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Um dinossauro pescoçudo nanico é o mais novo dinossauro brasileiro

Os maiores animais a caminharem em terra firme foram os dinossauros saur√≥podes, apelidados de pesco√ßudos. Algumas esp√©cies de pesco√ßudos,¬† como o Argentinosaurus ou o Patagotitan, encontrados na Argentina, podiam ultrapassar 30 metros de comprimento. Verdadeiros colossos capazes de fazer a terra tremer! Mas nem todos os saur√≥podes eram assim… Existiram centenas de esp√©cies desses dinossauros em quase todos os continentes e, apesar da maioria ser conhecida pelo seu grande tamanho, algumas formas adotaram uma tend√™ncia contr√°ria. Existem alguns casos de pesco√ßudos an√Ķes, formas com a altura de um cavalo ou de um camelo, como Magyarosaurus ou Europasaurus, encontrados em ambientes de ilhas antigas. Via de regra, essas formas an√£s s√£o encontradas em ambientes de ilhas, pois devido a restri√ß√£o de √°rea e recursos, a miniaturiza√ß√£o do corpo pode ser uma vantagem. Por√©m, para nossa surpresa, f√≥sseis de uma nova esp√©cie de dinossauro pesco√ßudo an√£o foram encontradas aqui no interior do Brasil, em um lugar que esteve bem longe do mar durante toda a Era dos Dinossauros. Essa esp√©cie de dinossauro foi descoberta na cidade de Ibir√°, no interior de S√£o Paulo, e se tornou uma das menores esp√©cies de dinossauros pesco√ßudos conhecidas do mundo!

Reconstituição da nova espécie de dinossauro anão de Ibirá. Arte por Matheus Gadelha.

Por mais de 15 anos o Prof. Marcelo Fernandes (UFSCar) e seu grupo de pesquisa, eu inclusa, t√™m coletado f√≥sseis no Noroeste Paulista, em uma localidade onde s√£o encontrados abundantes f√≥sseis de dinossauros. As rochas e f√≥sseis dessa localidade datam do Per√≠odo Cret√°ceo e t√™m aproximadamente 80 milh√Ķes de anos. Dentre os f√≥sseis recuperados est√£o restos de dinossauros carn√≠voros, crocodilos, tartarugas e v√°rios outros animais da “Era dos Dinossauros”. Muitos restos de dinossauros herb√≠voros foram encontrados na localidade, mas at√© o momento nenhuma esp√©cie de pesco√ßudo havia sido nomeada para a regi√£o.

Eu procurando por fósseis no sítio onde foram encontrados fósseis do pequeno pescoçudo em Ibirá, SP. Foto por Tito Aureliano.

Fui eu quem trabalhou pela primeira vez, durante a minha gradua√ß√£o, com os f√≥sseis do pequeno dinossauro pesco√ßudo de Ibir√°. √Äquela √©poca, o dinossauro n√£o ganhou nome, mas foi reconhecido como diferente das outras esp√©cies descritas para o Brasil at√© ent√£o. Muito tempo se passou, mais f√≥sseis desse pequeno dinossauro foram encontrados e, finalmente, alguns anos atr√°s, a miss√£o de liderar a descri√ß√£o da esp√©cie desse misterioso dinossauro nanico foi dada ao paleont√≥logo Bruno Navarro, atualmente estudante de doutorado no Museu de Zoologia da USP, e especialista em dinossauros saur√≥podes. Bruno, Marcelo e eu contamos com a ajuda de uma excelente equipe de colaboradores nesse processo e, no √ļltimo dia 15 de setembro, apresentamos formalmente essa nova esp√©cie de dinossauro ao mundo cient√≠fico.

O colega Bruno Navarro em Ibirá, SP, procurando por fósseis. Foto do arquivo pessoal de Bruno.

Comparando os f√≥sseis do pequeno dinossauro de Ibir√° com materiais de outros animais do mesmo grupo encontrados no Brasil e no mundo, foi poss√≠vel concluir que ele pertencia √† fam√≠lia dos saltassauros, um grupo de titanossauros que inclui algumas esp√©cies de j√° de tamanho bastante reduzido. Al√©m disso, o pequeno dinossauro de Ibir√° apresentava v√°rias caracter√≠sticas √ļnicas, n√£o compartilhadas com seus parentes mais pr√≥ximos, logo, uma nova esp√©cie poderia ser batizada. O nome escolhido foi Ibirania parva. Ibirania √© a jun√ß√£o das palavras Ibir√° – cidade onde a esp√©cie foi encontrada – e ania que em grego significa ‚Äúcaminhante, peregrino‚ÄĚ. J√° parva √© o latim para ‚Äėpequeno‚Äô. Como a palavra Ibir√° vem do Tupi para ‚Äú√Ārvore‚ÄĚ – √© poss√≠vel traduzir o nome desse dinossauro como ‚Äúo pequeno peregrino das √°rvores‚ÄĚ.

Reconstituição artística de Ibirania parva por Hugo Cafasso.

Desde o princípio era possível notar que os fósseis desse pescoçudo de Ibirá eram muito pequenos quando comparado a outros titanossauros, mas ao estimar o tamanho aproximado de um dos espécimes analisados, nos surpreendemos. Ele teria entre 5 e 6 metros de comprimento e seria da altura de uma vaca, o que o colocaria entre as menores espécies de saurópodes já descritas do mundo! Para checar se o tamanho reduzido seria porque o  espécime era apenas um jovem quando morreu, resolvemos analisar o tecido ósseo fossilizado do dinossauro ao microscópio. Essas amostras foram analisadas pelo paleontólogo Tito Aureliano, atualmente estudante de doutorado da Unicamp. A partir da análise do tecido ósseo foi possível concluir que Ibirania realmente era uma espécie de titanossauro anão, já que os fósseis pertenciam a um animal adulto no momento de sua morte, ou seja, ele não cresceria mais ao longo de sua vida.

Tamanho estimado de Ibirania parva comparado a um humano de 1,80m. Em destaque as partes descobertas do esqueleto.
Vértebra dorsal de Ibirania parva. Imagem de Navarro et al. (2022). Escala = 10cm.

