Qual a sua postura, cientista brasileiro?

Inversão de valores, mercantilização da ciência, “publicar ou perecer”….

Se você trabalha com ciência no Brasil, ou tem interesse no que anda produzindo a ciência brasileira/mundial, deveria dar uma olhada nesse artigo de Silvana Calvo Tuleski: http://www.scielo.br/pdf/pe/v17n1/v17n1a00.pdf

E aí, cientistas, qual a sua postura? Eu particularmente acho que precisamos reciclar a forma de fazer Ciência…

“Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.”
(Privatizando, Bertold Brecht, 2007)


Bambiraptor? Pintosaurus!?– Os nomes mais estranhos da Paleontologia!

Com contribuição de Thiago Marinho

O bicho é meu e eu coloco o nome que eu quiser nele!!!

Pintossauro, Gasossauro, Dinheirossauro, Fodonyx, Bambiraptor…? A lista é longa! Um mais estranho que o outro! Mas porque eles foram batizados assim?

Veja aqui uma amostra dos nomes mais estranhos da Paleontologia!

Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro

Quem não lembra do episódio da Família Dinossauro em que Baby é levado para o grande sábio afim de receber um nome, mas algo inesperado acontece? Ele acaba recebendo um nome meio que, digamos… incomum: “Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro”.

(se você nunca assistiu, veja o episódio AQUI 🙂 ).

Isso nos leva a pensar: Afinal, como são escolhidos os nomes dos dinossauros??

Certamente não é como no episódio da família dinossauro (ver post anterior), mas ainda assim parecem surgir alguns resultados meio… incomuns.

Neste post vamos reunir alguns dos nomes mais inusitados já escolhidos por paleontólogos.

Não são só os dinossauros que sofrem, mas toda ‘sorte’ de criatura extinta…

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Os 10 mais!

And the Oscar goes to:

1) PINTOSAURUS: gênero basal de procolofonídeo. Procolofoquê? Procolofonídeo! Procolofonídeos são pararépteis que lembram muito um “tipo robusto de lagarto”, mas na verdade não tem nada a ver com eles (Veja AQUI e AQUI para saber mais). Pintosaurus  foi descrito em 2004, encontrado em rochas de idade Permo-triássicas do Uruguai. Pinto- foi escolhido para homenagear o Dr. Iraja Damiani Pinto, paleontólogo gaúcho que contribuiu substancialmente para paleontologia sulamericana. (…)

2) CHUPACABRACHELYS: Trata-se de uma tartaruga do período Cretáceo, que foi encontrada no Texas, USA. Não tem muito a dizer… o nome realmente foi em homenagem ao “chupa-cabra”

3) GASOSAURUS CONSTRUCTUS: Dinossauro terópode chinês de médio porte. O nome foi escolhido para homenagear uma empresa de combustível. O dinossauro foi encontrado durante sua construção, por isso o nome da espécie é ‘constructus‘.

4) DINHEIROSAURUS LOURINHANENSIS: Uma espécie de dinossauro saurópode gigante, aparentado ao Diplodocus. Ele foi encontrado na região da Praia de Porto Dinheiro, concelho de Lourinhã, em Portugal. O nome deriva do local aonde ele foi encontrado. Tinha que ser um dinossauro português..

5) BAMBIRAPTOR: Sim, esse é um dinossauro que foi nomeado em homenagem ao Bambi. Isso mesmo, aquele personagem da Disney (…!!). Trata-se de um pequeno dinossauro carnívoro, com menos de 1m de comprimento. O nome foi escolhido porque aparentemente o espécime encontrado era um juvenil.

6) FODONYXRincossauro do Triássico Médio da Inglaterra. O nome significa “garra escavadora”. Em latim “fodere“=escavar e “onyx“=garra. “Tchau! vou ‘fodere’ dinossauros!”

7) MINOTAURASAURUS: Tipo de dinossauro anquilossaurídeo proveniente da Ásia. Foi descrito em 2008. O nome significa “Homem-touro-lagarto”.

