Estudos Literários: existirmos, a que será que se destina?

Sempre imagino começar uma aula de Literatura perguntando aos alunos o que se estuda nas outras aulas. Matemática? Números, equações, formas geométricas. Biologia? Reino animal, reino vegetal, corpo humano. História? Grécia, Império Romano, Independência do Brasil, Segunda Guerra Mundial. E então perguntar para a classe: e Literatura? Esperaria respostas como livros, escritores, histórias. Mas acho que poderíamos complementar e dizer ainda tudo o mais que se aprende nas outras aulas, afinal números, corpos e guerras, por exemplo, são temas bastante recorrentes também na Literatura.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (acervo pessoal)

Esse exercício de imaginação sempre me fez acreditar que ali naquele contexto escolar seria possível mostrar aos alunos que, em uma aula de Literatura, podemos passar, em maior ou menor medida, pelos conteúdos de todas as outras disciplinas. Nesse grande guarda-chuva, não haveria limites para imaginar quais temas existem e podem ser trabalhados na escola. Tudo que é humano é passível de ser literário.

De alguma maneira, quando explico o que são os Estudos Literários, tento percorrer esse mesmo trajeto. Se a Literatura nos permite criar em cima de tudo o que é humano, os Estudos Literários se abrem como uma área capaz de propor os mais variados tipos de exercícios de reflexão a partir da Literatura e de seus desdobramentos.

Existimos como uma área científica, então, nessa perspectiva: produzindo os mais diferentes conhecimentos possíveis de serem pensados a partir de obras literárias e de tudo o que pode existir ao seu redor. Na prática, isso significa pensar e questionar desde o contexto histórico em que um livro foi escrito até a biografia de quem o escreveu, passando pelas mais diversas características de forma e estilo do próprio texto, ou ainda pelas teorias literárias que se constituem a partir de um conjunto de textos.

Pensemos em um grande clássico da literatura brasileira como Dom Casmurro, por exemplo, escrito no século XIX por Machado de Assis. Esse livro é certamente uma das obras mais analisadas até hoje pelos Estudos Literários no Brasil e também no exterior. E como pode tanta gente ainda ter tanta coisa a dizer sobre um texto de 200 e poucas páginas? A começar por sua construção literária, Dom Casmurro é um dos enredos mais instigantes da história da Literatura. Em seu universo, é possível estudar desde as escolhas linguísticas operadas por Machado até as maneiras como os sentimentos humanos e as subjetividades das personagens são construídas literariamente. Por outro lado, é também uma representação muito interessante de um certo Rio de Janeiro dos anos de 1800 e em certa medida do próprio contexto brasileiro da época. Além disso, há a oportunidade de investigar a biografia de Machado de Assis e suas trajetórias de leitura e reflexão, que ganharam novos contornos em suas próprias criações. Finalmente, as infinitas possibilidades que surgem das relações com outros livros, outros escritores, outros tempos e também com outras línguas, graças à área de traduções literárias. Sem esquecer, é claro, dos diálogos com outras Artes, como Cinema e Teatro, algo que também tem ganhado espaço nos Estudos Literários.

Com tais ideias em mente, muito se pode discutir ainda sobre os Estudos Literários em si serem ou não considerados um ramo das Ciências Humanas e, consequentemente, fazerem parte dos interesses da Divulgação Científica. Ora, mais do que responder a essa pergunta de forma pragmática, parece ser mais interessante instigar a reflexão crítica: por que Estudos Literários seriam ou não uma Ciência? Que tipo de produção de conhecimento está atrelada a essa questão ou por que essa dúvida é feita de maneira mais atenuada, com menos desconfiança, quando se trata de pesquisas das áreas de exatas e biológicas? Ou ainda, a quem interessa um certo tipo de sociedade em que fazer Ciência e produzir conhecimento é algo diretamente relacionado à utilidade prática que tais pesquisas terão, o que excluiria a princípio o tipo de pesquisa feita nos Estudos Literários?

Deixo essas dúvidas sem respostas porque nem eu mesma as tenho, mas fato é que nós, pesquisadoras e pesquisadores de Estudos Literários, existimos. Somos uma área de pesquisa presente nas universidades, nas bibliotecas, nos institutos de pesquisa, ou seja, em instâncias institucionais de renome, onde são produzidos conhecimentos. Estamos compartilhando esses espaços com muita resistência, já que socialmente os conhecimentos produzidos pelas Ciências Humanas ainda são muito desvalorizados; principalmente quando se espera das Ciências uma aplicabilidade instantânea, o que não condiz com o que é feito nos Estudos Literários. Nossa tentativa, portanto, é não sermos sufocados pela grande pergunta “mas pra que serve o que você está fazendo?”.

Porém, quando confrontada com ela, gosto de responder e, mais do que isso, de acreditar que estamos pensando e repensando as formas que o ser humano encontrou para estar no mundo, sobretudo por meio de suas mais diversas manifestações literárias e linguísticas – e isso não é pouca coisa. Para mim, parece que é um bom destino para uma área de conhecimento e, em certa medida, para todas as ciências existentes. E você, concorda?

* Publicação original em http://scienceblogs.com.br/ensaios/2018/08/estudos-literarios-existirmos-a-que-sera-que-se-destina/

A universidade para além de seus muros: estudos de poesia italiana fora da Academia, por Helena Bressan

O blog Marca Páginas recebe hoje a contribuição de Helena Bressan Carminati (helenabcarminati@gmail.com), estudante de Letras-Italiano da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Por conta da minha própria pesquisa de doutorado, entrei em contato com um grupo de estudos chamado NECLIT (Núcleo de Estudos Contemporâneos de Literatura Italiana), da UFSC. Sempre admirei o trabalho deles e fiquei ainda mais feliz quando soube que lá também tem gente pensando em formas de transpor as barreiras acadêmicas que, muitas vezes, nos seguram dentro das universidades. Então, quando conversei com a Helena, foi natural convidá-la para dividir aqui no blog seu depoimento sobre o projeto de extensão Geografia e Cultura Italiana por meio da Poesia, que busca discutir poesia com quem não está necessariamente ligado à universidade (um assunto sempre considerado muito difícil por quase todo mundo, mas que é ao mesmo tempo uma das formas mais maravilhosas que o ser humano encontrou para se expressar). Os resultados são incríveis e agradeço muito a oportunidade de compartilhá-los aqui. Esse projeto merece ser conhecido e nos inspira a continuarmos nossos trabalhos de divulgação dos estudos literários. Agradeço a Helena e a equipe NECLIT. E que nunca nos falte poesia!

A universidade para além de seus muros: estudos de poesia italiana fora da academia, por Helena Bressan Carminati

Quando conheci a Cláudia, pelas redes sociais, começamos a conversar e ela me convidou, muito gentilmente, para escrever a respeito do projeto Geografia e Cultura Italiana por meio da Poesia. De imediato, fiquei empolgadíssima e comecei a pensar sobre isso. O que teve início como um projeto de extensão, em 2016, deu origem a um minicurso na XII Semana Acadêmica de Letras da UFSC, em 2018, e gostaria então de compartilhar com vocês um pouco dessa minha experiência.

Em 2016, com o apoio do Edital PROBOLSA/UFSC e a coordenação da Professora Patricia Peterle, do departamento de Língua e Literatura Estrangeiras da UFSC, o objetivo principal do projeto era oferecer um panorama da geografia e da cultura italiana para a comunidade não acadêmica, buscando ampliar o conhecimento de aspectos relativos à cultura e à língua italiana e disseminar a poesia italiana contemporânea. Tivemos a ideia então de trabalhar esses conteúdos a partir de poemas selecionados para que pudéssemos apresentar, ao mesmo tempo, alguns poetas, as características de suas poesias e também algumas cidades italianas que os inspiraram a escrever. Assim, o público alvo era composto principalmente por pessoas que tinham interesse pela literatura, língua ou cultura italianas, mas que não necessariamente estavam vinculadas a universidades ou ao meio universitário. Naquele momento, tínhamos justamente a intenção de divulgar a poesia italiana para pessoas de fora desses contextos, por isso propusemos um projeto de extensão que, por definição, tenta transpor os muros da universidade e compartilhar os conhecimentos que são produzidos dentro da academia.

Os módulos do projeto aconteceram a cada 15 dias, nos meses de junho, agosto, setembro e outubro daquele ano, e foram organizados e ministrados por duas ou três pessoas, no Círculo Ítalo Brasileiro (CIB), no centro de Florianópolis. Cada módulo teve duração de 4 horas e foi estruturado da seguinte forma: introdução sobre um autor e sua poesia, suas principais características, a cidade escolhida como tema dos poemas, de forma a situarmos o público em relação ao que estávamos tratando, além da leitura da versão italiana e da tradução dos poemas selecionados (geralmente, dois poemas por módulo) para, em seguida, propor uma discussão em conjunto (ministrantes e participantes), acompanhada finalmente da análise dos poemas. A análise era enfim um dos momentos mais interessantes e importantes do módulo, pois quem o estava ministrando procurava deixar a participação do público bastante livre, enfatizando sempre que a análise e a interpretação de poesia estão sujeitas a novos olhares e a diferentes possibilidades de leitura, principalmente se mantivermos em mente que não há apenas uma resposta correta para as perguntas que surgem durante esse processo.

Acredito que esse foi um dos fatores essenciais que contribuíram para que tivéssemos um feedback positivo por parte dos participantes, pois eles percebiam que, mesmo não estando na universidade e/ou não estudando aquele determinado assunto, tinham capacidade de fazer suposições, dar suas opiniões, analisar os poemas e se expressar para um grupo maior sobre um tema geralmente temido pela maioria das pessoas, como é a poesia. Era um momento de troca, em que falávamos e escutávamos o que todos tinham para compartilhar.

Estabelecer relações entre a geografia e a cultura italiana, partindo da leitura de textos poéticos, foi e continua sendo desafiador por alguns motivos. Um deles talvez seja o de tirar o texto literário da sala de aula e ver como ele pode falar e ser recebido por leitores menos especialistas, mas com sensibilidades diferentes, visto que pensar a geografia e a poesia de uma cidade implica também pensar a sua própria cultura, os habitantes que nela vivem e seus comportamentos. Também por isso os participantes se mostravam tão interessados, pois, ao mesmo tempo em que mostrávamos a eles realidades diferentes, a todo momento relacionávamos aquilo ao nosso contexto aqui no Brasil. Por exemplo, no primeiro minicurso sobre a Roma da poeta Patrizia Cavalli, discutimos sobre as diferentes concepções de praça para um italiano e para um brasileiro, o que gerou pensamentos e argumentos bastante interessantes e diversificados. Um deles foi que aqui no Brasil temos a praça como um espaço público utilizado para lazer, geralmente bastante arborizado, com bancos, parques para crianças, enquanto que na Itália a praça constitui-se historicamente como um lugar de fala, um espaço de lutas em que são feitas as manifestações políticas, e, em sua maioria, possuem fontes ou monumentos em seu centro, também como uma forma de criar aquele ambiente que faz parte da vida social dos cidadãos. Assim, pudemos dialogar a respeito dessas diferenças que fazem de cada país um lugar particular.

