Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?

Uma sociedade perfeita é um perfeito pesadelo, porque ela elimina a última coisa a ser eliminada do mundo, que é o indivíduo. Pode eliminar tudo, menos o indivíduo, porque, se você eliminar o indivíduo, aí já está tudo eliminado, não tem mais nada. (Carlos Berriel)

No episódio Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?, do podcast Oxigênio, o Carlos Eduardo Ornelas Berriel falou sobre utopia. Essa palavra, inventada a partir do grego, quer dizer “não lugar”, “o que não está em lugar nenhum”. A gente fala de utopia normalmente pra se referir a um lugar ou a uma sociedade onde tudo é perfeito. Ou também para se referir a uma situação que tende a não se realizar, um sonho inalcançável. Então, por que será que uma sociedade perfeita seria um perfeito pesadelo? Por que ela eliminaria os indivíduos?

O Berriel é professor e pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp, e faz mais de 20 anos que ele tem se dedicado ao tema das utopias literárias. Ele é fundador e editor da Revista Morus – Utopia e Renascimento e dirige o Centro de Estudos sobre Utopias da Unicamp, chamado U-TOPOS. O Berriel também é membro de várias sociedades científicas internacionais voltadas para o problema utópico e tem se dedicado à tradução, ao estudo e à publicação de utopias italianas.

Definição da utopia ou a utopia da definição?

 

A utopia é um campo de reflexão que nasceu no século XX e tem sido especialmente estudado de uns trinta anos para cá. Os estudiosos desse campo, porém, consideram que a utopia ainda está em definição; eles têm realizado uma série de discussões para tentar definir a utopia.

O Berriel, que é mais ligado à área da literatura, enxerga a utopia como um gênero literário, um tipo de texto, que tem características muito específicas: ele nasceu com a sociedade moderna, a sociedade burguesa, e é muito próximo da sátira ou é mesmo uma sátira política, que é típica de períodos de grandes transformações sociais.

A sátira como um tipo de texto surgiu na Roma Antiga, e o Lucílio, que nasceu por volta de 180 a.C., é considerado seu criador. A palavra satura tem a ver com um tipo de bandeja cheia – saturada – de frutas. O autor da sátira imitava outros gêneros: é como se ele misturasse em uma mesma obra (bandeja), vários gêneros literários (frutas) diferentes. Isso acontece, porque, como disse o Berriel, o chão da sátira é uma crise social, uma rachadura na crosta histórica; é como se um mundo estivesse acabando e outro ainda estivesse nascendo.

E, na beira desse abismo, o escritor ainda não podia inventar um gênero novo; então, ele imitava e misturava gêneros “mortos”, gêneros de um mundo que estava acabando. O satirista está no “mundo novo”, mas usa materiais literários do “mundo velho”, o que dá ao texto um sabor irônico, de uma coisa relativamente falsa, de um riso de canto de boca, que é o riso do cachorro, cinus, de onde pode vir o termo “cinismo”. Assim, toda sátira teria um elemento de duplicidade, de um certo riso disfarçado.

O cinismo da utopia e o riso do cachorro. (Foto de Jonathan Daniels, Unsplash)

 

O Berriel considera que a utopia nasceu com a publicação, em 1516, de um livro chamado justamente Utopia, escrito pelo Thomas Morus. Esse livro seria uma sátira, no sentido de que é uma reflexão sobre uma nova sociedade.

Lembra que eu disse que a palavra “utopia” tinha sido inventada a partir do grego? Então, foi o Morus, que não era grego e sim inglês, que criou essa palavra. E ele não só criou a palavra, mas também criou a utopia enquanto esse tipo de texto literário, que descreve uma sociedade supostamente perfeita em todos os sentidos. Mas esse texto não simplesmente descreve essa sociedade – o que poderia acontecer em um tratado político, por exemplo –, ele faz isso por meio de uma ficção, de uma história inventada.

Retrato “Sir Thomas More”, Hans Holbein (1527)

 

Comunidade X Sociedade

 

Como o Berriel disse, a Utopia do Morus seria uma sátira por refletir sobre uma nova sociedade. E que nova sociedade seria essa? O ano era 1516: navegações, chegada ao Novo Mundo, desenvolvimento de uma nova economia (o capitalismo mercantil)… Além disso, uma nova classe social, a burguesia, começa a tomar conta da sociedade. Thomas Morus está dentro desse quadro de grande convulsão social. Ele é um intelectual, um escritor, que absorve elementos históricos que estão chegando para ele como uma avalanche (imagina viver naquela época!). Mas, ao mesmo tempo, ele tem um olhar conservador, porque lamenta o desaparecimento de certos elementos da comunidade feudal.