8) GOJIRASAURUS: Gênero dúbio de dinossauro terópode encontrado em rochas triássicas do Novo México, EUA. O nome foi em homenagem ao monstro mitológico japonês. Gojira…. Gojira….Gojira…

Incisivosaurus – não é só o nome que é feio…

9) INCISIVOSAURUS: Um pequeno dinossauro terópode da China, provavelmente de hábito herbívoro. Sua dentição peculiar, com dentes proeminentes como os e um roedor, foi o que lhe rendeu o nome estranho.

10) PIKAIA: Representante basal do grupo dos cordados. O nome dessa criaturinha Cambriana encontrada em Burgess Shale significa “da Pika”. Pika é um tipo de pequeno mamífero aparentado dos coelhos, comumente encontrado na região aonde os fósseis de Pikaia foram descobertos. (Eu ri!)

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No mínimo exóticos:

– Enigmosaurus: Grande dinossauro terópode herbívoro (Therezinosauróide) do Cretáceo da Mongólia. Quando os seus restos foram encontrados, a anatomia não usual da pélvis do bicho deixou os seus descobridores tão confusos, que lhes pareceu um verdadeiro enigma. Assim sendo, resolveram nomeá-lo dessa forma.

– Camelotia: Gênero de um dinossauro prossaurópode do Triássico Inglaterra. Seu nome significa “de Camelot”. Camelot trata-se do lugar lendário na Grã-Bretanha, que teria abrigado o castelo e a corte do Rei Arthur.

– Erectopus: Dinossauro terópode allossauróide do Cretáceo da França. Descoberto no final do Século XIX, o seu nome significa: “Erecto=em pé”, “Pous=Pé”. Hm…

– Minmi: Dinossauro australiano da infraordem Ankylosauria. O nome é devido à Minmi Crossing, o lugar onde seus fósseis foram descobertos.

– Hallucigenia: Gênero de invertebrado fóssil do Período Cambriano. O nome é devido a sua forma bizarra, que aos olhos dos descobridores mais parecia uma alucinação. Já viu né!!

– Drinker: Pequeno dinossauro hypsilofodontídeo do Jurássico da América do Norte. O nome, traduzido do inglês significa “bebedor”, mas essa não foi a intenção, ele foi proposto para homenagear o renomado paleontólogo Edward Drinker Cope.

– Gargoyleosaurus: Um dos mais antigos anquilossauros já descobertos. Gargoyleasaurus foi encontrado em Wyoming, em rochas de idade Jurássica. Seu nome significa “lagarto gárgula”.

– Xixiasaurus: Dinossauro terópode troodontídeo descrito em 2010. Seus restos foram encontrados na região administrativa de Xixia, na província de Henan, China.

– Pawpawsaurus: Gênero de dinossauro da família Nodosauridae, da infraordem Ankylosauria. Seus restos foram encontrados na Formação Paw Paw, Texas, USA. Eu não consigo falar sem rir!
– Pedopenna: Dinossauro manirraptor do Jurássico da China. Pedopenna significa “pena no pé”. Este dinossauro recebeu esse nome por apresentar evidências da existência de longas penas inseridas ao longo de seus metatarsos.
– Ozraptor: Dinossauro terópode encontrado na Austrália, descrito em 1998. “Oz” faz referência ao apelido dado aos australianos,“Ozzies”.
– Borogovia: O nome deste dinossauro carnívoro troodontídeo é derivado dos “borogoves”, criaturas de um poema de Lewis Carroll,  Jabberwocky, parte da obra “Alice no país das Maravilhas”.
– Appalachiosaurus: Gênero de dinossauro terópode tiranossauróide do Cretáceo da América do Norte. O nome faz referência a região estadunidense conhecida como Appalachia, onde o fóssil do animal foi encontrado.

– Petrobrassaurus puestohernandezi: Dinossauro saurópode argentino. Foi descrito em 2011. O nome do gênero realmente é devido a companhia de petróleo brasileira, Petrobrás, e o nome específico se refere a “Puesto Hernandez”, um dos centros de extração da companhia, aonde o dinossauro foi encontrado.  Ahhh, invejosos! Queridos!!

– Atlascopcosaurus: Este dinossauro australiano recebeu seu nome em homenagem a companhia Atlas Copco. Esta companhia forneceu o equipamento para a expedição paleontológica que resultou na descoberta do novo dinossauro. Capessaurus, Fapespsaurus, Cnpqsaurus, vamo lá, galera!!