Para que esse tipo de diálogo com o público fosse possível, escolhemos algumas cidades já conhecidas, e também outras um pouco menos, como foi o caso da Milão periférica do escritor Milo de Angelis, que escreveu poemas a partir de sua experiência como professor no Presídio de Segurança Máxima de Milão, chamado Opera. Para escolher tais autores, fizemos um mapeamento de poetas que no século XX e XXI trataram e tratam em seus textos da cultura local, do espaço urbano, das periferias, e acabamos escolhendo Patrizia Cavalli, Giorgio Caproni, Franco Fortini, Milo de Angelis e Umberto Saba e as respectivas cidades de Roma, Gênova, Florença, Milão e Trieste.

As ministrantes dos módulos eram alunas de graduação e pós-graduação da UFSC que aceitaram fazer parte desse projeto, o qual tinha ainda uma bolsista principal responsável pela organização geral dos módulos. Além disso, destaco a importância de um projeto de extensão como esse e tantos outros que acontecem nas universidades e que permitem para a comunidade fora das universidades o acesso a diferentes conteúdos ditos “acadêmicos”, a divulgação das pesquisas científicas feitas pelos alunos e o contato com pessoas diferentes, possibilitando criar diálogos fora da Academia, o que é tão relevante no momento que vivemos hoje.

Fazer parte desse projeto me fez enxergar possibilidades de uma vida acadêmica fora da “Academia” e, mais, me fez perceber que todo o conhecimento produzido por nós estudantes se torna muito mais interessante quando compartilhado. Apresentar a poesia italiana para um público não universitário foi desafiador e gratificante, pois ao mesmo tempo em que eu estava ali para transmitir conhecimento, nossos encontros eram uma grande troca. O público percebeu que poderia estudar poesia e compreendê-la, pois a palavra poética toca a alma humana, e foi exatamente isso que tentamos fazer ao propor esse projeto. Nesse sentido, acredito que o movimento de ir além dos muros da universidade é essencial para ultrapassarmos limites e partilharmos os conhecimentos.

 

Para que serve a literatura?, por Mario Barenghi (tradução Cláudia Alves)

Para que serve a literatura?*

Mario Barenghi 

A meu ver, questionar-se sobre “o que é literatura?” ou “o que é um texto literário?”, como Giovanni Bottiroli[1] fez, não é a maneira mais adequada de encarar o problema do ensino de literatura na universidade, muito menos na escola. A questão colocada não deveria ser ontológica, mas sim funcional. Vale interrogar-se sobre o escopo da literatura, o que quer que isso seja: sobre sua razão de ser. Para que serve? Para que nós a usamos? Com quais motivações? E com quais objetivos e vantagens? Tendo que dar uma definição genérica, tomo emprestada a fórmula que o linguista israelense Daniel Dor[2] usa para definir a linguagem.

A literatura é uma técnica de “instrução da imaginação”, que não serve simplesmente para “comunicar”, mas para fazer viver experiências simuladas. Por meio de uma prática de simulação socialmente compartilhada (portanto, diferente da fantasia individual), o leitor tem a possibilidade de ampliar sua própria complexa experiência existencial: de clareá-la e de enriquecê-la, de articulá-la e de ampliá-la, adquirindo assim novos instrumentos para enfrentar os desafios da vida real.

Também podemos formular essa ideia em termos moralmente mais comprometidos. O final das obras literárias deveria servir para nos ajudar a viver. Servem para viver: assim soa o título de um ensaio inteligente de Bruno Falcetto (subtítulo: Por uma educação com uso de literatura)[3]. Para viver, ou para sobreviver, ou para nos fazer viver melhor, como escreveu Tzvetan Todorov em um livro de 2007, A literatura em perigo[4]; e como reiterou Antoine Compagnon, no mesmo ano, em sua aula inaugural ao Collège de France, Literatura para quê?[5], a literatura serve para nos fazer mais felizes. Ou menos infelizes. E para nos fazer melhores: mais sábios, mais conscientes, mais sensíveis, mais perspicazes (aqui, Compagnon cita uma célebre passagem do ensaio “O miolo do Leão”, de Calvino); em geral, mais preparados para interpretar o mundo que nos circunda, o mundo humano in primis. Como consequência, melhor inseridos no ambiente que nos é próprio: mais hábeis em compreender nossos semelhantes, suas ações e suas atitudes, assim como as dinâmicas das relações que nos ligam a eles; mais preparados para compreender o sentido e o peso das palavras, nossas e dos outros.

Mas atenção: a literatura não produz esses efeitos de maneira automática. Pelo contrário, pode acontecer que ela não os produza de maneira nenhuma. Não apenas e nem tanto porque, além da grande literatura, exista também a literatura ruim, mas sobretudo porque (o caso dos textos sagrados ensina) não existe livro bom de que não se possa fazer mau uso, do mesmo jeito que não existe utensílio (ferramenta, equipamento, competência ou conhecimento) de que não possam se aproveitar os “estúpidos” e os “bandidos”, para usar duas categorias de Cipolla, de Allegro ma non troppo[6]. Podemos nos consolar, talvez, ao pensar que o contrário também é verdadeiro: de um livro medíocre pode se fazer um uso positivo. Fato é que o ensino de literatura deveria seguir esse escopo: aumentar as possibilidades de que, na experiência literária dos alunos, os efeitos considerados profícuos, desejáveis, esperados prevaleçam aos considerados negativos. (…)

Pode-se ensinar literatura? Nisso Bottiroli tem razão: “o que um professor de Letras pode fazer é criar condições para que seja possível uma experiência estética. Não pode impô-la, mas pode favorecê-la”. E tem também razão ao sustentar que o professor não deve criar obstáculos. Eu diria, mais drasticamente, que deveria evitar criar danos: primum non nocere[7], de acordo com o aviso dourado da Escola Médica Salernitana. Concordo menos quando Bottiroli coloca em oposição a atenção dada aos “textos” e a atenção dada aos “contextos”, denunciando as consequências nefastas do “contextualismo” (“o contextualismo mata a literatura”). Com certeza, tratar um texto da mesma forma que um simples documento de qualquer outra coisa, reduzindo-o a um suporte para investigações de ordem histórica, psicológica, social, “cultural”, significa sufocá-lo. Danos não menos graves, todavia, foram produzidos – principalmente na escola, até onde sei – pelo abuso de noções e grades elaboradas pela teoria literária. Não se lê um romance para aprender o que significam as palavras “prolepse” e “analepse”.

O que está matando a literatura, na minha opinião, é a indiferença nos enfrentamentos por parte dos leitores. Eu não diferenciaria tanto “artefato” e “objeto virtual” (termos com os quais Bottiroli se refere ao “conjunto das interpretações possíveis”), mas sim “texto” e “obra”, onde obra é o texto concretamente reativado pela leitura: executado – no sentido musical da palavrapor um leitor ou por uma comunidade de leitores. Franco Brioschi cita várias vezes – por exemplo, no prefácio a Gli immediati dintorni: primi e secondi, de Vittorio Sereni[8] – o epigrama citado por Possídio no final de sua biografia de Santo Agostinho. A intenção do poeta latino era celebrar a função eternizante da poesia, mas esses dois versos servem bem para representar a reativação do texto e da obra pelo leitor: Vivere post obitum vatem vis nosse, viator? Quod legis, ecce loquor; vox tua nempe mea est (“Queres saber, viajante, se o poeta vive após a morte? Tu lês, e então eu digo: a tua voz é a minha”[9]). A poesia revive, ou antes, vive literalmente na leitura. Ora, se a literatura conta enquanto simulação de experiências, não se pode ignorar o fato de que cada experiência é contextual. Dito de outra maneira, quem ensina, ensina sempre a alguém: e qualquer um dos sujeitos implicados leva consigo um conjunto de contextos que não podem ser desconsiderados (ainda que seja obviamente necessário olhar com cuidado os devaneios impressionistas). (…)

Concluo. Talvez fosse possível considerar que uma certa familiaridade generalizada com a experiência literária se cumprisse na universidade de um tempo atrás. Os estudantes, pelo menos na Faculdade de Letras, nutriam um interesse consistente pela literatura: se não por todos os autores do nosso cânone histórico-literário, ao menos por muitos clássicos da modernidade. Não sei se essas circunstâncias se reproduzem hoje em alguma ilha privilegiada do arquipélago acadêmico. Pessoalmente, dou aula em cursos de graduação nos quais a literatura não é uma prioridade no pensamento dos estudantes, então não posso não colocar para mim como problema despertar-lhes interesse. Esforço-me sim para fazer com que as leituras que proponho interajam com suas consciências – entende-se com isso nos modos próprios da literatura. Sei com certeza que não consigo com todos, nem – temo – com a maior parte, mas me alegro por conseguir ao menos com algum. Com todos tento, entretanto, exigir que percebam a densidade do texto literário, a gravidez no uso das palavras, a complexidade da construção do discurso, a importância dos temas tratados. Tudo isso não será suficiente para que ocorra uma experiência estética verdadeira; mas se nesse ínterim eu conseguir não suscitar um desgosto excessivo, uma reação de repulsa pela literatura em geral, poderá valer, quem sabe, como pressuposto ou plataforma para experiências futuras. Não é muito, mas é melhor do que nada.

* Tradução do excerto por Cláudia Alves. Texto na íntegra em: http://www.doppiozero.com/materiali/cosa-serve-la-letteratura. Mario Barenghi é crítico literário e professor de literatura italiana contemporânea na Universidade de Milão.

[1] Disponível em italiano, La letteratura se iniziassimo davvero a estudiarla: http://www.doppiozero.com/materiali/la-letteratura-se-iniziassimo-davvero-studiarla.

[2] Em inglês, The Instruction of Imagination: Language as a Social Communication Technology (2015): http://www.oxfordscholarship.com/view/10.1093/acprof:oso/9780190256623.001.0001/acprof-9780190256623?rskey=4hjRbX&result=2.

[3] Em italiano, “Servono per vivere: verso un’educazione all’uso della letteratura”, no volume La didattica della letteratura nella scuola delle competenze (2014): http://www.edizioniets.com/scheda.asp?n=9788846739445.

