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Hip√≥teses filogen√©ticas dos Amniotas e a import√Ęncia dos f√≥sseis na compreens√£o da evolu√ß√£o da vida

Ol√° caros leitores, depois de um breve per√≠odo de pausa nas postagens, voltamos com grande estilo. Hoje apresento a voc√™s um interessante texto redigido pelo Mestrando em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ Geovane Alves de Souza, O assunto abordado se refere as primeiras discuss√Ķes hist√≥ricas sobre as hip√≥teses filogen√©ticas dos Amniotas (grupo que tradicionalmente inclui os r√©pteis, aves e mam√≠feros e suas formas relacionadas) e a import√Ęncia dos f√≥sseis para um melhor entendimento da evolu√ß√£o das esp√©cies. Ent√£o,  sem mais delongas, vamos ao texto!
 
Editado em 19/08/2018.

Em plena Era da Filogen√īmica, na qual o DNA possui papel central na busca pela compreens√£o da evolu√ß√£o da vida na Terra, √© comum pensarmos nos f√≥sseis como uma fonte de dados um tanto quanto ultrapassada, trabalhosa e que demanda muito tempo para estudar. A diretora do Jurassic World, Claire Dearing (encenada pela atriz Bryce Dallas) enfatiza isso muito bem em sua fala: ‚ÄúAprendemos mais com a gen√©tica em 10 anos do que em um s√©culo, escavando‚ÄĚ. Hoje √© consenso no meio acad√™mico a import√Ęncia dos vest√≠gios da vida pret√©rita, os f√≥sseis (para melhores detalhes acerca de sua defini√ß√£o veja aqui), quando inferimos rela√ß√Ķes de parentesco dos organismos viventes. Contudo, nem sempre os f√≥sseis tiveram sua import√Ęncia reconhecida e passando por momentos de gl√≥ria e queda ao longo dos √ļltimos s√©culos.


Ap√≥s a publica√ß√£o da obra A Origem das Esp√©cies por Meio da Sele√ß√£o Natural por Charles Darwin em 1859, no qual o autor defendia as teorias de Evolu√ß√£o Biol√≥gica, Sele√ß√£o Natural e Ancestralidade Comum, os f√≥sseis passaram a desempenhar um papel chave na compreens√£o de como a vida evoluiu. Contudo, foi na metade do s√©culo XX, que o registro fossil√≠fero enfrentou uma queda brusca de sua supremacia. O respons√°vel foi o advento de uma nova maneira de se estudar a evolu√ß√£o: a Sistem√°tica Filogen√©tica de Willi Hennig (1950). A nova metodologia e filosofia da sistem√°tica nos seus primeiros anos de exist√™ncia n√£o exigia a necessidade de determinar uma dada esp√©cie f√≥ssil conhecida como ancestral entre duas linhagens. Pod√≠amos estudar a evolu√ß√£o das esp√©cies viventes, tratando o ancestral comum entre elas como uma esp√©cie hipot√©tica. Esse modo de vislumbrar as √°rvores filogen√©ticas (diagramas ramificados que representam a evolu√ß√£o de uma linhagem e que s√£o gerados a partir de uma an√°lise computacional ou an√°lise filogen√©tica), conhecido como Modelo Cladogen√©tico, √© antag√īnico ao antigo modelo vigente, o Anagen√©tico. De fato, determinar em qual ponto exato da evolu√ß√£o de uma linhagem uma esp√©cie f√≥ssil esta inserida n√£o √© uma tarefa f√°cil, eu diria que um tanto quanto imposs√≠vel, a menos que tenhamos uma m√°quina do tempo para voltarmos e acompanharmos o passo a passo da evolu√ß√£o de determinada linhagem ao longo dos milhares de anos. Muitas cr√≠ticas contra o uso dos f√≥sseis foram levantadas na √©poca. O pr√≥prio Hennig reconhecia que os dados f√≥sseis poderiam ser √ļteis na hora de conduzir uma an√°lise filogen√©tica. Contudo, devido √† tamanha incompletude do registro fossil√≠fero, ou seja, tanta informa√ß√£o biol√≥gica era perdida no processo de forma√ß√£o de um f√≥ssil, que estes deveriam ser preferivelmente menos utilizados na hora de reconstruir as rela√ß√Ķes de parentesco.


Petterson (1981) mostrou, através de vários exemplos, o quanto os fósseis prejudicavam a compreensão sobre as hipóteses de evolução dos animais. Ax em 1987 defendeu em seu livro The Phylogenetic System que os dados fósseis são tão incompletos que as árvores deveriam ser construídas com base apenas nos grupos viventes e só depois que a análise computacional fosse feita é que se deveriam adicionar os fósseis. Dessa maneira e com muito sucesso, os críticos rapidamente conseguiram marginalizar o uso dos dados paleontológicos nos estudos da evolução das linhagens de organismos viventes.

A Hipótese Clássica da evolução dos Amniotas

In√ļmeras √°rvores foram constru√≠das ao longo dos anos seguintes, a maioria delas ignorando as informa√ß√Ķes provindas dos f√≥sseis. O estudo que mais me chamou a aten√ß√£o foi o trabalho cl√°ssico de Gardiner em 1982, no qual este autor tentou reconstruir a at√© ent√£o, pouco compreendida hist√≥ria evolutiva dos amniotas. Amniota √© um grupo de animais vertebrados que possuem, dentre muitas caracter√≠sticas, uma membrana extraembrion√°ria ao redor do feto chamada de amnion, membrana a qual √© fundamental para a independ√™ncia da √°gua do ambiente durante o desenvolvimento do filhote no ovo, permitindo que estes animais colonizassem completamente o habitat terrestre. Estamos falando ent√£o da maioria esmagadora de vertebrados terrestres (e os que secundariamente retornaram ao ambiente aqu√°tico) que dominaram a Terra: desde as formas extintas famosas como dinossauros, pterossauros, ictiossauros, plesiossauros at√© as esp√©cies contempor√Ęneas de tartarugas, crocodil¬≠os, lagartos, serpentes, aves e mam√≠feros.


Gardiner utilizou v√°rios dados morfol√≥gicos dos cinco grupos de amniotas viventes em suas an√°lises (tartarugas, lagartos, jacar√©s, mam√≠feros e aves). Gardiner observou que as aves e os mam√≠feros eram evolutivamente relacionados, sendo agrupados por uma s√©rie de caracter√≠sticas que eram adapta√ß√Ķes √†s suas altas taxas metab√≥licas (metabolismo alto leva a uma temperatura corp√≥rea alta, sendo estes animais equivocadamente chamados de animais de ‚Äúsangue quente‚ÄĚ).
Gardiner ressuscitou o antigo termo Haeomothermia para nomear o grupo de animais de ‚Äúsangue quente‚ÄĚ formado por aves e mam√≠feros (o termo vem de homeotermia, do grego homo: igual, thermia: temperatura; que √© como chamamos os animais que possuem temperaturas corporais constantes). Haemothermia, por sua vez era relacionado evolutivamente com o Crocodylia (crocodilos, jacar√©s e gaviais) formando o grupo Thecodontia. Tartarugas, c√°gados e jabutis (Chelonia) eram mais aparentados com Thecodontia (Crocodylia+(Aves+Mammalia)). Por fim, o grupo mais basal de Amniota era Lepidosauria, o qual abrange tuataras, serpentes e lagartos (Figura 1).

Esta imagem possu√≠ um atributo alt vazio; O nome do arquivo √© Fig.1.-√Ārvore-Gardiner-recent.jpg
Fig. 1. Rela√ß√Ķes entre as cinco assembleias de amniotas viventes defendida por Gardiner (1982; ver tamb√©m Lovtrup, 1985) modificado de Gauthier e colaboradores (1988)

 
O trabalho experimental de Gauthier


Os resultados de Gardiner¬†se baseam exclusivamente em animais viventes, conforme j√° foi dito e ecoaram por quase uma d√©cada. Lovtrup (1985) publicou um trabalho no qual afirmou ter encontrado maior suporte √† hip√≥tese de Gardiner. At√© que, em 1988, um c√©lebre manuscrito chegou para revolucionar a vis√£o que a comunidade cient√≠fica da √©poca tinha sobre os dados paleontol√≥gicos. Gauthier e seus colegas (1988), baseados na hip√≥tese de filogenia dos amniotas proposto por Gardiner, publicaram o primeiro estudo demonstrando empiricamente (ou seja, atrav√©s de experimentos pr√°ticos e n√£o calcados apenas em conjecturas) que os f√≥sseis poderiam contribuir e muito na elucida√ß√£o das hip√≥teses de parentesco dos seres vivos atuais. Para isso, eles¬†conduziram¬†uma nova an√°lise, s√≥ que dessa vez incluindo esp√©cies extintas, obtendo uma √°rvore marcadamente diferente e depois a submeteram a alguns testes para confirmar sua validade. Para entendermos como os autores chegaram a suas conclus√Ķes precisamos compreender os experimentos que a equipe realizou. Gauthier partiu de uma pergunta: os F√≥sseis poderiam alterar as nossas hip√≥teses de parentesco entre as biotas recentes? Para responder isso, ele conduziu um estudo em tr√™s etapas.


(1) Primeiramente, antes de rodar uma nova an√°lise incluindo os f√≥sseis, os pesquisadores destrincharam e reviram todas as caracter√≠sticas utilizadas por Gardiner e perceberam que havia alguns equ√≠vocos e erros na interpreta√ß√£o dos caracteres. Gardiner afirmara, por exemplo, que um cora√ß√£o dividido em quatro c√Ęmaras √© hom√≥logo (mesma origem; para melhor entendimento desta terminologia veja aqui) em crocodilos, aves e mam√≠feros, o que refor√ßava a rela√ß√£o de parentesco entre eles. Contudo, quando acompanhamos o desenvolvimento embrion√°rio do septo interventricular destes animais, vemos que nos mam√≠feros ele se desenvolve a partir de uma crista de tecido endoc√°rdico na parede de tr√°s do ventr√≠culo, enquanto que nas aves e nos crocodilos o septo surge de varias protuber√Ęncias musculares pouco recobertas por endoc√°rdio na lateral do ventr√≠culo. Apesar de serem estruturas semelhantes nos adultos, elas n√£o possuem a mesma origem no embri√£o, ou seja, n√£o s√£o hom√≥logas. Logo, os equ√≠vocos nas interpreta√ß√Ķes de Gardiner o levaram a estabelecer homologias entre mam√≠feros e aves que n√£o condiziam com a realidade.


