Infecção Hospitalar: o perigo subestimado

hospital-staph_600Imagem: Mike Adams http://www.naturalnews.com/023156_MRSA_staph_infections.html

Autor: Samuel Pereira
Discente do quinto semestre do curso de Biomedicina na Universidade Estadual de Santa Cruz, onde também realiza iniciação científica.

Nos √ļltimos dias, quando a m√≠dia noticiou sobre o isolamento de uma bact√©ria resistente causando infec√ß√£o em dois pacientes, em um hospital de Bras√≠lia p√īs em discuss√£o a tem√°tica das infec√ß√Ķes hospitalares (IHs). No Brasil, as estat√≠sticas das IHs n√£o s√£o atualizadas com frequ√™ncia, mas o Minist√©rio da Sa√ļde (MS) estima que a taxa m√©dia no pa√≠s seja de 15,5%, muito acima da m√©dia mundial que √© de 5%.

O Minist√©rio da Sa√ļde por meio da portaria n¬ļ 2612 de 12 de maio de 1998 estabelece infec√ß√£o hospitalar como um processo infeccioso adquirido ap√≥s admiss√£o do paciente e que se manifesta durante interna√ß√£o ou ap√≥s alta, quando puder ser relacionado com interna√ß√£o ou procedimentos hospitalares. Desde a d√©cada de noventa o termo IH vem sendo substitu√≠do por Infec√ß√£o Relacionada √† Assist√™ncia em Sa√ļde (IRAS), por√©m as duas denomina√ß√Ķes s√£o utilizadas.

Os primeiros casos de infecção hospitalar surgiram logo após a criação dos hospitais, pois nestes ambientes coexistiam os fatores essenciais ao aparecimento das IRAS. A circulação de microrganismos, uma cadeia de transmissão e hospedeiros comprometidos, associados a ineficientes programas de prevenção e controle existentes em grande parte dos hospitais contribuem para uma incidência crescente das IRAS.

No Brasil, uma das primeiras medidas de preven√ß√£o e controle deste grave problema de sa√ļde p√ļblica foi o desenvolvimento das Comiss√Ķes de Controle de Infec√ß√£o Hospitalar (CCIH), na d√©cada de setenta. Por determina√ß√£o do Minist√©rio da Sa√ļde (portaria 196 de 24 de junho de 1983) as CCIHs deveriam existir em todos os hospitais brasileiros, sendo constitu√≠das por profissionais de sa√ļde capazes de estabelecer infer√™ncias e interven√ß√Ķes. Cerca de vinte anos ap√≥s essa determina√ß√£o do MS constatou-se que apenas 30% dos hospitais possu√≠am uma CCIH.

Ao longo dos anos, a utiliza√ß√£o de antibi√≥ticos funcionou como principal estrat√©gia tanto no combate √†s infec√ß√Ķes comunit√°rias, quanto √†s infec√ß√Ķes relacionadas com os servi√ßos de sa√ļde. No entanto, o que preocupa na comunidade cient√≠fica atual s√£o os recorrentes casos de resist√™ncia aos antimicrobianos dispon√≠veis no mercado. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Preven√ß√£o de Doen√ßas (CDC) divulgou estat√≠sticas mostrando que 16% (do total de IRAS) s√£o causados pela bact√©ria Staphylococcus aureus, sendo que 60% dessas bact√©rias apresentavam resist√™ncia a algum antibi√≥tico.

As estrat√©gias de preven√ß√£o e controle adotadas at√© o momento n√£o foram suficientes para estabilizar o n√ļmero de casos de infec√ß√Ķes hospitalares. Buscar novas estrat√©gias √© indispens√°vel, uma alternativa s√£o as a√ß√Ķes de educa√ß√£o em sa√ļde que mostam resultados positivos no combate as infec√ß√Ķes comunit√°rias. As atividades de educa√ß√£o em sa√ļde podem ser efetivas ao aproximar o conhecimento te√≥rico da viv√™ncia pr√°tica de cada profissional envolvido na cadeia de transmiss√£o, permitindo que eles percebam a sua participa√ß√£o tanto no estabelecimento quanto no controle das IRAS. ¬†As atividades podem ser estendidas √† comunidade, visto que algumas pr√°ticas como o uso de antimicrobianos sem prescri√ß√£o m√©dica tamb√©m contribuem no surgimento de infec√ß√Ķes hospitalares.

 

REFERÊNCIAS

DF registra casos de superbactéria em três hospitais e uma UPA. 

BRASIL. Portaria n¬ļ 2616, de 12 de mar√ßo de 1998. Defini√ß√£o de infec√ß√£o hospitalar e outras provid√™ncias.

Azambuja, Eliana Pinho de, Denise Pires de Pires, and Marta Regina Cezar Vaz. “Preven√ß√£o e controle da infec√ß√£o hospitalar: as interfaces com o processo de forma√ß√£o do trabalhador.” Texto Contexto Enferm 13 (2004): 79-86.

Tortora, Gerard J., Berdell R. Funke, and Christine L. Case. Microbiologia. Artmed, 2012.

Vírus: viajantes entre mundos

©Rodrigo Barreiro

©Rodrigo Barreiro

Este post √© o resultado de uma prova aplicada √† turma da disciplina de Virologia, da gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. A prova foi uma reda√ß√£o sobre o tema “V√≠rus √© vivo?” e as respostas seguem abaixo:

O conceito de v√≠rus evoluiu de um “veneno filtrado” capaz de causar doen√ßas (como descrito para o mosaico do tabaco no fim do s√©culo XIX) para “organismos codificadores de caps√≠deo capazes de sofrer evolu√ß√£o Darwiniana, parasitas intracelulares ou intravirais obrigat√≥rios”. Essa mudan√ßa se deu ap√≥s o estudo de milhares de tipos virais, possuindo todos, basicamente, v√≠rions com as seguintes caracter√≠sticas: presen√ßa de material gen√©tico capaz de sofrer evolu√ß√£o (DNA ou RNA, mas com o RNA no “centro” do processo), caps√≠deo proteico e, em alguns casos, envelope lip√≠dico. Essas part√≠culas virais, ao entrar em contato com c√©lulas, geram uma “f√°brica viral”, capaz de copiar a estrutura do v√≠rion m√ļltiplas vezes. A descoberta de v√≠rus gigantes (como o mimiv√≠rus) tirou o elemento “filtr√°vel” da defini√ß√£o e a descoberta do Sputnik, v√≠rus capaz de parasitar mamav√≠rus, adicionou a parte dos v√≠rus intravirais.

Após definir em linhas gerais os vírus, é necessário definir vida. Contudo, seguindo a linha de pensamento de Karl Popper, essa definição é não-científica, não sendo possível chegar a um conceito forte utilizando as ferramentas lógicas com o método científico. Essa conceituação é intrinseicamente humana e precisa levar em consideração o processo de surgimento de um conceito como uma construção social. A escolha de um ponto de vista precisa utilizar os conceitos populares, intuitivos, milenares até, de vida e adicionar a ele limites mais precisos.

A vida, em vis√£o macrosc√≥pica, consiste basicamente de seis pontos: reprodu√ß√£o, movimento, crescimento, desenvolvimento (um “ciclo de vida”), resposta a est√≠mulos (“homeostase”) e evolu√ß√£o. Entretanto, diversos fen√īmenos reconhecidamente abi√≥ticos apresentam caracter√≠sticas semelhantes, por exemplo o fogo ( de reprodu√ß√£o, crescimento e desenvolvimento), v√≠rus de computador ( capazes de replica√ß√£o e evolu√ß√£o) e, notavelmente, cristais. A cristaliza√ß√£o √© um processo auto-organizado no qual, ap√≥s uma nuclea√ß√£o, os elementos dissolvidos formam estruturas que crescem reproduzindo padr√Ķes, gerando at√©, em alguns casos, diversidade (como em quasicristais). Cristais podem ser at√© catalizadores de processos reconhecidamente biol√≥gicos, como a montmorillonita, possivelmente influenciadora do surgimento de replicadores no mundo pr√©-LUCA.

Todavia, tais elementos n√£o s√£o considerados vivos. A principal raz√£o para a isso √© a aus√™ncia de um organismo, um conjunto de subsistemas organizados e coordenados de forma a dar sustenta√ß√£o a um sistema maior; e a aus√™ncia de um material gen√©tico, carregador das informa√ß√Ķes para constru√ß√£o de um organismo e capaz de evoluir Darwinianamente. Esses dois fatores, somados √† autopoiese (capacidade de um sistema qu√≠mico gerar outro semelhante a partir de materiais “externos”) constituem uma tr√≠ade que, indiretamente, inclui os conceito “populares” e permite uma base mais palp√°vel para prosseguimento da discuss√£o.

Sendo assim, os v√≠rus s√£o organismos vivos? A pergunta encontra ainda mais um obst√°culo: o ciclo viral. O v√≠rion, a forma extracelular do v√≠rus, inerte em sistemas abi√≥ticos e at√©, muitas vezes, cristaliz√°vel, carrega √°cidos nucleicos.¬†Mas n√£o possui um comportamento de organismo nem capacidade regenerativa, n√£o podendo ser considerado vivo. Por outro lado, a “f√°brica viral” e toda sua malha de intera√ß√Ķes forma claramente um organismo, com integra√ß√£o de etapas e replica√ß√£o da informa√ß√£o necess√°ria para a g√™nese dos virions e rein√≠cio do ciclo. Apesar de tal fen√īmeno parecer “alopoi√©tico”, com a c√©lula produzindo v√≠rus, as estruturas do hospedeiro s√£o fortemente cooptadas, servindo como ferramentas e nutrientes para o processo protagonizado pelas informa√ß√Ķes virais, podendo ser entendido como um processo autopoi√©tico. Logo, a forma ontogeneticamente ativa da “f√°brica viral” √© viva.