A comunidade é uma forma de vida coletiva que é regida por uma tradição e não pelo dinheiro. O que é diferente da sociedade burguesa que estava nascendo naquela época. Nessa sociedade, as relações entre as pessoas eram mais utilitaristas, mais focadas nos indivíduos, o que, por um lado, é bom, porque a pessoa passa a ter liberdade pra buscar outros vínculos, mais baseados no interesse dela do que em uma tradição. Porém, por outro lado, essa mudança gerava um problema central dentro da Utopia, que é o descarte, o abandono, da população… 

Apesar de a comunidade ser dura, ter dominadores e dominados, dentro dela, todos tinham um lugar, definido em uma estrutura hierárquica: Deus estava acima de tudo, depois vinham os nobres, os cavaleiros e vai descendo até chegar ao mais humilde dos servos, um homem comum. Era essa comunidade feudal, com essa organização, que estava desaparecendo na época em que o Morus escreveu a Utopia. No caso da Inglaterra, onde ele morava, esse desaparecimento era acelerado pelo surgimento de manufaturas de tecido, o que expulsava as pessoas do campo para colocar ovelhas nesses locais, animais que dariam a lã utilizada na produção dos tecidos.

O Morus lamentava o desaparecimento dessa estrutura feudal, que era a forma de poder da Igreja Católica, a qual estruturava a visão de mundo nessa época. E, com o desenvolvimento do capitalismo, a Igreja não iria se sustentar se ficasse do mesmo jeito (o protestantismo viria a ser a expressão religiosa da burguesia).

Então, o Morus – que inclusive foi canonizado, virou santo – mesmo que criticasse os problemas da igreja, como a corrupção e a ociosidade de alguns religiosos, estava preocupado com o fim do feudalismo em seu país, porque os camponeses estavam sendo expulsos do campo, estavam perdendo o lugar (ainda que injusto) que ocupavam antes. Com isso, acontecia um aumento da pobreza e da criminalidade; muitas pessoas eram condenadas à morte por cometerem crimes como roubo. Essa é a questão do descarte da população, que é central na Utopia.

Na visão do Berriel, o Morus teria escrito esse livro para discutir esse fato, lamentar a perda desse passado, o que deixa o livro extremamente contraditório, como as utopias costumam ser. Enquanto gênero literário, as utopias seriam essa captura de um momento de grande transição da sociedade. Mas não é só isso…

Diagnóstico e remédio

 

A utopia é a percepção de um desenvolvimento histórico e uma reflexão sobre ele, mas ela não é só um diagnóstico dos problemas sociais daquele contexto. Ela oferece também um fármaco, um remédio, para os males sociais, em uma forma ficcional, em uma narrativa, na qual ela projeta uma sociedade inventada que tem a solução para todos os problemas identificados pelo escritor.

A Utopia do Morus, assim como algumas das outras utopias que vieram depois, era movida por um desejo de criticar a sociedade da sua época, mas também por um desejo de propor reformas, mesmo que provavelmente os escritores de utopias não acreditassem que aquela sociedade que eles estavam descrevendo, inventando, fosse realizável. Por isso, as utopias costumam ser datadas, porque são bem ligadas a problemas históricos específicos. Além disso, como já disse o Berriel, elas são também contraditórias, ambíguas… Essa característica já aproximaria as utopias das distopias, que são narrativas que descrevem sociedades perfeitamente imperfeitas ou sociedades perfeitas em seus defeitos.

O problema da perfeição

 

O Berriel acredita que a distopia é um galho do tronco da utopia, porque, em grande parte, o procedimento, o material da distopia, já está na utopia. As utopias têm um problema grave, marcante, que é o seguinte: o utopista oferece uma solução, um modo de organizar a vida. Então, as utopias inventam uma sociedade completa. Completa no sentido de que elas preveem como as pessoas vão morar, como elas vão trabalhar, como elas vão casar, como elas vão morrer, como elas se relacionam com a ciência, com a natureza, com outros países. É completa. Essa é uma exigência das grandes utopias, das utopias clássicas: fazer um desenho completamente suficiente do que seria uma sociedade. Ela funciona inteira, não está faltando nada, ela já nasce pronta. 

