A seleção natural contada por um jogo

Quando estamos fazendo um jogo a pergunta que mais nos fazemos é: será que tá divertido? Hoje, mesmo trabalhando com jogos para a divulgação científica, essa é a nossa pergunta top 1!

√Č com este pensamento que os nossos jogos nascem. N√≥s, da Clareira dos Jogos, amamos trabalhar com temas ligados √† biologia, mas de que adianta agregar tanta informa√ß√£o se isso n√£o engajar as pessoas? Queremos sempre criar viv√™ncias com significados, para que a pessoa mergulhe em meio a novas descobertas por vontade pr√≥pria e, claro, por divers√£o.

Clareira dos Jogos, grupo de desenvolvimento de jogos para a divulgação científica.

Nosso grupo é formado por biólogos, artistas, designers de jogos e programadores que, em 2020, fundaram a clareira para desenvolver jogos de divulgação científica e educação ambiental. Escolhemos esta mídia (que somos apaixonados) por entendermos o potencial dos jogos em promover imersão e o protagonismo aos jogadores, características que ajudam muito o aprendizado.

Parte da equipe da clareira em evento acadêmico de zoologia cultural.

Por gostar de falar de ci√™ncias, sempre que podemos tamb√©m estamos juntos com quem a produz! Seja em eventos acad√™micos ou sala de aula, as trocas e opini√Ķes destas comunidades enriquecem qualquer jogo.

Também foi em sala de aula que Molukas surgiu. Um jogo sobre ecologia e evolução desenvolvido em meio a testes com estudantes do ensino fundamental e médio e universitários.

Foram temas que escolhemos justamente pela falta de exemplos práticos que podem ser dados quando se ensina sobre eles. Por serem tópicos mais abstratos, a interatividade e imersão do jogo criaram novas vivências para serem usadas na simplificação do entendimento.

Ilustra√ß√Ķes de uma estudante que participou do per√≠odo de testes do jogo.

Ao levar para a sala de aula, os estudantes tamb√©m se conectaram muito com o estilo visual. N√≥s escolhemos refer√™ncias como Pok√©mon e Hora da Aventura para as ilustra√ß√Ķes por serem produ√ß√Ķes que mexem com v√°rios p√ļblicos (inclusive com a gente). N√≥s recebemos at√© ilustra√ß√Ķes dos estudantes que participaram da nossa vers√£o antecipada!

Essa mesma turma de onde veio a ilustração foi o nosso primeiro teste usando Molukas no ensino remoto. Os relatos da professora foram os mais positivos possíveis, os estudantes inadimplentes começaram até a fazer exercícios atrasados para poder jogar com a turma.

Conjuntos de espécies que o jogador pode escolher.

A escolha por abordar aspectos ecol√≥gicos e evolutivos nos guiou em todas as nossas decis√Ķes, inclusive na est√©tica. Como o jogo √© focado em processos abrangentes, optamos criar esp√©cies fict√≠cias, assim, n√≥s evitamos qualquer associa√ß√£o exclusiva de um efeito biol√≥gico com esp√©cies reais.

Início do jogo com a sua população sempre posicionada na esquerda.

As regras (ou mec√Ęnicas) de Molukas foram feitas para o jogador conseguir se relacionar com a diversidade de conceitos presente na ecologia e evolu√ß√£o. No mapa, por exemplo, temos tr√™s terrenos diferentes e quanto mais esp√©cies em um terreno, mais disputada a comida fica.

Carta de Adapta√ß√£o “Pioneiros” sendo escolhida por um jogador.

Durante este jogo o vencedor √© aquele que consegue fazer suas esp√©cies prosperarem. Para isso voc√™ tem que garantir a alimenta√ß√£o e reprodu√ß√£o delas! As cartas tamb√©m s√£o muito importantes para isso. Cada uma delas cont√©m um conceito biol√≥gico diferente, assim uma carta como ‚ÄúPioneiros‚ÄĚ pode beneficiar uma esp√©cie que esteja sozinha em um terreno, sendo uma simplifica√ß√£o do conceito ecol√≥gico de esp√©cie pioneira.

Carta de Cat√°strofe ‚ÄúFalta de Recursos‚ÄĚ escolhida randomicamente pelo jogo.

Al√©m de disputar por alimentos e fugir de predadores, existem outros riscos que voc√™ pode correr. A sele√ß√£o natural tamb√©m pode te pegar desprevenido por meio das cartas que extinguem esp√©cies. Um exemplo √© a carta ‚ÄúFalta de Recursos‚ÄĚ que diminui drasticamente o n√ļmero de alimentos que a esp√©cie precisaria comer.

Molukas no evento de inovação do Sebrae/ES.

Durante o percurso de desenvolvimento tamb√©m percebemos que as mec√Ęnicas de Molukas eram um pouco complicadas para o p√ļblico infantil. Como ele √© um jogo com muitas regras e textos, muitas das crian√ßas que eram atra√≠das pelas ilustra√ß√Ķes fofas n√£o conseguiam jogar de fato. Isso varia muito para cada pessoa, algumas com menos de 10 anos conseguiram jogar sem dificuldade, mas n√£o deixa de ser um aperto no cora√ß√£o quando outras n√£o conseguem (principalmente quando se est√° cercado de crian√ßas).

Anota√ß√Ķes desbloqueadas do explorador Francis Humorvoll.

Quando a partida termina, voc√™ tamb√©m pode desbloquear novos conte√ļdos! O jogador pode conhecer as hist√≥rias dos exploradores que visitaram as Ilhas Molukas. Fizemos isso para expandir a quantidade de curiosidades biol√≥gicas do jogo e homenagear as ilhas da Indon√©sia, onde Wallace formulou seus ensaios sobre sele√ß√£o natural.

Como Molukas √© um jogo digital tamb√©m existem algumas limita√ß√Ķes para levar para sala de aula. Em turmas que os estudantes n√£o poderiam jogar no celular, professores j√° usaram Molukas no projetor e fizeram um jogo colaborativo com os alunos tomando as decis√Ķes. Mesmo sendo usado de uma maneira inesperada, os professores que fizeram isso nos relataram experi√™ncias excelentes em que o problema foi o controle dos alunos querendo participar ao mesmo tempo.

Os testes em sala de aula tamb√©m resultaram em um manual did√°tico com toda essa experi√™ncia! Nele compilamos os conte√ļdos do jogo e propostas pedag√≥gicas sobre como utilizar Molukas. Para acessar esse conte√ļdo voc√™ pode entrar na p√°gina do jogo: https://clareiradosjogos.itch.io/molukas

Nos apaixonamos pelos resultados deste jogo e desejamos um bom jogo para vocês!

Mateus Melotti Martins é mestre em biologia animal pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atualmente, faz parte da Clareira dos Jogos como designer de jogos e divulgador científico.

Infográfico Р#Dicas de divulgação de ciência

A verdade é que esse post é só mesmo para divulgar esse infográfico que eu traduzi/ adaptei daqui. Se você é novo no Twitter e pensa em divulgar ciência por lá, aqui estão algumas dicas.

Obrigada Ki-Youn Kim e Public Communication of Science and Technology pela autoriza√ß√£o de reprodu√ß√£o do conte√ļdo.

Obesidade e Depressão podem ser causadas por bactérias que vivem no nosso intestino, dá pra acreditar?!

Você já deve ter se deparado com relatos de conhecidos, parentes e amigos, que seguiram as mais variadas receitas e dietas milagrosas para uma tentativa frustrante de emagrecimento sem sucesso.

Ou ainda, em encontros com a fam√≠lia, escutado a sua tia comentar √† mesa durante o caf√© da tarde, ‚Äúque est√° no terceiro antidepressivo diferente‚ÄĚ, na esperan√ßa de combater a depress√£o.