Conclui-se assim que os v√≠rus s√£o, como entidades, viajantes entre mundos. O v√≠rion, estrutura no mundo inanimado, n√£o-vivo, constitui um “zo√≠geno”, um elemento capaz de, nas condi√ß√Ķes certas, dar origem a vida. Enquanto o v√≠rion n√£o for inativado, perdendo sua organiza√ß√£o, ele pode passar por um processo de cria√ß√£o, necessitando, para isso, de uma c√©lula viva, a partir da qual a entidade viral ativa consegue se formar. O surgimento desse organismo vivo constitui ent√£o uma “transbiog√™nese”, no qual um ser vivo conceitualmente diferente brota da intera√ß√£o do v√≠rion e o hospedeiro.

A estrutura√ß√£o de v√≠rus como seres cujo ciclo de vida transita entre est√°gios vivos e n√£o vivos cria duas novas indaga√ß√Ķes: onde os v√≠rus se integram no quadro dos seres vivos existentes (ou seja, em que ponto do “arbusto da vida”) e se entidades replicadoras semelhantes podem receber classifica√ß√Ķes que os incluam nos dom√≠nios da vida.

As intera√ß√Ķes filogen√©ticas “ribossomoc√™ntricas” da “√°rvore da vida” se tornaram demasiadamente simplistas com a descoberta de diversos eventos de simbiose e transfer√™ncia g√™nica horizontal, formando um complexo arbusto que brota a partir do LUCA (o √ļltimo ancestral comum). Como h√° v√≠rus parasitando arqueas, bact√©rias e eucariotos, √© poss√≠vel imaginar v√≠rus parasitando o LUCA ou at√© sistemas de reprodu√ß√£o de RNA anteriores. A intera√ß√£o de parasitas com qu√≠mica de DNA pode at√© ter participado da mudan√ßa no tipo de material gen√©tico usado pelos replicadores mais complexos, de RNA para DNA. Apesar de alguns caps√≠deos icosa√©dricos apresentarem motivos proteicos semelhantes, a aus√™ncia de um gene unificador (com os genes ribossonais em c√©lulas) e a presen√ßa de diversas classes (que apesar de centradas no ssRNA+, apresentam materiais variados como ssDNA, dsDNA-RT, ssRNA-RT e outros) sugerem que √© poss√≠vel a diversos eventos de surgimento de linhagens virais. Somam-se a isso altas taxas de evolu√ß√£o, que tornam o rastreamento fil√©tico a longo prazo muito complicado. Dessa forma, os v√≠rus “vivos” constituem parte ativa do arbusto da vida, mas com a rela√ß√£o filogen√©tica exata necessitando ser melhor esclarecida por pesquisas futuras.

Quando viramos o olhara para outros replicadores Darwinianos como plasm√≠deos, retrotransposons e viroides, n√£o √© poss√≠vel observar a mesma malha de intera√ß√Ķes formadora de organismo. Sendo assim, tais “replicons √≥rf√£os” n√£o possuem suficiente protagonismo para adquirirem o mesmo patamar de vivos ou “viajantes”. Isso n√£o diminui a import√Ęncia dessas estruturas, que mesmo n√£o-vivas por si, s√£o parte chave na complexidade que rege os sistemas biol√≥gicos.

Em conclus√£o, o acatamento de v√≠rus como um seres com estado vivo (em contraponto √† vis√£o celularista da vida, atualmente mais popular) acarreta uma pespectiva menos hierarquizada das entidades biol√≥gicas, contribuindo para uma vis√£o mais horizontal da vida. Mais que isso, o aceitamento de v√≠rus como entidades vivas, protagonistas, √© uma atitude n√£o s√≥ justa como progressiva, contribuindo para redu√ß√£o da vis√£o antropoc√™ntrica da biosfera e at√© enriquecendo nossa posi√ß√£o como seres integrados a uma rede de intera√ß√Ķes de organismos .

Quem eu sou?

Tiago LubianaMeu nome é Tiago Lubiana, carioca, estudante e patologicamente apaixonado pela ciência, com queda especial por biologia molecular, bioquímica e encéfalos. Entusiasta da ciência aberta e do pensamento crítico como ferramentas de transformação social.

Inventores brasileiros pedem sua ajuda, em dinheiro, para levar ao mercado um dos designs mais premiados do mundo em 2014

РPor Henry Suzuki

Imagine que a pr√≥xima vez que voc√™ for comprar √°gua no supermercado, voc√™ possa escolher entre uma garrafa fechada com uma tampa ‚Äúnormal‚ÄĚ ou com um tampa que, ap√≥s ser usada, possa ser reutilizada como bloco de montar. Imagine agora que, al√©m de encaixarem entre si, essas tampas-blocos de montar tamb√©m se encaixem com blocos das principais marcas encontradas no mercado (Lego, Megablocks, etc).

Pois √©. Essas tampas existem: Nominadas pelo London Design Museum como um dos ‚ÄúDesigns of The Year 2014‚ÄĚ e vencedoras de diversos pr√™mios nacionais e internacionais de design e sustentabilidade, as Clever Caps (www.facebook.com/clevercaps) s√£o tampas de garrafa que j√° saem de f√°brica com duas vidas: Na primeira vida, s√£o tampas compat√≠veis com gargalos de garrafas PET convencionais. Na segunda, s√£o blocos de montar compat√≠veis com Lego. Isso tudo sem necessidade de reciclagem ou de qualquer outro tipo de reprocessamento.

claver caps

Criadas pelos inventores brasileiros Cl√°udio Patrick Vollers e Henry Suzuki, as Clever Caps est√£o muito perto de chegarem √†s g√īndolas. O lan√ßamento ser√° feito por uma empresa brasileira de √°guas minerais. No entanto, para esse primeiro lan√ßamento a produ√ß√£o ser√° feita com maquin√°rio de pequena escala, utilizado para o desenvolvimento das tampas.

Para acelerarem a amplia√ß√£o de escala de fabrica√ß√£o, os inventores lan√ßaram uma campanha de ‚Äúcrowdfunding‚ÄĚ (financiamento coletivo). Qualquer pessoa f√≠sica ou jur√≠dica (inclusive voc√™ que est√° lendo este texto) pode colaborar.

As doa√ß√Ķes, que s√£o feitas online, podem ser partir de 1 d√≥lar. Dependendo da quantia, os colaboradores podem escolher entre diferentes tipos de recompensas. Uma das mais populares √© a doa√ß√£o de Clever Caps para institui√ß√Ķes de caridade: para cada d√≥lar arrecadado, dez tampinhas ser√£o doadas.

Para colaborar com o crowdfunding das Clever Caps veja o site: http://igg.me/at/clevercaps/x/7851837

Informa√ß√Ķes sobre as Clever Cap, incluindo um tutorial sobre como contribuir na campanha podem ser vistas nesse v√≠deo: https://www.youtube.com/watch?v=KWQlI3GEXPA

 

Henry Suzuki é inventor, empreendedor e especialista em patentes.

 

Experimento Micro-ondas – dia 22: o resultado final

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Experimento micro-ondas: mudou o pH, e agora?!

 

Depois de analisar os dados coletados durante os 22 dias de experimento, é hora de revelar os resultados.

Primeiramente, uma recapitulação básica do que é tudo isso:

Há algum tempo, voltou a circular um velho mito nas redes sociais de que o forno de micro-ondas teria capacidade de alterar características físico-químicas dos alimentos nele aquecidos. Para mostrar que essas mudanças eram perigosas, haviam fotos de duas plantas, uma regada com água fervida no micro-ondas e a outra com água fervida no fogão. A planta que recebia água do micro-ondas morria em 9 dias.

Mas será que é realmente isso que acontece?

Responder essa pergunta foi umas das minhas motiva√ß√Ķes para a realiza√ß√£o desse simples por√©m relevante experimento. Acompanhe os textos anteriores nos links acima caso voc√™ ainda n√£o os tenha lido. Garanto que tudo vai fazer mais sentido.

No √ļltimo texto, ‚ÄúExperimento micro-ondas ‚Äď Dia 20: mudou o pH, e agora?!‚ÄĚ demonstrei como o aquecimento da √°gua pode alterar suas caracter√≠sticas f√≠sico-qu√≠micas, como por exemplo o pH. Sim, aquecer a √°gua ou qualquer alimento no forno de micro-ondas muda algumas caracter√≠sticas da subst√Ęncia, na maioria das vezes tornando-a mais b√°sica (menos √°cida). Mas o efeito √© exatamente o mesmo de ferver a √°gua num fog√£o √† g√°s.

Portanto, ao partirmos da noção de que a água fervida (sem importar o como) será mais básica, poderíamos esperar um efeito no desenvolvimento das plantas envolvidas. O pH das águas utilizadas no experimento estão descritas na Tabela 1:

Tipo de √°gua pH
Mineral 6,0 ¬Ī0.1
Torneira 6,0 ¬Ī0.1
Fervida em forno de micro-ondas 6,8 ¬Ī0.1
Fervida em forno √† g√°s 6,8 ¬Ī0.1

 

 

 

Tabela 1 РRelação de pHs

O experimento estava dividido em três testes: germinação em terra, germinação em algodão e crescimento. Achei interessante partir de três abordagens diferentes e tentar chegar em resultados que não se contradissessem. Será que deu certo?

