Porque as mulheres se rebelam hoje em dia, de Dacia Maraini (tradução de Cláudia Alves)

Dacia Maraini (Fiesole, 1936) sempre esteve atenta às questões feministas de seu tempo. Desde o primeiro romance, L’età del malessere, publicado em 1963, até o livro mais recente, Tre donne: una storia d’amore e disamore, de 2017, é possível observar a presença de protagonistas femininas enfrentando as dificuldades de fazer parte de um mundo pouco simpático à sua existência. Além dessa preocupação explícita na produção literária de Maraini, a qual compreende romances, contos, poemas, peças de teatro, roteiros e livros infantis, a escritora italiana também se dedica ao tema em sua produção ensaística. Assim, em “Porque as mulheres se rebelam hoje em dia” (1973), deparamo-nos com suas reflexões não ficcionalizadas sobre as mulheres na sociedade italiana dos anos de 1970. Esse texto, publicado em resposta ao escritor Goffredo Parise, ocupou um lugar privilegiado no grande jornal italiano Corriere della Sera. A coluna em que circulou, Tribuna Aperta, era reservada a importantes escritores-intelectuais da época e, nesse sentido, a publicação do texto de Maraini cumpre um papel significativo ao ocupar esse espaço com as discussões sobre o feminismo. Nós que hoje o lemos, à distância de mais de 40 anos, reconhecemos ali as marcas dos movimentos feministas dos anos 1960 e 1970, que tratavam questões de sexualidade, raça e classe social de maneira menos crítica e não interseccional, como faz o feminismo contemporâneo. Porém, ainda é possível vermos ressoadas em nosso próprio tempo e em nosso próprio país muitas dessas mesmas questões que Maraini apresenta, ainda que ressignificadas por reflexões diversas e novos debates.

Porque as mulheres se rebelam hoje em dia (1973) [1]

Se eu fizesse um discurso do tipo: “Oh, os operários, mas que tanto eles têm para protestar? Eu conheço um operário, um belo rapaz loiro de olhos azuis, cheio de orgulho e de coragem, que trabalha suas 8 horas diárias sem reclamar tanto. Tem um Fiat Seiscento, se veste com certa elegância, vai ao cinema quando quer, nas férias de verão vai à praia. É feliz. Conheço outro que trabalha como mecânico, é bonito, jovem, cheio de vida, trabalha muito sim, mas daí no domingo veste uma calça jeans, uma camisa florida e vai para o jogo carregando seu rádio de pilha e sua vitrola portátil. Tem até um Honda. É verdade que para consegui-lo teve que fazer alguma maracutaia, mas não grande coisa. E não perdeu sua virilidade, seu orgulho, seu bom humor. Esses são os operários que conheço, modernos, independentes, nada de ficar choramingando, fazendo pose ou romantizando. Acima de tudo, eles não têm o complexo do explorado. Vivem bem, são sérios, sabem rir, sabem se divertir, sabem também trabalhar, mas sem reclamar. E se eles se prostituem, isso os torna mais atraentes. Ao contrário dos outros, que resmungam, protestam, se juntam e se fazem eternamente de vítimas. Que chatice!”

Se eu fizesse um discurso desse tipo, todos diriam que eu sou uma apática política[2] da pior espécie, diriam que vejo os problemas sociais de forma pessoal. E certamente me acusariam de ter um raciocínio “feminino”, isto é, irracional e particularista.

Pois esse mesmo discurso sobre os operários que faço como hipótese, Goffredo Parise faz de verdade, falando das mulheres. De maneira particularista e irracional, com a mesma indiferença tranquila em relação ao conjunto do problema. Estou me referindo ao artigo intitulado “Femminismo”[3], publicado aqui neste jornal.

Esse discurso de Parise é, infelizmente, muito comum entre os homens de todas as classes sociais. Frequentemente os escuto julgar de maneira decisiva: “Qual a necessidade do feminismo? Vocês já são praticamente iguais a nós homens. Façam o que quiserem, se comportem como preferirem, que mais vocês estão pedindo? Veja, eu sou mais feminista do que vocês. Eu amo as mulheres, as reverencio, as estimo, até as venero. Mas, por favor, não façam tanto alarde, não comecem a ideologizar porque isso estraga vocês. Vocês ficam instantaneamente feias e chatas”.

Se Parise, que há algum tempo escolheu o papel de defensor do contra, soubesse quão comum é esse discurso, talvez ele ficasse um pouco mais constrangido.

O feminismo é algo muito mais complicado e mais profundo do que aquele “cuidado para não engordar” a que ele se refere. O feminismo não nasce de uma genérica lamentação pelas próprias desgraças. Todos têm suas próprias desgraças e é importante saber guardá-las pra si mesmo. Mas nesse caso se trata de algo muito mais grave. Trata-se de metade da humanidade ter estado em situação de submissão por milhares de anos nas sociedades patriarcais que existiram ao longo da história. E a sociedade atual não é menos patriarcal do que as outras, apesar da sua aparente “liberalidade”.

Manifestação na Itália, nos anos 1970: “Para uma maternidade livre, aborto livre”.

O fato de hoje existirem mulheres aparentemente independentes e livres que talvez mandem em seus maridos não significa que a submissão segundo os homens tenha acabado. A liberdade não é um fato individual. E uma mulher não pode ser livre enquanto outros milhares de mulheres estão em estado de submissão.

A exploração não se torna menor. A grande maioria das sociedades desse mundo não teriam ido em frente se não tivessem vivido à custa de milhões de donas de casa que se matam de trabalhar 12 horas por dia sem remuneração de nenhum tipo, sem assistência médica, sem nem ao menos o reconhecimento social pelo trabalho que fazem.

A essa altura poderiam dizer: se está tão ruim assim, por que todas essas mulheres não protestam, não se rebelam? Por que continuam ali bondosas e contentes, satisfeitas consigo mesmas e com o mundo? A resposta é que a opressão criou na mulher uma forma nociva de passividade e fatalismo. A mulher não nasce passiva, mas se torna, para se adequar a um modelo de comportamento social.

Os opressores, no entanto, encontraram um ótimo sistema para aprisionar a mulher à sua própria opressão ao transformar sua passividade em dado fisiológico, em natureza. Enquanto a mulher não entender que sua passividade é um resultado histórico e não um destino natural, ela não se libertará da sua “inferioridade” psicológica em relação ao homem.

Isso não quer dizer que a mulher deva se masculinizar. Uma mulher-macho é a imitação ruim de um homem. Ela deve simplesmente se tornar um ser humano completo, munida de relações com o mundo, as quais são necessárias para se estar dentro, e não fora, da história. Recusar a passividade não significa recusar o amor ou a doçura. Pelo contrário, recusar a passividade significa desejar que a doçura seja uma escolha, não uma imposição.

O amor, segundo os movimentos de libertação da mulher, é algo vivido em duas pessoas, com o mesmo empenho e a mesma participação, recusando a agressividade de uma das partes e a aquiescência da outra; recusando a oposição tradicional ativo-passivo, sádico-masoquista, fazer-ser feito etc. O amor, como se entende hoje, se parece muito com uma agressão, com uma apropriação, com uma ofensa do homem à mulher. É por isso que muitas mulheres sensíveis e orgulhosas recusam o orgasmo, e se tornam frígidas. É uma recusa implícita do amor como uma forma de “se render” à brutalidade.

Os movimentos de libertação da mulher querem fazer renascer na mulher o sentimento de integridade humana. Querem que a mulher deixe de se considerar um ser incompleto, passivo, frágil, disponível, mutilado. Um ser humano pela metade, em resumo, de acordo com o conceito freudiano.

Mas ao mesmo tempo recusam o modelo “masculino” tradicional. Não é imitando o homem que a mulher vai se libertar, mas sim tomando consciência da sua realidade histórica, social e psicológica.

Não se fica livre da opressão fingindo que ela não existe, como acontece com muitas mulheres que fizeram carreira no mundo dos homens e odeiam ouvir falar dos problemas da emancipação feminina. Elas “conseguiram”, então pensam que a tarefa acaba por aí. Mas a liberdade, como dito antes, não é algo privado. Nenhuma mulher é realmente livre enquanto há outras mulheres em estado de servidão. Somos mulheres. Somos diferentes porque tivemos uma história diferente. Mas a nossa diferença não é uma vergonha. É a nossa realidade, da qual devemos partir em cada reivindicação de direitos.

Não é só uma questão de creches, igualdade salarial, remuneração para as donas de casa. É uma questão de aprender a ver com os próprios olhos os próprios problemas. É uma questão de falar com a própria voz. De pensar com a própria cabeça. Para isso, é importante se isolar e se organizar por conta própria. Não por ódio aos homens ou por desconfiança em relação às organizações políticas em que os homens dominam. Mas para nos acostumarmos com o ato de pensar sobre nossa própria situação de opressão.

E sobre aquilo que Parise disse, que as mulheres não seriam uma classe, se ele tivesse refletido um pouco mais teria percebido que isso é muito mais complexo, confuso e menos claro do que geralmente se pensa. Porque é verdade que existem as mulheres pobres e as mulheres ricas, mas é raro que as mulheres ricas, até mesmo as muito ricas, sejam ricas por conta própria. Em geral, são ricas por causa dos maridos ou dos pais. Ou seja, as mulheres usufruem da riqueza sem de fato produzi-la. Em outras palavras, são sustentadas e, portanto, não são livres. O próprio Parise escreve a propósito de uma delas: “Seu único privilégio é ser genialmente uma puta”.

As mulheres burguesas vivem essa estranha contradição: tem dinheiro à sua disposição, mas não o possuem de verdade. Há algo de ridículo, de irreal, de absurdo na mulher burguesa rica. Tudo o que ela faz ou diz soa sempre falso. E por quê? O ridículo vem do fato de que ela usufrui do poder sem compartilhar desse poder; antes, permanece decisivamente excluída dele.

A mulher pobre, a mulher do povo, nunca é ridícula porque sua relação com o mundo, ainda que limitada, é real. Porque mesmo ela, assim como seu marido, produz. A mulher burguesa que não faz nada e vive sustentada pelo marido é um absurdo social, uma alienação viva. Vêm daí suas neuroses. Daí a falsidade do seu intelectualismo, quando ele existe, que incomoda justamente os verdadeiros intelectuais.

Quando se fala em classe, no que diz respeito às mulheres, se entende essa situação particular em que, sejam mulheres pobres, sejam mulheres ricas, ambas têm em comum a dependência em relação a um homem.

Que existam mulheres que pela força do caráter ou pela “genialidade de puta” saibam dominar seus maridos, apesar da dependência econômica, porque são “mais bonitas, mais sensíveis, mais inteligentes, mais elegantes, em uma palavra muito mais ‘simpáticas’, mesmo se o marido for um coitado”, como escreve Parise, isso não muda nada.

Até mesmo entre os escravos, houve quem cativasse o coração do patrão e acabasse conseguindo o que queria. Mas fazer isso não acabava com a escravidão, nem com a sua, nem com a dos outros escravos.

É provável que a essa altura Parise me diga que sou uma fanática, uma chata, que seria melhor eu ficar quieta porque estou parecendo ingênua e “pasionaria”[4].

E eu lhe responderia que é essa ingenuidade e essa passionalidade que quero reivindicar como algumas das melhores características femininas, que devem ser cultivadas e não reprimidas.


