As mulheres dos estudos literários: uma conversa com Vera Lúcia de Oliveira

atravessar cada corpo
tocar o espesso do osso
que é nosso e do outro
estar onde se padece
com fúria de paciência
estar onde se lavra uma horta
onde se lava uma roupa
onde se reza e se cura uma dor
estar onde se nasce e onde se fenece
e ser nesse morar e estar nesse morrer

Vera Lúcia de Oliveira, em Minha língua roça o mundo

Há um ano conheci pessoalmente Vera Lúcia de Oliveira, durante o encontro do Mulherio das Letras Europa. Ali conheci seu comprometimento com o Mulherio das Letras, mas também sua poesia, sua atuação como professora e pesquisadora, seu empenho político. Essa conversa surge então a partir desse encontro e da admiração que tenho por seu trabalho. Ela é uma das mulheres dos Estudos Literários que nos inspiram força e coragem.

Vera Lúcia é poeta e publicou, entre diversas obras em português e em italiano, o livro A chuva nos ruídos (vencedor do Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras de 2005) e seu livro mais recente, Minha língua roça o mundo, de 2018. Também é docente e pesquisadora da Universidade de Perugia (UNIPG), na Itália, e publicou ensaios acadêmicos, entre eles sua tese de doutorado, que deu origem ao livro Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, de 2002. É ainda organizadora de diversas antologias publicadas no Brasil e na Itália e tradutora de poesia brasileira para a língua italiana.

Vera Lúcia de Oliveira durante Encontro do Mulherio das Letras Europa 2018 [fonte: acervo].
Marca Páginas: Vera, nós nos conhecemos em um encontro do Mulherio das Letras na Europa, em 2018. Nessa ocasião, você fez uma apresentação muito interessante sobre o surgimento do Mulherio, refletindo sobre quais eram as intenções do projeto e como ele foi se organizando desde o início. Você poderia explicar para o Marca Páginas o que é o Mulherio das Letras e contar um pouco da história de como ele foi criado no Brasil?

Vera Lúcia: Essa pergunta requer um ensaio para respondê-la e tenho um texto publicado com o título “O Mulherio das Letras”[1], onde tento traçar os elementos de novidade desse movimento, que é um dos fenômenos culturais mais singulares e interessantes da atualidade brasileira. Nasceu quase espontaneamente, a partir de uma consideração informal feita pela escritora Maria Valéria Rezende, de que as mulheres que atuam no mundo das letras no país deveriam se unir mais e trabalhar em conjunto, já que continuam a ser discriminadas em amplos setores da sociedade. De fato, a maior parte das obras literárias publicadas pelas grandes editoras, são de escritores e os prêmios literários são quase sempre atribuídos aos mesmos, e raramente as colegas mulheres conseguem os mesmos espaços e a mesma visibilidade, não obstante a qualidade das obras de autoria feminina. Foi, portanto, a partir dessa constatação que nasceu a ideia de organizar um evento em João Pessoa, cidade em que vive Maria Valéria Rezende, evento que pudesse congregar as escritoras e as mulheres em geral que atuam no mundo das letras. Ele foi um grande sucesso e isso fez com que rapidamente essa rede de mulheres intelectuais, professoras, editoras, ilustradoras, jornalistas, artistas plásticas, compositoras, etc., encontrassem, no grupo “Mulherio das Letras”, um canal de comunicação, de troca de ideias e experiências, de publicações. Hoje há muitos grupos, também regionais, como o Mulherio das Letras de São Paulo, de Brasília, do Paraná, e assim por diante, onde as mulheres se unem para promover eventos de interesse e importância, como o que realizamos em Perugia, em outubro de 2018.

Marca Páginas: Hoje, vemos de fato que o Mulherio das Letras cresceu muito e ganhou novos espaços para além do Brasil. Seus desdobramentos estão presentes na Europa, nos Estados Unidos, entre outros lugares. Como você entende essa expansão do projeto?

Vera Lúcia: Entendo essa rápida expansão por uma exigência que as mulheres tinham de formar uma rede de contatos e intercâmbios. Nós aqui na Europa, por exemplo, estamos de certa forma isoladas. Inseridas, sim, nos vários países, mas distantes do Brasil. Somos estrangeiras aqui e todas nós vivemos experiências similares, de inicial dificuldade de inserção nas respectivas realidades culturais, de estranhamento, às vezes de nostalgia e solidão, às vezes simplesmente de vontade de falar com alguém na própria língua. Então, esse segundo encontro (o primeiro se realizou em 2017, em Paris) deu muito certo, para mim foi intenso e bonito e conheci mulheres batalhadoras, que estão fazendo e acontecendo onde quer que estejam. Escrevem, publicam, organizam feiras literárias, fundam editoras, são realmente ativas.

Marca Páginas: Você é poeta e também docente na Universidade de Perugia, ou seja, duas atuações bastante relacionadas à exposição pública em ambientes literários e acadêmicos. Enquanto mulher, de que maneira você acha que seu gênero impactou e impacta nas suas relações profissionais?

Vera Lúcia: No meu caso, até hoje nunca me senti discriminada como mulher no ambiente de trabalho aqui na Itália. Mas, com certeza, em outros contextos, sim, muitas vezes até no dia a dia, com certas piadinhas sobre o gênero feminino que todas conhecemos.

No Brasil, no entanto, sinto que há mais misoginia e machismo e que a falta de respeito é sentida até andando na rua, com homens que se sentem no direito de fazer comentários sobre como nos vestimos. Quando era adolescente, e tímida, tinha horror desses comentários e um dia dei com a bolsa na cabeça de um jovem que, além do comentário, me tocou o seio. Voltei-me na hora e bati a bolsa com tanta força na cabeça que ele saiu até meio zonzo. Desde aquele dia, aprendi a me defender nessas situações.

No âmbito da escrita, sinto que para uma mulher é mais difícil, porque o mundo das letras ainda é predominantemente masculino. É difícil ver uma mulher reitora, por exemplo, ou diretora de jornal.

Vera Lúcia de Oliveira [Fonte: acervo].
Marca Páginas: A experiência de dar aulas sobre literatura brasileira e portuguesa em uma universidade estrangeira certamente também é um tema muito interessante. Como docente e pesquisadora, o que você teria a dizer sobre a recepção da literatura brasileira no exterior atualmente?