Ou a caminho do happy-hour ap√≥s o trabalho, em que um colega cancela a presen√ßa em cima da hora, pois iniciou o tratamento com antidepressivos ‚Äúe o rem√©dio o est√° deixando muito sonolento nesta primeira semana‚ÄĚ.

Situa√ß√Ķes como estas s√£o t√£o frequentes no nosso dia-a-dia, que n√£o nos damos conta de que as doen√ßas cr√īnicas t√™m ganhado cada vez mais espa√ßo entre a popula√ß√£o.

Mas ser√° que quando pensamos em obesidade, apenas as cores e a composi√ß√£o do nosso prato √© o que importa? E quanto aos efeitos colaterais ou a baixa efic√°cia das terapias medicamentosas no combate √† depress√£o? Ser√° que estas s√£o as nossas √ļnicas op√ß√Ķes?

Cientistas também se debruçaram sobre estes questionamentos.

E embora obesidade e depressão sejam síndromes completamente distintas, pesquisadores descobriram que as duas podem ter suas raízes patológicas, no nosso gigantesco universo microscópico conhecido como microbiota intestinal, em especial a sua porção bacteriana.

√Č consenso entre cientistas da √°rea, que todos n√≥s possu√≠mos uma microbiota intestinal bastante diversificada, marcada pela presen√ßa de diferentes esp√©cies e grupos bacterianos, nas mais diversificadas propor√ß√Ķes ao longo do nosso intestino.

Assim como no caso das popula√ß√Ķes humanas, no que tange a  microbiota intestinal, a diversidade √© muito importante, e uma microbiota que apresenta alta diversidade bacteriana √© considerada saud√°vel, na maioria dos casos.

Nos √ļltimos anos, constataram que as bact√©rias intestinais das pessoas acometidas pela depress√£o cr√īnica ou pela obesidade s√£o diferentes daquelas que habitam os indiv√≠duos considerados saud√°veis.

S√£o t√£o diferentes que se referem √† esta condi√ß√£o como uma microbiota em disbiose, ou em outras palavras, em um estado de ‚Äúdesequil√≠brio microbiano‚ÄĚ.

E isso não é tudo.

Através da prática conhecida como transplante de microbiota, em que é possível transferir as bactérias intestinais de um indivíduo para outro, é possível estudar a ação de determinados micro-organismos em relação aos seus hospedeiros.

Em meio a este contexto investigativo, as bact√©rias intestinais presentes nas fezes de pacientes diagnosticados com depress√£o cr√īnica foram coletadas em um estudo cient√≠fico, e transferidas para o intestino de camundongos de laborat√≥rio.

Após o transplante, cientistas constataram que estes mesmos camundongos, antes saudáveis, após a colonização pelas bactérias intestinais provenientes dos indivíduos com depressão, passaram também a apresentar sintomas depressivos.

Em outro ensaio experimental de transplante de microbiota, neste caso, de uma microbiota proveniente de indiv√≠duos obesos para camundongos,  os cientistas tiveram uma surpresa ainda maior. Independe do tipo de alimento que dessem para estes camundongos que abrigavam uma ‚Äúmicrobiota intestinal de indiv√≠duos obesos‚ÄĚ, os camundongos sempre desenvolviam sobrepeso.

Por demonstrarem a atuação direta da microbiota intestinal sobre o fenótipo e o comportamento dos camundongos transplantados com as microbiotas em disbiose provenientes de humanos, estes estudos inauguram uma nova vertente no entendimento da depressão e da obesidade na nossa sociedade.

De volta para os questionamentos do in√≠cio deste post, um olhar a partir da perspectiva das nossas bact√©rias intestinais (da microbiota intestinal) e da sua rela√ß√£o conosco, talvez ajude a elucidar o porqu√™ de in√ļmeras pr√°ticas e tratamentos milagrosos para a redu√ß√£o de peso ou controle dos sintomas depressivos n√£o funcionarem com a praticidade e o rendimento que n√≥s gostar√≠amos. Abrindo caminhos para o surgimento de novas propostas terap√™uticas a partir da manipula√ß√£o da composi√ß√£o da nossa microbiota intestinal.

Dionisio Pedro Amorim Neto. Bi√≥logo Licenciado pela UNICAMP e Mestrando pelo Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o do Dpto. de Biologia Celular e Estrutural, com √™nfase em Biologia Celular por esta mesma institui√ß√£o. √Č vinculado ao LNBio/CNPEM, onde desenvolve projetos relacionados √†s tem√°ticas de Biologia Celular, Neurobiologia e Microbioma, sendo estas as minhas √°reas de atua√ß√£o e interesse.

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Matheus de Castro Fonseca. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Biologia Celular (UFMG). Doutor em Ciências Biológicas: Fisiologia e Farmacologia (UFMG). Atualmente, é membro da Sociedade Brasileira de Biologia Celular e pesquisador do Laboratório Nacional de Biociências, CNPEM, Campinas, onde desenvolve pesquisa com foco em neurobiologia celular e molecular, imageamento de neuroestruturas por raio-X e mecanismos celulares do Parkinson Idiopático.

Um homem entre gigantes | Quando a ci√™ncia ‚Äúbate de frente‚ÄĚ com a NFL

** Este texto n√£o reflete, necessariamente, a opini√£o do ScienceBlogs Brasil

O filme ‚ÄúUm homem entre gigantes‚ÄĚ (‚ÄúConcussion‚ÄĚ no t√≠tulo original), foi lan√ßado em 2015 nos EUA √© a hist√≥ria real do m√©dico que atrav√©s de ci√™ncia coloca em pauta o embate entre a gan√Ęncia empresarial – que s√≥ visa lucrar – e o conhecimento cient√≠fico – em prol de ajudar a salvar vidas. Em tempos de pandemia, em que a ci√™ncia luta mais uma vez para ter voz em meio ao panorama econ√īmico, falar sobre esse filme se torna mais relevante ainda.

No longa, Will Smith d√° vida ao Dr. Bennet Omalu, um neuropatologista nigeriano que lan√ßou luzes a um problema recorrente, por√©m ‚Äúinvis√≠vel‚ÄĚ. Omalu dizia estudar a ‚Äúci√™ncia da morte‚ÄĚ.  Atuava como m√©dico legista em uma ag√™ncia p√ļblica e sua postura chamava a aten√ß√£o pela forma respeitosa com a qual lidava com os cad√°veres durante as necropsias. Ele conversava com os mortos e pedia ajuda para entender o que poderia ter acontecido ainda em vida para que houvesse aquela morte. O respeito pelos mortos √© oriundo da cultura africana Bantu, a qual pontua a import√Ęncia de cultuar os corpos corretamente uma vez que a morte e doen√ßa para os bantus n√£o s√£o fen√īmenos naturais, mas sim atribu√≠dos a algum fator espec√≠fico.

O enredo se passa na cidade sede do time de futebol americano Pittsburgh Steelers, e mostra o ex-astro do time Mike Webster tendo uma série de comportamentos fora de controle. Webster morre de infarto, mas seu histórico de loucura, ainda que com apenas 50 anos, chama a atenção de Omalu, que insiste em investigar a real causa por trás dessa morte. O médico se pergunta o porquê de um cérebro que deveria estar uma bagunça não mostrar nenhuma alteração visual aparente.

O filme aborda o processo do método cientifico e traz um pouco do que seria o estereótipo de um cientista. Uma casa cheia de livros espalhados, um microscópio em cima da mesa e evidenciando por várias vezes ao longo da trama a dedicação do personagem à pesquisa acadêmica.

