1922 – Lanzarote, Canárias, 18/jun/2010) escritor português, Nobel de Literatura de 1998 e Prêmio Camões de 1995.

José, do lat. Ioseph < gr. ΙωσηφIoseph‘ < heb. יוֹסֵף ‘Yosef’ (“ele acrescentará”). É um nome bíblico por excelência, embora o escritor tenha sido ateu, fiel ao seu materialismo comunista. Esp. José, fr. Joseph, ing. Joseph.

Sousa < Souza. Originalmente topônimos de várias localidades da Península Ibérica. Correspondente ao esp. Sosa. Algumas fontes especulam que teria origem no port. ant. sausa (“pântano salgado”) do lat. salsa, us “salgada,o”.

Saramago (ár. سارماق ‘sarmaq‘ – mas essa denominação em árabe é aplicada para outras plantas, em especial da família das Amaranthaceae [1,2]), rábano-silvestre, nabiço ou cabresto (Raphanus raphanistrum L.), espécie selvagem da qual procedem os rábanos cultivados. Esp. rabanillo, fr. ravenelle, ing. wild radish. Planta amarga a que os interioranos de Portugal se voltavam em tempos de safras magras. O pai de José Saramago chamava-se José de Sousa e – por motivos um tanto discutidos – acrescentou a alcunha de Saramago (algumas fontes dizem que se tratava de um epíteto insultoso; outras, que foi uma autodenominação voluntária). [3]

Em “Pequenas Memórias”, o nobelista descreve o registro de seu nome:
Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamado ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai) e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lacônico José de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.” [Nota: em Portugal, “apelido” tem o significado de “sobrenome”; no Brasil, é o mesmo que “alcunha”.]

E ele acrescentou o sal na amargura da vida.

Referências
[1] R.A. Blackelock. 1950. The Rustam Herbarium, ‘Iraq. Part IV.
[2] J. Aquilina. 1973. Maltese Plant Names.
[3] José Saramago. Autobiography.

*Todos os nomes, nome do romance de José Saramago de 1997.

One Cup, three billion hearts…*

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O anjo das pernas tortas
A Flávio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita

Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

Rio de Janeiro, 1962

(Vinicius de Moraes in ‘Livro de Sonetos‘)

Todos juntos na mesma emoção?

A Fifa estima que a audiência televisiva acumulada da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha foi de cerca de 26 bilhões de telespectadores, ou mais de 400 milhões por jogo. E acredita que esse será o tamanho da audiência da Copa 2010 na África do Sul. [1] Uma audiência que perde apenas para os Jogos Olímpicos: em 2008, em Pequim, a audiência acumulada total estimada foi de 40 bilhões e 4,7 bilhões de telespectadores únicos [2, 3]. Fazendo uma extrapolação linear, a audiência da Copa do Mundo de Futebol alcança um universo de 3,06 bilhões de pessoas – nenhum esporte isoladamente atrai tanto público.

A história oficial (adotada pela Fifa [4]) reconhece tsu’chu (蹴鞠 cùjú – cù ‘chutar’ e jú ‘bola de couro’) como um precursor do futebol. Como o conhecemos, o futebol derivou de um jogo com diversas variantes e que daria origem também ao rúgbi. (A rigor, futebol é uma designação genérica de diversos
esportes aparentados.) A maior parte das transformações com sucessivos códigos de regras deu-se na Inglaterra. Pelo código de Cambridge, introduziram-se o chute a gol, o passe para a frente, a lateral e o impedimento de se correr enquanto a bola era segura pelas mãos. Sim, o jogo era jogado a maior parte do tempo com as mãos e ainda assim era chamado de futebol – football de foot ‘pé’ e ball bola – segundo alguns autores, em oposição a jogos de montaria como polo; era jogado a pé (isso explicaria que jogos em que o contato com o pé seja proibido tenham sido denominados football, mas muitas palavras calcadas empregam termos equivalentes a ‘pontapé, chute’ na composição da palavra). A antiguidade do termo foot-ball, sendo o primeiro registro datado de 1423-1424 [5] (em uma lei que o proibia!), atesta a antiguidade de suas raízes mesmo na Europa). A formação do The Football Association na Inglaterra com suas regras (as Laws of the Game, ‘Regras do Jogo’ – pouco modificada até os dias de hoje), em 1863, demarca a origem do futebol moderno – que é designado association football, mas, dada sua proeminência ante às demais codificações, é conhecido simplesmente como football e formas variantes. Em uma corruptela com a palavra ‘association‘, surge na Inglaterra, em fins do século 19, a variante assoccer – em 1899, a variante é encurtada ainda mais para soccer, enquanto o rúgbi era chamado de ‘rugger‘. Mas na Inglaterra o futebol é designado mesmo como football. (Nos EUA, soccer continua a designar futebol e football é usado para se referir ao futebol americano. Na Austrália, há o futebol australiano que chamam de Australian (rules) football e o futebol é football mesmo, sendo chamado também de soccer [6-7] – mas footbal pode designar diferentes modalidades/codificações a depender da região.)