 

1.¬†¬†¬† Germina√ß√£o em terra ‚Äď R√ļcula e Chic√≥ria

 

Existem alguns textos pela internet dizendo que a água fervida em micro-ondas faria com que sementes ficassem estéreis. Será que é realmente isso que acontece?

Para o teste de germina√ß√£o em terra, escolhi duas esp√©cies de plantas que resistem bem ao calor e tem um tempo de germina√ß√£o relativamente diferente entre si: Eruca sativa (R√ļcula) e Cichorium end√≠via (Chic√≥ria). Foram mais de mil sementes espalhadas por 104 espa√ßos em uma sementeira, como a Figura 1:

Figura 1: sementeira para testes de germinação.

Figura 1: sementeira para testes de germinação.

As sementes e respectivas mudas foram regadas duas vezes ao dia com uma quantidade padrão de água durante todo o período do experimento. Será que a fervura realmente deixou as sementes estéreis?

Veja voc√™ mesmo na Figura 2. Na metade superior temos as Chic√≥rias e na inferior as R√ļculas:

Figura 2: Sementeira ao final do experimento.

Figura 2: Sementeira ao final do experimento.

Você consegue dizer qual fileira recebeu qual tipo de água simplesmente olhando para esta imagem?

A distribuição foi a seguinte, da esquerda para a direita: água mineral, água de torneira, água fervida no micro-ondas e água fervida no fogão. Acertou alguma?

Conclusão: Não há efeito observável em relação ao tipo de água utilizado. Todos os quadradinhos tiveram uma germinação parecida.

Talvez voc√™ n√£o tenha gostado muito desse resultado, por ser provindo de uma an√°lise puramente qualitativa e subjetiva, onde a avalia√ß√£o foi ‚Äúno olho‚ÄĚ. Mas esse n√£o √© nem o teste prim√°rio, o melhor acabou ficando para o final!

2.¬†¬†¬† Germina√ß√£o em algod√£o ‚Äď Feij√£o

 

Este foi um teste com um apelo um pouco mais did√°tico, facilmente reproduz√≠vel por qualquer um (professor, fa√ßa esse experimento em sua classe!). Separei 60 feij√Ķes-comuns e coloquei 3 em cada pote. Cada grupo de 5 potes recebia um tipo de √°gua. A brita no fundo do pote √© para que o mesmo n√£o saia voando, veja a Figura 3:

Figura 3: Feij√Ķes no algod√£o para teste de germina√ß√£o.

Figura 3: Feij√Ķes no algod√£o para teste de germina√ß√£o.

O que aconteceu? Ser√° que algum feij√£o n√£o germinou?

Acompanhe a Figura 4. Talvez seja um pouco dif√≠cil de observar, mas os feij√Ķes germinaram normalmente em todos os potes:

Figura 4: Feij√Ķes j√° germinados.

Figura 4: Feij√Ķes j√° germinados.

Conclus√£o: N√£o h√° efeito observ√°vel em rela√ß√£o ao tipo de √°gua utilizado. Todos os feij√Ķezinhos cresceram normalmente, como esperado!

 

3.¬†¬†¬† Teste de Crescimento ‚Äď Cuphea gracilis e Torenia fournieri

 

Agora partimos para uma an√°lise um pouco diferente. Mais robusta e quantitativa, o teste de Crescimento busca avaliar exemplares de duas esp√©cies de flores comuns e como diferentes tipos de √°gua afetam seu crescimento, medindo em biomassa. Esse foi o experimento de verdade, que usa n√ļmeros e porcentagens, imensamente melhores do que compara√ß√Ķes ‚Äúno olho‚ÄĚ como fizemos at√© agora.

3.1¬† ‚ÄúBiomassa‚ÄĚ? Isso √© spaghetti para bi√≥logos?

A piada pode ter sido ruim, mas a explicação é boa: biomassa é um termo chique para falar sobre a quantidade total de matéria viva existente num ecossistema ou numa população animal ou vegetal. [1]

Existem principalmente dois tipos de biomassa: específica, que trata da massa total de determinada espécie, e a biomassa de comunidade, que leva em consideração todas as espécies naquela comunidade.

Toda vez que utilizei biomassa aqui, estava me referindo à biomassa específica ou, no caso da biomassa média, a média da biomassa específica de nossas duas espécies: a Torênia e a Cufeia.

 

A biomassa foi medida de forma padronizada, na mesma hora e com o mesmo espa√ßamento temporal entre a √ļltima regada de cada planta. Uma balan√ßa de precis√£o foi utilizada para uma medida com maior acur√°cia. Isso significa que eu pesei elas na mesma hora, para garantir que eu n√£o estaria pesando junto √°gua da √ļltima regada.

 

As plantas estavam divididas de acordo com a Tabela 2:

Tipo de √°gua Quantidade
Mineral 12 plantas (6 de cada)
Torneira 12 plantas (6 de cada)
Fervida em forno de micro-ondas 24 plantas (12 de cada)
Fervida em forno à gás 12 plantas (6 de cada)

 

 

 

Tabela 2 РRelação de distribuição de plantas

Para comparar o crescimento das plantas, escolhi utilizar a medida de biomassa média de cada conjunto. Pesei em uma balança de precisão cada planta no início do experimento e as fotografei. Ao final, pesei e fotografei novamente todas as plantas. A ideia inicial era pesá-las diariamente, mas tal processo mostrou-se logisticamente complicado.

Calculei a média aritmética de cada um dos 4 grupos no início e no fim do experimento. O gráfico a seguir mostra a biomassa inicial, em azul; biomassa final, em laranja; variação em porcentagem em amarelo. As medidas de massa estão em gramas. Veja a Figura 5:

Figura 5: Comparação de Biomassa Média.

Figura 5: Comparação de Biomassa Média.

A tendência é clara. Veja a Tabela 3:

 

Tipo de √°gua

Média inicial

Média final

Variação

Porcentagem

Mineral

280,17

281,00

0,83

0%

Torneira

267,92

285,67

17,75

7%

Fervida micro-ondas

249,00

290,71

41,71

17%

Fervida fog√£o

248,92

290,25

41,33

17%

Tabela 3 ‚Äď Compara√ß√£o de biomassa m√©dia por tipo de √°gua.

Podemos concluir, a partir dessa an√°lise geral, que:

1.       No geral, as plantas utilizadas pelo experimento preferem as águas fervidas;

2.       A água mineral foi a que pior se saiu no nosso teste: as plantinhas que a receberam mal conseguiram sobreviver.

 

3.2  РComparação de Biomassa Média de espécimes de Cuphea gracilis.

 

Agora, vamos analisar uma espécie por vez, a começar pela Cuphea gracilis (Cufeia). O procedimento adotado foi o mesmo: foi feita a média aritmética da biomassa inicial e da final e uma comparação simples. Acompanhe a Figura 6 e a Tabela 4:

an√°lise_cufeia

Figura 6: Comparação de Biomassa Média de espécimes de Cuphea gracilis.

Tipo de √°gua

Média inicial

Média final

Variação

Porcentagem

Mineral

264,00

258,50

-5,50

-2%

Torneira

238,83

270,33

31,50

13%

Fervida micro-ondas

223,50

257,83

34,33

15%

Fervida fog√£o

213,00

258,17

45,17

21%

Tabela 4 ‚Äď Compara√ß√£o de biomassa m√©dia por tipo de √°gua de esp√©cimes de Cuphea gracilis.

O efeito agora é um pouco mais sutil. Não há uma diferença tão gritante entre a água de torneira e as fervidas. O que é interessante de se notar é o péssimo desempenho da água mineral, que fez as plantas perderem biomassa, ou seja, emagreceram um pouquinho. Nota: não recomendo ao leitor interessado em perder alguns quilinhos beber água mineral em excesso; caso o leitor não se recorde, as plantinhas aqui estudadas funcionam de modo ligeiramente diferente de um ser humano.

 

Podemos concluir, a partir dessa análise de biomassa de espécimes de Cuphea gracilis, que:

1.       No geral, as Cuféias utilizadas pelo experimento preferem as águas fervidas no fogão, com uma pequena diferença entre a água de torneira e a fervida no micro-ondas;

2.       A água mineral obteve o pior desempenho; os espécimes que receberam-na não apenas deixaram de crescer, mas definharam perdendo em média 2% de sua biomassa inicial;

 

3.2 РComparação de Biomassa Média de espécimes de Torenia fournieri.

 

O mesmo procedimento foi repetido para os espécimes de Torenia fournieri. Veja a Figura 7 e a Tabela 5:

an√°lise_torenia

Figura 7: Comparação de Biomassa Média de espécimes de Torenia fournieri.

Tipo de √°gua

Média inicial

Média final

Variação

Porcentagem

Mineral

296,33

303,50

7,17

2%

Torneira

297,00

301,00

4,00

1%

Fervida micro-ondas

274,50

323,58

49,08

18%

Fervida fog√£o

284,83

322,33

37,50

13%

Tabela 5 ‚Äď Compara√ß√£o de biomassa m√©dia por tipo de √°gua de esp√©cimes de Torenia fournieri.

O efeito agora é inverso. A água fervida no forno de micro-ondas se saiu melhor que a fervida no fogão, ao contrário do que ocorreu com a Cufeia. E desta vez o pior desempenho ficou com a água de torneira.