Ap√≥s fazer v√°rias an√°lises microsc√≥picas do c√©rebro de Webseter e um levantamento bibliogr√°fico sobre colis√Ķes em outras esp√©cies, ele chega a conclus√£o de que enquanto v√°rios animais possuem um sistema de amortecimento de choque para proteger o c√©rebro, os humanos n√£o. E, que colis√Ķes da dimens√£o das que ocorrem em jogadores de futebol americano ao longo do tempo levaria a uma s√©rie de eventos neurol√≥gicos graduais, a qual ele nomeou Encefalopatia Traum√°tica Cr√īnica (ETC). Seus achados em conjunto com seus colegas foram publicados em 2005 em uma revista cient√≠fica com o t√≠tulo ‚ÄúEncefalopatia traum√°tica cr√īnica em um jogador da liga de futebol americano‚ÄĚ.

Compara√ß√£o entre c√©rebro normal e outro acometido por ETC (Encefalopatia Traum√°tica Cr√īnica)

Hoje se sabe que a ETC √© uma les√£o cerebral causada por repetidas concuss√Ķes, comum no mundo dos esportes. O c√©rebro de quem sofre de ETC vai se deteriorando e come√ßa a perder massa, bem como tem a libera√ß√£o e ac√ļmulo de prote√≠nas que alteram a fun√ß√£o cerebral, como no Mal de Alzheimer, o que levava muitas vezes a um diagn√≥stico equivocado.

A trama chama aten√ß√£o tamb√©m pelas vezes em que o m√©dico tenta explicar a doen√ßa de forma acess√≠vel ao p√ļblico leigo. Em uma das cenas o m√©dico diz que as prote√≠nas liberadas no c√©rebro s√£o como jogar cimento √ļmido em um cano, e quando endurecem, comprimem a passagem, algo semelhante aconteceria no c√©rebro de portadores de ETC.

Omalu pretendia chegar a uma forma de resolver este problema e garantir a vida saud√°vel dos praticantes do esporte. O que ele n√£o imaginava era o tamanho da briga que estava comprando. A ETC n√£o era apenas uma descoberta acad√™mica, mas tamb√©m uma luta contra uma grande corpora√ß√£o que movimenta bilh√Ķes por ano. Ser√° que os jogadores continuariam na profiss√£o cientes de que poderiam ter problemas neurol√≥gicos no futuro? Ser√° que as m√£es continuariam incentivando os filhos nesse esporte? Pra NFL ‚Äď a liga de futebol americano – esse seria o fim do esporte.

Diante disso, o filme aborda a NFL fazendo de tudo para parar essa pesquisa cl√≠nica, indo de liga√ß√Ķes amea√ßadoras e persegui√ß√Ķes a seus colegas de trabalho e fam√≠lia, a exig√™ncias de cartas de retrata√ß√£o. A liga quer desacreditar o m√©dico e todo seu estudo cient√≠fico. Por√©m Omalu segue firme em seu prop√≥sito e conforme os mesmo sintomas se manifestam em outros jogadores, a exist√™ncia da ETC √© reafirmada. Seu parceiro de pesquisa e ex-m√©dico dos jogadores consegue falar sobre os achados de Omalu na c√ļpula geral da Liga sobre concuss√£o. Mesmo assim, a NFL segue tentando fazer vista grossa para os estudos ainda que o n√ļmero de casos fossem suficientes para a aprova√ß√£o cient√≠fica.

A NFL não se pronunciou sobre os casos por um longo tempo. Só em 2016, mais de 10 anos depois dos achados de Omalu a NFL se pronunciou dizendo que acreditava que pudesse existir uma relação entre o futebol americano e a ETC.

O filme fecha com Omalu dizendo que os mortos o d√£o o ‚ÄúPresente do Saber‚ÄĚ pois atrav√©s deles se chegou a descoberta de uma doen√ßa que acomete 28% dos jogadores. Desde ent√£o a NFL sofreu uma s√©rie de processos dos jogadores por n√£o estarem cientes do risco de suas profiss√Ķes. Ao fim, o longa mostra o reconhecimento cient√≠fico de forma veross√≠mil, o qu√£o √°rduo foi o processo para que a ci√™ncia tomasse voz em um meio onde s√≥ se pensa em lucrar, independente de quantas vidas isso custe. Em um trecho o filme faz alus√£o √† luta contra a ind√ļstria do tabaco nos anos 90.

Tamb√©m s√£o abordadas algumas quest√Ķes culturais como o racismo sofrido pelo m√©dico por ser preto nigeriano, tendo sua capacidade duvidada a todo tempo. Em alguns momentos teve seus achados apresentados por outro m√©dico para que suas descobertas fossem validadas. Isso nos tr√°s a reflex√£o sobre a suposta superioridade americana e seus preconceitos. Podemos perceber a dificuldade do m√©dico e cientista para que dessem voz ao conhecimento, o quanto ele precisou sair da zona de conforto para que fosse ouvido.

Dr. Omalu e Will Smith
Imagem: Valerie Macon/AFP/Getty Images

‚ÄúSe eu negar meu trabalho, homens continuam morrendo‚ÄĚ. Essa frase de Omalu traz a uma reflex√£o bem atual como levantei no in√≠cio do texto. Quantas vidas poderiam ter sido poupadas, se tivessem dado a aten√ß√£o devida √†s pesquisas que alertavam sobre o Coronav√≠rus no in√≠cio dos anos 2000? Os mercados chineses, em nome do lucro, mantiveram seu com√©rcio com diversos animais silvestres, ainda que a ci√™ncia j√° tivesse emitido seus alertas. Ok, esse assunto √© longo e tema pra uma outra resenha mas ilustra o qu√£o atual √© a quest√£o.

Por fim, a trama mostra o impacto direto da ciência sobre a vida humana e seus benefícios para a sociedade e nos inspira como cientistas a travarmos a nossa luta diária em defesa do conhecimento.

A t√≠tulo de curiosidade, em 2017, 12 anos ap√≥s a primeira descoberta sobre a doen√ßa, Omalu publica pela primeira vez um artigo sobre um caso de ETC em uma pessoa viva. Tal fato ilustra o quanto o processo de ‚Äúfazer ci√™ncia‚ÄĚ √© um processo √°rduo, lento, levando tamb√©m a reflex√£o acerca dos desafios di√°rios do mundo cient√≠fico, independente de vieses econ√īmicos e pol√≠ticos.

O filme rendeu uma indica√ß√£o ao globo de Ouro como melhor ator a Will Smith e  encontra-se dispon√≠vel no Netflix.

Aqui o trailer do filme:

Kamilla Avelino de Souza. Bi√≥loga e doutoranda em Ci√™ncias Morfol√≥gicas pelo Instituto de Ci√™ncias Biom√©dicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fa√ßo parte da equipe de colunistas do site ‚ÄúCi√™ncia Explica‚ÄĚ e amo divulgar ci√™ncia de forma geral.

√Č DEXA!!

Texto de autoria da Olguitcha na Pands publicado no Facebook no perfil pessoal dela.

Oi, pessoal. Olguitcha na pands aqui. Senta que lá vem história da DEXA.

Ent√£o, como voc√™s sabem, eu n√£o tenho limites. Vou come√ßar dizendo que a Oxford mais uma vez est√° sambando na cara das universidades de voc√™s sabem onde… [a piada √© interna, mas eu to rindo]. Mas isso √© para outro post. hihihi

Os dados obtidos para a dexametasona são bem-vindos sim, esse grande estudo demonstrou que a dexametasona melhora a sobrevida de pacientes mais graves da COVID-19 que necessitam de ventilação. No entanto, o estudo ainda não foi publicado ou submetido ao escrutínio científico.