Vera Lúcia: Gosto muito do meu trabalho, gosto da pesquisa e da relação com os alunos. Na verdade, desde pequena queria ser escritora e comecei a escrever cedo. Mas entendi que é muito difícil viver de literatura e ainda mais se o gênero que se escolhe é o poético. Então, pensei que a forma mais inteligente de ficar no mundo da escrita, de ser escritora, era escolher um tipo de trabalho que me deixasse próxima à literatura. Optei pelo ensino universitário, onde aprendi e aprendo muito todos os dias. Além disso, vivendo longe do Brasil, ensinar cultura e literatura brasileira é como estar próxima ao meu universo, onde reúno dois mundos, aliás três, porque ensino também literatura portuguesa. Estou dentro e fora, ao mesmo tempo, desses países, e tenho por isso uma dupla perspectiva.

Quanto à recepção, não se pode pensar que na Itália todos conheçam nossos escritores. Sabem pouco e, sobretudo nos últimos anos, depois do chocante impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o Brasil perdeu prestígio. Durante os governos Lula e Dilma o Brasil era notícia nos jornais, porque o país cresceu, a economia se expandiu, havia a presença do governo em encontros internacionais, a projeção era enorme. Isso fez com que aumentasse o interesse pela língua portuguesa e pela literatura do nosso país, o número de alunos cresceu, as universidades italianas passaram a oferecer mais bolsas para os estudantes daqui, porque, de fato, o mercado começou a pedir profissionais na área luso-brasileira. Agora, perdemos tudo isso, infelizmente. Às vezes percebo que quem vive no Brasil não tem a percepção do que perdemos em termos de interesse e prestígio no exterior. Claramente isso teve um impacto, porque os alunos diminuíram em praticamente todos os países europeus e começaram a cortar cadeiras de ensino de literatura brasileira.

Marca Páginas: Minha última pergunta é, na verdade, uma pergunta que tenho feito a mim mesma e, por isso, gostaria de criar aqui uma troca de pontos de vista. São tempos difíceis no mundo e, sobretudo, no Brasil. A ascensão de um governo conservador e despreparado politicamente para assumir essa responsabilidade nos deixa bastante preocupadas com o rumo do nosso país. Além disso, vemos na Itália e em outros países exemplos dessa mesma onda de conservadorismo retrógrado. Na sua opinião, enquanto poeta e professora, o que é possível se fazer em um momento como esse? Você acredita no poder de esclarecimento e transformação que a educação e a literatura possuem?

Vera Lúcia: Como disse acima e você mesma confirma, a situação é complexa e no momento o nosso trabalho é ainda mais difícil. Os universitários são alunos que se informam mais e é necessário falar de forma aberta e crítica sobre o que acontece em nosso país. Por outro lado, entendo que a literatura tem um fundamental papel humanizador e ler os nossos escritores contemporâneos é ler o Brasil. Faço o meu trabalho com responsabilidade e sei que podemos fazer muito no sentido de incentivar os alunos a desenvolver o senso crítico, a ver mais, a se interessar mais pelo mundo, a se dedicar e a estudar os fenômenos que nos envolvem, porque o mundo hoje é de fato um corpo em que tudo está interligado. O que acontece no Brasil tem reflexo aqui na Itália, o que acontece na África tem reflexo no Brasil, e assim por diante, não se pode mais falar de fenômenos isolados. A onda conservadora retrógrada, como você bem define, é contagiosa. Claramente, ela é fruto de um poder econômico e político, que cerceia e censura, nos faz perder direitos adquiridos, discrimina, simplifica a visão de mundo das pessoas, tenta anular as diferenças ou vê-las como algo que deve ser extirpado. Um intelectual tem que estar presente, destrinçar esses mecanismos de exclusão e repressão.

* Para mais informações sobre Vera Lúcia de Oliveira: <http://www.veraluciadeoliveira.it>.

[1] “O Mulherio das Letras”. Em Revista de Letras Norte@mentos, Universidade Federal de Mato Grosso, Sinop, vol. 11, 2018, pp. 47-61. Disponível em: <http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/norteamentos/article/view/3252>.

Cartoneras: a publicação de livros como instrumentos de resistência

Ao longo dos últimos meses, temos visto uma série de notícias sobre a crise do mercado editorial no Brasil. Sem entrar na discussão sobre o que é real e o que é especulação nesse cenário, o fato é que grandes redes e conglomerados editoriais brasileiros (e é preciso deixar claro: sustentados muitas vezes por empresas e capitais estrangeiros) estão lidando com dívidas exorbitantes, fechamento de lojas, demissão de funcionários e muitas outras perdas pelo caminho. Com isso, nós, leitoras e leitores, também perdemos alguma coisa.

Porém, paralelamente a essa situação, existe um respiro no mercado editorial com o qual ganhamos muito mais e que, por isso, merece nossa atenção. Pequenas editoras independentes têm ocupado os espaços literários em nosso país com livros de qualidade, produzidos segundo uma lógica totalmente diversa daquela praticada por editoras de grande porte. E é através da existência desse outro cenário editorial que as Cartoneras têm ganhado cada vez mais destaque, com uma proposta de publicação baseada em critérios bastante originais.

No início dos anos 2000, em Buenos Aires, na Argentina, surgiu a cooperativa Eloísa Cartonera com o objetivo de encontrar alternativas à crise econômica que ocorria no país e, ao mesmo tempo, tornar a literatura mais acessível para a população. Foi assim que se concretizou a ideia de utilizar papelão, recolhido nas ruas da cidade por catadoras e catadores de papel, para criar livros costurados e pintados à mão individualmente. O papelão, que a princípio seria descartado como lixo, ganha novo significado e se transforma em capas coloridas e únicas para livros impressos a um custo reduzido. Dessa forma, tal processo de confecção possibilita, além da reutilização de materiais recicláveis, a comercialização de livros por preços mais baixos. Não é à toa que, em pouco tempo, o projeto adquiriu importância e reconhecimento e publicou, além de escritoras e escritores estreantes, nomes renomados da literatura argentina, como Ricardo Piglia e César Aira.

Antologia do poeta brasileiro Haroldo de Campos, publicada em edição bilíngue pela Sarita Cartonera (Lima, Peru), em 2005

Foi em 2006, por ocasião da 27a Bienal de São Paulo, cujo tema era “Como viver junto”, que a experiência de Eloísa Cartonera finalmente chegou ao Brasil e começou a se estabelecer aqui graças ao trabalho de Lúcia Rosa. Em 2007, a partir da parceria entre Lúcia, Peterson Emboava e outros integrantes da cooperativa argentina, surge enfim a Dulcinéia Catadora, editora pioneira na editoração cartonera em nosso país.