[4] Disponível em português. A literatura em perigo, trad. Caio Meira, Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

[5] Disponível em português. Literatura para quê?, trad. Laura Taddei Brandini, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. Sugestão de leitura dada aqui no blog, no post https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2016/06/07/afinal-por-que-pensar-sobre-literatura/.

[6] Em italiano. Allegro ma non troppo con Le leggi fondamentali della stupidità umana (1988): https://www.ibs.it/allegro-ma-non-troppo-con-libro-carlo-m-cipolla/e/9788815019806.

[7] “Em primeiro lugar, não fazer mal.”

[8] Em italiano. Gli immediati dintorni. Primi e secondi (2013): https://www.ibs.it/immediati-dintorni-primi-secondi-libro-vittorio-sereni/e/9788842819394.

[9] Tradução do italiano: “Vuoi sapere, viandante, se il poeta vive dopo la morte? Tu leggi, ed ecco io parlo: la tua voce è la mia”.

Resistir é preciso: a(s) literatura(s) e a(s) ditadura(s), por Lua Gill

Resistir é preciso: a(s) literatura(s) e a(s) ditadura(s), por Lua Gill

Não foi a primeira vez que a Cláudia, idealizadora/editora/cuidadora desse blog, tão bonito, e entusiasta da divulgação científica dos estudos literários, me convidou para escrever aqui. Devo começar dizendo que, a partir de certo momento da minha vida acadêmica, passei a me sentir cada vez mais formatada para um tipo único e padronizado de escrita e, com medo e me sentindo insegura, neguei tentar qualquer outra estrutura. É nesse contexto que me desafio para essa tarefa – ainda que entenda as minhas limitações diante dela. Por outro lado, o convite da Cláudia me pareceu dessa vez irrecusável: contar a minha participação em um evento acadêmico sobre literatura, a III Jornada de Crítica Literária: Literatura e Ditaduras, ocorrido na Universidade de Brasília (UnB) nos dias 4 e 5 de junho de 2018.

Não teria como falar desse evento sem olhar rapidamente para o presente brasileiro, em que as ressonâncias e as consequências do recente passado autoritário parecem cada vez mais fortes. Nas décadas de 1960 e 1970, a América Latina foi tomada por diversos regimes militares. As estruturações e as formas de atuação foram diferentes em cada país, bem como as respectivas transições para a democracia. No caso do Brasil[1], que viveu sob uma ditadura militar de 1964 a 1985, pouco se discutiu e se acolheu das reivindicações de memória e de justiça desde a redemocratização. Nunca levaram os torturadores à Justiça, por exemplo. Não se desmilitarizou a polícia. As famílias não foram efetivamente reparadas pelos mortos, torturados e desaparecidos até hoje. Não se debateu ampla e publicamente o que aconteceu nos 21 anos de ditadura – mesmo quando tínhamos uma presidenta que era ex-guerrilheira ou mesmo depois da abertura de uma Comissão Nacional da Verdade[2] para averiguar o que havia acontecido naquele período.

Já hoje, o sentimento geral é de angústia e de paralisia diante da política. Há dois anos, a primeira presidenta mulher eleita do Brasil sofreu um impeachment. Durante este processo, vimos um pré-candidato à presidência homenagear, em televisão aberta, um reconhecido torturador da ditadura militar brasileira. Desde então, nos sentimos atacados por todos os lados e vemos nossos direitos mais básicos serem ameaçados. Foi aprovada uma PEC que congelou os gastos públicos (inclusive de saúde e educação, por exemplo) por vinte anos e sofremos ataques complicadíssimos à cultura, aos direitos trabalhistas e das mulheres, de LGBTs, e de negros e negras. Há alguns meses, na cidade do Rio de Janeiro, foi decretada uma nova intervenção militar e foi nesta mesma cidade que a quinta vereadora mais votada do município, Marielle Franco, defensora dos direitos humanos, foi brutalmente assassinada, junto de seu motorista, Anderson Gomes. Por fim, recentemente, durante uma das maiores greves dos últimos anos, vimos pedidos explícitos e irresponsáveis de “intervenção militar”, que começaram a pipocar pelo Brasil todo.

Foto por Lua Gill.

E o que tudo isso tem a ver com o evento que assisti em Brasília? Ou como se relaciona com esse blog? A jornada da UnB teve como objetivo principal debater exatamente como a literatura tem pensado e refletido sobre as ditaduras, especialmente as da América Latina e, principalmente, a do Brasil. E por que “voltamos” a debater isso, décadas depois da redemocratização desses países? Por tudo que tem acontecido atualmente, mas também porque, ao contrário do que alguns querem nos fazer acreditar, a literatura e a crítica literária não são isentas, imparciais, mas podem e devem nos fazer tomar partido, nos posicionar.

Para não dizer que não falamos das flores, a ascensão do conservadorismo, antes e agora, não veio sem resistência, inclusive no campo da crítica literária atual, sobre a qual quero discutir aqui. Desde que comecei a pesquisar sobre as relações entre literatura e ditadura, em 2013, o tema vem crescendo, se expandindo, ainda mais nos últimos dois anos (o que, evidentemente, não se dá por acaso): autores e críticos literários têm se debruçado sobre esse assunto na medida em que tentam também entender e atuar no presente. As produções e as críticas artísticas têm debatido o apagamento histórico, apontando para a necessidade de uma política de memória e dando voz àqueles que não tiveram o seu testemunho ouvido.

O evento em Brasília foi um exemplo grandioso dessa atenção. O local escolhido para a realização da jornada, isto é, a UnB, por si só já diz bastante. Nessa universidade, professores e alunos resistiram amplamente durante o regime militar. Tão perto da Esplanada dos Ministérios e do Palácio do Planalto, hoje ela se abre novamente para novas formas de resistência da crítica literária, especialmente graças ao Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea Brasileira – referência nessa temática para o Brasil inteiro –, da UnB, por meio dos professores Regina Dalcastagnè, Rejane Pivetta e Paulo César Thomaz. Não por acaso, o primeiro curso sobre o Golpe de 2016 foi proposto e houve tentativa de censura na mesma universidade. Por tudo isso, foi, para mim, um privilégio ter a oportunidade de estar com pesquisadores, escritores e professores extremamente reconhecidos e competentes em seus trabalhos, ver e ouvir pessoas que li, dar rosto a quem saía apenas das palavras impressas, além de ter a possibilidade de realizar uma troca efetiva sobre o meu tema de pesquisa (o que não é tão comum para a maioria das pesquisas de estudos literários feitas em nosso país).

O próprio evento, na sua organização, se estruturou de forma extremamente democrática, destacando-se de outros eventos dos quais já participei. Estiveram lado a lado, nas falas, nas mesas e na organização, pesquisadores e professores da área, estudantes de graduação e de pós-graduação e autores de romance e poesia, muitos deles testemunhas vivas do tempo da ditadura. Outra coisa que me chamou a atenção foi a presença massiva, nas mesas, de mulheres, as quais totalizaram mais de 70%, o que também não costuma ser comum em eventos desse tipo.

É muito recorrente ouvirmos pessoas justificarem a ditadura brasileira dizendo que a perseguição atingiu apenas um grupo de pessoas: uma certa classe média, branca, intelectual, do sudeste do Brasil, “comunista e terrorista”, como se isso o justificasse. Se, por um lado, o número de mortos da CNV mantém esse dado, tal definição é bastante redutora e problemática. Devemos lembrar, como mostraram as falas no evento, que o regime militar afetou o Brasil como um todo e principalmente grupos minoritários, subjugados politicamente (há um cálculo de algo como 8 mil indígenas mortos durante a ditadura e mil camponeses, para além do número de 434 mortos, apresentado e mantido pela CNV). Durante as falas, pude ouvir outras perspectivas e testemunhos desse tempo, a exemplo de Sonia Bischain, uma das fundadoras do Sarau da Brasa, a qual relatou o contexto de produção literária e resistência na periferia paulista durante o regime; a pesquisadora e poeta negra Lívia Nathalia, que apresentou a produção negra contemporânea e denunciou o genocídio da juventude negra de ontem e de hoje; a escritora indígena Eliane Potiguara, que demonstrou o histórico de escravização e perseguição das diversas etnias indígenas e o esforço pela manutenção da cultura e da língua; a apresentação do livro “O fuzil e as flechas”, no qual o jornalista Rubens Valente recupera mais um capítulo apagado da história da ditadura civil-militar brasileira e analisa mais de 80 entrevistas de indígenas, sertanistas, indigenistas e antropólogos; ou ainda a apresentação da pós-graduanda Leocádia Chaves, sobre o testemunho do período ditatorial de uma transexual, Ruddy Pinho.

Além dessas novas e extremamente ricas perspectivas para o debate contemporâneo de recuperação da memória, guardarei com carinho três outras falas: Maria Pilla, autora de Volto semana que vem (2015); Maria José Silveira, autora de O fantasma de Luis Buñuel (2004) e A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas (2002); e Pedro Tierra, autor de Poemas do povo da noite (1979). Todos eles são escritores e ex-guerrilheiros. Os seus testemunhos sobre as perseguições, a clandestinidade e as torturas que sofreram, e o processo posterior de elaboração e de testemunho, através da literatura, foram emocionantes e serviram de inspiração, principalmente para mim (e imagino que para grande parte do público presente) que não teve que lutar para ter seus direitos mais básicos garantidos.

Programação do evento Literatura e Ditaduras.

Depois dessa experiência, convido os leitores a acompanharem as produções que virão desses pesquisadores e autores citados, inclusive por meio das falas desse evento, que devem ser publicadas em breve. Hoje, mais do que nunca, precisamos reforçar a defesa da Universidade pública, do investimento à pesquisa (também de crítica literária), da autonomia universitária e da liberdade de expressão. Os atos de debater com nossos amigos, colegas, irmos a eventos, fazermos as nossas pesquisas são essenciais nesse contexto. Hoje, nosso trabalho também se dá como uma forma de resistirmos. Isso não é pouco. Não é hora de omissões. Como no passado, as futuras gerações dependem disso e do nosso compromisso com a memória e com a justiça.

Da minha parte, fica o agradecimento à UnB e aos professores organizadores, pela acolhida, pela atenção ao tema e pela organização de um evento tão importante para o debate atual, político e literário. Senti, ao fim dos dois dias, um sopro de esperança diante das angústias sentidas. Resistimos juntos. Assim como Maria José Silveira apontou, a resistência partia, e ainda parte, de uma profunda crença de que o afeto, a solidariedade e a felicidade, enfim, devem ser coletivos e de todos.