– Qantassaurus: Este dinossauro hypsilofodontídeo foi nomeado para homenagear a empresa aérea australiana, Qantas, que ajudou no transporte dos fósseis. Conclusão: australiano não sabe dar nome pra dinossauro!!

– Panamericansaurus: Outro gênero de dinossauro saurópode da Patagônia argentina. Foi descrito em 2010. O nome foi para homenagear a companhia petrolífera Pan American Energy, que deu apoio financeiro às pesquisas.

ArgentinosaurusAh…Esse só pra sacanear mesmo. Bonito nome.

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Homenagens curiosas:

Utahraptor spielbergi – Esse dinossauro raptor foi descoberto na semana de estréia do filme Jurassic Park. O nome da espécie foi escolhido para homenagear Stephen Spielberg, diretor de “Jurassic Park”. Posteriormente re-descrito, o nome da espécie mudou para ostrommaysorum. Depois de ganhar milhões com Jurassic Park, acho que S. Spielberg não deve ter ficado chateado….

Arthurdactylus conan-doylensis – Este pterossauro recebeu seu nome em homenagem a Sir Arthur Conan-Doyle, autor de “O Mundo Perdido“, mais conhecido pela sua série de livros “Sherlock Holmes”.

Tianchisaurus nedegoapeferima (Informalmente chamado de Jurassosaurus) – Tendo doado dinheiro para pesquisa de dinossauros na China, Stephen Spielberg sugeriu para esse dinossauro o nome de Jurassosaurus – em razão do lançamento do filme Jurassic Park em 1993.  O nome esdrúxulo só pegou na informalidade. Porém ainda assim, o nome da espécie (nedegoapeferima) homenageia Jurassic Park: ele é formado pelas letras iniciais dos sobrenomes dos principais atores/atrizes que participaram do filme: Sam Neil, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Bob Peck, MartinFerrero, Ariana Richards e Joseph Mazzello.

Dracorex hogwarsia – O coitado desse bicho foi batizado como um tributo a obra de J.K. Rowling, “Harry Potter“. – hogwarsia faz alusão a ‘Hogwarts’, a escola de magia.

Mimatuta morgoth – O Professor da Universidade de Chigado, Leigh Van Valen, nomeou uma série de mamíferos paleocênicos com base em personagens da série de livros “Senhor dos Anéis”. Morgoth foi em homenagem ao “The Dark Lord”, mas além dele ainda temos:

Alletodon mellon – mellon é a palavra élfica para “amigo” e a senha para a entrada nas minas de Moria.

Mithrandir onostus – Mithrandir sendo outro nome para Gandalf.

Oxyprimus galadrielae – Em homenagem a Lady Galabriel.

Protungulatum gorgun – ‘gorguns’ são os orcs.

Bom gosto esse cara.

Masiakasaurus knopfleri – Esse pequeno dinossauro predador recebeu seu nome em homenagem a Mark Knopfler, guitarrista da banda Dire Straits. De acordo com Scott Sampson, seu descobridor, o time resolveu batizar assim o dinossauro depois de escutar Dire Straits durante a escavação. De acordo com eles, novos dinossauros só eram encontrados quando esse som estava no rádio. Já tentamos essa tática, mas pra gente só funciona com “Hotel California” do Eagles… #sarcasmo

Aegrotocatellus jaggeri –  Essa espécie de trilobita foi nomeada realmente a fim de homenagear estrelas do rock! O nome da espécie (jaggeri)  foi um tributo a Mick Jagger, vocalista do Rolling Stones, enquanto que o nome do gênero “Aegrotocatellus” significa em latim “Sick Puppie” (ver a banda de rock alternativo australiana ‘Sick Puppies‘).

aegrotocatellus-jaggeri
Jagger e seu trilobita

Um dos caras que ajudou a descrever esse trilobita (Greg Edgecombe), não satisfeito, nomeou uma outra série desses artrópodes primitivos com nomes de integrantes de bandas!  Ele homenageou Sex Pistols (Arcticalymene viciousi, A. Rotteni, A. jonesi, A. cooki, A. matlocki), Ramones (Mackenziurus johnnyi, M. joeyi, M. deedeei, M. ceejayi), John Lennon, Ringo Star e Simon & Garfunkel (Avalanchurus lennoni, A. starri, A. simoni, A. Garfunkeli).