Encontro com Dacia Maraini: “Lectio su letteratura e giornalismo”, em dezembro de 2018.

[1] Publicado no jornal Corriere della Sera, em 10 de julho de 1973. Está recolhido também na coletânea Giornalismo Italiano 1968-2001, na coleção I Meridiani (organização de Franco Contorbia; Milão: Mondadori, 2009) [nota da tradutora].

[2] Em italiano, Maraini utiliza o termo qualunquista. Historicamente, o qualunquismo está relacionado ao movimento autodenominado apolítico posterior à Segunda Guerra Mundial, o qual pretendia se desvincular tanto do fascismo, quanto do comunismo, defendendo a possibilidade de uma posição indiferente e apática politicamente das pessoas comuns. No vocabulário cotidiano, passou a referenciar negativamente aqueles que, pela desconfiança nos meios políticos e institucionais, acabam se aproximando a posicionamentos conservadores [nota da tradutora].

[3] “Femminismo” foi publicado por Goffredo Parise no jornal Corriere della Sera, em 20 de maio de 1973 [nota da tradutora].

[4] La Pasionaria foi o pseudônimo utilizado pela ativista antifascista espanhola Dolores Ibárruri (1895-1989). O termo passou a ser utilizado na língua italiana para referenciar mulheres de luta, atuantes em atividades políticas e ideológicas [nota da tradutora].

[Publicado pelo blog Pontes Outras: https://pontesoutras.wordpress.com/2018/12/09/porque-as-mulheres-se-rebelam-hoje-em-dia-1973-de-dacia-maraini-traduzido-por-claudia-t-alves/ ]

Uma biblioteca no jardim de casa: entrevista com Ilana Eleá sobre a Bibliotek Barnstugan

Em outubro desse ano, no encontro do Mulherio das Letras realizado na Itália, tive o prazer de conhecer vários projetos realizados por mulheres brasileiras espalhadas pelo mundo. E a Bibliotek Barnstugan (em português, Biblioteca Casinha de Campo das Crianças) foi certamente um dos projetos que mais me encantou. Os resultados do encontro ainda reverberam, inclusive aqui no blog, e com muita alegria hoje publico uma entrevista com a idealizadora desse projeto incrível.

Ilana Eleá construiu, em 2017, no jardim de sua própria casa, na cidade de Estocolmo (Suécia), uma casinha de brinquedo que é também uma linda biblioteca comunitária, um espaço literário aberto ao público para acolher as crianças e suas famílias semanalmente. Ali, estão disponíveis um acervo de livros infantis e espaços ao ar livre e internos para que as crianças possam se encontrar, brincar e, sobretudo, estar em contato com livros e com o hábito de ler. Como forma de reconhecimento por sua iniciativa em promover a cultura em sua região, Ilana recebeu recentemente o prêmio Bättre Stadsdel 2018.

Pedagoga e doutora em Educação pela PUC-Rio, Ilana, além de se dedicar à biblioteca, é também escritora, poeta e fez parte da comissão organizadora do Outubro Literário – II Encontro do Mulherio das Letras na Europa. Agradeço o seu carinho em compartilhar com o blog Marca Páginas essa entrevista e a história do seu projeto. Desejo vida longa à Bibliotek Barnstugan e que Ilana e suas ideias maravilhosas continuem inspirando mais pessoas a promoverem, nos espaços que lhe são possíveis, a literatura.

Fotos por Ilana Eleá

Marca Páginas: A ideia de trazer, para o jardim da sua própria casa, uma biblioteca infantil é encantadora e corajosa ao mesmo tempo. Você poderia contar um pouco mais sobre a história de como surgiu esse projeto? Que tipo de expectativas você imaginava quando criou a biblioteca?

Ilana Eleá: Costumo dizer que a Suécia não precisava da minha biblioteca no jardim, mas eu precisava dessa invenção e por isso a fiz acontecer. Nossa família se mudou para um bairro residencial em Estocolmo, com casas de madeira coloridas, muitas crianças e amplos jardins. Há bosques nos arredores, há lago, um parque para esportes e uma estação de metrô, mas não há uma biblioteca pública. A mais próxima fica a duas estações de casa, o que não é longe e lá tem um ótimo acervo infanto-juvenil, mas algo me dizia que não eram apenas livros que me moveriam. Então, a criação de um espaço literário de convivência, um ponto suspenso que fizesse a interlocução entre o público e o privado,  um lugar em que o aroma do café e do bolo assado no forno de casa fosse protagonista de uma atmosfera acolhedora e poética para se ler, ouvir e sonhar histórias foi ganhando corpo e telhado, como mágica.

Marca Páginas: Atualmente, a biblioteca já conta com um acervo considerável de livros infantis. Como é feita a curadoria desses livros? Existe algum tipo de critério em que você se baseie para selecionar novas obras?

Foto por Ilana Eleá

Ilana Eleá: Quando as pessoas me perguntam se aceito doações para a biblioteca, respondo que aceitamos sim, muito obrigada, mas apenas dos livros mais extraordinários que já tocaram a sua vida, marcando a sua memória até hoje, livros que nos surpreendam, tanto crianças como adultos. A curadoria é a chave com a qual conseguimos entrar no que temos de mais lúdico, livre e impressionante. A preferência é por títulos que tragam questões existencialistas, ricos em metáforas, ilustrados, com carga poética, livros que nos convidem a ver os dias com a beleza da complexidade.

Marca Páginas: A biblioteca e o jardim da sua casa, além de serem espaços de empréstimo e de leitura de livros, são também lugares de encontros e trocas entre as crianças e suas famílias. Você poderia explicar como são esses encontros, com que periodicidade eles ocorrem e como eles são organizados?

Ilana Eleá: Para participar dos encontros semanais, abertos ao público, as famílias se inscrevem  pelo site da biblioteca. Com a informação de quantas pessoas estarão presentes e sabendo a idade dos participantes, preparo, no dia anterior, com cartolina preta e caneta branca, o cartão para empréstimo dos livros, onde consta o nome de cada criança. É artesanal e simples,  elas adoram. Há também uma caixa com adesivos variados para que elas escolham e colem nos seus cartões, o que completa o ritual da devolução dos livros na semana seguinte, quando são convidadas a deixar alguma impressão para os próximos leitores. Espalho livros por todo o jardim, ocupando lugares óbvios como mesas, cadeiras e bancos, mas também pendurando-os na árvore de magnólia, decorada com fitas coloridas de cetim, ou os apoio em cestas de frutas, no banco de trás de bicicletas e triciclos, ou ainda os livros para os bebês que vão em toalhas de picnic e almofadas. A trilha sonora toca na caixa de som, encostada na varanda. Os encontros são divididos em 3 grandes momentos: 1) visita livre à biblioteca, para manuseio de livros. A  mesa da bibliotecária fica aberta para registrar nos cartões a escolha de novos títulos para empréstimo e para a devolução dos livros anteriores. 2) lanche com café, bolo feito em casa e frutas; nesse momento, os irmãos mais velhos são encorajados a ler para os menores, e pais e mães de outras famílias leem para quem se aproximar. Esse é o momento que também abraça performances (musicais, poéticas) tanto dos pais quanto das crianças. 3) leitura em voz alta dos livros previamente anunciados no blog para dois grupos de faixas etárias diversas: 0-3 anos e 4-7 anos de idade. O encontro entre pessoas e livros acaba se tornando uma inusitada festa.

Foto por Ilana Eleá

Marca Páginas: Imagino que realizar esses encontros seja algo que perpasse também a sua própria experiência de ser mãe. Pensando na sua percepção com seus filhos, assim como com outras tantas crianças que frequentam a biblioteca, você acredita no impacto da leitura em suas vidas, principalmente fora do ambiente escolar? Como você vê a relação dessas crianças com os livros e a literatura?

Ilana Eleá: A Suécia tem um longo histórico de investimento público na educação, na literatura, nas bibliotecas, no fomento ao livro, na valorização dos autores, leitores e ilustradores. A liberdade dos temas é respeitada e há uma abertura a tópicos impensáveis no Brasil atual, principalmente em relação a questões de gênero e feminismo, uma das conquistas das quais o país mais se orgulha e que tanto me inspiram. Penso que o tempero especial da nossa biblioteca não seja apenas o seu acervo ou oferta de livros, mas sua tipologia ambígua, que  mistura casa e biblioteca, adultos e crianças, livros e cafés no mesmo jardim. É uma forma de samba no gelo, de dança na neve, um círculo em volta da fogueira para as histórias passarem melhor. A biblioteca no jardim é uma forma de abraço.

 

Literatura, política e resistência! “Isso que passa hoje na nossa cara”, de Janaina Pessoa

Isso que passa hoje na nossa cara é um negócio assim de cair
o cu da bunda
As gentes me ligam chorando
as gentes choram sem lágrimas
e eu – comigo mesma,
agarrada
no Ibope
no Datafolha
na boca de uma urna
agarrada
aos meus pequenos pertences
aos meus pequenos rastros e certezas
e olho bem de longe
que é pra doer menos e acaba que dói igual
Porque o que eu sei é isso que a gente sabe
e o que os outros não veem
Aquela travesti morta ontem
Aquela menina espancada e marcada
Aquele índio – aquele negro – aquele abecê das minorias em risco
aquela novela ridícula coitadinha aquela ladainha

E aquela outra metade do povo delirante
andando rápido em marcha fúnebre
caindo caindo caindo
nessa espiral de ódio que sufoca intermitente a travesti já morta ontem
e de novo hoje
Em lancinantes coreôs verdearamelas
Eles gritam nomes sujos de sangue dos vermelhos, esse nosso sangue bandeira

Pequena pausa para o
(Parágrafo 64: existe comunismo no mundo e que perigo o comunismo no mundo a Venezuela o comedor de criancinha o kitgay o kitkat o homem do saco eles vêm roubar seu quarto e sala na Tijuca vêm cagar na sua sala eles não têm dentes e eles comem caviar, não, não estamos confusos, não, isso é culpa da Dilma e do pt, esses comunistas)
Fim da pequena pausa

Mas nossa metade também delirante de um medo concreto
pois que risco corre esse sujeito na cidade,
essa roleta russa que é sair de casa sendo?
Nossa metade delirante que não juntou os trapos dos seus planos de país
e ao invés
correu sôfrega atrás de um plano de poder de pt de sifudê
Nossa metade delirante que escolheu não falar a língua das multidões
e anda surda pelas ruas sujas do RJ do SP
andam de mãos dadas ou em cirandas incansáveis na Lapa e falam
-heteronormativo-
como se fora
feijão
na boca do povo

E olha
não é
O povo é uma entidade mágica
faz coisas que desconhecemos
escreve sua história difusa em código morse
atrás de geladeiras compradas em 12 vezes
sem juros ou
Jogam caxangá com pepitas verdes e cada pedra é um jogral que se decora
e cada jogral é uma época e cada mão uma revolução ou
o povo escreve a história dele no chão de barro,
madeira, ferro, mosca, cão passa em cima e mija, jumento, chuva, asfalto,
vem menino e reescreve com cuspe, a história da vida aperreada dele
ou
escreve suas sagas em filigranas de ouro, no meio do oceano.
Qualquer coisa que eu diga aqui é verdade porque tudo é já
mentira.

Perdemos o que nessa escalada violenta, você perdeu o quê?