Dulcinéia Catadora está localizada em uma cooperativa de reciclagem, na cidade de São Paulo. Já publicou cerca de 130 títulos e vendeu mais de 12 mil exemplares, conforme números informados no site da editora. A equipe também tem realizado oficinas em outros ambientes, divulgando e reunindo cada vez mais apoiadores. No catálogo de publicações, entre livros de poesia, contos e teatro, vemos nomes de autores estreantes, que graças à editora puderam ter seus trabalhos publicados pela primeira vez, assim como estão presentes grandes figuras da literatura brasileira contemporânea, como Alice Ruiz, Plínio Marcos e Manoel de Barros.

Tive a oportunidade de conversar, por e-mail, com Lúcia Rosa no final do ano passado, quando ela me contou um pouco mais sobre o coletivo. Lúcia explicou que a editora norteia suas atividades seguindo valores como “troca, sustentabilidade, luta contra a invisibilidade, compartilhamento do sensível, acesso à literatura e construção de vias alternativas para a divulgação de autores não inseridos no mercado editorial tradicional”. Por se sustentar em ideais como esses, ela afirma que a Dulcineia Catadora é “um coletivo com uma ação ativista”.

Segundo essa perspectiva, o livro é então tratado como um “instrumento de resistência”, que foge da “produção em larga escala, cada vez mais sem sentido,  resultado de uma produção fria, massificante”. De acordo com Lúcia, essa atitude de resistência também molda o processo de seleção dos títulos que serão publicados, afinal prioriza-se o experimentalismo de quem escreve, mais do que a preocupação por vender livros: “como o lucro não é nosso objetivo, ficamos livres para divulgar autores que não desenvolvem uma literatura de fácil apelo”.

Fonte: dulcineiacatadora.com.br

Movida por essa possibilidade de ressignificação do objeto livro, a escritora ítalo-brasileira Francesca Cricelli publicou pela Dulcinéia Catadora, no início deste ano,  sua primeira prosa, Errância. No livro são narradas suas experiências de deslocamento e viagem, tema que pauta suas experiências pessoais e literárias desde que se mudou para a Itália quando ainda era criança. Na entrevista que realizamos em dezembro do ano passado, Francesca contou como aceitou o convite para publicar esse livro por uma editora cartonera antes de publicá-lo por uma editora não artesanal. Ela acredita que “usar materiais recicláveis nos ajuda a ter uma consciência maior”, o que altera a experiência de publicação: “conhecer pessoalmente quem fabricou e editou o seu livro é algo que transforma a relação com o objeto”.

Francesca declarou ainda que acredita na importância de sermos “cupidos da leitura”, facilitando o “enamoramento entre leitor e livro”. Para a escritora, é essencial estarmos atentos à formação de leitores e, nesse sentido, Lúcia aposta na aproximação através do trabalho artesanal que envolve cada publicação cartonera: “para chegar às mãos do leitor os livros precisam ir além, somando linguagens; precisam ter como diferencial aquela fatura artesanal, cuidadosa, criativa e pessoal que marca as produções independentes”.

Errância, de Francesca Cricelli, publicado por Dulcinéia Catadora em 2018

O processo de fazer esses livros chegarem às mãos dos leitores se torna assim um movimento que também passa a ser ressignificado, mostrando que o encontro entre leitores e livros não se dá apenas em ambientes virtuais ou livrarias tradicionais. Para que isso possa acontecer, Francesca considera importante a “itinerância editorial” possibilitada pela existência de feiras e eventos literários que modificam a cena atual da literatura no Brasil. “Há uma proliferação de eventos literários em que a venda dos livros acontece em paralelo; acho que estamos há um tempo inventando novas formas de existirmos no campo editorial”, declara a escritora. Nesses ambientes, ela destaca ainda como é possível encontrar momentos “de alegria e efusividade, pois compram-se os livros, conhecem-se autores e editores”, resultando em trocas diretas entre as várias etapas que fazem parte da publicação de um livro.

A experiência das cartoneras tem ainda conquistado novos territórios, por exemplo, viajando por outros continentes e motivando pesquisas em universidades. A pesquisadora Liz Gray, doutora em Literatura Comparada pela Brown University, defendeu recentemente sua tese sobre as poéticas de intervenção na América Latina, pensando como as crises econômicas causadas pelo modelo neoliberal de produção e consumo acabaram por motivar nos países latino-americanos justamente o surgimento de práticas alternativas de ativismo, as quais estão relacionadas à arte e à literatura. Parte de sua pesquisa se volta à produção cartonera, inclusive às iniciativas brasileiras, como a de Dulcinéia Catadora.

Além disso, pude assistir, em 2018, a uma apresentação da professora e pesquisadora Paula de Paiva Limão, da Università degli Studi di Perugia, na qual foi abordado o tema das editoras cartoneras. Paula mencionou encontros e eventos realizados recentemente na Europa e nos Estados Unidos, nos quais a produção cartonera foi o tema central, o que demonstra a disseminação desses projetos ao redor do mundo. Outro ponto analisado por Paula foi como existe uma característica que unifica essa prática em todas as experiências analisadas por ela: as Cartoneras criaram espaços onde circulam a voz e o trabalho de mulheres. Desde as catadoras de papelão, relegadas às margens da sociedade não apenas por seu gênero mas também por sua classe social, até a escritoras e editoras, que participam da publicação desses livros, observamos o envolvimento de mulheres que assumem uma posição essencial na editoração cartonera.

Projetos como esses, entre tantas outras iniciativas menores e independentes que têm surgido nos últimos anos, mostram que uma outra forma de existência é possível, em alternativa ao sistema dominante que vê na publicação de livros uma oportunidade de lucrar com o consumo de literatura. É uma luta desproporcional tentar medir forças com o capital e com o consumismo, mas não podemos deixar de participar de uma batalha só porque ela vai ser difícil de vencer. Seguimos!

Para saber mais sobre as Cartoneras:

Um quase relato de uma viagem, uma experiência, um livro…, por Daísa Rossetto

A escrita de um livro pode ter muitos pontos de partida: um acontecimento pessoal, uma criação ficcional, uma encomenda editorial, e por aí vai. Quando conheci a escritora Daísa Rossetto, essa foi a pergunta que quis fazer a ela – afinal, qual foi o ponto de partida para você escrever seu livro Quando o vento sopra em Israel (2018)? E a resposta dela foi: uma viagem de 12 dias por Israel para, quem sabe, escrever um livro. Para contar essa história surpreendente, convidei Daísa para compartilhar seu relato com o blog Marca Páginas. Ela topou e eu só posso lhe agradecer por se dispor a contar sua experiência de forma tão sensível.

