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Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Sobre penas e escamas: a nova roupa do rei

Recentemente uma nova publicação causou uma acalorada discussão entre amantes dos dinossauros na internet. Trata-se de um assunto muito mais polêmico que mamilos. Claro, só poderíamos estar falando de PENAS em dinossauros. Ou talvez, nesse caso, a ausência delas.

Polemica

No in√≠cio do m√™s Phill Bell e colaboradores, incluindo os Phill Currie, Robert Bakker e Pete Larson (alguns paleont√≥logos de renome na √°rea), publicaram um artigo na revista Biology Letters intitulado Tyrannosauroid integument reveals conflicting patterns of gigantism and feather evolution, ou, traduzindo: “O integumento de tiranosaur√≥ides revela um padr√£o conflituoso entre gigantismo e a evolu√ß√£o das penas”. Esse artigo foi amplamente noticiado pela m√≠dia geral e foi justamente a causa¬†de uma grande reviravolta na internet. Em especial, entre f√£s de dinossauros (e, mais significativamente, ¬†entre aqueles fan√°ticos por Jurassic Park).

Obviamente, esse foi mais um caso em que a m√≠dia leiga deitou e rolou. Dinossauros… tiranossauro… e penas. Ingredientes m√°gicos pra escrever besteiras vender not√≠cias/atrair leitores! Um monte de gente que simplesmente n√£o entende nada desses assuntos resolveu escrever sobre isso e pipocaram manchetes como: “O Tiranossauro n√£o tinha penas!”, “Tiranossauro era coberto de escamas, como um lagarto” ou “Jurassic Park estava certo!”. √Č claro que o corpo das not√≠cias n√£o foi melhor do que isso.

tyrannosaurus-rex-conway-1024x1024Um efeito em cadeia teve início e monte de outras pessoas prontamente compartilhou (sem ler, claro) nas redes sociais a notícia. Uma parte dessas mesmas pessoas, então, começou a advogar a manchete jornalística como a descoberta paleontológica do ano e a verdade definitiva sobre os tiranossauros.

Quando abri minha linha do tempo no Facebook, ela se parecia com isso:
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Depois de me inteirar sobre o assunto, mais uma vez lamentei sobre como uma divulga√ß√£o mal feita de um resultado de estudo cient√≠fico pode ser danosa. Um artigo t√£o legal, sendo mal compreendido e passando a ser usado quase como um¬†“argumento b√≠blico” por algumas pessoas que n√£o querem, de forma¬†alguma, se desapegar de ideias ultrapassadas. Foi um¬†verdadeiro desfile de fal√°cias. E √© por isso que viemos tentar esclarecer um pouquinho esse¬†assunto!

Primeiramente, n√£o podemos deixar de falar, que no mesmo dia que o artigo de Bell e colaboradores foi publicado, um outro artigo magn√≠fico sobre um filhote de ave (Enanthiornithine) do Cret√°ceo preservado em √Ęmbar de Myanmar saiu do prelo no peri√≥dico ‘Gondwana Research‘. Um artigo de grande impacto no meio paleontol√≥gico, que passou praticamente despercebido pela m√≠dia e consequentemente, o p√ļblico geral. Uma pena (me perdoe o trocadilho).

Para não propagar a injustiça, seguem aqui algumas fotos e o link do artigo para quem tiver interesse em ler sobre o assunto:

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Agora, quanto √†s penas em tiranossauros, √© importante come√ßar desde j√° dizendo que, de tudo que o artigo diz, a √ļnica coisa que ele N√ÉO diz √© que tiranossauros n√£o tinham penas. Pronto, falei. Pois √©, poder√≠amos encerrar a postagem aqui.

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O que o artigo tr√°s, na verdade, √© a descri√ß√£o formal de algumas impress√Ķes de pele com evid√™ncias de escamas em certas partes do corpo de diferentes esp√©cies de tiranossaur√≠deos (incluindo¬†Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus)¬†e, a partir disso, os autores discutem¬†a possibilidade de¬†uma evolu√ß√£o paralela dessas esp√©cies gigantes mais tardias, em rela√ß√£o √†s esp√©cies de tiranossaur√≥ides emplumados mais basais¬†(considere aqui os penosos asi√°ticos¬†Yutyrannus e Dilong¬†– clique nos nomes para acessar os artigos originais com imagens dos f√≥sseis).¬†Basicamente, o que os autores argumentam, √©¬†que as esp√©cies tardias¬† (a maior parte de dep√≥sitos da Am√©rica do Norte) n√£o teriam uma extensa cobertura ¬†de penas como os tiranossaur√≥ides basais chineses (N√ÉO QUE ELES N√ÉO POSSUIAM PENAS!).¬†A justificativa¬†principal¬†do artigo √© que a evolu√ß√£o do gigantismo poderia ter desfavorecido a manuten√ß√£o de uma extensa cobertura de penas em¬†Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus. Os autores justificam¬†sua¬†hip√≥tese¬†alegando¬†uma suposta redu√ß√£o na import√Ęncia das penas na manuten√ß√£o de calor corp√≥reo devido √†:

1) Homeotermia inercial por gigantismo (i.e. inércia térmica);

2) Uma hipotética atividade metabólica mais alta em algumas espécies tardias ou;

3) A ocupa√ß√£o de¬†ambientes com press√Ķes seletivas distintas. As esp√©cies asi√°ticas mais basais, por exemplo, habitavam regi√Ķes mais florestadas.

