Conserve primeiro, pesquise depois

Essa é a opinião do ecólogo Daniel Janzen, da Universidade da Pensilvânia (EUA), um dos principais responsáveis pela economia sustentável da Costa Rica, baseada na preservação da biodiversidade do país.

Mandei um email para o Janzen, enquanto preparava minha reportagem sobre as frutas brasileiras que os mamíferos gigantes pré-históricos deviam comer.A reportagem focaliza uma pesquisa inspirada em um artigo de Janzen de 1982, que é uma beleza de ler, só pelo estilo (se todos os artigos científicos fossem escritos assim, eu voltava a ser cientista…).

Fiz ao Janzen a seguinte pergunta: O que podemos aprender do estudo da origem ancestral dos mecanismos de dispersão de semente que possa ajudar a conservar ecossistemas ameaçados?

A resposta dele é um verdadeiro discurso, que infelizmente não tive espaço para incluir na reportagem. Aqui está, na íntegra, traduzido por mim:

16 de julho, 2008,

Filadélfia

Igor, todos sabemos há muito tempo que muitas, muitas espécies de plantas tropicais–das quais o seu país tem um monte–“precisam” de vários tipos de grandes mamíferos (e pássaros) para dispersar suas sementes. Se esses animais forem extintos ou sua população diminuída por atividades humanas, isso vai óbviamente afetar seriamente a biologia dessas plantas. Não precisa nem pensar. Eu disse isso há muito tempo, notando que o primeiro impacto sério dos humanos no Novo Mundo foi a extinção da megafauna, em vez de meramente a caça indiscriminada que temos visto nos últimos 500 anos. Isso sempre foi óbvio para os ecólogos (e para qualquer um que pense cinco minutos a respeito). Tenho certeza que um dos índios vivendo no meio da sua floresta tropical pode explicar e mostrar isso para você melhor do que qualquer ecólogo moderno. O fato que isso tem sido ignorado pela minha e a sua sociedade não faz isso menos óbvio.

Precisamos estudar isso para saber que é verdade? Não. É óbvio. Com respeito a “origem ancestral”, obviamente elas são antigas. Sementes tem estado por ai, e sendo dispersas, por mais de 100 milhões de anos.

Entretanto, se “estudar” significa descrever e mostrar isso a humanidade como um todo, e especialmente à humanidade responsável pelas decisões de preservar ou destruir seus ecossistemas de florestas tropicais, então, de todos os jeitos, estude, estude, estude. Se o seu povo começar a gostar e se interessar por manter algumas áreas em estado selvagem porque eles entendem esse estado selvagem melhor, isso será maravilhoso. “Estudo científico” é parte desse entendimento.

ENTRETANTO, a única maneira verdadeira de conservar ecossistemas de grandes territórios selvagens–e os GRANDES são os únicos que vão mesmo sobreviver–é a sociedade concordar em colocá-los “de lado” para permitir que continuem existindo como terras selvagens. Onde eu trabalho na América Central, de maneira bem simples isso significa comprá-las fora do mercado, e porque você as detêm, você pode decretá-las parques nacionais. Um parque nacional é outro tipo de uso da terra, assim como um campo de soja ou uma plantação de laranjas. Em outras palavras, onde eu trabalho, nós JÁ sabemos o suficiente para saber o que temos para conservar. A questão não é mais de saber, mas de simplismente dedicar o DINHEIRO para comprá-las e conservá-las. UMA VEZ que eles estejam conservados firmemente ao estabelecer firmemente que o uso da terra é o de terra selvagem, ENTÃO o estudo torna-se importante porque sobre essa informação você baseia todos os tipos de uso não destrutivos que são necessários para aceitação contínua da área selvagem pela sociedade (e integração com a sociedade), e com esses usos, em vários tipos de moedas, você paga as contas para aquela área selvagem conservada (o que significa que ela é auto-sustentável e não um parasita).

Então, a resposta curta para a sua pergunta é que para conservar o ecossitema em primeiro lugar, eu não tenho que estudá-lo. Eu tenho que comprá-lo. Uma vez comprado e firmemente estabelecido como parque nacional, ENTÃO eu posso ter o luxo de retornar aos meus interesses acadêmicos e estudá-lo por uma multitude de razões Isso se aplica a árvores, pássaros, agentes dispersores, predadores, mutualistas e TUDO o mais na floresta.

Espero que faça algum sentido.

Dan Janzen

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