A partir de todos esses dados, podemos extrair algumas conclus√Ķes gerais:

1.       Em geral, as plantas utilizadas no estudo preferiram água fervida, ou seja, menos ácida;

2.       O pior desempenho médio ficou com a água mineral, com um crescimento quase nulo;

3.       A água de torneira, não-filtrada, teve um desempenho superior ao da água mineral, mas inferior ao das águas fervidas.

4.       Dentro das águas fervidas, a água fervida no forno de micro-ondas teve uma miserável vantagem de 0,00145% sobre a água fervida no fogão. Tecnicamente, seu desempenho foi melhor.

 

E temos um vencedor!

Conclus√£o principal: O experimento mostrou que a √°gua fervida no micro-ondas n√£o apenas n√£o faz mal algum as plantas, como se mostrou a melhor dos quatro tipos de √°gua!

pódio

Se voc√™ leu at√© aqui, deve estar se imaginando o porqu√™ que √°gua mineral obteve um desempenho inferior ao da √°gua de torneira. Bem, eu tamb√©m. Isso √© assunto para um pr√≥ximo experimento, a ser detalhado em breve…

Convido a todos a postarem suas perguntas na seção de comentários abaixo.

E aqui um experimento se encerra, mas a minha motivação não. Pretendo publicar um texto em breve respondendo às perguntas feitas e completando com mais detalhes que não foram incluídos aqui para não deixar o texto muito pesado. Também vou aproveitar o próximo texto para discutir com um pouco mais de detalhamento os resultados obtidos.

O objetivo agora é sintetizar os resultados para publicação em periódicos específicos ou não. No próximo texto detalharei melhor como tudo isso será feito.

Convido a todos para replicarem a ideia, utilizando outras plantas ou outros tipos de √°gua. Expresso aqui minha vontade de que todos possam realizar o exerc√≠cio cient√≠fico como hobby. Meu experimento foi simples, mas serviu para mostrar como se mistifica muita coisa a respeito do fazer cient√≠fico. √Č claro que n√£o acho que isso aqui se compara a uma pesquisa de verdade, mas serve para ilustrar o conceito.

Agrade√ßo a todos que apoiaram a execu√ß√£o e deram sugest√Ķes. Um agradecimento especial √† minha m√£e, que me ajudou do come√ßo ao fim do experimento, ao Rafael Bento aqui do ScienceBlogs, que me incentivou a escrever sobre o experimento e a minha ex-Professora de Biologia, Sharon, que sempre alimentou meu interesse pelas plantas!

Também aceito desafios para desbancar lendas urbanas!

Saliento para vocês leitores: perguntem, duvidem, critiquem, elogiem, proponham, desafiem. O espaço de comentários está aqui a seu dispor! E não se esqueça, se gostou do experimento, compartilhe e mostre para seus amigos e familiares.

Até o próximo experimento!

 

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Experimento micro-ondas: mudou o pH, e agora?!

Experimento micro-ondas – Dia 20: mudou o pH, e agora?!

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Primeiramente, minhas sinceras desculpas. Não tive como manter o ritmo de atualização que esperava devido a algumas pendências a resolver. Mas vamos lá:

Muito se fala, mas pouco realmente se sabe sobre o funcionamento do forno de micro-ondas. Um equipamento quase místico que é onipresente na maioria das residências, ele não resistiu a formação de uma lenda urbana em seu entorno.

Recentemente chegou até mim uma lenda urbana que fala sobre os efeitos nocivos do uso do micro-ondas para aquecimento de alimentos, utilizando como base um experimento que supostamente mostrava uma planta morrendo depois de 9 dias regadas com água fervida no forno de micro-ondas, como abordei no texto anterior: http://scienceblogs.com.br/ensaios/2014/02/experimento-microondas-dia-03/

Por sua forma de funcionamento ser ligeiramente mais complexa, muitas pessoas ficam criando mitos e lendas ao redor deste inofensivo eletrodom√©stico. A√≠ √© claro, os charlat√Ķes de plant√£o aproveitam para arrebanhar audi√™ncia para suas ideias de conspira√ß√£o, assunto que eu abordei no texto anterior tamb√©m.

O problema aumenta quando as poucas pessoas que se interessam por entender como o aparelho funciona se deparam com outra lenda urbana: a de que o forno de micro-ondas funciona de modo a fazer com que as mol√©culas de √°gua supostamente entrassem em resson√Ęncia com a frequ√™ncia emitida pelo forno. O que n√£o √© o que realmente acontece.

‚ÄúO que aquece os conte√ļdos em um forno de micro-ondas √© principalmente o campo el√©trico e o efeito √© o seguinte. Uma mol√©cula de √°gua ‚Äď e √°gua √© abundante nos alimentos ‚Äď tem maior concentra√ß√£o de cargas negativas em um de seus extremos e de cargas positivas no outro. Assim, as mol√©culas de √°gua tendem a se alinhar com um campo el√©trico que atua sobre elas. Mas o campo el√©trico, no caso, √© oscilante, invertendo sua orienta√ß√£o bilh√Ķes de vezes por segundo. Portanto, as mol√©culas tender√£o a se alinhar em uma dire√ß√£o, logo em seguida em dire√ß√£o oposta e depois na mesma dire√ß√£o, etc. Durante esse movimento as mol√©culas interagem com as suas vizinhas e a energia que absorvem do campo el√©trico vai sendo distribu√≠da, aquecendo o conte√ļdo do forno‚ÄĚ explica Otaviano Helene, professor da USP, em mat√©ria para o Observat√≥rio da Scientific American [1].

Veja a Figura 1 para um melhor entendimento:

Figura 1: Exemplificação do alinhamento molecular com o campo elétrico oscilante. [2]

Figura 1: Exemplificação do alinhamento molecular com o campo elétrico oscilante. [2]

Agora que entendemos um pouco melhor de como realmente funciona, vamos partir para as perguntas que geralmente s√£o levantadas:

1 ‚Äď Poderia o aquecimento no micro-ondas alterar propriedades do alimento?

Ao que muitos c√©ticos prontamente respondem um enf√°tico ‚Äún√£o‚ÄĚ, a resposta √© sim.

Detalhe: não é devido ao método e sim ao aquecimento da própria água. Ferver água no fogão e no micro-ondas resultam na mesma coisa. Acompanhe:

Primeiro, peguei √°gua da torneira. Segundo a conta de √°gua, seu pH √© de 6,01. Meu medidor mostrou 6.0 ¬Ī0.1, o que est√° bem dentro do esperado. Veja a Figura 2:

Figura 2: Medindo o pH da água saída da torneira.

Figura 2: Medindo o pH da água saída da torneira.

Ent√£o, peguei esta mesma √°gua e fervi no forno de micro-ondas. Tenho tempo cronometrado para que ela apenas comece a ferver. Medi o pH mais uma vez, conforme a Figura 3:

Figura 3: Medindo o pH da água após ser fervida no forno de micro-ondas.

Figura 3: Medindo o pH da água após ser fervida no forno de micro-ondas.

Agora foi para pH 6.8 ¬Ī0.1.

Se eu fosse apenas ligeiramente tendencioso, já teria me aproveitado dessa leitura e afirmado que o micro-ondas é prejudicial e blá blá blá. Mas, calma lá. Veja o que acontece quando eu fervo a água de torneira no fogão, na Figura 4:

Figura 4: Medindo o pH da √°gua fervida no fog√£o.

Figura 4: Medindo o pH da √°gua fervida no fog√£o.

Ah√°! Mesma coisa. pH de 6.8 ¬Ī0.1.

O que podemos concluir então é que não é o método, e sim o ato da fervura que muda essa coisa misteriosa chamada pH. Muda também o gosto pelo mesmo motivo.

1.1¬† ‚Äď O que diabos √© esse pH?

Em resumo, √© uma forma de indicar a acidez ou alcalinidade de uma solu√ß√£o aquosa. O tal n√ļmero √© cologaritmo de base 10 da atividade de √≠ons de H+. A faixa de medi√ß√£o vai de 0 a 14 (n√£o √© o limite, √© uma conven√ß√£o de uso), sendo 0 um √°cido MUITO forte e 14 uma base MUITO forte. A √°gua pura, neutra, deveria ter um pH de 7.0. [3]

1.2¬† ‚Äď Porque o ato da fervura altera o pH?

Nossa √°gua de torneira, longe de ser pura, possui uma s√©rie de sais de c√°lcio, magn√©sio, s√≥dio e pot√°ssio, al√©m de outras coisas como oxig√™nio e di√≥xido de carbono dissolvidos. √Č desta mistura de componentes que vem o gosto da √°gua.

O di√≥xido de carbono (CO2) dissolvido reage com a pr√≥pria √°gua e cria √°cido carb√īnico (H2CO3), que por sua vez se dissocia para criar pequenas quantidades de √≠ons H+ e HCO3. Ent√£o o pH da √°gua √© regulado pelas quantidades de di√≥xido de carbono e √≠ons de bicarbonato (HCO3).

Mas os íons de bicarbonato (HCO3) são vulneráveis a calor e sofrem termólise (também chamada de decomposição térmica), transformando-se em um íon carbonato e dióxido de carbono, como a seguinte reação:

2HCO3 ‚ÜĒ CO3-2+ CO2 + H2O

Quando a água é fervida, tanto os dióxidos de carbono quanto os oxigênios dissolvidos na água são expelidos fora de nossa solução. Mesmo que a água resfrie, a reentrada de dióxido de carbono não consegue equiparar a perda dos bicarbonatos. Isso significa que teremos uma concentração reduzida de bicarbonatos e íons H+, diminuindo o caráter ácido da solução e por consequência, aumentando seu pH. [4] [5]

 

Então não, o forno de micro-ondas não tem a capacidade de alterar características físico-químicas da água mais do que o seu fogão convencional. Nada a se preocupar.