(2) Depois de corrigir a lista de características, Gauthier rodou duas análises, uma contendo apenas os dados morfológicos dos cinco grupos viventes de Gardiner e outra incorporando 29 espécies de amniotas extintos. Foi então que uma nova hipótese começou a tomar forma.


A an√°lise com dados dos animais viventes


A √°rvore filogen√©tica obtida utilizando apenas os cinco grupos de amniotas viventes se assemelhou √† hip√≥tese cl√°ssica de Gardiner de 1982, com apenas uma pequena diferen√ßa: os crocodilos e n√£o os mam√≠feros eram mais relacionados com as aves, trazendo d√ļvidas quanto a validade do antigo grupo Haemothermia (Ver figura 2). Isso implica em infer√™ncias important√≠ssimas para nossa compreens√£o da evolu√ß√£o da homeotermia. Primeiro, que um jacar√© √© o parente mais pr√≥ximo das aves do que qualquer outro animal vivo hoje. Al√©m disso, muitas caracter√≠sticas que antes eram vistas como hom√≥logas entre aves e mam√≠feros e que estariam presentes no suposto ancestral comum destas duas linhagens, na verdade surgiram duas vezes independentemente na √°rvore da vida dos vertebrados. Talvez em resposta provavelmente as mesmas press√Ķes evolutivas.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é Fig.-2.-Arvore-Gatuhier-recent.jpg
Fig. 2. √Ārvore obtida da an√°lise de Gauthier (1988) apenas com amniotas viventes. Note que ela se assemelha √† √°rvore anterior de Gardiner (1982), contudo as aves est√£o mais relacionadas com crocodilos do que com os mam√≠feros.

 
A an√°lise com dados combinados (animais viventes + extintos)


Na segunda an√°lise na qual Gauthier acrescentou os f√≥sseis, uma √°rvore completamente diferente surgiu (ver figura 3). N√£o s√≥ aves e crocodilos estavam agrupados juntos, mas lagartos e serpentes (Lepidosauria) agora estavam mais relacionados a Aves + Crocodylia do que as tartarugas. O mais estranho foi que os mam√≠feros agora estavam na base da √°rvore, formando uma grande dicotomia inicial: Mam√≠feros e todos seus parentes extintos de um lado versus lepidossauros, qu√™lonios, crocodilos, aves e todos seus parentes extintos relacionados do outro. Ao primeiro grupo, chamamos de Synapsida (amniotas que apresentam uma fenestra temporal no cr√Ęnio) e ao segundo, Reptillia (que compreende tanto amniotas que possuem duas ou nenhuma fenestra temporal, Diapisida e Anapsida, respectivamente). Contudo, n√£o bastava obter uma √°rvore completamente diferente, ela precisava ser mais bem justificada.

Esta imagem possu√≠ um atributo alt vazio; O nome do arquivo √© Fig.-3.-√Ārvore-Gauthier-fossilrecent.jpg
Fig. 3. √Ārvore obtidida por Gauthier (1988) combinando tanto esp√©cies f√≥sseis quanto viventes. Note que h√° uma dicotomia basal, separando mam√≠feros e seus parentes extintos (Synapsida) de um lado versus todos os r√©pteis atuais + Aves (Reptilia) do outro.

 
An√°lises posteriores ‚Äď Esmiu√ßando a nova hip√≥tese obtida


Na √ļltima etapa do estudo (3), uma s√©rie de experimentos computacionais foram conduzidos por Gauthier, alguns ser√£o explicados mais adiante e que culminaram em um achado esperan√ßoso, principalmente para n√≥s paleont√≥logos: F√≥sseis s√£o fundamentais para elabora√ß√£o das hip√≥teses de rela√ß√£o entre as esp√©cies viventes.
Gauthier e seus colegas queriam saber o porquê que as árvores diferiram tanto nas análises com e sem os fósseis. Para isso, eles fizeram algumas análises posteriores, contudo só irei detalhar três delas neste texto que acredito serem mais interessantes para nossa discussão. Primeiro, os autores compararam o índice de consistência de sua nova árvore com o índice da árvore de Gardiner. Este índice mostra o quão robusto e conciso estão seus resultados, no caso, sua hipótese de evolução de uma linhagem. O interessante foi que mesmo adicionando várias espécies fósseis na sua análise, Gauthier encontrou um valor de índice de consistência semelhante ao de Gardiner, mostrando que mesmo os fósseis alterando drasticamente a hipótese, a árvore continuava tão confiável quanto uma utilizando apenas espécies viventes.


Numa an√°lise posterior, Gauthier e colaboradores removeram todos os grupos f√≥sseis do lado ‚Äúsinaps√≠deo‚ÄĚ da √°rvore, deixando apenas os animais viventes desse ramo (mam√≠feros) junto com todos do lado ‚ÄúReptillia‚ÄĚ (viventes e extintos) e rodaram a an√°lise. Paralelamente, foi feito o oposto, todas as linhagens extintas de Reptillia foram retiradas deixando apenas seus representantes viventes e o lado ‚Äúsinaps√≠deo‚ÄĚ da √°rvore (viventes e extintos) e rodaram a an√°lise. Os autores viram que n√£o importava qual f√≥ssil de Reptillia fosse retirado, a √°rvore final n√£o se alterava. Por√©m,  quando os f√≥sseis de sinaps√≠deos eram retirados, a √°rvore adquiria o novo padr√£o proposto por Gardiner (1982; Figura 3).

Gauthier então percebeu que os principais responsáveis pela nova topologia da árvore eram os fósseis de sinapsídeos. Mas por que isso?
De acordo com os autores, quanto mais antiga √© a origem de uma linhagem e quanto mais derivada for a morfologia de seus representantes atuais (como √© o caso dos mam√≠feros), mais os f√≥sseis ser√£o importantes para elucidar sua evolu√ß√£o. Basta compararmos os mam√≠feros atuais com seus parentes extintos, os ‚Äúpelicossauros‚ÄĚ como Casea, Ophiacodon, Edaphosaurus, Sphenacodon (figura 4) para ver o ‚Äúabismo morfol√≥gico‚ÄĚ que separam essas linhagens. Quando observamos os mam√≠feros atuais, dificilmente conseguimos relaciona-los com outro grupo de animal vivente e quando tentamos, certamente estaremos fadados ao erro, assim como Gardiner, em 1982 equivocadamente agrupou Aves e Mammalia no antigo grupo Haeomothermia. Por√©m, quando olhamos para os f√≥sseis vislumbramos um mundo completamente ‚Äúnovo‚ÄĚ. As formas extintas possuem combina√ß√Ķes √ļnicas de caracter√≠sticas basais e derivadas que frequentemente se apresentam numa serie gradual de mudan√ßas, que nos permitem acompanhar suas hist√≥rias evolutivas de maneira tal que possamos observar esp√©cies diferentes ficando cada vez mais semelhantes conforme voltamos no tempo. Os f√≥sseis s√£o uma das poucas evid√™ncias diretas da evolu√ß√£o e √© por isso, que os dados paleontol√≥gicos se tornam t√£o fundamentais para elucidar as rela√ß√Ķes evolutivas dos grupos viventes. Principalmente, quando o objeto de estudo s√£o animais t√£o diferentes como seu cachorro e um pardal na janela de casa.


Outro experimento que a equipe de Gauthier conduziu consistiu basicamente em retirar todas as linhagens viventes da matriz de caracter√≠sticas e fazer uma nova an√°lise. Apesar de ser um experimento simples, o resultado obtido foi revelador: a nova hip√≥tese representada na figura 3 veio √† tona novamente, por√©m sem os animais viventes. Este resultado, associado √† an√°lise inicial das caracter√≠sticas utilizadas no trabalho de Gardiner (1982), derruba os argumentos dos cr√≠ticos a respeito da incompletude do registro f√≥ssil. De fato a informa√ß√£o que provem dos fosseis √© mais incompleta do que as que podemos retirar dos animais viventes, mas mesmo assim os f√≥sseis est√£o longe de serem menos informativos em uma an√°lise filogen√©tica. Gauthier demonstrou isso quando retirou todas as esp√©cies viventes da an√°lise e mesmo assim alcan√ßou a nova hip√≥tese. Al√©m disso, Gauthier enfatizou que incompletude n√£o √© exclusiva de f√≥sseis. Ela pode ocorrer naturalmente nos animais. Quatro das caracter√≠sticas utilizadas na an√°lise de Gardiner eram do osso quadrado, um osso na base do cr√Ęnio dos vertebrados no qual se articula a mand√≠bula. Contudo, nos sinaps√≠deos mais derivados, os cinodontes (o qual mam√≠feros fazem parte), esse osso foi gradativamente sendo reduzido e alocado cada vez mais para tr√°s do cr√Ęnio junto com uma s√©rie de ossos da mand√≠bula. Esta condi√ß√£o alcan√ßou o extremo nos mam√≠feros, onde o osso quadrado e um grupo de ossos que uma vez pertenceram √† mand√≠bula, se reduziram e modificaram sua fun√ß√£o ao ponto de formarem o que hoje s√£o nossos oss√≠culos do ouvido m√©dio (o quadrado dos outros vertebrados √© a bigorna nos mam√≠feros). Logo, aquelas quatro caracter√≠sticas baseadas na morfologia do osso quadrado, n√£o se aplicam aos mam√≠feros, pois o quadrado deles se alterou tanto que fica dif√≠cil comparar com os outros animais, ou seja, este √© um dado naturalmente faltante. Al√©m disso, Gauthier percebeu que Casea (o f√≥ssil mais basal e antigo de sinaps√≠deo e que consequentemente esper√°vamos maior incompletude) apresentava 26% de informa√ß√£o faltando, enquanto que os mam√≠feros atuais tinham em m√©dia 15% de dados morfol√≥gicos faltando ou dif√≠ceis de interpretar. Esses 11% de diferen√ßas s√£o realmente significantes? Gauthier n√£o s√≥ provou que n√£o h√° diferen√ßa significante como tamb√©m nos mostrou que informa√ß√£o incompleta n√£o √© exclusiva dos f√≥sseis.

Fig. 4. Outra √°rvore filogen√©tica, dessa vez apenas com sinaps√≠deos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um ‚ÄúPelicossauro‚ÄĚ), at√© os parentes mais pr√≥ximos dos mam√≠feros, um cinodonte n√£o-mam√≠fero.
Fig. 4. Outra √°rvore filogen√©tica, dessa vez apenas com sinaps√≠deos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um ‚ÄúPelicossauro‚ÄĚ), at√© os parentes mais pr√≥ximos dos mam√≠feros, um cinodonte n√£o-mam√≠fero.