O utopista escreve, então, uma narrativa em que ele expõe as ideias dele sobre um mundo perfeito, completo. Já dá pra ver um problema nisso, se a gente pensar que a ideia de perfeição normalmente é diferente pra cada pessoa: o sonho de alguns pode ser o pesadelo de outros. Só que o problema da perfeição não para por aí…

Ilustração da Ilha de Utopia, autor desconhecido (1516)

 

A sociedade da Ilha de Utopia, do Thomas Morus, não nasceu de um desenvolvimento natural, em que a população foi vivendo a sua história, errando, acertando, corrigindo, refletindo… Simplesmente, praticamente do nada, chega uma pessoa, com um exército, que é o rei Utopus, com uma constituição já definida nos mínimos detalhes. E essa constituição, essas leis que ele traz são tidas como perfeitas. E, se elas são perfeitas, a perfeição é um problema grave, porque ela significa o congelamento da história. Se algo é perfeito, você não pode aperfeiçoar.

Na Utopia do Morus qualquer problema do mundo real que você possa imaginar, na economia, nas relações humanas, enfim, qualquer problema, já está solucionado. E ele está solucionado antes de qualquer coisa, não pela experiência das pessoas, mas por uma lei fixa, racional, sem defeitos. O modo de operar dessa sociedade não pode ser alterado, porque já é perfeito. Então, aquela sociedade fica congelada no tempo. Como tudo está perfeito, nada pode ser mexido. Dessa forma, a história é eliminada. E, se você elimina a história, você elimina também os indivíduos, que são histórias individuais, que se misturam, formam histórias coletivas, dos povos… Na utopia não existe história.

A nossa individualidade depende da nossa história, da passagem do tempo, das nossas experiências, de conflitos, dos nossos erros, dos nossos enganos… E na utopia não tem nada disso. Como a história é eliminada, o tempo fica congelado em uma sociedade que é tida como perfeita; é como se as pessoas vivessem em um eterno presente. A gente pode perceber isso, inclusive, na forma como o texto é escrito: na utopia não tem personagens, parece que só tem funcionários:

Você imagina aqueles funcionários com uma bata branca, uma cara plácida, trazendo a sabedoria perfeita. Uma coisa horrível, né? Uma sociedade perfeita é um perfeito pesadelo, porque ela elimina a última coisa a ser eliminada do mundo, que é o indivíduo. Pode eliminar tudo, menos o indivíduo, porque, se você eliminar o indivíduo, aí já está tudo eliminado, não tem mais nada. (Carlos Berriel)

De fato, na utopia você não tem doenças, não tem fome, não tem guerra, não tem epidemias, você não tem uma série de coisas, porque todo o Estado funciona que é uma maravilha, às custas da própria alma da história, que é o indivíduo. Portanto, a primeira utopia já é uma distopia. No entanto, será necessária a passagem dos séculos para que a gente tenha essa outra visão…

Se você quiser saber mais sobre as distopias, confira o episódio Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?.   Lá a conversa com o Berriel continuou, e ele falou sobre algumas características específicas dessas “primas” das utopias, ilustrando essa questão com o exemplo de um episódio da série britânica Black Mirror e mostrando o elemento distópico que as tecnologias trazem para a sociedade atual, quando colocamos objetos tecnológicos para mediar as nossas relações com outras pessoas…

O “espelho preto”, black mirror, que a gente carrega para todos os lados seria um elemento distópico da nossa época? (Foto de Jamie Street, Unsplash)

 

A série

 

 

“Leitura de Fôlego” é uma série do podcast de jornalismo e divulgação científica Oxigênio, produzido por alunos do Labjor-Unicamp e coordenado por Simone Pallone. Essa série sobre literatura aborda temas de pesquisa de quatro professores do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Aqui no “Marca Páginas”, já temos textos sobre os outros episódios da série: um sobre os livros licenciosos, que, por conterem cenas de sexo (entre outros motivos), eram proibidos no Brasil dos séculos XVIII e XIX, mas que circularam bastante por aqui nessa época; outro sobre os ensaios, um tipo de texto que dá liberdade para o seu autor se mostrar, com suas dúvidas e imperfeições; e, por fim, um sobre livros brasileiros em que narradores homens, ao narrarem um conflito amoroso, tentam silenciar as vozes de suas parceiras (mas as vozes das mulheres conseguem escapar e se inserir na narrativa).