 

2 ‚Äď Poderia a √°gua fervida no micro-ondas causar altera√ß√Ķes no crescimento de plantas?

Sim, claro que pode. Assim como a água fervida no fogão. Não vou me cansa de repetir, o efeito do aumento do pH provém do aquecimento em si, e não da forma com que você faz isso. Para plantas que preferem solos mais básicos (alcalinos), regar com água fervida pode ajudá-las a se desenvolver melhor.

3 ‚Äď Voc√™ espera alguma diferen√ßa no desenvolvimento das plantas?

Sim, exclusivamente devido ao pH. Ambas √°guas mineral e de torneira possuem pH pr√≥ximo de 6.0 ¬Ī0.1 e as fervidas de 6.8 ¬Ī0.1. Se existir algum efeito, ele ser√° identificado num par mais √°cido (torneira e mineral) ou mais b√°sico (fervidas).

4 ‚Äď √Č verdade que o forno de micro-ondas opera numa frequ√™ncia que causa c√Ęncer?

Se isso fosse verdade, deveríamos estar muito mais preocupados com nossos roteadores WiFi, televisão e aparelhos de celular. Todos operam na faixa eletromagnética dos micro-ondas. Roteadores de WiFi operam inclusive na exata mesma frequência (2.4GHz) do que a maioria dos fornos de micro-ondas convencionais.

E lembre-se: seu micro-ondas est√° ligado poucos minutos por dia e est√° envolto por uma Gaiola de Faraday muito boa, feito para que as ondas n√£o escapem. Seu roteador √© feito para transmitir mais sinal para o maior n√ļmero de lugares poss√≠vel. O mesmo vale para aparelhos de celular, r√°dios UHF, televis√£o, entre muitos outros.

A resposta é Não.

5 ‚Äď Como est√° o andamento do experimento?

Em ritmo de encerramento. Os feij√Ķezinhos j√° est√£o sofrendo e ser√£o replantados em breve, estando j√° fora do experimento e devidamente pesados e fotografados. O resto das plantas ser√° pesada e fotografada individualmente para que possamos conferir se houve alguma diferen√ßa em seu desenvolvimento.

O exército de plantas utilizado para o experimento está começando a mostrar sinais de definhamento: precisam sair de seus vasinhos. Depois de todo o empenho, nada como uma repaginada no jardim e uma boa salada!

20140227_015

Os textos continuar√£o vindo, apesar da longa pausa que fui obrigado a fazer. O experimento continuou sem interrup√ß√Ķes e estarei compilando os resultados para publica√ß√£o aqui na semana que vem. Prometo que n√£o vai demorar muito.

O próximo texto será surpresa!

Até a próxima!

Referências:

[1] ‚Äď Observat√≥rio SciAm, Scientific American Ano 12, n¬ļ139, p√°g 20 ‚Äď Dezembro 2013;

[2] – http://www.pueschner.com/basics/phys_basics_en.php

[3] – http://pt.wikipedia.org/wiki/PH

[4] – http://www.hindu.com/seta/2005/08/25/stories/2005082500271600.htm

[5] – http://www.hc-sc.gc.ca/ewh-semt/pubs/water-eau/ph/index-eng.php

 

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Experimento Micro-ondas: Dia 03

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Agora que você já conhece um pouco mais do experimento que está sendo realizado ou o que, chegou a hora de saber o porquê.

Toda nova tecnologia, quando chega ao grande p√ļblico, vira alvo de pol√™micas e conspira√ß√Ķes. Com o forno de micro-ondas n√£o foi nada diferente. Criado por acidente em 1947 pela Raytheon, empresa estadunidense que desenvolve sistemas de radares ativos para fins militares e aeroespaciais, o aparelho at√© hoje √© um verdadeiro mist√©rio na cozinha de muitas pessoas. Exploraremos melhor a hist√≥ria e funcionamento do forno de micro-ondas em um futuro pr√≥ximo.

Pol√™micas em torno do micro-ondas ganham for√ßa com o alcance e a relativa facilidade de se criar e disseminar conte√ļdo (as vezes de p√©ssima qualidade) pela Internet. Muitos blogs, quando n√£o atrelados a uma rede que lhes ateste credibilidade (como o nosso querido ScienceBlogs) acabam divulgando conte√ļdo sensacionalista e por vezes completamente errado. Se √© feito por ingenuidade ou com inten√ß√Ķes perversas n√£o √© nosso foco aqui. O problema √© que muitas dessas informa√ß√Ķes caem nas m√£os (ou olhos) de muitas pessoas, que na base da confian√ßa cega e falta de ceticismo acabam acreditando em tudo que leem ali.

Nesse sentido, há o excelente E-Farsas, uma iniciativa de Gilmar Lopes, um Analista de Sistemas que analisa as várias polêmicas e supostas notíciais que circulam na Internet, fazendo e incentivando o bom uso do ceticismo.

Recentemente voltou a circular um velho mito sobre o forno de micro-ondas: que ele teria a capacidade de ‚Äúalterar a estrutura molecular de √°gua e criar compostos t√≥xicos‚ÄĚ. A alega√ß√£o era evidenciada a partir de um ‚Äúexperimento‚ÄĚ no qual durante 9 dias se molhou uma planta com √°gua fervida no fog√£o e outra fervida no micro-ondas, e aquelas fervida no micro-ondas morria ao final dos 9 dias. Este suposta not√≠cia foi requentada; surgiu em 2010 comentando sobre a experi√™ncia das plantinhas que supostamente havia sido feita em 2006 por uma jovem chamada Arielle Reynolds, para uma feira de ci√™ncias em Knoxville, Tennessee, EUA. [1][2]

Figura 1: Primeiro dia do suposto experimento. A planta da esquerda recebe √°gua fervida em micro-ondas e a da direita fervida no fog√£o.

Figura 1: Primeiro dia do suposto experimento. A planta da esquerda recebe √°gua fervida em micro-ondas e a da direita fervida no fog√£o.

 

Figura 2: Ao quinto dia, é visível a diferença no desenvolvimento das duas plantas.

Figura 2: Ao quinto dia, é visível a diferença no desenvolvimento das duas plantas.

 

Figura 3: Visivelmente, h√° algo de errado com a planta da esquerda.

Figura 3: Visivelmente, h√° algo de errado com a planta da esquerda.

Esbarrei com esta ‚Äúnot√≠cia‚ÄĚ h√° algumas semanas por um compartilhamento do Facebook. Li com aten√ß√£o e fiquei um pouco incomodado com algumas coisas:

  • Porque o texto n√£o apresenta nenhuma indica√ß√£o de quais seriam estes ‚Äúcompostos t√≥xicos‚ÄĚ ou ao menos apontaria alguma fonte para consulta aprofundada?
  • Porque o experimento foi realizando com apenas duas plantas? Uma amostragem dessas √© min√ļscula para tirar uma conclus√£o de tal magnitude.
  • J√° que os resultados foram t√£o surpreendentes, porque n√£o replicaram o experimento mais vezes e com outras plantas, para aumentar credibilidade?
  • Porque justificavam a falta de artigos e publica√ß√Ķes sobre o assunto como uma conspira√ß√£o das fabricantes de eletrodom√©sticos?

conspiracy-theory-alert

O tom sensacionalista, alarmista e pouco t√©cnico da maioria dos textos que encontrei falando sobre os perigos do uso de fornos de micro-ondas fez soar meu alerta c√©tico interior. Me lembrou muito aqueles pseudodocument√°rios sobre alien√≠genas, 11 de setembro, √Ārea 51 e afins. Mas dessa vez era um pouco diferente.

Uma coisa √© um pseudodocument√°rio revisionista, que buscar ‚Äúrelativizar‚ÄĚ e ‚Äúreavaliar‚ÄĚ fatos e evid√™ncias em busca de uma explica√ß√£o alternativa para corroborar devaneios de conspiracionistas, onde existe um sentimento de impot√™ncia frente ao que est√° sendo exibido. Outra coisa completamente diferente √© a exibi√ß√£o de um suposto experimento, malconduzido, que detalha um aparte da realidade. Isso n√≥s podemos fazer, qualquer um de n√≥s.

O simples experimento que criei utiliza elementos básicos do método científico. Não precisa de muito investimento (minhas estimativas iniciais colocam os custos do experimento em R$120-R$150) nem muito tempo dedicado. Apenas precisa de nossa iniciativa, da não conformação frente a uma notícia mal dada ou um experimento malconduzido.

Reconhe√ßo que o √īnus da prova recai sobre quem afirma a hip√≥tese, em conduzir um experimento decente, replic√°vel, detalhado e devidamente documentado. Minha inten√ß√£o aqui √© tentar mostrar para o grande p√ļblico n√£o apenas se a √°gua do micro-ondas faz mal ou n√£o, mas tamb√©m sobre os benef√≠cios de duvidarmos de informa√ß√Ķes e explica√ß√Ķes reconhecidamente ruins. Quero incentivar o maior n√ļmero de pessoas poss√≠vel de que √© sim tang√≠vel voc√™ separar algumas horas por m√™s e conduzir um experimento cient√≠fico simples de seu interesse. N√£o para necessariamente descobrir uma coisa nova ou almejando um Nobel e sim para entender um pouco melhor como o mundo ao nosso redor funciona.

Anseio o dia em que a prática científica amadora seja tão comum quanto tomar café-da-manhã ou assistir à novela das 8. Anseio o dia em que as pessoas não se contentem com as respostas deglutidas e tendenciosas, mas formem as suas próprias quando possível.