A Renascença dos fósseis


Ap√≥s demonstrar empiricamente qu√£o importante os f√≥sseis s√£o para nossa compreens√£o da evolu√ß√£o das linhagens viventes, Gauthier deu um solavanco nos sistematas, convidando-os a se debru√ßarem no assunto. Desde ent√£o, estudos importantes v√™m sendo conduzidos, cada vez mais enaltecendo o uso de dados paleontol√≥gicos em reconstru√ß√Ķes filogen√©ticas e desenvolvendo metodologias para minimizar o efeito da incompletude dos dados de organismos tanto viventes quanto extintos, o famigerado missing data que os cladistas tanto abominam (veja Donoghue et al., 1989; Smith, 1998; Wilkinson; Benton, 1995).
Exemplos como estes de Gardiner e Gauthier nos mostram como a Ci√™ncia √© din√Ęmica. O que antes era tido como verdade e que hoje √© obsoleto, n√£o necessariamente deixa de ser √ļtil. Se Gardiner n√£o tivesse se aventurado nas rela√ß√Ķes de Amniota, Gauthier e toda uma gera√ß√£o de sistematas n√£o seriam impulsionadas a refletir sobre o assunto e talvez o reconhecimento da import√Ęncia dos f√≥sseis na reconstru√ß√£o da evolu√ß√£o da vida na Terra poderia ser ainda mais postergada. Por fim, quando ignoramos as informa√ß√Ķes contidas no registro f√≥ssil, estamos ferindo o princ√≠pio da Evid√™ncia Total (um tema que ser√° abordado em postagens futuras do blog). Este princ√≠pio pode ser exemplificado com uma √≥tima analogia que um estimado amigo uma vez me fez: n√£o usar os dados paleontol√≥gicos para inferir filogenia √© como ter um beb√™ de colo e joga-lo pela janela s√≥ porque ele n√£o √© um adulto.


Referências:


AX, Peter. 1987. The phylogenetic system: the systematization of organisms on the basis of their phylogenesis.
DARWIN, C. A Origem das Esp√©cies. Hemus ‚Äď Livraria Editora Ltda, S√£o Paulo, SP.


DONOGHUE, Michael J. 1989. Phylogenies and the analysis of evolutionary sequences, with examples from seed plants. Evolution, v. 43, n. 6, p. 1137-1156.


GARDINER, BRIAN G. 1982. Tetrapod classification. Zoological Journal of the Linnean Society, v. 74, n. 3, p. 207-232.


GAUTHIER, Jacques; KLUGE, Arnold G.; ROWE, Timothy. 1988. Amniote phylogeny and the importance of fossils. Cladistics, v. 4, n. 2, p. 105-209.
HENNIG, Willi. 1950. Grundzuge einer Theorie der phylogenetischen Systematik.


LOVTRUP, Soren. 1985. On the classification of the taxon Tetrapoda. Systematic Zoology, v. 34, n. 4, p. 463-470.


PATTERSON, Colin. 1981. Significance of fossils in determining evolutionary relationships. Annual Review of Ecology and Systematics, v. 12, n. 1, p. 195-223.
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SMITH, Andrew B. 1998. What does palaeontology contribute to systematics in a molecular world?. Molecular phylogenetics and evolution, v. 9, n. 3, p. 437-447.


WILKINSON, Mark; BENTON, Michael J. 1995. Missing data and rhynchosaur phylogeny. Historical Biology, v. 10, n. 2, p. 137-150.

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Geovane Alves de Souza, Graduado em licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina. Atualmente é mestrando em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Já desenvolveu pesquisas na área de parasitologia de animais silvestres, hoje conduz estudos de osteohistologia com titanossauros.


Cole√ß√Ķes informais de f√≥sseis

Hoje tropecei nesta not√≠cia, de um senhor j√° conhecido por sua cole√ß√£o particular de¬†f√≥sseis na regi√£o de Cruzeiro do Sul, no Acre (clique na imagem para ler a not√≠cia):¬†Captura de Tela 2017-06-06 aŐÄs 14.14.24

O que me fez refletir sobre as cole√ß√Ķes informais de f√≥sseis. Devo admitir, que essas s√£o muito mais comuns pelo Brasil a fora do que a gente imagina e¬†isso¬†demanda uma discuss√£o aberta sobre o¬†assunto e n√£o uma “varrida pra debaixo do tapete”.

Abaixo segue uma breve reflexão sobre o caso específico do Sr. Renato Bezerra, retratado na notícia. Procurei atentar para os dois lados da balança, mas, claro, como paleontóloga, sinto a necessidade de esclarecer qual o problema (para a sociedade e a ciência) envolvido nisso.

√Č pol√™mico e muito dif√≠cil lidar com situa√ß√Ķes assim. √Č necess√°rio sempre usar a parcim√īnia e a lei do bom senso, principalmente pelo fato do Sr. Renato Bezerra ter¬†come√ßado suas atividades h√° muitos anos e hoje ser um senhor de idade. Certamente, Sr. Renato n√£o reuniu os f√≥sseis por maldade ou gan√Ęncia. Sua inten√ß√£o, acredito que posso afirmar, n√£o era vender ou enriquecer com isso. No fundo, ele √© um curioso e tem “alma” de cientista (ou pelo menos gostaria de ter), assim como muitos de n√≥s. O que acontece, apenas, √© que ele n√£o teve preparo e/ou conhecimento de causa para compreender que o melhor lugar para um f√≥ssil estar √© na m√£o de paleont√≥logos, em um instituto de pesquisa.

Uma coisa √© certa: do jeito que os f√≥sseis est√£o acondicionados (veja a foto na not√≠cia), eles N√ÉO podem ficar. Precisam ser curados, precisam ser cuidados (ter um reposit√≥rio adequado, prote√ß√£o, etc.). Estamos no s√©culo XXI, f√≥ssil n√£o √© mais s√≥ pe√ßa de exposi√ß√£o ou objeto de curiosidade. F√≥ssil √©, sobretudo, informa√ß√£o paleobiol√≥gica e paleoecol√≥gica (√© um peda√ßo da hist√≥ria da vida no planeta), e precisa ser estudado! F√≥ssil tem que ter dados de coleta, coleta controlada, identifica√ß√£o adequada e, sobretudo, acesso irrestrito a pesquisadores. Colecionar f√≥sseis implica em problemas s√©rios como esses: voc√™ tem a pe√ßa, n√£o sabe direito o que √©, de onde saiu, qual era a sua associa√ß√£o, qual o seu contexto, al√©m de ela ficar fechada para toda (ou pelo menos grande parte) da comunidade acad√™mica. √Č um objeto curioso, sem hist√≥ria nenhuma, que n√£o contribui em nada. F√≥sseis bons j√° s√£o raros, a√≠ acabam nesses becos sem sa√≠da.

√Č urgente discutir melhor a legisla√ß√£o sobre f√≥sseis. E o que fazer em casos como esse. Proibir? Liberar? Fiscalizar? Melhor fiscalizar? Mais inteligentemente fiscalizar? Aproximar? Afastar? Reprimir? Auxiliar? Orientar?

A cole√ß√£o do Sr. Renato √© uma cole√ß√£o importante. No m√≠nimo, deveria ser avaliada cuidadosamente por um paleont√≥logo especialista no estudo dos t√°xons envolvidos (aparentemente a maioria √© megafauna, do Mioceno ao Pleistoceno, alguns f√≥sseis raros) e os f√≥sseis de relev√Ęncia cient√≠fica (poss√≠veis novos t√°xons, etc.) resgatados para uma institui√ß√£o competente de pesquisa, ou ent√£o devidamente curados, para garantir a sua preserva√ß√£o a longo prazo. No √ļltimo caso, que seja garantida pelo menos a sua exposi√ß√£o ao p√ļblico (como deseja o senhor), para que n√£o se tornem pe√ßas de absoluto in√ļteis. Assim, pelo menos, mesmo como f√≥sseis vazios, sacrificados pela vaidade e/ou ego√≠smo humano (ainda que na sua mais ing√™nua inten√ß√£o), eles poderiam servir ao nobre prop√≥sito de instruir a popula√ß√£o sobre a import√Ęncia dos f√≥sseis e como dever√≠amos tratar o nosso patrim√īnio fossil√≠fero. Um sacrif√≠cio que se faz com uns, mas √© para salvar outros mais.

E você, qual a sua opinião?

Município de Coração de Jesus, uma experiência além do tempo

Ol√° a todos! Seguindo a vertente de postagens relacionadas √†¬†divulga√ß√£o cient√≠fica e sua import√Ęncia, temos aqui outra narrativa¬†acerca da divulga√ß√£o da descoberta do¬†Tapuiasaurus macedoi em sua cidade natal, o munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus! Este texto, redigido pelo Me. Natan Santos Brilhante, traz uma perspectiva complementar √† postagem pr√©via sobre o assunto (veja aqui). Espero que gostem!


Sob a mira de olhares curiosos e intrigados, forasteiros em um ve√≠culo branco com logotipo (representado pela silhueta de um Tamandu√°-bandeira) de uma institui√ß√£o p√ļblica conduziram diversas expedi√ß√Ķes de coleta de f√≥sseis no norte do estado de Minas Gerais. Os trabalhos na regi√£o duraram v√°rios anos, mais precisamente de 2005 at√© 2012. Entretanto, na perspectiva dos habitantes, quais seriam os motivos que trariam por tanto tempo pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo (MZUSP)1 para uma cidade modesta e long√≠nqua?

01 - Natan
Veículo oficial do MZUSP no afloramento. Fonte: Natan Santos Brilhante

Logo MZUSP Atualizado
Logo em evidência, o mesmo visto na porta dianteira do veículo oficial do MZUSP. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Talvez o município de Coração de Jesus seja considerado simples em comparação com as grandes metrópoles brasileiras. Contudo, é uma cidade extremamente rica em cultura, hospitalidade e vivacidade. Em meio a toda a sua diversidade, nunca faltaram pessoas com disposição e prontidão em ajudar, seja para desatolar o veículo quando este enfrentou chuvas torrenciais nas estradas de barro do município, ou para servir com capricho uma boa refeição para toda a equipe depois de um dia exaustivo de trabalho.
 