Todos os programas da série estão integralmente transcritos na descrição dos episódios no site do Oxigênio, para que pessoas surdas ou com alguma deficiência auditiva possam ter acesso ao conteúdo. Os episódios podem ser acessados pelo site do Oxigênio, pelo site da Rádio e TV Unicamp, pelo canal no Youtube da TV Unicamp ou por agregadores como Google Podcasts e Spotify.

Odeio os indiferentes, de Gramsci (tradução de Cláudia Alves)

Nos últimos tempos, o nome do intelectual italiano Antonio Gramsci tem sido citado, assim como o de Marx, com grande frequência no Brasil. A ascensão de um governo de direita e de seus seguidores, de viés assumidamente conservador, parece sustentar como base para sua legitimação popular o método de difamação de tudo aquilo que não está de acordo com a sua perspectiva. Dessa forma, tratar como ameaças a pluralidade de pensamento e a existência de ideologias é algo que tem feito parte de tal estratégia . Mas por que será que intelectuais de esquerda, como Gramsci, incomodam tanto assim? A provocação desse questionamento, essencial à sobrevivência da reflexão de tipo humanista, me levou a esse texto-manifesto de Gramsci, “Odeio os indiferentes”, de 1917. Nele, o intelectual reage à apatia política existente em momentos de crise, convocando sutilmente a população a tomar partido e a assumir responsabilidade pelos acontecimentos históricos. Essa leitura ressou para mim muitas relações entre a Itália de 1917 e o Brasil de 2019, sobretudo por concordar que, diante de retrocessos, não podemos ficar indiferentes. E se a leitura de Gramsci é algo que incomoda, então certamente é Gramsci que irei ler, traduzir e compartilhar cada vez mais.

“Estudem, porque precisaremos de toda a inteligência de vocês”

Odeio os indiferentes[1]

Antonio Gramsci (1891-1937)

Tradução: Cláudia Tavares Alves

Odeio os indiferentes. Acredito, assim como Federico Hebbel, que “viver quer dizer ser partidário[2]”. Não podem existir apenas homens, estranhos à cidade. Quem vive de verdade não pode não ser cidadão e não tomar partido. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo de um inovador, é a matéria inerte em que os entusiasmos mais esplêndidos frequentemente se afogam, é o pântano que cerca a velha cidade e a defende melhor do que os muros mais sólidos, melhor do que o peito de seus guerreiros, porque deglute os assaltantes em seus poços limosos, e os dizima e os abate e por vezes os faz desistir do feito heroico.

A indiferença age potentemente na história. Age passivamente, mas age. É a fatalidade; é aquilo com que não se pode contar; é aquilo que estraga os programas, que inverte os planos mais bem construídos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a estrangula. O que acontece, o mal que recai sobre todos, o bem possível que um ato heroico (de valor universal) pode gerar não se deve tanto à iniciativa dos poucos que agem, mas à indiferença, ao absenteísmo de muitos. O que acontece não acontece porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica à sua vontade, deixa que façam, deixa que se agrupem os nós que depois só a espada poderá cortar, deixa que promulguem leis que depois só a revolta poderá revogar, deixa que cheguem ao poder homens que depois só um motim poderá derrubar.

A fatalidade que parece dominar a história não é outra coisa que não a aparência ilusória dessa indiferença, desse absenteísmo. Alguns fatos amadurecem à sombra; poucas mãos não supervisionadas por nenhum controle tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados por visões restritas, escopos imediatos, ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não sabe, porque não se preocupa com isso. Mas os fatos amadurecidos dão em algum lugar, a teia tecida à sombra chega a um fim, e então parece que a fatalidade está a abater tudo e todos, parece que a história não é nada além de um enorme fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, do qual todos são vítimas, quem quis e quem não quis, quem sabia e quem não sabia, quem estava ativo e quem era indiferente. E esse último se irrita, querendo fugir das consequências, querendo deixar claro que ele não queria isso, que ele não é responsável. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas ninguém ou poucos se perguntam: se eu também tivesse cumprido com meu dever, se tivesse tentado fazer valer minha vontade, meu ponto de vista, teria acontecido o que aconteceu? Mas ninguém ou poucos se culpam por sua indiferença, por seu ceticismo, por não ter estendido seu braço e suas atividades aos grupos de cidadãos que, justamente para evitar tal mal, combatiam, à procura do bem a que se propunham.