Deixo por fim uma breve lista de romances que tematizam a questão e que, entre outros, valem a pena serem lidos:

Em câmara lenta (1979), de Renato Tapajós

Memórias do esquecimento (1999), de Flávio Tavares

Não falei (2004), de Beatriz Bracher

Soledad no Recife (2009), de Uraniano Mota

Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa

Nem tudo é silêncio (2010), de Sônia Bischain

K. – relato de uma busca (2011), de Bernardo Kucinski

Volto semana que vem (2015), de Maria Pilla

Antes do passado (2015), de Liniane Haag Brum

Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva

A resistência (2015), de Julián Fuks

Outros cantos (2016), de Maria Valéria Rezende

[1] Um breve histórico sobre a ditadura civil-militar brasileira: iniciou-se em 1964, quando as Forças Armadas, apoiadas por parte da sociedade civil, perpetraram o golpe contra o governo eleito do presidente João Goulart. O Regime Militar chegou ao seu ápice em 1968, quando entrou em vigência o Ato Institucional nº 5, conhecido como AI-5, que intensificou o poder dado aos governantes para punir arbitrariamente toda e qualquer pessoa que fosse considerada “inimiga do regime”. Nesse momento, o estado de exceção passou a controlar efetivamente não só as instituições, como também as pessoas, em seus cotidianos privados e em suas relações sociais e públicas. O número de mortos, desaparecidos e torturados é enorme.

[2] A Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi instituída em 2012 pela então presidenta Dilma Rousseff e teve como objetivo investigar os graves desrespeitos dos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988. Em 2014, a Comissão entregou seu relatório final depois de entrevistar agentes envolvidos, organizar audiências públicas e pesquisar, em diferentes contextos e lugares, as perseguições do período militar. Entre as conclusões, está o fato de que as detenções ilegais e arbitrárias, como tortura, violência sexual, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres, foram uma prática generalizada e de política estatal, caracterizando-se como crimes contra a humanidade.

Vai ter Racionais na universidade sim! Entrevista com Alan Osmo

Quem tem acompanhado a imprensa e as redes sociais nas últimas semanas certamente viu uma novidade que movimentou as discussões na área dos estudos literários: o álbum Sobrevivendo no inferno (1997), do grupo de rap Racionais MC’s, passou a fazer parte do vestibular da Unicamp. A inclusão desse álbum na lista de leituras obrigatórias mexe com muitos pressupostos, teóricos e sociais, e traz tanto para as escolas, quanto para as universidades, questões que são importantíssimas de serem debatidas.

É interessante pensar que o rap também vem sendo estudado na academia e, para falar sobre isso, convidei Alan Osmo para uma entrevista. Ele gentilmente aceitou o convite e se dispôs a partilhar conosco aqui no blog seu ponto de vista sobre o assunto. Alan é graduado em Psicologia e em Letras pela USP e é mestre em Psicologia, também pela USP. Atualmente, faz doutorado no programa de Teoria e História Literária do IEL-Unicamp, com a pesquisa “A literatura tomada de assalto: testemunho e resistência em produções periféricas de São Paulo”, sob orientação do Prof. Márcio Seligmann-Silva.

Marca Páginas: A Comvest, comissão que organiza o vestibular da Unicamp, anunciou recentemente a inclusão do álbum Sobrevivendo no inferno na lista de leituras obrigatórias do vestibular 2020. Essa atitude abre precedentes para uma série de mudanças, como a ruptura de certas barreiras sociais que isolariam o rap nas periferias, o qual passa a ser acolhido em ambientes escolares e acadêmicos historicamente ocupados pelas classes média e alta. Que tipo de impacto você acredita que uma ação como essa pode ter na nossa sociedade?

Alan Osmo: Acho importante destacar que o rap, assim como o funk, é bastante ouvido em diversas classes sociais, não ficando, portanto, restrito apenas às periferias. No caso especificamente do Racionais MC’s, é bastante curioso que, mesmo entre os “playboys” (que são tematizados em diversas canções), há também muitos fãs do grupo. Acredito que o rap e o Racionais não estejam isolados na periferia, pois já possuem uma grande circulação social. Mas é claro que, pelo fato de se tratar de produções que vêm das periferias e, mais importante, de vozes que afirmam uma identidade negra e periférica, elas são vistas por parcela da sociedade, principalmente das elites, com uma série de preconceitos. Nesse sentido, cabe destacar que os ambientes escolares e acadêmicos no Brasil historicamente foram bastante fechados a produções de cultura popular, principalmente àquelas de matrizes afro-brasileira e indígena. Ao levarmos em conta que o Brasil era até poucas décadas atrás um país predominantemente analfabeto, aquilo que era considerado literatura nos ambientes escolares e acadêmicos, com raras exceções, se restringia ao que era produzido por pessoas que tinham certa circulação dentro de uma elite branca das grandes cidades, que tinham contato com o que estava sendo produzido na Europa no campo das artes e da literatura. Desse modo, a visão da literatura também passou de alguma forma a ser marcada e valorizada pelos padrões que eram definidos na Europa. Enquanto isso, no Brasil, toda uma tradição riquíssima de cultura popular, que se manifestava sobretudo na música e na dança, era desvalorizada como não sendo um objeto digno de ser estudado nas escolas e universidades. Acredito que essa escolha do disco do Racionais é uma iniciativa (ainda tímida, é verdade) no sentido de tornar aquilo que é estudado nas escolas e universidades um pouco mais representativo da diversidade brasileira e da complexidade de nossa realidade social.

Mano Brown, compositor e cantor do Racionais MC’s. Fonte: Instagram.

Marca Páginas: Ainda sobre a decisão da Comvest, vimos que muita gente questionou a credibilidade dessa inclusão, seja pela temática, que desagrada um público mais conservador, seja pela forma, já que música pode não ser vista como literatura de acordo com certa crítica tradicional. Na sua opinião, a presença desse álbum na lista de leituras obrigatórias abala as discussões dentro da academia? De que maneira o rap tem sido recebido e pesquisado nas universidades brasileiras?

Alan Osmo: É importante não deixarmos de ter um ponto de vista crítico em relação ao vestibular – à forma como ele determina aquilo que é estudado nas escolas, e ao fato de ele funcionar como um filtro social de quem vai estudar nas universidades públicas. Nesse sentido, a inclusão de uma obra que traz uma voz que representa uma parcela da população que não costuma ser abarcada sob aquilo que se legitima como “literatura” é ainda uma mudança tímida. É importante considerarmos também o novo contexto das universidades públicas, com as cotas sociais e raciais. Os alunos das universidades públicas agora representam um pouco mais a diversidade da população brasileira. Além disso, uma parcela de jovens que historicamente se viu privada de cursar o ensino superior passou a estudar em locais que antes eram quase que restritos a pessoas brancas de classe média e alta. Com uma mudança do perfil dos alunos das universidades públicas, acho compreensível o questionamento daquilo que é estudado e pesquisado nessas universidades. No caso de um curso de Letras ou Estudos Literários: por que se estudam tão poucos autores africanos, autores negros, autores indígenas? Na minha opinião, as críticas que são feitas sobre a inclusão da obra do Racionais na lista do vestibular, seja usando o argumento da temática das canções, seja usando o argumento de que se trata de música e não de literatura, partem de um ponto de vista conservador. Ora, a temática do disco do Racionais é sobretudo a violência da sociedade brasileira na década de 1990, o cotidiano vivido na periferia de uma grande cidade no Brasil, as terríveis desigualdades que geram verdadeiros abismos entre parcelas da população, o racismo e a violência policial voltados principalmente a jovens negros da periferia. Se essa temática choca, é porque nossa realidade social é chocante. Querer ignorar esses temas, estudando apenas autores que abordam outros assuntos, é também querer ignorar algo que marca profundamente a realidade social em que vivemos. E é importante destacar que a obra do Racionais aborda esses temas partindo do ponto de vista do negro morador da periferia, um ponto de vista que costuma ser bastante ignorado e silenciado por aquilo que tradicionalmente se considera “literatura”. Também considero conservador o ponto de vista que vê uma divisão nítida entre música e literatura, de modo que uma canção não possa ser vista como uma poesia. Se pegarmos a distinção de gêneros estabelecida na Grécia Antiga entre a poesia lírica, épica e dramática, a poesia lírica era aquela que era cantada e acompanhada de instrumentos musicais (o nome lírica vem do fato de ela ser acompanhada pela lira). Mesmo se pegarmos do ponto de vista de uma história da literatura mais tradicional, diversos poemas foram inicialmente feitos para ser musicados, ou então foram musicados em um período posterior. Pelo fato de um poema ser acompanhado de música, ele deixa de ser literatura? No Brasil, há toda uma tradição de canção popular que é riquíssima do ponto de vista poético e acredito ser uma grande perda para a área dos estudos literários ignorá-la. No caso do rap, é interessante destacar também que as letras que compõem o nome rap são frequentemente associadas a rhythm and poetry – ritmo e poesia. É característico desse gênero o destaque para aquilo que é falado, de modo a se enfatizar a parte poética da canção. Além disso, o rap já vem sendo objeto de diversas pesquisas acadêmicas no Brasil (principalmente em mestrados e doutorados) em distintas áreas do conhecimento: ciências sociais, geografia, educação, canção brasileira, estudos literários, linguística aplicada… Ainda assim, é bastante frequente uma certa resistência para se estudar o rap na área de estudos literários. Dificilmente é um assunto que vai ser abordado num curso de literatura brasileira, por exemplo. Torçamos para que essa inclusão da obra do Racionais na lista do vestibular da Unicamp contribua para mudar um pouco isso.

Marca Páginas: “Capítulo 4 Versículo 3” escancara a realidade das periferias da cidade de São Paulo: “60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais / Já sofreram violência policial”. Depois de mais de 20 anos do lançamento do álbum, de que maneira você acha possível falar sobre esse assunto? Em sua pesquisa de doutorado, como você aborda a questão da representação dessa realidade?