Outras situa√ß√Ķes inusitadas fazem parte das boas lembran√ßas, e ocupam as p√°ginas do di√°rio de campo, como o deslocamento de um bloco de grandes dimens√Ķes e peso, localizado em √°rea de dif√≠cil acesso. Esse material s√≥ p√īde ser transportado para o alto do barranco gra√ßas ao aux√≠lio de um ‚Äúcarro de boi‚ÄĚ , gentilmente disponibilizado por Jos√© Ad√£o Pereira de Souza, o ‚ÄúZezinho‚ÄĚ, respons√°vel pela descoberta dos primeiros ossos fossilizados expostos na regi√£o por a√ß√£o do intemperismo*.
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‚ÄúCarro de boi‚ÄĚ, comumente usado para auxiliar em atividades de zonas rurais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Moradores do município de Coração de Jesus ajudando a equipe de pesquisa do MZUSP a transportar os materiais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Fragmentos de ossos fossilizados (esbranquiçados) aflorando em meio aos sedimentos por ação do intemperismo. Fonte: Natan Santos Brilhante

E o que falar da amizade do Sr. Israel Cruz e da Sra. Marylene Ferreira que abriram as porteiras da Fazenda Santa Tereza para os pesquisadores trabalharem e que, no entardecer, os acolhia com tanto carinho em sua casa para oferecer um bolo caseiro acompanhado de suco de coquinho azedo***. Vale lembrar ainda do Sr. Amilcar, que nos recebeu em sua resid√™ncia semelhante a uma ‚Äúcasa de taipa‚ÄĚ, a alguns quil√īmetros dos afloramentos. Sua atitude cordial possibilitou o abastecimento de √°gua para as etapas de coleta, resguardando o uso de recurso pot√°vel destinado ao nosso consumo e, consequentemente, evitando a nossa desidrata√ß√£o diante do sol forte e de temperaturas com m√©dias di√°rias acima dos 40 graus (na sombra). Curiosamente, ele sempre lembrava com precis√£o o nome de integrantes da equipe que por l√° passaram h√° anos (mem√≥ria invej√°vel para qualquer taxonomista, n√£o?!).
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Um dos pontos de coleta de fósseis nos domínios da Fazenda Santa Tereza. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Estes foram apenas alguns dos eventos e personagens que fizeram parte das muitas histórias de bastidores que ocorreram durante os trabalhos de campo.
Tal empenho e esfor√ßo renderam frutos, ou melhor… f√≥sseis, de dinossauros saur√≥podes e ter√≥podes, que foram (e continuam sendo) dedicadamente estudados por pesquisadores nacionais e internacionais. Entre as descobertas mais emblem√°ticas est√° a esp√©cie Tapuiasaurus macedoi, a partir de um exemplar que det√©m o mais bem preservado cr√Ęnio de titanossauro da Am√©rica do Sul. Essa descoberta recebeu destaque na comunidade cient√≠fica e na m√≠dia por meio da publica√ß√£o de um artigo na PLoS ONE4 em 2011 e, mais recentemente, na Zoological Journal of the Linnean Society5 em 2016.
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Coleta de fósseis de dinossauros nos arredores do município de Coração de Jesus. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Equipe de pesquisa do MZUSP protegendo e preparando a retirada dos fósseis no afloramento para serem transportados. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Cr√Ęnio do esp√©cime MZSP-PV 807 (Tapuiasaurus macedoi). A barra de escala representa 10 cm. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Infelizmente, nem sempre cabem agradecimentos em uma revista cient√≠fica a cada pessoa que, direta ou indiretamente, colaborou com o desenvolvimento da pesquisa. Eventualmente, estas ser√£o retratadas em outros meios de comunica√ß√£o, como internet, jornais e r√°dio. Outra quest√£o recorrente √© a falta de acesso e de linguagem adequada a este tipo de conte√ļdo por p√ļblico o qual a vida acad√™mica n√£o faz parte da sua realidade.
Ent√£o, como retribuir o apoio t√£o caloroso? Como mostrar √† popula√ß√£o a import√Ęncia e a seriedade do que est√° sendo realizado nos arredores da sua cidade? Ou o porqu√™ de estar sendo realizado. Como resposta, cito a seguir alguns dos trabalhos promovidos por alunos, funcion√°rios e professores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo, em parceria com o Museu de Ci√™ncias da USP – Pr√≥-Reitoria de Cultura e Extens√£o Universit√°ria2 e o Instituto Butantan3.
As atividades contaram também com o apoio da Prefeitura local e ocorreram a partir de duas frentes principais:
(1) Montagem da exposi√ß√£o itinerante ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ
Abordou tem√°ticas como Paleontologia, Evolu√ß√£o e Din√Ęmica da Terra, e foi uma remontagem (e recontextualiza√ß√£o) de uma exposi√ß√£o com o mesmo t√≠tulo, montada para o Museu de Zoologia da USP, em 2011.
A exposi√ß√£o permaneceu aberta de ter√ßa-feira a domingo, durante todo o dia, entre os meses de maio e agosto de 2012. Adentro, o p√ļblico p√īde contemplar f√≥sseis originais e r√©plicas de diferentes regi√Ķes e contextos geol√≥gicos, assim como dioramas, v√≠deos informativos e ‚Äúpaleoarte‚ÄĚ. Entre os v√≠deos, destaca-se um feito com os depoimentos de algumas pessoas da cidade, sobre suas impress√Ķes ou sua participa√ß√£o na descoberta dos f√≥sseis.
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Vista geral da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

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Painel com informes e material a respeito do vasto universo da Paleontologia. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Ap√≥s poucos dias de abertura, a exposi√ß√£o j√° havia recebido milhares de visitantes, alcan√ßando n√£o apenas os Corjesuenses, mas tamb√©m cidad√£os de munic√≠pios pr√≥ximos e de outros estados . Para se ter ideia em n√ļmeros, a exposi√ß√£o foi visitada por mais de 9 mil pessoas, em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes!
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Dia de visita. Intera√ß√£o entre o p√ļblico e a exposi√ß√£o. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Acreditamos que este tipo de realiza√ß√£o estimule uma pr√°tica de grande import√Ęncia para a regi√£o: o turismo. Afinal, a rotatividade intensa de pessoas pode ser uma importante fonte para a economia regional, uma vez que a cidade est√° distante de grandes centros urbanos e o com√©rcio se restringe basicamente aos seus pr√≥prios habitantes.
(2) Projeto de extens√£o ‚ÄúPaleontologia sob a perspectiva da Educa√ß√£o Patrimonial: aproximando os f√≥sseis da popula√ß√£o de Cora√ß√£o de Jesus‚ÄĚ
Foi de car√°ter educativo e teve o intuito de permitir o reconhecimento do patrim√īnio fossil√≠fero da regi√£o, assim como apresentar quest√Ķes cient√≠ficas relacionadas √† Paleontologia, relev√Ęncia desta ci√™ncia para o mundo e valor do Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico. Foram efetivadas as seguintes atividades:
I. Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores – visou um melhor entendimento do patrim√īnio fossil√≠fero regional e do conte√ļdo da exposi√ß√£o itinerante por parte de professores, de modo que eles pudessem promover visitas direcionadas com seus alunos, utilizando ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial e o conhecimento obtido a partir de estudos regionais. Esse evento ocorreu em mar√ßo de 2012, teve dura√ß√£o de uma semana (40 horas) e contou com a participa√ß√£o de 118 professores e funcion√°rios de escolas p√ļblicas estaduais e municipais, tanto de √°reas urbanas quanto rurais, divididos em duas turmas.
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Curso sendo ministrado para a formação continuada de professores. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

II. Oficinas nas escolas – promoveu monitorias e oficinas para desenvolver dobraduras e desenhos relacionados √† Paleontologia, assim como o contato com f√≥sseis e r√©plicas. Essa etapa incluiu tamb√©m a iniciativa ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ, promovendo o di√°logo direto entre alunos das escolas e profissionais e estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o em Paleontologia para discutir e esclarecer d√ļvidas a respeito da atua√ß√£o do paleont√≥logo e a relev√Ęncia da sua √°rea de estudo. Participaram mais de 600 alunos de 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), em maio de 2012.
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Colaboradores do Laborat√≥rio de Paleontologia do MZUSP em di√°logo aberto com alunos de escolas p√ļblicas. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

III. Forma√ß√£o de Monitores – prestou treinamento t√©cnico para o atendimento ao p√ļblico na exposi√ß√£o citada acima, de maio a julho de 2012. Os mediadores eram alunos do Ensino M√©dio, selecionados a partir de uma parceira junto √†s escolas. O curso abordou conceitos relacionados √† Museologia, Paleontologia e Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico, totalizando 24 horas.
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Monitores atendendo o p√ļblico na exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

IV. Curso de Extens√£o Universit√°ria – foi ministrado para 16 graduandos em agosto de 2012. Para transmitir ideias gerais sobre o que √© a Paleontologia, a sua import√Ęncia, e o qu√£o promissoras s√£o as descobertas regionais.
Foram desenvolvidos tamb√©m diversos materiais did√°ticos para complementar, ilustrar e relembrar muitas das informa√ß√Ķes transmitidas em sala de aula pelos colaboradores do projeto educativo, como o livreto ‚ÄúCabe√ßa DINOSSAURO – o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ.
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Material educativo. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Al√©m dessas pr√°ticas, foram tamb√©m doadas r√©plicas do ‚Äútapuiassauro‚ÄĚ para o Centro Cultural Jos√© Alves Macedo, um n√ļcleo hist√≥rico-cultural sediado na pra√ßa central da cidade. Essa institui√ß√£o foi fundada e √© administrada por Ubirajara Alves Macedo, personagem folcl√≥rico e um tanto exc√™ntrico da regi√£o, que foi homenageado pela sua colabora√ß√£o na descoberta e na divulga√ß√£o inicial dos f√≥sseis com o sobrenome da sua fam√≠lia posto no ep√≠teto espec√≠fico da esp√©cie supracitada (Tapuiasaurus macedoi).
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A pra√ßa central da cidade pode ser facilmente reconhecida pela presen√ßa de uma ic√īnica est√°tua, Sagrado Cora√ß√£o de Jesus, que remete ao nome herdado pelo munic√≠pio. Fonte: Natan Santos Brilhante

Por meio dessas a√ß√Ķes de ensino e divulga√ß√£o, foi poss√≠vel mostrar √† popula√ß√£o da cidade de Cora√ß√£o de Jesus a import√Ęncia dos trabalhos paleontol√≥gicos, conscientizando e educando os moradores em como proceder diante de novas descobertas, valorizando assim os ideais de preserva√ß√£o e valoriza√ß√£o do patrim√īnio geopaleontol√≥gico. Esperamos com isso resgatar n√£o somente o patrim√īnio fossil√≠fero, mas tamb√©m, com empenho, incentivar as futuras gera√ß√Ķes de paleont√≥logos(as) e demais entusiastas da ci√™ncia.
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Monitores transmitindo conhecimento aos visitantes da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

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Alunos de escolas p√ļblicas do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus durante uma visita √† exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Nota-se a curiosidade e o entusiasmo em suas express√Ķes faciais ao bordarem a tem√°tica Paleontologia. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

* A história mais completa sobre a descoberta dos fósseis no município de Coração de Jesus foi relatada em uma matéria do Estadão, um jornal do estado de São Paulo, o qual, na época (2010), dedicou um caderno especial a essa temática. A reportagem contou também com uma série de entrevistas de alguns dos moradores e dos pesquisadores que estiveram à frente das descobertas na região.
*** Coquinho azedo (Butia capitata): planta típica do cerrado rica em vitamina A, C e potássio.
 