Isso n√£o impede a polvorosa do galer√™, e os trocentos posts que j√° devem ter sa√≠do… √ä√™√™√™ todos ama ci√™ncia agoraaaaaaa. SEUS CARA DE CONCHA.

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Desde fevereiro/mar√ßo, uma iniciativa de ensaios cl√≠nicos denominada RECOVERY* est√° avaliando o potencial uso de um monte de medicamentos para COVID-19 (RECOVERY: Randomised Evaluation of COVid-19 thERapY; √© cafona, sim, o que voc√™ espera de um monte de nerds recebendo aten√ß√£o…rsrs). Eles est√£o revisitando drogas j√° conhecidas dada a emerg√™ncia da pandemia, al√©m de interven√ß√Ķes m√©dicas outras. A rede RECOVERY conta com 175 hospitais da rede p√ļblica do Reino Unido (NHS-UK), logo tudo mais bem integrado do que a maioria dos trials que vemos.

Dizem os respons√°veis pelo RECOVERY que mais de 10 mil pacientes j√° participaram de ensaios por l√°.

Digamos com bondade no cora√ß√£o ent√£o que tudo isso sugere maior consist√™ncia entre os dados observados e, provavelmente, dados melhor/mais bem coletados para a an√°lise. Digo isso porque quem manja de estat√≠stica na √°rea cl√≠nica sabe, voc√™ faz o que quiser com um monte de n√ļmeros… mas se a fonte deles n√£o √© padronizada e confi√°vel, esque√ßa, √© xaxixo. Pode ser um xaxixo lindo, mas na beira do leito, n√£o d√° pra brincar e dizer que foi uma escolha dif√≠cil com ente amado alheio. ūüėČ Tamb√©m n√£o adianta ter um n√ļmero infinito de amostras, para superar a variabilidade natural entre pacientes, se todas foram adquiridas de qualquer jeito e sem coer√™ncia.

No final das contas, as interpreta√ß√Ķes na ci√™ncia dependem e se baseiam em √©tica e confiabilidade metodol√≥gica (percebam que essa √© uma cr√≠tica razo√°vel que posso fazer a estudos multic√™ntricos independentes, como aquele que foi retratado na The Lancet, que ganham em randomicidade pelo grande n√ļmero de amostras/pacientes, mas perdem em robustez e padroniza√ß√£o.

√Č uma faca de dois legumes, dependendo da droga ou pergunta a ser testada, eu poderia dizer que chega a ser um universo amostral viciado o do RECOVERY, ou seja, um estudo bem brit√Ęnico, imagine v√°rios Pr√≠ncipes Charles tomando ch√° com sorinho no bra√ßo… hahaha zoei. A tend√™ncia √© o resultado ser √≥timo para pessoas da fam√≠lia real. Sacaram? Mas n√£o sejamos assim chatonildos e pessimistas, a popula√ß√£o de UK que usa o NHS √© mais variada, se formos pensar em diversidade, UK toda n√£o √© royal assim faz muito tempo.

Enfim, no RECOVERY n√£o s√≥ a dexametasona tem sido avaliada, mas outras drogas como antivirais usados no HIV e anticorpos provenientes do plasma de pacientes convalescentes tamb√©m, incluindo a aminoquinolona que mais desperta paix√Ķes no planeta -hidroxicloroquina – (a qual j√° foi descartada por esse grupo de Oxford por n√£o ter mostrado benef√≠cio *oh shoot*).

Pois bem, vamos à dexametasona:

A dexametasona √© um antiinflamat√≥rio esteroidal bem conhecido, com diversas aplica√ß√Ķes, dosagens e formula√ß√Ķes farmac√™uticas (comprimido, injet√°vel, pomada e o escambau), o que pode mudar completamente sua efetividade e prop√≥sito.

A DEXA (para os √≠ntimos) √© vastamente utilizada em in√ļmeras patologias e interven√ß√Ķes medicamentosas combinadas. A DEXA √© mais comumente usada para tratar condi√ß√Ķes como inflama√ß√£o, alergias graves, problemas adrenais, artrite, asma, problemas de sangue ou medula √≥ssea, problemas renais, condi√ß√Ķes da pele e crises de esclerose m√ļltipla.

Barata e de f√°cil produ√ß√£o. Espero que ainda a DEXA s√≥ possa ser aviada com receita m√©dica e n√£o por live presidencial. Portanto, tem efeitos colaterais que muitos de voc√™s j√° talvez at√© tenham experimentado… vou listar uns que eu lembro de cabe√ßa: reten√ß√£o de l√≠quidos (danos na circula√ß√£o e rins), disfun√ß√£o dos n√≠veis glic√™micos tendendo a hiperglicemia (diabetes), fraqueza muscular, fragilidade de vasos sangu√≠neos, hipersensibilidade, refluxo g√°strico, dificuldade de cicatriza√ß√£o… e tem mais uma cacetada se for uso bem cr√īnico, at√© dist√ļrbios psicol√≥gicos e catarata, e outros que nem citei aqui porque eu t√ī com pregui√ßa real e oficial.

E tem um que eu quero destacar: DEXA √© imunossupressor, ou seja, deprime o sistema imunol√≥gico, reduz nossas defesas. Tem seus vieses se pensarmos em pessoas hospitalizadas utilizando, uma vez que diminuir a inflama√ß√£o √© o objetivo para evitar o progresso do quadro cl√≠nico da COVID-19, contudo a DEXA pode tornar o paciente mais suscet√≠vel a outras infec√ß√Ķes secund√°rias. Todos sabem que um dos maiores problemas em hospitais s√£o as mortes por infec√ß√Ķes hospitalares secund√°rias √† causa que levou o paciente √† interna√ß√£o. E tascar um monte de antimicrobianos espartanos no paciente n√£o ajuda muito n√£o…

Ou seja, DEXA n√£o √© bala Xax√°. NADA DE SAIR COMPRANDO ANTIINFLAMATORIO ESTEROIDAL PARA POR NA RECEITA DE BROWNIE. Caray. J√° t√ī braba aqui.

Pois bem, vamos aos resultados obtidos no ensaio com doses consideradas baixas de dexametasona no RECOVERY.

Dois grupos de pacientes foram randomizados, ou seja, aleatoriamente selecionados e comparados:

1 Р2104 pacientes com um tratamento convencional paliativo de COVID-19 com adição de dexametasona 6 mg uma vez por dia (por via oral ou por injeção intravenosa) por 10 dias.

2- 4321 pacientes apenas para os cuidados habituais.

Entre os pacientes que receberam os cuidados usuais isoladamente (grupo 2 sem droga), a mortalidade em 28 dias foi mais alta naqueles que necessitaram de ventilação (41%), intermediária nos pacientes que precisaram apenas de oxigênio (25%) e menor entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória (13%).

A DEXA reduziu aproximadamente 33% das mortes nos pacientes ventilados (razão de taxa 0,65 [intervalo de confiança de 95% 0,48 a 0,88]; p = 0,0003) e reduziu um quinto em outros pacientes recebendo apenas oxigênio (0,80 [0,67 a 0,96]; p = 0,0021). Não houve benefício entre os pacientes que não necessitaram de suporte respiratório (1,22 [0,86 a 1,75]; p = 0,14).

Em geral, no grupo 1 com droga, os pacientes que receberam a DEXA, houve redução de 17% a taxa de mortalidade em 28 dias (0,83 [0,74 a 0,92]; P = 0,0007), com uma tendência significativamente alta mostrando maior benefício entre os pacientes que necessitam de ventilação (teste para tendência p <0,001).