Todas argumenta√ß√Ķes muito pertinentes, que implicam necessariamente na revers√£o (ou modifica√ß√£o) de um car√°ter basal do grupo, que √Č a presen√ßa de uma extensa cobertura de penas (veja a figura abaixo). Os autores deixam em aberto a¬†quest√£o sobre se¬†as escamas de esp√©cies mais derivadas seriam ou n√£o produto de uma modifica√ß√£o das penas primitivas¬†observadas em Yutyrannus e Dilong, j√° que as escamas em Aves atuais n√£o s√£o hom√≥logas √†s escamas ‘reptilianas’ (ou seja, n√£o t√™m a mesma origem embrion√°ria), mas sim s√£o resultado de penas modificadas.

Rela√ß√Ķes de parentesco entre Yutyrannus, Dilong e Tyranosauridae.
Rela√ß√Ķes de parentesco entre Yutyrannus, Dilong e Tyranosauridae.

Os autores concluem o artigo da seguinte forma:

“Our results, therefore, reveal an intriguing counterintuitive pattern between size and integumentary evolution within Tyrannosauroidea that can only be tested by future fossil discoveries.” – “Nossos resultados, portanto, revelam um intrigante padr√£o contraintuitivo entre tamanho e evolu√ß√£o tegumentar dentro de Tyrannosauroidea que s√≥ pode ser testado por futuras descobertas de f√≥sseis.”

A √ļltima frase resume tudo. Uma proposta que somente poder√° ser testada com futuras (e melhores ou mais completas) descobertas de f√≥sseis.

√ďtimo. Agora que ficou claro tudo o que o artigo quer dizer e aquilo que ele n√£o quer dizer, existem algumas outras coisas que podem ter sido mal interpretadas nele.¬†A primeira, e mais importante, √© a imagem sobre as impress√Ķes de pele com escamas (figurada alguns par√°grafos acima). A imagem d√° a impress√£o – errada! – de que as regi√Ķes ‘escamosas’¬†sinalizadas foram encontradas todas em um mesmo indiv√≠duo/esp√©cime ou que foram encontradas em diferentes f√≥sseis de uma mesma esp√©cie (no caso, como amplamente argumentado por quem n√£o leu o artigo direito:¬†Tyrannosaurus rex). Mas n√£o, ela re√ļne todas as evid√™ncias de impress√Ķes de peles das V√ĀRIAS esp√©cies citadas no texto (veja esta imagem que demonstra mais honestamente¬†o que conhecemos sobre o tegumento de Tyrannosaurus rex, Tarbosaurus e Albertosaurus, respectivamente – de cima para baixo).

2838737845_fa89d35c4a_zSão conhecidas apenas pequenas áreas preservadas de pele para cada espécie, o que nem de longe justifica que o padrão escamoso observado possa ser extrapolado para o corpo inteiro do animal/dos animais. Desde quando, por exemplo, a imagem ao lado seria uma justificativa para avestruzes serem escamosos?

A ausência de penas em algumas partes do corpo do animal não é uma evidência suficiente para afirmarmos que todo o animal era (ou a maior parte dele era) escamoso.

Agora, o oposto (ou seja, que penas estavam presentes nesses organismos, mesmo que ainda não tenhamos encontrado evidências diretas da sua presença) se pode afirmar com certo embasamento lógico. Por quê?!

√Č importante compreender um princ√≠pio b√°sico da Ci√™ncia, aqui adaptado √†¬†Biologia Evolutiva: √© mais parcimonioso supor que um caracter (no caso, penas) se manteve ao longo da evolu√ß√£o de um grupo de organismos, do que que ele tenha sido perdido, revertido ou alterado em linhagens sucessivas. Da mesma forma, por infer√™ncia com base nos parentes mais proximamente relacionados, – mais basais ou derivados – (phyllogenetic bracketing), √© mais parcimonioso afirmar que as penas estavam¬†presentes em Tyrannosauridae do que que estivessem ausentes.

N√£o vou nem me estender muito, mas ainda existem ainda outras quest√Ķes n√£o discutidas no artigo, como a a√ß√£o de¬†aspectos tafon√īmicos, que causam desvios preservacionais no registro fossil√≠fero. In√ļmeras¬†adversidades naturais (a√ß√£o de decompositores, exposi√ß√£o prolongada da carca√ßa, aspectos geoqu√≠micos da fossiliza√ß√£o, etc.) poderiam ter desfavorecido a preserva√ß√£o de penas. Os tipos de dep√≥sito em que as¬†esp√©cies mais tardias (de Tyrannosauridae) s√£o encontradas, s√£o bastante diferentes do de Dilong e Yutyrannus, que pelas condi√ß√Ķes de preserva√ß√£o excepcionais pode ser considerado um lagerst√§tte.

Aos paleobi√≥logos¬†interessa ainda investigarem poss√≠veis varia√ß√Ķes ontogen√©ticas (√© prov√°vel que em est√°gios mais juvenis, Tyrannosauridae tivessem uma cobertura mais extensa de penas); e geogr√°ficas (esp√©cies de latitudes mais altas apresentariam esse mesmo padr√£o sugerido no artigo?).

Mais uma vez: o que o artigo de Bell e colaboradores quis dizer, apenas, √© que a cobertura de penas nas¬†esp√©cies de Tyrannosauridae citadas no artigo (Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus)¬†provavelmente¬†seria¬†mais restrita do que em esp√©cies mais basais, de Tyrannosauroidea, e outros Coelurosauria.¬†N√£o ¬†que elas estivessem definitivamente ausentes! Aceitem: a presen√ßa de penas (seja l√° em qual extens√£o pelo corpo) em Coelurosauria¬†(Eumaniraptora, Oviraptorosauria, Therezinosauroidea, Alvarezsauridae, Ornithomimosauria, Compsognathidae e Tyrannosauroidea) j√° n√£o √© mais um assunto em discuss√£o. √Č um fato amplamente aceito por paleont√≥logos especialistas em dinossauros.