Norasaphus monroae Esse trilobita foi uma homenagem de Richard Fortey, paleontólogo inglês, a Marlin Monroe.

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Trava-línguas:

– Malawisuchus mwakayasyunguti  Malawisuchus m(coloque-letras-nesse-espaço)

Piatzinigkosaurus – WTF? Isso foi sacanagem dos argentinos.

Huehuecanauhtlus tiquichensis – uheuheueheuh!! 

– Nqwebasaurus – Primeiro dinossauro com o som de “CLICK” em seu nome. Pronuncia-se: N – (som de click com a língua) – KWE – BA – SAU – RUS. Nqweba é o nome do lugar aonde o dinossauro foi encontrado, na África do Sul. Trata-se de uma palavra na língua da tribo Bantu.

– Jinfengopteryx – China 1

Jingshanosaurus – China 2

– Szechuanosaurus – China 3

– Jinzhousaurus China 4. Os nomes chineses sempre são os mais impossíveis!

– Phuwiangosaurus – Tailândia.

– Bruhathkayosaurus – Índia. Correção: Os nomes asiáticos são sempre os mais impossíveis.

– Parapropalaehoplophorus – fale-3-vezes-rápido!

–> Agora-fale-tudo-junto!!!!

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“Éééé do brasiiilll!!!”

Como se já não bastasse o Baurusuchus e lanches salgadoensis (Veja o post anterior), ainda temos uma série de crocodilos tupiniquins com nomes estranhos:

Morrinhosuchus – Ganhou seu nome em homenagem a um morro  (!) que fica próximo ao local de coleta do fóssil, o “Morrinho de Santa Luzia”.

Barreirosuchus – Mais uma alusão ao local de coleta, o bairro de Barreiros, em Monte Alto, SP;

Caipirosuchus paulistans – que significa “o crocodilo caipira de São Paulo”.

– Pepesuchus – O nome foi uma homenagem ao Prof. José Martin Suárez (conhecido pelos colegas como Pepe).

Fora os dinossauros:

Oxalaia quilombensis – O gênero é uma referência a divindade africana ‘Oxalá’ e a espécie refere-se aos alojamentos quilombolas da Ilha do Cajual (local onde o fóssil foi encontrado).

– Irritator challengeri – Dinossauro brasileiro nomeado por pesquisadores estrangeiros (David Martill e colegas) que ficaram “extremamente irritados” devido a “restauração” feita pelo seu coletor amador. Buscando fazer o fóssil parecer mais completo e valioso, o coletor clandestino acabou obscurecendo a real natureza do animal e dificultando o trabalho dos pesquisadores. Isso que dá comprar fóssil ilegalmente Dr. Martill!!!  O nome da espécie foi uma homenagem ao Prof. Challenger, personagem do livro “O Mundo Perdido” de Arthus Conan Doyle.

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E para encerrar, Panamericansaurus pra vocês:

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=NXZdvgzOvY4″]

* Agradecimentos aos colegas paleontólogos que contribuíram ajudando (pelo facebook!) a reunir os nomes mais bizarros de seus respectivos campos do conhecimento!

Baurusuchus salgadoensis – Como? Com Ketchup!

Apesar de ter nome de combo de lanchonete (me vê aí um Bauru, um suco e um salgado!), Baurusuchus salgadoensis é um tipo de crocodilomorfo terrestre, que viveu aqui no Brasil há mais de 85 milhões de anos, quando o interior do Estado de São Paulo ainda era dominado pelos dinossauros.

Acertou na mosca o paleo-enigma, Roberto!

Apesar do nome parecer inusitado, ele tem uma boa explicação:

Bauru-, faz referência a unidade geológica “Bauru”, que é o nome que se dá as rochas onde se encontram os fósseis desses animais; –suchus, do grego, significa “crocodilo”; e salgadoensis faz referência ao município de General Salgado, no Estado de São Paulo, onde o primeiro exemplar desse animal foi encontrado.

A ideia, ao batizar a criatura, era tornar fácil o reconhecimento por parte de outros paleontólogos, tanto da natureza do animal (-suchus), quanto de sua procedência geológica (Bauru-) e geográfica (salgadoensis).