Daísa Rossetto é mestra e graduada em Direito, pela Universidade de Caxias do Sul, com a dissertação “A relação entre direito e literatura à conflitante questão animal: uma análise dos personagens Flush e Baleia” (2016), que relaciona Direito, Literatura e Animais com as obras Vidas Secas e Flush, Memórias de um cão. Atualmente, é doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra. Participou da coletânea Outono Literário: Mulherio em prosa e verso (2018), do Mulherio das Letras Europa, e em breve será lançada, pela Editora Desdêmona, a coletânea As coisas que as mulheres escrevem, da qual também faz parte.

Um quase relato de uma viagem, uma experiência, um livro…, por Daísa Rossetto

Não sei quantas vezes sentei em frente ao computador com o objetivo de escrever sobre a aventura que foi ir para Israel em busca do que então se tornou o meu primeiro livro publicado. Digo publicado porque eu poderia nadar num mar de escrituras. Escrevo infinitas coisas que repousam calmamente nos arquivos de um computador que, já cansado, ainda resiste na função de arquivista de uma crescente pilha de pastas com datas ( / / ), de ano após ano.

Mas voltando ao assunto, em linhas gerais foi assim: em meados de 2017, fui convidada para acompanhar um grupo de filósofos e filósofos clínicos a uma viagem de estudos que se realiza todos os anos em algum lugar do mundo e que naquele ano foi em Israel. O objetivo era que a viagem pudesse também prosperar através de uma obra literária, pessoal, autoral. Sendo assim, não me era exigida qualquer obrigação de escrita, apenas que eu pudesse me transpor livre para desenhar as palavras que quisesse e como quisesse. Fiquei honrada com o convite, mas, num primeiro momento, não achei que se concretizaria.

No entanto, conversa vai, conversa vem, ficou decidido: eu iria para Israel. A preparação que fiz para a viagem foi um tanto diferente do que se espera de um viajante que reúne o máximo de informações possíveis sobre o futuro destino. O que fiz foi ler o livro de Érico Veríssimo, Israel em abril e, por garantia e questão de sobrevivência, pesquisar opções de comida vegana lá. Comprei um caderno e testei várias canetas que foram divididas entre bolsa, mochila e mala. Foi isso.

Daísa Rossetto. Foto por Michelle Csordas

Havia algumas semanas até a viagem, mas nesta altura já estava eu em Israel, cheguei lá antes dos meus pés. Comecei a vivenciar Israel ali, num pequeno pedaço de mundo onde se mora depois de onde os olhos alcançam. Comecei a escrever antes de partir, escrevi sentada na mesa da cozinha enquanto minha mãe preparava o almoço, escrevi num café em Gramado, escrevi no aeroporto. Continuo escrevendo…

Também não sei dizer quantas horas andei pelas ruas da pequena cidade de Nonoai (RS), olhando para o céu azul e espreitando os filhotes de coruja, imaginando como era o céu nas margens do mediterrâneo; as histórias dos olhos não estranhos dos estranhos; esperando pelo vento para empurrar meus olhos para o topo de onde as tâmaras doces mudam de cor. Não tive medo algum de escrever nem receio de ser atingida pelo branco que acinzenta as mãos dos escritores que ficam sem saber o que dizer. Em contrapartida, não sei quantas vezes senti as fisgadas da dúvida sobre escrever sobre Israel quando eu, desde antes, esperava conhecer o outro lado do muro – a Palestina (sim, desde o tempo em que eu imaginava seria a jornalista correspondente – mas abandonei o curso cedo demais).

Em setembro, embarquei num avião com conexão em Istambul e destino Tel Aviv. É verdade, a aventura já tinha começado muito tempo antes. No entanto, chegar e estar num lugar tão diferente e ao mesmo tempo tão igual foi uma oportunidade de abrir meus olhos mais um pouco para perceber que as respostas certas não existem. Existe sempre um âmago mais profundo entrelaçado a outras coisas que podem ser chamadas de questões – mas eu não gosto desse termo; diria outros reflexos da vida, talvez… (quem sabe seja isso o que se chama de complexidade).

Na primeira noite no Hotel de Tel Aviv, eu não conseguia dormir (“o que eu tô fazendo aqui?”, pensava) e então no escuro peguei o celular e escrevi: “Senti medo deste mundo por onde meus pés se aventuram carregando um pedaço de mim que é toda de sonho… Quis chorar pelo desconhecido que me abraça e no meio da noite me rouba o sono desperto em ansiedade… Penso nos primeiros pássaros que vi aqui e sinto outra vez a brisa quente da terra que me foi prometida, choro emocionada com tudo que é mundo e que pode ser concreto em minha mão… Acalmo no peito esse futuro insolúvel que num recado alerta que existe uma missão…”.

Cada vez que escrevo me salvo, me curo. Escrever ali não era obrigação nenhuma, era oportunidade de escrever se houvesse algo a escrever. E eu descobri coisas que me levaram a isso, tais como sentir o vento e ter paz, ver o sol se pondo e sentir que se está em casa, que qualquer lugar pode ser casa…

Fiquei 12 dias em Israel, acompanhei o curso na Universidade Hebraica, escutei sobre mentes incríveis, ouvi pensadores lamentarem a tensão e o conflito na região. Reparei em quem ia e vinha nos corredores e nas ruas. Estive distraidamente atenta a tudo que estava a minha volta, deixei-me viver e deixei que tudo fosse como quisesse ser. Israel foi flor, mas como flor não escondeu os espinhos que machucam os olhos. Eu os sinto quando tomo a forma de um muro que vi desenhado no horizonte de um mesmo solo. Talvez, não sei concluir, no solo sagrado a irrigação vem das águas do mar, mas também vem do sangue. Ainda é penitência reconhecer o quão perto estavam as armas, tão perto de quem é julgado por ser diferente. Ainda é penitência pedir paz com guerra.

Sem religião ou devoção a algo, vivi emoções singulares ao sentir emoção a partir da emoção dos outros. Foi assim quando me deparei com a gente chorando comovida pelas margens do Mar da Galileia – (quem era aquele mar?). Entendi o que era sagrado quando, chegada a hora, as portas dos comércios da cidade murada se fechavam e atrás delas o tapete se estendia e os joelhos se dobravam. Todas as histórias do imaginário infantil plantadas na escola de repente viravam cenário para o gato que se aquietava sentado às margens de um leito corrente de pessoas, os corredores com saídas marcadas em que só o bicho sabia onde estava. E as histórias em desfechos de épocas. Tempos sobrepostos em tempos. Nenhuma coisa nem outra, um pouco de tudo. E o mar, os ares, a areia, as voltas em avenidas vestidas em arte e as livrarias erguidas num idioma que não deduzo.  E o fim do dia sagrado e o dia sem trabalho e os goles de vinho e as caminhadas noturnas.