Fãs de Jurassic Park, por favor, não deixem a emoção sobrepor a razão! E aos outros fãs de dinossauros: leiam sempre os artigos originais ou procurem fontes confiáveis de informação.

Fanboys, vocês ainda não se livraram do T. rex com penas...
Fanboys, voc√™s ainda n√£o se livraram do T. rex com penas… Arte de Raul Martin.

Algumas leituras adicionais sobre essa quest√£o:

T. rex, Feathers, Scales, and Science
Prejudices skin in the evolution of Tyrannosauridae
Those scales are scales?

Revenge of the scaly Tyrannosaurus 

Não deixe de assistir também o vídeo do nosso colega Pirulla sobre o assunto:

>Dinossauros Emplumados: A Origem das Aves II

>

Este breve artigo procura dar continuidade à história que começamos a contar neste post aqui. A idéia era discorrer sobre a biografia de alguns importantes grupos de dinossauros terópodes, que ajudaram a lançar luz sobre o estudo da evolução das Aves. Para compreender a evolução desses animais, primeiro nós precisamos investigar e aprender mais sobre os principais grupos de dinossauros proximamente relacionados a elas. O foco da narrativa, então, serão os dinossauros coelurossauros.

Os Coelurosauria s√£o um ramo basal dentro do agrupamento dos dinossauros ter√≥podes (dinossauros b√≠pedes que incluem todos aqueles predadores e algumas curiosas fam√≠lias de h√°bitos herb√≠voros ou on√≠voros). O nome refere-se √† natureza ‚Äėoca‚Äô das v√©rtebras desses animais, e significa, literalmente, ‚Äúlagarto oco‚ÄĚ. Foi dentro deste clado que ocorreu um dos mais fant√°sticos eventos evolucion√°rios da hist√≥ria dos vertebrados terrestres: A evolu√ß√£o das aves. Ainda que haja alguma controv√©rsia sobre qual fam√≠lia dinossauriana teria dado origem √†s aves modernas, √© bem consolidado que ela teria pertencido a esse grupo.

No primeiro post sobre ‚ÄúA Origem das Aves‚ÄĚ discorremos brevemente sobre a linhagem dos poderosos tiranossauros (aqui), que formariam o grupo mais basal dentro de Coelurosauria. J√° no post de hoje, abordaremos um pouco sobre a hist√≥ria dos Ornithomimosauria, os dinossauros que ‚Äúimitavam aves‚ÄĚ.


Figura 1. Cladograma evidenciando as rela√ß√Ķes evolutivas entre os v√°rios grupos de Coelurosauria. Por Thomas Holz.

Em meados da d√©cada de 1980, Jacques Gauthier, ent√£o paleont√≥logo de vertebrados e sistemata na Universidade da Calif√≥rnia, Berkeley, identificou em um grupo de dinossauros predadores (ter√≥podes) uma caracter√≠stica que at√© ent√£o era considerada como exclusiva das aves: Penas! Gauthier, entusiasmado, logo inseriu esse novo e importante dado em suas an√°lises filogen√©ticas. Foi a partir de ent√£o, que seu trabalho come√ßou a consolidar √†quela que seria conhecida como a hip√≥tese ave-dinossauro. Esta hip√≥tese logo obscureceu as outras menos robustas sobre a origem das aves. Hoje, podemos dizer que a evolu√ß√£o das aves a partir dos dinossauros √© uma das mais aceitas e incontest√°veis hip√≥teses dentro do estudos sobre a evolu√ß√£o dos vertebrados. H√° um forte apoio dado por um conjunto de caracteres anat√īmicos peculiares encontrados somente em aves e alguns dinossauros ter√≥podes. Estas caracter√≠sticas definem n√£o apenas o padr√£o de evolu√ß√£o do esqueleto entre as aves e dinossauros, mas tamb√©m abrangem um conjunto de caracter√≠sticas fisiol√≥gicas semelhantes (isto √© pass√≠vel de teste em aves e r√©pteis modernos), que revelam as etapas de transforma√ß√£o de um dinossauro corredor at√© um p√°ssaro capaz de v√īo ativo.

Ornithomimosauria: “Os lagartos que imitavam aves”


Figura 2. Ilustração de Peter Schouten РGrupo de Ornithomimosauria


“De fato, as compara√ß√Ķes entre este dinossauro e um avestruz, em v√°rios aspectos de sua anatomia, s√£o t√£o impressionantes que ele √© freq√ľentemente referido como “o dinossauro m√≠mico de avestruz””. 

Edwin Colbert, 1969, em “Evolution of the Vertebrates“, p√°gina 201.

Os ornitomimossauros s√£o melhor entendidos quando os imaginamos como uma “vers√£o esportiva” dos dinossauros. Constru√≠dos para velocidade, eles eram um grupo de ter√≥podes cuja vida deveria ser muito semelhante √†quela das aves ratitas atuais (como os avestruzes, emas e casuares). Eles deveriam, em sua maioria, ser on√≠voros (apesar de um deles ter sido encontrado com seu conte√ļdo estomacal preservado indicando uma dieta herb√≠vora – Sinornithomimus) e essencialmente sociais.

Recentemente, a descoberta de membros bastante primitivos desse grupo ajudou a compreender melhor como se deu a evolu√ß√£o e radia√ß√£o desses animais. Hoje eles s√£o considerados basais dentro da linhagem dos ter√≥podes, e est√£o colocados entre celurossauros primitivos e o grupo mais derivado destes,  que inclui os chamados  “maniraptores” (e.g. terezinossauros, alvarezssauros, ovirraptorossauros, tro
odontídeos, dromeossauros e aves) (Figura 1).