No interior de S√£o Paulo, durante o final do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° 80 milh√Ķes de anos, caminharam muitos dinossauros pesco√ßudos de grande tamanho, e at√© gigantes, como o Austroposeidon. Mas havia algo de especial na regi√£o de Ibir√°, que favoreceu a exist√™ncia de pesco√ßudos nanicos. Diferente de outros an√Ķes que viviam em ilhas tropicais onde hoje √© a Europa, como Magyarosaurus ou Europasaurus, Ibirania vivia no interior do Brasil, em um ambiente semi-√°rido com per√≠odos chuvosos intercalados por secas intensas. Foi esse ambiente hostil, com recursos limitados periodicamente, que selecionou esses pequenos dinossaurinhos herb√≠voros, que ao inv√©s de migrar, provavelmente permaneciam residentes na regi√£o.

Ibirania √© a primeira esp√©cie comprovadamente an√£ das Am√©ricas e viveu em um contexto muito diferente dos outros dinossauros pesco√ßudos an√Ķes j√° encontrados. Ela acrescenta novas informa√ß√Ķes sobre a evolu√ß√£o dos titanossauros e tamb√©m sobre a ocorr√™ncia de nanismo em dinossauros saur√≥podes. Ibirania recebeu o apelido carinhoso de ‚ÄúBilbo‚ÄĚ, em refer√™ncia ao hobbit de “O Senhor dos An√©is”, por ser um nanico entre gigantes. Se voc√™ quiser saber todas as descobertas que este ‚Äėdinossauro-Hobbit‚Äô j√° forneceu, assista √† playlist: https://www.youtube.com/watch?v=_kH96sPGjfg&list=PLHPifkNwYyYYNFP-wvUXNti7NGkfNQ8hz.

O estudo foi publicado na revista Ameghiniana e pode ser acessado AQUI.

Assista também ao vídeo de divulgação:

Referência:

A. Navarro, B., M. Ghilardi, A. ., Aureliano, T., Díez Díaz, V., N. Bandeira, K. L., S. Cattaruzzi, A. G., V. Iori, F., M. Martine, A., B. Carvalho, A., Anelli, L. E., A. Fernandes, M., & Zaher, H. (2022). A NEW NANOID TITANOSAUR (DINOSAURIA: SAUROPODA) FROM THE UPPER CRETACEOUS OF BRAZIL. Ameghiniana, 59(5), 317-354. https://doi.org/10.5710/AMGH.25.08.2022.3477

A rainha das “cobras-cegas”

Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f√≥ssil de uma esp√©cie de “cobra-cega”, que viveu no Sudeste do Brasil h√° mais de 85 milh√Ķes de anos. Al√©m de o f√≥ssil ser muito importante para o entendimento da evolu√ß√£o do grupo, a esp√©cie √© a maior j√° encontrada entre as cobras-cegas vivas ou extintas. Boipeba tayasuensis, como foi batizada, tinha cerca de 1 metro de comprimento, e sua descoberta preenche uma grande lacuna na hist√≥ria evolutiva das serpentes Scolecophidia.

Boipeba tayasuensis, uma grande cobra-cega do Cret√°ceo do Brasil. Arte de Jorge Blanco.

O fóssil de Boipeba foi encontrado no município de Taiaçu no Oeste do Estado de São Paulo, próximo à Monte Alto, localidade já conhecida pela ampla ocorrência de fósseis do Período Cretáceo. O principal responsável pelo estudo foi Thiago S. Fachini, estudante de doutorado, orientado pela Professora Annie S. Hsiou, ambos da USP de Ribeirão Preto. O estudo ainda contou com a participação de outros dois colegas brasileiros, Silvio Onary e Mário Bronzati, e dois pesquisadores australianos.

O trabalho foi publicado dia 19 de novembro na revista iScience e baseia-se na descri√ß√£o de uma v√©rtebra bem distinta, grande, para uma “cobra-cega”, e com um formato notavelmente achatado. Da√≠ o nome Boipeba, que significa “cobra-achatada” em Tupi-Guarani. O ep√≠teto espec√≠fico, “tayasuensis”, faz refer√™ncia ao munic√≠pio de Taia√ßu, assim, a combina√ß√£o do nome da nova esp√©cie f√≥ssil significa “cobra-achatada de Taia√ßu”.

A distinta vértebra de Boipeba tayasuensis (Fachini et al. 2020).

Boipeba tayasuensis era uma serpente de m√©dio porte, com comprimento estimado em 1 metro, tamanho bastante semelhante ao de outras cobras f√≥sseis do mesmo per√≠odo. O interessante, todavia, √© o fato de Boipeba ser uma serpente Scolecophidia, ou seja, um tipo de “cobra-cega”. Atualmente, as cobras-cegas s√£o pequenas serpentes escavadoras, de h√°bitos essencialmente subterr√Ęneos, que tem os seus olhos bastante reduzidos. As esp√©cies atuais de Scolecophidia n√£o ultrapassam 30 cm de comprimento, o que torna Boipeba uma gigante das cobras-cegas. Mesmo as outras formas f√≥sseis conhecidas n√£o t√™m tamanho compar√°vel ao da “cobra-achatada de Taia√ßu”. O fato de ela ser t√£o grande d√° uma pista aos pesquisadores sobre as tend√™ncias evolutivas do grupo. A “miniaturiza√ß√£o” em Scolecophidia pode ter sido uma tend√™ncia mais recente, acompanhando fatores ambientais e ecol√≥gicos.

Mas não é só o tamanho que torna Boipeba importante. Fósseis de serpentes são muito raros no Cretáceo, ainda mais na Bacia Bauru, unidade geológica na qual ela foi encontrada. Outros fósseis associados à serpentes já haviam sido descobertos, mas este é o primeiro descrito formalmente como espécie. Boipeba, portanto, amplia o nosso conhecimento sobre a diversidade de organismos do Cretáceo da Bacia Bauru e torna a rede ecológica deste antigo paleoambiente mais complexa.

