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Análise quantitativa dos fósseis de Dinossauros do Brasil e da Argentina

Esta contribuição foi feita pelo aluno de graduação da Universidade Federal de Uberlândia chamado Rodolfo Otávio dos Santos. Atualmente ele se encontra no 5º periodo do curso de Ciências Biológicas e está estagiando no Laboratório de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU). Devido ao seu interesse na área e de auxiliar na divulgação sobre tais assuntos ele seguirá contribuindo com mais postagens sobre os mais variados tópicos (obs: aguardem temas nerds hehe).
Então vamos ao texto!
Entre 225 e 65 milhões de anos, durante a Era Mesozóica, o planeta Terra foi dominado pelos Dinossauros, principalmente pelas linhagens não-avianas. Na região onde hoje é a América do Sul, mais especificamente Brasil e Argentina, numerosas espécies desses animais prosperaram e deixaram muitas evidências deste passado remoto, sob a forma de fósseis. Considerando-se a geografia atual, o Brasil possui uma área de aproximadamente 8,5 milhões de km², enquanto nossos vizinhos têm apenas cerca de 2,8 milhões de km². Numa análise superficial, levando em conta apenas a área total, espera-se que o país com maior território possua uma quantidade superior de espécies preservadas na forma de fósseis. Porém, até o ano de 2010, mais de 110 fósseis de diferentes espécies de dinossauros foram encontrados em terras argentinas, enquanto no território brasileiro, até o mesmo periodo, pouco mais de 20. Este cenário se mantém até os dias atuais em termos de proporção. Este texto busca explicar as razões para tamanha diferença na quantidade de espécies de dinossauros entre os dois países tendo como base as discussões iniciadas por Anelli (2010).
 
Os fósseis de dinossauros são conhecidos pelo homem há milênios: Na China, dois mil anos atrás, em rochas jurássicas, esqueletos fossilizados eram encontrados e atribuídos a dragões. Apenas no séc. XIX o ser humano passou a compreender melhor a origem e preservação dos fósseis, graças a avanços científicos importantes da Biologia e da Geologia. No Brasil, durante os períodos colonial e Imperial, e o início da República, vários relatos atribuem fósseis de vertebrados a dinossauros. Porém, sabe-se que a maioria dessas atribuições na verdade não correspondiam a dinossauros, e sim a outros grupos próximos (Crocodilomorfos, por exemplo). Além disso, muitos materiais foram enviados para fora do país, e acabaram se perdendo, não havendo como confirmar sua afinidade para com os dinossauros. O primeiro paleontólogo a realizar trabalhos mais consistentes no Brasil foi o dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que chegou ao país em 1825 e por vinte anos procurou por fósseis no estado de Minas Gerais, sendo então considerado o pai da paleontologia brasileira.
 
Lund, porém, estava interessado em prospectar e estudar vestígios de seres humanos pré-históricos, tendo explorando rochas do período Pleistocênico, muito mais recentes do que aquelas onde se espera encontrar os dinossauros não avianos, há muito já extintos. Foi o gaúcho Llewellyn Ivor Price, durante a década de 30 do século XX que iniciou os estudos de dinossauros de forma mais profunda no Brasil. Price realizou escavações no triângulo mineiro, na região de Peirópolis, e no Rio Grande do Sul, coletando fósseis de crocodilos e dinossauros. No ano de 1970 foi descrito o primeiro dinossauro brasileiro, o Staurikosaurus pricei Colbert, 1970, a partir de fósseis coletados por Price, cujo nome o homenageava. Vale ressaltar que embora esta seja a primeira espécie descrita para o Brasil, seu material encontra-se depositado em coleções estrangeiras. Enquanto isso, na Argentina, os irmãos Florentino e Carlos Ameghino, pioneiros da paleontologia no país, realizaram escavações em rochas da Era Mesozóica, encontrando e descrevendo o primeiro fóssil de dinossauro argentino, o Argyrosaurus superbus Lydekker, 1893, no ano de 1893, 77 anos antes do Staurikosaurus pricei. Na década de 70, quando o Brasil possuía apenas um dinossauro descrito, já eram conhecidas 23 espécies argentinas.
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A esquerda Peter Wilhelm Lund e a direita Llewellyn Ivor Price, grandes paleontologos do cenário brasileiro.
Nos anos 2000, a Paleontologia ganhou destaque na mídia, graças a filmes como “Jurassic Park”, o que influenciou positivamente a quantidade de pesq uisas sobre dinossauros no Brasil. Porém, ainda assim, a proporção de fósseis encontrados na Argentina continuou sendo maior em relação à brasileira. Portanto, há outros fatores, além do tempo de pesquisa, que explicam a diferença dos números.
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A grande e comovente cena final do Jurassic Park (1993) que motivou uma nova geração de paleontólogos (fonte: http://vignette4.wikia.nocookie.net/jurassicpark/images/a/ae/T-rex-jurassic-park-1-.jpg/revision/latest?cb=20120816155226)
 