Eu queria ter uma última coisa pra dizer
Mas eu não tenho
só leio o que vocês leem
só sei o que vocês sabem
só vejo o que vocês veem
Nada a acrescentar: palavras repetidas, inúteis, bobinhas.
Mas vou dizer sem ter o que dizer mesmo:
estamos perdidas, irmãs. Perdidas e mal pagas.

Exaustas da suavidade das nossas escolhas
Exaustas da tacanhice das escolhas dos outros
Exaustas e mal começou
Mas também enxutas limpas coração de leão
E o andrade
esse minino,
esse minin bom bonito bom
E eu
cheia de desiderio no meu cuore
No meio da Itália, no meio desses estranhos
Cheia de desiderio de democracia
E vem essa infecção esse câncer essa seiva essa seta me fuder
no meio do meu desiderio
me Fuder de pau mole
e chamam a isso de suruba
mas na suruba todo mundo goza
e aqui nisso aqui que eu vejo da tela do meu computador,
tem um ou dois, o resto finge rindo um riso amarelo de oprimido
enquanto uma multidão tenta entrar no motel com foices e flores
Era isso.
Domingo eu voto.

PS: Esse poema foi escrito e lido pela querida Janaina Pessoa, e emocionou todo mundo no encontro do Mulherio das Letras que aconteceu em Perugia – Itália, no dia 26 de outubro de 2018. Domingo, dia de eleição, dizemos com poesia aquilo que gostaríamos que fosse ouvido e ecoado hoje por todo o Brasil. Obrigada, Janaina, por compartilhar a força das suas palavras com a gente. Resistimos!

Literatura, Política e Resistência! As Mulheres dos Estudos Literários

Ontem, dia 26 de outubro de 2018, tive a honra e a alegria de participar de um encontro do Mulherio das Letras. Esse grupo de mulheres, que se auto-organizou em 2016/2017 para dar voz à literatura lida e escrita por mulheres, é um dos movimentos mais lindos que já vi acontecer no Brasil. E poder estar pessoalmente com essas tantas mulheres foi uma experiência que iluminou minha jornada e renovou minha fé na vida. Então, eu gostaria de compartilhar aqui com vocês o que eu apresentei lá ontem. Eu queria dizer para todas nós, mulheres, que sabemos que nossa luta nunca foi fácil, mas que nossa força renascerá sempre que precisarmos ser resistência. Às vésperas do segundo turno das eleições brasileiras, eu queria lembrar cada mulher que eu conheço, e cada mulher que vocês conhecem, de que floresceremos quantas vezes forem necessárias! Meu amor por todas vocês <3

 

Flash mob pela democracia em Perugia

 

As Mulheres dos Estudos Literários

Cláudia Tavares Alves

 

Outubro Literário: Mulherio Europa em verso e prosa

Università degli Studi di Perugia – Italia

26/10/2018

 

Bom dia. Gostaria de agradecer ao cuidado da organização, sempre tão prestativa, e à escuta de vocês aqui hoje. Pensando em como eu poderia começar esta apresentação, me dei conta de que seria possível partir de muitos pontos diferentes para abordar o tema das Mulheres nos Estudos Literários. Eu poderia, por exemplo, começar me apresentando, dizendo que sou doutoranda na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, que estudo literatura há 11 anos, e que atualmente estou na Itália fazendo um estágio de pesquisa sobre o escritor Pier Paolo Pasolini. Ou eu poderia começar dizendo que tenho um blog de divulgação científica sobre Literatura, o Marca Páginas, vinculado a um portal de blogs da Unicamp, e que nele mantenho uma série de publicações que se chama, justamente, as Mulheres dos Estudos Literários. Eu poderia também citar alguma escritora mulher que se dedicou a pensar sobre seu próprio fazer literário ou a teorizar a produção literária existente, e daí pegar um gancho para pensar a relação das mulheres com a Literatura. Quem sabe eu poderia ainda começar pela situação caótica e horrenda que estamos vivendo em nosso país e como, enquanto mulheres brasileiras, temos visto nossos direitos mais básicos serem ameaçados por um candidato à presidência. E que pouco importa não estarmos fisicamente no Brasil nesse momento de instabilidade política, continuamos sendo brasileiras onde quer que estejamos.

Apesar dessas tantas possibilidades, escolhi começar minha apresentação dizendo que hoje estou aqui não só como Cláudia Tavares Alves, mas também como alguém que conversou e ouviu companheiras da área dos Estudos Literários e que, por isso, acredita que tem algo a dizer sobre o assunto. Estou aqui como uma mulher que foi silenciada e que viu serem silenciadas diversas outras mulheres ao longo desses 11 anos de estudo e pesquisa. Estou aqui como alguém que teve que lidar durante todo esse tempo com a sensação de incapacidade, de inferioridade e de não merecimento por ocupar os lugares que ocupa e que sabe que, infelizmente, seu caso não é único nem isolado. Por isso, ainda que falando em nome de outras mulheres, é difícil não conjugar esses verbos na primeira pessoa do singular: essas experiências foram sentidas no meu corpo, na minha pele, na minha mente. E mesmo que elas não tenham acontecido exclusivamente comigo, como pude confirmar com os depoimentos que recolhi, é sempre difícil despir-se das próprias experiências individuais para falar em nome de alguma coletividade.

Mas talvez a primeira e mais importante coisa que preciso dizer antes de desdobrar esse ponto é que, de todos os inícios que imaginei, nenhum deles poderia ser imparcial ou apolítico. Estar aqui hoje, ao lado de mulheres extremamente fortes e capacitadas, é um gesto político que não podemos perder de vista. Hoje, na Itália e no Brasil, somos vozes políticas que ressoam, que lutam, que resistem. Um encontro de mulheres para falar sobre Literatura em suas diversas manifestações só pode ser um gesto político e, nesse sentido, precisamos nos lembrar de que estamos reunidas hoje por nós mesmas, e também pelas outras tantas mulheres que não puderam estar aqui.

E pensando nas Mulheres dos Estudos Literários, não consigo evitar a ideia de que temos feito tantas coisas apesar de. Apesar do machismo, dos espaços reduzidos, do silenciamento, da insegurança, do pouco incentivo e investimento, hoje temos uma rede de mulheres lendo, escrevendo, traduzindo, estudando, produzindo conhecimento de alta qualidade. Se historicamente precisamos lembrar que nosso lugar foi por muito tempo reservado a trabalhos domésticos, hoje, pelo contrário, somos maioria no Ensino Superior[1]: ocupamos 57,2% das vagas das universidades brasileiras. Esse número, entretanto, não corresponde ao número de professoras universitárias: nesse caso, somos ainda 45,5% do total de docentes de Ensino Superior em nosso país. Um número bastante baixo se pensarmos que, na Educação Básica, 80% são de professoras do sexo feminino.

Esses números foram divulgados pelo INEP (Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa), em 2016, e, para além dos dados quantitativos, tive contato com uma série de depoimentos que me fizeram perceber como não foram tantas as professoras mulheres que em geral tivemos na graduação no que se refere a crítica, teoria e história literária. Mesmo sendo uma área ligada a Letras, na qual majoritariamente vemos mulheres se graduando, a Literatura, por algum tempo, foi um território tomado por homens. Por isso foi e ainda é bastante comum que professoras sejam referenciadas, em geral, apenas como professoras, enquanto que os professores homens podem ser professores, escritores, intelectuais, renomados e reconhecidos por seus sobrenomes.

E o que dizer ainda das mulheres que foram e são sutilmente apagadas da história? Penso, por exemplo, em quantas de nós chegamos a ler Gilda de Melo e Sousa ou Viviana Bosi, grandes pensadoras e professoras universitárias de Literatura. Com certeza, não na mesma proporção com que lemos Antonio Candido e Alfredo Bosi. É claro que não estou aqui diminuindo a importância desses críticos literários devido ao seu gênero masculino, mas me pergunto há algum tempo por que será que lemos tão poucas mulheres em todas as etapas de nossa formação escolar e universitária. Me pergunto, por exemplo, por que quando me formei, em 2006 no Ensino Médio, minhas referências literárias de escritoras estavam reduzidas a Clarice Lispector, Cecília Meirelles e Lygia Fagundes Telles. Isso porque sempre fui uma aluna que gostava de Literatura, tive boas condições econômicas para adquirir livros e me interessava em ler para além das leituras obrigatórias. Quantas das minhas colegas pararam em Machado de Assis e Graciliano Ramos, e nunca souberam dos livros incríveis que foram escritos também por escritoras mulheres?

Atualmente, com as ondas do feminismo e os movimentos sociais que têm trazido para as esferas institucionais esse tipo de debate, podemos perceber um certo esforço em querer modificar esse cenário. Para pensarmos em exemplos concretos, trago a lista de leituras obrigatórias proposta pelo vestibular da Unicamp. Ele é historicamente considerado inovador e progressista no sentido de priorizar a capacidade de reflexão crítica dos candidatos. Além disso, tem sua própria lista obrigatória de leituras, a qual é uma das mais atentas às discussões atuais e busca sempre inovar e dialogar com as questões contemporâneas. Pudemos ver, recentemente, a inserção das canções do álbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo de rap Racionais MC’s, como leitura literária obrigatória. Essa escolha, com certeza, representa uma quebra importante de paradigmas dentro do que pode ou não ser considerado Literatura.

Porém, já se deram conta de que a primeira vez que uma obra literária escrita por uma mulher esteve nessa lista foi em 2016, com o conto “Amor”, de Clarice Lispector? E por mais que exista um esforço em alterar essa situação, ela não melhora tanto assim com o passar dos anos. Antes de 2016, a lista era composta por 9 livros escritos por homens e nenhum por mulheres. Depois de 2016, a lista passou a ser composta por 12 leituras e apenas um conto escrito por uma mulher foi incorporado a ela.

Para as listas de 2019 e 2020, já anunciadas, a situação apresenta uma melhora que deve ser considerada. Dentre as 12 leituras obrigatórias, agora temos 3 escritas por mulheres. Em 2019, além do já mencionado conto de Clarice, temos o livro de poemas A teus pés, de Ana Cristina César, e os diários de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Para 2020, permanecem Ana Cristina César e Carolina Maria de Jesus, sai Clarice Lispector, e acrescenta-se Júlia Lopes de Almeida, com o romance A falência.

Confesso que eu não conhecia a escritora Júlia Lopes de Almeida antes da lista do vestibular e, assim como eu, acredito que muitas outras pessoas também não a conhecessem. Conversando com alguém que estudou justamente o romantismo brasileiro em sua pesquisa de Doutorado, percebi que nem mesmo ele conhecia a escritora desse período. Então, de alguma forma, a presença desse livro na nova lista de leituras obrigatórias o reinsere na história literária brasileira, à medida que reconhece a importância de um livro esquecido por grande parte da nossa historiografia literária.

Acredito que esse movimento pode ser entendido de pelo menos duas maneiras distintas, mas complementares. A primeira a partir da ideia de que existe um movimento político de inserir a leitura dessas mulheres nas listas dos vestibulares, de forma que as próprias universidades passem a pautar os conteúdos escolares e acabem gerando dessa forma uma reação em cadeia. Ao levar os livros dessas escritoras para as salas de aula do ensino fundamental e médio, ainda que pela obrigatoriedade do vestibular, mais gente estará lendo mulheres.