Endere√ßo eletr√īnico de algumas das reportagens sobre o assunto:
I. http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,um-dinossauro-no-coracao-de-jesus,609332
II. http://topicos.estadao.com.br/tapuiassauro
III. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-o-trabalho-dos-paleontologos,242506
IV. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-entrevista-com-alberto-carvalho,244709
Endere√ßo eletr√īnico das institui√ß√Ķes mencionadas:
1 – http://www.mz.usp.br
2 – http://biton.uspnet.usp.br/mc/
3 – http://www.butantan.gov.br
Endere√ßo eletr√īnico dos¬†artigos cient√≠ficos a respeito do Tapuiasaurus:
4 – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0016663
5 – http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zoj.12420/abstract


Natan Santos Brilhante

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Formação acadêmica: Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Grande ABC, Licenciatura Plena e Bacharelado; Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Experi√™ncia profissional: elabora√ß√£o e execu√ß√£o de exposi√ß√Ķes, treinamento e medeio de monitores, atendimento ao p√ļblico, expedi√ß√Ķes de campo (paleontologia e herpetologia) e outros trabalhos t√©cnicos devido a sua colabora√ß√£o junto ao Laborat√≥rio de Paleontologia e √† Museologia do Museu de Zoologia da USP, de 2008 a 2013. Ap√≥s esse per√≠odo, ingressou no Museu Nacional/UFRJ e, desde ent√£o, segue como colaborador no Setor de Paleovertebrados do Departamento de Geologia e Paleontologia.
√Ārea de estudo: Zoologia, com √™nfase em Paleontologia de Vertebrados. Atua principalmente nos seguintes temas: Taxonomia de arcossauros f√≥sseis e recentes, curadoria de cole√ß√Ķes, coleta e prepara√ß√£o de f√≥sseis de vertebrados.

Com um frango no quintal

Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar √© a de divulgar a ci√™ncia, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulga√ß√£o cientifica possibilita a aproxima√ß√£o de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que √© o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulga√ß√£o os pesquisadores nutrem a esperan√ßa de que pelo menos partes do conhecimento cientifico comece a integrar o conhecimento popular (e.g., teoria da gravidade, relatividade, alguns fatos sobre dinosauros, etc). A divulga√ß√£o cientifica feita pelos pr√≥prios cientistas √© relativamente rara e no m√≠nimo controversa, visto que pesquisadores divulgadores s√£o vistos como “estranhos no ninho” por seus pares (ver postagem). No entanto, cada vez mais os org√£os de fomento brasileiros est√£o reconhecendo a import√Ęncia de divulgar os resultados das pesquisas por eles financiadas. Portanto, vem ¬†se tornando cada vez mais comum a necessidade de direcionar parte do recurso solicitado, via projeto a um destes org√£os, a divulga√ß√£o direta de seus resultados.
Com o intuito de ilustrar a import√Ęncia da divulga√ß√£o da ci√™ncia para a comunidade n√£o-cientifica trago os relatos de dois pesquisadores que estiveram envolvidos no projeto de divulga√ß√£o do Tapuiasaurus realizado em sua “cidade natal”, Cora√ß√£o de Jesus.
Esta primeira postagem foi feita pela doutoranda Mariana Galera Soler e a segunda postagem será uma contribuição do doutorando Natan Santos Brilhante.
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A divulga√ß√£o da ci√™ncia n√£o √© uma novidade da nossa sociedade. Desde o s√©culo XVIII h√° extensos registros de a√ß√Ķes de profissionais e amadores da ci√™ncia buscando apresentar os seus resultados para plateias, muitas vezes selecionadas. Longe de ser uma a√ß√£o altru√≠sta, o processo de comunica√ß√£o dos resultados de uma pesquisa √© fundamental para a valida√ß√£o desta pesquisa pelo p√ļblico que, em √ļltima inst√Ęncia, atende fun√ß√Ķes econ√īmicas (financiamento p√ļblico e privado) e profissionais (forma√ß√£o de novos profissionais e apoio social √† pesquisa).
J√° na contemporaneidade, a partir da d√©cada de 1970 houve um forte movimento intitulado public undestanding of science, que tem resultado nas a√ß√Ķes de divulga√ß√£o que conhecemos atualmente, como centros de ci√™ncia mega-interativos, clubes de ci√™ncias, jogos, livros, filmes etc. Neste per√≠odo a divulga√ß√£o cient√≠fica passou a ter um car√°ter de essencialmente educativo. Fala-se no meio acad√™mico em letramento cient√≠fico ou alfabetiza√ß√£o cient√≠fica, ou seja, informar as pessoas de modo que elas possam tomar suas decis√Ķes de acordo com os conceitos cient√≠ficos vigentes. Em uma sociedade imersa em ci√™ncia e tecnologia, como vivemos atualmente, parece um discurso coerente.
No entanto, ao mesmo tempo que falamos em sociedade do conhecimento, hiperconectividade, redes sociais, ao abrirmos os jornais nos deparamos com uma chamada ‚Äúcrise dos direitos humanos‚ÄĚ, novos muros estabelecendo fronteiras f√≠sicas, al√©m dos ‚Äúfatos alternativos‚ÄĚ e da pseudoci√™ncia. Conhecemos o corpo humano e o universo em um n√≠vel de detalhamento que era impens√°vel no s√©culo XIX, mas questionamos a ci√™ncia que nos deu acesso a estas informa√ß√Ķes de uma forma que jamais pens√°vamos no p√≥s-guerra.

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‚ÄúVivemos em uma sociedade extremamente dependente de ci√™ncia e tecnologia, em que quase ningu√©m sabe nada de ci√™ncia e tecnologia‚ÄĚ ‚Äď Carl Sagan. Fonte da imagem: http://bigthink.com/words-of-wisdom/carl-sagan-on-science-and-technology

 
Ent√£o, p√Ķe-se em quest√£o: como falar de ci√™ncia para p√ļblicos que interessados em likes no Instagram?
Atualmente falar de ci√™ncia parece cool, ent√£o vou focar em exemplos da Paleontologia. Desenhos de dinossauros estampam camisetas e geralmente grandes bilheterias no cinema. Mas, o que √© mesmo um f√≥ssil? Um dinossauro √© t√£o antigo quando meu tatarav√ī? Eu posso ter um f√≥ssil em casa? Quando Pedro Alvares Cabral chegou no Brasil ainda existiam pregui√ßas gigantes?
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‚ÄúEm minhas veias corre o sangue dos Dinossauros. Dos dinossauros eu te digo!‚ÄĚ. Um dos meus memes favoritos sobre dinossauros! Por que divulga√ß√£o cient√≠fica tamb√©m pode ser feita com likes e curtidas. Fonte: http://www.ifunny.com/pictures/veins-flows-blood-dinosaurs/