No Cret√°ceo brasileiro, o √ļnico outro registro inequ√≠voco de uma esp√©cie de serpente √© de Seismophis septentrionalis, do Cenomaniano do Maranh√£o (Bacia de S√£o Lu√≠s-Graja√ļ). Tetrapodophis amplectus, comumente referida como a “cobra com patas” do Aptiano-Albiano da Bacia do Araripe, √© questionada por muitos autores e tem uma hist√≥ria bastante complexa (leia mais sobre isso aqui).

Outro aspecto que destaca a descoberta de Boipeba para a Ci√™ncia √© a idade do seu f√≥ssil. Ela √© a esp√©cie mais antiga de cobra-cega j√° descoberta. Os registros mais antigos de Scolecophidia at√© ent√£o encontrados, eram datados do final do Paleoceno e in√≠cio do Eoceno da Europa e √Āfrica (cerca de 56 milh√Ķes de anos atr√°s). Contudo, an√°lises moleculares estimavam o surgimento do grupo para o Cret√°ceo. Boipeba confirma essa hip√≥tese. A diversifica√ß√£o inicial das cobras-cegas pode ter acontecido na Am√©rica do Sul e o Brasil pode ter sido um dos palcos principais deste evento evolutivo.

Boipeba estende o registro de Scolecophidia para o Cret√°ceo Superior do Brasil, preenchendo uma lacuna no espa√ßo e no tempo para a compreens√£o evolutiva do grupo. As previs√Ķes moleculares agora ganharam sustento de evid√™ncias paleontol√≥gicas.

Boipeba √© mais uma descoberta recente que demonstra como o territ√≥rio brasileiro √© importante para a Paleontologia mundial. As contribui√ß√Ķes que o artigo de Boipeba traz s√£o fundamentais para os estudiosos de evolu√ß√£o de serpentes e, com certeza, atrair√£o a aten√ß√£o de paleont√≥logos do mundo para os estratos rochosos do interior de S√£o Paulo.

NOTA: o grupo mais popularmente conhecido como “cobra-cega” s√£o as cec√≠lias, ou gimnofionas, que s√£o um tipo de anf√≠bio. As Scolecophidia, um grupo de serpente, todavia, tamb√©m podem ser chamadas de “cobras-cegas” por conta de seus olhos reduzidos.

Referência:

Fachini, T. S., Onary, S., Palci, A., Lee, M. S. Y., Bronzati, M., Hsiou, A. S. CRETACEOUS BLINDSNAKE FROM BRAZIL FILLS MAJOR GAP IN SNAKE EVOLUTION. iScience, 1-40. doi: https://doi.org/10.101 /j.isci.2020.101834

Vespersaurus: Um novo dino brasileiro

Estudo publicado nesta quarta-feira (26/06/19) na revista¬†Scientific Reports, do grupo Nature, apresenta uma nova esp√©cie de dinossauro brasileiro, que viveu no Per√≠odo Cret√°ceo, h√° cerca de 90 milh√Ķes de anos.

Figura-4
Reconstrução em vida de Vespersaurus paranensis. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

O fóssil foi encontrado no município de Cruzeiro do Oeste, PR, e foi estudado por paleontólogos das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Maringá (UEM), além de pesquisadores do Museo Argentino de Ciências Naturales e do Museu de Paleontologia de Cruzeiro do Oeste. A nova espécie foi nomeada Vespersaurus paranaensis.

Vesper (do latim) significa oeste/entardecer, em referência ao nome da cidade onde foi descoberto o fóssil, e paranaensis faz uma homenagem ao Estado do Paraná, já que este é o primeiro dinossauro paranaense descrito.

Os f√≥sseis da nova esp√©cie de dinossauro pertencem a um grupo de dinossauros carn√≠voros chamados de Noasaurinae. Os Noasaurinae s√£o abelissauros diferent√Ķes, de pequeno porte, encontrados desde a Argentina at√© Madagascar (com poss√≠veis registros na √ćndia). Estes ter√≥podes viveram em uma √©poca em que¬†os¬†continentes do sul ainda estavam unidos, formando o Gondwana, e transitavam de um lado para o outro, cruzando um imenso deserto que¬†existia entre o Brasil e a √Āfrica.
Restos de Noasaurinae j√° eram conhecidos para o Brasil (veja Lindoso et al., 2012 e Brum et al., 2016), mas este √© o material mais completo encontrado at√© o momento. √Č tamb√©m o material mais completo de dinossauro¬†ter√≥pode descrito para o Brasil at√© agora, com quase metade do esqueleto encontrado.

Figura-3
Representação tridimensional do esqueleto de Vespersaurus paranensis indicando (em cor sólida) os ossos que foram encontrados. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

O novo dinossauro possu√≠a v√©rtebras pneum√°ticas, que conferiam leveza ao seu esqueleto, como nas aves viventes, e um bra√ßo muito reduzido (com menos da metade do comprimento da perna). Por√©m, a sua caracter√≠stica anat√īmica mais peculiar¬†eram os p√©s. Seu peso era praticamente todo suportado por um √ļnico dedo central, sendo o animal funcionalmente monod√°ctilo, como os cavalos. Os dedos que flanqueavam¬†o d√≠gito central, por sua vez, possu√≠am grandes garras em forma de l√Ęmina, que¬†deveriam servir para cortar e raspar carne.

Figura-1
Pata direita de Vespersaurus paranensis como preservada na rocha, note a garra do quarto dedo em forma de l√Ęmina. Foto de Paulo Manzig.

As rochas do noroeste paranaense, nas quais Vespersaurus foi preservado formaram-se em ambientes desérticos, o que sugere que o animal deveria ser adaptado a esse tipo de clima. Na década de 70, em rochas relacionadas, o paleontólogo Giuseppe Leonardi descobriu uma ampla assembleia de pegadas fósseis. Algumas, feitas por um pequeno dinossauro bípede, carnívoro, aparentemente monodáctilo. À época não se conhecia nenhum animal com tais características ao qual elas pudessem ser atribuídas. Muito tempo depois, o produtor parece ter sido encontrado.

Figura-5
Reconstrução em vida do pé de Vespersaurus paranensis. Crédito da imagem: Rodolfo Nogueira.