Chega de reflex√Ķes, vamos √†s plantinhas:

Figura 4: Ol√°, eu sou um feij√£o.

Figura 4: Ol√°, eu sou um feij√£o.

Todas as plantas estão se desenvolvendo, sobrevivendo e germinando. Umas mais, outras menos, o que será objetivamente avaliado por meio de comparação de biomassa e fotos ao final. Além de ser muito cedo para dizer quais plantinhas estão vivendo melhor, o que cada planta está recebendo está documentado e só será revelado ao final do experimento.

Figura 5: O saud√°vel grupo C, com 6 Torenia fournieri e 6 Cuphea gracilis.

Figura 5: O saud√°vel grupo C, com 6 Torenia fournieri e 6 Cuphea gracilis.

E devo confessar, √© quase terap√™utico acordar um pouco mais cedo e ir regar as plantinhas, acompanhar sua germina√ß√£o e crescimento. Recomendo a todos, principalmente para os mais agitados e estressados, replicarem o experimento. Al√©m do exerc√≠cio cient√≠fico e relaxamento, acompanhar o crescimento de r√ļculas e chic√≥rias pode render uma boa salada no final do experimento. Ou voc√™ acha que minha m√£e est√° ajudando de gra√ßa?

Figura 6: Os 52 p√©s de R√ļculas, futuramente ser√£o salada.

Figura 6: Os 52 p√©s de R√ļculas, futuramente ser√£o salada.

No pr√≥ximo texto, vamos explorar um pouco melhor o que √© verdade e o que n√£o √© nas alega√ß√Ķes de efeitos dos fornos micro-ondas.

Até a próxima!

Ah, e aceito sugest√Ķes de preparo de saladas que envolvam grandes quantidades de R√ļculas e Chic√≥rias.

Tulio Baars ‚Äď http://alexaradio.org/

Fontes:

[1]: ‚ÄúAlimentos preparados no micro-ondas fazem mal √† sa√ļde?‚ÄĚhttp://www.e-farsas.com/alimentos-preparados-micro-ondas-saude.html

[2]: Tudo come√ßou nesta p√°gina: ‚ÄúMicrowaved Water – See What It Does to Plants‚ÄĚ – http://www.rense.com/general70/microwaved.htm

LOGBOOK 06/02/2014 até 08/02/2014:

– R√ļculas de modo geral germinam muito r√°pido, talvez n√£o sejam adequadas para timelapse;

– Conseguir uma GoPro ou c√Ęmera autom√°tica para fotos da germina√ß√£o das Chic√≥rias;

РHá uma visível diferença de crescimento entre alguns grupos de feijão. Ansioso para saber que água recebem;

– Quantidade de √°gua √≥tima encontrada: 100mL de √°gua por planta. Necessita de mais observa√ß√Ķes para determinar as diferen√ßas de quantidade de √°gua para cada esp√©cie;

РIdeia para experimento futuro: relacionar o desenvolvimento e germinação em função da diferença entre a temperatura da água regada em relação a temperatura ambiente: plantas preferem água gelada quando está mais quente?

РBorrifar folhas com água, é uma boa ideia? Algumas parecem levemente ressequidas quando vistas com uma lupa.

 

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Um garoto contra um mito: Tulio vs Microondas

tulio

N√£o existe nada mais poderoso do que uma mente humana focada (fen√īmeno tamb√©m conhecido como “um cabra encanado”).

E se essa pessoa encanada ainda tiver iniciativa e gostar de p√īr a m√£o na massa, pronto, temos um desbravador. N√£o vou falar que essa pessoa √© uma cientista, porque h√° gente assim em todas as √°reas, nas artes e na filosofia, e na falta de palavra gen√©rica melhor usei “desbravadores” mesmo.

E sabe do que desbravadores n√£o gostam? Respostas f√°ceis.

Vamos come√ßar um experimento neste blog com um desbravador: Tulio Baars – o cara interessado por astronomia que com 16 anos fez um curso a dist√Ęncia; aprendeu sobre uma tal Anomalia Magn√©tica do Atl√Ęntico Sul; se inscreveu num programa da NASA e ganhou dela um kit para coletar seus dados; se interessou por Perturba√ß√Ķes Ionosf√©ricas S√ļbitas; falou com a Universidade de Stanford e ganhou mais dois kits para pesquisa e depois mais um detector de raios c√≥smicos.

Mas chega de puxar o saco dele, veja a história toda aqui.

Mesmo com tanta atenção voltada para o universo, o Tulio não se desligou das pequenas perguntas terrenas Рcuriosidade não é seletiva e perguntas são perguntas. Ficou encucado agora com um monstro cheio de mistérios e magias: o forno de microondas.

T√£o presente e t√£o controverso, uns dizem que ficar perto dele d√° c√Ęncer, tomar √°gua fervida nele d√° c√Ęncer, comida requentada nele d√° c√Ęncer, e por a√≠ vai. [Fora aqueles shows pirot√©cnicos com metais dentro de microondas que sempre aparecem na TV com um aviso “N√£o fa√ßam isso em casa”.]

Um experimento tem rodado o mundo das internets, usando água fervida (e esfriada depois, claro) para regar plantas, onde supostamente essas plantas sofrem mais em comparação com as regadas com água normal.

O Tulio não se aguentou e vai tocar mais esse experimento no maior estilo FAÇA-VOCÊ-MESMO. Nós do ScienceBlogs Brasil vamos acompanhar e publicar esse experimento que qualquer um pode fazer em casa. De hoje em diante vamos publicar o diário do Experimento Microondas.

Fique ligado. E se quiser fazer o seu em casa, escreva para a gente!

Siga o experimento:

Acompanhe o experimento desde o começo:

Dia 0: Um garoto contra um mito: Tulio vs Micro-ondas

Dia 1: Experimento Micro-ondas: Dia 01

Dia 3: Experimento Micro-ondas: Dia 03

Dia 20: Mudou o pH, e agora?!

Dia 22: O resultado final

Homenagem ao centen√°rio do naturalista Alfred Wallace (1823-1913)

Josmael Corso*

Provavelmente, muitos n√£o sabem, poucos conhecem e um n√ļmero menor lembra-se que o Brasil abrigou por longo per√≠odo um dos maiores naturalistas do s√©culo XIX. Poder√≠amos estar nos referindo a Charles Darwin (1809-1882) o que seria verdade, mas este esteve por um pequeno per√≠odo‚Äď quatro meses ‚Äď e al√©m do mais √© bastante conhecido. Refiro-me aquele que ficou √† sombra, como dizem alguns, pai esquecido da evolu√ß√£o, dizem outros, Alfred Russel Wallace (Figura 1). Ele que neste ano, em 07 de Novembro, completa um s√©culo do seu falecimento e possui m√©ritos de sobra para lembrarmos um pouco da trajet√≥ria de contribui√ß√Ķes √† ci√™ncia,que iniciou aqui em solo brasileiro.

Figura1. O naturalista ingl√™s Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um foi um autodidata zo√≥logo, bot√Ęnico e fil√≥sofo da ci√™ncia. Foi fundador da biogeografia e co-fundador da evolu√ß√£o biol√≥gica por sele√ß√£o natural. Fonte: NationalPortraitGallery, London.

Figura1. O naturalista ingl√™s Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um foi um autodidata zo√≥logo, bot√Ęnico e fil√≥sofo da ci√™ncia. Foi fundador da biogeografia e co-fundador da evolu√ß√£o biol√≥gica por sele√ß√£o natural. Fonte: NationalPortraitGallery, London.

O esperado de um naturalista √© que tenha feito descobertas de novas esp√©cies, estudado plantas, animais, ou seja, relacionado as ci√™ncias naturais, por√©m, Wallace foi al√©m e se envolveu com tamb√©m com quest√Ķes sociais e exatas. Em rela√ß√£o a ci√™ncia dos n√ļmeros, incrivelmente ele se meteu a demonstrar que a Terra n√£o √© plana, mas antes de chegar nessa quest√£o vamos ler um pouco do seu caminho at√© l√°.

Diferentemente dos primeiros naturalistas da Era Vitoriana, Wallace era fruto de uma fam√≠lia bastante modesta e trabalhou a vida inteira para sobreviver.Aos 14 anos teve que deixar a escola para tornar-se aprendiz de construtor. Pouco tempo depois aprendeu tamb√©m of√≠cio de agrimensor realizando levantamento de propriedades rurais. A atividade ao ar livre acabou por desenvolver o interesse por hist√≥ria natural, especialmente bot√Ęnica, geologia e astronomia.

Wallace que nunca estudou em uma universidade, chegou a ministrar aulas de topografia, cartografia e desenho. Como todo grande curioso passava seu tempo livre na biblioteca, imerso em leituras que influenciaram fortemente sua vida futura, como o livro ‚ÄúUma viagem pelo Rio Amazonas‚ÄĚ de William H Edwards (1847) que empolgou a Wallace conduzir sua primeira expedi√ß√£o no Brasil.

Wallace na Amaz√īnia (1848-1852)

Em abril de 1848, ao lado de seu amigo Henry Walter Bates (1825-1892), Wallace chegou √† atual cidade de Bel√©m, no Par√°. Os jovens aventureiros, Wallace com 25 e Bates 23 anos, esperavam custear a expedi√ß√£o com a captura e venda de esp√©cies coletadas para museus e colecionadores particulares. Bates permaneceu por 11 anos no pa√≠s e sua principal descoberta ilustra todos os livros did√°ticos de biologia ‚Äď mimetismo Batesiano (Figura 2). Wallace a exemplo dos naturalistas do seu tempo mantinha curiosidade em tudo ao seu redor, o que era vivo e n√£o vivo. Escreveu ensaios sobre diferentes campos da biologia, geografia e at√© sobre antropologia, descrevendo vocabul√°rios das tribos do Rio Uaup√©s, Amazonas (Figura 3).