O primeiro f√≥ssil de ornitomimossauro foi encontrado em 1889 por George Cannon, em rochas de idade cret√°cica no Estado do Colorado, Estados Unidos. Charles Othniel Marsh nomeou os fragmentos encontrados – pertencentes √† membros posteriores de um animal adulto–  como Ornithomimus, significando “o m√≠mico de ave”, j√° que os considerou muito semelhantes √† ossos dos p√©s de aves atuais. 

Figura 3. Gallimimus РIlustração de Peter Schouten.

Foi somente em 1917, no entanto, que um esqueleto relativamente completo desses animais foi encontrado e a sua anatomia pode ser melhor investigada. Lawrence Lambe foi quem encontrou os restos parciais expostos nos afloramentos de Alberta, mas foi Henry Fairfield Osborn que os nomeou como Struthiomimus, “o m√≠mico de avestruz”. Osborn perceptivamente observou que este dinossauro possu√≠a muitas similaridades √† ave ratita atual.

A mais significante s√©rie de descobertas de ornitomimossauros, todavia, veio somente a partir da d√©cada de 1960, com as expedi√ß√Ķes poloneso-mong√≥is e na d√©cada de 1990 por meio de s√≠tios rec√©m descobertos na Espanha e na China.

Tudo indicava que estes animais eram construídos para correr rápido. Tratavam-se de velocistas. Possuíam uma cauda longa, horizontal e rígida, pernas alongadas e uma constituição leve, com cabeça pequena e pescoço grácil e alongado. Trilhas de pegadas fossilizadas atribuídas à ornitomimossauros sugerem que estes animais poderiam alcançar velocidades acima de 57km/h, tornando-os os mais rápidos de todos os dinossauros conhecidos, tão velozes quanto cavalos de corrida.

Figura 4. Esqueleto quase completo de ornitomimídeo.

O membro mais primitivo desse grupo √© Pelecanimimus, encontrado no famoso dep√≥sito de Las Hoyas, Espanha, do in√≠cio do Cret√°ceo. Pelecanimimus  (“m√≠mico de pelicano”) √©, por enquanto, o √ļnico membro deste grupo a apresentar numerosos e pequeninos dentes sem serrilha em suas mand√≠bulas (cerca de 220 no total). Apenas poucos outros ornitomimossauros tamb√©m possuem dentes como caracter√≠stica, e estes em geral os possuem restritos √† parte frontal do rostro somente (e.g. como Shenzhosaurus de Shenzhou, prov√≠ncia de Lioning, na China, e Harpymimus de Dundgov, na Mong√≥lia). O restante dos ornitomimossauros n√£o possuem dentes, mas sim bicos bem desenvolvidos. Algumas formas (Shenzhosaurus e Sinornithomimus por exemplo) foram encontradas com pequenos pedregulhos, denominados gastr√≥litos, em seus est√īmagos. Estes pedregulhos eram provavelmente utilizados para ajudar a digerir o alimento. Atualmente somente animais herb√≠voros utilizam-se dessas pedras para auxiliar a moer o material vegetal resistente (sementes, por exemplo) em seus tratos digestivos.

Figura 5. Reconstituição de Pelicanimimus (nome do autor não informado).

Uma teoria postula que os ornitomimossauros deveriam alimentar-se como os flamingos, filtrando a √°gua com os seus bicos curvos, por√©m outros especialistas discordam, afirmando que as estruturas especiais no palato desses animais eram somente para sustentar o bico e n√£o uma especializa√ß√£o para alimentar-se por filtra√ß√£o. 

N√£o se sabe ainda ao certo como os ornitomimossauros protegiam os seus jovens e filhotes e como organizavam seus bandos. No entanto, recentemente, um conjunto de 14 Sinornithomimus foram encontrados fossilizados juntos na Mong√≥lia. Onze dos animais demonstraram ser jovens ou sub-adultos e estes estavam acompanhados de animais maduros. Os √ļltimos provavelmente estavam protegendo o grupo de mais novos.

Figura 6. Cr√Ęnio de Sinornitomimus.


Os ornitomimossauros mais especializados  est√£o divididos em dois grupos. Um norte-americano, que compreende Struthiomimus, Dromiceiomimus e Ornithomimus, e um  asi√°tico, composto por Gallimimus e Anserimimus. Ornithomimus demonstra o t√≠pico formato de um cr√Ęnio avan√ßado de Ornithomimosauria, possuindo olhos grandes e um focinho delgado e curvado, com a mand√≠bula inferior pouco mais alongada que a superior. 

As grandes √≥rbitas dos ornitomimossauros s√£o freq√ľentemente preservadas com os oss√≠culos escler√≥ticos, que ajudavam a sustentar o olho em vida. Tudo indica que esses animais teriam um senso de vis√£o bastante desenvolvido. Eles possu√≠am um c√©rebro grande, compar√°vel √†quele de aves modernas e inclusive √†quele bem desenvolvido dos troodont√≠deos. Embora o grupo seja caracterizado pela presen√ßa de pernas e bra√ßos longos, a mec√Ęnica dos membros anteriores de Struthiomimus sugere que eles n√£o eram equipados para escavar, mas eram sim instrumentos gr√°ceis mais adequados para agarrar galhos e folhas.

Figura 7. Cr√Ęnio de Gallimimus.