A outra maneira seria entender que estamos, dentro das universidades, mais atentas a esse tipo de produção literária, e que, por isso, conforme conhecemos mais Literatura produzida por mulheres, mais encontramos boa Literatura escrita por mulheres. Então, a inserção dessas escritoras se deve à qualidade estético-literária dessas obras, que estavam até então esquecidas pela crítica e pelo público leitor, enão ao gênero a que elas estão vinculadas.

A meu ver, essas duas interpretações se complementariam e de maneira nenhuma a primeira anularia a pertinência da qualidade da segunda. Vejam, é consenso que não foram só os homens que escreveram e escrevem boa Literatura. Mas se não conhecermos a Literatura feita por mulheres, se não tivermos oportunidades para lê-las, não poderíamos sequer julgar sua qualidade.

A professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè, em parceria com o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), tem levantado dados alarmantes, aos quais me deterei brevemente apenas para ilustrar o nível de disparidade existente. Com a pesquisa Personagens do romance brasileiro contemporâneo, foi constatado que, entre o período de 1990 e 2004, nos quase 300 romances pesquisados, apenas 27,8% das obras foram escritas por mulheres. Os 72,2% dos escritores homens eram ainda, em sua grande maioria, brancos, de classe média e habitantes do eixo Rio-São Paulo. Esse dado talvez nos ajude a entender por que, no mesmo período e baseando-se nos mesmos romances pesquisados, apenas 37,8% das personagens eram mulheres e por que cerca de 16% desses livros não apresentavam nenhuma personagem mulher significativa[2]. É ainda chocante que, em um segundo momento dessa mesma pesquisa, que compreende o período de 2005 a 2014, entre os quase 200 romances pesquisados, esses dados se alteram muito pouco: 29,4% de autoras mulheres e apenas 34,6% de personagens femininas[3].

Se as mulheres escritoras são minoria e, por isso, são pouco lidas, e ainda não são representadas nos livros que lemos, como então nos sentirmos motivadas a ocupar esse lugar de escrita e de estudo? Não nos vimos, por muito tempo, representadas nas leituras que nos foram impostas e também nas leituras que pudemos escolher. Além disso, quantas mulheres ao longo dos anos foram incentivadas a serem escritoras? Acredito que pouquíssimas. Em contrapartida, nunca tivemos tantas mulheres escrevendo e se movimentando no meio literário como hoje – e a existência do Mulherio e desse evento nos últimos anos é uma prova maravilhosa de que esse espaço existe e pode ser diferente.

Registro da minha apresentação por Ana Júlia Valezi

É por todos esses motivos que posso dizer que estamos diante de um movimento que se complementa e faz a roda girar, possibilitando uma mudança dessa situação. E à medida que políticas públicas, como as das listas dos vestibulares, colocam em jogo mais escritoras mulheres, mais escritoras mulheres se sentem representadas e aptas a escreverem e publicarem suas obras. E assim, felizmente, a literatura produzida por mulheres ganha força no cenário literário brasileiro.

Quanto à área dos Estudos Literários, a situação também é ainda hoje um campo de ressignificação constante. Ouvi de mais de uma amiga, assim como ouvi de mim mesma por muito tempo, que a carreira acadêmica na área de Literatura não foi sequer desejada por pensarmos que essa área não seria para nós. O que significa, então, quando mulheres nem sequer cogitam uma possibilidade profissional por acreditarem que não servem, que não se encaixam naquela posição social? Com que frequência, aliás, ocorre essa espécie de autossabotagem em que, antes mesmo de considerarmos que não teremos capacidade para alcançar algo, dizemos a nós mesmas, em silêncio, que determinado lugar simplesmente não nos pertence? A construção social é tão forte, e estamos tão imersas nas escolhas que nos seriam óbvias, que não conseguimos mais conceber o que estão nos dizendo que é impossível de realizarmos.

Mas afirmo mais uma vez que estamos aqui hoje reunidas para lembrarmos umas às outras, cada qual com sua própria caminhada, que somos sim uma rede de mulheres extremamente capacitadas para fazermos o que quisermos. Estamos ocupando espaços que até pouco tempo atrás eram pouco imagináveis porque estamos nos vendo espelhadas em outras mulheres que conseguiram, que são brilhantes, que merecem estar onde estão porque têm capacidade de sobra para ocupar as posições que ocupam. E quando vemos outras mulheres nessas posições em que gostaríamos de estar, o impossível se torna possível.

Hoje, depois de tantos anos formulando e lidando com essas inquietações, faço questão de estar atenta à produção literária e crítica feita por mulheres. Mas é fato que grande parte desse acompanhamento se dá de maneira não institucionalizada, para além do universo acadêmico. O que quero dizer com isso é que é preciso que eu faça um esforço para chegar à Literatura e à crítica literária produzida por mulheres, pois nós ainda ocupamos um espaço reduzido na academia. Uma série de iniciativas, como o próprio Mulherio, nos ajudam a acessar esse tipo de conteúdo produzido por mulheres. Além disso, a pesquisa formal, nas bibliotecas, e a informal, em passeios despretensiosos por livrarias, não me deixam perder de vista que a cada homem que tenho a chance de ler, pois seu livro está exposto na vitrine, existe provavelmente uma mulher contemporânea a ele que não teve oportunidades igualitárias de ter seu trabalho divulgado.

E com isso retorno aos nossos dias presentes e penso que, quando o trabalho das mulheres em geral é diminuído até mesmo por um candidato à presidência do Brasil – e, infelizmente, isso provavelmente não o fará perder uma eleição –, estamos diante de um cenário pouco animador. Pesquisas realizadas recentemente, em 2017 e 2018, pela agência de empregos CATHO, mostram que ainda somos pior remuneradas em todas as áreas profissionais. Mulheres com ensino superior ganham ainda hoje um salário 43,5% menor do que homens ocupando exatamente os mesmos cargos. Além disso, somos minoria em cargos importantes e de gestão, e apenas aproximadamente 25% dos cargos de presidência são ocupados por mulheres. Nem mesmo na área da Educação, onde, como já vimos, somos maioria no ensino básico, essa disparidade salarial deixa de existir: as mulheres ainda recebem 9% a menos do que os homens[4].

E obviamente nada disso está relacionado à nossa menor capacidade de atuação. Pelo contrário, as experiências de trabalho tendem a ser melhores com mulheres ocupando cargos importantes, justamente porque precisamos nos preparar muito mais para fazer o que precisamos fazer, já que sabemos que seremos mais cobradas e mais questionadas por qualquer deslize cometido. E precisamos ainda demonstrar mais seriedade e compromisso com o trabalho, pois estamos sujeitas ao assédio moral e sexual recorrentes em ambientes de trabalho, inclusive dentro das universidades.

É diante desse cenário alarmante, entretanto, que nos refazemos. Somos mulheres, conhecemos desde sempre a força que nos habita e nos encoraja. Nossa própria existência é um ato constante de resistência e, por isso, os percalços de um mundo difícil de mudar não nos assusta. Estamos cercadas de boas companhias: boas companheiras de luta, boa literatura feita por mulheres, boas professoras, pesquisadoras e estudantes que hoje configuram uma geração que se questiona sobre as reflexões que tentei apresentar aqui hoje. A geração de crianças e adolescentes meninas que vem por aí, por sua vez, está chegando ainda mais consciente de que ninguém poderá limitar sua existência.

Eu gostaria então de terminar minha apresentação com a leitura de um poema escrito pela poeta italiana Piera Oppezzo, falecida em 2009, que está recolhido no livro Donne in poesia, de 1976. Fiz essa tradução há alguns meses quando a legalização do aborto não foi aprovada pelo Senado, na Argentina. Eu queria dizer para nossas hermanas, assim como eu gostaria de dizer aqui para todas nós hoje, que nossa existência como mulheres é a nossa maior força e que é com os nossos medos, com os nossos fracassos e os nossos erros, que reconstruímos essa nossa força. Com ela, nos reinventamos e reinventamos, inclusive, nossa própria esperança de que, um dia, um mundo menos desigual floresça. Obrigada.

 

O grande medo, de Piera Oppezzo

A história da minha pessoa

é a história de um grande medo

de ser eu mesma,

contraposto ao medo de me perder de mim mesma,

contraposto ao medo do medo.

Não poderia ser diferente:

na apreensão se perde a memória,

na submissão, tudo.

Não poderia

a minha infância,

saqueada pela família,

me permitir uma maturidade estável, concreta.

Nem a minha vida isolada

me permitir algo menos frágil

do que este debater-me entre ânsias e incertezas.

À infância, eu sobrevivi,

À idade adulta, eu sobrevivi.

Quase nada em comparação à vida.

Eu sobrevivi, no entanto.

E agora, entre as ruínas do meu ser,

Alguma coisa, uma utopia imóvel, está para florescer.[5]

[1] http://portal.inep.gov.br/artigo/-/asset_publisher/B4AQV9zFY7Bv/content/mulheres-sao-maioria-na-educacao-superior-brasileira/21206

[2] https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2018/03/19/as-mulheres-dos-estudos-literarios-regina-dalcastagne/

[3] https://revistacult.uol.com.br/home/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro/

[4] https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/mulheres-ganham-menos-que-os-homens-em-todos-os-cargos-e-areas-diz-pesquisa.ghtml

[5] https://internopoesia.com/2014/09/09/piera-oppezzo/

Literatura, Política e Resistência! A quem interessa queimar livros?, por Danielle Chagas de Lima

A quem interessa queimar livros?

O ano é 2018, século 21. Apesar da imensa distância espaço-temporal e também das diferenças entre as sociedades, vira e mexe eu me pego pensando em uma obra datada do século 2. São declarações como “Os livros que não trazem a verdade sobre o regime de 1964 têm que ser eliminados[1] e notícias como “Livros de direitos humanos são rasgados na biblioteca da UnB”[2] que me transportam à introdução da obra Agrícola, de P. Cornélio Tácito, escrita por volta do ano 98 d.C.[3]

Queima de livros. 30 ilustrações para “A História de Dom Quixote” (Fonte: The British Museum)

Tácito nasceu por volta do ano 56 e faleceu no ano 118 d. C. Ele foi um importante historiador de sua época e sua obra, que retrata o período do Império romano, nos chegou em grande parte conservada[4]. A obra da qual sempre me lembro intitula-se A vida de Júlio Agrícola (De uita Iulli Agricolae) e narra, conforme o título sugere, a biografia de seu sogro, Júlio Agrícola. Bem, tentando não me afastar demais do porquê tal livro me vem à mente, faço um breve resumo de seu contexto de produção.