Nomear um animal com base nesses critérios é muito comum. Veja, por exemplo: Mariliasuchus ou Adamantinasuchus, outros dois tipos de crocodilomorfos que receberam o nome de acordo com o a localidade geográfica e a unidade geológica de procedência; ou ainda Uberabatitan ou Edmontosaurus: “O titã de Uberaba” e o “lagarto de Edmonton (Canadá)”, respectivamente.

Homenagear pessoas também é uma escolha muito usual. Staurikosaurus priceipor exemplo, foi batizado em homenagem à Llewellyn Ivor Price, um pesquisador ícone da paleontologia brasileira. Já Darwinius masilae, um adapiforme (tipo de primata basal), foi descrito em homenagem à, nada mais, nada menos, do que o próprio Charles Darwin. Até mesmo a primeira espécie descrita para o gênero Baurusuchus,  B. pachecoi, foi para homenagear um consagrado paleontólogo brasileiro, Joviano Pacheco!

A pergunta mais comum quando o assunto ‘nome de espécies’ está em pauta é: Eu posso dar o nome que eu quiser, se eu descobrir um animal?

Na teoria sim, mas existe um código que regulamenta isso: o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN). Esse código procura garantir que cada nome seja único, distinto e universal. Ele impõe algumas regras a serem seguidas, assim como dá algumas sugestões. O Código, por exemplo, exige o caráter binomial do nome da espécie, assim como orienta para a utilização de termos de origem latina ou latinizados para batizá-la (veja mais detalhes do ICZN AQUI). O Código, todavia, deixa livre a criatividade do descobridor e aí começam surgir as bizarrices…

Baurusuchus pode de parecer estranho, mas tem um bom propósito! E quanto a Bambiraptor ou Chupacabrachelys?

Esse vai ser o assunto do post dessa semana: Bizarrices da nomenclatura paleontológica! Fique ligado!!

Leia mais sobre Baurusuchus AQUI, AQUI e AQUI , veja o artigo original AQUI e veja uma reconstituição do esqueleto original do animal em 3D AQUI.

 *Reconstituição de B. salgadoensis por Pepi. Visite o portifolio: http://pepiart.wordpress.com/

Paleo-Enigma 2: Qual é o animal pré-histórico que…

Qual é o animal pré-histórico (extinto, da época dos dinossauros!) que…

….você encontra no cardápio da lanchonete???


Esse enigma é fácil! Ele veio para introduzir o assunto surpresa do próximo post… Deixe seu palpite nos comentários e volte até domingo para conferir a resposta!!

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Ah!!! Se vc ainda não conferiu, dê uma olhada no nosso vídeo do Festival do Minuto!! Ajude a votar* e divulgar =) !! Estamos concorrendo na categoria Ciência. O objetivo foi comprimir em 60 segundos o trabalho do paleontólogo. A ênfase foi mostrar a exaustiva e maravilhosa busca pelos fósseis e a epifania da contrução do conhecimento. Os 6 primeiros colocados ganham um laptop. Se conseguirmos o prêmio, vamos revertê-lo para disseminar ciência!

Agradecemos pelo apoio!!

A Paleontologia em 1 Minuto

Os Colecionadores de Ossos no Festival do Minuto!!

É com muita satisfação que anunciamos a nossa participação no Festival do Minuto deste ano!!!

O tema foi ‘Ciência’ e o nosso desafio foi resumir a Paleontologia em 60 segundos….

“Uma sinfonia de imagens abrevia em 60 segundos o trabalho de Paleontólogos. Passo a passo, essa ciência se desnuda ao espectador por meio de um frenético balé visual. Fotografias capturadas ao longo de 5 anos de pesquisas ilustram a árdua e extensa jornada em busca de fósseis. Em meio a uma coleção de ossos – de dinossauros e outros seres pré-históricos -, o paleontólogo escava o tempo em busca suas respostas. Sua epifania, como não poderia deixar de ser, é a construção do conhecimento.”

A avaliação para o prêmio final é realizada parcialmente pelo júri e parcialmente pelo público geral. Por isso pedimos a sua ajuda! Assistam, votem* e divulguem nosso curta para número máximo de pessoas interessadas. 😉

Desde já agradecemos todo apoio dos fiéis seguidores do ScienceBlogs Brasil!!

