Memorial à Ivar Lovaas: Como nasce Рe cresce Рuma ciência.

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Por Aninha Arantes, dO Div√£ de Einstein

Este post é uma tradução, autorizada pelo autor, de dois comentários à nota de falecimento do Professor Ivar Lovaas, pioneiro da Análise do Comportamento Aplicada e um dos maiores pesquisadores e difusores do Método ABA para o tratamento de pessoas com autismo e outros déficits cognitivos.

Ole Ivar Lovaas nasceu na Noruega, mas desenvolveu seus trabalhos na UCLA (University of California in Los Angeles), onde fundou um centro para tratamento de autistas: o The Lovaas Institute. Foi um dos maiores pesquisadores do autismo e responsável pelo desenvolvimento de um dos métodos mais bem sucedidos e recomendados (inclusive pela Associação Médica dos EUA) para a reinserção social e adaptação de pessoas com autismo. O texto a seguir é de autoria do Professor James T. Todd, do Departamento de Psicologia da Eastern Michigan University, e foi publicado originalmente em resposta a um comentário de uma leitora no Autism Blog, de Lisa Jo Rudy, no dia 4 de agosto deste ano Рdois dias depois da morte de Lovaas. Republico aqui, traduzido, o que acho a mais concisa e objetiva explicação de como as descobertas experimentais de vários cientistas se acumulam e se completam para dar suporte a tecnologias que melhoram a vida das pessoas.

“O Behaviorismo, como uma filosofia espec√≠fica da ci√™ncia, foi inicialmente desenvolvido por John B. Watson nas primeiras d√©cadas do s√©culo XX. O principal objetivo de Watson era tratar o comportamento objetivamente, usando as t√©cnicas da ci√™ncia natural. O comportamento dos organismos √© o resultado natural de sua hist√≥ria gen√©tica e interacional. Uma abordagem completa do comportamento pode ser encontrada na an√°lise completa desses fatores. Watson nunca desenvolveu completamente muitos aspectos cr√≠ticos do seu Behaviorismo, apenas apontou a necessidade de uma maior sofistica√ß√£o na abordagem, antes de entrar para a carreira publicit√°ria. A devo√ß√£o de Watson ao condicionamento pavloviano e a rejei√ß√£o qualificada da Lei do Efeito, de Edward Thorndike (que descrevia os efeitos de recompensas e puni√ß√Ķes) deixou sua formula√ß√£o sem os princ√≠pios comportamentais necess√°rios para dar conta, minimamente, dos comportamentos mais complexos. Os equ√≠vocos sobre determinados aspectos de sua teoria metaf√≠sica, especialmente na an√°lise do comportamento privado – como o pensamento – levaram muitas pessoas a ver o seu Behaviorismo como irremediavelmente mecanicista e superficial, apesar de haver maior profundidade do que √© aparente em uma primeira leitura. H√° muitos outros nomes associados ao Behaviorismo precoce, tais como Albert Weiss e Knight Dunlap, cujas id√©ias foram, de certa forma, mais completamente desenvolvida do que as de Watson. Faltava-lhes a verve ret√≥rica de Watson, e suas opini√Ķes agora v√™m at√© n√≥s, em grande parte, como informa√ß√Ķes hist√≥ricas incidentais. Ao considerar as contribui√ß√Ķes de Watson para a Psicologia, √© melhor ignorar totalmente o par√°grafo obrigat√≥rio e superficial que vemos nos cap√≠tulos iniciais dos livros de introdu√ß√£o √† Psicologia, e mesmo em Hist√≥rias da Psicologia de n√≠vel um pouco superior. Ao contr√°rio do que essas obras podem levar a crer, suas reais contribui√ß√Ķes ajudaram a estabelecer a Psicologia como uma disciplina acad√™mica distinta da Filosofia e da Biologia, e a tornar a observa√ß√£o objetiva do comportamento o dado padr√£o em toda a Psicologia (mesmo em √°reas como a psicologia cognitiva, que n√£o estendem a objetividade para a teoriza√ß√£o), ajudando no estabelecimento do condicionamento pavloviano como base dos tratamentos para transtornos de ansiedade.

Come√ßando em 1920, e continuando at√© a sua morte em 1990, BF Skinner ampliou e elaborou as formula√ß√Ķes de Watson, legando-nos o “Behaviorismo Radical” que n√≥s associamos a ele at√© hoje. (“Radical”, aqui, significa “raiz” ou “fundamental”, e n√£o “extremo”.) Basicamente, a abordagem de Skinner abrange todos os comportamentos, incluindo a parte dos comportamentos que √© privada ao indiv√≠duo, tais como sentir e sonhar, e trata-os como eventos reais e objetivos existentes no tempo e no espa√ßo. (Sim, pensar, sentir e sonhar est√£o dentro do escopo do sistema de Skinner, n√£o importa o que os textos introdut√≥rios dizem). Nesse sentido, Skinner concorda com Watson: o comportamento √© o que surge quando hist√≥rias gen√©ticas e ambientais de um organismo se encontram com os eventos atuais. A An√°lise do Comportamento consiste em encontrar, na hist√≥ria do organismo, os eventos que se relacionam ordenadamente com o comportamento presente. Skinner, √© claro, enfatizou a import√Ęncia do “condicionamento operante”, essencialmente uma vers√£o muito mais sofisticada da Lei do Efeito de Thorndike. Tanto o condicionamento pavloviano, quanto o condicionamento operante estavam, ent√£o, dispon√≠veis para descrever uma quantidade surpreendente de comportamentos dos organismos, que podiam ser previstos e controlados com uma precis√£o tipicamente associada com as hard sciences. A enorme variabilidade nos dados dos comportamentos, previamente proveniente de estudos com labirintos e outras t√©cnicas, foi transformada em curvas muito suaves e regulares, demonstrando a realidade das “leis do comportamento”. Hoje em dia, n√≥s associamos o trabalho de Skinner com ratos e pombos, especialmente na √°rea de “esquemas de refor√ßamento”, em que diferentes padr√Ķes de recompensas produzem importantes efeitos comportamentais. Mas, a partir desta formula√ß√£o, dezenas de milhares de experi√™ncias sobre os princ√≠pios b√°sicos do comportamento vieram √† luz. A conting√™ncia de tr√™s termos de Skinner, popularmente concebida e simplificada em “antecedente-comportamento-consequ√™ncia”, √© uma ferramenta anal√≠tica de extraordin√°rio poder, especialmente em sua vers√£o mais tecnicamente sofisticada. As vari√°veis respons√°veis por praticamente qualquer epis√≥dio especificamente definido de comportamento podem ser descobertas atrav√©s da an√°lise. Tamb√©m √© uma maneira altamente eficaz de estabelecer comportamentos novos: refor√ße o comportamento requerido, e voc√™ tem grande probabilidade de ter mais do mesmo. (√Äs vezes, √© mais f√°cil falar do que fazer!) Claro, n√£o podemos esquecer as contribui√ß√Ķes culturais de Skinner, implorando-nos para perceber – com livros como o t√£o incompreendido Beyond Freedom and Dignity (1971), e o essencial Ci√™ncia e Comportamento Humano (1953) – que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, como sociedade, adv√™m do nosso pr√≥prio comportamento. Para resolver esses problemas √© necess√°ria uma ci√™ncia do comportamento efetiva. Para uma descri√ß√£o mais completa do pensamento e das teorias de Skinner, eu recomendo come√ßar pelo livro Ci√™ncia e Comportamento Humano, dispon√≠vel no site da Funda√ß√£o BF Skinner. E, para uma vis√£o mais t√©cnica, embora ainda amplamente acess√≠vel, ler os artigos da Edi√ß√£o Especial da American Psychologist, de novembro de 1992. A leitura do “best of” de Skinner, recolhidos no livro Cumulative Record seria um excelente passo seguinte.