Vespersaurus paranaensis n√£o √© primeira esp√©cie¬†cret√°cica a ser encontrada no noroeste do Paran√°. No mesmo s√≠tio fossil√≠fero em Cruzeiro do Oeste foram descobertos tamb√©m o lagarto Gueragama sulamericana e in√ļmeros indiv√≠duos do pterossauro Caiuajara dobruskii.¬†A descoberta de mais¬†uma esp√©cie f√≥ssil em Cruzeiro do Oeste deve impulsionar¬†as pesquisas paleontol√≥gicas na regi√£o.

Veja o artigo:

Langer et al., 2019. A new desert-dwelling dinosaur (Theropoda, Noasaurinae) from the Cretaceous of south Brazil. Scientific Reports https://www.nature.com/articles/s41598-019-45306-9

Demais referências:

Brum, A.S., Machado, E.B., de Almeida Campos, D. and Kellner, A.W.A., 2016. Morphology and internal structure of two new abelisaurid remains (Theropoda, Dinosauria) from the Adamantina Formation (Turonian‚ÄďMaastrichtian), Bauru Group, Paran√° Basin, Brazil.¬†Cretaceous Research,¬†60, pp.287-296.

Lindoso, R.M., Medeiros, M.A., de Souza Carvalho, I. and da Silva Marinho, T., 2012. Masiakasaurus-like theropod teeth from the Alc√Ęntara Formation, S√£o Lu√≠s Basin (Cenomanian), northeastern Brazil.¬†Cretaceous Research,¬†36, pp.119-124.

Finalmente, o mamífero do Cretáceo do Brasil!

Brasilestes stardusti √© o seu nome,¬†em alus√£o ao Brasil e a Ziggy Stardust, um personagem criado¬†pelo m√ļsico brit√Ęnico David Bowie, falecido em 2016, ano em que o f√≥ssil foi descoberto.

Brasilestes

O f√≥ssil em quest√£o tem apenas 3,5mm e trata-se de um √ļnico dente pr√©-molar. Pode n√£o parecer grande coisa, mas √© uma descoberta h√° muito tempo esperada. Tanto que, apesar de n√£o escrever h√° muito tempo no blog, achei que isto, particularmente, merecia uma comemora√ß√£o!

A publicação do material foi feita hoje, na revista científica Royal Society Open Science e conta com a participação de pesquisadores brasileiros da UFG, USP e Unicamp, além de paleontólogos argentinos e estadunidenses. O estudo foi liderado pela Dra. Mariela Castro (UFG), especialista em mamíferos fósseis e, com certeza, uma grande fã de Bowie.

O pequeno dente, t√£o importante,¬†foi encontrado¬†nas rochas ricas em f√≥sseis do interior do estado de S√£o Paulo, mais especificamente, no munic√≠pio de General Salgado, oeste paulista. Estas rochas datam¬†do final Per√≠odo Cret√°ceo,¬†entre¬†80 e 75 milh√Ķes de anos, √©poca em que os dinossauros ainda reinavam soberanos¬†nos ecossistemas terrestres. Isso torna Brasilestes o mais antigo mam√≠fero conhecido para o Brasil.

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Com um tamanho reconstituído aproximado do de um gambá atual (cerca de 50cm de comprimento), Brasilestes certamente se esquivou das passadas de gigantes pescoçudos herbívoros e fugiu das ferozes mandíbulas de uma miríade de crocodilos terrestres, uma pequena amostra da paleofauna que habitava o interior de São Paulo no final do Cretáceo.

At√© a presente data, nenhum vest√≠gio corporal de mam√≠fero f√≥ssil havia sido¬†apropriadamente descrito para¬†as rochas cret√°cicas¬†do Brasil. Na verdade, para todas as rochas¬†da Era Mesozoica brasileira. O f√≥ssil “do tal mam√≠fero”, sempre havia sido o “Santo Graal” da paleontologia brasileira, buscado incansavelmente por v√°rios grupos de pesquisadores. Por isso, √© uma alegria ele ter sido finalmente encontrado.

Para n√£o dizer que este √© realmente o primeiro registro corporal de mam√≠fero cret√°cico do Brasil, o f√≥ssil de um pequeno peda√ßo de mand√≠bula com um √ļnico dente inserido havia sido encontrado em rochas do mesmo contexto geol√≥gico na d√©cada¬†1990. Apesar de publicado h√° tempos, o material n√£o foi¬†descrito¬†apropriadamente na √©poca, e encontra-se, at√© hoje, inacess√≠vel para a grande maioria¬†dos paleont√≥logos brasileiros.

O outro registro¬†fossil√≠fero atribu√≠do¬†a mam√≠feros mesozoicos do Brasil ou, pelo menos, de organismos “mamaliformes”,¬†s√£o as pegadas f√≥sseis da chamada Forma√ß√£o Botucatu, uma unidade geol√≥gica que representa um antigo deserto que existiu no interior de S√£o Paulo h√°¬† pelo menos 130 milh√Ķes de anos.¬†Estas pegadas (assista um v√≠deo nosso falando sobre isto aqui) s√£o mais antigas do que Brasilestes,¬†mas, infelizmente, nunca puderam¬†ser atribu√≠das com certeza a um mam√≠fero verdadeiro.

Brasilestes √© muito importante, porque fornece a primeira identifica√ß√£o mais precisa sobre um mam√≠fero do Cret√°ceo do Brasil. A¬†morfologia do dente encontrado indica que o mesmo pertencia a um mam√≠fero Tribosphenida, ou seja, um mam√≠fero do grupo que re√ļne os placent√°rios e marsupiais.

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Os mam√≠feros tribosf√™nidos contam com diversos registros no Cret√°ceo do hemisf√©rio norte. Por√©m, no hemisf√©rio sul, apenas haviam sido¬†encontrados¬†na √ćndia, em Madagascar e no norte da Am√©rica do Sul.¬†A descri√ß√£o de¬†Brasilestes stardusti¬†veio preencher uma lacuna importante no registro de mam√≠feros mesozoicos, ressaltando a import√Ęncia do Brasil para a compreens√£o da hist√≥ria evolutiva do grupo.