Trata-se do início do principado de Trajano, em Roma, quando Tácito finalmente sente-se livre e seguro para escrever sem correr perigo por causa do conteúdo da obra que pretende produzir. No texto, antes de apresentar a personagem principal, o autor faz uma reflexão sobre a escrita da história, mais especificamente, de textos biográficos e autobiográficos. Segundo ele, desde tempos muito remotos, homenagear a vida daqueles considerados ilustres na sociedade era um costume bastante comum. Mas Tácito nos conta que, em seu ofício de historiador, durante muito tempo encontrou dificuldades para compor uma homenagem a Agrícola, um homem que julgava exemplar naquele contexto. Essa personagem central da obra viveu durante os principados de Nero e de Domiciano: dois imperadores que comumente são vistos como os mais cruéis da história do Império romano[5]. Ainda na abertura da obra, Tácito explica também sobre a impossibilidade de compor sua obra à época de Domiciano e relembra o que houve com aqueles que se atreveram a escrever:

Fyodor Bronnikov lendo a sentença de morte de Trásea Peto (Fonte: http://www.art-catalog.ru/picture.php?id_picture=11335)

Nós lemos que quando Trásea Peto e Helvídio Prisco foram louvados por Aruleno Rústico e Herênio Senecião, respectivamente, isso se tornou motivo de pena capital. E não se enfureceram só contra os próprios autores, mas também contra seus livros. Delegou-se aos triúnviros a tarefa de queimar as memórias dos mais ilustres espíritos, no comício do fórum. Certamente, pensavam ter também coibido com aquele fogo a voz do povo romano, a liberdade do senado e a consciência do ser humano. Sem contar os filósofos que foram expulsos e toda a nobre arte levada para o exílio, para que nada se encontrasse de honesto em parte alguma. Fornecemos, sem dúvida, uma grande prova de paciência, e tal como a geração antiga viu o extremo da liberdade, do mesmo modo nós vimos o extremo da escravidão e até o acordo entre o falar e o ouvir foi suprimido por meio de inquéritos. Também teríamos perdido com a voz a própria memória, se em nosso poder estivesse tanto o esquecer quanto o calar[6].

Aruleno Rústico e Herênio Senecião, seguindo a tradição literária, escreveram obras em homenagem a duas personalidades conhecidas na história romana por sua oposição à autoridade do imperador e à falta de liberdade de expressão do senado[7]. Ambos foram punidos com a morte. Seus livros, e talvez outros mais, foram queimados em público. Tudo isso porque representavam condutas de personagens que em certa medida questionavam a autoridade única do imperador e denunciavam a corrupção de seus pares. O fogo, como Tácito nos diz, também deveria silenciar a voz do povo, suas ideias, sua consciência. A liberdade de pensamento também foi censurada, expulsando-se dali os filósofos. Ou seja, havia uma grande preocupação em limitar os discursos circulantes. Pode-se dizer que a Literatura (e, consequentemente, o pensamento em circulação) só poderia representar aquilo que passasse pelo crivo do imperador[8].

Por um lado, quando eu vejo notícias como as que mencionei no início deste texto, não consigo deixar de pensar que, infelizmente, há mais de 2000 anos obras são lançadas ao fogo, a fim de apagar a pluralidade de visões em determinados momentos históricos. Nem era preciso ter ido tão longe para encontrar testemunhos desse tipo, tantas outras vezes isso já aconteceu na história da humanidade[9]. Por outro lado, eu fico feliz e me fortaleço ao pensar em como a Literatura dispõe de força, valor político e atua como resistência. Não é à toa que os livros tornam-se vítimas concretas e simbólicas daqueles que pretendem contar uma história única. Tácito passou quinze anos em silêncio para preservar sua vida. Ao primeiro sinal de abertura, não deixou de relatar o autoritarismo existente outrora e as consequências daqueles que escreviam obras livres de uma adulação ao imperador. Fez de sua obra, portanto, memória daqueles que perderam suas vidas e também resistência, ao incluir na história os nomes daqueles que mereciam ser lembrados[10].

Lucio Massari (1569-1633)

As manchetes que citei me fazem pensar nesse texto porque ali algumas palavras me chamam a atenção. Propõe-se eliminar livros que não contêm a verdade sobre um momento histórico há muito estudado e documentado. Mas qual verdade, afinal? Livros sobre direitos humanos são rasgados… a quem isso interessa nesse momento? A que tipo de políticas interessa suprimir obras, e mesmo seus autores, ao longo da História?

O nosso mundo e a nossa história são feitos de narrativas. De pontos de vistas. São sempre tempos lamentáveis aqueles em que vozes são silenciadas, concreta e simbolicamente. Mas a literatura resiste e, por meio dela, podemos também nós sempre resistir e buscar a liberdade de pensamento e de expressão. Afinal, a “arte conversa com a liberdade que resiste dentro de nós”[11].

Em tempo: este texto é sobre livros, mas não pode deixar de lembrar e lamentar a perda de tantos registros culturais, de obras de artes e de documentos que se perderam com o incêndio de museus importantes em nosso país. Museus que, negligenciados e abandonados pelo investimento público, foram consumidos pelo fogo junto com memórias do passado. Nos últimos três anos, o Memorial da América Latina, o Museu da Língua Portuguesa e o Museu Nacional tornaram-se vítimas desse fogo institucionalizado.

[1] Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/28/general-ligado-a-bolsonaro-fala-em-banir-livros-sem-a-verdade-sobre-1964.htm?cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola. Acesso em 09/10/18.

[2] Fonte: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2018/10/04/livros-de-direitos-humanos-sao-rasgados-na-biblioteca-da-unb.ghtml. Acesso em 09/10/18.

[3] Antes de continuarmos, é importante ressaltar que a leitura de obras antigas requer atenção a diversos conceitos e ao funcionamento próprio daquela sociedade para que não sejamos anacrônicos. Além disso, mesmo a ideia de História, como disciplina, é muito diferente daquela que temos hoje, bem como os procedimentos de sua escrita, questões que escapam ao espaço deste post. Para mais informações a esse respeito, indicamos a tradução completa e anotada dessa obra, disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/271127/1/Lima_DanielleChagasde_M.pdf.

[4] Mais sobre o autor e outros historiadores romanos em FUNARI, P. P.; GARRAFONNI, R. S. Historiografia: Salústio, Tito Lívio e Tácito. Coleção Bibliotheca Latina. Campinas: Editora Unicamp, 2016.

[5] Tácito escreveu sobre o principado de Nero na obra Anais (Annales), nos livros 13 a 16.

[6] Tácito, A vida de Júlio Agrícola, 2. Tradução do latim de minha autoria. Temos outro testemunho antigo sobre este fato: Suetônio, que escreveu a obra A Vida dos doze césares, também menciona esse ocorrido na biografia de Domiciano.

[7] Trásea Peto foi um senador romano cujo comportamento é lembrado como símbolo da oposição a Nero. Lutou por seus ideais até a morte. Helvídio Prisco foi exilado pelo imperador na mesma época. Para saber mais, indicamos os Anais e as Histórias, de Tácito.

[8] Domiciano não foi o único imperador a agir desta forma. O imperador Tibério também condenara o historiador Cremúcio Cordo, cujos escritos não lhe agradaram; sua obra foi queimada, conforme relatam Tácito (Anais, 4.34-5) e Suetônio (Vida de Tibério, 61.3).

[9] Em diversos momentos e sociedades, livros com discursos diferentes daquele dos regimes vigentes foram incinerados. O caso da biblioteca de Alexandria é bastante conhecido. Durante a Inquisição isso também ocorreu. Em 1933, livros foram queimados durante o Nazismo, na Alemanha. Mais recentemente, em 1973, Pinochet também ordenara queimar livros. Para mais eventos do tipo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Queima_de_livros.

[10] Assim Tácito nos conta: Pois, se por quinze anos, um grande espaço de tempo da vida humana, muitos foram mortos por circunstâncias fortuitas e os mais diligentes pela crueldade do príncipe, poucos, por assim dizer, somos não só sobreviventes a outros, mas também a nós mesmos. Fomos arrebatados do meio da vida tantos anos, durante os quais viemos em silêncio, jovens até a velhice, velhos até quase o próprio fim de sua geração. Mas eu não lamentarei ter composto, mesmo com tom grosseiro e rude, a memória da servidão passada e o testemunho dos êxitos do presente (Tácito, A vida de Júlio Agrícola, 3.2).

[11] De Eliane Brum, Como resistir em tempos brutos, aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html.

Literatura, Política e Resistência! Árvore da memória, de Rosmarie Waldrop (introdução e tradução de Marcelo Lotufo)

Rosmarie Waldrop é uma importante poeta norte americana. Nascida na Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial, passou sua primeira infância em meio a bombas e doutrinação ideológica nazista. Pequena demais para concordar ou discordar, viu tudo com um certo distanciamento. Adulta, retornou ao tema buscando entender, assim como toda a sua geração, o que se passara na Alemanha de seus pais; como a naturalização do horror nazista fez com que o Holocausto se escondesse atrás da rotina e da burocracia.  Waldrop mudou-se para os Estados Unidos durante o pós-guerra, onde se casou com o também poeta Keith Waldrop. Na América, ela abandonou a língua alemã e passou a escrever em inglês, reforçando o distanciamento que precisava para revisitar o seu passado de forma crítica e consciente.

Ilustração por Pierre Mornet

Parte dos seus poemas versa sobre a necessidade de investigarmos as camadas históricas da nossa sociedade, enfrentando memórias e acontecimentos que preferiríamos ignorar. Em um momento no qual discursos de ódio parecem se normalizar no Brasil, além de um apoiador confesso da tortura e da ditadura militar (algo impensável há alguns anos) liderar as pesquisas para presidência da república, revisitar o passado parece um exercício mais do que necessário; parece um dos únicos caminhos para salvarmos a nossa democracia e repensarmos o pacto democrático que a sustentou desde o fim da ditadura.

Árvore da memória

Rosmarie Waldrop, no livro Split Infinites

Tradução Marcelo Lotufo

 

E EM SEGUNDO LUGAR, na Alemanha

Meu primeiro dia na escola , setembro de 1941, dia show de bola. O tempo não passava, mas era conduzido ao cérebro. Me ensinaram. A saudação nazista, brincar de flautista. Quão firmemente entrincheiradas, as velhas teorias. Já usando papel, caneta e tinta. Sim, eu disse, estou aqui.

Eu tinha seis ou sete anões, a branca era de neve, o príncipe estava em guerra. Hitler no rádio, seguido por Léhar. Sentidos impingiam-se. Apagões, sirenes, colchões no chão, visitantes ou fantasmas furtivos.

E mamãe furiosa. Sirenes. Silvos. O gato. Minha irmã gritou como nunca. Sua amiga. Com medo de olhar. O que eu sabia sobre trabalho forçado ou trabalho de parto? Dos interiores profundos do corpo? Eu tinha aprendido a  andar de bicicleta.

O gato preto. A neve branca, a flor azul. Uma ameaça de uma cor diferente. Movimento uniforme em velocidade inultrapassável. Nada fastidioso. Nada necessário o preenchimento de substâncias no âmago profundo.

Mãe, eu gritei, extremamente. E o lobo. Passando pela neve eu estava dentro de casa em, lã puxada sobre os meus olhos. O lobo. O menino que não gritou ‘olha o lobo’ também morreu. Aberturas crepusculares.

Testa honesta. Cabelos negros. Mãos parcimoniosamente sobre os joelhos. Uma menina polonesa. Na Alemanha? Na guerra? Movendo-se velozmente pelo ar entre nós, uma imagem contínua. Chega de medo de gato preto, sinos (assassinos, ferinos), de sirenes, silvos de bombas.

*

Uma longa vida aprendendo sobre o capítulo anterior. Que minha alma está de calça jeans, minha mãe dando à luz, meu banco de esperanças na Alemanha, leste de expectativas, oeste de ainda esperando. Na cama com um antídoto.

