Arquivo da categoria: Paleontologia Brasileira

Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Sacos a√©reos evolu√≠ram m√ļltiplas vezes!?

A esp√©cie humana est√° na Terra h√° apenas 300 mil anos. Somos jovens nesse pequena planeta azul e din√Ęmico. Os dinossauros, por sua vez, est√£o por aqui h√° pelo menos 233 milh√Ķes de anos, desde o Per√≠odo Tri√°ssico e, n√£o custa lembrar, permanecem vivos at√© hoje na forma das aves. Esse grupo de animais tolerou e se adaptou a uma grande variedade de climas e mudan√ßas dram√°ticas na configura√ß√£o dos continentes ao longo do tempo. Por isso s√£o um modelo excelente para estudarmos evolu√ß√£o biol√≥gica. Eles t√™m muito a nos ensinar sobre os segredos da sobreviv√™ncia.

Durante o auge do reinado dos dinossauros, na Era Mesozoica, o clima do nosso planeta era muito mais quente do que hoje. Uma das caracter√≠sticas que favoreceu este grupo de animais foi a evolu√ß√£o de sacos a√©reos, um tipo de upgrade do sistema respirat√≥rio. Os sacos a√©reos s√£o estruturas conectadas aos pulm√Ķes, que se espalham por toda cavidade tor√°xica e abdominal desses animais, penetrando inclusive os ossos. Est√£o presentes nas aves atuais e n√£o apenas tornam sua respira√ß√£o mais eficiente, mas tamb√©m ajudam a deixar os seus esqueletos mais leves, o que favorece, por exemplo, o voo. Apesar de muito caracter√≠sticos das aves, os sacos a√©reos n√£o s√£o uma exclusividade dos delas. Eles tamb√©m estavam presentes nos dinossauros n√£o-avianos (todos os outros dinossauros, que n√£o as aves) muito antes da evolu√ß√£o do voo.

Esquema mostrando os sacos aéreos em aves atuais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sacos_a%C3%A9reos

Imagina-se que os sacos a√©reos originalmente favoreceram os dinossauros por funcionarem como um sistema eficiente de capta√ß√£o de oxig√™nio e tamb√©m por serem um sistema de refrigera√ß√£o natural. Se voc√™, hoje, fica ofegante fazendo exerc√≠cios no ver√£o quente, saiba que os dinossauros eram (e s√£o!) muito mais eficientes que voc√™ em captar oxig√™nio e se refrigerar. N√£o √© √† toa que eles sa√≠ram na frente na corrida evolutiva (enquanto nosso grupo, o dos mam√≠feros, ficou por quase 150 milh√Ķes de anos no banquinho de reservas evolutivo).

Já é bem sabido que dinossauros do Período Cretáceo, como o T. rex e alguns pescoçudos, como o Ibirania, tinham um extenso sistema de sacos aéreos pelo corpo. Inclusive, bem parecido com os das aves atuais. Só que a origem e evolução deste sistema tem sido um enigma por várias décadas. Será que os primeiros dinossauros, lá do período Triássico, já tinham sacos aéreos?

O que sabíamos era que a pneumaticidade do esqueleto relacionada a um sistema de sacos aéreos estava presente tanto em dinossauros derivados, ou seja, aqueles que viveram durante o Período Cretáceo, quanto em pterossauros, répteis voadores parentes próximos dos dinossauros. Ambos os grupos seguiram um caminho evolutivo independente a partir do Período Triássico. Uma explicação para a presença de sacos aéreos tanto em dinossauros quanto em pterossauros seria que a origem dessas estruturas se deu bem antes deles terem seguido seu caminho evolutivo independente, isto é, ainda em seus ancestrais.

Por√©m, a quest√£o permaneceu em aberto. Faltavam estudos avaliando a presen√ßa dessas estruturas tanto em dinossauros mais antigos quanto em ancestrais dos pterossauros e dinossauros…

Para nossa sorte, o Brasil têm os fósseis dos mais antigos dinossauros e é aí que entra o estudo publicado agora em Dezembro de 2022 pelo nosso grupo de pesquisa, na revista Scientific Reports:

Para tentar solucionar este enigma, um grupo de pesquisadores brasileiros da Unicamp, UFRN, UFSCar e UFSM e um colaborador da Western University of Health Sciences, dos E.U.A., analisaram tr√™s f√≥sseis de alguns dos mais antigos dinossauros do mundo, Buriolestes, Pampadromaeus e Gnathovorax, do Per√≠odo Tri√°ssico do Rio Grande do Sul. Estes s√£o alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos at√© o momento, com 233 milh√Ķes de anos de idade!