Alan Osmo: A forma como esses e os outros dados são apresentados no início da canção “Capítulo 4 Versículo 3” é muito interessante. São dados reais, objetivos, que poderiam estar sendo apresentados em um jornal ou na televisão. Além disso, são dados escandalosos que escancaram a violência e o racismo que caracterizam nossa sociedade. Mas o curioso é que esses dados não têm repercussão, ou não repercutem da forma como deveriam, isto é, na grande mídia e na elaboração de políticas públicas pelo governo. O racismo continua sendo negado por parcela da sociedade que acredita no mito da “democracia racial” e a violência segue sendo vista de forma simplista, como se fosse um problema de bandidos versus mocinhos. É impressionante também que esses dados apresentados na canção desse disco de 1998 seguem extremamente atuais, mesmo 20 anos depois: essas estatísticas mudaram muito pouco, ou inclusive pioraram. Seguimos com uma taxa elevadíssima de homicídios, principalmente de jovens negros. Seguimos com abordagens policiais violentas nas periferias, tendo como alvo sobretudo jovens negros, de modo que ao ouvirmos isso na canção, hoje, somos lembrados de que essa realidade pouco mudou. É como se o Racionais, na canção, jogasse na cara como nossa sociedade é hipócrita e segue ignorando esse problema, ou ao menos segue não sendo efetiva para mudar essa realidade de injustiça. Nesse sentido, cabe destacar que a canção do Racionais se insere em um contexto de luta política, sendo a música também vista como um instrumento de transformação social. Por meio do rap, são denunciadas injustiças e são reivindicadas mudanças. Por isso eu me interessei pelo Racionais, para pensar a violência no Brasil no período que se inicia na democratização pós-ditadura militar e segue até hoje. As décadas de 1980 e 1990, sobretudo, podem ser caracterizadas por um contexto de crescimento das desigualdades sociais; crescimento desordenado das grandes cidades, com condições de moradia precárias, falta de saneamento e uma quase ausência de serviços públicos; a consolidação de um mercado ilegal altamente lucrativo das drogas; e uma política sem sentido por parte do Estado de guerra às drogas. Nesse contexto, houve um grande crescimento dos índices de homicídio. É possível pensar também que, apesar de a ditadura militar oficialmente ter acabado em 1985, o aparato repressor continuou muito forte e presente, agindo sobretudo na população negra e periférica. Acredito que o Racionais, em suas canções, fala de forma eloquente sobre esse contexto. O primeiro disco do grupo, lançado em 1990, chama-se Holocausto urbano. Ou seja, logo de início eles se propuseram a falar sobre um verdadeiro extermínio que atinge parcela da população nas grandes cidades. É importante destacar que essa violência atinge de forma extremamente desigual a sociedade. Na cidade de São Paulo da década de 1990, por exemplo, enquanto havia bairros com índices de homicídio comparáveis aos dos países da Escandinávia, ou seja, baixíssimos, em outros bairros os índices eram comparáveis às regiões mais violentas do mundo. Acredito que as canções do Racionais testemunham sobre essa realidade de violência, fazendo isso a partir de um ponto de vista do jovem negro da periferia.

Marca Páginas: Por último, podemos dizer que a lista de leituras para vestibulares é uma grande influenciadora do que os jovens brasileiros leem. Em geral, o movimento é que uma obra seja cobrada pelos vestibulares e que, a partir disso, passe a integrar os materiais didáticos e a terem sua leitura cobrada em sala de aula. No caso do álbum do Racionais MC’s, porém, é possível que presenciemos, pela primeira vez, o caminho inverso; isto é, muitos jovens possivelmente já escutam e gostam da obra, independentemente da obrigatoriedade escolar. De que maneira você acredita que esse movimento inverso pode desempenhar um papel diferencial na formação desses jovens? Se pensarmos na representatividade que o rap carrega consigo, você acha que os jovens podem sentir sua realidade contemplada pelos conteúdos escolares e, consequentemente, pelo próprio vestibular?

Capa do álbum Sobrevivendo no Inferno

Alan Osmo: Eu concordo bastante com sua colocação. É muito frequente que a “literatura” ensinada nas escolas seja vista pelos jovens como algo distante e descolado de sua realidade. Desse modo, pode ser difícil se interessar por algo que diga pouco a respeito da realidade em que você vive, que fale de personagens com os quais você não se identifica, enfim, que fale de um contexto que se distancie muito, seja temporalmente, seja espacialmente daquele em que você se insere. Como consequência, a “literatura” pode acabar sendo vista como uma coisa chata e difícil. Pelo fato de muitos jovens já conhecerem e se interessarem pelo Racionais MC’s, é possível que seja um assunto mais fácil de ser abordado em sala de aula. Além disso, esses jovens podem se surpreender com o fato de que aquilo que é falado nas canções que eles gostam também pode ser considerado “literatura” e que, portanto, a “literatura” pode ser interessante e dizer respeito a algo próximo da realidade em que vivem. Além disso, há, nas canções, o ponto de vista do negro morador da periferia que dificilmente aparece em obras que se costumam estudar nas salas de aula. Isso pode propiciar que os jovens se identifiquem com os personagens de que falam as canções.

Marca Páginas: Antes de terminar, você gostaria de acrescentar mais alguma informação?

Alan Osmo: Eu gostaria apenas de destacar a importância da canção “Diário de um detento”, presente no disco Sobrevivendo no inferno, ainda mais em nosso contexto de hoje. De 1998 para cá, a população carcerária no Brasil aumentou de forma significativa, de modo que hoje o Brasil possui uma das maiores populações carcerárias do mundo. A canção “Diário de um detento” tem muita importância por falar da realidade de um presídio a partir do ponto de vista de um detento. Além disso, a canção é uma das mais importantes produções feitas sobre o Massacre do Carandiru, de 1992, em que pelo menos 111 presos foram brutalmente assassinados pela polícia militar. Já se passaram mais de 25 anos desse fato, mas ele segue sendo uma ferida aberta em nossa sociedade. No início de 2017, vimos novos massacres em diversos presídios no Brasil, em que pelo menos 133 pessoas foram mortas em 15 dias. Recentemente, no final de 2016, o julgamento que havia condenado os policiais militares envolvidos no Massacre do Carandiru foi anulado. Depois dessa decisão, o caso vai voltar para o tribunal do júri, para ser julgado novamente desde o início. Caso crimes como o do Massacre do Carandiru não sejam julgados, tendo seus fatos esclarecidos e punindo os responsáveis, podemos sempre recear que crimes parecidos voltem a acontecer. A pergunta feita no final da canção do Racionais – “Mas quem vai acreditar no meu depoimento?” – continua em aberto, lembrando que os sobreviventes e familiares das vítimas do Massacre do Carandiru ainda não tiveram o devido reconhecimento e reparação pelo crime que ocorreu.

Algumas ponderações sobre a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística do IEL, por Lucas Michelani

Daqui a algumas semanas, o blog Marca Páginas completa um ano de existência. Durante esse tempo, fiz (e continuo fazendo) um esforço contínuo para reavaliar os rumos temáticos e ideológicos que me guiam por essa experiência. O que significa, de fato, levar adiante um blog sobre divulgação científica de estudos literários? Quais espaços posso ocupar, dentro e fora da universidade, com essa tentativa? Quais redes de cooperação tem sido possível estabelecer? Com quem tenho dialogado? Esse debate (que, para mim, não é óbvio em nenhuma dessas esferas) me coloca questões recorrentes sobre literatura, academia e ciência, e quais pontes podem ou não ser construídas para se passar de um lugar a outro. A ideia tem sido prosseguir com esse método baseado em tentativa e erro. Já obtive muitos retornos (nem sempre totalmente positivos, diga-se de passagem) que me ajudaram a reconhecer os alcances dessa iniciativa. Fazendo um balanço, acredito ainda nesse percurso errante, nesse jeito de ir tateando aos poucos os caminhos, para então definir (e redefinir, sempre que necessário) quais são as pretensões desse projeto. Muita gente tem ajudado e só posso agradecer a colaboração de todos, tanto dos que aqui publicaram seus textos, quanto daqueles que me procuraram fosse para elogiar, criticar ou fazer a ideia crescer. E o espaço continua aberto para quem, como eu, estiver disposto a descobrir novas formas de expandir o que muitas vezes fica enclausurado nas estantes das bibliotecas ou entre as 4 paredes das salas das universidades. Tudo pode integrar e enriquecer esse experimento que, assim como nas pesquisas acadêmicas, não sei exatamente onde vai dar, mas que continua valendo a pena pelo percurso até lá.

Mantendo essa perspectiva e seguindo o objetivo de democraticamente abrir espaços e criar diálogos com o que existe dentro e fora da academia, o post de hoje é uma contribuição de Lucas Michelani, aluno do curso de Estudos Literários, na Unicamp. Lucas integra a comissão organizadora de um dos eventos mais legais e acessíveis que acontece no IEL-Unicamp, a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística, SELLL. A iniciativa se baseia na intenção de unir os 3 cursos do instituto para conversar sobre temas comuns a essas áreas interessadas em pensar a linguagem e suas múltiplas formas de expressão. Apesar de ser uma semana acadêmica (ou seja, de estar inserida nos círculos comuns à academia, o que envolve pesquisas acadêmicas, palestrantes que são muitas vezes professores acadêmicos e ter um público majoritariamente acadêmico), os objetivos pretendidos pela organização do evento têm passado por reformulações que procuram diminuir os isolamentos que esse mesmo círculo cria. Obrigada por dividir com o Marca Páginas sua reflexão, Lucas! Que sejamos sempre estimulados a repensar e reavaliar onde estamos no mundo, e que diante desse tipo de atitude crítica seja sempre possível crescer e compartilhar nossos conhecimentos e nossas experiências com mais gente.

Algumas ponderações sobre a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística do IEL

Lucas Michelani

Há três anos, no grupo de Facebook do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), vi uma chamada para fazer parte da Comissão Organizadora da Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística (SELLL). Eu havia acabado de sair de uma experiência como assistente de produção de um festival internacional de teatro, e estava procurando um projeto cultural na minha área. Decidi aparecer para a reunião. Havia bastante gente, estudantes novos, como eu, procurando se engajar em algo que não fosse apenas as leituras para as aulas. Chamamos pesquisadores de dentro e fora do Instituto em um evento que duraria uma semana inteira. Chegada a hora, era difícil convencer os professores a suspenderem suas aulas para prestigiar as palestras. Alguns estudantes saíam da classe, outros permaneciam, retidos pelo medo de perderem o conteúdo. Lembro uma das palestras, sentado na plateia; a palestrante falava sobre Peirce e eu pensava que aquilo era muito interessante, mas ao mesmo tempo muito rebuscado e abstrato.

Logotipo por Fernanda Ferreira

No ano seguinte, decidimos mudar os rumos. Entendemos que o evento deveria ser uma ponte entre o conhecimento teórico adquirido em sala de aula e sua aplicação prática no cotidiano dos estudantes. Institucionalizamos o evento como parte da Semana Acadêmica do IEL, período em que as aulas são suspensas para que alunos e alunas pudessem prestigiar os eventos da graduação e da pós (como o Seminário de Pesquisas na Graduação-SEPEG e o Seminário de Teses em Andamento-SETA). Criamos sessões de debate em ambientes externos do Instituto para que as pessoas se sentissem mais confortáveis para expor suas ideias. Mantivemos as palestras trazendo temas que dialogassem com as três áreas, para que todas e todos pudessem compreender os assuntos ali tratados.