Comendo da árvore. Folhas caindo antes da queda. Por um buraco na memória. A fruta enruga novos problemas, mas não extingue. O pomar há muito abandonado.

(Publicado em https://traducaoliteraria.wordpress.com/2018/10/15/arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo/)

Literatura, Política e Resistência! Em nome da cultura me retiro do Prêmio Strega, por Pier Paolo Pasolini (tradução Cláudia Alves)

A Guilherme Ivo, com quem tive a honra de compartilhar o ofício da tradução, a alegria pelas leituras e o desajuste em nosso mundo. Se hoje ouso traduzir Pasolini, é porque um dia ele me disse que eu poderia (e deveria) fazer isso.

Em 1968, o escritor italiano Pier Paolo Pasolini decidiu se retirar de um dos maiores prêmios literários da Itália (senão o maior) por não concordar com a forma como a produção literária vinha sendo tratada em seu país. Sua maior crítica estava relacionada à transformação do mercado editorial em mais uma engrenagem do complexo sistema de dominação da indústria cultural e do consumismo. Com essa atitude, o escritor mostrou estar disposto a colocar em prática uma reflexão que começava a ganhar consistência em seus escritos jornalísticos. Seu gesto de protesto reflete, por sua vez, o compromisso com suas reflexões críticas e não com um mercado editorial sedento por enjaular escritores em um sistema de produção comercial. Movido por seus “interesses culturais”, isto é, pela crença de que a verdadeira literatura só poder ser criada com total liberdade de pensamento, Pasolini se retirou de uma cadeia de produção que, infelizmente, está presente em nossa vida literária hoje mais do que nunca. Coerência de conduta: Pasolini foi um dos poucos em nossa história que teve coragem de viver sua vida com a mesma criticidade com que observava as mudanças sociais e políticas de sua época. E é por isso que seu texto abre a nova série sobre Literatura, Política e Resistência que se inicia hoje aqui no blog Marca Páginas. Porque precisamos protestar e defender, sempre, aquilo em que acreditamos, em todas os espaços da nossa existência. Boa leitura a todos!

 

Em nome da cultura me retiro do Prêmio Strega[1]

Pier Paolo Pasolini

Tradução: Cláudia T. Alves

 

A primeira reação de um observador pragmático e um pouco indiferente quando descobre que, pouco antes da segunda votação, um participante retira seu livro do Prêmio Strega é que se trata de uma ação incorreta. Pois bem, e é mesmo. Trata-se de um erro formal, e sabe-se que o acerto formal é uma das bases da convivência democrática. Ainda que isso não tenha exigido muito esforço, precisei então usar uma certa violência contra mim mesmo nessa decisão de me retirar do prêmio (formalmente, de acordo com o regulamento, a minha saída não existe na prática: meus 62 eleitores estão portanto livres para fazer o que quiserem – e sabemos que sou plenamente grato a eles por seus votos, inclusive porque 40 deles foram inesperados).

Por que usei desta violência contra o meu legalismo e o meu respeito pelas formalidades democráticas? Porque eu estava diante de um dilema: ou sair incorretamente – e isso seria ruim – ou ficar – corretamente – e isso seria pior ainda. É muito simples dizer o porquê. Mas, primeiro, quero fazer um resumo do que aconteceu nesses dias.

Como o leitor talvez saiba, na primeira votação do prêmio os candidatos estavam restritos a 5 nomes: Bevilacqua (103 votos), eu (62 votos), Cattaneo (56 votos), Barolini (52 votos) e Zavattini (37 votos). Eu tinha decidido participar do prêmio como se fosse um jogo (ou uma loteria, como disse Zavattini): para ter a satisfação infantil de ser premiado. Enfim, participei com leveza, com o gosto do risco, com curiosidade, com vaidade – talvez para agradar a minha mãe, como eu fazia quando voltava para casa, durante a primeira série, e mostrava lá da rua, ela olhando da janela, a fita verde da medalha de primeiro aluno da classe, conquistada semanalmente (ai, que hábito maldoso). Bom, aos poucos a minha leveza se mostrou ingenuidade e essa ingenuidade, cumplicidade.

É verdade que outras vezes já participei do prêmio: com Ragazzi di vita, em 1955 ou 1956, e com Una vita violenta, em 1959. Os eleitores (escolhidos arbitrariamente, e por isso digo que quem decide participar do prêmio Strega decide participar de um jogo e não de uma “competição democrática”) decretaram minha derrota de forma exemplar. Mas aqueles eram outros tempos, eram os anos 50, com a Itália ainda paleocapitalística, com o Sul, com seus subgovernos etc. etc. Hoje tudo mudou. Enquanto o Prêmio Strega era, como dizem, uma coisa de família, participar dele parecia jogar bingo com os vizinhos – ou seja, todas as pequenas bagunças, as míseras alianças, as contratações forçadas faziam parte de uma “imoralidade”, contra a qual nem valia a pena polemizar. Hoje, por outro lado, o Prêmio Strega se tornou parte integrante da chamada “indústria cultural” e se enquadra em um novo tipo de Itália burguesa, sobre a qual não paira mais a ameaça romântica e ultrapassada de uma revolução operária, a qual no final das contas não aconteceu. A “imoralidade” portanto não é mais um fenômeno parcial, no cerne de uma particularidade social (a vida literária), mas é um fenômeno total, relacionado ao conjunto da sociedade italiana.

A imoralidade que imperava no Prêmio Strega nos anos anteriores ao novo rumo da sociedade italiana não me ofendia mais do que parcialmente e eu me permitia um certo cinismo, mas hoje não mais. Quando aceitei concorrer ao prêmio esse ano, estava iludido – por culpa da minha natureza relutante em reconhecer o mal e a má fé – de que as coisas não seriam tão graves. A minha ingenuidade me fez cometer um erro; seria estúpido se eu agora não reconhecesse publicamente esse erro e não tentasse repará-lo talvez até erroneamente, isto é, cometendo uma nova ingenuidade.

Em resumo, tomei consciência dos fatos (dos quais, infelizmente, não posso e, acho, nunca poderei ter provas) que me convenceram de que o Prêmio Strega está completa e irreparavelmente nas mãos do arbítrio neocapitalístico; que aquilo que aconteceu em 1966 não foi um caso, mas um precedente: e que esse ano as coisas estão se repetindo. Devo me tornar cúmplice? Um editor certamente tem o direito de exercer as pressões que deseja, os seus interesses são do tipo industrial e, diante da concorrência, sabemos que os “patrões”, mesmo que adocicados pelo novo rumo, são capazes de qualquer coisa. Os meus interesses, pelo contrário, são de tipo cultural e, para mim, ser capaz de qualquer coisa pode significar apenas uma atitude: protestar. Assim me retiro incorretamente da segunda votação do prêmio, em protesto: protesto contra a interferência do editor industrial em um campo que considero ainda, arcaicamente, não industrial, a qual se concretiza na criação de valores falsos e na extinção de valores verdadeiros. Digo extinção porque o neocapitalismo não tem escrúpulos: a América reacionária o educa. Circulam palavras de ordem e velinas[2]. Sobre esse livro podem falar, sobre esse outro se calam; este livro ganha um prêmio, esse outro não. E ai de você, Editor de revista, se publicar boas resenhas sobre esse livro. E se você, Escritor, não fizer uma boa resenha sobre esse outro, você vai me pagar caro por isso: nenhum dos meus periódicos vai mais falar de você. Ah, e você, Literato, é amigo de outro literato? Pois bem, traia-o, se não eu não renovo seu contrato com a minha editora. Você é jurado de algum prêmio? Ótimo, me dê a cédula de votação ou entre na lista dos banidos. Vai, pegue esse dinheiro e me dê a cédula. Ah, velhos tempos, quando uma delegação de jurados do Strega ia até algum escritor (bom) para pedir-lhe que se retirasse do prêmio porque a filha de algum outro escritor (bom) precisava se casar, e então o dinheiro do prêmio ia para ela! Hoje, a indústria do livro tende a transformá-lo em um produto como outro qualquer, para puro consumo, logo não há necessidade de bons escritores. E isso responde perfeitamente à exigência da nova burguesia, que parece completamente dona da situação, das obras de entretenimento, de escape e de falsa inteligência.

Repito: não quero me tornar cúmplice desse estado das coisas de jeito nenhum. E assim como odeio a cumplicidade, odeio também o compromisso. Eu poderia continuar formalmente fingindo ser um concorrente democrático e, de acordo com Maria Bellonci, apoiando pela última vez, fosse com uma vitória ou com uma derrota apertada, o Prêmio Strega assim como ele é: isto é, um campo de operações do consumismo mais brutal. Na verdade, a senhora Bellonci me prometeu que para o próximo ano o prêmio seria reformado, garantindo um nível melhor das obras apresentadas etc.

Não. Não quero fazer parte de tal acordo. Acredito que somente um protesto completo, rigoroso e sem compromissos possa ser útil para que o prêmio, se precisar ser reformulado, seja reformulado por completo, recolocando-o integralmente em discussão. Estou convencido de que só assim poderá existir um “outro” Prêmio Strega, que garanta de fato os interesses culturais “contra” os interesses industriais. Se querem chegar a isso por meio de acordos, compromissos, silêncios, então quer dizer que a boa vontade não existe de verdade.

Para terminar, gostaria de dizer que sei que a essa altura alguém poderia perguntar por que estou sozinho, ou com poucos amigos – outros concorrentes ao prêmio, por exemplo –, a travar essa batalha, e se por acaso não existe um “sindicato dos escritores” que intervenha, com força e autoridade (em dose dupla: sindical e literária), para defender seus filiados da verdadeira “escravidão” à qual estão começando a serem reduzidos pela indústria cultural. Pois bem, essa é uma pergunta que faço a mim mesmo sem saber respondê-la, mas à qual se deve, agora ou depois, dar uma resposta.

[1] Publicado originalmente no jornal Il Giorno, em 24 de junho de 1968. Integra a coletânea Saggi sulla politica e sulla società, na coleção I Meridiani (Milão: Arnaldo Mondadori Editore, 1999), pp. 151-155. Os direções autorais do texto pertencem portanto à editora Mondadori e por isso a presente publicação da minha tradução deve ser utilizada apenas com a finalidade de leitura e estudo.

[2] Velina era uma espécie de nota emitida pelo governo fascista italiano (1922-1943) com o intuito de manipular e regular o que e como as notícias circulariam na imprensa da época. Foram proibidas em 1943, mas foram usadas até 1945.

A tradução de textos literários – parte 2

Há algum tempo, lancei um desafio literário para algumas pessoas próximas a mim e que também estão ligadas à área de estudos literários. Tendo como inspiração o texto “23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886)”, escrito por Matheus Mavericco e publicado pelo blog Escamandro[1], propus que cada uma de nós traduzisse individualmente um mesmo poema e depois reuníssemos e publicássemos as diferentes versões aqui no blog Marca Páginas. Os resultados, é claro, ficaram muito divertidos e finalmente apresento tudo aqui nessa publicação[2]. E vale também como comemoração pelo dia 30 de setembro, dia internacional da tradução!

Por afinidades acadêmicas e pessoais (e porque acho que, exceto pelo fenômeno Elena Ferrante, ainda se lê pouca literatura italiana no Brasil), acabei escolhendo esse pequeno poema do poeta italiano Giorgio Caproni[3]. São só 4 linhas, mas é incrível como as palavras, e o uso poético que podemos fazer delas, se multiplicam em uma vastidão de possibilidades quando estamos diante do desafio de reescrever, em formato de tradução, um poema.