A herbivoria parece ter evolu√≠do bastante cedo na hist√≥ria evolutiva desse grupo. Shenzhousaurus foi encontrado com gastr√≥litos em sua regi√£o estomacal e esta esp√©cie √© considerada como uma forma relativamente primitiva dentro do grupo. Ela √© considerada primitiva n√£o somente pela presen√ßa de dentes, mas por outras caracter√≠sticas esqueletais como o comprimento do ‘polegar’, mais curto que os outros d√≠gitos (nas formas derivadas ele tem o comprimento semelhante ao dos outros dedos).

Figura 8. Cladograma de Ornithomimosauria indicando a posição basal de Pelicanimimus e Shenzhousaurus (Makovicky, 2009).

Figura 9. Outro cladograma de Ornithomimosauria. Fonte: www.dinodata.org, baseado em Makovicky et al., 2004.


Uma das mais recentes descobertas do grupo foi Beishanlong, do Cret√°ceo chin√™s, animal muito parecido com Harpymimus, outro ornitomimossauro da China. Por√©m, a caracter√≠stica mais impressionante de Beishanlong √© o seu tamanho. Definitivamente trata-se do maior ornitomimossauro j√° descrito e o mais interessante: an√°lises histol√≥gicas demonstraram que o indiv√≠duo analisado ainda encontrava-se em fase de crescimento. A partir do material encontrado foi estimado para o animal uma massa de 626kg. √Č interessante observar um paralelismo do gigantismo em diferentes linhagens de celurossauros herb√≠voros (ver Shuzhousaurus (Therezinosauria) e Gigantoraptor (Oviraptorosauria)).

Figura 10. Esquema indicando o tamanho de Beishanlong proporcionalmente a um ser humano.


Inicialmente acreditava-se que estes animais estariam presentes somente na Am√©rica do Norte e na √Āsia, mas depois da descoberta do primitivo Pellicanimimus na Europa, a hist√≥ria come√ßou a ficar mais clara e as no√ß√Ķes biogeogr√°ficas e de origem do grupo a solucionarem-se. Sem d√ļvida, o que pode-se dizer por enquanto, √© que trata-se de um grupo restrito aos continentes do norte (laurasianos), com sua origem provavelmente europ√©ia.


Apesar das tantas semelhan√ßas com as aves, que foram inclusive batizados em alus√£o a elas, n√£o foi dentro deste grupo que as nossas colegas emplumadas tiveram sua origem. Os Ornithomimosauria s√£o apenas parentes pr√≥ximos. A hist√≥ria continua. Sem d√ļvida as aves tiveram origem dentro do grupo dos Maniraptora e √© para a√≠ que se aproxima ainda mais a pr√≥xima parte de nossa hist√≥ria.
No pr√≥ximo cap√≠tulo:  √Ä um passo dos maniraptora…

Referências Bibliográficas:

Makovicky, P. J., Kobayashi, Y. & Currie, P. J. 2004. Ornithomimosauria. In Weishampel, D. B., Dodson, P. & Osm√≥lska, H. (eds) The Dinosauria, Second Edition. University of California Press (Berkeley), pp. 137-150.
Barrett, P. M. 2005. The diet of ostrich dinosaurs (Theropoda: Ornithomimosauria). Palaeontology48, 347-358.
Kobayashi, Y. & L√ľ, J.-C. 2003. A new ornithomimid dinosaur with gregarious habits from the Late Cretaceous of China. Acta Palaeontologica Polonica 48, 235-259.
Norell, M. A., Makovicky, P. & Currie, P. J. 2001. The beaks of ostrich dinosaurs. Nature 412, 873-874.
Russell, D. A. 1972. Ostrich dinosaurs from the Late Cretaceous of western Canada. Canadian Journal of Earth Sciences 9, 375-402.
Long, J. & Schouten, P., 2008. Feathered Dinosaurs: The Origin of Birds. Oxford university Press. Oxford, New York.
Naish, D. – The Tet Zoo field guide to ostrich dinosaurs (Part I) and (Part II). In: Tetrapod Zoology.


>Tempestade de Paleocurtas – PARTE 1

>


Depois da longa aus√™ncia estamos finalmente de volta! Setembro foi o m√™s do VII Congresso Argentino de Paleontologia e Bioestratigrafia e do X Congresso Latinoamericano de Paleontologia, realizados em um √ļnico evento na cidade de La Plata, Argentina. Os Colecionadores compareceram em peso e por isso o blog ficou meio √†s tra√ßas.

Nesse meio tempo, diversas novidades fabulosas da paleontologia se acumularam ‚Äď v√°rios bichos foram descritos (sim, dentre eles, tudo o que o mundo precisava… mais ceratops√≠deos…); bizarrices anat√īmicas foram revisitadas; uma curiosa revela√ß√£o fez-se quanto a colora√ß√£o de ping√ľins f√≥sseis gigantes; nova literatura fundamental foi publicada; deu-se o pr√©-lan√ßamento do esc√Ęndalo dos ‚Äúsaur√≥podes que eram um s√≥‚ÄĚ (?); surgiram mais novidades sobre o sexo pr√©-hist√≥rico; dentre outros. – .Mas al√©m disso, trouxemos para completar boas novas da Paleontologia Latinoamericana, entre elas o rec√©m-anunciado ‚Äď e surpreendente – dinossauro brasileiro: Tapuiasaurus! (Que muitos de voc√™s devem ter visto pela televis√£o ou no caderno especial do “Estad√£o”, algumas semanas atr√°s).