Tenho a impressão de que, quando se entra na universidade, há a possibilidade da carreira acadêmica em que cada etapa (mestrado, doutorado, pós-doutorado) te leva a estudar mais a fundo um único tema. E isso não é de todo ruim. É importante que pesquisadores se dediquem integralmente a um assunto para entendê-lo e conhecê-lo melhor. O problema se encontra quando falar sobre esse tema se torna muito abstrato e rebuscado.

Realizar um evento dentro da universidade já é, por si só, uma barreira física e intelectual. Não apenas pelo posicionamento do campus em um distrito, longe da cidade, mas também em relação ao conteúdo das pesquisas apresentadas. Mesmo entre os estudantes, são poucos os que parecem despertar do torpor do ritmo acadêmico – aulas, leituras e trabalhos. Sem contar o engessamento de docentes que só possuem interesse caso aquilo acrescente algo em seu currículo Lattes.

Um dos melhores comentários que recebi no evento de 2017 foi o de uma participante que disse: “não interpretem como ofensa, mas o evento de vocês nem parece um evento acadêmico”. Não ter o aspecto de um evento acadêmico não é ofensa, é elogio. É ressignificar o conhecimento, é mostrar que a academia, a pesquisa, os estudos não precisam ser chatos, enfadonhos, entediantes. Afinal, estamos falando sobre linguagem, e a linguagem permeia tudo.

Algumas simples medidas contribuem para tornar um evento acadêmico menos sisudo. Como qualquer outro evento cultural, procurar fisgar o interesse através de outros meios como a divulgação e a arte gráfica. As pesquisas dos próprios alunos são fundamentais, a fim de serem ouvidos e de mostrarem com o que se importam ou como (re)pensam a própria cultura acadêmica. Trazer para perto e esmiuçar questões teóricas para mostrar que podem sim fazer parte de nossa rotina.

Pesquisando em arquivos do centro acadêmico, encontrei alguns DVDs que mostram, por uma câmera gravada na mão, palestras, saraus e momentos de descontração entre os estudantes. Há também outros registros de que a SELL (ainda com dois L’s, por não existir o curso de Estudos Literários) ocorre desde 1989. Me questiono como um evento tão antigo demorou tanto para se enraizar enquanto uma cultura no IEL. Talvez seja esse torpor, talvez seja a indiferença, ou pior, o esquecimento.

O tempo de uma graduação é de memória curta. As questões de uma geração de alunos pode não ser a da geração seguinte. É preciso mostrar que tudo bem não parecer um evento acadêmico. Mais do que um evento, a SELLL se tornou um espaço para o diálogo, para provocar e ser provocado, para ultrapassar as fronteiras acadêmicas e mostrar que é possível ter uma boa conversa sobre linguagem, com qualquer um.

Para mais informações sobre a SELLL: http://www2.iel.unicamp.br/selll/; https://www.facebook.com/semana.iel/ e Instagram @selll_iel

África em debate no IEL/Unicamp: ressignificando perspectivas e caminhos literários, por Natasha Magno

As manifestações culturais dos países do continente africano ganharam espaço e importância nos estudos literários ao longo das últimas décadas. Reconhecer esse movimento é lidar com uma série de questões históricas que precisam ser encaradas de frente no mundo todo e, principalmente, no Brasil. No texto de hoje, a pesquisadora Natasha Magno conta como sua trajetória acadêmica acompanhou suas lutas pessoais, que envolvem entre outras coisas o reconhecimento das literaturas africanas como um campo de estudos. Natasha é bacharel em Estudos Literários pela Unicamp e, ainda pela mesma universidade, finaliza a licenciatura em Letras. Sob uma perspectiva pós-colonial, sua pesquisa de mestrado investiga o livro O último voo do flamingo, do escritor moçambicano Mia Couto. Em 2010, fundou ainda o GELCA (Grupo de Estudos de Cultura e Literaturas Africanas), no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, dando um passo muito importante para os estudos literários no Brasil.

África em debate no IEL/Unicamp: ressignificando perspectivas e caminhos literários

Natasha Magno

Quando pensei de alguma forma poder contribuir para o blog Marca Páginas e poder compartilhar minhas reflexões ao lado de talentosas pesquisadoras, o primeiro sentimento que me tomou foi o desconforto de não saber sobre o que falar num espaço como este. E essa lacuna não se sustenta através de uma ignorância pessoal e sim de uma dificuldade de se desenhar uma reflexão sem pensar no que me trouxe até aqui. E é exatamente esse segundo desconforto que me guiará a expor o motivo pelo qual proponho refletirmos juntos sobre a África em debate no IEL/Unicamp.

Impossível falar sobre a minha relação com as Literaturas Africanas e a ressignificação sobre as suas literaturas nos últimos 10 anos sem antes conseguir mencionar a minha trajetória pessoal e o motivo pelo qual eu continuo persistindo no ensino e na pesquisa que envolvem os estudos africanos. Em 2010, prestei Estudos Literários na Unicamp, pois tinha lido um romance africano chamado O ultimo voo do flamingo, do escritor Mia Couto, e aquele livro mudou a maneira como eu poderia ver o mundo e a literatura.

Capa de O último voo do flamingo

Lembro-me de pela primeira vez ter percebido que a literatura poderia transformar a sociedade em que vivemos, e foi porque eu li um romance sobre diálogos entre um mundo nunca antes conhecido e o meu que eu decidi fazer esse curso. Mas o meu entusiasmo se transformou logo em decepção, ao perceber que nenhum professor do departamento de Teoria e História Literária estudava qualquer autor africano. E o mais triste foi perceber que não só nenhum professor pesquisava diretamente sobre esse assunto, mas que muitos não se interessavam sobre qualquer produção que viesse do continente africano.

Em seguida, o meu desconforto se transformou em luta e ao longo desses 7 anos montei o GELCA (Grupo de Estudos de Culturas e Literaturas Africanas) e não abandonei a minha ambição acadêmica de pesquisar sobre a literatura africana, e foi através de outros ambientes universitários, como a USP e a Universidade do Porto, que pude buscar material suficiente para fortalecer a justificativa de começar a estudar as literaturas africanas dentro do IEL. Em 2016, após uma luta estudantil árdua, conseguimos reivindicar a contratação de um docente na área de teoria literária, que foi destinada às literaturas africanas. Isso só foi possível, pois tivemos docentes aliados que nos ajudaram muito no processo e alunos obstinados a mudarem os rumos dessa história. Tais diálogos e parcerias se fortaleceram ao longo desse tempo e, após todas essas lutas, debates, ocupações e trocas, pude constatar que a ausência de pesquisa sobre a África, principalmente dentro de um ambiente universitário, é uma postura política e que reflete muito o modo como a representamos e a vemos.

O Brasil, em decorrência do processo de escravização de africanos, iniciado no período colonial, tem hoje uma das maiores populações negras do mundo. Os elementos africanos estão presentes não só na genética de grande parte da população brasileira, mas também em expressões sociais, culturais e religiosas, que, ainda hoje, continuam à margem do universo acadêmico e, por consequência, são vítimas de preconceitos. Com o objetivo de reverter esse quadro de marginalização das expressões africanas e afro-brasileiras, o governo brasileiro aprovou, no dia 9 de janeiro de 2003, a Lei 10.639, que alterou o currículo oficial dos Ensinos Fundamental e Médio e tornou obrigatório o ensino da história da África e da história e cultura afro-brasileira. Apesar da iniciativa do governo, nos deparamos com um cenário em que as escolas ainda não estão aptas a colocarem essa lei em prática, pois muitos docentes não tiveram contato com os estudos africanos em sua formação universitária.

Nos últimos anos, e até hoje, existem poucas disciplinas que preparam os alunos de licenciatura de fato para trabalharem os conteúdos exigidos pela lei em questão. Como trabalhar um autor africano no ensino básico? Como pensar uma perspectiva ameríndia dentro de sala de aula? Tais questionamentos ainda parecem sem resposta não só na Unicamp, mas em muitas universidades do país.  Percebe-se que, no decorrer dos anos, somente alternativas paliativas foram criadas, como o oferecimento de disciplinas que dialoguem com as literaturas e culturas africanas, mas nunca algo que atribuísse uma unicidade e identidade ao conteúdo didático.

Pensar e estudar África enquanto fonte de conhecimento histórico, social e literário há menos de um século seria impensável. Hoje é mandatório. A proposta da minha reflexão encontra-se justamente em explicitar as motivações políticas e acadêmicas que contribuem para que cada vez mais pesquisadores dediquem-se ao grande campo de estudo das literaturas e culturas africanas e afro-brasileiras – pensando numa perspectiva educacional, de ensino. A descoberta do continente africano enquanto campo de produção de conhecimento é um feito recente na história mundial; as primeiras universidades a adotarem a África enquanto disciplina acadêmica o fizeram principalmente após a Segunda Guerra Mundial – não por acaso, quando o continente começou a se emancipar de sua última colonização, realizada no século XIX.

Curiosamente, o Brasil não seguiu o fluxo das universidades estadunidenses, europeias e africanas; enquanto a África atingia sua maioridade nos meios intelectuais e universitários externos, as pesquisas brasileiras centravam-se sobre a escravidão e seus descendentes em território nacional e seu papel na fundação do brasileiro, esquecendo-se da matriz, a África. Se, após 1500, não conseguimos estudar o Brasil sem dialogar com a Europa, é incabível que após quatro séculos de escravidão negra-africana consigamos ser indiferentes aos acontecimentos africanos: a história da África é importante para nós, brasileiros, porque ajuda a nos explicar. Mas é importante também por seu valor próprio e porque nos faz melhor compreender o grande continente que fica em nossa fronteira leste e de onde proveio quase a metade de nossos antepassados. Não pode continuar o seu estudo afastado de nossos currículos, como se fosse matéria exótica ou só campo para a própria teoria literária. Ainda que disto não tenhamos consciência, o imperador Ngungunhane está mais próximo de nós do que os antigos reis da França. Não é à toa: dentre as características comuns aos didáticos quanto à inserção dos conteúdos sobre a África está a aparente maior preocupação em cumprir as exigências legais do que uma verdadeira reflexão sobre a importância da inclusão desses temas. Os motivos dessa impressão aparecem, pois os capítulos ou as seções relativas a esse conteúdo surgem muitas vezes nos livros didáticos sem alterarem a lógica dos demais processos nele desenvolvidos. No limite, é possível supor que diante de um cronograma puxado o docente poderia fazer a opção de pular os capítulos destinados à África sem sofrer grandes prejuízos na compreensão dos professores dos demais processos tratados. A mesma opção não poderia ser feita diante de diversos outros temas, pois são narrados de forma a estarem intrinsecamente relacionados a uma série de processos transcontinentais.