Por mais absurdo que possa parecer descrever uma nova esp√©cie com base em um √ļnico dente, essa √© uma situa√ß√£o muito comum para mam√≠feros f√≥sseis. O¬†registro fossil√≠fero desse grupo √© relativamente raro e, majoritariamente baseado na¬†ocorr√™ncia de dentes isolados, lembrando que dentes s√£o elementos muito resistentes¬†e preservam-se¬†com maior facilidade¬†do que ossos. Por esta raz√£o,¬†para mam√≠feros f√≥sseis,¬†caracter√≠sticas¬†da denti√ß√£o s√£o muito utilizadas¬†como caracteres diagn√≥sticos de esp√©cies

A equipe envolvida no trabalho também realizou outras análises no fóssil para ajudar em sua identificação, como a avaliação da microestrutura do esmalte dentário.

A cobertura de esmalte¬†encontrada, com cerca de 20 m√≠crons, √© bem mais fina do que a dos dentes de outros mam√≠feros mesozoicos (entre 100 e 300 m√≠crons). Al√©m disso, poucas esp√©cies de mam√≠feros atuais t√™m caracter√≠stica semelhante, entre eles, alguns Xenarthra (ordem que inclui os tatus, tamandu√°s e pregui√ßas). Esta observa√ß√£o suscita uma poss√≠vel rela√ß√£o entre¬†Brasilestes¬†e este grupo de mam√≠feros. A diverg√™ncia (ou origem)¬†dos xenartros,¬†calculada por meio da t√©cnica chamada de “rel√≥gio molecular”, teria se de dado exatamente nessa √©poca, h√° pelo menos 85 milh√Ķes de anos.

Os mam√≠feros eram elementos relativamente raros em ecossistemas da Era Mesozoica. Ocupavam¬†nichos secund√°rios, eram,¬†via de regra, pequenos e¬†predominantemente generalistas. A maioria, talvez tivesse h√°bitos noturnos e fosse arbor√≠cola ou fossorial.¬†Essas s√£o algumas raz√Ķes para os f√≥sseis de¬†Brasilestes¬†serem t√£o raros.¬†Provavelmente estes organismos eram entidades pouco abundantes em seu paleoecossistema e/ou tinham tamanhos muito pequenos¬†para que seus¬†elementos √≥sseos delicados¬†fossem preservados e/ou vivessem longe da √°rea favor√°vel para preserva√ß√£o de¬†f√≥sseis.

Tenho certeza de que esta publica√ß√£o traz novas esperan√ßas aos paleont√≥logos brasileiros. Que mais f√≥sseis sejam encontrados em breve e ajudem a responder as quest√Ķes que Brasilestes trouxe √† tona (veja mais aqui).¬†Para fechar, vale sempre a pena lembrar, que os¬†mortos t√™m muita hist√≥ria para contar. Este, especificamente, marcou seu nome na “cal√ßada da fama” da paleontologia nacional, tal qual o grande artista¬†David¬†Bowie deixou sua marca¬†no famoso passadi√ßo hollywoodiano.

Referência:

Castro MC, Goin FJ, Ortiz-Jaureguizar E, Vieytes EC, Tsukui K, Ramezani J, Batezelli A, Marsola JCA, Langer MC. 2018 A late Cretaceous mammal from Brazil and the first radioisotopic age for the Bauru Group. R. Soc. open sci. 5: 180482.  http://dx.doi.org/10.1098/rsos.180482

Análise quantitativa dos fósseis de Dinossauros do Brasil e da Argentina

Esta contribui√ß√£o foi feita pelo aluno de gradua√ß√£o da Universidade Federal de Uberl√Ęndia chamado Rodolfo Ot√°vio dos Santos. Atualmente ele se encontra no 5¬ļ periodo do curso de Ci√™ncias Biol√≥gicas e est√° estagiando no Laborat√≥rio de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU). Devido ao seu interesse na √°rea e de auxiliar na divulga√ß√£o sobre tais assuntos ele seguir√° contribuindo com mais postagens sobre os mais variados t√≥picos (obs: aguardem temas nerds hehe).
Ent√£o vamos ao texto!
Entre 225 e 65 milh√Ķes de anos, durante a Era Mesoz√≥ica, o planeta Terra foi dominado pelos Dinossauros, principalmente pelas linhagens n√£o-avianas. Na regi√£o onde hoje √© a Am√©rica do Sul, mais especificamente Brasil e Argentina, numerosas esp√©cies desses animais prosperaram e deixaram muitas evid√™ncias deste passado remoto, sob a forma de f√≥sseis. Considerando-se a geografia atual, o Brasil possui uma √°rea de aproximadamente 8,5 milh√Ķes de km¬≤, enquanto nossos vizinhos t√™m apenas cerca de 2,8 milh√Ķes de km¬≤. Numa an√°lise superficial, levando em conta apenas a √°rea total, espera-se que o pa√≠s com maior territ√≥rio possua uma quantidade superior de esp√©cies preservadas na forma de f√≥sseis. Por√©m, at√© o ano de 2010, mais de 110 f√≥sseis de diferentes esp√©cies de dinossauros foram encontrados em terras argentinas, enquanto no territ√≥rio brasileiro, at√© o mesmo periodo, pouco mais de 20. Este cen√°rio se mant√©m at√© os dias atuais em termos de propor√ß√£o. Este texto busca explicar as raz√Ķes para tamanha diferen√ßa na quantidade de esp√©cies de dinossauros entre os dois pa√≠ses tendo como base as discuss√Ķes iniciadas por Anelli (2010).
 