Figura 2. Mimetismo batesiano, primeira e terceira fileira pertencem a mesma fam√≠lia, a segunda e quarta fileira s√£o esp√©cies que ‚Äėimitam‚Äô as anteriores. Fonte: Henry Walter Bates 1862, wikipedia.org.

Figura 2. Mimetismo batesiano, primeira e terceira fileira pertencem a mesma fam√≠lia, a segunda e quarta fileira s√£o esp√©cies que ‚Äėimitam‚Äô as anteriores. Fonte: Henry Walter Bates 1862, wikipedia.org

Figura 3. Mapa do Rio Amazonas, realizado por Alfred Russel Wallace durante sua expedição pelo Brasil 1848-1852. Fonte: archive.org

Figura 3. Mapa do Rio Amazonas, realizado por Alfred Russel Wallace durante sua expedição pelo Brasil 1848-1852. Fonte: archive.org

Em 1852, em retorno a sua terra natal, o navio em que se encontrava incendiou-se, perdendo grande parte dos itens coletados, inclu√≠do esp√©cimes vivas. A cole√ß√£o particular de insetos e aves formadas desde que chegou ao Brasil perdeu-se, assim perdendo a oportunidade de descrever centenas de novas esp√©cies. Wallace e a tripula√ß√£o tiveram muita sorte em sobreviver e foram resgatados ap√≥s dias em alto mar. Com as anota√ß√Ķes que conseguiu salvar do naufr√°gio elaborou dois livros: Palmeiras da Amaz√īnia e seus usos e Narrativa da viagem ao Rio Negro e Amazonas (Figura 5). Os trabalhos repercutiram certo prest√≠gio que lhe forneceram condi√ß√Ķes para reiniciar suas atividades de explorador com uma segunda expedi√ß√£o.

Figura 5. Palmeira piaçava (Leopoldiniapiassaba) descrita por Alfred Russel Wallace, espécie amplamente utilizada em construção civil até os dias de hoje. Fonte: wallace-online.org

Figura 5. Palmeira piaçava (Leopoldinia piassaba) descrita por Alfred Russel Wallace, espécie amplamente utilizada em construção civil até os dias de hoje. Fonte: wallace-online.org

Wallace no Arquipélago Malaio (1854-1862)

Durante o per√≠odo que esteve na regi√£o realizou centenas de expedi√ß√Ķes √†s ilhas, coletou uma incr√≠vel quantidade de esp√©cimes: em torno de 125 mil, pr√≥ximo de 5 mil eram esp√©cies novas √† ci√™ncia. As experi√™ncias desse per√≠odo est√£o relatadas na obra O Arquip√©lago Malaio (1869), considerado o melhor livro de viagem cient√≠fica do s√©culo XIX, descrevendo a captura de orangotangos, aves-do-para√≠so e o conv√≠vio com os povos nativos (Figura 6).

Figura 6. Ave-do-paraíso vermelha(Paradisaearubra) umas das incríveis espécies de aves encontradas na região por Alfred Russel Wallace. Fonte: wallace-online.org

Figura 6. Ave-do-paraíso vermelha (Paradisaea rubra) umas das incríveis espécies de aves encontradas na região por Alfred Russel Wallace. Fonte: wallace-online.org

A pol√™mica correspond√™ncia entre Darwin e Wallace O ano de 1858 foi marcado por um acontecimento hist√≥rico muito importante para aci√™ncia, considerado um impasse entre Wallace e Charles Darwin. Wallace passou anos investigando os mecanismos que atuavam sobre a evolu√ß√£o dos organismos, por√©m foi atrav√©s de um epis√≥dio de febre por mal√°ria, quase custando-lhe a vida que concebeu a teoria pela qual organismos com atributos melhor ajustados ao ambiente possuem uma chance elevada de sobreviver e transferir caracter√≠sticas aos seus descendentes. Empolgado com sua descoberta escreveu um ensaio e enviou para Darwin, com quem j√° se correspondia h√° anos. A teoria de Wallace embora muito semelhante era distinta da proposta de Darwin. Sem pr√©via permiss√£o de Wallace, seu ensaio juntamente com fragmentos in√©ditos da futura e mais importante obra de Darwin foram apresentados por membros na reuni√£o da Sociedade Lineana de Londres em 1¬į de Julho de 1858. Darwin estava a cerca de 20 anos trabalhando em um volume muito maior e detalhado sobre o surgimento de esp√©cies, e muitos estudiosos afirmam que o ensaio de Wallace o auxiliou no est√≠mulo para que conclu√≠sse de forma compacta e simples a obra marco das ci√™ncias naturais – A Origem das Esp√©cies¬†(1859), publicada 18 meses ap√≥s a leitura dos ensaios.

Interpretado muitas vezes como uma competição entre os dois naturalistas esse acontecimento permitiu que Wallace se tornasse conhecido e abriu portas para que participasse dos diálogos científicos em grupos restritamente fechados. Wallace pode usufruir dessa oportunidade e manteve se como admirador do trabalho de Darwin, escrevendo uma dedicação no livro O Arquipélago Malaio (1869)e uma obra completa para difundir as idéias sobre seleção natural em Darwinismo (1889).

Wallace e a Terra plana

Em 1870, anos depois do retorno da ultima expedi√ß√£o, Wallace aceita uma aposta com o l√≠der da Sociedade da Terra Plana, John Hampden, no valor de 500 libras – que na √©poca deviam valer muito mais ‚Äď para provar em publico que a Terra possui curvatura (Figura 7). Para a entidade se a Terra fosse plana, o raio de curvatura seria infinito e n√£o poderia ser medido. Wallace, estimulado pelo desafio e por dificuldades financeiras, desenvolveu um experimento em um canal de navega√ß√£o. Estabelecendo dois pontos com estacas de mesma altura distantes a cerca de 10km em linha reta no canal acima do n√≠vel da √°gua, com auxilio de teodolito. Conseguiu demonstrar que as estacas n√£o permaneciam alinhadas por conta da curvatura da Terra. O teste ainda apontou o raio da terra de 6.428 km, ou seja, levemente maior que a atual estimativa de 6.378 km. Tudo fiscalizado por engenheiros, o juiz da aposta declarou Wallace vencedor, por√©m o l√≠der ativista n√£o aceitou a derrota e lan√ßou uma extensa campanha de combate √† Wallace. Esse fato ficou conhecido como Experimento do Canal Bedford, Wallace ficou envolto em uma batalha judicial que afetou profundamente a sua imagem. Pois as sociedades cient√≠ficas brit√Ęnicas da √©poca n√£o queriam conflitos com grupos religiosos, mantiveram-se ap√°ticos e deixaram Wallace desamparado academicamente.

Figura 7. Ilustração mostrando, acima, o experimento do ativista da Sociedade da Terra Plana, e abaixo o experimento de Alfred Russel Wallace.Fonte: Wallis, T.W. (1899) Autobiography ofThomas Wilkinson Wallis, Sculptor in Wood, p. 181, J.W. Goulding& Son.

Figura 7. Ilustração mostrando, acima, o experimento do ativista da Sociedade da Terra Plana, e abaixo o experimento de Alfred Russel Wallace. Fonte: Wallis, T.W. (1899) Autobiography of Thomas Wilkinson Wallis, Sculptor in Wood, p. 181, J.W. Goulding& Son.

Contribui√ß√Ķes de Wallace a Ci√™ncia

Wallace durante seus 90 anos de vida produziu 22 livros e mais de 700 artigos englobando uma grande diversidade de temas. Atualmente, Wallace foi reconhecido por suas contribui√ß√Ķes √† ci√™ncia entre elas √© considerado o pai da biogeografia pela descoberta da descontinuidade da distribui√ß√£o da fauna. Tamb√©m √© considerado co-fundador da astrobiologia e antropologia evolutiva, sendo o primeiro a sugerir que a extin√ß√£o de animais no final do Pleistoceno (Era do Gelo – 12 mil anos atr√°s) poderia ter sido causado por excesso de ca√ßa pelos humanos pr√©-hist√≥ricos. Foi presidente da Sociedade pela Nacionaliza√ß√£o de Terras por cerca de 30 anos promovendo discuss√Ķes sobre a reforma agr√°ria na Inglaterra.

Embora pouco popular Wallace foi membro de um grande n√ļmero de sociedades acad√™micas, recebendo t√≠tulos e premia√ß√Ķes de diversas universidades e institui√ß√Ķes. Entre elas recebeu a medalha de Ordem de M√©rito em 1908, premia√ß√£o fornecida pelo imp√©rio brit√Ęnico. Foi a quinta personalidade a receber a medalha de ouro da Sociedade Lineana, em 1892. A mesma sociedade estabeleceu o pr√™mio ‚ÄėMedalha Darwin-Wallace‚Äô para descobertas relacionadas √† biologia evolutiva, uma forma de reconhecer e reparar as contribui√ß√Ķes de Wallace.