*Para votar, é necessário de cadastrar no site do Festival.

O Misterioso Monstro de Tully

Não tão famoso mundialmente quanto o Monstro do Lago Ness, mas pelo menos, muito melhor documentado.

O Misterioso Monstro de Tully  (e suas lições para Paleontologia):

Diferente do lendário monstro escocês, o Monstro de Tully é um fato. 

Encontrado unicamente na região de Illinois, Estados Unidos, a criatura bizarra acabou por tornar-se símbolo desse Estado americano.

O tal monstro desafia a literatura da zoologia de invertebrados:

Trata-se de uma criatura de corpo mole, fusiforme, segmentado e com um longo rostrum, que mais se assemelha a uma tromba. Essa ‘tromba’ é coroada por uma boca em pinça, com duas estruturas em formato de ‘garras’. Dois prolongamentos com função desconhecida se projetam lateralmente da sua parte ventral, assim como um achatamento e alargamento lateral de sua região posterior formam de uma espécie de “nadadeira”.

Os maiores exemplares não ultrapassam 35 cm de comprimento, e o mais interessante: nenhuma outra criatura viva ou fóssil já encontrada se assemelha a esse animal…

Afinal:

O QUE É O MONSTRO DE TULLY??

 

E PORQUE “MONSTRO“??

 

Sem pânico. Eles não são criaturas sugadoras de cérebros ou devoradores de carne rastejantes e asquerosos. Apesar do nome e de sua descrição levarem a uma quase imediata associação aos filmes trash de monstros dos anos 70 e 80…

O “Monstro de Tully”, na verdade, é conhecido somente por meio de fósseis.

Pois é, não fique tão decepcionado…

A foto acima não passa de uma brincadeira. Uma brincadeira muito bem bolada, devo admitir!

O autor da pegadinha é Bryan Patterson, então professor da Universidade de Havard, que enviou esta foto ao colega Eugene Richardson, do Field Museum of Natural History, no Natal de 1968. A foto vinha com a seguinte legenda: “O fim da caçada”.

A graça da brincadeira estava no ar de mistério que então envolvia os fósseis apelidados de “Monstros de Tully”: Ninguém fazia a menor ideia do que ele se tratava.

Eugene foi quem apresentou à Bryan esta criatura pela primeira vez.

Bryan ficou tão impressionado e intrigado com o animal misterioso, que resolveu pregar uma peça no colega. Inventou uma fantasiosa história sobre estranhos “vermes dançantes” em Turkana, na África, que tratar-se-iam de criaturas muito semelhantes ao tal “Monstro de Tully”…porém ainda viventes.

A história do fóssil era tão problemática, que a possibilidade de existirem animais viventes aparentados seria simplesmente fantástica! Porém, foi tudo uma brincadeira. A foto criada por Patterson representaria o registro de uma bem sucedida caçada ao animal fantasioso.

A descoberta do monstro

Mr. Francis Tully e seu ‘monstro’

Descobertos no final da década de 1950 por Francis Tully em uma mina próxima a Braidwood, Estado de Illinois, os fósseis desse estranho animal deixaram perplexos os pesquisadores da época. Aparentemente abundantes no registro local, mas distintos de qualquer outro ser vivente ou fóssil conhecido até então, não havia como estabelecer qualquer  afinidade para a criatura.

Perante o mistério que envolvia o animal, ele foi apelidado de “Mr. Tully’s Monster” e depois, batizado formalmente por Eugene Richardson como Tullimonstrum gregarium, uma forma latinizada do apelido informal recebido anteriormente (“gregarium” significando “comum”).

Aparentemente encontrado única e exclusivamente no Estado de Illinois (EUA)Tullimonstrum provém de depósitos estuarinos com idades de 300 milhões de anos (Período Carbonífero). –> Nessa época, por exemplo, os vertebrados encontravam-se ainda no início de sua conquista do ambiente terrestre e enormes florestas de samambaias e licopódios prosperavam ao redor do mundo.Estas imensas florestas, que viriam a formar as nossas mais ricas reservas de carvão mineral.