Quanto √† An√°lise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas n√£o a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribui√ß√£o especial de Lovaas foi mostrar que √© poss√≠vel, com a aplica√ß√£o integral e intensiva de princ√≠pios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um n√ļmero consider√°vel de indiv√≠duos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que n√£o alcan√ßam totalmente os benef√≠cios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crian√ßas submetidas √†s interven√ß√Ķes ABA obt√™m desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padr√£o. Em termos pr√°ticos, isso significa que essas crian√ßas s√£o capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, j√° havia provas cient√≠ficas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos espec√≠ficos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o m√©todo pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na d√©cada de 1960. Mas, antes de Lovaas, come√ßando na d√©cada de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com defici√™ncia de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laborat√≥rios e institui√ß√Ķes. Grandes programas dedicados √† An√°lise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na d√©cada de 1960. O HDFL √© hoje o Departamento de Ci√™ncias do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crian√ßas autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contr√°rio de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA n√£o √© um novo “m√©todo” esperando algu√©m para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Interven√ß√Ķes ABA para problemas espec√≠ficos de comportamento foram baseadas diretamente em princ√≠pios descobertos e comprovados em laborat√≥rios comportamentais. Interven√ß√Ķes ABA abrangentes s√£o constru√≠das √† partir de tratamentos mais direcionados, que j√° demonstraram efic√°cia. ABA n√£o est√° esperando para entrar em todas as revistas cient√≠ficas, ela vem de todas as revistas cient√≠ficas. A pergunta t√≠pica n√£o √© o quanto a interven√ß√£o ir√° funcionar – esta √© a parte f√°cil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complica√ß√Ķes que o mundo real traz.

Mas, antes de Lovaas, n√£o havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo atrav√©s da cria√ß√£o de um programa abrangente de interven√ß√Ķes ABA. Agora, o termo ABA √© muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que √© ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

O uso sistem√°tico de princ√≠pios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, t√©cnicas de condicionamento comportamental e modifica√ß√Ķes ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evid√™ncias, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e refor√ßar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes.

Na pr√°tica, uma an√°lise comportamental aplicada utiliza t√©cnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indiv√≠duos com determinados excessos ou d√©ficits comportamentais. Interven√ß√Ķes realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

‚ÄĘ Uma an√°lise baseada em dados funcionais das condi√ß√Ķes respons√°veis pelo comportamento problema.

‚ÄĘ Objetivos e metas de tratamento espec√≠ficos e verific√°veis.

‚ÄĘ Um plano bem definido usando os princ√≠pios da teoria de refor√ßo para atender as metas e objetivos.

‚ÄĘ Uma coleta de dados cont√≠nua para mostrar que a interven√ß√£o foi realmente a respons√°vel pelos ganhos do tratamento.

‚ÄĘ Um plano para garantir a generaliza√ß√£o e a manuten√ß√£o dos ganhos do tratamento.

‚ÄĘ Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao m√°ximo de sua capacidade.

Eliminar a automutila√ß√£o e ensinar habilidades acad√™micas para crian√ßas com autismo, restabelecer habilidades de vida independente em pessoas com les√Ķes cerebrais, treinar h√°bitos de higiene adequados em crian√ßas com enurese, melhorar o atendimento m√©dico a pessoas doentes, estabelecer h√°bitos de estudo eficazes em crian√ßas em situa√ß√£o de risco, reduzir os h√°bitos repetitivos como a mania de roer unhas e a tricotilomania e refor√ßar o comportamento social adequado em pessoas com d√©ficits de habilidades sociais s√£o ilustrativos, mas n√£o esgotam a gama de problemas de comportamento endere√ßados aos analistas do comportamento aplicados. H√°, √© claro, e sopa de letrinhas das coisas que realmente s√£o – fundamentalmente – ABA, ou derivadas dela: Treino por Tentativas Discretas (Discrete Trial Training, TDT), Treino de Resposta Pivotal (Pivotal Response Training, PRT), Interven√ß√£o Comportamental Precoce Intensiva (Early Intensive Behavioral Intervention, EIBI), Modelo Denver, Apoio Comportamental Positivo (Positive Behavior Support, PBS) e muitos outros. Tem incomodado, ultimamente, os constantes esfor√ßos por parte dos promotores de algumas dessas coisas em tentar pass√°-las como n√£o sendo ABA, ou como n√£o sendo em grande parte baseadas em ABA, mas como algo completamente diferente. Olhe sob o cap√ī: se √© de alguma forma eficaz com autismo, voc√™ ir√° encontrar algum tipo de gest√£o de conting√™ncias em funcionamento.