Foto por Daísa Rossetto

Em cada chegada acalmei meus pés e descansei meus olhos, tentei respeitar cada canto para então ouvir tudo aquilo que se lançava ao próprio gosto de ser invisível. Cada relato que posso fazer desta experiência acaba por me levar a outros becos labirínticos. Não se esgotam. Reavivam e descobre-se qualquer outra coisa outra vez, pela primeira vez.   

Depois de 12 dias voei para Portugal. Escrevi um livro a partir daquilo que tinha anotado em mim e usei as anotações que ainda faziam sentido do caderno verde – companheiro de viagem. Passado quase um ano depois de ter terminado o livro, consigo quase perceber o quão natural foi desenha-lo. Alguns episódios, sem dúvida, hoje me deixam em ranhuras, entre eles o fato do meu primeiro livro ter Israel no título e como isso pode ser lido como uma insensibilidade. Não sou indiferente a quem está sofrendo. Não defendo estado de opressão, nem fecho os olhos para quem é roubado de suas terras, de suas crenças, das próprias vivências e da própria vida. A verdade é que chego a lamentar ter escrito esse livro cada vez que me encontro com o que estão fazendo com o povo da Palestina.

Mas o livro que escrevi não é sobre um país, nem um arremesso de confetes a ele. É um relato de quem se lançou ao mundo e descobriu um pouco de si. Hoje o livro não é mais meu, tem vontade própria, é o que quiser ser e de quem o quiser tomar para alguma coisa. A partir da experiência de escrita descobri uma fração da minha escrita, tive lições valiosas sobre a minha forma de ditar palavras. Fiz sem receio de quem iria ler ou se quem o lesse iria gostar ou não. Esse livro me ensinou a escrever. Mas, claro, eu sei que ainda não o sei de todo e talvez nunca o saiba…

Não sei se fechei os olhos ou se abri olhos outros enquanto escrevi tais páginas. O que sei é que para quem o escreveu só escrever importava. Ainda é assim, escrever importa. Publicar, ser lida, ser vista ou notada, vender exemplares, isso fica pra depois… O que espero continuar fazendo é escrever. No tempo de escrever o que for preciso escrever, mesmo quando o computador não aguentar mais arquivar.

Porque as mulheres se rebelam hoje em dia, de Dacia Maraini (tradução de Cláudia Alves)

Dacia Maraini (Fiesole, 1936) sempre esteve atenta às questões feministas de seu tempo. Desde o primeiro romance, L’età del malessere, publicado em 1963, até o livro mais recente, Tre donne: una storia d’amore e disamore, de 2017, é possível observar a presença de protagonistas femininas enfrentando as dificuldades de fazer parte de um mundo pouco simpático à sua existência. Além dessa preocupação explícita na produção literária de Maraini, a qual compreende romances, contos, poemas, peças de teatro, roteiros e livros infantis, a escritora italiana também se dedica ao tema em sua produção ensaística. Assim, em “Porque as mulheres se rebelam hoje em dia” (1973), deparamo-nos com suas reflexões não ficcionalizadas sobre as mulheres na sociedade italiana dos anos de 1970. Esse texto, publicado em resposta ao escritor Goffredo Parise, ocupou um lugar privilegiado no grande jornal italiano Corriere della Sera. A coluna em que circulou, Tribuna Aperta, era reservada a importantes escritores-intelectuais da época e, nesse sentido, a publicação do texto de Maraini cumpre um papel significativo ao ocupar esse espaço com as discussões sobre o feminismo. Nós que hoje o lemos, à distância de mais de 40 anos, reconhecemos ali as marcas dos movimentos feministas dos anos 1960 e 1970, que tratavam questões de sexualidade, raça e classe social de maneira menos crítica e não interseccional, como faz o feminismo contemporâneo. Porém, ainda é possível vermos ressoadas em nosso próprio tempo e em nosso próprio país muitas dessas mesmas questões que Maraini apresenta, ainda que ressignificadas por reflexões diversas e novos debates.

Porque as mulheres se rebelam hoje em dia (1973) [1]

Se eu fizesse um discurso do tipo: “Oh, os operários, mas que tanto eles têm para protestar? Eu conheço um operário, um belo rapaz loiro de olhos azuis, cheio de orgulho e de coragem, que trabalha suas 8 horas diárias sem reclamar tanto. Tem um Fiat Seiscento, se veste com certa elegância, vai ao cinema quando quer, nas férias de verão vai à praia. É feliz. Conheço outro que trabalha como mecânico, é bonito, jovem, cheio de vida, trabalha muito sim, mas daí no domingo veste uma calça jeans, uma camisa florida e vai para o jogo carregando seu rádio de pilha e sua vitrola portátil. Tem até um Honda. É verdade que para consegui-lo teve que fazer alguma maracutaia, mas não grande coisa. E não perdeu sua virilidade, seu orgulho, seu bom humor. Esses são os operários que conheço, modernos, independentes, nada de ficar choramingando, fazendo pose ou romantizando. Acima de tudo, eles não têm o complexo do explorado. Vivem bem, são sérios, sabem rir, sabem se divertir, sabem também trabalhar, mas sem reclamar. E se eles se prostituem, isso os torna mais atraentes. Ao contrário dos outros, que resmungam, protestam, se juntam e se fazem eternamente de vítimas. Que chatice!”

Se eu fizesse um discurso desse tipo, todos diriam que eu sou uma apática política[2] da pior espécie, diriam que vejo os problemas sociais de forma pessoal. E certamente me acusariam de ter um raciocínio “feminino”, isto é, irracional e particularista.

Pois esse mesmo discurso sobre os operários que faço como hipótese, Goffredo Parise faz de verdade, falando das mulheres. De maneira particularista e irracional, com a mesma indiferença tranquila em relação ao conjunto do problema. Estou me referindo ao artigo intitulado “Femminismo”[3], publicado aqui neste jornal.

Esse discurso de Parise é, infelizmente, muito comum entre os homens de todas as classes sociais. Frequentemente os escuto julgar de maneira decisiva: “Qual a necessidade do feminismo? Vocês já são praticamente iguais a nós homens. Façam o que quiserem, se comportem como preferirem, que mais vocês estão pedindo? Veja, eu sou mais feminista do que vocês. Eu amo as mulheres, as reverencio, as estimo, até as venero. Mas, por favor, não façam tanto alarde, não comecem a ideologizar porque isso estraga vocês. Vocês ficam instantaneamente feias e chatas”.