Diante de tal cenário, sob um ponto de vista político e educacional, estudar e pensar África na universidade é urgente. Contudo, a questão não se encerra aí. Estudar África, território marginal, é também propor novos meios de construção do conhecimento, é acreditar que há formas diversas de manifestação intelectual e cultural e na inexistência de uma hierarquia entre elas. Assim, temos configurada uma segunda razão para estudar-se África no Brasil, tão iminente quanto a primeira: precisamos dos Estudos Africanos e Pós-coloniais para nos descolonizarmos.

  • Para acompanhar o GELCA no Facebook: @gelcaiel
  • Blog destinado a divulgar a III Jornada de Teoria Literária e Estudos Africanos, organizada pelo GELCA e pelo Departamento de Teoria Literária/IEL, que acontecerá nos dias 25, 26 e 27 de abril: https://jornadagelca.wordpress.com

As mulheres dos estudos literários: Lígia Balista

Para dar continuidade à série de posts sobre as mulheres dos estudos literários, essa semana divulgamos o trabalho de Lígia Balista. Formada em Letras pela Unicamp em 2007, Lígia começou sua carreira acadêmica ainda durante a graduação, com uma pesquisa de Iniciação Científica sobre crônicas. Na sequência, já no mestrado na Unicamp, se dedicou a pesquisar a metáfora da caminhada nos livros Autos da Alma, de Gil Vicente, e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Essa pesquisa foi feita sob orientação da Professora Jeanne Marie Gagnebin, mais uma mulher incrível que merece ser lembrada aqui por seus trabalhos envolvendo literatura e filosofia.

Após se dedicar por alguns anos à experiência de trabalhar em escolas e em uma universidade federal, Lígia voltou ao doutorado, dessa vez na USP, para estudar a representação do caipira na obra de Carlos Alberto Soffredini. Hoje, prestes a defender sua tese, comemora um ano da publicação da coleção Soffredini: obras principais (2017), organizada por ela em parceria com Renata Soffredini. A publicação das quatro peças teatrais que integram a coleção (“Vem buscar-me que ainda sou teu”, “Na carrêra do divino”, “Pássaro do poente” e “De onde vem o verão”) é um importante passo para a dramaturgia brasileira, pois coloca em circulação obras inéditas que fazem parte da história do teatro nacional.

Motivada pela admiração que tenho por seu trabalho e também pelo lançamento da coleção, convidei a pesquisadora para uma entrevista. Foi ótimo aprender mais sobre o processo editorial que envolve a publicação de uma coleção inédita e conhecer uma nova pesquisa sobre literatura brasileira. Agradeço a Lígia pela disponibilidade e pelo carinho com que trocou mensagens comigo. Como sempre, reafirmo o quanto me sinto honrada por estar ao lado dessas mulheres tão competentes que compõem os estudos literários no Brasil.

Marca Páginas: Lígia, quando estamos com um livro pronto e finalizado nas mãos, às vezes nos esquecemos de como existe um trabalho extenso e cansativo por trás daquele objeto, que depende de várias etapas, como pesquisa, seleção e estabelecimento dos textos definitivos, além da dedicação a textos introdutórios, prefácios, posfácios etc. Como foi o processo de organização das obras principais de Carlos Alberto Soffredini? Quanto tempo vocês ficaram envolvidas com esse trabalho? E o que você considerou mais difícil e mais prazeroso nesse processo?

Lígia Balista e Renata Soffredini no lançamento da coleção em Santos

Lígia Balista: De fato, o processo é sempre muito interessante também, e em geral muito longo e cheio de etapas variadas. A organização dessa coleção começou, pra mim, anos antes: em 2014 (começo do meu doutorado), quando conheci pessoalmente a herdeira do Soffredini – a atriz e diretora Renata Soffredini, em um evento na Unicamp. Para ela, a ideia da coleção já vinha de antes ainda! Já tinha havido uma tentativa de publicação da obra como coleção, mas até então o projeto não havia seguido adiante.  No ano de 2015 fizemos vários movimentos nessa tentativa de publicação. Entrei em contato com diversas editoras, cheguei a fazer reuniões presencias para mostrar o material e discutir possibilidades. Alguns retornos eram bem animados, mas nenhum seguiu muito adiante. Publicar teatro é uma luta! Em meados de 2015 a Renata ficou sabendo do edital da Proac/SP para publicação de inéditos. Já tínhamos algum acúmulo entre nós sobre quais seriam as peças principais e como gostaríamos de estruturar a coleção. Foi a hora de sistematizar tudo e enviar a proposta! Montamos o projeto e tentamos! Quando foi aprovado, além da enorme alegria, começou um período de bastante trabalho: definição dos convidados para escrita de prefácios e posfácios; seleção de fotos para compor os livros (acompanhar cada peça) e a parte biográfica; decisões sobre como montar a cronologia (minibiografia) sobre o autor; decisões sobre o estabelecimento de texto; ideias para as capas etc… Foi muito gostoso ver que todos os professores convidados para escrever prefácios e posfácios aceitaram com alegria participar do projeto! Outra etapa importante foi convidar a editora Giostri para fazer a parceria na publicação. O trabalho deles foi fundamental para alguns processos, como a criação das capas, por exemplo, e a própria impressão do livro. Mas também foram momentos de muitas idas e vindas. A produção de um livro é um trabalho coletivo, né? E várias mudanças e pequenos ajustes foram necessários nessa etapa. Tínhamos a pressão do prazo com a prestação de contas do edital. Foi um período de muitas reuniões (presenciais ou às vezes por telefone mesmo) e era um processo constante de importantes decisões! Sobre o estabelecimento de texto, eu participei mais diretamente e pessoalmente do trabalho com a peça “Na carrêra do divino” – o que foi muito rico para o desenvolvimento do meu processo de pesquisadora sobre essa peça. Ganhei uma familiaridade enorme com o texto, após tantas leituras, tantas pesquisas para revisão. No final do ano passado tive a alegria de poder dividir um pouco mais sobre esse processo (e sobre o que ele representou para minha pesquisa, inclusive) em um artigo que saiu pela revista da ECA/USP. A peça mais recente, “De onde vem o verão” de 1990, já foi escrita pelo autor com uso do computador, o que facilitou um pouco o processo do trabalho com o texto. Sobre sua última pergunta: acho que o mais difícil é ver algumas coisas não saírem como planejamos… Tentamos ter o maior cuidado possível com o material todo que estava sendo elaborado, mas… nem tudo depende só de nós, né! Faz parte de um processo grande e longo como esse. E talvez o mais gostoso pra mim, além do enorme aprendizado que tive sobre o processo completo de organização e produção de um livro (de uma coleção!), foi a aproximação intensa com a obra e o acervo de materiais do autor. Como pesquisadora, foi riquíssimo poder mergulhar nesses textos todos e em alguns materiais pessoais de Soffredini. E, como professora e leitora, acho que o mais legal é ver a obra circulando! Realmente podendo chegar aos leitores agora… Tive, nesse sentido, alguns retornos de leitura muito interessantes e emocionantes! Daqueles que nos faz ver que já valeu a pena!

Capas dos 4 volumes que compõem a coleção Soffredini: obras principais (2017)

Marca Páginas: Seu doutorado na USP é sobre a representação do caipira na obra de Soffredini. Você acredita que sua pesquisa contribuiu para a organização desses livros? De que maneira esses dois trabalhos se relacionam e se afetam entre si?

Lígia Balista: Acredito que sim. Desde antes de entrar no doutorado, em meus primeiros contatos com a Renata Soffredini para conseguir os textos para ler e decidir o recorte a pesquisar, essa ideia se apresentou. Era um desejo antigo dela conseguir pensar uma publicação das obras do pai, então ela quis saber mais de que universidade eu era e qual era exatamente o projeto – pensando inclusive nessa possível aproximação com as editoras universitárias. Pra mim, a ideia – que era também só um sonho no início (seria ótimo, mas eu não fazia ideia da viabilidade ou não de uma publicação como essa) – foi se tornando cada vez mais uma construção real e parte de minha pesquisa. Para estudar o dramaturgo não publicado eu precisava acessar os textos; a cada texto acessado, a vontade de publicá-los só aumentava. Para criar um círculo maior de debate em torno da obra do autor era importantíssimo que ele passasse a circular como livro. Acho que senti isso mais ainda por estar nos estudos literários. Quando meus encontros eram com os estudiosos de artes cênicas, em geral eles conheciam o trabalho do Soffredini. Já nas letras, era mais raro. Poder contar com as peças em livro agora talvez mude esse cenário um pouquinho… Em uma das disciplinas de pós sobre teatro brasileiro que fiz na universidade, por exemplo, um professor chegou a comentar comigo que teria incluído uma das peças de Soffredini no programa, mas não tinha o texto para ler e disponibilizar aos alunos. Aquilo me marcou muito (sobre as barreiras que as materialidades do texto impõem, mas também no outro sentido: sobre as possibilidades reais e a importância de investir na publicação). Hoje sinto, com muito orgulho, que foi também uma conquista importante da minha dedicação à pesquisa que possibilitou conseguir tocar esse processo de publicação dos livros da coleção. Sempre com o enorme empenho e abertura da herdeira do dramaturgo, é claro. Sem a confiança da Renata nada disso seria possível.

Lígia Balista com os manuscritos das peças teatrais de Soffredini

Marca Páginas: Parece ser comum, entre pós-graduandos e pesquisadores, uma certa angústia relacionada às poucas oportunidades de diálogo existentes entre a pesquisa acadêmica e a comunidade que está fora das universidades. Você sente ou concorda com essa angústia? Quais são, em sua opinião, possibilidades válidas para atenuar essa distância?

Lígia Balista: Em geral concordo sim. Já senti isso muitas vezes. Acho que especialmente em nossa área, os objetos de estudos podem parecer muito distantes dos problemas reais e atuais do mundo, da vida das pessoas. Mas fui aprendendo que isso é mais uma barreira que um certo imaginário de mundo nos coloca… Porque, afinal, se pesquisamos/estudamos cultura, isso sem dúvidas está relacionado ao modo de viver das pessoas. E também nesse sentido a publicação dos livros inéditos é muito bacana! A dramaturgia do Soffredini vira acessível! Parece que nosso objeto de estudo passa a ser, digamos, mais real! Parte do planejamento de divulgação da coleção Soffredini: obras principais era realizar duas palestras em escolas, após a publicação dos livros. A Renata fez uma e eu outra. E o retorno dos alunos de Ensino Médio foi maravilhoso!

Marca Páginas: E sobre ser mulher na nossa área de pesquisa… você acha que fazer parte dos estudos literários no Brasil, hoje, passa também por questões relacionadas a gênero?