Nomes associados aos esfor√ßos iniciais em construir a ABA incluem Paul Fuller, Nathan Azrin, Teodoro Ayllon, Donald Baer, Sidney Bijou, Todd Risley, Jack Michael, Montrose Wolf, Charles Ferster, Kurt Salzinger, Israel Goldiamond, e muitos outros. Aqueles que conhecem um pouco da hist√≥ria recordar√£o o primeiro esfor√ßo sistem√°tico para aplicar ABA ao autismo por Mont Wolf, Todd Risley e Hayden Mees: “Aplica√ß√£o de princ√≠pios do condicionamento operante √† problemas comportamentais de uma crian√ßa autista” (Application of Operant Conditioning Principles to the Behaviour Problems of an Autistic Child) publicado em mar√ßo de 1964 no Behaviour Research and Therapy. Eu acho que um bom lugar para encontrar uma vis√£o abrangente da moderna ABA √© no excelente livro de Cooper, Heward e Heron, An√°lise Aplicada do Comportamento (Applied Behavior Analysis). Alguns elementos da ABA tamb√©m est√£o contidos na referida edi√ß√£o da American Psychologist, de novembro 1992. No entanto a ABA √© um campo enorme, com uma hist√≥ria que remonta, se incluirmos a pesquisa b√°sica, a bem mais de 100 anos. Assim, √© imposs√≠vel para um √ļnico livro para captar tudo.

A perda de Lovaas, em si, √© uma ocasi√£o de grande tristeza para os seus amigos e colegas. Mas suas contribui√ß√Ķes vivem em suas obras e nas obras de seus alunos. Aqueles dentre n√≥s que vieram depois aspiram imitar seu modelo e, assim, talvez, contribuir com uma fra√ß√£o do que ele fez para ajudar pessoas com autismo a conseguir muito mais independ√™ncia e dignidade do que era poss√≠vel antes do trabalho de Lovaas mostrar como poderia ser feito.”

√Č poss√≠vel o estudo cient√≠fico do pensamento e da criatividade? – Parte II

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Por Ana Arantes, dO Div√£ de Einstein

Bem… Continuemos o assunto do post anterior…

3. O pensamento e o “ver encoberto”

     A quest√£o do pensamento √© um tema complexo na obra skinneriana, podendo ser considerado como um comportamento precorrente para resposta consumat√≥ria no processo de resolu√ß√£o de problemas. Comportamentos precorrentes podem ser descritos como aqueles que “n√£o recebem conseq√ľ√™ncias refor√ßadoras imediatas, mas s√£o indispens√°veis para a emiss√£o de uma resposta subseq√ľente que tem conseq√ľ√™ncia refor√ßadora (Lopes & Abib, 2002). Partindo desse ponto de vista, pensar pode ser: intencionar, atentar, perceber, memorizar, criar e qualquer outro comportamento (ou processo comportamental) que seja capaz de tornar poss√≠vel a solu√ß√£o de um problema. Portanto, o pensamento na obra de Skinner √© um conceito que deve ser analisado em termos de seus mais variados usos (Lopes & Abib, 2002). Nesse sentido, boa parte do que √© descrito como pensamento na resolu√ß√£o de problemas refere-se a comportamento perceptivo encoberto, ou o que se chama de “ver na aus√™ncia da coisa vista”.    Skinner analisa o ver a partir da hist√≥ria de vida (ambiental) e das conting√™ncias presentes, ou seja, analisa esse comportamento da mesma forma que faria com qualquer outro: “a express√£o ‘ver algo’ refere-se a uma grande amplitude de comportamentos, gerados por uma grande amplitude de conting√™ncias tendo em comum um est√≠mulo em particular” (Skinner, 1989). O comportamento perceptual encoberto analisa-se, ainda, da mesma forma como se faria com o comportamento p√ļblico, pois “tanto quanto sabemos, nada jamais √© aprendido de forma encoberta que n√£o tenha sido aprendido abertamente. O ver encoberto pode, por isso, ser ensinado como o ver abertamente” (Skinner, 1968).

     Parece ter import√Ęncia, nesse ponto, esclarecer o motivo de os comportamentos regredirem a um n√≠vel privado, j√° que a sua emiss√£o original acontece no n√≠vel p√ļblico. Existem algumas explica√ß√Ķes para esse fen√īmeno: quando o controle de est√≠mulos √© fraco ou envolve puni√ß√£o, quando um comportamento √© refor√ßado automaticamente, quando se trata de um precorrente etc. Esse √ļltimo caso pode explicar por que o ver privado pode ocorrer caso o comportamento subseq√ľente seja refor√ßado, “assim, podemos ver Veneza com a finalidade de ensinar um amigo a encontrar o caminho que o levar√° a determinada parte da cidade…” (Skinner, 1974). Skinner afirma que “o comportamento se torna encoberto quando, em primeiro lugar, sua for√ßa cai abaixo do n√≠vel necess√°rio para uma emiss√£o aberta, tal emiss√£o pode ser fraca por que as vari√°veis de controle s√£o deficientes (…) ou podem ser fortes, como se v√™ pelo fato de que, sob outras circunst√Ęncias ele pode surgir em n√≠vel aberto. A resposta encoberta √© simplesmente a mais f√°cil, ou por alguma raz√£o, a mais pr√≥pria no momento” (Skinner, 1957).

     Uma vez que o comportamento regride a um n√≠vel encoberto, ele torna-se diretamente inacess√≠vel para outras pessoas, o que na maior parte das vezes √© a raz√£o pela qual o nomeamos de “pensar”. Entre as vantagens do comportamento de “ver privado” est√° o fato de que esse comportamento n√£o exigiria um comportamento precorrente que gerasse um est√≠mulo externo e tamb√©m porque o ver privado estaria isento de qualquer puni√ß√£o se o mesmo tornar-se p√ļblico. H√° tamb√©m o caso em que o comportamento de ver encoberto produz est√≠mulos discriminativos que podem ser √ļteis para o comportamento subseq√ľente (p√ļblico ou privado), o que nos leva √† conclus√£o de sua import√Ęncia para o comportamento de resolu√ß√£o de problemas.