Na Itália o jogo é denominado de calcio (‘chute’), do lat. calceus (‘calçado’) > calx, cis (‘calcanhar’) desde os tempos da encarnação medieval do ancestral do futebol. [O calcio fiorentino ainda é jogado em festivais (no jogo a bola pode ser impulsionada com as mãos e com os pés, o número de jogadores depende do tamanho do campo e há dez juízes). O termo calcio apoia a interpretação predominante de que o significado original de footbal associava a condução da bola com os pés.] Na maioria das demais línguas, ou se emprega por empréstimo direto o termo football – a prática se espalhou pelo mundo por intermédio dos trabalhadores ingleses nas diversas colônias do Império Britânico e das companhias transnacionais, ou ocorre uma adaptação fonética ou é traduzido com termos equivalentes para ‘pé’ e ‘bola’. Os franceses, tão ciosos de sua língua a ponto de sugerir um logiciel como substituto de software, adotam football sem modificações – e uma das revistas mais conceituadas sobre o esporte é a France Football [8]. Esp. fútbol, ale. Fußbal (os alemães empregam football para se referir ao futebol americano), neerl. Voetball, os japoneses fizeram apenas uma transliteração (com as
adaptações fonéticas próprias): フットボール ‘futtobōru’ (ou também サッカー
‘sakkā’, de soccer) – houve uma tradução com o termo 蹴球(しゅうきゅう) ‘shūkyū’ (shū ‘chute’ e ‘kyū’ bola), mas quase nunca é usado – o primeiro caracter é o mesmo de cùjú -; ao contrário do coreano, que utiliza os mesmo caracteres chineses, ou na forma dos caracteres coreanos: 축구 ‘chukgu’) -, rus. Футбол ‘futbol’, ind. फ़ुटबॉल ‘fu.tbôl’. No chinês, 足球 ‘zúqíu’ (zú ‘pé’ e qíu
‘bola’ – repare que o caracter para bola é o mesmo para o japonês, com pronúncia próxima), curiosamente, é uma tradução de football e não uma variação do cùjú como seria esperado (mas isso pela tradição ter se perdido no tempo e haver sido reintroduzida por meio dos ingleses),o mesmo ocorrendo no grego, com ποδόσφαιρο (podósfero de pous,podós ‘pé’ e sfairo ‘bola, esfera’) e não uma variação de ἐπίσκυρος (epískyros) ou φαινίνδα (phenínda) – jogos gregos antigos ligados à origem do futebol (em sentido amplo). Em finlandês: jalkapallo (jalka ‘pé, perna’ + pallo ‘bola’), os islandeses têm knattspyrna (knöttur ‘esfera, bola’ + spyrna ‘chute’) e também fótbolti (curiosamente knattspyrna é uma palavra de gênero feminino e fótbolti, masculino). Ár. كرة القدم (kúrat al-qádam) (kúrat ‘bola’ + al ‘de’ + qádam ‘pé’), heb. כדורגל (kadurégel) (kadur ‘bola’ + régel ‘pé’). Os croatas, sérvios e bósnios (que usam a mesma língua, mas a chamam de croata, sérvio e bósnio) dizem nogomet (nòga ‘perna’ + suf. -met ‘si mesmo’) – os bósnios e sérvios usam também fudbal, mas os sérvios escrevem em cirílico ногомет ‘nogomet’ e фудбал ‘fudbal’. Em turco, há a forma futbol e também ayaktopu (ayak ‘pé’ + top ‘bola’). Em guarani vakapi ‘pele, couro de vaca’ é usado para se referir ao jogo.