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ūüďćūüďćūüďć Os autores do ensaio dizem que √© importante reconhecer que n√£o encontraram evid√™ncias de benef√≠cio para pacientes que n√£o precisavam de oxig√™nio e que n√£o estudaram pacientes fora do ambiente hospitalar. O acompanhamento est√° completo para mais de 94% dos participantes.

PAUSA PIADISTICA 1: n√£o fiquem brabos comigo, estou me estendendo e colocando at√© os dados estat√≠sticos de valor de p e tudo, porque est√£o muito lindos demais… se n√£o foram manipulados. hahaha Mas √© o que est√° l√° no RECOVERY e os caras colocaram dispon√≠veis s√≥ isso a√≠. ūü§ė

PAUSA PIADISTICA 2: pessoal por a√≠ deu uma confundida na tradu√ß√£o. T√° escrito l√°: “Dexamethasone reduced deaths by one-third in ventilated patients”, o que em portugu√™s significa dizer que antes morriam 10 e agora morreriam 6 ou 7 usando DEXA. Redu√ß√£o de um ter√ßo. N√£o a um ter√ßo. Teve gente que achou que era milagre. “Reduced by” √© pegadinha.

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Com base nesses resultados, dizem eles, que 1 morte seria evitada pelo tratamento com DEXA a cada 8 pacientes ventilados ou a cada 25 pacientes que necessitavam apenas de oxig√™nio. Dada a import√Ęncia desses resultados para a sa√ļde p√ļblica, dizem eles “agora estamos trabalhando para publicar todos os detalhes o mais r√°pido poss√≠vel.”

POIS. N√£o √© o feij√£o m√°gico ainda, mas bem animador mesmo. YAY ūü§ėūü§ėūü§ė

Queremos o artigo publicado sim. Mais detalhes. J√° tenho uma lista de coment√°rios e perguntas:

Os pacientes que necessitam de oxig√™nio ou ventila√ß√£o geralmente apresentam pneumonia e desenvolvem falta de ar, insufici√™ncia respirat√≥ria e s√≠ndrome da ang√ļstia respirat√≥ria aguda (SDRA, do ingl√™s, ou SRAG, sindrome respiratoria aguda grave no portugu√™s) – quando os pacientes n√£o conseguem respirar porque h√° inflama√ß√£o e fluido preenchendo alv√©olos de ar nos pulm√Ķes. Uma vez que a SRGA se desenvolve, a taxa de mortalidade aumenta significativamente e a necessidade de cuidados intensivos e suporte √† vida aumenta.

Recomenda-se sempre cautela e mais dados antes de introduzir a dexametasona na pr√°tica atual.

Mas, de fato, uso de esteroidais √© realmente algo esperado j√° vendo outros trabalhos: Em mar√ßo, pessoal de Wuhan na China liberou um estudo no JAMA** – “O tratamento com metilprednisolona pode ser ben√©fico para pacientes que desenvolvem SRAG.”

Precisamos dos dados para descobrir o que havia de diferente nos pacientes estudados na China e no tratamento habitual combinado em UK (ou seja, uso de antibióticos empíricos?) O que determinou diferenças de outros grupos? Os dados de UK também nos ajudarão a selecionar melhor os pacientes que mais se beneficiariam.

O estudo n√£o mostrou nenhum benef√≠cio em pacientes que n√£o precisavam de ajuda para respirar. Apenas uma minoria de pacientes com COVID-19 precisa de oxig√™nio ou ventila√ß√£o mec√Ęnica – este √© o √ļnico grupo que pode se beneficiar da dexametasona? N√£o sei.

Diversidade na popula√ß√£o, comentei isso um pouquito, a baixa dose de DEXA pode ser nada eficaz pra alguns grupos √©tnicos… √© algo a se analisar.

Agora fica a minha cr√≠tica PESSOAL. Depois de todas as retra√ß√Ķes e PALHA√áADAS nessa pandemia, √© inaceit√°vel divulgar os resultados de estudo por meio do comunicado √† imprensa sem liberar todos os dados em revistas cient√≠ficas minimamente s√©rias antes. Qual o motivo pra isso? Voc√™s listem a√≠.

Era isso, pessoal, se ficar alguma d√ļvida de entendimento ou t√©cnica, faz um mimimi carinhoso que eu respondo.‚úĆÔłŹ

Edit.: esqueci de dizer sobre a quantidade de verba P√öBLICA que financiou esse estudo em hospitais P√öBLICOS. Muitas libras esterlinas. Muitas. ūü§Ď

Aqui fica o link do press release do Recovery: https://www.recoverytrial.net/news/low-cost-dexamethasone-reduces-death-by-up-to-one-third-in-hospitalised-patients-with-severe-respiratory-complications-of-covid-19

O paper de Wuhan em março: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2763184

Olguitcha na Pands √© project scientist na Farmacologia da School of Medicine na Universidade da Calif√≥rnia (EUA). Professora Associada da UFPR (t√° de licen√ßa sem sal√°rio, antes que perguntem). ‚ÄúVim pra c√° convidada pra trabalhar num projeto de glioblastoma. Tenho anos de experi√™ncia em Toxinologia (venenos de animais pe√ßonhentos), sou Doutora em Ci√™ncias com √™nfase em Biomol pela UNIFESP e Mestre em BioCel pela UFPR. Farmac√™utica Bioqu√≠mica.‚ÄĚ

** Este texto n√£o reflete, necessariamente, a opini√£o do ScienceBlogs Brasil.

Choro e ranger de dentes: a formação do pesquisador brasileiro precisa mesmo disso?

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana √© Tema Livre. Hoje quem escreve √© Mariella De Oliveira-Costa √© doutora em sa√ļde coletiva.

temalivre

Ansiedade, ang√ļstia, des√Ęnimo, depress√£o e dificuldades de concentra√ß√£o s√£o alguns dos problemas de sa√ļde f√≠sica e mental que acometem parte dos estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o, assim como quem est√° na √©poca de realizar sua monografia.

Todos vibram muito com a conquista daquela sonhada vaga  na universidade mas nem sempre (ou quase nunca) a vida acadêmica se mostra tranquila e interessante. A família que apoiou a escolha daquele aluno, o encontra por vezes isolado de tudo e de todos, sem tempo para atividades coletivas e até mal humorado.

Boa parte dos estudantes se frustra com as dificuldades inerentes dessa etapa da vida acad√™mica, com o orientador, com o programa de p√≥s, com os colegas, com os conte√ļdos de pesquisa, enfim, com o ambiente dentro de uma universidade ou institui√ß√£o de pesquisa.

Mas esta etapa da vida n√£o precisa ser assim.

Existem in√ļmeras dificuldades, mas tamb√©m muitas estrat√©gias para que esta fase de forma√ß√£o de um pesquisador, da inicia√ß√£o cient√≠fica, passando pelo TCC, mestrado e doutorado sejam momento de crescimento e aprendizado.

Nas redes sociais, tem sido comum observar um discurso de tristeza, abatimento e desilusão para com a pós-graduação e seus desafios e dificuldades.

Me incomoda bastante o discurso de que uma pós-graduação é apenas para alguns poucos iluminados e que a maioria deve sim viver num mar de choro e ranger de dentes. A vida acadêmica, bem administrada, pode ser leve e um momento bem feliz (e é importante compartilhar essa ideia)!

Sou recém-doutora e ao longo de minha formação sempre busquei espaços na agenda para atividades completamente fora do meu tema de pesquisa, e me cerquei de pessoas que tinham outras carreiras, falassem de outras coisas e ventilassem minha conversas e minha mente.

Pensando nisso, comecei um canal no youtube para falar sobre a vida acadêmica de uma forma mais realista e bem humorada.