Lígia Balista: Acho que o fato de seguirmos carreira acadêmica nos aproxima de um lugar de nossa profissão em que, em geral, predomina a presença de homens. É muito significativo olhar o número de mulheres que entram na graduação para estudar literatura e a porcentagem de professoras mulheres que seguem na vida acadêmica. Fui representante discente durante um período na pós aqui na USP. E alguns casos de dificuldades em seguir a pós que chegavam até mim passavam sim pelo machismo – não só presente na universidade, mas na sociedade em geral, né… A licença maternidade, por exemplo: é uma coisa só reconhecida pelo mundo da pós graduação há pouquíssimo tempo! Vale, por exemplo, conhecer o trabalho de divulgação que as pesquisadoras do Gepô têm feito, nos últimos dias: #generoemação. Na vida acadêmica, especificamente, algumas atitudes vão sendo associadas a uma maneira de estar no mundo mais “masculinizada”, digamos. E é muito curioso (difícil!) lidar com isso no dia a dia… Mas seguimos!

Sugestões de leitura:

  • O artigo que Lígia menciona na entrevista, “PESQUISANDO SOFFREDINI: um mergulho por seu acervo e na história da publicação de um autor “quase” popular”, está disponível aqui: https://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/138376
  • Para conhcer o Gepô (Grupo de Estudos de Gênero e Política DCP USP): https://www.facebook.com/gepo.dcp.usp/
  • Indicação da coleção de peças teatrais de Carlos Alberto Soffredini (1939-2001): Soffredini: obras principais. “Vem buscar-me que ainda sou teu”, “Na carrêra do divino”, “Pássaro do poente” e “De onde vem o verão”. Organização Renata Soffredini e Lígia Balista; São Paulo: Giostri, 2017.

As mulheres dos estudos literários: Regina Dalcastagnè

Esse post é dedicado à memória de Marielle Franco: socióloga, pesquisadora, vereadora, feminista, militante dos direitos humanos, mulher, negra, lésbica, favelada, e brutalmente assassinada pelo Estado brasileiro em 14 de março de 2018.

Nesse mês de março, historicamente dedicado às lutas das mulheres, gostaria de divulgar, numa série de posts aqui no blog Marca Páginas, os trabalhos de algumas das mulheres que nos dias de hoje se dedicam aos estudos literários no Brasil. Nesse campo de pesquisa tomado por vozes masculinas (como tantos outros), vale a pena lembrar que esse espaço é ocupado também por mulheres incríveis, professoras-pesquisadoras que são referências pela qualidade de seus estudos. São apenas alguns nomes dentre tantos que poderiam ser citados, mas espero que cada uma de nós – professoras, pesquisadoras, estudantes – se sinta contemplada e reconheça a importância de compor esse círculo de mulheres competentes. Como sempre repito: a cada vez que nos percebemos menos sozinhas em nossas lutas, nos tornamos mais fortes.

Regina Dalcastagnè 

Fonte: Facebook.com

Falar sobre os estudos de literatura brasileira contemporânea atualmente passa, sem dúvida, por reconhecer a importâncias das pesquisas que Regina Dalcastagnè vem desenvolvendo nos últimos anos. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Regina se dedicou especificamente à literatura a partir do mestrado e do doutorado: no primeiro, com a dissertação “O espaço da dor: o regime de 64 na produção romanesca brasileira”, defendida na Universidade de Brasília em 1993 e publicada em livro em 1996 com o título O espaço da dor: o regime de 64 no romance brasileiro; no segundo, com a tese “Uma obra em movimento: leitura(s) de Avalovara, de Osman Lins”, defendida em 1997 na Universidade Estadual de Campinas, sob orientação de Vilma Âreas, outra grande mulher dos estudos literários brasileiros e professora aposentada do Instituto de Estudos da Linguagem aqui na Unicamp.

Atualmente, Dalcastagnè é professora titular livre de literatura brasileira na UnB e pesquisadora de produtividade CNPq. Além disso, coordena o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBC) e faz parte do corpo editorial de várias revistas importantes da área. Suas principais linhas de pesquisa estão relacionadas aos estudos de representação na literatura contemporânea e da narrativa contemporânea brasileira, passando pela representação de grupos marginalizados, ocupação dos espaços urbanos e crítica literária em periódicos. Vale citar alguns de seus projetos de pesquisa mais recentes: “Fora do retrato, no meio da história: a Brasília contada pelas periferias”, “A superfície das coisas: objetos e memória na literatura brasileira contemporânea” e “Narrativas da cidade: Brasília e a experiência urbana na literatura brasileira contemporânea”. Regina publicou e organizou ainda vários livros e artigos com os resultados de suas pesquisas, dentre os quais destaco Literatura e exclusão, de 2017, Espaço e gênero na literatura brasileira contemporânea e Representación y resistencia en la literatura brasileña contemporánea, ambos de 2015. A extensa lista de suas publicações e atuações profissionais pode ser consultada em <http://lattes.cnpq.br/2599879538822377>.

Como já dito, uma das pesquisas mais importantes desenvolvidas por Dalcastagnè nas últimas décadas diz respeito aos modelos sociais representados na literatura brasileira contemporânea, além do perfil desses escritores. Você sabia, por exemplo, que quase 73% dos romances brasileiros publicados de 1990 a 2005 foram escritos por homens, em sua maioria brancos e de classe média? E que 62% das personagens criadas nesse mesmo período são também homens? Esses números ficam mais assustadores se pensarmos que, entre os 258 romances estudados nessa pesquisa, apenas 3 protagonistas eram mulheres negras. A seguir, reproduzo o infográfico [http://arquivo.pontoeletronico.me/2013/02/18/eu-quero-escrever-um-livro-sobre-literatura-brasileira/] de Niege Borges, publicado no site Ponto Eletrônico, que organiza os dados impressionantes recolhidos pelo GELBC durante a pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004”:

Esses números chocam, o que reforça mais uma vez a relevância que esse tipo de pesquisa tem. Regina Dalcastagnè, acompanhada por seu grupo de pesquisa, realiza esse importante trabalho, e por isso deve ser lembrada como uma mulher dos estudos literários.

Para mais informações sobre as pesquisas desenvolvidas por Regina Dalcastagnè, seguem alguns links:

Conhecendo uma pesquisa acadêmica em estudos literários, por Nina Borges Amaral

Que tal conhecer alguns dos passos possíveis para a realização de uma pesquisa acadêmica na área dos estudos literários? Nina Borges Amaral, bacharel e mestranda pela Unicamp, nos conta um pouco de sua trajetória: como iniciou sua pesquisa durante a graduação, como chegou ao seu tema de mestrado e os recortes escolhidos para realizar essa pesquisa sobre o escritor  brasileiro Bernardo Élis.

Conhecendo uma pesquisa acadêmica em estudos literários: o exemplo de Bernardo Élis

Nina Borges Amaral

Minha pesquisa acadêmica sobre o escritor goiano Bernardo Élis começou em 2013, no meu último ano de graduação em Estudos Literários[1] pela Unicamp. No curso, dentre as variadas disciplinas que cada estudante tem que fazer para se formar, estão duas obrigatórias finais: as disciplinas chamadas Monografia I e II. Nelas, desenvolve-se uma pesquisa de final de curso, cujos resultados são apresentados para uma banca de professores avaliadores na forma de um trabalho de conclusão de curso.

Diferentemente de alguns dos meus colegas, que encontraram um assunto particular que lhes interessasse e começaram suas respectivas pesquisas durante a graduação[2], passei pelo curso gostando muito de diferentes assuntos (como tradução e poesia francesa, para citar apenas dois exemplos), mas acabei não me aprofundando em nenhum. Entretanto, já quase no fim do curso, tomei conhecimento da existência do acervo Bernardo Élis no Centro de Documentação Alexandre Eulálio (o CEDAE), e foi esse material que despertou meu interesse e que proporcionou meu primeiro contato mais próximo tanto com essa literatura, quanto com a pesquisa na academia.

Naquele momento inicial, parte considerável do meu trabalho foi fazer um levantamento da fortuna crítica[3] sobre o escritor e, ao perceber que muitos críticos literários o classificavam como regionalista (como é também o caso de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, por exemplo), tentar entender quais seriam as implicações de tal afirmação. Na minha monografia, portanto, apresentei uma compilação e análise de textos de crítica sobre a literatura bernardiana, assim como um breve estudo sobre o conceito de regionalismo literário.

Depois de defendida a monografia e concluída a graduação, entrei no mestrado com um projeto de pesquisa ainda sobre Bernardo Élis, já que, muitas vezes, a pesquisa que desenvolvemos na graduação (seja em uma iniciação científica ou mesmo nas disciplinas de monografia ou TCC) acaba levantando novos questionamentos para além de nossos objetivos iniciais.

No mestrado, passei a estudar, de um lado, o papel da identidade regional goiana na literatura bernardiana e, de outro, a relação entre regionalismo e modernismo em sua obra, pois, para muitos críticos, Bernardo Élis é o principal expoente do modernismo em Goiás. Atualmente, estou na reta final da pesquisa de mestrado: a escrita da dissertação – que é o principal requisito para a obtenção do título de mestre. A dissertação nada mais é que um texto final, mais longo e aprofundado, que cada aluno de mestrado deve apresentar para uma banca avaliadora explicando seus procedimentos de pesquisa, discutindo questões importantes relacionadas a seu objeto de estudo e apontando conclusões para os problemas e questionamentos levantados.

E essa reta final é muito importante, pois, tanto na graduação quanto na pós-graduação, só então podemos verificar os resultados materializados de uma ocupação solitária como é a pesquisa acadêmica.

Sugestões de leitura:

Bernardo Élis. Ermos e Gerais. São Paulo: Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 1944; 2. ed. Goiânia: Ed. Oió, 1959; reedição (org. Luiz Gonzaga Marchezan). São Paulo: Martins Fontes, 2005 (Coleção Contistas e Cronistas do Brasil).

Dossiê Bernardo Élis – Remate de Males: revista do Departamento de Teoria Literária. Disponível em: http://revistas.iel.unicamp.br/index.php/remate/issue/view/220

[1] Para conhecer mais sobre a graduação em Estudos Literários e sobre as disciplinas que formam seu currículo acadêmico, visite http://www.iel.unicamp.br/br/content/estudos-liter%C3%A1rios.

[2] Quando isso acontece, os alunos podem ser orientados de maneira mais ou menos formal, seja por meio da participação em grupos de estudo, de disciplinas voltadas para a pesquisa acadêmica ou do desenvolvimento da chamada Iniciação Científica (http://cnpq.br/iniciacao-cientifica).

[3] Fortuna crítica é o termo usado para se referir a um conjunto de textos feitos por críticos literários para analisar uma produção literária específica. Aqui, os textos que fazem parte da fortuna crítica bernardiana são, portanto, textos de diferentes autores que analisam sua obra.