Sobre acontecimentos já concluídos, a maioria dessas pessoas prefere falar em fracassos ideais, programas arruinados em definitivo e outras amenidades similares. Recomeçam assim a se ausentar em relação a qualquer responsabilidade. Não que não vejam as coisas com clareza, que não sejam capazes de às vezes apresentar boas soluções aos problemas mais urgentes ou àqueles problemas que, por exigirem mais preparação e tempo, são igualmente urgentes. Mas essas soluções permanecem amplamente infecundas, essa contribuição à vida coletiva não é animada por alguma luz moral. Ela é produto da curiosidade intelectual e não de um sentido pungente de responsabilidade histórica que quer todos ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum tipo.

Odeio os indiferentes também por me entediarem com seu choramingo de eternos inocentes. Peço as contas a cada um deles sobre como cumpriram a missão que a vida lhes impôs e lhes impõe cotidianamente, sobre o que fizeram e especialmente sobre o que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar minha piedade, que não devo dividir com eles as minhas lágrimas. Sou partidário, vivo, já sinto pulsar nas consciências viris da causa que escolhi a cidade futura que essa causa está construindo. E nela a cadeia social não pesa sobre poucos, nela cada coisa que acontece não é por acaso, por fatalidade, mas pela ação inteligente dos cidadãos. Não há nela ninguém que esteja na janela só olhando enquanto poucos se sacrificam, sangram em sacrifício; e aquele que estiver na janela, em uma emboscada, quererá usufruir do pouco bem que o trabalho de poucas pessoas tentou realizar e descontará a sua desilusão insultando o sacrificado, o sangrado, porque não conseguiu cumprir seu objetivo.

Vivo, sou partidário. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

11 de fevereiro de 1917.


[1] Tradução a partir da versão publicada no livro Odio gli indifferenti (Milão: Chiarelettere Editore, 2018 [2011]).

[2] Uma curiosidade: na citação utilizada por Gramsci, em italiano, a palavra que aparece é partigiano. Historicamente, esse termo se tornou mais conhecido com a Resistência Italiana ao fascismo. Durante as ocupações ocorridas de 1939 a 1945, na Segunda Guerra Mundial, partigiano era aquele que combatia contra os exércitos fascistas. Porém, no contexto em que o texto de Gramsci foi escrito, em 1917, tal termo foi utilizado no sentido de tomar parte, tomar partido a favor de determinada causa, em oposição à ideia de ser indiferente a algo [nota da tradutora].

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Literatura, Política e Resistência! A quem interessa queimar livros?, por Danielle Chagas de Lima

A quem interessa queimar livros?

O ano é 2018, século 21. Apesar da imensa distância espaço-temporal e também das diferenças entre as sociedades, vira e mexe eu me pego pensando em uma obra datada do século 2. São declarações como “Os livros que não trazem a verdade sobre o regime de 1964 têm que ser eliminados[1] e notícias como “Livros de direitos humanos são rasgados na biblioteca da UnB”[2] que me transportam à introdução da obra Agrícola, de P. Cornélio Tácito, escrita por volta do ano 98 d.C.[3]

Queima de livros. 30 ilustrações para “A História de Dom Quixote” (Fonte: The British Museum)

Tácito nasceu por volta do ano 56 e faleceu no ano 118 d. C. Ele foi um importante historiador de sua época e sua obra, que retrata o período do Império romano, nos chegou em grande parte conservada[4]. A obra da qual sempre me lembro intitula-se A vida de Júlio Agrícola (De uita Iulli Agricolae) e narra, conforme o título sugere, a biografia de seu sogro, Júlio Agrícola. Bem, tentando não me afastar demais do porquê tal livro me vem à mente, faço um breve resumo de seu contexto de produção.