Reconstrução do dinossauro herrerassaurídeo Gnathovorax. Arte por Márcio L. Castro.

Foi possível notar que os ossos da coluna vertebral (vértebras) desses animais apresentavam pequenos orifícios nas laterais. Sabemos que os sacos aéreos ingressam no esqueleto através de estruturas semelhantes a isso. Porém, os orifícios encontrados eram muito pequenos, o que talvez indicasse uma outra função.

Realizamos, ent√£o, tomografias de alta resolu√ß√£o (micro-tomografias) para investigar a estrutura interna dos f√≥sseis. A an√°lise revelou uma arquitetura bastante densa nas v√©rtebras desses animais, bem diferente do que conhecemos em esqueletos permeados por sacos a√©reos de dinossauros que viveram no Cret√°ceo ou mesmo as Aves. Por√©m, Buriolestes e Pampadromaeus mostraram uma vascularidade mais complexa no interior das v√©rtebras, do que Gnathovorax. Uma vascularidade mais desenvolvida pode ter servido de alicerce para o surgimento das estruturas pneum√°ticas conhecidas como c√Ęmaras e camelas, t√≠picas da invas√£o das v√©rtebras por sacos a√©reos.

Reconstrução do dinossauro Pampadromaeus. Arte por Márcio L. Castro.

A ausência de pneumaticidade no esqueleto pós-craniano desses dinossauros mais antigos contradiz a hipótese de que os sacos aéreos invasivos presentes em dinossauros e pterossauros são homólogos, ou seja, de que teriam surgido no ancestral comum desses animais. Isso indica que a pneumaticidade óssea associada à sacos aéreos evoluiu pelo menos três vezes independentemente em Avemetatarsalia, grupo que inclui dinossauros, pterossauros e seus parentes. Ou seja, evoluiu de forma independente em pterossauros, dinossauros terópodes (grupo dos dinossauros carnívoros) e sauropodomorfos (grupo dos dinossauros pescoçudos).

Uma árvore simplificada dos dinossauros e seus parentes mostrando a evolução independente dos sacos aéreos em pterossauros, dinossauros terópodes e sauropodomorfos.

Essa descoberta muda a forma como compreend√≠amos os dinossauros e seus parentes. Passo a passo estamos entendendo melhor a sua evolu√ß√£o e o segredo do seu sucesso. √Č poss√≠vel que algum fator ambiental tenha sido o gatilho para a evolu√ß√£o desse sistema sacos a√©reos em diferentes grupos de avemetatarsalianos, mas isso s√£o cenas para os pr√≥ximos cap√≠tulos!

Gostaríamos de agradecer as agências de fomento que tornaram possível esta pesquisa: o CNPq, a FAPESP e a FAPERGS.

Acesse o artigo completo: Aureliano et al. 2022. The absence of an invasive air sac system in the earliest dinosaurs suggests multiple origins of vertebral pneumaticity. Scientific Reports. https://www.nature.com/articles/s41598-022-25067-8

E assista o vídeo de divulgação: https://youtu.be/8XenPxROthY

Um dinossauro pescoçudo nanico é o mais novo dinossauro brasileiro

Os maiores animais a caminharem em terra firme foram os dinossauros saur√≥podes, apelidados de pesco√ßudos. Algumas esp√©cies de pesco√ßudos,¬† como o Argentinosaurus ou o Patagotitan, encontrados na Argentina, podiam ultrapassar 30 metros de comprimento. Verdadeiros colossos capazes de fazer a terra tremer! Mas nem todos os saur√≥podes eram assim… Existiram centenas de esp√©cies desses dinossauros em quase todos os continentes e, apesar da maioria ser conhecida pelo seu grande tamanho, algumas formas adotaram uma tend√™ncia contr√°ria. Existem alguns casos de pesco√ßudos an√Ķes, formas com a altura de um cavalo ou de um camelo, como Magyarosaurus ou Europasaurus, encontrados em ambientes de ilhas antigas. Via de regra, essas formas an√£s s√£o encontradas em ambientes de ilhas, pois devido a restri√ß√£o de √°rea e recursos, a miniaturiza√ß√£o do corpo pode ser uma vantagem. Por√©m, para nossa surpresa, f√≥sseis de uma nova esp√©cie de dinossauro pesco√ßudo an√£o foram encontradas aqui no interior do Brasil, em um lugar que esteve bem longe do mar durante toda a Era dos Dinossauros. Essa esp√©cie de dinossauro foi descoberta na cidade de Ibir√°, no interior de S√£o Paulo, e se tornou uma das menores esp√©cies de dinossauros pesco√ßudos conhecidas do mundo!