      Por exemplo, uma pessoa pode descrever a forma com que chegou a solu√ß√£o de determinado problema descrevendo a produ√ß√£o de est√≠mulos discriminativos visuais. Dado o problema: “pense em um cubo, com todas as superf√≠cies pintadas de vermelho, divida o cubo em 27 cubos iguais fazendo cortes, dois cortes verticais e dois conjuntos de cortes horizontais. Quantos cubos ter√£o tr√™s faces pintadas de vermelho, quantos ter√£o duas, quantos ter√£o uma e quantos n√£o ter√£o nenhuma?” (Skinner, 1953). O sujeito que o resolveu pode relatar que “viu o cubo, pintou-o de vermelho…” e assim por diante at√© chegar √† resposta final. Para tal, a capacidade de emitir a resposta visual encoberta foi necess√°ria. Nesse caso, o ver, em si, n√£o seria refor√ßado, mas sim a solu√ß√£o do problema, que acaba por refor√ßar toda a cadeia de comportamento que tornou a solu√ß√£o poss√≠vel, inclusive o comportamento de “ver na aus√™ncia da coisa vista”.

     Resumindo, o que se identifica como “pensamento” no comportamento de ver privado √© sempre um comportamento do organismo como um todo (e n√£o apenas do c√©rebro), e o fato de ser emitido na aus√™ncia da coisa vista significa apenas que, uma vez aprendido de forma aberta, pode ser emitido de forma encoberta, sem o suporte dos est√≠mulos que estavam presentes durante o processo de aquisi√ß√£o da resposta (Tourinho & cols., 2000).

4. Comportamento criativo

        A discuss√£o skinneriana sobre o surgimento de comportamentos novos, chamados “originais” ou “criativos” √© um dos pontos de sua obra onde mais claramente pode-se observar a id√©ia de intera√ß√£o entre as conting√™ncias de sele√ß√£o ambientais (ontogen√©ticas) e a sele√ß√£o filogen√©tica (ou conting√™ncias de sobreviv√™ncia). “O conceito de sele√ß√£o √© mais uma vez a chave. As muta√ß√Ķes, na teoria gen√©tica e evolutiva, s√£o casuais e as topografias respostas selecionadas pelo refor√ßo s√£o, se n√£o aleat√≥rias, pelo menos n√£o necessariamente relacionadas com as conting√™ncias em que ser√£o selecionadas. E o pensamento criador preocupa-se grandemente com a produ√ß√£o de ‘muta√ß√Ķes’. Escritores, artistas, compositores, matem√°ticos, cientistas e inventores est√£o familiarizados com formas expl√≠citas de tornar mais prov√°vel a ocorr√™ncia de comportamento original” (Skinner, 1974).

      Segundo Skinner, comportamentos nunca antes emitidos e que n√£o estavam presentes anteriormente no repert√≥rio de um indiv√≠duo podem ser explicados como fun√ß√£o de varia√ß√Ķes aleat√≥rias na emiss√£o de resposta, que s√£o ent√£o selecionadas por conting√™ncias de refor√ßo. Esse mecanismo segue a mesma l√≥gica do mecanismo de varia√ß√£o e sele√ß√£o postulado pela Teoria Evolucionista. Para ele, “o termo chave no titulo de Darwin √© ‘a Origem’. A novidade pode ser explicada sem apelar-se a um des√≠gnio inicial se mudan√ßas aleat√≥rias nas estruturas forem selecionadas por suas conseq√ľ√™ncias. Estas s√£o as conting√™ncias de sobreviv√™ncias que criaram novas formas” (Skinner, 1971a). Da mesa forma, “n√£o √© algum prop√≥sito inicial, alguma inten√ß√£o ou ato de vontade que responde por novo comportamento; s√£o as conting√™ncias de refor√ßamento” (Skinner, 1971a).

      A quest√£o da criatividade, para Skinner, √© tomada sob o mesmo prisma da quest√£o do pensamento – no sentido de que pode (e deve) ser explicada atrav√©s de seus determinantes da hist√≥ria de conting√™ncias e da hist√≥ria gen√©tica do organismo. Novamente pode-se verificar a cr√≠tica ao mentalismo e √† no√ß√£o de causalidade interna: “uma ‘mente criativa’ n√£o explica nada. √Č apenas um apelo ao miraculoso. A mente √© considerada como fazendo aquilo que o corpo n√£o √© capaz. (…) novidade e originalidade podem ocorrer em um sistema determin√≠stico” (Skinner, 1970).

     Assim, ao analisar as conting√™ncias das quais a criatividade √© fun√ß√£o pode-se chegar a uma explica√ß√£o causal e, por fim, manipulando-se tais conting√™ncias deve-se ser capaz de aumentar a probabilidade de que tais comportamentos criativos ocorram. A “mente criativa” √© evo
cada porque algumas vezes n√£o √© poss√≠vel ter acesso a todas as conting√™ncias, principalmente √†s conting√™ncias de sobreviv√™ncia que dizem respeito √† hist√≥ria filogen√©tica. “Conting√™ncias de refor√ßamento que modelam o comportamento ontog√™nico podem ser arranjadas e estudas no laborat√≥rio. Mas a maioria das conting√™ncias de sobreviv√™ncia respons√°veis pelo comportamento filogen√©tico observado nesse campo √© meramente inferida” (Skinner, 1978).

      Provavelmente a mais importante implica√ß√£o da causalidade ambiental para a determina√ß√£o da originalidade e criatividade est√° na proposta skinneriana de uma tecnologia de ensino capaz de produzir comportamentos novos nos campos art√≠sticos e cient√≠ficos. Desse modo, “o papel do acaso pode ser assumido e ampliado pela planifica√ß√£o deliberada. (…) Novas formas de comportamentos podem ser geradas por conting√™ncias ambientais, que dificilmente surgiriam por acidente. Por defini√ß√£o, n√£o se pode ensinar comportamento original, pois n√£o seria original se ensinado, mas podemos ensinar ao estudante a arranjar ambientes que maximizem a probabilidade de que ocorram respostas originais” (Skinner, 1978).