Trata-se do início do principado de Trajano, em Roma, quando Tácito finalmente sente-se livre e seguro para escrever sem correr perigo por causa do conteúdo da obra que pretende produzir. No texto, antes de apresentar a personagem principal, o autor faz uma reflexão sobre a escrita da história, mais especificamente, de textos biográficos e autobiográficos. Segundo ele, desde tempos muito remotos, homenagear a vida daqueles considerados ilustres na sociedade era um costume bastante comum. Mas Tácito nos conta que, em seu ofício de historiador, durante muito tempo encontrou dificuldades para compor uma homenagem a Agrícola, um homem que julgava exemplar naquele contexto. Essa personagem central da obra viveu durante os principados de Nero e de Domiciano: dois imperadores que comumente são vistos como os mais cruéis da história do Império romano[5]. Ainda na abertura da obra, Tácito explica também sobre a impossibilidade de compor sua obra à época de Domiciano e relembra o que houve com aqueles que se atreveram a escrever:

Fyodor Bronnikov lendo a sentença de morte de Trásea Peto (Fonte: http://www.art-catalog.ru/picture.php?id_picture=11335)

Nós lemos que quando Trásea Peto e Helvídio Prisco foram louvados por Aruleno Rústico e Herênio Senecião, respectivamente, isso se tornou motivo de pena capital. E não se enfureceram só contra os próprios autores, mas também contra seus livros. Delegou-se aos triúnviros a tarefa de queimar as memórias dos mais ilustres espíritos, no comício do fórum. Certamente, pensavam ter também coibido com aquele fogo a voz do povo romano, a liberdade do senado e a consciência do ser humano. Sem contar os filósofos que foram expulsos e toda a nobre arte levada para o exílio, para que nada se encontrasse de honesto em parte alguma. Fornecemos, sem dúvida, uma grande prova de paciência, e tal como a geração antiga viu o extremo da liberdade, do mesmo modo nós vimos o extremo da escravidão e até o acordo entre o falar e o ouvir foi suprimido por meio de inquéritos. Também teríamos perdido com a voz a própria memória, se em nosso poder estivesse tanto o esquecer quanto o calar[6].

Aruleno Rústico e Herênio Senecião, seguindo a tradição literária, escreveram obras em homenagem a duas personalidades conhecidas na história romana por sua oposição à autoridade do imperador e à falta de liberdade de expressão do senado[7]. Ambos foram punidos com a morte. Seus livros, e talvez outros mais, foram queimados em público. Tudo isso porque representavam condutas de personagens que em certa medida questionavam a autoridade única do imperador e denunciavam a corrupção de seus pares. O fogo, como Tácito nos diz, também deveria silenciar a voz do povo, suas ideias, sua consciência. A liberdade de pensamento também foi censurada, expulsando-se dali os filósofos. Ou seja, havia uma grande preocupação em limitar os discursos circulantes. Pode-se dizer que a Literatura (e, consequentemente, o pensamento em circulação) só poderia representar aquilo que passasse pelo crivo do imperador[8].

Por um lado, quando eu vejo notícias como as que mencionei no início deste texto, não consigo deixar de pensar que, infelizmente, há mais de 2000 anos obras são lançadas ao fogo, a fim de apagar a pluralidade de visões em determinados momentos históricos. Nem era preciso ter ido tão longe para encontrar testemunhos desse tipo, tantas outras vezes isso já aconteceu na história da humanidade[9]. Por outro lado, eu fico feliz e me fortaleço ao pensar em como a Literatura dispõe de força, valor político e atua como resistência. Não é à toa que os livros tornam-se vítimas concretas e simbólicas daqueles que pretendem contar uma história única. Tácito passou quinze anos em silêncio para preservar sua vida. Ao primeiro sinal de abertura, não deixou de relatar o autoritarismo existente outrora e as consequências daqueles que escreviam obras livres de uma adulação ao imperador. Fez de sua obra, portanto, memória daqueles que perderam suas vidas e também resistência, ao incluir na história os nomes daqueles que mereciam ser lembrados[10].

Lucio Massari (1569-1633)

As manchetes que citei me fazem pensar nesse texto porque ali algumas palavras me chamam a atenção. Propõe-se eliminar livros que não contêm a verdade sobre um momento histórico há muito estudado e documentado. Mas qual verdade, afinal? Livros sobre direitos humanos são rasgados… a quem isso interessa nesse momento? A que tipo de políticas interessa suprimir obras, e mesmo seus autores, ao longo da História?