Reconstituição da nova espécie de dinossauro anão de Ibirá. Arte por Matheus Gadelha.

Por mais de 15 anos o Prof. Marcelo Fernandes (UFSCar) e seu grupo de pesquisa, eu inclusa, t√™m coletado f√≥sseis no Noroeste Paulista, em uma localidade onde s√£o encontrados abundantes f√≥sseis de dinossauros. As rochas e f√≥sseis dessa localidade datam do Per√≠odo Cret√°ceo e t√™m aproximadamente 80 milh√Ķes de anos. Dentre os f√≥sseis recuperados est√£o restos de dinossauros carn√≠voros, crocodilos, tartarugas e v√°rios outros animais da “Era dos Dinossauros”. Muitos restos de dinossauros herb√≠voros foram encontrados na localidade, mas at√© o momento nenhuma esp√©cie de pesco√ßudo havia sido nomeada para a regi√£o.

Eu procurando por fósseis no sítio onde foram encontrados fósseis do pequeno pescoçudo em Ibirá, SP. Foto por Tito Aureliano.

Fui eu quem trabalhou pela primeira vez, durante a minha gradua√ß√£o, com os f√≥sseis do pequeno dinossauro pesco√ßudo de Ibir√°. √Äquela √©poca, o dinossauro n√£o ganhou nome, mas foi reconhecido como diferente das outras esp√©cies descritas para o Brasil at√© ent√£o. Muito tempo se passou, mais f√≥sseis desse pequeno dinossauro foram encontrados e, finalmente, alguns anos atr√°s, a miss√£o de liderar a descri√ß√£o da esp√©cie desse misterioso dinossauro nanico foi dada ao paleont√≥logo Bruno Navarro, atualmente estudante de doutorado no Museu de Zoologia da USP, e especialista em dinossauros saur√≥podes. Bruno, Marcelo e eu contamos com a ajuda de uma excelente equipe de colaboradores nesse processo e, no √ļltimo dia 15 de setembro, apresentamos formalmente essa nova esp√©cie de dinossauro ao mundo cient√≠fico.

O colega Bruno Navarro em Ibirá, SP, procurando por fósseis. Foto do arquivo pessoal de Bruno.

Comparando os f√≥sseis do pequeno dinossauro de Ibir√° com materiais de outros animais do mesmo grupo encontrados no Brasil e no mundo, foi poss√≠vel concluir que ele pertencia √† fam√≠lia dos saltassauros, um grupo de titanossauros que inclui algumas esp√©cies de j√° de tamanho bastante reduzido. Al√©m disso, o pequeno dinossauro de Ibir√° apresentava v√°rias caracter√≠sticas √ļnicas, n√£o compartilhadas com seus parentes mais pr√≥ximos, logo, uma nova esp√©cie poderia ser batizada. O nome escolhido foi Ibirania parva. Ibirania √© a jun√ß√£o das palavras Ibir√° – cidade onde a esp√©cie foi encontrada – e ania que em grego significa ‚Äúcaminhante, peregrino‚ÄĚ. J√° parva √© o latim para ‚Äėpequeno‚Äô. Como a palavra Ibir√° vem do Tupi para ‚Äú√Ārvore‚ÄĚ – √© poss√≠vel traduzir o nome desse dinossauro como ‚Äúo pequeno peregrino das √°rvores‚ÄĚ.

Reconstituição artística de Ibirania parva por Hugo Cafasso.

Desde o princípio era possível notar que os fósseis desse pescoçudo de Ibirá eram muito pequenos quando comparado a outros titanossauros, mas ao estimar o tamanho aproximado de um dos espécimes analisados, nos surpreendemos. Ele teria entre 5 e 6 metros de comprimento e seria da altura de uma vaca, o que o colocaria entre as menores espécies de saurópodes já descritas do mundo! Para checar se o tamanho reduzido seria porque o  espécime era apenas um jovem quando morreu, resolvemos analisar o tecido ósseo fossilizado do dinossauro ao microscópio. Essas amostras foram analisadas pelo paleontólogo Tito Aureliano, atualmente estudante de doutorado da Unicamp. A partir da análise do tecido ósseo foi possível concluir que Ibirania realmente era uma espécie de titanossauro anão, já que os fósseis pertenciam a um animal adulto no momento de sua morte, ou seja, ele não cresceria mais ao longo de sua vida.