Para o português foram propostas várias alternativas: balípodo (gr. bállo ‘lançar’), ludopédio (lat. ludus, i ‘jogo’ + gr. pedíon, ou ‘planta do pé’), pedibola (lat. pes,pedis ‘pé’), podabolismo, bolapé, pebol… Obviamente nenhum pegou. O futebol na acepção moderna adentrou ao nosso léxico já em 1889 – na forma foot-boll -, em 1899 escrevia-se foot-ball (por isso muitos clubes brasileiros nascidos no início do século 20 têm como parte de seu nome oficial essa forma – como o Grêmio Foot-ball Porto Alegrense de 1905, Coritiba Foot Ball Club de 1909, o Santos Futebol Clube foi fundado em 1912 com a denominação de Santos Foot-ball Clube) e a forma futebol consolidou-se em 1933 (o São Paulo Futebol Clube é de 1935). [5]

Três bilhões de apaixonados incorrigíveis. E possivelmente outro tanto de ressentidos figadais: mas que talvez tenham um pouco de futebolite não-diagnosticada – ao menos entre aqueles que desejariam praticar o cùjú com o couro dos que assopram entusiasticamente suas vuvuzelas.

[1] Gleeson. No TV audience increase expected for 2010 World Cup. Reuters.

[2] Beijing Olympic Broadcasting. Beijing 2008.
[3] The final tally… Nielsen.
[4] Fifa History of Football. Fifa.
[5] Houaiss. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. V. 1.0.5a.
[6] Australian Football. Australian Institute of Sport.
[7] Football. Australian Institute of Sport.
[8] France Football. L’Equipe.

*”Uma Copa, três bilhões de corações”: Referência mashup de um clipe de filme altamente não recomendável e de um documentário oficial – “Two billion hearts” (“Todos os corações do mundo”) – sobre a Copa 1994, nos EUA, (a audiência única estimada na época era de dois bilhões de pessoas), dirigido por Murilo Salles.

Você me conhece…

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O lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
(Carlos Drummond de Andrade in ‘Poesia Completa‘)

Disclaimer necessário:

Não sou filólogo, não tenho formação em Letras, não trabalho na área. Sou apenas um leigo curioso a respeito da origem e significado das palavras, bem como sua evolução e relações – poderá notar que esse viés é totalmente atribuível à minha formação. Sim, sou formado em Ciências Biológicas. Mas antes que bradem: “mais um!”, quero acalmar a todos dizendo que não pretendo aqui, neste Scienceblogs Brasil e sua comunidade, onde tenho a partir de agora a honra de blogar, criar e manter um blogue sobre Biologia. O SBBr está muito bem servido de uma equipa incrivelmente capacitada de profissionais da área. Até por isso, quando me inscrevi no concurso para novos blogues, procurei apresentar um projeto distinto: um que dissesse respeito à etimologia de expressões, não necessariamente científicas, usadas em nosso dia-a-dia ou em jargões.

Pretendo fazer uma pesquisa decente para embasar meus textos, mas não pretendo infalibilidade. Ao contrário, conclamo aos leitores que sejam críticos em relação às informações que eu apresentar neste espaço (ou em qualquer outro), aliás, como deve ser em relação a qualquer outra fonte de informação.