Se Parise, que há algum tempo escolheu o papel de defensor do contra, soubesse quão comum é esse discurso, talvez ele ficasse um pouco mais constrangido.

O feminismo é algo muito mais complicado e mais profundo do que aquele “cuidado para não engordar” a que ele se refere. O feminismo não nasce de uma genérica lamentação pelas próprias desgraças. Todos têm suas próprias desgraças e é importante saber guardá-las pra si mesmo. Mas nesse caso se trata de algo muito mais grave. Trata-se de metade da humanidade ter estado em situação de submissão por milhares de anos nas sociedades patriarcais que existiram ao longo da história. E a sociedade atual não é menos patriarcal do que as outras, apesar da sua aparente “liberalidade”.

Manifestação na Itália, nos anos 1970: “Para uma maternidade livre, aborto livre”.

O fato de hoje existirem mulheres aparentemente independentes e livres que talvez mandem em seus maridos não significa que a submissão segundo os homens tenha acabado. A liberdade não é um fato individual. E uma mulher não pode ser livre enquanto outros milhares de mulheres estão em estado de submissão.

A exploração não se torna menor. A grande maioria das sociedades desse mundo não teriam ido em frente se não tivessem vivido à custa de milhões de donas de casa que se matam de trabalhar 12 horas por dia sem remuneração de nenhum tipo, sem assistência médica, sem nem ao menos o reconhecimento social pelo trabalho que fazem.

A essa altura poderiam dizer: se está tão ruim assim, por que todas essas mulheres não protestam, não se rebelam? Por que continuam ali bondosas e contentes, satisfeitas consigo mesmas e com o mundo? A resposta é que a opressão criou na mulher uma forma nociva de passividade e fatalismo. A mulher não nasce passiva, mas se torna, para se adequar a um modelo de comportamento social.

Os opressores, no entanto, encontraram um ótimo sistema para aprisionar a mulher à sua própria opressão ao transformar sua passividade em dado fisiológico, em natureza. Enquanto a mulher não entender que sua passividade é um resultado histórico e não um destino natural, ela não se libertará da sua “inferioridade” psicológica em relação ao homem.

Isso não quer dizer que a mulher deva se masculinizar. Uma mulher-macho é a imitação ruim de um homem. Ela deve simplesmente se tornar um ser humano completo, munida de relações com o mundo, as quais são necessárias para se estar dentro, e não fora, da história. Recusar a passividade não significa recusar o amor ou a doçura. Pelo contrário, recusar a passividade significa desejar que a doçura seja uma escolha, não uma imposição.

O amor, segundo os movimentos de libertação da mulher, é algo vivido em duas pessoas, com o mesmo empenho e a mesma participação, recusando a agressividade de uma das partes e a aquiescência da outra; recusando a oposição tradicional ativo-passivo, sádico-masoquista, fazer-ser feito etc. O amor, como se entende hoje, se parece muito com uma agressão, com uma apropriação, com uma ofensa do homem à mulher. É por isso que muitas mulheres sensíveis e orgulhosas recusam o orgasmo, e se tornam frígidas. É uma recusa implícita do amor como uma forma de “se render” à brutalidade.

Os movimentos de libertação da mulher querem fazer renascer na mulher o sentimento de integridade humana. Querem que a mulher deixe de se considerar um ser incompleto, passivo, frágil, disponível, mutilado. Um ser humano pela metade, em resumo, de acordo com o conceito freudiano.

Mas ao mesmo tempo recusam o modelo “masculino” tradicional. Não é imitando o homem que a mulher vai se libertar, mas sim tomando consciência da sua realidade histórica, social e psicológica.

Não se fica livre da opressão fingindo que ela não existe, como acontece com muitas mulheres que fizeram carreira no mundo dos homens e odeiam ouvir falar dos problemas da emancipação feminina. Elas “conseguiram”, então pensam que a tarefa acaba por aí. Mas a liberdade, como dito antes, não é algo privado. Nenhuma mulher é realmente livre enquanto há outras mulheres em estado de servidão. Somos mulheres. Somos diferentes porque tivemos uma história diferente. Mas a nossa diferença não é uma vergonha. É a nossa realidade, da qual devemos partir em cada reivindicação de direitos.

Não é só uma questão de creches, igualdade salarial, remuneração para as donas de casa. É uma questão de aprender a ver com os próprios olhos os próprios problemas. É uma questão de falar com a própria voz. De pensar com a própria cabeça. Para isso, é importante se isolar e se organizar por conta própria. Não por ódio aos homens ou por desconfiança em relação às organizações políticas em que os homens dominam. Mas para nos acostumarmos com o ato de pensar sobre nossa própria situação de opressão.

E sobre aquilo que Parise disse, que as mulheres não seriam uma classe, se ele tivesse refletido um pouco mais teria percebido que isso é muito mais complexo, confuso e menos claro do que geralmente se pensa. Porque é verdade que existem as mulheres pobres e as mulheres ricas, mas é raro que as mulheres ricas, até mesmo as muito ricas, sejam ricas por conta própria. Em geral, são ricas por causa dos maridos ou dos pais. Ou seja, as mulheres usufruem da riqueza sem de fato produzi-la. Em outras palavras, são sustentadas e, portanto, não são livres. O próprio Parise escreve a propósito de uma delas: “Seu único privilégio é ser genialmente uma puta”.

As mulheres burguesas vivem essa estranha contradição: tem dinheiro à sua disposição, mas não o possuem de verdade. Há algo de ridículo, de irreal, de absurdo na mulher burguesa rica. Tudo o que ela faz ou diz soa sempre falso. E por quê? O ridículo vem do fato de que ela usufrui do poder sem compartilhar desse poder; antes, permanece decisivamente excluída dele.

A mulher pobre, a mulher do povo, nunca é ridícula porque sua relação com o mundo, ainda que limitada, é real. Porque mesmo ela, assim como seu marido, produz. A mulher burguesa que não faz nada e vive sustentada pelo marido é um absurdo social, uma alienação viva. Vêm daí suas neuroses. Daí a falsidade do seu intelectualismo, quando ele existe, que incomoda justamente os verdadeiros intelectuais.

Quando se fala em classe, no que diz respeito às mulheres, se entende essa situação particular em que, sejam mulheres pobres, sejam mulheres ricas, ambas têm em comum a dependência em relação a um homem.