      Tal formula√ß√£o acabou por gerar resist√™ncia, pois retira do sujeito o car√°ter iniciador, ou, nas palavras do pr√≥prio Skinner: “uma formula√ß√£o do pensamento criativo dentro do esquema de refer√™ncia de uma ci√™ncia natural pode ser ofensivo √†queles que fundamentam sua concep√ß√£o do indiv√≠duo no controle do mundo ao seu redor, mas a formula√ß√£o pode ter vantagens compensadoras. Na medida em que a originalidade se identifica com a espontaneidade ou com a aus√™ncia de regras no comportamento, parece ser uma tarefa ingl√≥ria ensinar um homem a ser original ou a influenciar seu processo de pensar de qualquer maneira importante. A presente an√°lise levaria a um aperfei√ßoamento nos procedimentos educacionais” (Skinner, 1953). A mesma cr√≠tica foi formulada tamb√©m no que diz respeito √† formula√ß√£o comportamental do pensamento, como j√° visto.

     O modelo proposto para o ensino e a gera√ß√£o de comportamento criativo √© o da produ√ß√£o de varia√ß√£o. Com o aumento (atrav√©s do refor√ßamento) da emiss√£o de comportamentos diferentes, seria poss√≠vel selecionar daquelas respostas que poderiam ter valor tanto para a cultura quanto para o indiv√≠duo. Uma das maneiras de gerar tal variabilidade seria, ent√£o, incrementar o n√ļmero de “muta√ß√Ķes” nas respostas (uma analogia √†s muta√ß√Ķes que geram variabilidade, posterior sele√ß√£o pelo ambiente e, por fim, a evolu√ß√£o da esp√©cie). Ao analisar o comportamento do artista, Skinner coloca que “n√≥s devemos procurar por muta√ß√Ķes. (…)   podemos gerar muta√ß√Ķes mudando as condi√ß√Ķes de trabalho do artista, fazendo-o trabalhar quando est√° cansado, com frio, desencorajado ou b√™bado. O artista pode gerar outros tipos de muta√ß√£o fazendo deliberadamente aquilo que lhe foi dito para n√£o fazer; ele pode violar os modelos, as conven√ß√Ķes e os tabus, como um matem√°tico que renega axiomas evidentes ou como o compositor que usa harmonias proibidas” (Skinner, 1970).

      Dessa maneira, a a√ß√£o iniciadora √©, de certa forma, externa ao sujeito, ela “vem de sua hist√≥ria passada, verbal ou outra qualquer (…), causas gen√©ticas e ambientais que postas juntas t√™m um efeito em comum” (Skinner, 1970a), ou seja, geram novas respostas. Por outras palavras o controle de est√≠mulos ambientais √© respons√°vel por gerar respostas de qualquer tipo, at√© mesmo as originais e criativas.

Conclus√£o

      Em “Beyond Freedom and Dignity”, Skinner afirmou que o mentalismo n√£o somente interfere na busca de explica√ß√Ķes cient√≠ficas do comportamento, como tamb√©m n√£o √© pr√°tico, no sentido de que nos impede de solucionar problemas sociais como a guerra, o crime e a pobreza. A id√©ia de que uma pessoa possa ser respons√°vel por uma a√ß√£o, no sentido de causar essa a√ß√£o, √© baseada na no√ß√£o de livre arb√≠trio. Por√©m na possibilidade de uma ci√™ncia do comportamento est√° impl√≠cito que o comportamento, como qualquer objeto de estudo cient√≠fico, √© ordenado, pode ser explicado, previsto e controlado, desde que se tenham os dados e os meios necess√°rio. Ou seja, n√£o √© livre, mas determinado.

       Em certo sentido, a quest√£o da cr√≠tica ao mentalismo se liga ao estudo e an√°lise do pensamento e da criatividade por que a grande raz√£o para se supor que as pessoas “t√™m uma mente” √© que todos sabem que t√™m pensamentos, que pensam, e que produzem pensamentos originais e criativos. Pensamentos, sentimentos, sensa√ß√Ķes e sonhos s√£o eventos privados, naturais e freq√ľentemente observ√°veis por aqueles que os experimentam. H√° dois pontos importantes com rela√ß√£o √† distin√ß√£o entre p√ļblico e privado: o primeiro √© que para o behaviorismo radical, a distin√ß√£o tem pouco significado (pois ambos s√£o eventos naturais) e o segundo √© que a √ļnica diferen√ßa entre tais eventos √© o n√ļmero de pessoas que podem relat√°-lo, ou seja, a distin√ß√£o tem rela√ß√£o com o acesso ao evento e n√£o com sua natureza. Ao aceitar essa afirma√ß√£o, Skinner admite a subjetividade como objeto de estudo da ci√™ncia, como natural e compartilhando todas as propriedades dos demais comportamentos; suas origens encontram-se na hist√≥ria do indiv√≠duo e na filog√™nese de sua esp√©cie.

       Ao afirmar, ainda, que os comportamentos de pensar e criar podem ser explicados, previstos e controlados e, acima disso, ensinados e aprendidos, Skinner confirma a influ√™ncia do pragmatismo em sua ci√™ncia. Segundo Baum (1994), “a no√ß√£o fundamental do pragmatismo √© de que a for√ßa da investiga√ß√£o cient√≠fica reside n√£o tanto na descoberta da verdade sobre a maneira como o universo objetivo funciona, mas no que ela nos permite fazer”. Disso se segue que a √™nfase skinneriana no desenvolvimento comportamental √© parte integrante de seu projeto de ci√™ncia e como tal deriva√ß√£o natural deste projeto.