Vamos sacudir a poeira dos f√≥sseis e partir para uma campanha rel√Ęmpago. Com voc√™s, uma tempestade de paleocurtas – PARTE 1:

Um Raptor como você nunca viu: Balaur bondoc, o estranho dragão romeno

Reconstituição artística de Balaur bondoc


Estranho √© apelido. Balaur bondoc veio responder uma quest√£o antiga: “Com o que se pareciam os dinossauros predadores na Europa durante o fim do Cret√°ceo?”
Descrito na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Zolt√°n Csikia e colaboradores, entre eles Mark Norell, o novo dino predador surpreendeu paleont√≥logos do mundo todo. Parente dos velociraptores – o que quer dizer que tratava-se de um dromeossaur√≠deo – ele possu√≠a uma constru√ß√£o corporal parecida… at√© certo ponto. Com ossos fundidos, constitui√ß√£o mais pesada e duplas garras retratoras nos p√©s (!), B. bondoc deveria ser o terror na Europa do fim do Cret√°ceo.
A Europa era bem diferente nesse per√≠odo. Com o n√≠vel do mar mais alto, toda essa regi√£o era um arquip√©lago habitado por animais de pequeno porte e relativamente mais ‘primitivos’ que os seus parentes continentais. Inclusive formas an√£s, como saur√≥podes do tamanho de vacas e dinos ornit√≥podes tamb√©m de tamanho bastante reduzido em compara√ß√£o com seus parentes do continente. B. bondoc, t√£o diferente de qualquer coisa conhecida, soma-se √†s esquisitices dinossaurianas e vem ensinar mais um pouco sobre a fauna pouco-usual da regi√£o europ√©ia durante o auge do reinado dos grandes r√©pteis-ave.

Membro posterior de Balaur bondoc evidenciando a dupla de garras retr√°teis

Leia mais sobre isso Aqui.

Csiki, Z., Vremir, M., Brusatte, S., & Norell, M. (2010). From the Cover: An aberrant island-dwelling theropod dinosaur from the Late Cretaceous of Romania Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (35), 15357-15361 DOI: 10.1073/pnas.1006970107

O dino-quasímodo e.. com penas?? Concavenator corcovatus

Reconstitui√ß√£o art√≠stica de Concavenator (acima) e suas rela√ß√Ķes filogen√©ticas dentro dos Allosauroidea (abaixo)

Anunciado pela Nature, por Ortega e colaboradores, esse novo Carcharodontossaur√≠deo espanhol foi descrito com base em um esqueleto articulado quase completo. O animal deveria medir cerca de 6m de comprimento. Entretanto, o que mais chamou a aten√ß√£o foram outras caracter√≠sticas….:
1) As cristas neurais de suas vértebras dorsais Рque formavam uma corcova no bicho (característica que já havia sido observada no enigmático Becklespinax);
e o mais surpreendente:
2) Cicatrizes de inserção de penas nos ossos do braço do animal;
Dinos alossaur√≥ides com penas???? Pois √©….

Leia mais sobre isso Aqui.

Ortega, F., Escaso, F. & Sanz, J. L. 2010. A bizarre, humped Carcharodontosauria (Theropoda) from the Lower Cretaceous of Spain. Nature 467, 203-206.

Os novos ceratopsianos: Utahceratops e Kosmoceratops – e o ano desses bichos continua

Reconstitui√ß√Ķes art√≠sticas de Utahceratops (acima) e Kosmoceratops (abaixo)

Os dois novos ‘chifrudos’ da lista s√£o da regi√£o sul do Estado de Utah, EUA. A descoberta dos novos ceratops√≠deos foi detalhada na revista on-line de acesso livre PLoS One.
O maior dos dois, Utahceratops gettyi, tem um cr√Ęnio de 2,3 m de com
primento, j√° o menor deles,
Kosmoceratops richardisoni, tem um total de 15 chifres na cabeça Рo dino com a cabeça mais ornamentada conhecido.

Leia mais sobre isso Aqui.
Veja os antigos (julho) t√≥picos deste blog sobre “O ano dos Ceratopsia” Aqui (parte 1) e Aqui (parte 2).

Sampson, S., Loewen, M., Farke, A., Roberts, E., Forster, C., Smith, J., & Titus, A. (2010). New horned dinosaurs from Utah provide evidence for intracontinental dinosaur endemism PLoS ONE, 5 (9) DOI:10.1371/journal.pone.0012292

Xixiasaurus, o novo troodontídeo da China (Mas que nome!)

O cr√Ęnio parcial de Xixiasaurus

Proveniente da Forma√ß√£o Majiacun, da Bacia Xixia, na Prov√≠ncia de Henan da China, Xixiasaurus henanensis foi descrito com base em um cr√Ęnio parcialmente completo. Proximamente relacionado com Byronosaurus e Urbacodon, esses tr√™s animais provavelmente formam um clado √† parte, sugerindo uma radia√ß√£o end√™mica de troodont√≠deos pela √Āsia.

L√ľ, J.-C., Xu, L., Liu, Y.-Q., Zhang, X.-L., Jia, S. and Ji, Q. 2010. A new troodontid (Theropoda: Troodontidae) from the Late Cretaceous of central China, and the radiation of Asian troodontids. Acta Palaeontologica Polonica 5X: xxx-xxx. doi:10.4202/app.2009.0047

Sarahsaurus e o sucesso dos dinossauros

Cr√Ęnio de Sarahsaurus em parte desarticulado

Sarahsaurus aurifontanalis √© o mais novo sauropodomorfo que vem juntar-se √† fam√≠lia. Encontrado no Arizona, EUA, tratava-se de um dino herb√≠voro relativamente pequeno em compara√ß√£o com os seus primos gigantescos que viveram pouco depois. Com 190 milh√Ķes de anos (in√≠cio do Jur√°ssico) ele ajuda a contar algumas partes da hist√≥ria sobre a evolu√ß√£o e radia√ß√£o dos dinossauros: o que aconteceu depois da extin√ß√£o Tri√°ssico-Jur√°ssica, como foi a invas√£o do Hemisf√©rio Norte – a partir do Hemisf√©rio Sul – por esse grupo de animais?
Sarahsaurus foi uma das formas que se originou alguns milh√Ķes de anos depois do pulso de extin√ß√£o do fim do Tri√°ssico e o seu estudo, somado ao que j√° era conhecido sobre outros sauropodomorfos encontrados na Am√©rica do Norte, ajudou a entender melhor a hist√≥ria sobre a dispers√£o dos dinossauros para essa regi√£o.
O estudo foi publicado na Proceedings of the Royal Society por Timothy e colaboradores.