Tamanho estimado de Ibirania parva comparado a um humano de 1,80m. Em destaque as partes descobertas do esqueleto.

Vértebra dorsal de Ibirania parva. Imagem de Navarro et al. (2022). Escala = 10cm.

No interior de S√£o Paulo, durante o final do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° 80 milh√Ķes de anos, caminharam muitos dinossauros pesco√ßudos de grande tamanho, e at√© gigantes, como o Austroposeidon. Mas havia algo de especial na regi√£o de Ibir√°, que favoreceu a exist√™ncia de pesco√ßudos nanicos. Diferente de outros an√Ķes que viviam em ilhas tropicais onde hoje √© a Europa, como Magyarosaurus ou Europasaurus, Ibirania vivia no interior do Brasil, em um ambiente semi-√°rido com per√≠odos chuvosos intercalados por secas intensas. Foi esse ambiente hostil, com recursos limitados periodicamente, que selecionou esses pequenos dinossaurinhos herb√≠voros, que ao inv√©s de migrar, provavelmente permaneciam residentes na regi√£o.

Ibirania √© a primeira esp√©cie comprovadamente an√£ das Am√©ricas e viveu em um contexto muito diferente dos outros dinossauros pesco√ßudos an√Ķes j√° encontrados. Ela acrescenta novas informa√ß√Ķes sobre a evolu√ß√£o dos titanossauros e tamb√©m sobre a ocorr√™ncia de nanismo em dinossauros saur√≥podes. Ibirania recebeu o apelido carinhoso de ‚ÄúBilbo‚ÄĚ, em refer√™ncia ao hobbit de “O Senhor dos An√©is”, por ser um nanico entre gigantes. Se voc√™ quiser saber todas as descobertas que este ‚Äėdinossauro-Hobbit‚Äô j√° forneceu, assista √† playlist: https://www.youtube.com/watch?v=_kH96sPGjfg&list=PLHPifkNwYyYYNFP-wvUXNti7NGkfNQ8hz.

O estudo foi publicado na revista Ameghiniana e pode ser acessado AQUI.

Assista também ao vídeo de divulgação:

Referência:

A. Navarro, B., M. Ghilardi, A. ., Aureliano, T., Díez Díaz, V., N. Bandeira, K. L., S. Cattaruzzi, A. G., V. Iori, F., M. Martine, A., B. Carvalho, A., Anelli, L. E., A. Fernandes, M., & Zaher, H. (2022). A NEW NANOID TITANOSAUR (DINOSAURIA: SAUROPODA) FROM THE UPPER CRETACEOUS OF BRAZIL. Ameghiniana, 59(5), 317-354. https://doi.org/10.5710/AMGH.25.08.2022.3477

A rainha das “cobras-cegas”

Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f√≥ssil de uma esp√©cie de “cobra-cega”, que viveu no Sudeste do Brasil h√° mais de 85 milh√Ķes de anos. Al√©m de o f√≥ssil ser muito importante para o entendimento da evolu√ß√£o do grupo, a esp√©cie √© a maior j√° encontrada entre as cobras-cegas vivas ou extintas. Boipeba tayasuensis, como foi batizada, tinha cerca de 1 metro de comprimento, e sua descoberta preenche uma grande lacuna na hist√≥ria evolutiva das serpentes Scolecophidia.

Boipeba tayasuensis, uma grande cobra-cega do Cret√°ceo do Brasil. Arte de Jorge Blanco.

O fóssil de Boipeba foi encontrado no município de Taiaçu no Oeste do Estado de São Paulo, próximo à Monte Alto, localidade já conhecida pela ampla ocorrência de fósseis do Período Cretáceo. O principal responsável pelo estudo foi Thiago S. Fachini, estudante de doutorado, orientado pela Professora Annie S. Hsiou, ambos da USP de Ribeirão Preto. O estudo ainda contou com a participação de outros dois colegas brasileiros, Silvio Onary e Mário Bronzati, e dois pesquisadores australianos.

O trabalho foi publicado dia 19 de novembro na revista iScience e baseia-se na descri√ß√£o de uma v√©rtebra bem distinta, grande, para uma “cobra-cega”, e com um formato notavelmente achatado. Da√≠ o nome Boipeba, que significa “cobra-achatada” em Tupi-Guarani. O ep√≠teto espec√≠fico, “tayasuensis”, faz refer√™ncia ao munic√≠pio de Taia√ßu, assim, a combina√ß√£o do nome da nova esp√©cie f√≥ssil significa “cobra-achatada de Taia√ßu”.