Com este alerta e agradecendo imensamente à equipa do SBBr pela oportunidade, além de dar os parabéns aos demais novos sciblings (Amigo de Montaigne, Fernanda Poletto/Bala Mágica, Roberto Berlinck/Quiprona – a esta altura já bem estabelecidos) e aos colegas tuboensaístas: Aninha Arantes e ‘drn1978’, e vamos então à primeira postagem.

Eu te conheço?

Γνῶθι σεαυτόν (‘gnōthi seauton‘), conhece a ti mesmo, estaria inscrito sobre o portão de entrada do Templo de Apolo em Delfos[1]. Sua tradução para o latim “nosce te ipsum” inspirou incontáveis obras. Do poema do poeta inglês John Davies ,”Nosce teipsum” (“teipsum” junto), de 1599 [2], à música de uma improvável banda italiana neo-clássica com toques de folk, Ataraxia, “Nosce te ipsum” (“te ipsum” separado), faixa do álbum “Ad perpetuam rei memoriam” [3].

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África: Memórias, Presente e Futuro

Selo da Blogagem Científica da África
por Maira Begalli.
Lembro das primeiras impressões que tive sobre ‘África’, na minha infância. As imagens fortes ecoam na minha mente até hoje: crianças mutiladas por minas, a AIDS, a miséria, a violência, o Apartheid. Também tenho lembranças dos documentários sobre os parques nacionais como o Serengueti, por exemplo.
Apesar de ter estudado um pouco sobre as características da biodiversidade do imenso continente, considerava a realidade africana algo distante da minha, ocidental. Porém, em 2000, durante o meu segundo curso graduação, em Jornalismo, isso mudou.
Na época elaborei um seminário sobre “O Processo de Descolonização dos Países em Desenvolvimento”. Durante um semestre, tive o privilégio de entender como as relações internacionais e as manobras políticas
pré-Desmoronamento (de Berlim, em 1989) estavam diretamente relacionadas aos impactos sociais e ambientais que ocorrem lá atualmente – mas refletem no mundo todo.
Entre 1880 e 1914, o continente africano foi palco de disputas de nações européias que visualizavam a exploração do território e dos recursos naturais. Tal advento foi batizado como “neo-imperialismo”, um período em que a África sofreu domínio territorial, econômico e cultural, principalmente, por parte do Reino Unido e da França.
Além das práticas realizadas pelos imperialistas europeus, no final da Idade Média (apropriação territorial, militar e econômica), os “neo-imperialistas” ignoraram as tradições, as disputas e as tradições dos africanos, suprimindo inteiramente os direitos de quem lá vivia. Literalmente “retalharam” o mapa do continente segundo interesses comerciais. Forjaram nações, unindo povos inimigos, separando
famílias, reorganizando funções de trabalho (tanto é que muitos senhores se tornaram servientes de seus antigos servos).
Porém, com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os países neo-colonos iniciam um processo de “descolonização”, graças ao estado caótico que o mundo se encontrava (tanto físico, como financeiro). Assim, os antes interessados nas maravilhas do grande continente, deixaram as pseudo-nações, sem parâmetros e sem diretrizes sócio-culturais em comum.
Foi nesse período que despontou um dos regimes oficiais mais violentos da história, o Apartheid.  A política de segregação racial, que começou em 1948 e terminou em 1990, criou premissas de exclusão e medo: apenas os brancos eram considerados cidadãos e tinham seus direitos civis assegurados. E, por mais de 40 anos, milhares de africanos foram reféns dessa situação que ilustra a frase, de Indira Gandhi: ” O pior tipo de poluição é a miséria”.
África. Ontem, continente super populoso, sem acesso a educação, saneamento básico, saúde, sem políticas democráticas. Hoje, o continente que nos relatórios do clima aparece com uma das áreas que será mais afetadas pelos efeito do aquecimento global – acelerado principalmente pelas ações predatórias dos seus ex-neo-colonizadores. Segundo dados fornecidos pelo Green Peace, cerca de 180 milhões de habitantes da região subsaariana poderão morrer até o final deste século, por causa das chuva imprevisíveis, da redução de terras agrícolas, e dos recursos naturais.
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