Pelos menos duas hip√≥teses podem explicar o menor reconhecimento acad√™mico de Wallace: pertencia a uma classe s√≥cio-econ√īmica diferente da tradicional elite social inglesa, respons√°vel pelo conhecimento cient√≠fico reconhecido na √©poca; envolveu-se e escreveu sobre espiritismo, embora houvessem membros religiosos na academia cient√≠fica, n√£o eram esp√≠ritas. Em conjunto, esses fatos podem ter refletido para aresist√™ncia as suas ideias pela sociedade que dominava o cen√°rio cient√≠fico.

Alfred Russel Wallace possui muitas raz√Ķes para ser lembrado neste m√™s e todos os outros. Representa um fant√°stico exemplo de autodidata, aventureiro, cientista e mais importante de tudo um curioso. O nome de Wallace deve ser posto ao lado de Galileu, Darwin, Einstein, entre outros g√™nios. Gradualmente as suas contribui√ß√Ķes √† ci√™ncia e a humanidade est√£o sendo reconhecidas e tributos tendem a aumentar ao passo que se conhece mais sobre esse singular naturalista.

 

*Josmael Corso é Doutorando em Genética e Biologia Molecular РUFRGS

Mais uma prova de que mulheres s√£o mais ciumentas que homens

Por Bruno Camera

As chuteiras da discórdia

As chuteiras da discórdia

A esposa olha para o par de chuteiras no fundo do arm√°rio transitando entre a incredulidade e o √≥dio puro. Minutos antes o marido se despedira, sacola de academia na m√£o, saindo como todas as quintas-feiras para o futebol com os amigos. Ela sempre desconfiou: n√£o conhecia os amigos de pelada; os amigos que conhecia n√£o jogavam futebol. Agora aquelas chuteiras ali, denunciando a mentira. Ela nem se lembrava mais quantos anos fazia que ele ia todas as semanas √†quele jogo. Como p√īde ser t√£o burra?

Sempre achei que mulheres s√£o mais ciumentas que os homens e que sentem ci√ļmes por motivos diferentes. Ser√° s√≥ impress√£o? Um grupo de pesquisadores ga√ļchos testou o n√≠vel de ci√ļme sexual e emocional em mais de 400 volunt√°rios, homens e mulheres ao redor dos 27 anos, a maioria comprometida. Os entrevistados responderam se seria mais dif√≠cil perdoar infidelidade emocional ou sexual.

O resultado foi realmente interessante, mostrou que mulheres sentem mais ci√ļmes do que homens. Entre elas os ci√ļmes emocionais s√£o mais fortes que os sexuais. J√° nos homens n√£o houve diferen√ßa entre o ci√ļme emocional e sexual.

De acordo com a teoria da sele√ß√£o sexual, f√™meas de diversas esp√©cies perdem mais quando seus parceiros deixam de investir nelas do que quando acasalam com outras parceiras. Machos, por outro lado, seriam prejudicados ao criar filhos de outro macho, da√≠ o ci√ļme sexual.

Foram horas remoendo o flagrante, pensando no retorno iminente do marido √† casa e em como o colocaria contra a parede. O √≥dio transmutado numa secre√ß√£o √°cida que fervia no est√īmago. Sentada na poltrona de frente para a porta, a esposa ouve a ma√ßaneta. Do outro lado da porta o marido, com uma folhinha de grama estrategicamente colada √† testa, um esfolado no joelho esquerdo e o suor azedo rescindindo √† dist√Ęncia, proclama: ‚ÄúEstou com os p√©s em carne viva! Esqueci as chuteiras e tive que jogar descal√ßo.‚ÄĚ

 

Por Bruno Camera

Fernandes, H. B. F.; Natividade, J. C. e Hutz, C. S. 2011. Diferen√ßas Sexuais em Ci√ļme: Teste de Hip√≥teses Evolucionistas Atrav√©s de Medidas Escalares. Resumo publicado no Sal√£o de Inicia√ß√£o Cient√≠fica da UFRGS.

A ciência ocupa 23,6 MB

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Por Joey Salgado

O que o gr√°fico logo abaixo representa? A depend√™ncia da concentra√ß√£o de produtos com o tempo em uma rea√ß√£o qu√≠mica autocatal√≠tica? O crescimento de um organismo vivo, com fases de aumento populacional exponencial e estacion√°rias? Um modelo de crescimento de tumores cancerosos? A depend√™ncia da condut√Ęncia em fun√ß√£o do potencial de uma membrana? N√£o, nenhuma dessas alternativas √© a correta.
thesis_timeline.png
O gr√°fico acima, na verdade, √© uma linha do tempo do tamanho da minha tese. √Č a minha thesis timeline, e mostra a depend√™ncia do tamanho do arquivo .doc (LateX nem que me paguem!) em fun√ß√£o do n√ļmero de dias confeccionando-a. Alguns esclarecimentos se fazem necess√°rios:
  1. Sim, estou em vias de terminar meu doutorado. E passei praticamente do meio do mês de julho ao meio do mês de agosto inteiro terminando a redação da tese.[1]
  2. Devo defender a tese no fim de setembro meio de outubro desse ano. E sim, haver√° uma festa. Uma grande festa.
  3. O esquema √© o seguinte: resolvi escrever a tese em um arquivo √ļnico, para n√£o ter que ficar juntando cap√≠tulos e recolocando cita√ß√Ķes cruzadas depois, nos 48 do segundo tempo. Ent√£o, dentro de cada dia trabalhando na tese, √† medida que ia acrescentando conte√ļdo eu salvava uma nova vers√£o com a data daquele dia, e.g., tese_salgado_20100814.doc.
  4. Dentro de um mesmo dia de trabalho, cheguei a salvar v√°rias “vers√Ķes” diferentes da tese, nomeando-as de a a z, e.g., tese_salgado_20100822c.doc; tese_salgado_20100822d.doctese_salgado_20100822e.doc e por a√≠ vai…
  5. O gr√°fico que apresento acima, ent√£o, mostra o quanto o tamanho do arquivo tese_salgado.doc, representado pelas bolinhas vazias (o), cresceu durante os dias em que fiquei terminando a tese a tese terminou comigo.
  6. Que fique claro: eu não escrevi a tese em menos de trinta dias. Isso é humanamente pouco provável[2]. Mas de fato possuía vários relatórios, artigos e resumos escritos, além de praticamente todas as tabelas, figuras e esquemas prontos. Foi só um ctrl+C e ctrl+V (do meu próprio material, lógico) do dia 24 de julho ao dia 23 de agosto de 2010, acertando o encadeamento de ideias dos resultados que obtive durante quatro anos e meio de dedicação integral à academia penhora da minha alma.
  7. Possuo quatro back-ups f√≠sicos e um on-line contendo todas essas vers√Ķes de arquivos .doc em dias diferentes. E, logicamente, esses back-ups todos est√£o em locais diferentes. Viu, caro provedor de hospedagem?
Ou seja, como produto final, possuo 23,6 MB de um arquivo .doc contendo todo o conhecimento cient√≠fico in√©dito que produzi durante esses anos de doutorado. E o gr√°fico do tamanho do arquivo versus tempo assemelha-se a uma curva log√≠stica sigmoidal. Inclusive, ajustando-se os pontos por uma fun√ß√£o sigmoidal de Boltzmann[3] obtive a curva tracejada do gr√°fico com r2 = 0,991.[4] N√£o √© bonitinho?
E em que o fato da minha thesis timeline ter sido ajustada por uma fun√ß√£o sigmoidal implica?  Significa, por acaso, que minha inspira√ß√£o teve uma fase lag para depois crescer exponencialmente, aquietando-se ao final do processo de reda√ß√£o da tese? Logicamente, n√£o. √Č somente uma mera coincid√™ncia, que pode ser explicada racionalmente. Durante os primeiros quatro dias, fiquei trabalhando principalmente com o editor de texto. A partir do quinto dia, comecei a inserir alguns gr√°ficos e figuras na parte de resultados, sendo que o programa que uso para gerar os mesmos deixa-os muito pesados. Da√≠ o abrupto crescimento do tamanho do arquivo. Ent√£o, pr√≥ximo do d√©cimo s√©timo ou oitavo dias, terminei a parte de resultados, i.e., parei de entuchar a tese com gr√°ficos pesados, e concentrei-me na discuss√£o dos mesmos. Como a parte de discuss√£o envolve mais texto, incluindo-se um ou outro gr√°fico ou figura pontuais, o crescimento do arquivo teve uma taxa reduzida.
Moral da história: muito cuidado com a conclusão que será adotada sobre (e na) tese e, principalmente, com o modelo que será utilizado para tal.
Ah, ainda n√£o entreguei a tese para marcar a data da defesa. Falta somente uma “√ļltima olhada” do meu orientador. Ser√° que outubro de 2011 √© uma data mais prov√°vel? Aff…
Notas:
[1] Ou voc√™ acha que comecei publicando dois textos aqui (1 e 2) e sumi porque sou um grande vagabundo? ¬¨¬¨’
[2] N√£o digo imposs√≠vel, porque se h√° at√© uma probabilidade n√£o nula de que um carro ou uma pessoa atravessem uma parede deixando-a inc√≥lume e sem sofrerem danos… Uma tese “surgir” do nada em poucos dias tamb√©m √© plaus√≠vel… ¬¨¬¨’
[3] y = ((A1 + A2)/(1 + exp(x – x0/dx)) + A2
[4] Para quem n√£o est√° acostumado a ajustar dados experimentais por fun√ß√Ķes matem√°ticas n√£o-lineares, o par√Ęmetro r2 √© uma esp√©cie de “medida de qualidade do ajuste”, e quanto mais perto de 1 o mesmo for, melhor foi o ajuste. Ou seja, r2 = 0,991 √© um #EPICWIN acad√™mico.