Estas quest√Ķes podem parecer bobas para quem √© da √°rea, mas n√£o s√£o triviais para a maioria das pessoas. No contexto mais √≥bvio, o escolar, embora sejam assuntos apontados nos par√Ęmetros curriculares de todos os n√≠veis da Educa√ß√£o B√°sica brasileira, s√£o temas pouco explorados pelos livros did√°ticos e na forma√ß√£o dos profissionais da Educa√ß√£o, de forma que a informa√ß√£o sobre paleontologia n√£o est√° evidente e os conte√ļdos paleontol√≥gicos aparecem dispersos nos curr√≠culos escolares, quando aparecem.
Espa√ßos para aprender sobre Paleontologia no Brasil tamb√©m s√£o escassos. Por exemplo, em todo o estado de S√£o Paulo h√° menos de uma dezena de museus que possuem f√≥sseis em exposi√ß√£o. H√° tamb√©m alguns centros de ci√™ncia, como o Catavento Cultural (em S√£o Paulo/SP), Sabina ‚Äď Parque Escola do Conhecimento (Santo Andr√©/SP) ou o Museu de Ci√™ncia e Tecnologia da PUCRS (Rio Grande do Sul / RS), mas dada as dimens√Ķes brasileiras ainda s√£o a√ß√Ķes esparsas. O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ) √© uma institui√ß√£o diferenciada neste aspecto, dado ao espa√ßo oferecido a uma exposi√ß√£o permanente sobre as diferentes faunas paleontol√≥gicas brasileiras, como tamb√©m por a√ß√Ķes educativas desenvolvidas pela equipe e alunos do museu.
Estas s√£o a√ß√Ķes pontuais e, geralmente, circunscritas a capitais e regi√Ķes de grande circula√ß√£o de pessoas. No entanto, quem usa t-shirt com a estampa do ‚ÄúT-rex‚ÄĚ, em geral, tem acesso a um museu ou a internet e pode descobrir mais facilmente que aquele personagem t√£o bravo do ‚ÄúJurassic Park‚ÄĚ n√£o passa de um frang√£o desengon√ßado e carniceiro. Voltando a sociedade hiperconectada, a informa√ß√£o paleontol√≥gica nas redes sociais est√° dispon√≠vel, e √© poss√≠vel dar likes no Instagram de diversos museus, seguir canais no Youtube de divulgadores cient√≠ficos. O desafio √© descobrir onde est√° a informa√ß√£o qualificada sobre a Paleontologia. E, neste sentido, as institui√ß√Ķes e os termos ‚Äúestudos comprovam‚ÄĚ apresentam um peso de qualificadores.
No entanto, esta √© uma quest√£o j√° bem explorada por outros textos. Gostaria aqui de discutir uma outra situa√ß√£o: como nos comunicar com quem encontra f√≥sseis nos seus quintais? Com quem est√° a margem destas grandes institui√ß√Ķes, cuja ci√™ncia se aprende tanto na pr√°tica cotidiana quanto na escola. Como falar em tempo geol√≥gico, para aqueles que contam os per√≠odos do ano entre as √©pocas de chuva e seca?
Para esta quest√£o, trago um outro referencial que ainda √© pouco explorado na Paleontologia brasileira, que √© o conceito do f√≥ssil como um patrim√īnio. Embora legalmente reconhecido como tal desde a d√©cada de 1940, e esta ser uma legisla√ß√£o bastante conhecida pelos paleont√≥logos, a dimens√£o cultural dos f√≥sseis ainda √© pouco explorada nas a√ß√Ķes educativas.
Entender o f√≥ssil como um patrim√īnio natural, implica em contextualizar estes materiais por meio de uma linguagem clara e objetiva, buscando estabelecer rela√ß√Ķes entre as popula√ß√Ķes locais onde os f√≥sseis foram encontrados e as equipes que pesquisam. Para al√©m quest√Ķes biol√≥gicas e geol√≥gicas diretamente relacionas aos f√≥sseis, a utiliza√ß√£o do referencial da educa√ß√£o patrimonial em Paleontologia fornece subs√≠dios para que esses materiais fa√ßam parte da identidade local e sejam entendidos como um patrim√īnio natural a ser preservado. Para que sejam efetivas estas pr√°ticas, ou seja, para que a popula√ß√£o local seja agente na conserva√ß√£o de s√≠tios paleontol√≥gicos e tamb√©m possam compartilhar seu conhecimento, at√© mesmo indicando novos afloramentos, abrindo suas casas e propriedades ou hist√≥ricos da regi√£o, √© fundamental que as a√ß√Ķes atendam as demandas espec√≠ficas dos grupos locais.
N√£o h√° apostilas ou f√≥rmulas. H√° estudos de caso que demonstram que a parceria entre popula√ß√Ķes locais e paleont√≥logos podem ser frut√≠feras para ambos. Um exemplo ocorreu no ano de 2012, no munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus (MG). Nesta localidade foram encontrados f√≥sseis de dinossauros ter√≥podes e saur√≥podes da Bacia S√£o-franciscana que datam do Per√≠odo Cret√°ceo Inferior, com idades em torno de 120 milh√Ķes de anos. Esta regi√£o tem sido objeto de estudo da equipe de paleontologia do Museu de Zoologia da USP (SP), desde 2005.
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Em destaque, município de Coração de Jesus, no norte do estado de Minas Gerais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cora%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_(Minas_Gerais)

De forma que, passados sete anos em que a popula√ß√£o local convivia com a chegada de uma pick-up branca com emblema de uma universidade de outro estado, pessoas estranhas saiam cedo, iam para a √°rea rural do munic√≠pio e voltavam sujos de terra e com o carro cheios de rochas cobertas por gesso, muitas hist√≥rias foram criadas e situa√ß√Ķes com a equipe. Dizia-se de tudo um pouco: havia um tal dinossauro na cidade, que foi vendido para os EUA h√° centenas de milhares de reais, os donos das terras onde os f√≥sseis foram encontrados ganharam dinheiro e as equipes de paleont√≥logos eram apelidados de ‚Äúosseiros‚ÄĚ.¬† Depois de tanto tempo sem entender bem o que estava acontecendo, as rela√ß√Ķes entre a popula√ß√£o e a equipe come√ßaram a se tornar mais dif√≠ceis, ao ponto do prefeito da √©poca ligar para o Museu de Zoologia e pedir explica√ß√Ķes.
Bem, tais explica√ß√Ķes vieram na forma de um projeto educativo e uma exposi√ß√£o itinerante. Como n√£o era poss√≠vel levar e fazer uma montagem do f√≥ssil original, foi montada a exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, ao redor da r√©plica completa do dinossauro Tapuiassaurus macedoi. As a√ß√Ķes educativas seguiram quatro linhas: (i) Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores, em que os conhecimentos gerados a partir dos estudos na regi√£o foram compartilhados com professores; tamb√©m foram abordadas ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial, para que os professores e alunos pudessem explorar a exposi√ß√£o e o patrim√īnio fossil√≠fero regional. Participaram 118 professores e funcion√°rios das escolas p√ļblicas estaduais e municipais, urbanas e rurais. (ii) Oficinas nas escolas, que discutiram o trabalho do paleont√≥logo, por meio de desenhos, dobraduras, intera√ß√£o com r√©plicas e f√≥sseis e roda de conversa entre alunos e profissionais, intitulada ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ. Em maio de 2012, foram realizadas oficinas para 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), envolvendo mais de 600 alunos. (iii) Forma√ß√£o de Monitores, como parte da parceria com as escolas, em que foram escolhidos 20 alunos do Ensino M√©dio os quais atuaram como mediadores na exposi√ß√£o entre os meses de maio e julho de 2012. Estes alunos realizaram um curso de forma√ß√£o (dura√ß√£o de 24 horas), em que se discutiram conceitos relacionados √† Paleontologia, museus e patrim√īnio geopaleontol√≥gico. E, (iv) Curso de Extens√£o Universit√°ria, abordando aspectos gerais da Paleontologia e ratificando a import√Ęncia cient√≠fica das descobertas regionais. Participaram do curso 16 estudantes, em agosto de 2012.
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Exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo¬†tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante, em Cora√ß√£o de Jesus (MG), maio de 2012. Na foto, um grupo de estudantes da cidade √© atendido na exposi√ß√£o por dois monitores (tamb√©m estudantes da cidade que participaram do projeto educativo). Foto: Mariana Galera Soler

 
Durante todo este projeto, que durou cerca de 6 meses, os ‚Äúosseiros‚ÄĚ acabaram sendo pessoas conhecidas na cidade. Quando sa√≠amos nas ruas (e aqui me incluo, pois fui coordenadora deste projeto e tamb√©m uma das ‚Äúosseiras‚ÄĚ que estava na coleta dos f√≥sseis) √©ramos convidados para entrar nas casas, conversar com as pessoas sobre o tal dinossauro. De elementos estranhos, passamos a fazer parte da hist√≥ria daquele local, materializado na forma do ‚Äútal dinossauro‚ÄĚ entrar nas propostas de letra para um novo hino da cidade ou da ‚Äúexplica√ß√£o‚ÄĚ de uma lenda local***.
De porteiras fechadas nas regi√Ķes dos afloramentos, fomos recebidos com caf√© e biscoito de toalha e conhecemos uma Cora√ß√£o de Jesus absolutamente nova para n√≥s. Os resultados n√£o foram ‚Äúapenas‚ÄĚ a divulga√ß√£o dos resultados da pesquisa paleontol√≥gica, as pessoas de Cora√ß√£o de Jesus sabiam nossos nomes e se interessavam pelo nosso trabalho, j√° n√£o √©ramos mais os ‚Äúosseiros‚ÄĚ. E de muitas hist√≥rias que podem ser contadas, uma frase de um professor no √ļltimo dia do curso registrou fundamentalmente esta parceria: ‚ÄúObrigado por ter nos ajudado a descobrir que a nossa cidade √© mais importante do que parece‚ÄĚ.
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Nas visitas as escolas realizávamos diferentes oficinas, entre elas a construção de dinossauros de origamis. Na imagem, um dos alunos das escolas rurais de Coração de Jesus (MG) com seus dinossauros. Foto: Mariana Galera Soler

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Exposi√ß√£o de trabalhos dos alunos em escola rural do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus. A atividade de ‚Äúcriar f√≥sseis‚ÄĚ com a impress√£o de folhas em argila foi uma das oficinas propostas para os professores durante o curso. Ao fundo, algumas reconstitui√ß√Ķes dos animais extintos encontrados na regi√£o, tamb√©m feitas em argila por alunos. Foto: Mariana Galera Soler

Este √© apenas um caso, mas existem outros. Embora escassos, projetos focados em popula√ß√Ķes locais e tratando os f√≥sseis como um patrim√īnio e em parceria com as pessoas s√£o um caminho poss√≠vel para al√©m da divulga√ß√£o da ci√™ncia mais √≥bvia, cheia de f√≥rmulas prontas e high tech de comunicar uma ci√™ncia neutra e fechada em si, tratando os f√≥sseis como todos sendo um dinossauro sem penas que corre como um guepardo. Projetos locais e contextualizados s√£o um caminho para a preserva√ß√£o do patrim√≥nio fossil√≠fero in situ e para que a ci√™ncia n√£o seja apenas um conjunto de resultados empilhados, ass√©pticos e descontextualizados, e produzida por homens brancos, de meia idade e jaleco branco (eventualmente, com a l√≠ngua de fora).
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Não basta ser monitor tem que participar! Alunos do Ensino Médio foram indicados por seus professores para atuar como monitores na exposição. Para tanto participaram de um curso sobre Paleontologia e também de diversas atividades práticas, entre elas ajudar na montagem da própria exposição. Foto: Marcia Fernades Lourenço

 
*** Cora√ß√£o de Jesus teve nos anos 1960 ‚Äď 70 certa notoriedade na regi√£o e grandes investimentos p√ļblicos que geraram, por exemplo, a constru√ß√£o de um espa√ßo esportivo e complexo de piscinas bem estruturados. Contudo, esse projeto foi abandonado e o munic√≠pio voltou a ser apenas mais um dos pequenos lugares na borda do Vale do Jequitinhonha. Para explicar esta ‚Äúperda de status‚ÄĚ, os mais velhos costumavam dizer que no passado algu√©m havia enterrado a cabe√ßa de um burro na cidade e por isso ela n√£o ‚Äúia para frente‚ÄĚ. Com a descoberta do cr√Ęnio (‚Äúcabe√ßa‚ÄĚ) de um dinossauro (bicho antigo que viveu h√° muito tempo), diversas pessoas relacionaram o f√≥ssil a ‚Äúcabe√ßa do burro‚ÄĚ e viram nesta descoberta a chance da cidade voltar a progredir.