Foto por Ylanite Koppens.

E foi justamente essa a razão pela qual me senti motivada a propor (e também a encarar) o desafio da tradução desse poema. De quantas maneiras diferentes é possível ler um mesmo poema? De quantas formas diferentes é possível, então, traduzir um mesmo poema? Aparentemente, infinitas. Uma obra como a Odisseia, por exemplo, reconhecida por ser talvez a obra literária mais antiga de que temos notícias, é até hoje traduzida e publicada em diversas versões muito diversas entre si. Isso porque, em sua riqueza de sentidos, ela desperta em cada um de seus leitores-tradutores um aspecto que merece ser priorizado por sua tradução. Por isso há traduções que foram feitas em forma de poema, com estrofes, versos e rimas, e há outras que foram feitas em prosa: e todas elas partindo exatamente do mesmo texto-fonte.

Como as línguas não são exatamente equivalentes ou transparentes, mesmo que por vezes sejam parecidas, como é o caso do português e do espanhol, escolhas precisam ser feitas e é aí que entra a interpretação de quem está traduzindo, de forma que um texto na verdade pode se tornar vários à medida que novas pessoas o leem e o reescrevem em suas próprias línguas. Com a poesia é preciso ainda balancear a questão da forma poética, escolhendo ou não manter as rimas, as sonoridades, os paralelismos, a melodia etc. do poema original. E se a escolha for mesmo priorizar a forma, mantendo ou criando uma rima, por exemplo, é preciso ainda manter a atenção em relação ao significado das palavras e se elas, no geral, conseguem criar no leitor alguma experiência de leitura semelhante à criada pelo original.

Não é nem um pouco fácil traduzir literatura. Na minha humilde opinião, é o campo em que as palavras estão mais livres e mais sensíveis aos seus infindáveis usos possíveis. No uso literário da linguagem, nessa potência de beleza à que a linguagem pode chegar, não existem limites para o que é humano se manifestar. A tradução busca, por sua vez, recriar as liberdades e as sensações de uma língua na outra.

Foto por Dino Ignani.

A seguir, o poema original escrito por Caproni[4], publicado em 1982, na coletânea Il franco cacciatore[5]. Na sequência, seguem as traduções feitas por amigas e amigos literatos. Cada versão traz em si suas próprias escolhas, suas prioridades literárias e particularidades interpretativas. Deixo aqui publicamente, mais uma vez, meu agradecimento a vocês que toparam participar do desafio. Mesmo que minha opinião seja suspeita, digo novamente que adorei os resultados. As traduções ficaram excelentes e os efeitos de leitura alcançados pelas diferentes versões com certeza valeram todo nosso esforço.

 

ERRATA

Non sai mai dove sei.

CORRIGE

Non sei mai dove sai.

(Giorgio Caproni)

 

ERRATA

Não sabes nunca onde estás.

CORREÇÃO

Não estás nunca onde sabes.

(Fabiana Assini)

 

Errata

Não sai mais donde sabe.

Corrige

Não sabe mais donde sai.

(Lucas Michelani)

 

Errata

Você nunca sabe onde está.

Corrige

Quem é que está onde sabe?

(Júlia Mendes)

 

Errata

Nunca sabe onde está.

Corrige

Nunca está onde pensa.

(Carlos Silva)

 

Desvios

não vô nunca onde tô.

Endireitar:

não tô nunca onde vô.

(Danielle Lima)

 

Errata

não sai nunca; sabe que não vai.

Corrige

não vai nunca; sabe que não sai.

(Danielle Lima)

 

ERRATA

Nunca sabes onde estás.

CORRIGE

Nunca estás onde sabes.

(Cláudia Alves)

 

Errado

Não acho nunca onde estou.

Correto

Não estou nunca onde acho.

(Cláudia Alves)

[1] Texto disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2018/02/22/23-traducoes-para-um-poema-de-emily-dickinson-1830-1886-por-matheus-mavericco/. A dica preciosa é que o blog Escamandro como um todo é muito interessante e vale a visita de quem gosta de literatura, poesia, tradução e crítica.

[2] Recomendo a leitura de outros textos já publicados aqui no blog que também discutem tradução literária: “A tradução de textos literários – parte 1”, disponível em https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2017/04/20/traducao-de-textos-literarios-parte-1/, e “O camelo pelo buraco da agulha e outras histórias estranhas de tradução”, publicado recentemente em parceria com Jacqueline Plaça (tradutora) e Stant Litore (autor), no qual se pensa a questão das escolhas lexicais operadas em uma tradução: https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2018/09/18/o-camelo-pelo-buraco-da-agulha-e-outras-historias-estranhas-de-traducao-por-stant-litore-traducao-jacqueline-placa/.

[3] Mais uma dica preciosa: acompanhem o blog Literatura Italiana traduzida no Brasil, disponível em http://literatura-italiana.blogspot.com/. Aqui encontramos mais informações sobre o escritor Giorgio Caproni e outros importantes autores e autoras italianos.

[4] Para mais um poema de Caproni, traduzido para o português pelo professor e tradutor Maurício Santana Dias, vejam http://revistamododeusar.blogspot.com/2010/02/giorgio-caproni-1912-1990.html. E fica a última dica do post: a Revista Modo de Usar e Co. foi uma iniciativa incrível que criou um acervo online muito bom de poesia e de tradução.

[5] Agradeço Fabiana Assini, cuja pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina é sobre Caproni, pela indicação bibliográfica.

O compromisso político de fazer ciência no Brasil hoje

Hoje o dia amanheceu chuvoso em muitas cidades, e aqui em Roma também. Andando pelas ruas, reparei em quantas pessoas carregavam seus guarda-chuvas. Não pude evitar o pensamento: nenhuma delas estava com medo de levar um tiro e morrer por causa do que carregavam. Esse post é em memória de Rodrigo Serrano, brutalmente assassinado no dia 17 de setembro de 2018 pela polícia militar do Rio de Janeiro.

O compromisso político de fazer ciência no Brasil hoje

Quem escolhe ser pesquisador em nosso país (e no mundo todo) acaba se acostumando com o questionamento recorrente sobre a utilidade prática do que faz, do seu trabalho. Nas ciências humanas, esse questionamento é talvez ainda mais frequente porque nossas pesquisas não produzem, na maioria das vezes, resultados imediatos, pragmáticos, mensuráveis pelos parâmetros da sociedade de consumo. Estudar as diversas perspectivas da representação literária ao longo dos anos na literatura brasileira não parece ter o mesmo prestígio que compreender a reprodução de uma bactéria a fim de criar um novo remédio, por exemplo. E por que será que isso acontece? Arrisco um palpite: porque, nessa sociedade, pesquisas que não geram patentes, sobretudo porque não geram lucros, não despertam muito interesse.

Sempre que posso, faço questão de começar meus textos por aí, porque acredito que precisamos lembrar – e relembrar quantas vezes pudermos – que estamos vivendo em uma época em que a formação e a reflexão de tipo humanística correm o risco de cair em desuso. Atualmente, a ideia de trabalho e produção de conhecimento está ligada a valores capitalizados, tecnocráticos, pouco ideológicos ou apolíticos, e, nesse espaço, a maturação de reflexões humanas não tem tempo suficiente para acontecer. Tudo precisa ser rápido e funcional. Já deu para perceber que a conversa é tensa, né? Mas todo esse preâmbulo é para pensarmos juntos como a ideia de produção científica se encaixa nesse contexto – e como fazer ciência, em todas as áreas, principalmente dentro de uma universidade pública, só pode ser entendido como um gesto político.

Nos estudos literários (e talvez posso afirmar que no âmbito das pesquisas sobre linguagem em geral), existe um esforço em se pensar os poderes que estão em disputa. Nosso trabalho muitas vezes se volta à desnaturalização de ideias consolidadas e de pensamentos enraizados em nossa cultura. Nesse sentido, fica difícil imaginar como uma pesquisa desse tipo pode ser considerada apolítica: estamos constantemente exercitando nossa reflexão crítica ao olhar para o mundo e estudar suas diversas manifestações ao longo do tempo.

É por esse caminho que muitos estudiosos pensam na capacidade transformadora que a própria literatura exerce. Escrever seria um gesto de colocar no papel aquilo que precisa ser revisto em nosso mundo e, a partir daí, gerar no leitor um pensamento com potencial para se tornar atitude. Estamos então em um terreno em que a literatura pode ser vista como um espaço público de politização e também de disputa de histórias. Por meio dos livros, seria possível contar uma história que sistematicamente determinadas esferas de poder quiseram (e querem) calar, assim como poderia despertar nos leitores uma reflexão. Ou seja: quanto mais a gente lê, mais a gente se depara com versões diferentes para uma mesma história e dificilmente sairemos dessas leituras da mesma forma que entramos.

Jean Paul Sartre, importante filósofo e escritor francês do século XX, publicou em 1948 o livro Que é a literatura? (Editora Ática, 2004, tradução Carlos Felipe Moisés), no qual discute, após o final da Segunda Guerra Mundial, o que, por que e para quem escrever literatura. Depois das atrocidades cometidas pelos governos fascistas e nazistas nos anos anteriores, Sartre e tantos outros intelectuais voltaram seus pensamentos em direção às ainda possíveis perspectivas de existência humana – e como o ato de pensar e escrever sobre essa existência ainda poderia ter alguma função.

Foto por Daniel Frank.

Sartre defende a ideia de que “através da literatura (…) a coletividade passa à reflexão e à mediação, adquire uma consciência infeliz, uma imagem não equilibrada de si mesma, que ela busca incessantemente modificar e aperfeiçoar” (2004, p. 217). Sua posição parece estar entre dois caminhos já bastante trilhados quando se pensa no fazer literário: a ideia de que a literatura vai salvar a humanidade, despertando-lhe a consciência necessária para isso, mas também a ideia de que essa consciência é infeliz, desequilibrada, mediada, o que significa que não necessariamente ela atingirá seu potencial de conscientização nos indivíduos.

Muito complicado? É mais ou menos pensar que ler não é sinônimo de caráter – há muitos exemplos por aí de gente que já leu muito, mas continua tendo comportamentos questionáveis. E também que nem toda literatura é questionadora e progressista, afinal é também no âmbito literário que versões opressoras da história se consolidam. O ponto principal é que, repito, parece que estamos diante do potencial de reflexão e de crítica que pode emanar da literatura. A ideia de que, com esse esforço de leitura, a coletividade pode tomar conhecimento de si mesma, reconhecer onde estão suas falhas e, a partir daí, buscar modificá-las e aperfeiçoá-las. Em outras palavras, escrever e pensar a literatura como pequenos movimentos de transformação.

O lugar que ocupamos como pesquisadoras e pesquisadores, me parece, passa também por essas mesmas questões. A ideia de produzir ciência, ou seja, de produzir conhecimento, em um país com tantas desigualdades (sociais, econômicas, culturais) como o nosso não deve estar isenta de sua potencialidade de reflexão e de transformação social. Porque são ausências políticas em momentos conturbados como os que estamos vivendo ultimamente que podem criar monstruosidades históricas com as quais certamente não queremos conviver.