       Por fim, cabe ressaltar que a an√°lise dos comportamentos operantes identificados como pensar e criar tem uma extens√£o e uma complexidade muito maior do que as apresentadas aqui, sendo este estudo apenas uma tentativa de reconstruir, atrav√©s de alguns momentos da obra de Skinner, algumas no√ß√Ķes consideradas relevantes para o entendimento do tema.

Referências:

Baum, W. (1994). Compreender o behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.

Lopes, C. E. & Abib, J. A. D. (2002). Teoria da percepção no Behaviorismo Radical. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 18, 2. 129-137.

Skinner, B. F. (1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

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√Č poss√≠vel o estudo cient√≠fico do pensamento e da criatividade? – Parte I

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Por Ana Arantes, dO Div√£ de Einstein

“We can built a world in wich men and women will be better poets, better artists, better composers, better novelists, better scholars, better scientists – in a word, better people. We can, in short, have a better world”

B. F. Skinner, 1971

A Lecture on “Having” a Poem

    T√ī meio nervosa com essa minha estr√©ia aqui no Tubo de Ensaios e no ScienceBlogsBr…

    Pensei em bilh√Ķes e bilh√Ķes de assuntos para escrever, mas o povo aqui costuma ser s√©rio, compenetrado, cient√≠fico… e eu n√£o escrevo assim nO Div√£ de Einstein – ele √© s√©rio e cient√≠fico, mas n√£o e l√° muito compenetrado. Ent√£o, depois de muito trabalho, escrevi um ensaio sobre um tema que me interessa muito e sob uma perspectiva que eu conhe√ßo quase-muito-bem, que √© a An√°lise do Comportamento.

    A id√©ia √© discutir, do ponto de vista de B.F. Skinner, como a Ci√™ncia do Comportamento lida com os temas do pensamento e da criatividade e quais as implica√ß√Ķes desses pressupostos para a constru√ß√£o de tecnologias para a compreens√£o, a pesquisa e o ensino da criatividade.

    Ao se discutir as no√ß√Ķes de pensamento e criatividade em Skinner devemos principalmente levar em conta que esses conceitos, retirados do vocabul√°rio mentalista, ser√£o analisados por ele em termos operacionais. Isto implica em, primeiramente, qualificar o significado de tais termos no uso tanto por leigos como por estudiosos e, posteriormente, descrever em que situa√ß√Ķes palavras como “pensamento” e “criatividade” s√£o empregadas. A estrat√©gia empregada, ent√£o, √© a de desconstru√ß√£o dos significados de pensar em diversos tipos de comportamentos diferentes, analisando-os em termos das vari√°veis das quais s√£o fun√ß√Ķes. Nesse processo, Skinner elimina os conceitos cognitivistas e mentalistas (processos mediacionais) atrav√©s da descri√ß√£o e da explica√ß√£o do pensar enquanto comportamento.

    Partindo do conceito de mente, o autor faz reflex√Ķes cr√≠ticas acerca dos problemas do dualismo, da introspec√ß√£o e do pensar como armazenamento de informa√ß√Ķes. Sua cr√≠tica parte do reconhecimento de que os processos ditos mentais pressup√Ķem vari√°veis n√£o manipul√°veis e, portanto, s√£o apenas descritivos, n√£o preenchendo os quesitos formadores de seu conceito de ci√™ncia, que s√£o a manipula√ß√£o, o controle e a previs√£o dos comportamentos. Outra cr√≠tica as psicologias cognitivistas e mentalistas √© feita no que diz respeito ao m√©todo de investiga√ß√£o usado para se observar os fen√īmenos mentais, a introspec√ß√£o, que Skinner renega enquanto m√©todo cient√≠fico leg√≠timo.

    Durante sua obra, Skinner desenvolve duas linhas principais de investiga√ß√£o para analisar o pensamento e o comportamento criativo. A primeira delas parte do ponto de vista evolutivo, tentando compreender as mudan√ßas ambientais que levaram ao desenvolvimento desses comportamentos e a sua import√Ęncia para a adapta√ß√£o do homem ao ambiente em que est√° inserido. A segunda linha de racioc√≠nio √© empregada na estrat√©gia de cobrir a explica√ß√£o funcional dos comportamentos identificados como pensamento, analisando-os sob o referencial de seus est√≠mulos controladores, das vari√°veis das quais s√£o fun√ß√£o.

    Divido aqui o texto em duas partes, iniciando com as cr√≠ticas do autor ao modelo mentalista de estudo do pensamento e com a proposi√ß√£o do modelo comportamental para o estudo do tema. No posts seguintes, tratarei das implica√ß√Ķes do modelo proposto por Skinner e do desenvolvimento da Ci√™ncia do Comportamento de Pensar.

1. Críticas ao modelo mentalista

     A cr√≠tica de Skinner as linhas psicol√≥gicas mentalistas come√ßa com a cr√≠tica √† sua implica√ß√£o mais clara: o dualismo. Ele parte pressuposto epistemol√≥gico de que a ci√™ncia do comportamento, se devidamente inclu√≠da no campo das ci√™ncias, n√£o pode lidar com um objeto insubstancial, tal como a mente cartesiana. Um dos problemas apontados por Skinner seria o de n√£o poder manipular as vari√°veis de modo a produzir uma tecnologia √ļtil, pois “se pudermos observar cuidadosamente o comportamento humano, de um ponto de vista objetivo e chegar a compreend√™-lo pelo que √©, poderemos ser capazes de adotar um curso mais sensato de a√ß√£o” (Skinner, 1953).