Mariana Galera Soler

Forma√ß√£o: Bi√≥18109741_1315265438526683_809310084_nloga pela Faculdade de Filosofia Ci√™ncias e Letras de Ribeir√£o Preto (USP/RP) e Mestre em Museologia pela USP/SP. Estudante de doutorado em Hist√≥ria e Filosofia da Ci√™ncia, com especializa√ß√£o em Museologia pela Universidade de √Čvora / Portugal.
√Ārea de estudo: comunica√ß√£o e divulga√ß√£o cient√≠fica; museus de hist√≥ria natural; exposi√ß√Ķes e cole√ß√Ķes cient√≠ficas.
 Mas onde entra Paleontologia em tudo isso? Desde a graduação trabalhei o Laboratório de Paleontologia da USP Ribeirão Preto. Depois fui ao Museu de Zoologia da USP / São Paulo, onde trabalhei na curadoria da coleção paleontológica, além de participar de outras atividades do Laboratório de Paleontologia.
Bem tudo isso j√° faz algum tempo! Tamb√©m j√° fui professora de biologia e ci√™ncias e, nos √ļltimos seis anos, atuei na coordena√ß√£o do setor educativo do Museu Biol√≥gico do Instituto Butantan. O que n√£o quer dizer que eu deixei a Paleontologia de lado. Continuo trabalhando no gerenciamento da base de dados paleontol√≥gicos brasileira LUND (www.lund.fc.unesp.br/lund) e atuei em alguns trabalhos de divulga√ß√£o e exposi√ß√Ķes paleontol√≥gicas, em que uma das hist√≥rias conto aqui nesse texto.
 

She sells seashells on the seashore – Mary Anning, a Colecionadora de Ossos

Ol√° a todos, hoje 08/03/2017, se comemora o dia internacional da mulher. Uma data criada para concientizar e proporcionar uma concientiza√ß√£o da import√Ęncia do Homo sapiens do sexo feminino (sim… mulheres e homens s√£o da mesma esp√©cie, ao contr√°rio do que certos pesquisadores dizem por ai…) em nossa sociedade. Nada melhor para comemorar esse dia do que relambrarmos um pouco sobre um grande paleontologa que sofreu muito por causa de sua religi√£o, condi√ß√£o financeira e sexo. Estou falando de¬†Mary Anning! O texto abaixo, escrito pelo estimado Giovanne Mendes Cidade (e uma vers√£o deste texto j√° foi publicada no finado blog do Grupo Fossilis), retrata um pouco sobre a hist√≥ria e contribui√ß√Ķes dessa valorosa mulher. Espero que gostem!


Uma pessoa que nasceu numa família pobre do interior, recebeu pouca educação formal e teve que trabalhar desde criança para ajudar a sustentar a família. Este certamente não é o perfil da maioria dos paleontológos, ou mesmo dos cientistas em geral que nós conhecemos. Quando se acrescenta que a pessoa em questão era uma mulher, e que viveu na Inglaterra do século XIX, tudo parece ainda mais estranho. E quando, ainda por cima, ficamos sabendo que os achados dela representam alguns dos mais importantes de todos os tempos para a Paleontologia, isso começa a parecer incrível.
E quando percebemos que, apesar de toda essa hist√≥ria fant√°stica, muitas pessoas que atuam na √°rea podem nunca ter ouvido falar da pessoa em quest√£o… a√≠, sim, tudo parece inacredit√°vel.

Figura 1
Figura 1: Mary Anning com seu cachorro, Tray, nos afloramentos de Lyme Regis, Inglaterra (pintura de cerca de 1842)

A pessoa em quest√£o √© Mary Anning (1799-1847), considerada por alguns a ‚Äúmaior coletora de f√≥sseis que o mundo j√° conheceu‚ÄĚ. Nascida na pequena cidade da Lyme Regis, no litoral sul da Inglaterra, Mary Anning era filha de um carpinteiro chamado Richard, que teve dez filhos ‚Äď embora apenas a pr√≥pria Mary e um irm√£o, Joseph, sobreviveram at√© a idade adulta. A fam√≠lia era pobre, e para piorar as coisas a Inglaterra n√£o vivia os seus melhores dias na √©poca. No entanto, a fam√≠lia de Anning tinha um pouco de sorte: a cidade em que viviam, Lyme Regis, era (e ainda √©) uma regi√£o rica em f√≥sseis. L√°, a Forma√ß√£o Blue Lias, datada do Jur√°ssico, aflora em cost√Ķes rochosos ao redor da cidade, especialmente perto da praia, com seu sedimento formado principalmente por calc√°rio e folhelho. No s√©culo XVIII, a regi√£o se tornou um grande destino tur√≠stico e, de quebra, os f√≥sseis que apareciam na regi√£o come√ßaram a ser explorados em grande escala. Essa explora√ß√£o, no entanto, era feita principalmente por habitantes da pr√≥pria regi√£o que coletavam os f√≥sseis para vend√™-los. A princ√≠pio, os f√≥sseis eram vendidos apenas como curiosidades para os turistas; depois, enquanto a geologia e a paleontologia iam se consolidando como ci√™ncias, j√° no s√©culo XIX, eles passaram a atrair o interesse dos nobres da √©poca que atuavam como pesquisadores.
Assim, o pai de Mary, Richard, atuou como coletor e vendedor de f√≥sseis para aumentar a renda da fam√≠lia, e ensinou a pr√°tica aos filhos. √Č claro que, nos dias de hoje, comercializar f√≥sseis √© uma pr√°tica conden√°vel; mas, vivendo em uma √©poca em que a import√Ęncia dos f√≥sseis ainda n√£o era bem conhecida ‚Äď e, sobretudo, vivendo em uma √©poca de situa√ß√£o econ√īmica ruim, sendo obrigado a ver a sua fam√≠lia com dificuldades e tendo um dos maiores dep√≥sitos de f√≥sseis do fundo dando sopa no seu quintal, com gente interessada em dar dinheiro por eles ‚Äď quem poderia culp√°-los?
No entanto, aconteceu que o pai de Mary morreu em 1800, deixando a mulher e os dois filhos; Joseph com 14 anos e Mary com 11. E é aí que a história de Mary Anning começa a ficar impressionante. Apesar da pouca idade, ela e o irmão continuaram com as atividades do pai. Só que Mary faria muita mais do que apenas coletar fósseis para vender.
Em 1811, Joseph encontrou um cr√Ęnio de um tipo que eles nunca tinham visto por ali. Meses depois, Mary encontrou todo o resto do esqueleto do mesmo animal. Eles foram vendidos a colecionador por 23 libras (cerca de 88 reais, hoje). Aqueles f√≥sseis representavam, simplesmente, um dos primeiros achados de Ictiossauros do mundo ‚Äď a esp√©cie Temnodontosaurus platyodon, descrita por Conybeare em 1822 e que continua v√°lida at√© os dias de hoje. Embora esse n√£o tenha sido exatamente o primeiro f√≥ssil do grupo a ser encontrado, o esp√©cime coletado por Joseph e Mary foi justamente o que primeiro chamou a aten√ß√£o da comunidade cient√≠fica para os Ictiossauros, que anos depois viriam a ser reconhecidos como r√©pteis aqu√°ticos.
Depois disso, Joseph se afastou um pouco da atividade de coletas de f√≥sseis, e Mary Anning se tornou praticamente a √ļnica respons√°vel pelo ‚Äúneg√≥cio da fam√≠lia‚ÄĚ por assim dizer. Nos anos que se seguiram, ela realizou descobertas ainda mais incr√≠veis, entre elas: outro esqueleto do mesmo ictiossauro, Temnodontosaurus platyodon, em 1821; um esqueleto parcial de Plesiosaurus dolichodeirus (novamente descrita por Conybeare em 1824), simplesmente o primeiro plesiossauro a ser descoberto no mundo, entre 1820 e 1821; em 1828, ela encontrou o esqueleto parcial do pterossauro Dimorphodon macronyx , o primeiro pterossauro descoberto fora da Alemanha, descrito formalmente por William Buckland em 1829; e, tamb√©m em 1829, ela encontrou um f√≥ssil de peixe do g√™nero Squaloraja, um peixe cartilaginoso descrito por Woodward apenas em 1886 com caracter√≠sticas intermedi√°rias entre tubar√Ķes e arraias, para ficar apenas nos achados que ganharam mais destaque.
Figura 2
Figura 2: Desenho e texto de Mary Anning contendo a descrição do fóssil do Plesiosaurus dolichodeirus (1823).

 
Nos invertebrados, suas contribui√ß√Ķes tamb√©m foram importantes. Nas suas investiga√ß√Ķes sobre os f√≥sseis dos moluscos belemnitas (que, junto com os amonitas, eram os f√≥sseis mais abundantes da regi√£o, e portanto os mais vendidos), Mary descobriu que alguns esp√©cimes ainda preservavam suas bolsas de tinta, mesmo depois de milh√Ķes de anos de fossiliza√ß√£o. A tinta at√© chegou a ser usada por Mary e outros como material para fazer desenhos dos f√≥sseis no papel, mas a observa√ß√£o de Mary de que as bolsas dos belemnitas eram muito parecidas com a de moluscos viventes ‚Äď especialmente as s√©pias ‚Äď indicavam que os cefal√≥podes daquela √©poca, como os de hoje, se utilizavam de eje√ß√Ķes de tinta para se defender. Foi ela tamb√©m quem primeiro desconfiou que aquelas bolas que de vez em quando apareciam nos afloramentos ‚Äď e que as pessoas chamavam de ‚Äúpedras de bezoar‚ÄĚ ‚Äď poderiam ser, na verdade, fezes fossilizadas. Em 1829, William Buckland, baseando-se entre outros fatos nas observa√ß√Ķes de Mary, batizou essas bolas de ‚Äúcopr√≥litos‚ÄĚ.
Figura 3
Figura 3: Um desenho e um texto feito por Mary Anning sobre um fóssil de Plesiossauro.