A distinta vértebra de Boipeba tayasuensis (Fachini et al. 2020).

Boipeba tayasuensis era uma serpente de m√©dio porte, com comprimento estimado em 1 metro, tamanho bastante semelhante ao de outras cobras f√≥sseis do mesmo per√≠odo. O interessante, todavia, √© o fato de Boipeba ser uma serpente Scolecophidia, ou seja, um tipo de “cobra-cega”. Atualmente, as cobras-cegas s√£o pequenas serpentes escavadoras, de h√°bitos essencialmente subterr√Ęneos, que tem os seus olhos bastante reduzidos. As esp√©cies atuais de Scolecophidia n√£o ultrapassam 30 cm de comprimento, o que torna Boipeba uma gigante das cobras-cegas. Mesmo as outras formas f√≥sseis conhecidas n√£o t√™m tamanho compar√°vel ao da “cobra-achatada de Taia√ßu”. O fato de ela ser t√£o grande d√° uma pista aos pesquisadores sobre as tend√™ncias evolutivas do grupo. A “miniaturiza√ß√£o” em Scolecophidia pode ter sido uma tend√™ncia mais recente, acompanhando fatores ambientais e ecol√≥gicos.

Mas não é só o tamanho que torna Boipeba importante. Fósseis de serpentes são muito raros no Cretáceo, ainda mais na Bacia Bauru, unidade geológica na qual ela foi encontrada. Outros fósseis associados à serpentes já haviam sido descobertos, mas este é o primeiro descrito formalmente como espécie. Boipeba, portanto, amplia o nosso conhecimento sobre a diversidade de organismos do Cretáceo da Bacia Bauru e torna a rede ecológica deste antigo paleoambiente mais complexa.

No Cret√°ceo brasileiro, o √ļnico outro registro inequ√≠voco de uma esp√©cie de serpente √© de Seismophis septentrionalis, do Cenomaniano do Maranh√£o (Bacia de S√£o Lu√≠s-Graja√ļ). Tetrapodophis amplectus, comumente referida como a “cobra com patas” do Aptiano-Albiano da Bacia do Araripe, √© questionada por muitos autores e tem uma hist√≥ria bastante complexa (leia mais sobre isso aqui).

Outro aspecto que destaca a descoberta de Boipeba para a Ci√™ncia √© a idade do seu f√≥ssil. Ela √© a esp√©cie mais antiga de cobra-cega j√° descoberta. Os registros mais antigos de Scolecophidia at√© ent√£o encontrados, eram datados do final do Paleoceno e in√≠cio do Eoceno da Europa e √Āfrica (cerca de 56 milh√Ķes de anos atr√°s). Contudo, an√°lises moleculares estimavam o surgimento do grupo para o Cret√°ceo. Boipeba confirma essa hip√≥tese. A diversifica√ß√£o inicial das cobras-cegas pode ter acontecido na Am√©rica do Sul e o Brasil pode ter sido um dos palcos principais deste evento evolutivo.

Boipeba estende o registro de Scolecophidia para o Cret√°ceo Superior do Brasil, preenchendo uma lacuna no espa√ßo e no tempo para a compreens√£o evolutiva do grupo. As previs√Ķes moleculares agora ganharam sustento de evid√™ncias paleontol√≥gicas.

Boipeba √© mais uma descoberta recente que demonstra como o territ√≥rio brasileiro √© importante para a Paleontologia mundial. As contribui√ß√Ķes que o artigo de Boipeba traz s√£o fundamentais para os estudiosos de evolu√ß√£o de serpentes e, com certeza, atrair√£o a aten√ß√£o de paleont√≥logos do mundo para os estratos rochosos do interior de S√£o Paulo.

NOTA: o grupo mais popularmente conhecido como “cobra-cega” s√£o as cec√≠lias, ou gimnofionas, que s√£o um tipo de anf√≠bio. As Scolecophidia, um grupo de serpente, todavia, tamb√©m podem ser chamadas de “cobras-cegas” por conta de seus olhos reduzidos.

Referência:

Fachini, T. S., Onary, S., Palci, A., Lee, M. S. Y., Bronzati, M., Hsiou, A. S. CRETACEOUS BLINDSNAKE FROM BRAZIL FILLS MAJOR GAP IN SNAKE EVOLUTION. iScience, 1-40. doi: https://doi.org/10.101 /j.isci.2020.101834