Confuso? Se quer ser cientista, vai se acostumando…

Se você quer realmente por a mão na massa da pesquisa científica, prepare-se para se sentir a pessoa mais burra da Terra, mesmo depois da graduação, do mestrado, do doutorado, do pós-doutorado, do pós-pós-pós-doutorado.

Escrevi semana retrasada sobre a enxurrada de informação sobre a qual os físicos vivem hoje. Claro que o problema não é exclusividade dos físicos, nem dos cientistas. Temos que lidar com tanta informação, tanta coisa para ler e assistir, que se sentir meio confuso e burro às vezes é natural.

As pessoas, aliás, lêem jornal justamente para diminuir essa confusão. Pelo menos isso é o que pensa o escritor de ciência Tim Radford, citado por Lars Christensen em seu livro sobre comunicação científica. Se o assunto é tão enrolado quanto um prato de macarronada, Radford recomenda que o jornalista pegue apenas um fio inteiro de macarrão, de preferência cheio de óleo, alho e molho de tomate escorrendo, para escrever a respeito. Radford diz que “o leitor ficará agradecido por ter recebido a parte simples e não o todo complicado. Isso porque a) o leitor sabe que a vida é complicada, mas fica grato por ter ao menos uma parte dele explicada claramente, e b) porque ninguém já leu uma história começando com ‘o que segue é inexplicavelmente complicado…’ “

Infelizmente, muitos livros-texto de ciência, por mais que o autor se esforçe para ser claro e consiso, precisam começar com a frase “o que segue é inexplicavelmente complicado…” Por que, muitas coisas em ciência, ninguém, nem mesmo os próprios cientistas, entende direito.

“Na ciência, sentir-se confuso é essencial para progredir. Na verdade, uma indisposição em se sentir perdido, pode assassinar a criatividade no momento em que ela desperta”, escreve K. C. Cole, em um ensaio no Columbia Journalism Review. “Um matemático certa vez me contou que ele achava que era esse o motivo de os jovens matemáticos fazerem as grandes descobertas. Matemática pode ser difícil, ele disse, mesmo para as grandes mentes por ai. Os matemáticos podem gastar horas tentando entender uma linha de equações. Durante todo o tempo, eles se sentem estúpidos e deslocados. Então um dia, esses jovens matemáticos tornam-se reconhecidos, tornam-se professores, ganham secretárias e escritórios. Eles não querem mais se sentir estúpidos. E eles param de fazer grandes trabalhos.”

Veja o que diz o Prêmio Nobel de Física de 1959, Richard Feynman, a respeito de se sentir confuso, neste vídeo no YouTube. “Quando você pensa em algo que não entende, você tem um sentimento terrível, desconfortável de confusão”, diz Feynman. Ele compara esse sentimento ao desepero de um macaco que tenta de todos os jeitos juntar dois pedaços de madeira para formar uma vara que alcançe a banana fora de sua jaula. Juntar dois pauzinhos está no limite da inteligência do macaco, assim como está para nós entender leis da natureza como a eletrodinâmica quântica, descoberta entre outros por Feynman.

Mesmo quando os fatos foram cuidadosamente observados e uma teoria para explicá-los cuidadosamente descrita, o sentimento de confusão parece inevitável. “Mesmo quando você descobre a verdade, você sente que não entende o significado dela, você não acredita, acha aquilo maluco demais para aceitar”, diz Feynman em outro vídeo, no YouTube. “Você tem que aceitar por que é a maneira que a natureza funciona. Nós a examinamos cudiadosamente e é assim que ela parece. Você não gosta? Go somewhere else! Vá para outro universo, onde as leis são mais simples, mais filosoficamente agradáveis, mais fáceis psicologicamente.”

Nesse sentido, a ciência é a antítese do jornalismo, que precisa, para vender o jornal, apresentar uma versão agradável da realidade ao leitor. A teoria de K. C. Cole, de por que é tão difícil vender histórias de ciência aos editores, é que eles próprios, treinados para proteger o leitor da confusão, se sentem confusos diante de coisas como a energia escura ou o emaranhamento quântico.

“Não, não é que os editores não sejam inteligentes o suficiente para entender ciência. De fato, é o contrário: eles estão acostumados demais a se sentirem inteligentes, e portanto não conseguem lidar com o fato de não entenderem ciência. E por se sentirem desconfortáveis com a sensação de consfusão, os leitores acabam ficando no escuro sobre um universo de pesquisa que elude explicações fáceis”, escreve Cole. “A ciência é inerentemente incerta. O que faz a força da ciência é que essas incertezas estão ai, abertas, ditas e quantificadas. É essencial saber não só o que os cientistas sabem, mas também o que eles não sabem. Isso é um conceito que não é familiar aos editores acostumados com política ou esportes.”

Quem pode culpá-los? Esse sentimento de confusão é também a base das melhores histórias de terror. “A mais antiga e mais forte emoção da humanidade é o medo. E o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido”, dizia H. P. Lovecraft.

Discussão - 7 comentários

  1. Élida disse:

    Muito interessante este texto. Então a divulgação científica é uma máscara, uma ficção? Dá para fazer uma divulgação científica adequada ao grande público, ou isso vai contra a ciência?

  2. Igor Zolnerkevic disse:

    Oi Élida,
    Não é que a divulgação científica seja uma ficção. Na sua melhor forma, o texto de divulgação descreve uma pesquisa científica sem entrar em muitos detalhes, mas sempre fiel à realidade, aos fatos.
    Enquanto o escritor não inventar nada, não generalizar onde não pode, usar metáforas e analogias de maneira clara e precisa, não vai contra a ciência.
    Quando digo que o jornal apresenta uma versão “agradável” da realidade, não quero dizer que ele mente, mas que aje como filtro para o excesso de detalhes.

  3. Élida disse:

    Olá, Igor
    Mas e no caso de um escritor que queira escrever contos científicos, ou seja, queira ser reconhecido por divulgar ciência em uma linguagem popular, é possível?

  4. Igor Zolnerkevic disse:

    Você quer dizer, escrever ficção?
    No Reino Unido existe até um movimento literário batizado de lab lit, de escritores que fazem romances e contos baseados no no dia-a-dia de cientistas de verdade:
    http://www.lablit.com/

  5. Élida disse:

    Interessante, vou procurar mais a respeito. Obrigada!

  6. Élida disse:

    Não, quero dizer em escrever sobre ciência mas de maneira mais divertida. Estudo química ambiental e me interesso pelo mercado editorial. Pensei em fazer HQs sobre ciência, conheço algumas edições sobre temas clássicos, mas não conheço a receptividade do público sobre isso.

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