     N√£o se trata de uma quest√£o de facilidade, a complexidade dos processos ditos mentais n√£o se reduz quando o objeto √© o comportamento e n√£o a mente. “O comportamento √© uma mat√©ria dif√≠cil, n√£o porque seja inacess√≠vel, mas porque √© extremamente complexo. O comportamento (…) √© mut√°vel, fluido e evanescente, e por esta raz√£o faz grandes exig√™ncias t√©cnicas √† engenhosidade e energia do cientista” (Skinner, 1953). A no√ß√£o de mente √© problem√°tica para uma ci√™ncia do comportamento porque a mente n√£o √© parte da natureza, n√£o tem nenhuma propriedade de um objeto natural. √Č imposs√≠vel observar os processos mentais interiores; a introspec√ß√£o n√£o pode ser levada a s√©rio enquanto m√©todo cient√≠fico pela raz√£o √ļltima de que n√£o temos √≥rg√£os sensoriais capazes de perceber os processos internos. “N√≥s temos mais informa√ß√Ķes sobre n√≥s mesmo do que sobre outras pessoas, mas √© apenas o mesmo tipo de informa√ß√£o – sobre est√≠mulos, respostas e conseq√ľ√™ncias, alguns destes internos e, neste sentido, privados. N√≥s n√£o temos enerva√ß√Ķes sensoriais vindas das partes do c√©rebro que se engajam em ‘processos cognitivos'” (Skinner, 1986).

     Mesmo que abandonemos a no√ß√£o de mente e a substitu√≠ssemos pela id√©ia de c√©rebro (solu√ß√£o muito adotada para se eliminar o mentalismo), voltar√≠amos ao mesmo ponto. O que pode ser observado pelos modernos aparelhos de imagem cerebral (PETscan e tom√≥grafos) s√£o √°reas cerebrais em funcionamento, mas o pr√≥prio funcionamento, os processos realizados pelo c√©rebro n√£o s√£o observ√°veis. “Vemos os materiais que processamos e o produto, mas n√£o a produ√ß√£o” (Skinner, 1989). 

     Esse argumento n√£o implica na nega√ß√£o das neuroci√™ncias e de sua utilidade para a explica√ß√£o completa do comportamento humano complexo, mas apenas na distin√ß√£o clara dos limites da ci√™ncia do comportamento. “Os analistas do comportamento deixam o que est√° dentro da caixa preta para aqueles que disp√Ķem dos instrumentos e m√©todos necess√°rios ao seu estudo apropriado. Existem duas falhas inevit√°veis em qualquer ponto de vista comportamental: uma entre a√ß√£o estimuladora do ambiente e a resposta do organismo, e a outra entre as conseq√ľ√™ncias e a mudan√ßa resultante no comportamento. Ao faz√™-lo [o estudo], completa a descri√ß√£o; n√£o fornece uma explica√ß√£o diferente. O comportamento humano inevitavelmente ser√° explicado, e s√≥ poder√° ser explicado atrav√©s da a√ß√£o conjunta da etologia, da ci√™ncia do c√©rebro e da an√°lise do comportamento” (Skinner, 1989).

     A obje√ß√£o behaviorista ao mentalismo, expressa principalmente na rejei√ß√£o do dualismo, se manifesta na incapacidade que este demonstra de obter uma resposta a pergunta sobre como uma subst√Ęncia imaterial (n√£o natural) pode afetar uma subst√Ęncia material (coisa natural). Chega-se, portanto, a infer√™ncia de que as causas ditas mentais do comportamento s√£o causas fict√≠cias.

     A obje√ß√£o central de Skinner ao mentalismo √©, no entanto, a de que este n√£o consegue explicar aquilo a que se prop√Ķe. Parte dessa insufici√™ncia se deve ao m√©todo introspectivo, como dito anteriormente e parte a circularidade das explica√ß√Ķes propostas.  As explica√ß√Ķes mentalista inferem uma entidade fict√≠cia a partir do comportamento observ√°vel ent√£o afirmam que a entidade inferida √© a causa do comportamento. Em raz√£o das fic√ß√Ķes mentais parecerem explica√ß√Ķes, elas tendem a impedir a investiga√ß√£o das origens ambientais do comportamento, que levariam a uma explica√ß√£o cient√≠fica satisfat√≥ria. “Como a an√°lise experimental do comportamento tem mostrado, o comportamento √© modelado e mantido por suas conseq√ľ√™ncias, mas apenas pelas conseq√ľ√™ncias que permanecem no passado. N√≥s fazemos o que fazemos por causa do que aconteceu, e n√£o do que acontecer√°. Infelizmente o que aconteceu deixa poucos tra√ßos observ√°veis, e a raz√£o pela qual fazemos o que fazemos, bem como o qu√£o dispostos estamos a fazer algo, est√£o, conseq√ľentemente, muito al√©m do alcance da introspec√ß√£o” (Skinner, 1989).

     Uma dessas fic√ß√Ķes explicativas mais combatidas por Skinner √© a da id√©ia cognitivista do pensar como armazenamento de informa√ß√Ķes. Segundo essa vis√£o, para responder novamente a um determinado est√≠mulo, deveria haver
uma mem√≥ria, ou uma esp√©cie de c√≥pia, armazenada em algum lugar da mente ou do c√©rebro, que quando acessada tornaria poss√≠vel a repeti√ß√£o de um comportamento. Segundo Skinner, se usarmos a conting√™ncia de tr√™s termos como modelo explicativo para entendermos qualquer emiss√£o de comportamento, n√£o h√° necessidade de apelarmos a explica√ß√Ķes mediacionais internas como a do armazenamento de informa√ß√Ķes. As explica√ß√Ķes das rela√ß√Ķes entre o organismo e o ambiente s√£o, portanto, suficientes para a total compreens√£o funcional. Para ele: “a obje√ß√£o dos estados interiores n√£o √© a de que eles n√£o existem, mas a de que n√£o s√£o relevantes para uma an√°lise funcional” (Skinner, 1953).