O nosso mundo e a nossa história são feitos de narrativas. De pontos de vistas. São sempre tempos lamentáveis aqueles em que vozes são silenciadas, concreta e simbolicamente. Mas a literatura resiste e, por meio dela, podemos também nós sempre resistir e buscar a liberdade de pensamento e de expressão. Afinal, a “arte conversa com a liberdade que resiste dentro de nós”[11].

Em tempo: este texto é sobre livros, mas não pode deixar de lembrar e lamentar a perda de tantos registros culturais, de obras de artes e de documentos que se perderam com o incêndio de museus importantes em nosso país. Museus que, negligenciados e abandonados pelo investimento público, foram consumidos pelo fogo junto com memórias do passado. Nos últimos três anos, o Memorial da América Latina, o Museu da Língua Portuguesa e o Museu Nacional tornaram-se vítimas desse fogo institucionalizado.

[1] Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/28/general-ligado-a-bolsonaro-fala-em-banir-livros-sem-a-verdade-sobre-1964.htm?cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola. Acesso em 09/10/18.

[2] Fonte: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2018/10/04/livros-de-direitos-humanos-sao-rasgados-na-biblioteca-da-unb.ghtml. Acesso em 09/10/18.

[3] Antes de continuarmos, é importante ressaltar que a leitura de obras antigas requer atenção a diversos conceitos e ao funcionamento próprio daquela sociedade para que não sejamos anacrônicos. Além disso, mesmo a ideia de História, como disciplina, é muito diferente daquela que temos hoje, bem como os procedimentos de sua escrita, questões que escapam ao espaço deste post. Para mais informações a esse respeito, indicamos a tradução completa e anotada dessa obra, disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/271127/1/Lima_DanielleChagasde_M.pdf.

[4] Mais sobre o autor e outros historiadores romanos em FUNARI, P. P.; GARRAFONNI, R. S. Historiografia: Salústio, Tito Lívio e Tácito. Coleção Bibliotheca Latina. Campinas: Editora Unicamp, 2016.

[5] Tácito escreveu sobre o principado de Nero na obra Anais (Annales), nos livros 13 a 16.

[6] Tácito, A vida de Júlio Agrícola, 2. Tradução do latim de minha autoria. Temos outro testemunho antigo sobre este fato: Suetônio, que escreveu a obra A Vida dos doze césares, também menciona esse ocorrido na biografia de Domiciano.

[7] Trásea Peto foi um senador romano cujo comportamento é lembrado como símbolo da oposição a Nero. Lutou por seus ideais até a morte. Helvídio Prisco foi exilado pelo imperador na mesma época. Para saber mais, indicamos os Anais e as Histórias, de Tácito.

[8] Domiciano não foi o único imperador a agir desta forma. O imperador Tibério também condenara o historiador Cremúcio Cordo, cujos escritos não lhe agradaram; sua obra foi queimada, conforme relatam Tácito (Anais, 4.34-5) e Suetônio (Vida de Tibério, 61.3).

[9] Em diversos momentos e sociedades, livros com discursos diferentes daquele dos regimes vigentes foram incinerados. O caso da biblioteca de Alexandria é bastante conhecido. Durante a Inquisição isso também ocorreu. Em 1933, livros foram queimados durante o Nazismo, na Alemanha. Mais recentemente, em 1973, Pinochet também ordenara queimar livros. Para mais eventos do tipo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Queima_de_livros.

[10] Assim Tácito nos conta: Pois, se por quinze anos, um grande espaço de tempo da vida humana, muitos foram mortos por circunstâncias fortuitas e os mais diligentes pela crueldade do príncipe, poucos, por assim dizer, somos não só sobreviventes a outros, mas também a nós mesmos. Fomos arrebatados do meio da vida tantos anos, durante os quais viemos em silêncio, jovens até a velhice, velhos até quase o próprio fim de sua geração. Mas eu não lamentarei ter composto, mesmo com tom grosseiro e rude, a memória da servidão passada e o testemunho dos êxitos do presente (Tácito, A vida de Júlio Agrícola, 3.2).

[11] De Eliane Brum, Como resistir em tempos brutos, aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html.