Meu intuito é apresentar que existe vida além da pós-graduação, com temas do cotidiano acadêmico de maneira leve e breve, para  auxiliar os pós-graduandos (e os candidatos a uma pós) a encararem esta etapa da vida tal como ela realmente é: apenas uma parte, uma etapa, um degrau na sua caminhada (e não a caminhada toda).

Existe vida al√©m da p√≥s-gradua√ß√£o¬† e nenhuma vida precisa ser resumida a uma rotina casa-universidade. Um problema no laborat√≥rio, um resultado inesperado, uma pesquisa com uma s√©rie de limita√ß√Ķes n√£o pode definir a personalidade de ningu√©m, pois n√£o somos m√°quinas e √© preciso saber lidar com as dificuldades sem se tornar ref√©m delas.

Afinal, se formarmos pesquisadores desanimados, frustrados na sua forma√ß√£o b√°sica e com a sa√ļde mental comprometida, qual ser√° o futuro da ci√™ncia brasileira?

mariellaMariella De Oliveira-Costa √© doutora em sa√ļde coletiva, jornalista, escritora e tem como um de seus hobbies seu canal no Youtube. Atualmente trabalha na Fiocruz Bras√≠lia.

Do Papai Noel à Metástase

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana √© Tema Livre. Hoje quem escreve √© Bruno Ricardo Barreto Pires, Bi√≥logo e P√≥s-doutorando do Instituto Nacional de C√Ęncer.

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Eu nasci e fui criado no interior de Goi√°s, em uma cidade de 25.000 habitantes chamada Posse. Tive uma inf√Ęncia sem shoppings ou cinemas, mas com muito contato com a natureza e com os meus 20 primos. No natal de 1994, nos reunimos na casa dos meus av√≥s maternos para a ceia. Na √©poca, eu tinha 5 anos e carregava uma enorme vontade de falar tudo o que pensava. O cl√≠max daquela noite foi a apari√ß√£o do Papai Noel durante o jantar. Eu estava empolgad√≠ssimo com aquela presen√ßa, assim como os meus primos que tinham mais ou menos a mesma idade, at√© que percebi que a minha av√≥ n√£o estava mais no recinto. Comecei a observar bem aquele Papai Noel, sua barba branca, seu cabelo branco, gorro e roupas vermelhas… ent√£o, gritei ‚ÄúO Papai Noel √© a vov√≥!‚ÄĚ

Todos os adultos se espantaram. Meus pais desconversaram e depois de alguns minutos, o bom velhinho partiu. Eu insistia que era, mas parecia que eu havia falado um palavr√£o, pois todos me olhavam com um certo desprezo. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi questionar a minha m√£e. Ela confirmou, ‚Äúele n√£o √© real‚ÄĚ. Apesar de ela ter me explicado todo o motivo pelo qual ele foi criado, eu senti aquilo como uma facada nas minhas v√≠sceras. Embora aquela verdade tenha sido dif√≠cil de administrar no auge dos meus 5 anos, eu quis mais: ‚Äúent√£o, o coelhinho da P√°scoa tamb√©m n√£o existe?‚ÄĚ Tamb√©m n√£o, respondeu a minha m√£e com um olhar de vel√≥rio. Naquele dia, eu dormi muito mal, mas decidi contar a verdade para as outras pessoas (que tinham a mesma idade). No final de semana subsequente, est√°vamos todos os primos reunidos na casa dos meus av√≥s e aproveitei a ocasi√£o para libert√°-los daquela mentira. No entanto, para a minha maior decep√ß√£o, eles disseram que era eu quem estava mentido e um deles completou: ‚Äúmeus pais falaram que existe e eles n√£o mentem‚ÄĚ. Eu fiquei arrasado. Percebi que meus pares preferiam viver em uma ilus√£o do que aceitar a ‚Äúverdade nua e crua‚ÄĚ.

Aquela hist√≥ria envolvendo o papai noel me deu uma enorme coragem para questionar qualquer coisa. Al√©m disso, ela quebrou o paradigma de que eu deveria acreditar em tudo que ‚Äúos mais experientes‚ÄĚ afirmam. S√≥ que eu me empolguei. Aos 6 anos, eu estava desenvolvendo uma no√ß√£o sobre parentesco/hereditariedade, e cheguei a conclus√£o de que os meus pais n√£o pareciam fisionomicamente comigo. Sem saber o que a gen√©tica mendeliana conta sobre os alelos raros, acusei os meus pais de terem me adotado. No come√ßo, os meus pais riram, mas eu insisti tanto com o assunto que no mesmo dia, a minha m√£e me levou ao hospital em que nasci para que todos dessem o depoimento que testemunhava a favor dela. ‚ÄúEles est√£o todos comprados‚ÄĚ, repeti a frase que ouvia ocasionalmente no Programa Livre ‚Äď um cl√°ssico da d√©cada de 90.

Nesse dia, eu tinha passado da conta. Mesmo para uma crian√ßa de 6 anos, era percept√≠vel a tristeza de uma m√£e que se sentia rejeitada pelo pr√≥prio filho. ‚ÄúVoc√™ √© sangue do meu sangue, meu filho. Por que est√° fazendo isso comigo?‚ÄĚ Esse di√°logo nunca mas saiu da minha cabe√ßa…

Alguns anos depois, a minha av√≥ materna falece com c√Ęncer de mama. Lembro de uma conversa entre os meus pais que contava, segundo o oncologista do Hospital de Base, que o c√Ęncer havia se espalhado e que n√£o havia tratamento para isso. No dia ap√≥s o vel√≥rio, eu contei no ouvido da minha m√£e, que eu iria estudar porque ‚Äúaquilo‚ÄĚ matou a minha av√≥. Naquele momento, eu descobri como utilizar a minha vontade de investigar/pesquisar sem machucar as pessoas. Muito pelo contr√°rio, ajudando-as. Ent√£o, naquele dia eu aceitei a miss√£o de ser um cientista.

Desde ent√£o, eu persigo a met√°stase do c√Ęncer de mama como aquele que busca vingan√ßa, mas ao mesmo tempo, como aquele que quer dar esperan√ßa a todas as fam√≠lias que sofrem com esta doen√ßa.

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Bruno Ricardo Barreto Pires, Bi√≥logo e P√≥s-doutorando do Instituto Nacional de C√Ęncer. Escreve no blog ‚ÄúNovais da Silveira‚ÄĚ e √© entusiasta da divulga√ß√£o cient√≠fica nas redes sociais.

Estudos Liter√°rios: existimos, a que ser√° que se destina?

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Claudia Alves, escreve no Blogs Marca Páginas dos Blogs de Ciência da Unicamp.

temalivre

Sempre imagino come√ßar uma aula de Literatura perguntando aos alunos o que se estuda nas outras aulas. Matem√°tica? N√ļmeros, equa√ß√Ķes, formas geom√©tricas. Biologia? Reino animal, reino vegetal, corpo humano. Hist√≥ria? Gr√©cia, Imp√©rio Romano, Independ√™ncia do Brasil, Segunda Guerra Mundial. E ent√£o perguntar para a classe: e Literatura? Esperaria respostas como livros, escritores, hist√≥rias. Mas acho que poder√≠amos complementar e dizer ainda tudo o mais que se aprende nas outras aulas, afinal n√ļmeros, corpos e guerras, por exemplo, s√£o temas bastante recorrentes tamb√©m na Literatura.

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Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Esse exerc√≠cio de imagina√ß√£o sempre me fez acreditar que ali naquele contexto escolar seria poss√≠vel mostrar aos alunos que, em uma aula de Literatura, podemos passar, em maior ou menor medida, pelos conte√ļdos de todas as outras disciplinas. Nesse grande guarda-chuva, n√£o haveria limites para imaginar quais temas existem e podem ser trabalhados na escola. Tudo que √© humano √© pass√≠vel de ser liter√°rio.