      O que se coloca para Skinner √© a quest√£o da modifica√ß√£o produzida no organismo quando da emiss√£o de um comportamento. Do mesmo modo que a teoria da sele√ß√£o de Darwin, a causalidade de Skinner exclui qualquer suposi√ß√£o de que o comportamento possa ocorrer a partir de um projeto futuro. S√£o as conseq√ľ√™ncias ocorridas no passado que determinam a probabilidade de ocorr√™ncia do comportamento em uma situa√ß√£o futura. N√£o por que essas conseq√ľ√™ncias s√£o armazenadas ou memorizadas para serem recuperadas e orientarem uma a√ß√£o futura, mas por que as ocorr√™ncias passadas modificam o organismo, i. e, alteram sua forma de se relacionar com o ambiente. Com esta no√ß√£o de causalidade, Skinner combate a no√ß√£o de um agente iniciador (das concep√ß√Ķes mentalistas) e suprime a necessidade de procurar inst√Ęncias armazenadoras de informa√ß√£o ou mem√≥ria. Nesse sentido, “as conting√™ncias que afetam um organismo n√£o s√£o armazenadas por ele. Elas nunca est√£o dentro dele; elas simplesmente o modificam. Da√≠ resulta que o organismo se comporta de maneiras especiais sob tipos especiais de controle por est√≠mulos. Os est√≠mulos futuros ser√£o eficazes se se assemelharem aos que foram parte de conting√™ncias anteriores; um est√≠mulo acidental pode nos fazer lembrar uma pessoa, um lugar ou um acontecimento se tal est√≠mulo tiver alguma semelhan√ßa com essa pessoa, lugar ou acontecimento. Ser lembrado significa ser tornado capaz de responder” (Skinner, 1974).

2. Pensamento como comportamento

     No entender de Skinner, o que comumente √© identificado como o processo cognitivo superior do pensamento pode ser descrito como uma s√©rie de comportamentos ou processos comportamentais que n√£o s√£o p√ļblicos, mas cujos produtos finais, ou os est√≠mulos controladores, podem ser observados ou inferidos de eventos observ√°veis. “N√£o se trata de nenhum processo misterioso respons√°vel pelo comportamento, mas do pr√≥prio comportamento em toda a complexidade de suas rela√ß√Ķes de controle, relativas tanto ao homem que se comporta como ao meio em que ele vive” (Skinner, 1957).
    

     No intuito de explicar as vari√°veis que controlam diversos tipos de comportamento diferentes que podem ser chamados de pensamentos, Skinner faz uma esp√©cie de cataloga√ß√£o desses poss√≠veis comportamentos (ou processos comportamentais), analisando funcionalmente cada um deles e especulando sobre sua import√Ęncia adaptativa e seu poss√≠vel caminho evolutivo. √Č importante notar que com isso ele pretende identificar o termo “pensar” com comportamento operante, ou seja, sujeita-lo apenas as leis que regem o comportamento operante, sem que para explica-lo seja necess√°rio recorrer a nenhum tipo de processo mediacional ou cognitivo.

     Vale ainda ressaltar que para cumprir seu projeto de explicar os comportamentos de pensar como tal, o primeiro passo foi substituir o substantivo “pensamento” pelo verbo “pensar”, eliminando assim a id√©ia do pensamento como uma coisa a ser descrita e levantando a quest√£o do pensar enquanto uma a√ß√£o direta no mundo, um comportamento que opera modifica√ß√Ķes no ambiente que o produziu, ou seja, um operante. Com isso, ele elimina ainda o peso mentalista do termo pensamento enquanto construto te√≥rico cognitivista que nomeia um processo mental. Assim, “pensar significa muitas vezes o mesmo que comportamento. Dizemos, nesse sentido, que se pensa matematicamente, musicalmente, politicamente, verbalmente ou n√£o verbalmente e assim por diante. Em um sentido ligeiramente diverso, significa comportar-se em rela√ß√£o a est√≠mulos. (…) Pensar tamb√©m √© identificado com certos processos comportamentais, como aprender, discriminar, generalizar e abstrair. Esses processos n√£o s√£o comportamento, mas sim modifica√ß√Ķes no comportamento. N√£o h√° a√ß√£o, nem mental, nem qualquer outra” (Skinner, 1968).

     Uma das situa√ß√Ķes mais comuns em que se emprega o termo “pensar” √© a situa√ß√£o de se resolver problemas. Ter um problema √© estar diante de uma situa√ß√£o em que uma resposta apresenta certa probabilidade de ser emitida, mas por falta de uma estimula√ß√£o discriminativa adequada isso n√£o ocorre. Portanto, o processo de resolu√ß√£o de problema pode ser considerado como constitu√≠do, basicamente, por respostas manipulativas e discriminativas: diante de um problema manipulamos vari√°veis a fim de produzir est√≠mulos discriminativos que permitam a emiss√£o da resposta discriminativa consumat√≥ria (Lopes & Abib, 2002). Ou seja, para Skinner o problema √© uma quest√£o para a qual n√£o h√° resposta at√© o momento e sua solu√ß√£o √© o comportamento respons√°vel pela mudan√ßa da situa√ß√£o. O comportamento de pensar enquanto “resolver um problema” seria um encadeamento de comportamentos que, para o indiv√≠duo que “pensa”, ocorreria para mudar a si mesmo ou a situa√ß√£o at√© que ocorra uma resposta (solu√ß√£o do problema). “Resolver um problema √© um evento comportamental” (Skinner, 1963).

      Skinner cita v√°rias formas segundo as quais nos comportamos no sentido de gerar comportamentos que levariam √† solu√ß√£o de uma determinada situa√ß√£o. Para cada uma dessas formas de comportamento usa-se comumente a express√£o “pensar”: (1) quando se faz algo que torna poss√≠vel outro comportamento; (2) quando nenhum est√≠mulo efetivo est√° dispon√≠vel e as pessoas exp√Ķem algum; (3) quando n√£o se pode descobrir um est√≠mulo, √†s vezes deixa-se um outro acess√≠vel de reserva at√© que a resposta ocorra; (4) quando junta-se v√°rias coisas diferentes para possibilitar uma resposta √ļnica; (5) faz-se o inverso quando separa-se coisas de modo que se possa lidar mais facilmente com elas em outra ocasi√£o; (6) marca-se coisas de modo que se possa nota-las mais facilmente em outra ocasi√£o; (7) compara-se coisas, colocando-as “lado a lado” de modo que se possa ver mais facilmente se elas combinam entre si; (8) especula-se sobre as coisas, no sentido de que se olha para elas de diferentes √Ęngulos e (9) depois de “pensar” por algum tempo chega-se a uma decis√£o (a pr√≥pria palavra deriva da express√£o “por fim a alguma coisa”) (Skinner, 1989).

Referências:

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