Os f√≥sseis de dinossauros s√£o conhecidos pelo homem h√° mil√™nios: Na China, dois mil anos atr√°s, em rochas jur√°ssicas, esqueletos fossilizados eram encontrados e atribu√≠dos a drag√Ķes. Apenas no s√©c. XIX o ser humano passou a compreender melhor a origem e preserva√ß√£o dos f√≥sseis, gra√ßas a avan√ßos cient√≠ficos importantes da Biologia e da Geologia. No Brasil, durante os per√≠odos colonial e Imperial, e o in√≠cio da Rep√ļblica, v√°rios relatos atribuem f√≥sseis de vertebrados a dinossauros. Por√©m, sabe-se que a maioria dessas atribui√ß√Ķes na verdade n√£o correspondiam a dinossauros, e sim a outros grupos pr√≥ximos (Crocodilomorfos, por exemplo). Al√©m disso, muitos materiais foram enviados para fora do pa√≠s, e acabaram se perdendo, n√£o havendo como confirmar sua afinidade para com os dinossauros. O primeiro paleont√≥logo a realizar trabalhos mais consistentes no Brasil foi o dinamarqu√™s Peter Wilhelm Lund, que chegou ao pa√≠s em 1825 e por vinte anos procurou por f√≥sseis no estado de Minas Gerais, sendo ent√£o considerado o pai da paleontologia brasileira.
 
Lund, por√©m, estava interessado em prospectar e estudar vest√≠gios de seres humanos pr√©-hist√≥ricos, tendo explorando rochas do per√≠odo Pleistoc√™nico, muito mais recentes do que aquelas onde se espera encontrar os dinossauros n√£o avianos, h√° muito j√° extintos. Foi o ga√ļcho Llewellyn Ivor Price, durante a d√©cada de 30 do s√©culo XX que iniciou os estudos de dinossauros de forma mais profunda no Brasil. Price realizou escava√ß√Ķes no tri√Ęngulo mineiro, na regi√£o de Peir√≥polis, e no Rio Grande do Sul, coletando f√≥sseis de crocodilos e dinossauros. No ano de 1970 foi descrito o primeiro dinossauro brasileiro, o Staurikosaurus pricei Colbert, 1970, a partir de f√≥sseis coletados por Price, cujo nome o homenageava. Vale ressaltar que embora esta seja a primeira esp√©cie descrita para o Brasil, seu material encontra-se depositado em cole√ß√Ķes estrangeiras. Enquanto isso, na Argentina, os irm√£os Florentino e Carlos Ameghino, pioneiros da paleontologia no pa√≠s, realizaram escava√ß√Ķes em rochas da Era Mesoz√≥ica, encontrando e descrevendo o primeiro f√≥ssil de dinossauro argentino, o Argyrosaurus superbus Lydekker, 1893, no ano de 1893, 77 anos antes do Staurikosaurus pricei. Na d√©cada de 70, quando o Brasil possu√≠a apenas um dinossauro descrito, j√° eram conhecidas 23 esp√©cies argentinas.
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A esquerda Peter Wilhelm Lund e a direita Llewellyn Ivor Price, grandes paleontologos do cenário brasileiro.
Nos anos 2000, a Paleontologia ganhou destaque na m√≠dia, gra√ßas a filmes como ‚ÄúJurassic Park‚ÄĚ, o que influenciou positivamente a quantidade de pesq¬†uisas sobre dinossauros no Brasil. Por√©m, ainda assim, a propor√ß√£o de f√≥sseis encontrados na Argentina continuou sendo maior em rela√ß√£o √† brasileira. Portanto, h√° outros fatores, al√©m do tempo de pesquisa, que explicam a diferen√ßa dos n√ļmeros.
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A grande e comovente cena final do Jurassic Park (1993) que motivou uma nova geração de paleontólogos (fonte: http://vignette4.wikia.nocookie.net/jurassicpark/images/a/ae/T-rex-jurassic-park-1-.jpg/revision/latest?cb=20120816155226)
 
Os f√≥sseis s√£o encontrados majoritariamente em rochas sedimentares. Comparado √† Argentina, o Brasil possui uma √°rea aproximadamente quatro vezes maior onde existem afloramentos de rochas sedimentares da Era Mesoz√≥ica. Na mais antiga das subdivis√Ķes da Era Mesoz√≥ica, o Per√≠odo Tri√°ssico, f√≥sseis de dinossauros s√£o raros, n√£o apenas na Am√©rica do Sul, e sim em todo mundo. Isso ocorre porque apesar das principais linhagens de dinossauros j√° terem aparecido neste momento, elas ainda n√£o haviam se diversificado, o que s√≥ ocorreu de forma expressiva no per√≠odo seguinte, o Jur√°ssico. S√£o conhecidos doze f√≥sseis argentinos desse per√≠odo, e no Brasil, seis. Levando em considera√ß√£o essa baixa diversifica√ß√£o dos dinossauros tri√°ssicos, conclui-se que a pequena diferen√ßa nos n√ļmeros de f√≥sseis entre os dois pa√≠ses n√£o √© suficiente para explicar a enorme varia√ß√£o dos n√ļmeros totais. Essa varia√ß√£o provavelmente est√° condicionada a quantidade de rochas aflorantes de tal idade e com registros de dinossauros, sendo no Brasil estas predominantemente limitadas ao sul do pais enquanto que na Argentina h√° uma maior diversidade de forma√ß√Ķes geol√≥gicas para este periodo.
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Esp√©cime de Sacisaurus “aguardando sua descoberta”. O g√™nero Sacisaurus √© um dos grupos de dinossauros que habitaram o sul do Brasil durante o periodo Tri√°ssico. (fonte: http://sites.ffclrp.usp.br/paleo/galeria_final/photos/foto32.jpg)
A grande irradia√ß√£o dos dinossauros durante o Jur√°ssico refletiu no registro fossil√≠fero, pois os restos desses animais s√£o abundantes em todo planeta em rochas desse per√≠odo. Entretanto, na Am√©rica do Sul, f√≥sseis de dinossauros jur√°ssicos n√£o s√£o comuns. Isso ocorre gra√ßas √† imperfei√ß√£o do registro fossil√≠fero, que √© condicionado pela exist√™ncia de bacias sedimentares, locais cujo sedimentos se depositam e acumulam dando origem, posteriormente, as rochas sedimentares. No Brasil existem poucos locais com rochas sedimentares jur√°ssicas, e em nenhuma delas dinossauros foram encontrados. As poucas rochas jur√°ssicas sul americanas com chances boas de encontrar f√≥sseis dinossauros est√£o na regi√£o oeste da Argentina, onde sete esp√©cies foram descritas. Essa pequena diferen√ßa, no entanto, novamente n√£o explica a enorme desigualdade nos n√ļmeros, restando ent√£o analisar as rochas do per√≠odo seguinte, o Cret√°ceo.
 