Leia mais sobre isso Aqui.

Timothy B. Rowe, Hans-Dieter Sues, and Robert R. Reisz (2010). Dispersal and diversity in the earliest North American sauropodomorph dinosaurs, with a description of a new taxon. Proceedings of the Royal Society B : 10.1098/rspb.2010.1867

Mais curtas em breve…

Dinossauros Emplumados: A Origem das aves

A fim de discorrer sobre esse tema, os Colecionadores de Ossos irão organizar uma série de posts sobre peculiares grupos de dinossauros terópodes proximamente relacionados às Aves. As aves são hoje, em termos numéricos e de diversidade, o grupo de vertebrados mais bem sucedido do planeta. E tudo começou nos idos do Mesozóico.

Vamos procurar abordar aqui passos da marcha evolutiva de “primitivos” dinossauros com penas, at√© as primeiras aves verdadeiras.

A idéia é discorrer sobre a biografia geral de alguns importantes grupos de dinossauros terópodes que ajudaram a lançar luz sobre o estudo da evolução das Aves.

Cladograma mostrando os grupos dentro de Coelurosauria, por Thomas Holz



O primeiro grupo a ser abordado ser√° o do Tyrannosaurus rex e seus parentes:

 
O Poderoso T-rex, suas modestas origens e toda parentela

Os coelurossauros incluem uma grande quantidade de dinossauros predadores. Desde Coelurus, com 2 metros de comprimento, até o colossal Tyrannosaurus rex, de 14 metros. A divergência evolutiva dos tiranossauros a partir de pequenos e modestos coelurossauros está sendo agora melhor compreendida desde que recentes descobertas de pequenos tiranossauróides basais, como Eotyrannus e o emplumado Dilong, da China, foram feitas. 

Os membros mais primitivos do grupo, a exemplo de Coelurus fragilis, datam
do Jur√°ssico tardio (por volta de 150 milh√Ķes de anos atr√°s), portanto, os primeiros tiranossaur√≥ides s√£o contempor√Ęneos √†s primeiras aves, entre elas o¬†
Archaeopteryx.

Coelurus fragilis foi tema de muito debate sobre em que posi√ß√£o ele se encaixaria na hist√≥ria evolutiva dos tiranossaur√≥ides, principalmente porque seu g√™nero somente √© conhecido com base em um esqueleto parcial, ao qual lhe falta a maior parte do cr√Ęnio. N√£o obstante, especialistas tendem a concordar que ele se encaixa em algum lugar pr√≥ximo ao in√≠cio da hist√≥ria evolutiva dos dinossauros com penas. Coelurus trata-se de um ter√≥pode generalizado, que mostra as primeiras adapta√ß√Ķes importantes requeridas para a evolu√ß√£o das aves. Primeiro: ele tem ossos leves e ocos; e segundo: ele e todos os seus parentes t√™m c√©rebros relativamente grandes em rela√ß√£o √† outros carn√≠voros primitivos como o Allossaurus¬†ou os abelissauros, do Gondwanna.

A linha que leva ao Tyrannossaurus deve ter começado com formas de tamanho moderado como Tanycolagreus, um caçador de 3 ou 4 metros de comprimento, levemente construído, com braços e dedos fortes feitos para agarrar. Eram animais relativamente ligeiros, que deveriam ser predadores ágeis e letais. Tanycolagreus compartilha certas similaridades em sua estrutura pélvica e fêmur com os primeiros tiranossauróides.

Tanycolagreus

O primeiro Tyrannosauroidea, aferido com certeza, √© Guanlong, de 3 metros de comprimento, do Jur√°ssico da China. Ele possu√≠a uma estranha crista em sua cabe√ßa, mas est√° intimamente ligado √† Tyrannosaurus rex e seus parentes por possuir uma sess√£o peculiar na sua mand√≠bula superior em formato de U e seus ossos nasais fusionados em uma √ļnica estrutura √≥ssea. Era um predador claramente secund√°rio em seu ambiente, um coadjuvante em rela√ß√£o a outro grande carn√≠voro contempor√Ęneo da mesma regi√£o: Sinraptor, de 10 metros.

Reconstitui√ß√£o em vida de Guanlong, por Raul Martin e destaque do cr√Ęnio do mesmo animal.

Dilong, outro tiranossaur√≥ide basal da China, demonstra indubitavelmente a presen√ßa de penas adornando sua cauda. Embora pequeno (cerca de 1,6 metros de comprimento), ele √© mais avan√ßado que Guanlong por ter um cr√Ęnio mais parecido com o de tiranossaur√≥ides¬† derivados : H√° uma s√©rie de caracteres especilizados e √© not√°vel tamb√©m a presen√ßa de pneumatiza√ß√£o em muitos de seus ossos.