Que existam mulheres que pela força do caráter ou pela “genialidade de puta” saibam dominar seus maridos, apesar da dependência econômica, porque são “mais bonitas, mais sensíveis, mais inteligentes, mais elegantes, em uma palavra muito mais ‘simpáticas’, mesmo se o marido for um coitado”, como escreve Parise, isso não muda nada.

Até mesmo entre os escravos, houve quem cativasse o coração do patrão e acabasse conseguindo o que queria. Mas fazer isso não acabava com a escravidão, nem com a sua, nem com a dos outros escravos.

É provável que a essa altura Parise me diga que sou uma fanática, uma chata, que seria melhor eu ficar quieta porque estou parecendo ingênua e “pasionaria”[4].

E eu lhe responderia que é essa ingenuidade e essa passionalidade que quero reivindicar como algumas das melhores características femininas, que devem ser cultivadas e não reprimidas.


Encontro com Dacia Maraini: “Lectio su letteratura e giornalismo”, em dezembro de 2018.

[1] Publicado no jornal Corriere della Sera, em 10 de julho de 1973. Está recolhido também na coletânea Giornalismo Italiano 1968-2001, na coleção I Meridiani (organização de Franco Contorbia; Milão: Mondadori, 2009) [nota da tradutora].

[2] Em italiano, Maraini utiliza o termo qualunquista. Historicamente, o qualunquismo está relacionado ao movimento autodenominado apolítico posterior à Segunda Guerra Mundial, o qual pretendia se desvincular tanto do fascismo, quanto do comunismo, defendendo a possibilidade de uma posição indiferente e apática politicamente das pessoas comuns. No vocabulário cotidiano, passou a referenciar negativamente aqueles que, pela desconfiança nos meios políticos e institucionais, acabam se aproximando a posicionamentos conservadores [nota da tradutora].

[3] “Femminismo” foi publicado por Goffredo Parise no jornal Corriere della Sera, em 20 de maio de 1973 [nota da tradutora].

[4] La Pasionaria foi o pseudônimo utilizado pela ativista antifascista espanhola Dolores Ibárruri (1895-1989). O termo passou a ser utilizado na língua italiana para referenciar mulheres de luta, atuantes em atividades políticas e ideológicas [nota da tradutora].

[Publicado pelo blog Pontes Outras: https://pontesoutras.wordpress.com/2018/12/09/porque-as-mulheres-se-rebelam-hoje-em-dia-1973-de-dacia-maraini-traduzido-por-claudia-t-alves/ ]

Uma biblioteca no jardim de casa: entrevista com Ilana Eleá sobre a Bibliotek Barnstugan

Em outubro desse ano, no encontro do Mulherio das Letras realizado na Itália, tive o prazer de conhecer vários projetos realizados por mulheres brasileiras espalhadas pelo mundo. E a Bibliotek Barnstugan (em português, Biblioteca Casinha de Campo das Crianças) foi certamente um dos projetos que mais me encantou. Os resultados do encontro ainda reverberam, inclusive aqui no blog, e com muita alegria hoje publico uma entrevista com a idealizadora desse projeto incrível.

Ilana Eleá construiu, em 2017, no jardim de sua própria casa, na cidade de Estocolmo (Suécia), uma casinha de brinquedo que é também uma linda biblioteca comunitária, um espaço literário aberto ao público para acolher as crianças e suas famílias semanalmente. Ali, estão disponíveis um acervo de livros infantis e espaços ao ar livre e internos para que as crianças possam se encontrar, brincar e, sobretudo, estar em contato com livros e com o hábito de ler. Como forma de reconhecimento por sua iniciativa em promover a cultura em sua região, Ilana recebeu recentemente o prêmio Bättre Stadsdel 2018.

Pedagoga e doutora em Educação pela PUC-Rio, Ilana, além de se dedicar à biblioteca, é também escritora, poeta e fez parte da comissão organizadora do Outubro Literário – II Encontro do Mulherio das Letras na Europa. Agradeço o seu carinho em compartilhar com o blog Marca Páginas essa entrevista e a história do seu projeto. Desejo vida longa à Bibliotek Barnstugan e que Ilana e suas ideias maravilhosas continuem inspirando mais pessoas a promoverem, nos espaços que lhe são possíveis, a literatura.

Fotos por Ilana Eleá

Marca Páginas: A ideia de trazer, para o jardim da sua própria casa, uma biblioteca infantil é encantadora e corajosa ao mesmo tempo. Você poderia contar um pouco mais sobre a história de como surgiu esse projeto? Que tipo de expectativas você imaginava quando criou a biblioteca?

Ilana Eleá: Costumo dizer que a Suécia não precisava da minha biblioteca no jardim, mas eu precisava dessa invenção e por isso a fiz acontecer. Nossa família se mudou para um bairro residencial em Estocolmo, com casas de madeira coloridas, muitas crianças e amplos jardins. Há bosques nos arredores, há lago, um parque para esportes e uma estação de metrô, mas não há uma biblioteca pública. A mais próxima fica a duas estações de casa, o que não é longe e lá tem um ótimo acervo infanto-juvenil, mas algo me dizia que não eram apenas livros que me moveriam. Então, a criação de um espaço literário de convivência, um ponto suspenso que fizesse a interlocução entre o público e o privado,  um lugar em que o aroma do café e do bolo assado no forno de casa fosse protagonista de uma atmosfera acolhedora e poética para se ler, ouvir e sonhar histórias foi ganhando corpo e telhado, como mágica.

Marca Páginas: Atualmente, a biblioteca já conta com um acervo considerável de livros infantis. Como é feita a curadoria desses livros? Existe algum tipo de critério em que você se baseie para selecionar novas obras?

Foto por Ilana Eleá

Ilana Eleá: Quando as pessoas me perguntam se aceito doações para a biblioteca, respondo que aceitamos sim, muito obrigada, mas apenas dos livros mais extraordinários que já tocaram a sua vida, marcando a sua memória até hoje, livros que nos surpreendam, tanto crianças como adultos. A curadoria é a chave com a qual conseguimos entrar no que temos de mais lúdico, livre e impressionante. A preferência é por títulos que tragam questões existencialistas, ricos em metáforas, ilustrados, com carga poética, livros que nos convidem a ver os dias com a beleza da complexidade.

Marca Páginas: A biblioteca e o jardim da sua casa, além de serem espaços de empréstimo e de leitura de livros, são também lugares de encontros e trocas entre as crianças e suas famílias. Você poderia explicar como são esses encontros, com que periodicidade eles ocorrem e como eles são organizados?