O registro fóssil nos mostra que os dinossauros alcançaram sua máxima diversificação durante o período Cretáceo. De fato, cerca de 80% dos dinossauros conhecidos da América do Sul são cretáceos, e destes, aproximadamente 90% foram encontrados na Argentina. Isso mostra que a grande diferença entre a quantidade de fósseis dos dois países se deve, principalmente, a fatores ligados às rochas do período Cretáceo. O primeiro deles relaciona-se com a quantidade de camadas de rochas (sucessão sedimentar), muito mais espessa na Argentina do que no Brasil. Sendo assim, mesmo havendo maior área de afloramentos em nosso país, na Argentina existem mais camadas onde fósseis foram encontrados. As 24 camadas fossilíferas (28, se os icnofósseis de pegadas e ovos forem contabilizados) abrangem quase todas as idades do período Cretáceo, enquanto no Brasil, até o momento, apenas em cinco camadas foram encontrados dinossauros, sendo representados em cerca de cinco idades do Cretáceo. Com a maior diversidade de idades, há maior chance de se encontrar diferentes espécies.
 
Outro fator determinante para uma grande biodiversidade √© o paleoclima. Analisando a biota terrestre atual, pode-se perceber que regi√Ķes com clima quente e √ļmido, como as florestas tropicais, possuem uma maior diversidade de esp√©cies em detrimento √†quelas com clima mais seco, como os desertos. Basicamente, a maior disponibilidade de recursos nesses locais (luz solar, √°gua, entre outros) permite o desenvolvimento de um maior n√ļmero de plantas, que por sua vez sustentam um n√ļmero maior de animais herb√≠voros, e estes, de carn√≠voros. No passado, essa rela√ß√£o entre clima e biodiversidade tamb√©m existia, e durante as fases do per√≠odo Cret√°ceo argentino que ficaram preservadas nas rochas, o clima predominante era o subtropical √ļmido, com extensas florestas que se desenvolviam no entorno de lagos e de regi√Ķes pantanosas. A principal evid√™ncia deste cen√°rio vem dos in√ļmeros f√≥sseis de vegetais encontrados nas rochas cret√°ceas argentinas, e essa riqueza de recursos certamente atra√≠a os dinossauros, que tamb√©m deixaram os vest√≠gios de sua presen√ßa.
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Reconstituição paleoambiental durante o Cretáceo na região do sudoeste paulista. Elucidando o clima árido da época e seus rios entrelaçados. (Fonte: https://pepiart.files.wordpress.com/2012/07/monte1.jpg)
J√° no Brasil, as evid√™ncias sugerem que nas bacias sedimentares do Cret√°ceo onde foram encontrados f√≥sseis de dinossauros (Bauru, Araripe e S√£o Lu√≠s-Graja√ļ) predominava o clima semi√°rido, ao menos nas regi√Ķes at√© o momento estudadas (o que n√£o significa que durante mais de 80 milh√Ķes de anos essas regi√Ķes possu√≠am apenas este tipo clim√°tico). Na Bacia Bauru, por exemplo, os f√≥sseis de vegetais s√£o raramente encontrados, um indicativo de que as plantas estavam presentes na regi√£o, mas sua preserva√ß√£o n√£o foi favorecida pelo ambiente deposicional. Na Bacia do Araripe os f√≥sseis de dinossauros encontrados foram depositados sobre uma laguna, propiciando um ambiente de deposi√ß√£o de baixa energia, que tamb√©m possibilitou a preserva√ß√£o de esp√©cies vegetais. Por√©m, muitas dessas plantas fossilizadas s√£o indicadoras de um clima semi√°rido, como pro exemplo a araucari√°cea Brachyphyllum. Por fim, na Bacia de S√£o Lu√≠s-Graja√ļ, as evid√™ncias tamb√©m apontam um clima semi√°rido, por√©m a proximidade com o oceano Atl√Ęntico permitiu certa reten√ß√£o de umidade, propiciando a presen√ßa de uma maior variedade de esp√©cies vegetais que foram preservadas, como samambaias, con√≠feras e angiospermas, bem como de dinossauros. De fato, essas rochas cont√™m o maior n√ļmero de f√≥sseis de dinossauros do Brasil, por√©m devido a outros fatores que ser√£o abordados na seq√ľ√™ncia, a maioria deles n√£o permite uma identifica√ß√£o precisa.
 
Outro fator crucial para a preserva√ß√£o de f√≥sseis √© o grau de transporte aos quais os restos s√£o submetidos. Eventos de transporte acabam por retrabalhar o f√≥ssil, ocasionando desarticula√ß√£o e fragmenta√ß√£o do esqueleto, e consequentemente, perda de informa√ß√Ķes valiosas para a identifica√ß√£o de tais restos. Na Bacia Bauru, como comentado anteriormente, o clima era semi√°rido. Sendo assim, as chuvas eram concentradas em poucas esta√ß√Ķes do ano, sendo torrenciais, num tipo de regime h√≠drico que favorece o aparecimento de rios entrela√ßados, Neste tipo de rio, a quantidade de sedimentos presente √© muito maior do que aquela que o rio consegue transportar, Os sedimentos ent√£o ficam depositados no pr√≥prio canal, e a √°gua precisa abrir novos espa√ßos para fluir, criando uma fei√ß√£o entrela√ßada. Nos anos seguintes, novas chuvas fazem com que o processo se repita, e a √°gua acaba atravessando os canais em que os sedimentos com esqueletos estavam acabando por desarticul√°-los de acordo com a sua densidade, fazendo com que boa parte dos ossos ficasse exposta ao intemperismo, desaparecendo gradualmente. Muitos dentes e pequenos fragmentos fossilizados s√£o encontrados na regi√£o, pois estes s√£o mais resistentes aos processos de transporte e diag√™nesis, por√©m essas partes muitas vezes n√£o s√£o suficientes para identifica√ß√£o de uma esp√©cie.
 