E assim chegamos ao Brasil do ano de 2018, onde ainda é preciso debater machismo, racismo, homofobia e tantos outros preconceitos enraizados na nossa história. Esse debate, que perpassa todas as esferas públicas de produção de conhecimento (e por isso também todas as universidades, programas de pós-graduação e institutos de pesquisa), não pode ser diminuído ou silenciado, pois estamos disputando a história que se fará daqui por diante. A reflexão humanística, que deveria ser uma guia aos estudos literários e também às demais ciências, reafirma sua importância nesse processo como aquela que não nos deixa esquecer os momentos em que a humanidade se viu ameaçada por seu próprio desenvolvimento e capacidades destrutivas. Posicionar-se politicamente em todas as esferas que nos cabem é então reconhecer a função pública que cada indivíduo carrega em si e estimular a reflexão crítica em todas as frentes imagináveis. Resistir em todos os espaços que ocupamos: esse é o compromisso científico e político do qual não podemos nos isentar.

 

O camelo pelo buraco da agulha e outras histórias estranhas de tradução, por Stant Litore (tradução Jacqueline Plaça)

A tradução de textos literários já foi assunto aqui no blog algumas vezes[1]. É um tema que merece nossa atenção porque, além de ser um trabalho bastante atencioso e exaustivo por parte de quem se propõe a fazê-lo (e que merece nosso reconhecimento por isso), é também um exercício de escolhas – e toda escolha é também uma sutil demonstração de poder.

O texto que publicamos hoje aqui no blog, escrito pelo escritor de ficção Stant Litore e traduzido pela roteirista e tradutora Jacqueline Plaça, discute justamente os pequenos poderes que surgem quando alguém se propõe a traduzir um texto, sobretudo quando se trata de algum texto sagrado ou canônico, como a Bíblia, que carrega consigo milhares de anos de história e que é um grande influenciador da nossa sociedade até os dias de hoje.

Camelo e corda são palavras semelhantes na sua origem e foram confundidas no meio do caminho, mas será que obedecer e ouvir também foram meros erros de leitura e interpretação? São só nuances, pequenos detalhes, mas que demonstram escolhas políticas que afetam em sua essência a forma como tais textos serão lidos. Não podemos ser ingênuos quanto a isso.

 

O camelo pelo buraco da agulha e outras histórias estranhas de tradução

Stant Litore[2]

Tradução: Jacqueline Plaça[3]

Revisão: Samira Spolidorio e Cláudia Alves

 

Alguém mencionou o versículo do homem rico passando pelo buraco de uma agulha ontem, e claro que eu comecei a meditar sobre traduções incorretas e o poder sublime da linguagem. O camelo e a agulha é um dos meus exemplos preferidos de traduções problemáticas, e fica ainda mais engraçado porque, não importa como você traduza, a mensagem da metáfora permanece basicamente a mesma. Para quem não sabe, explico o que aconteceu. Muito provavelmente, o rabino Yeshua [mestre Jesus] disse aos seus discípulos, há 2 mil anos, que era mais fácil passar uma corda (como aquelas usadas em redes de pesca no Mar da Galileia) pelo buraco de uma agulha de costura do que um homem rico entrar no reino dos céus. Mas em aramaico – o idioma em que ele estava falando e o idioma no qual o texto fonte dos evangelhos sinóticos provavelmente foi escrito – “camelo” e “corda” têm a mesma grafia: “gml”. Elas têm sonoridades diferentes, mas a escrita aramaica nem sempre apresenta vogais. Então alguém respeitosamente escreveu “gml”. O caso fica mais engraçado quando os evangelhos sinóticos aparecem e as pessoas começam a traduzir as palavras de Cristo para o grego comum. Porque em grego comum, “camelo” e “corda” TAMBÉM são a mesma palavra, distinguíveis na escrita por apenas uma vogal, mas com a pronúncia quase idêntica. Camelo é “kamelon” e corda é “kamilon”. Em latim e inglês [e em português], claro, “camelo” e “corda” são facilmente distinguíveis. Mas tanto em aramaico, quanto em grego comum, não. Então, por mais que já seja bem frustrante tentar passar uma corda cheia de nós pelo buraco de uma agulha de costura, cá estamos nós com a imagem de um imenso dromedário sendo comprimido pelo buraco de uma agulha, com corcova e tudo, deixando o homem rico não só numa bagunça, mas numa cena cômica. Tudo por causa de uma vogal!

É um caso divertido porque o significado é similar em ambas as traduções. Além disso, “camelo” se encaixa no estilo dos ensinamentos de Jesus, quem geralmente fazia um uso cômico das hipérboles.

Outras traduções equivocadas são mais sinistras, como a popular versão de “arsenokoites” para “homossexuais”, o que é um pouco absurdo, já que existe uma palavra grega diferente para isso. “Arsenokoite” é cognato de “homem” e “cama”, e não se sabe o que ela significa porque seu uso é bem raro. Sugere-se que seja uma referência a gigolôs, mas é um palpite igualmente sem fundamento. A palavra aparece ao lado de “malakos” (luxuoso), por isso é mais provável que se refira aos cidadãos ricos e amantes da vida fácil (que são mais criticados no Novo Testamento do que os camelos). Malakos (suave) também se traduz erroneamente por “afeminado”, principalmente para manipular a leitura de “arsenokoites” como “homossexuais”. Mas “malakos” não significa afeminado; também existe outra palavra para isso. Malakos significa amante do luxo, para quem a vida é fácil, cercada de almofadas macias. Na Grécia, esse conceito não carregava conotações de gênero. Os romanos associaram esse termo a “ser como uma mulher” e, como os romanos tinham questões com feminilidade/masculinidade, nós herdamos tanto sua interpretação, quanto seu equívoco.  Porém, os gregos não tinham essa questão. (Eles tinham outras) Não existem evidências de que os “malakoi arsenokoites” tivessem qualquer coisa a ver com orientação sexual, identidade de gênero ou virilidade, nem com a ausência dessa última. Grécia não é Roma. Malakoi arsenokoites são muito provavelmente homens ricos amantes da boa vida, que passam o dia na cama comendo uvas e ignorando o sofrimento do seu próximo vivendo em pobreza. É esse tipo de atitude que era frequentemente criticada no Novo Testamento e é nela que as cartas onde foram escritas essas palavras se focavam. Uma vida de luxo, de riqueza e de ostentação era um defeito que os gregos costumavam desprezar e tratar com deboche. Eles teriam dado gargalhadas da Trump Tower.

Outros casos problemáticos incluem “ezer kenegdo” (que no Ocidente foi traduzido como “ajudante”, o que no século XVII sugeria simplesmente “cooperador”, mas que para nós hoje soa como “subordinado”), para descrever a posição das mulheres em relação aos homens, mas que em hebraico significa simplesmente parceria, sem pressupor hierarquia (e é também a mesma palavra usada para descrever a posição de Deus em relação à humanidade); ou a tradução equivocada de “kephale” (cabeça) significando autoridade (autoridade é uma palavra diferente) devido a uma expressão idiomática latina que herdamos e que não existe em grego (a palavra latina para cabeça também significa líder, mas em grego “kephale” indica simplesmente origem, como a origem de uma família ou de um rio, mas não autoridade).

Ou ainda a tradução errônea de “hupotassomenoi” para “submisso”, como no versículo “mulheres, sede submissas aos seus maridos”, sendo que “hupotassomenoi” não significa submissão em grego (há outra palavra para isso). Hupotossomenoi é bem difícil de traduzir para o inglês. Significa “organizarem-se sob”, o que pode ou não sugerir o que os romanos pensavam. É um termo militar para mobilização de tropas, então os romanos aproveitaram a interpretação possível de hierarquia. Romanos amam hierarquia. Mas no contexto, em diversas passagens, o termo é usado quando Paulo está falando tanto das dificuldades de mulheres cristãs com maridos não cristãos e de como enfrentar o mundo juntos e falar da sua fé para um marido grego ou romano que acredita que você é propriedade dele (esse é o caso da carta aos Coríntios), quanto das passagens que nos exortam a vestir a armadura de Deus e resistir às tentações (na carta aos Efésios). É importante lembrar que naquele tempo as cartas estavam sendo escritas para confrontar a hierarquia, não apoiá-la, e para propor um igualitarismo radical nas relações humanas, e que a maioria da população cristã na Europa do século I era formada por mulheres. O ensinamento de que somos todos um só corpo em Cristo era mais difícil de assimilar para os homens durante o Império Romano do que para as mulheres. As cartas aos Coríntios descrevem maridos não cristãos como vulneráveis, ainda apegados a velhas formas de pensamento, meio adormecidos, vivendo como soldados à beira do território inimigo. No contexto, hupotossomai provavelmente significa mobilizar-se para dar suporte ao seu esposo contra o inimigo.

“Hupakoe”, que continua sendo traduzido como obedecer, e usado para crianças, nunca para esposas, no Novo Testamento, tampouco significa “obedecer”. Significa “ouvir”. Trata-se de um conselho para crianças, que escutem e aprendam, não que obedeçam cegamente. Novamente, contexto. São cartas exortando as pessoas a não voltarem a viver como seus pais, a abandonarem sistemas opressivos e viverem de forma radicalmente diferente de seus antepassados. Isso criará um mundo de embates entre diversas gerações de famílias gregas. Por isso a carta encoraja os filhos a escutarem com cuidado e os pais a não provocarem a ira de seus filhos durante seus conflitos.

E assim por diante.

O texto é belo e tem mais nuances do que aparenta na tradução, e nós constantemente o pervertemos porque o tratamos como um texto latino/romano ao invés de uma coleção de textos gregos e hebraicos. (Quando você traduz textos radicais ou subversivos para o idioma do Império, você eventualmente criará textos imperiais.)

E também porque insistimos em lê-los como se os autores estivessem escrevendo nos dias de hoje, com nossas conotações, figuras de linguagem e temores culturais, quando, na verdade, seus temores culturais e suas figuras de linguagem eram completamente diferentes, e os detalhes aos quais nos apegamos nem teriam passado pela cabeça deles.

E isso me leva a pensar no poder da palavra. Como escritor, sou um pouco tendencioso ao considerar a importância da linguagem escrita. Entretanto, quando analisamos um livro sagrado que foi traduzido correta e incorretamente e construídos e desconstruído ao longo de 2 mil e 2 mil e 500 anos (ou, se você quiser um exemplo mais recente, com menos de 250 anos de existência, no nosso próprio idioma e sem as inconveniências de tradução, pense na Constituição dos Estados Unidos), é difícil evitar a conclusão de que às vezes o uso de uma única palavra pode dar forma a sistemas políticos e culturas inteiras. É um pensamento que nos faz mais humildes.

[1] Por exemplo, aqui: https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2017/04/20/traducao-de-textos-literarios-parte-1/.

[2] Publicado originalmente em: <https://stantlitore.com/2018/06/01/a-camel-through-the-eye-of-a-needle-and-other-wild-tales-of-translation/>. Aconselhamos sua leitura, sobretudo das notas e dos comentários, pois há uma discussão muito interessante ocorrendo por causa dessa publicação.

[3] Jacqueline Plaça é roteirista e tradutora. Ativista pelos direitos das mulheres e pelo estado verdadeiramente laico. Formada em cinema, trabalhou na produção de festivais e curtas-metragens em São Paulo e Buenos Aires.