De alguma maneira, quando explico o que são os Estudos Literários, tento percorrer esse mesmo trajeto. Se a Literatura nos permite criar em cima de tudo o que é humano, os Estudos Literários se abrem como uma área capaz de propor os mais variados tipos de exercícios de reflexão a partir da Literatura e de seus desdobramentos.

Existimos como uma área científica, então, nessa perspectiva: produzindo os mais diferentes conhecimentos possíveis de serem pensados a partir de obras literárias e de tudo o que pode existir ao seu redor. Na prática, isso significa pensar e questionar desde o contexto histórico em que um livro foi escrito até a biografia de quem o escreveu, passando pelas mais diversas características de forma e estilo do próprio texto, ou ainda pelas teorias literárias que se constituem a partir de um conjunto de textos.

Pensemos em um grande cl√°ssico da literatura brasileira como Dom Casmurro, por exemplo, escrito no s√©culo XIX por Machado de Assis. Esse livro √© certamente uma das obras mais analisadas at√© hoje pelos Estudos Liter√°rios no Brasil e tamb√©m no exterior. E como pode tanta gente ainda ter tanta coisa a dizer sobre um texto de 200 e poucas p√°ginas? A come√ßar por sua constru√ß√£o liter√°ria, Dom Casmurro √© um dos enredos mais instigantes da hist√≥ria da Literatura. Em seu universo, √© poss√≠vel estudar desde as escolhas lingu√≠sticas operadas por Machado at√© as maneiras como os sentimentos humanos e as subjetividades das personagens s√£o constru√≠das literariamente. Por outro lado, √© tamb√©m uma representa√ß√£o muito interessante de um certo Rio de Janeiro dos anos de 1800 e em certa medida do pr√≥prio contexto brasileiro da √©poca. Al√©m disso, h√° a oportunidade de investigar a biografia de Machado de Assis e suas trajet√≥rias de leitura e reflex√£o, que ganharam novos contornos em suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Finalmente, as infinitas possibilidades que surgem das rela√ß√Ķes com outros livros, outros escritores, outros tempos e tamb√©m com outras l√≠nguas, gra√ßas √† √°rea de tradu√ß√Ķes liter√°rias. Sem esquecer, √© claro, dos di√°logos com outras Artes, como Cinema e Teatro, algo que tamb√©m tem ganhado espa√ßo nos Estudos Liter√°rios.

Com tais ideias em mente, muito se pode discutir ainda sobre os Estudos Liter√°rios em si serem ou n√£o considerados um ramo das Ci√™ncias Humanas e, consequentemente, fazerem parte dos interesses da Divulga√ß√£o Cient√≠fica. Ora, mais do que responder a essa pergunta de forma pragm√°tica, parece ser mais interessante instigar a reflex√£o cr√≠tica: por que Literatura seria ou n√£o uma Ci√™ncia? Que tipo de produ√ß√£o de conhecimento est√° atrelada a essa quest√£o ou por que essa d√ļvida √© feita de maneira mais atenuada, com menos desconfian√ßa, quando se trata de pesquisas das √°reas de exatas e biol√≥gicas? Ou ainda, a quem interessa um certo tipo de sociedade em que fazer Ci√™ncia e produzir conhecimento √© algo diretamente relacionado √† utilidade pr√°tica que tais pesquisas ter√£o, o que excluiria a princ√≠pio o tipo de pesquisa feita nos Estudos Liter√°rios?

Deixo essas d√ļvidas sem respostas porque nem eu mesma as tenho, mas fato √© que n√≥s, pesquisadoras e pesquisadores de Estudos Liter√°rios, existimos. Somos uma √°rea de pesquisa presente nas universidades, nas bibliotecas, nos institutos de pesquisa, ou seja, em inst√Ęncias institucionais de renome, onde s√£o produzidos conhecimentos. Estamos compartilhando esses espa√ßos com muita resist√™ncia, j√° que socialmente os conhecimentos produzidos pelas Ci√™ncias Humanas ainda s√£o muito desvalorizados; principalmente quando se espera das Ci√™ncias uma aplicabilidade instant√Ęnea, o que n√£o condiz com o que √© feito nos Estudos Liter√°rios. Nossa tentativa, portanto, √© n√£o sermos sufocados pela grande pergunta “mas pra que serve o que voc√™ est√° fazendo?”.

Por√©m, quando confrontada com ela, gosto de responder e, mais do que isso, de acreditar que estamos pensando e repensando as formas que o ser humano encontrou para estar no mundo, sobretudo por meio de suas mais diversas manifesta√ß√Ķes liter√°rias e lingu√≠sticas – e isso n√£o √© pouca coisa. Para mim, parece que √© um bom destino para uma √°rea de conhecimento e, em certa medida, para todas as ci√™ncias existentes. E voc√™, concorda?

 

claudiaAlvesClaudia Alves, escreve no Marca Páginas, dos Blogs de Ciência da Unicamp.

A ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ da ci√™ncia

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Natália Coelho Ferreira, bióloga e co-fundadora da iniciativa de ONG chamada Draw Earth.

temalivre

Antes de come√ßarmos a dissertar sobre o tema proposto, vamos refletir? Afinal, o que √© ci√™ncia? Quando pesquisamos no site google, aparece uma lista de significados e aplica√ß√Ķes que podem ser resumidos em uma palavra: Conhecimento. Desta forma, podemos dizer que a ci√™ncia √© o conhecimento, saber, estar ciente, ter per√≠cia e etc. Com isso, chamo a aten√ß√£o para o tema com uma nova pergunta, o que seria a ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ da ci√™ncia? Quando falamos sobre ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ de algo nos referimos a libera√ß√£o de alguma coisa com a aprova√ß√£o da justi√ßa, correto? Correto. Mas a ci√™ncia n√£o √© ilegal… ou √©? Uma nova pergunta, a ci√™ncia abrange toda a popula√ß√£o? Sim ou n√£o, eis a quest√£o.

Na vis√£o popular o cientista √© um ser ranzinza, arrogante e exc√™ntrico que fica brincando de ‚ÄúDeus‚ÄĚ dentro de um laborat√≥rio. Mas entenda, n√£o √© todo mundo que pensa assim, viu? Vemos a sabotagem de pesquisa por mau uso da √©tica profissional ou por simples ignor√Ęncia, e quando digo ignor√Ęncia quero dizer falta de conhecimento, falta de saber, falta da ci√™ncia. Essa falta de conhecimento por parte de uma popula√ß√£o que se v√™ fadada ao ‚Äúachismo‚ÄĚ, sensacionalismo da m√≠dia e o estere√≥tipo formulado do ser cientista. Esse estere√≥tipo muitas vezes s√£o consolidados profissionais que ret√©m o saber ao seu √Ęmbito profissional e compartilham apenas com pessoas que possam entender do assunto. Estou mentindo? Com quantas pessoas voc√™ conversou por iniciativa pr√≥pria uma conversa cient√≠fica?

