Conheça os não ganhadores do Nobel deste ano

O anúncio dos ganhadores do Prêmio Nobel de 2008 coincidiu com minha última semana cobrindo férias na editoria de ciência da Folha de S.Paulo. Confesso que nunca liguei para a cerimônia, embora saiba que o Nobel tem um prestígio enorme fora da academia, junto ao grande público, e que o sonho de ganhar o prêmio mexe com alguns cientistas, a ponto de se tornarem obcecados pela honraria.

Pelo fato dos cientistas merecedores serem tantos e os critérios para selecionar os ganhadores sejam um pouco arbitrários (in)justiças históricas são cometidas com frequência pelo Nobel.

Vejam só, os casos de excluidos deste ano, que acompanhei escrevendo para a Folha. O Nobel de Medicina, por exemplo:

O comitê que escolheu a descoberta do HIV como um feito merecedor do Prêmio Nobel de Medicina de 2008 deixou de fora da lista o americano Robert Gallo, da Universidade de Maryland. A decisão deve encerrar uma antiga polêmica, já que Gallo, considerado por alguns cientistas um co-descobridor do vírus, chegou a ser acusado de se apropriar do trabalho de Luc Montagnier, um dos ganhadores da honraria.
O trabalho do americano usou uma amostra de vírus que teria sido retirada do laboratório do francês, no Instituto Pasteur, de Paris. O desvio nunca foi provado, mas um teste mostrou que o material usado por Gallo era geneticamente similar ao de Montagnier.
Da disputa acadêmica derivou um conflito entre ambos pela patente do teste de HIV, pedida por Montagnier e negada nos EUA (que a concederam a Gallo). O impasse foi resolvida por um anúncio conjunto entre o então premiê francês, Jacques Chirac, e Ronald Reagan, presidente dos EUA em 1987. Ambos os cientistas ficaram com os nomes na patente.
Ontem, o chefe do comitê de Medicina do Nobel, Jan Andersson, disse que a demora de 25 anos em dar o prêmio à descoberta do HIV se deveu em parte às dúvidas sobre primazia, já que Gallo publicou seu trabalho depois do rival. “Não nos baseamos só em publicações. Usamos outras fontes para dissecar quem fez o trabalho”, declarou Andersson.
Montagnier, hoje presidente da Fundação Mundial para Pesquisa e Prevenção da Aids, recebeu a notícia do prêmio na Costa do Marfim, onde participa de um congresso. Disse que desejava que o prêmio tivesse ido para Gallo também. “Ele mereceu tanto quanto nós.”
Gallo disse ontem de manhã ter ficado “desapontado”. Mais tarde, emitiu um comunicado se declarando feliz por seu “amigo de longa data, o dr. Luc Montagnier”. “Fiquei grato por ler o gentil comentário do dr. Montangier nesta manhã expressando que eu seria igualmente merecedor [do Nobel].”
Em entrevista concedida a Folha, em novembro de 2007, Gallo reconheceu que a equipe do Instituto Pasteur foi a primeira a descobrir o HIV, mas que teria usado idéias e técnicas desenvolvidas por ele.
“Se o Gallo tivesse ganho [o Nobel], eu ficaria desiludido”, comentou o virólogo Paolo Zanotto, da USP. “A comissão do Nobel fez muito bem em não premiar um biopirata.”
Munido de informações de bastidor, Zanotto acredita que Gallo tenha recorrido a um estudante seu em estágio no Pasteur para roubar amostras. Os testes genéticos bastam, para ele, como prova da apropriação.
“O HIV sofre mutações muito rápido. O vírus já é diferente dentro de um indivíduo, imagine em lugares diferentes do mundo”, explica Zanotto.
Segundo o jornalista John Crewdson, que investigou a disputa acadêmica para seu livro “Science Fictions” (2002), falhas no trabalho de Gallo custaram vidas. O teste criado inicialmente por Gallo, diz o livro, não era confiável. Sangue saudável para doação acabou descartado como material contaminado, diz, e pessoas infectadas receberam alta.

O Nobel de Física também causou polêmica:

A escolha do prêmio Nobel de física de 2008 foi mal recebida na Itália.
O físico Roberto Petronzio, diretor do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália, afirmou ao jornal romano “La Republica”: “Não posso negar que essa atribuição particular me enche de amargura: Kobayashi e Maskawa têm como único mérito a generalização, de outra forma simples, de uma idéia central cuja paternidade é do físico italiano Nicola Cabibbo”.
Realmente, os livros de física de partículas elementares costumam chamar a teoria premiada pelo Nobel de 2008 de “matriz de Cabibbo-Kobayashi-Maskawa”. O documento do comitê do Nobel que justifica a premiação menciona que o trabalho dos japoneses de fato começou com uma generalização de um estudo de Cabibbo, publicado em 1963.
Os físicos ouvidos pela Folha, porém, concordam que a generalização feita pelos japoneses e a conclusão de que ela implicava a existência de novos quarks e explicava a diferenças entre matéria e antimatéria foi longe de ser trivial.
“Prefiro não comentar o assunto”, disse à Folha Cabibbo, atualmente presidente da Academia de Ciências do Vaticano.

E a história do excluído do Nobel de Química é mais incrível ainda, como relata o Marcelo Leite em seu blog. Um repórter da rádio pública nacional dos EUA entrevistou dois dos ganhadores do Nobel de Química, Roger Tsien e Martin Chalfie:

O repórter ouviu de Tsien e Chalfie que não teriam feito seu trabalho sem a colaboração de Douglas Prasher, do mesmo MBL de Shimomura, que havia clonado o gene da GFP. “Clonar” um gene quer dizer localizar e reproduzir a seqüência específica de DNA com o conteúdo necessário para especificar uma determinada proteína, ou seja, o trecho sem o qual a célula não consegue produzir a proteína em questão.

Prasher cedeu o gene para Tsien e Chalfie, como aliás está registrado em material de contextualização preparado pela Academia Real Sueca de Ciências. O repórter da NPR começou a procurar Prasher, “atrás de um boa citação”. Terminou por encontrá-lo em Huntsville, Alabama. Fazendo sabe o quê? Dirigindo uma van para clientes de uma concessionária de veículos. Isso mesmo: trabalhando como motorista. Se entender inglês, não deixe de ouvir a matéria de Charles (o link pode ser encontrado aqui). É uma lição de jornalismo.LINK

Essas histórias do Nobel 2008 não são uma anomalia deste ano, como mostra esta galeria montada pela Scientific American, com os mais famosos não-ganhadores do Nobel.

Nobel, enfim, é como Oscar. Não vou entender nunca porque o compositor de música para filmes John Williams (1932- ) ganha o Oscar de melhor trilha sonora quase todo ano, e outro compositor tão bom, senão melhor que Williams, Jerry Goldsmith, (1929-2004), tenha ganho somente um Oscar, em 1976…

Discussão - 1 comentário

  1. Carlos Hotta disse:

    César Lattes é um belo exemplo de não-Nobel tupiniquim.

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