Ilana Eleá: Para participar dos encontros semanais, abertos ao público, as famílias se inscrevem  pelo site da biblioteca. Com a informação de quantas pessoas estarão presentes e sabendo a idade dos participantes, preparo, no dia anterior, com cartolina preta e caneta branca, o cartão para empréstimo dos livros, onde consta o nome de cada criança. É artesanal e simples,  elas adoram. Há também uma caixa com adesivos variados para que elas escolham e colem nos seus cartões, o que completa o ritual da devolução dos livros na semana seguinte, quando são convidadas a deixar alguma impressão para os próximos leitores. Espalho livros por todo o jardim, ocupando lugares óbvios como mesas, cadeiras e bancos, mas também pendurando-os na árvore de magnólia, decorada com fitas coloridas de cetim, ou os apoio em cestas de frutas, no banco de trás de bicicletas e triciclos, ou ainda os livros para os bebês que vão em toalhas de picnic e almofadas. A trilha sonora toca na caixa de som, encostada na varanda. Os encontros são divididos em 3 grandes momentos: 1) visita livre à biblioteca, para manuseio de livros. A  mesa da bibliotecária fica aberta para registrar nos cartões a escolha de novos títulos para empréstimo e para a devolução dos livros anteriores. 2) lanche com café, bolo feito em casa e frutas; nesse momento, os irmãos mais velhos são encorajados a ler para os menores, e pais e mães de outras famílias leem para quem se aproximar. Esse é o momento que também abraça performances (musicais, poéticas) tanto dos pais quanto das crianças. 3) leitura em voz alta dos livros previamente anunciados no blog para dois grupos de faixas etárias diversas: 0-3 anos e 4-7 anos de idade. O encontro entre pessoas e livros acaba se tornando uma inusitada festa.

Foto por Ilana Eleá

Marca Páginas: Imagino que realizar esses encontros seja algo que perpasse também a sua própria experiência de ser mãe. Pensando na sua percepção com seus filhos, assim como com outras tantas crianças que frequentam a biblioteca, você acredita no impacto da leitura em suas vidas, principalmente fora do ambiente escolar? Como você vê a relação dessas crianças com os livros e a literatura?

Ilana Eleá: A Suécia tem um longo histórico de investimento público na educação, na literatura, nas bibliotecas, no fomento ao livro, na valorização dos autores, leitores e ilustradores. A liberdade dos temas é respeitada e há uma abertura a tópicos impensáveis no Brasil atual, principalmente em relação a questões de gênero e feminismo, uma das conquistas das quais o país mais se orgulha e que tanto me inspiram. Penso que o tempero especial da nossa biblioteca não seja apenas o seu acervo ou oferta de livros, mas sua tipologia ambígua, que  mistura casa e biblioteca, adultos e crianças, livros e cafés no mesmo jardim. É uma forma de samba no gelo, de dança na neve, um círculo em volta da fogueira para as histórias passarem melhor. A biblioteca no jardim é uma forma de abraço.

 

Literatura, Política e Resistência! Árvore da memória, de Rosmarie Waldrop (introdução e tradução de Marcelo Lotufo)

Rosmarie Waldrop é uma importante poeta norte americana. Nascida na Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial, passou sua primeira infância em meio a bombas e doutrinação ideológica nazista. Pequena demais para concordar ou discordar, viu tudo com um certo distanciamento. Adulta, retornou ao tema buscando entender, assim como toda a sua geração, o que se passara na Alemanha de seus pais; como a naturalização do horror nazista fez com que o Holocausto se escondesse atrás da rotina e da burocracia.  Waldrop mudou-se para os Estados Unidos durante o pós-guerra, onde se casou com o também poeta Keith Waldrop. Na América, ela abandonou a língua alemã e passou a escrever em inglês, reforçando o distanciamento que precisava para revisitar o seu passado de forma crítica e consciente.

Ilustração por Pierre Mornet

Parte dos seus poemas versa sobre a necessidade de investigarmos as camadas históricas da nossa sociedade, enfrentando memórias e acontecimentos que preferiríamos ignorar. Em um momento no qual discursos de ódio parecem se normalizar no Brasil, além de um apoiador confesso da tortura e da ditadura militar (algo impensável há alguns anos) liderar as pesquisas para presidência da república, revisitar o passado parece um exercício mais do que necessário; parece um dos únicos caminhos para salvarmos a nossa democracia e repensarmos o pacto democrático que a sustentou desde o fim da ditadura.

Árvore da memória

Rosmarie Waldrop, no livro Split Infinites

Tradução Marcelo Lotufo

 

E EM SEGUNDO LUGAR, na Alemanha

Meu primeiro dia na escola , setembro de 1941, dia show de bola. O tempo não passava, mas era conduzido ao cérebro. Me ensinaram. A saudação nazista, brincar de flautista. Quão firmemente entrincheiradas, as velhas teorias. Já usando papel, caneta e tinta. Sim, eu disse, estou aqui.

Eu tinha seis ou sete anões, a branca era de neve, o príncipe estava em guerra. Hitler no rádio, seguido por Léhar. Sentidos impingiam-se. Apagões, sirenes, colchões no chão, visitantes ou fantasmas furtivos.

E mamãe furiosa. Sirenes. Silvos. O gato. Minha irmã gritou como nunca. Sua amiga. Com medo de olhar. O que eu sabia sobre trabalho forçado ou trabalho de parto? Dos interiores profundos do corpo? Eu tinha aprendido a  andar de bicicleta.

O gato preto. A neve branca, a flor azul. Uma ameaça de uma cor diferente. Movimento uniforme em velocidade inultrapassável. Nada fastidioso. Nada necessário o preenchimento de substâncias no âmago profundo.

Mãe, eu gritei, extremamente. E o lobo. Passando pela neve eu estava dentro de casa em, lã puxada sobre os meus olhos. O lobo. O menino que não gritou ‘olha o lobo’ também morreu. Aberturas crepusculares.

Testa honesta. Cabelos negros. Mãos parcimoniosamente sobre os joelhos. Uma menina polonesa. Na Alemanha? Na guerra? Movendo-se velozmente pelo ar entre nós, uma imagem contínua. Chega de medo de gato preto, sinos (assassinos, ferinos), de sirenes, silvos de bombas.

*

Uma longa vida aprendendo sobre o capítulo anterior. Que minha alma está de calça jeans, minha mãe dando à luz, meu banco de esperanças na Alemanha, leste de expectativas, oeste de ainda esperando. Na cama com um antídoto.

Comendo da árvore. Folhas caindo antes da queda. Por um buraco na memória. A fruta enruga novos problemas, mas não extingue. O pomar há muito abandonado.

(Publicado em https://traducaoliteraria.wordpress.com/2018/10/15/arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo/)