Reconstituição em vida de Dilong paradoxus, por Peter Schouten


 
Durante o in√≠cio do Cret√°ceo, um grupo diversificado de pequenos tiranossaur√≥ides primitivos (de 3 at√© 5 metros de comprimentos), incluindo Eotyrannus, perambulava nas florestas do Sudoeste da √Āsia e Europa. J√° chegou a pensar-se, que Siamotyrannus, da Tail√Ęndia, fosse um tiranossaur√≠deo basal, por√©m a falta de elementos diagn√≥sticos no material at√© agora encontrado, leva esse animal a n√£o ser mais considerado com seguran√ßa como pertencente √† famosa fam√≠lia.

 

Reconstituição de Eotyrannus


Reconstituição de Siamotyrannus
 
A principal radia√ß√£o dos tiranossaur√≥ides √© exemplificada pelas muitas estranhas formas que apareceram no final do Cret√°ceo da Am√©rica do Norte e √Āsia. A maioria de grande (8 a 9 metros) ou muito grande porte (mais de 14 metros de comprimento), com membros anteriores reduzidos portando somente dois dedos em cada m√£o. A maioria possu√≠a alguma forma de ornamenta√ß√£o rugosa no topo do cr√Ęnio, desde uma s√©rie de cones afiados sobre o focinho, como em Alioramus, at√© superf√≠cies irregulares e/ou pontuadas sobre os olhos, possivelmente para atrair parceiros ou engalfinharem-se disputas corporais com rivais.

Reconstituição de Alioramus por Peter Schouten

O primeiro esqueleto relativamente completo de Tyrannosaurus rex foi descoberto em 1902 no leste do estado de Montana, EUA, e somente foi descrito pelo paleont√≥logo americano Henry Fairfield Osborn em 1905. Depois de v√°rias expedi√ß√Ķes, Barnum Brown, o coletor de Osborn, trouxe de volta uma s√©rie de esqueletos parciais que complementariam os seus estudos (oito esp√©cimes foram encontrados at√© 1912). Em 1915, o American Museum of Natural History, montou o primeiro e mais completo esqueleto de Tyrannosaurus rex em seus sal√Ķes. Stephen Jay Gould atribuiu publicamente que seu desejo por estudar paleontologia se deu devido ao T. rex em exposi√ß√£o no American Museum, o qual ele teria visitado com seu pai quando tinha 5 anos de idade.

Stephen Jay Gould

Tyrannosaurus e seu primo asiático Tarbosaurus atingiram tamanhos entre 12 e 14 metros de comprimento e pesos estimados em torno de 6 toneladas. Porém, a maioria dos tiranossauróides eram animais mais moderados: Daspletosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus atingiram cerca de 8 a 9 metros de comprimento e deveriam pesar em torno de 2 toneladas.


O grupo era considerado restrito aos continentes do norte, por√©m descobertas recentes sacudiram esse paradigma. Um p√ļbis isolado de 30 cm de comprimento, portando caracter√≠sticas indubitavelmente relacionadas √† tiranossaur√≠deos, foi descrito para os dep√≥sitos de Dinosaur Cove, na Austr√°lia. Descri√ß√Ķes baseadas em esp√©cimes parciais como esse australiano sempre s√£o problem√°ticas, por√©m na aus√™ncia de outros melhores registros, eles devem considerados como relevantes e a possibilidade aceita at√© que melhores materiais venham lan√ßar maior robustez sobre a especula√ß√£o. O que esse material australiano leva a concluir √© que tiranossaur√≥ides de tamanho mediano (com cerca de 3 metros de comprimento) invadiram Gondwana, e habitaram a Austr√°lia, assim como a √Āsia, durante o Cret√°ceo Superior.

            
Pubis encontrado na Autr√°lia e sua classifica√ß√£o taxon√īmica (NMV P186069)

Apesar de filmes populares como Jurassic Park terem nos feito acreditar que Tyrannosaurus rex era um veloz corredor e h√°bil ca√ßador, estudos confi√°veis considerando restri√ß√Ķes fisiol√≥gicas em rela√ß√£o ao seu peso descomunal e o grau de movimenta√ß√£o de seus membros posteriores sugerem velocidades mais modestas em torno de 10 milhas por hora no seu m√°ximo. Tais estudos levaram alguns paleont√≥logos como Dr. Jack Horner a sugerir que Tyrannosaurus e seus parentes deveriam ser mais como animais carniceiros ou predadores lentos de emboscada. Outros pesquisadores acreditam que as presas de T. rex eram provavelmente t√£o lentas quanto ele, portanto, eles poderiam sim ser predadores ativos.

Novos estudos sobre Tyrannosaurus mostram que seu desenvolvimento era r√°pido, embora sua taxa de crescimento acelerado somente se desse nos seus anos tardios. Um T. rex de 10 anos de idade deveria pesar cerca de meia tonelada. Sua maior arrancada no crescimento se daria entre os 13 (peso de uma tonelada) e os 20 anos de idade (alcan√ßando 5 toneladas), sendo que eles devem ter vivido em torno de 30 anos (entre 5 e 6 toneladas). Apesar de tecidos moles fossilizados terem sido encontrados e extra√≠dos de materiais f√≥sseis desses animais, nenhum DNA foi recuperado, e com idade entre 65 e 70 milh√Ķes de anos, √© altamente improv√°vel que seja, at√© mesmo pequenos fragmentos de seu genoma.

Tyrannosaurus e seus parentes incendiaram a imaginação de pessoas de todas as idades, com seus esqueletos glorificados nos museus de história natural. Agora devem ser vistos sob uma nova perspectiva: como parentes próximos das aves. Todavia, para contar o resto da história evolutiva desses animais nós temos que prosseguir e narrar a biografia de outros terópodes mais derivados, aqueles que realmente começaram a assemelhar-se mais a criaturas definitivamente avianas.

No próximo capítulo dessa história: Ornithomimosauria. (Clique aqui)