 
O exemplo acima mostra como Mary Anning realmente fez muito mais do que coletar f√≥sseis para vender. √Č claro que ela os continuava comercializando, porque, como voc√™s j√° devem percebido, apesar de todo o esfo√ßo que ela fazia, dadas as suas condi√ß√Ķes de vida, seria muito, mas muito dif√≠cil, que ela tivesse um projeto aprovado pelo CNPq para ganhar uma bolsa. Muito menos se ela o escrevesse com a tinta fossilizada dos belemnitas.
Mesmo assim, o fato √© que ela desenvolveu um real interesse pelos f√≥sseis que coletava, e mesmo sem nenhum tipo de educa√ß√£o formal em anatomia, taxonomia ou qualquer outra disciplina coisa, ela se esfor√ßou para ler toda a literatura cient√≠fica que p√īde, at√© adquirir um saber em anatomia e em geologia que apenas os gentleman riqu√≠ssimos de sua √©poca poderiam ter; al√©m disso, ela se especializou n√£o s√≥ em coletar os f√≥sseis, mas em prepar√°-los; realizava disseca√ß√Ķes de animais viventes, principalmente peixes, para comparar seu esqueleto com os f√≥sseis, e era capaz de desenhar ilustra√ß√Ķes dos f√≥sseis que coletava. Em suma, Mary Anning fazia tudo o que um bom paleont√≥logo faz hoje. Com a √ļnica diferen√ßa de que ela era uma mulher pobre e sem forma√ß√£o universit√°ria vivendo numa sociedade machista e aristocr√°tica – al√©m de pertencer a uma minoria religiosa que era perseguida pela Igreja Anglicana, os Congregacionalistas.
Isto demonstra uma das li√ß√Ķes que a hist√≥ria de Mary Anning pode nos ensinar: sobre como pode ser importante o trabalho de pessoas n√£o-acad√™micas, inclusive nos dias de hoje, no esfor√ßo de pesquisa e divulga√ß√£o cient√≠ficas.
Figura 4
Figura 4: Uma foto de uma praia de Lyme Regis nos dias atuais, mostrando uma impressão de um fóssil de Amonita em primeiro plano.

E se isso n√£o bastasse, ainda √© bom lembrar as condi√ß√Ķes do local em que Mary Anning coletava seus f√≥sseis. As coletas nos cost√Ķes rochosos de Lyme Regis eram mais produtivas durante o inverno, quando deslizamentos de terra expunham os f√≥sseis ‚Äď que tinham que ser coletados rapidamente, antes que as ondas do mar os levassem. As rochas ficavam em contato direto com o oceano, e uma onda mais forte poderia facilmente arrastar qualquer um que estivesse se esgueirando pelos penhascos. E de fato, o cachorro de Mary, Troy ‚Äď que sempre a acompanhava nas suas coletas ‚Äď infelizmente encontrou este triste destino, e sua dona quase o acompanhou na ocasi√£o. Isso certamente √© uma li√ß√£o, algo a se pensar para caras como eu, cuja maior dificuldade que j√° encontrei no campo foi sentir um pouco de calor e perceber que as nossas latas de Coca-Cola j√° tinham acabado.
Apesar de todos os seus grandes achados e de sua hist√≥ria incr√≠vel, o fato √© que hoje em dia at√© um paleont√≥logo fict√≠cio como aquele cara do Friends √© mais conhecido do p√ļblico, e provavelmente entre profissionais da √°rea, do que Mary Anning. Isso se deve, em grande parte, ao fato de Mary nunca ter publicado nenhuma de suas descobertas (a √ļnica pe√ßa que pode ser considerada como uma publica√ß√£o cient√≠fica de Mary Anning √© uma carta que ela escreveu √† revista cient√≠fica Magazine of Natural History questionando se um f√≥ssil de tubar√£o do g√™nero Hybodus, recentemente descrito naquela revista, representaria efetivamente um g√™nero novo ‚Äď veja detalhes em Emling, 2009) e, claro, de ter vendido quase todas elas aos pesquisadores. Porque, apesar de todo o interesse e dedica√ß√£o mostrados por ela, os f√≥sseis sempre lhe foram, sobretudo, aquilo que garantia o seu sustento. Por√©m, √© importante notar que a maioria dos pesquisadores que publicaram pesquisas sobre f√≥sseis encontrados por ela n√£o teve sequer a dec√™ncia de citar o seu nome em seus trabalhos. Durante a vida, Mary chegou a vender f√≥sseis, se corresponder e trocar ideias e informa√ß√Ķes com v√°rios cientistas importantes de sua √©poca, entre eles Richard Owen, Louis Agassiz, Henry de la Beche (cujo desenho Duria Antiquor, considerado o primeiro trabalho de paleoarte da hist√≥ria, foi feito baseado nos f√≥sseis encontrados por Anning), Charles Lyell e Adam Sedgwick ‚Äď os dois √ļltimos, professores de Charles Darwin.
Figura 5
Figura 5: Na Inglaterra, as famosas ‚ÄúBlue Plaques‚ÄĚ s√£o usadas para homenagear lugares em que pessoas ilustres nasceram, residiram ou morreram. Esta placa est√° no local em que Mary Annig nasceu, em Lyme Regis, e que hoje est√° convertido em um museu.

 
Todos estes nomes s√£o hoje conhecidos como precursores da geologia e da paleontologia; e todos contaram para isso com os achados de Mary Anning, que por sua vez caiu no esquecimento. E isso √© algo que, infelizmente, acontece at√© hoje; v√°rios f√≥sseis, como se sabe, s√£o encontrados por trabalhadores ou pessoas que est√£o passando √† toa por um determinado lugar, e o pesquisador, depois de pesquisar e publicar seus resultados, se recusa at√© a citar o nome de quem encontrou o f√≥ssil! Muitos de n√≥s pensamos ‚ÄúMas o que √© que um pedreiro ganha se eu agradecer a ele por ter achado um cr√Ęnio completo enquanto trabalhava numa obra? N√£o vai adiantar nada ele colocar isso no Curr√≠culo Lattes dele!‚ÄĚ. ¬†√Č evidente que o encontrar do f√≥ssil √© uma etapa que faz parte de todo um processo que vai at√© a publica√ß√£o. Mas √© uma etapa sem a qual, simplesmente, o resto da pesquisa nunca existiria!
Figura 6
Figura 6: ‚ÄúGoogle Doodle‚ÄĚ celebrando o 215¬ļ anivers√°rio de Mary Anning, em 2014.

 
Outra reflex√£o que a hist√≥ria de Mary Anning provocou em mim, particularmente, diz respeito ao o que ser um pesquisador realmente significa. Um cientista √©, acima de tudo, algu√©m que trabalha com um m√©todo, com a raz√£o, para obter as respostas √†s perguntas que faz a si mesmo; mas nada disso faz sentido se n√£o h√° uma emo√ß√£o envolvida nisso. O cientista deve gostar do que faz, deve ver sentido naquilo que investiga, deve ter uma convic√ß√£o de que o ele faz √© importante. E, na minha opini√£o, s√£o essas os motivos que devem mover o cientista a fazer o que faz, muito mais do que atingir um n√ļmero de publica√ß√Ķes ou arranjar empregos e financiamentos. √Č claro que ningu√©m pode condenar aqueles que colocam isso como prioridade ‚Äď como ningu√©m pode condenar Mary Anning por ter vendido f√≥sseis em sua √©poca ‚Äď mas eu acredito que, mais importante que preencher nossos curr√≠culos e nossas vaidades, o cientista deve trabalhar tendo em mente que o que ele faz √© importante, faz sentido para o mundo, e que ele √© uma pessoa em que todos depositam a esperan√ßa de que seu trabalho far√° o ser humano entender melhor o mundo. Os t√≠tulos acad√™micos, por exemplo, n√£o s√£o uma coisa para se ficar exibindo para as nossas tias mas, ao inv√©s disso, s√£o apenas etapas na forma√ß√£o de um profissional. O maior objetivo de um cientista em forma√ß√£o, e de um cientista formado tamb√©m, n√£o deveria ser colecionar t√≠tulos ou publica√ß√Ķes, mas aprendizado e experi√™ncia, coisas que dependem muito mais da pr√≥pria dedica√ß√£o individual do que de qualquer outra ‚Äď como provou Mary Anning, h√° mais de duzentos anos atr√°s.
E hoje, especificamente em um 8 de mar√ßo, a hist√≥ria e a trajet√≥ria de Mary Anning se tornam ainda mais significativos pelo Dia da Mulher. Hoje, muito diferentemente da √©poca de Mary Anning, as mulheres possuem bastante espa√ßo na comunidade cient√≠fica, com v√°rias mulheres se destacando como cientistas em v√°rias √°reas, incluindo a nossa Paleontologia. No entanto, ainda h√° muito que pode ser feito, e a hist√≥ria de Mary Anning nos alerta sobre como o conhecimento que a ci√™ncia pode proporcionar √† humanidade fica prejudicado quando uma mulher √© discriminada simplesmente por ser mulher, ou quando qualquer pessoa √© discriminada seja por motivo de g√™nero, etnia, cor da pele, nacionalidade, ideologias, opini√Ķes ou religi√£o. Por isso, neste dia 8 de mar√ßo, que Mary Anning seja um exemplo de gana de conhecimento, sim, mas tamb√©m de que o sexo ou g√™nero de um cientista simplesmente n√£o t√™m nada ‚Äď absolutamente nada ‚Äď a dizer no que diz respeito √† sua capacidade como cientistas.
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Figura 7: Reconstituição do desenho Duria Antiquor (1830), de Henry de la Beche, baseado grandemente em fósseis coletados por Mary Anning.

 
Referência bibliográfica:
Emling, Shelley (2009), The Fossil Hunter: Dinosaurs, Evolution, and the Woman whose Discoveries Changed the World, Palgrove Macmillan, ISBN 978-0-230-61156-6
Para saber mais:
http://www.ucmp.berkeley.edu/history/anning.html
https://www.sdsc.edu/ScienceWomen/anning.html
http://www.macroevolution.net/mary-anning.html
Um vídeo contando a história de Mary Anning:
Referências das Figuras:
[1],[3]: http://www.bbc.co.uk/schools/primaryhistory/famouspeople/mary_anning/
[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Plesiosaurus
[4]: http://www.dorsetlife.co.uk/2012/05/from-ancient-to-modern-lyme-regis-fossil-festival/
[5], [6]: http://heavy.com/news/2014/05/mary-anning-215-birthday-google-doodle/
[7]: https://en.wikipedia.org/wiki/Duria_Antiquior


16735619_1201225939972881_1202071666_oGiovanne Mendes Cidade, Bacharel em Ci√™ncias Biol√≥gicas pela Universidade Federal de Uberl√Ęndia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de S√£o Paulo (USP), campus de Ribeir√£o Preto. Estuda principalmente crocodilianos f√≥sseis, com √™nfase em sistem√°tica, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Tamb√©m tem interesses diletantes em hist√≥ria da Paleontologia e em¬†filosofia da Ci√™ncia como um todo, e da Biologia em particular, al√©m de Evolu√ß√£o.¬†