Uma excepcional preservação

Os fósseis de Tullimonstrum foram preservados de uma maneira muito especialAnimais de corpo mole são raros no registro fossilífero, enquanto que partes duras, mineralizadas (como conchas, ossos, escamas e dentes) são mais recorrentes porque resistem mais facilmente aos processos tafonômicos (i.e. necrofagia, decomposição, desarticulação, sepultamento, etc.). Então o que pode ter havido com os fósseis de Tullimonstrum?

Tullimonstrum pertence a uma famosa assembléia fóssilífera de animais de corpo mole e plantas muito bem preservados provenientes de uma unidade conhecida como como Mazon Creek. Devido a qualidade excepcional de seus fósseis, Mazon Creek é considerada um Konservat-lagerstätte (clique aqui e leia mais sobre isso).

Condições químicas especiais no ambiente de fossilização é que favoreceram a preservação detalhada de tantas plantas e invertebrados. Íons dissolvidos na água salgada reagiam com a lama e a matéria orgânica dando início a formação de um nódulo ao redor dos corpos sepultados de organismos (Veja a foto a seguir). Foram esses nódulos, compostos de siderita, que ajudaram na preservação do registro da vida antiga. Hoje eles são encontrados entremeados em um pacote de folhelho, que apresenta entre 25 e 30 metros de espessura e é recoberto por uma valiosa camada de carvão.

Tulimonstrum, molde e contra-molde

Esquesitice inigualável

Sem dúvida, Tullimonstrum é o maior incertae sedis até hoje. Mesmo depois de décadas desde o seu descobrimento e milhares de exemplares bem preservados terem sido coletados, não foi possível reconhecer qualquer caráter compartilhado com filos modernos. Semelhanças, todavia, já foram observadas em fósseis de idade Cambriana, como Opabinia* e Vetustovermisporém tais apontamentos não passaram de especulações até agora. Nenhum estudo se aprofundou nessa questão.

Sua bizarrice é tamanha, que tornou-se carismática. Acabou por virar uma lenda da Paleontologia. Trata-se de um dos principais exemplos sobre as mais diversas e excêntricas experimentações da vida durante sua radiação e evolução no planeta. Quantos grupos de organismos não terminaram em uma um “beco sem saída” como o Tullimonstrum? Seria ele um dos últimos raros sobreviventes de um filo de origem Cambriana?

As lições do monstro

O monstrinho de Tully nos deixa algumas lições:

A Paleontologia é sempre cheia de lacunas. Principalmente  aquela que estuda os invertebrados.

Temos que lembrar, que o registro fóssil é descontínuo! Tanto no tempo, quanto no espaço… e que, além disso, e talvez PRINCIPALMENTE, sofre um desvio brutal por aquilo que chamamos de processos tafonômicos (leia mais sobre isso AQUI e AQUI ***). Esses, muito mais cruéis com os pobres animais de corpo mole….

O que conhecemos por meio dos fósseis hoje, é apenas a pontinha de um gigantesco iceberg de tudo que já existiu.

Se as afinidades mais próximas de Tullimonstrum realmente forem com criaturas de idade Cambriana, pelo menos mais de 210 milhões de anos de história desse grupo de animais se passou sem que um único fóssil de um representante de sua linhagem fosse preservado.

É bem provável que nunca teremos conhecimento de uma imensa quantidade de páginas da história da vida e é um fato, que milhares de personagens se perderam para sempre. No meio dessa história, o monstro de Tully vai continuar sendo um mistério… até que a próxima peça do quebra-cabeça seja revelada.

Referências

Johnson, R.G, and Richardson, E.G. 1969. Pennsylvanian invertebrates of the Mazon Creek area, Illinois: The morphology and affinities ofTullimonstrum. Fieldiana: Geology  12 (8): 119–149.
Nash E.G. 1968.  The quest for the dancing worm. Bulletin of the Field Museum of Natural History 39(4): cover + 4-6http://archive.org/details/cbarchive_107413_thequestforthedancingworm1966
Richardson, E.G. 1966. Wormlike Fossil from the Pennsylvanian of Illinois. Science 151(3706): 75-76
Richardson, E.S. The tully monster. Bulletin of the Field Museum of Natural History 37(7): cover + 4-6.  July 1966 <http://archive.org/details/bulletin37312fiel>