N√£o √© muito f√°cil iniciar uma conversa de conte√ļdo cient√≠fico com pessoas leigas, e talvez seja esse o ponto de desest√≠mulo. Falar em uma linguagem acess√≠vel para a popula√ß√£o, promover a√ß√Ķes de integra√ß√£o. Por√©m, liberar a ci√™ncia para um p√ļblico comum destoando do meio cient√≠fico, evita especula√ß√Ķes sobre a ci√™ncia e seus m√©todos. Afinal, que cientista n√£o √© posto em tabu sobre as experi√™ncias com animais? J√° fui questionada sobre o assunto mesmo sem trabalhar com fauna, imagina quem trabalha? Al√©m disso, a populariza√ß√£o da ci√™ncia evitaria pesquisas tendenciosas, embora sejam feitas em termos legais. Contudo, as consequ√™ncia dessas pesquisas prejudicam tanto a conserva√ß√£o que se torna um crime contra a natureza, na qual ela cobra e quem responde n√£o √© s√≥ o ‚Äúr√©u‚ÄĚ da quest√£o. O pre√ßo de um crime ambiental √© t√£o incomensur√°vel que n√£o h√° dinheiro que o pague, ‚Äújeitinho‚ÄĚ que se d√™ e fuga das consequ√™ncias.

Então, pontuando o título: Liberte a ciência. O conhecimento não é objeto de posse de cientista e nem o cientista é o ser estereotipado que afirmam ser. Cientistas são todos que sabem sobre algo, ao mesmo tempo que não nutrem perícia de nada e tem curiosidade pelo todo. A ciência é do povo e os profissionais de cada ramo são os porta-vozes da área. Sendo então esses porta-vozes, temos que disseminar, não apenas para preencher currículo ou inflar o ego de profissionais. Devemos propagar a ciência para que ela seja acessível por todos, para manutenção do saber, para que ela possa ser aplicada e que principalmente, para que a ciência não seja perdida e nem os fatos corrompidos.

Assim, finalizo meu texto, meu discurso e argumento. A ciência é bem e pode ser maldição, depende de quem usa e para o que usa. Entretanto, ela é irrestringível e por isso, não pode ser limitada a segmentos. Cada cientista em sua área contribui para algo além dele. O saber promove a evolução, previne tragédias e expande o universo. Desta forma, temos que começar a pensar na ciência como um assunto mais holístico em que todos se inserem e tem sua função. Nós temos que libertar, legalizar e consolidar a ciência no seu significado mais profundo, o aprofundamento do conhecimento.

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Natália Coelho Ferreira, bióloga, mestranda em Ecologia de Sistemas na Universidade de Vila Velha.

Que a ciência esteja com você

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Arthur Filipe, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos da UFAL.

temalivre

Quando eu fiquei sabendo da blogagem coletiva de divulga√ß√£o cient√≠fica para comemorar os 10 anos do ScienceBlogs Brasil, logo pensei: ‚ÄúO que √© que eu t√ī fazendo aqui fora da festa?‚ÄĚ. Acontece que neste exato momento em que estou escrevendo este texto tamb√©m estou desenvolvendo a minha disserta√ß√£o do mestrado, e justamente por isso as coisas andam t√£o corridas que √†s vezes fica meio dif√≠cil dedicar o tempo que eu gostaria para a divulga√ß√£o cient√≠fica. Mas, de repente, um pensamento me veio: ‚ÄúEi, e por que n√£o fazer as duas coisas ao mesmo tempo?‚ÄĚ; assim sendo, resolvi p√īr as m√£os na massa e escrever um texto para falar um pouco para voc√™s sobre o que eu ando aprontando na minha disserta√ß√£o.

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Nada de moleza, caro Padawan: assim como Luke em seu treinamento Jedi, um cientista em formação também tem muitos desafios!

Recentemente, numa galáxia bem conhecida, um cientista chamado Lei Wang, da Universidade Nacional da Austrália, teve uma ideia genial: criar hologramas. Se você for um admirador de obras de ficção científica como eu, entenderá logo do que estou falando. Resumindo, hologramas são imagens tridimensionais formadas a partir de diferentes intensidades de luz, e esta inovação pode revolucionar desde mensagens que enviamos no celular até tecnologias utilizadas por astronautas no espaço. Se você está pensando que esta ideia parece ter nascido de um filme de ficção científica não está enganado: Lei Wang é fã de Star Wars desde criança.

Quando o cineasta George Lucas criou Star Wars, o seu objetivo principal era contar uma história que tivesse conceitos de mitologia antiga; além disso, Star Wars também apresenta conceitos influenciados pela ciência, como as tão conhecidas viagens mais rápidas do que a luz da nave Millenium Falcon. As viagens mais rápidas do que a luz se parecem com o conceito da velocidade de dobra no espaço-tempo, que ainda é uma especulação dos físicos e dos fãs de Star Trek (olá, leitor do futuro, aí já existem naves que viajam na velocidade de dobra no espaço-tempo?); contudo, George Lucas considerou viagens mais rápidas do que a luz como uma realidade bem plausível em seu universo. Quanto a viagens mais rápidas do que a luz ainda permanecemos no campo da especulação, mas já podemos ter bons pressentimentos sobre os hologramas, apesar das pesquisas nesta área ainda estarem em fase inicial.

‚ÄúMe d√° um help aqui na disserta√ß√£o, orientador, voc√™ √© minha √ļnica esperan√ßa!‚ÄĚ XD

‚ÄúMe d√° um help aqui na disserta√ß√£o, orientador, voc√™ √© minha √ļnica esperan√ßa!‚ÄĚ XD

Bom, mas afinal de contas, o que isso tudo tem a ver com a minha pesquisa do mestrado? Na verdade, tem tudo a ver! Se um cientista Jedi, como o que mencionamos acima, decide trabalhar com hologramas devido ao fato de se interessar muito por ficção científica, podemos nos perguntar: o que mais faz um cientista querer trabalhar com determinado ramo da ciência? Existem algumas pesquisas, por exemplo, que demonstram que muitas pessoas escolhem ser astronautas ou físicas teóricas por gostarem de filmes e séries sobre exploração espacial; mas existem muitos outros motivos que também podem explicar os interesses de pesquisa. E são esses motivos que eu quero descobrir na minha dissertação!

Trazendo essa discuss√£o para dentro da Biologia (que √© a minha √°rea de atua√ß√£o), a minha pergunta √© sobre quais as raz√Ķes que levam um pesquisador estudar uma determinada esp√©cie, e n√£o outra. Seria o seu status de amea√ßa na IUCN? Ou talvez seria o fato da esp√©cie ser conhecida h√° mais tempo pelos pesquisadores? Ser√° que vari√°veis biol√≥gicas, como os h√°bitos de vida ou os tipos de ambientes das esp√©cies influenciam o esfor√ßo da pesquisa? Para responder a essas perguntas, os organismos-modelo do meu estudo s√£o as esp√©cies da Classe Amphibia, importantes indicadoras ambientais e de grande relev√Ęncia comercial. Para encontrar as respostas, a minha pesquisa necessita simplesmente de um computador e ideias bem definidas em mente; e, no final das contas, ser√° poss√≠vel entender um pouco as motiva√ß√Ķes dos pesquisadores, e como isso afeta as esp√©cies biol√≥gicas. Legal, n√©?

Eu ainda não sei o que influencia (ou deixa de influenciar) a pesquisa para os anfíbios, mas pelo que tudo indica, o Heavy Metal tem tudo para ser uma variável preditora: que o diga a espécie Dendropsophus ozzyi, batizada assim em homenagem ao cantor Ozzy Osbourne!

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Arthur Filipe da Silva,¬† bi√≥logo formado na Universidade Federal de Alagoas, atualmente √© mestrando no Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Diversidade Biol√≥gica e Conserva√ß√£o nos Tr√≥picos dessa mesma universidade. √Č integrante do Laborat√≥rio de Ecologia Quantitativa e do Laborat√≥rio de Biologia Integrativa. Edita o blog Hip√≥tese Nula, e adora coisas como ecologia, evolu√ß√£o, ci√™ncia livre, R, e, claro, caf√©.