J√° na Bacia de S√£o Luis-Graja√ļ, os esqueletos sofreram com um tipo de retrabalhamento diferente, ocasionado pelas for√ßas da mar√©, pois no passado o local era um grande estu√°rio, uma regi√£o onde a for√ßa das mar√©s adentrava pelo rio, que era circundado por uma vegeta√ß√£o densa, capaz de prover recursos para muitas esp√©cies de dinossauros. Por√©m, o efeito do vaiv√©m das mar√©s era grande, e os esqueletos ali depositados eram retrabalhados, sendo constantemente fragmentados, transportados e destru√≠dos. Assim como na Bacia Bauru, apenas partes mais densas, como v√©rtebras e dentes conseguiam suportar estes eventos sem se fragmentar, e s√£o hoje encontradas nas rochas da regi√£o. Por fim, como foi visto, a laguna que serviu como ambiente deposicional da Bacia do Araripe propiciou um bom ambiente de deposi√ß√£o de sedimentos, com pouca energia de transporte. De fato, muitos f√≥sseis de peixes e outros organismos aqu√°ticos s√£o encontrados em excelente estado de conserva√ß√£o. Os f√≥sseis de dinossauros, por√©m, s√£o raros, pois o modo de vida desses animais n√£o estava t√£o diretamente relacionado com a √°gua. Portanto, al√©m do clima semi√°rido, o tipo de ambiente deposicional foi um fator crucial para que o Brasil tivesse uma menor quantidade de f√≥sseis diagn√≥sticos de dinossauros.
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Exemplo de dinossauro (Oxalaia quilombensis) encontrado nos dep√≥sitos da¬†Bacia de S√£o Luis-Graja√ļ mostrando o alto grau de retrabalhamento e fragmenta√ß√£o dos materiais da regi√£o. (Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-5ImRSMo_z6A/Tme-JCGjQ6I/AAAAAAAAAnw/9_6B4LNW6kc/s320/Oxalaia+%25282%2529.jpg)
 
Finalmente, o √ļltimo e mais importante fator determinante na diferen√ßa dos n√ļmeros de esp√©cies de dinossauros entre os dois pa√≠ses est√° relacionado com o clima atual de Brasil e Argentina. Em nosso pa√≠s, as bacias sedimentares onde os f√≥sseis s√£o encontrados est√£o localizadas em regi√Ķes com alta taxa de insola√ß√£o e/ou elevados √≠ndices pluviom√©tricos, al√©m de em sua maioria as bacias hidrogr√°ficas se sobreporem quase que por completo as bacias sedimentares (por exemplo a Bacia do rio Paran√° que se sobrep√Ķem √† Bacia Sedimentar do Paran√°). Tal situa√ß√£o favorece a a√ß√£o do intemperismo, tanto o f√≠sico, respons√°vel pela dilata√ß√£o e contra√ß√£o t√©rmica, quanto o qu√≠mico, onde a √°gua proveniente das chuvas reage com os elementos qu√≠micos que comp√Ķe a rocha e altera sua composi√ß√£o, transformando-a em solo, juntamente com os f√≥sseis nela preservados. Devido a isso, a maior parte das camadas de rochas sedimentares brasileiras est√° coberta por estratos de solo de grande espessura, o que impede que os paleont√≥logos tenham acesso aos f√≥sseis nela contidos. Apenas em regi√Ķes onde a rocha foi cortada no intuito de abrir espa√ßo para a constru√ß√£o de rodovias e ferrovias, ou ent√£o em margens de rios expostas √† eros√£o por eles causada, √© poss√≠vel observar o afloramento das rochas sedimentares e dos f√≥sseis, por√©m essas √°reas representam somente uma pequena parcela do total de rochas com potencial fossil√≠fero.
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Ilustrando o alto indice pluviom√©trico no Brasil, inclusive havendo regi√Ķes com tempestades tropicais. (Fonte: https://eco4u.files.wordpress.com/2011/06/tempestade.jpg)
 
J√° na Argentina, o cen√°rio √© completamente oposto, pois diversos fatores, como a Corrente fria de Humboldt, a presen√ßa da Cordilheira dos Andes, entre outros, tornam o clima mais seco nas √°reas em que s√£o encontradas rochas sedimentares, diminuindo os efeitos do intemperismo, fazendo com que a camada de solo seja muito fina, impossibilitando o estabelecimento de uma cobertura vegetal e expondo a maioria das rochas e, consequentemente, dos f√≥sseis, assim como acontece em outras regi√Ķes do planeta com condi√ß√Ķes semelhantes, como, por exemplo, o deserto de Gobi, na Mong√≥lia e o meio oeste americano, not√°veis pela imensa quantidade dos mais variados f√≥sseis.
 
Em suma, os dois √ļltimos fatores abordados ‚Äď o grau de retrabalhamento dos f√≥sseis brasileiros, e a pequena disponibilidade de rochas sedimentares expostas ‚Äď s√£o apontados como fatores respons√°veis pela grande discrep√Ęncia dos n√ļmeros de f√≥sseis de dinossauros entre Brasil e Argentina. Entretanto, locais ainda pouco explorados em nosso pa√≠s, principalmente nas regi√Ķes Norte, Nordeste e Centro Oeste, podem futuramente mostrar um cen√°rio diferente, onde as condi√ß√Ķes necess√°rias para a forma√ß√£o e preserva√ß√£o dos f√≥sseis sejam melhores, tornando poss√≠vel diminuir essa diferen√ßa no n√ļmero de esp√©cies encontradas. Al√©m disso, evid√™ncias provenientes da paleoicnologia apontam uma diversidade muito maior de dinossauros para o territ√≥rio brasileiro, como as ocorr√™ncias de pegadas de Ornithischia enquanto ainda n√£o registro de materiais f√≥sseis corporais destes animais.
Referências bibliográficas:
ANELLI, L. E. O guia completo dos Dinossauros do Brasil. 1 ed. São Paulo: Peirópolis, 2010. 222 p.