Os fósseis são encontrados majoritariamente em rochas sedimentares. Comparado à Argentina, o Brasil possui uma área aproximadamente quatro vezes maior onde existem afloramentos de rochas sedimentares da Era Mesozóica. Na mais antiga das subdivisões da Era Mesozóica, o Período Triássico, fósseis de dinossauros são raros, não apenas na América do Sul, e sim em todo mundo. Isso ocorre porque apesar das principais linhagens de dinossauros já terem aparecido neste momento, elas ainda não haviam se diversificado, o que só ocorreu de forma expressiva no período seguinte, o Jurássico. São conhecidos doze fósseis argentinos desse período, e no Brasil, seis. Levando em consideração essa baixa diversificação dos dinossauros triássicos, conclui-se que a pequena diferença nos números de fósseis entre os dois países não é suficiente para explicar a enorme variação dos números totais. Essa variação provavelmente está condicionada a quantidade de rochas aflorantes de tal idade e com registros de dinossauros, sendo no Brasil estas predominantemente limitadas ao sul do pais enquanto que na Argentina há uma maior diversidade de formações geológicas para este periodo.
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Espécime de Sacisaurus “aguardando sua descoberta”. O gênero Sacisaurus é um dos grupos de dinossauros que habitaram o sul do Brasil durante o periodo Triássico. (fonte: http://sites.ffclrp.usp.br/paleo/galeria_final/photos/foto32.jpg)
A grande irradiação dos dinossauros durante o Jurássico refletiu no registro fossilífero, pois os restos desses animais são abundantes em todo planeta em rochas desse período. Entretanto, na América do Sul, fósseis de dinossauros jurássicos não são comuns. Isso ocorre graças à imperfeição do registro fossilífero, que é condicionado pela existência de bacias sedimentares, locais cujo sedimentos se depositam e acumulam dando origem, posteriormente, as rochas sedimentares. No Brasil existem poucos locais com rochas sedimentares jurássicas, e em nenhuma delas dinossauros foram encontrados. As poucas rochas jurássicas sul americanas com chances boas de encontrar fósseis dinossauros estão na região oeste da Argentina, onde sete espécies foram descritas. Essa pequena diferença, no entanto, novamente não explica a enorme desigualdade nos números, restando então analisar as rochas do período seguinte, o Cretáceo.
 
O registro fóssil nos mostra que os dinossauros alcançaram sua máxima diversificação durante o período Cretáceo. De fato, cerca de 80% dos dinossauros conhecidos da América do Sul são cretáceos, e destes, aproximadamente 90% foram encontrados na Argentina. Isso mostra que a grande diferença entre a quantidade de fósseis dos dois países se deve, principalmente, a fatores ligados às rochas do período Cretáceo. O primeiro deles relaciona-se com a quantidade de camadas de rochas (sucessão sedimentar), muito mais espessa na Argentina do que no Brasil. Sendo assim, mesmo havendo maior área de afloramentos em nosso país, na Argentina existem mais camadas onde fósseis foram encontrados. As 24 camadas fossilíferas (28, se os icnofósseis de pegadas e ovos forem contabilizados) abrangem quase todas as idades do período Cretáceo, enquanto no Brasil, até o momento, apenas em cinco camadas foram encontrados dinossauros, sendo representados em cerca de cinco idades do Cretáceo. Com a maior diversidade de idades, há maior chance de se encontrar diferentes espécies.
 
Outro fator determinante para uma grande biodiversidade é o paleoclima. Analisando a biota terrestre atual, pode-se perceber que regiões com clima quente e úmido, como as florestas tropicais, possuem uma maior diversidade de espécies em detrimento àquelas com clima mais seco, como os desertos. Basicamente, a maior disponibilidade de recursos nesses locais (luz solar, água, entre outros) permite o desenvolvimento de um maior número de plantas, que por sua vez sustentam um número maior de animais herbívoros, e estes, de carnívoros. No passado, essa relação entre clima e biodiversidade também existia, e durante as fases do período Cretáceo argentino que ficaram preservadas nas rochas, o clima predominante era o subtropical úmido, com extensas florestas que se desenvolviam no entorno de lagos e de regiões pantanosas. A principal evidência deste cenário vem dos inúmeros fósseis de vegetais encontrados nas rochas cretáceas argentinas, e essa riqueza de recursos certamente atraía os dinossauros, que também deixaram os vestígios de sua presença.
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Reconstituição paleoambiental durante o Cretáceo na região do sudoeste paulista. Elucidando o clima árido da época e seus rios entrelaçados. (Fonte: https://pepiart.files.wordpress.com/2012/07/monte1.jpg)
Já no Brasil, as evidências sugerem que nas bacias sedimentares do Cretáceo onde foram encontrados fósseis de dinossauros (Bauru, Araripe e São Luís-Grajaú) predominava o clima semiárido, ao menos nas regiões até o momento estudadas (o que não significa que durante mais de 80 milhões de anos essas regiões possuíam apenas este tipo climático). Na Bacia Bauru, por exemplo, os fósseis de vegetais são raramente encontrados, um indicativo de que as plantas estavam presentes na região, mas sua preservação não foi favorecida pelo ambiente deposicional. Na Bacia do Araripe os fósseis de dinossauros encontrados foram depositados sobre uma laguna, propiciando um ambiente de deposição de baixa energia, que também possibilitou a preservação de espécies vegetais. Porém, muitas dessas plantas fossilizadas são indicadoras de um clima semiárido, como pro exemplo a araucariácea Brachyphyllum. Por fim, na Bacia de São Luís-Grajaú, as evidências também apontam um clima semiárido, porém a proximidade com o oceano Atlântico permitiu certa retenção de umidade, propiciando a presença de uma maior variedade de espécies vegetais que foram preservadas, como samambaias, coníferas e angiospermas, bem como de dinossauros. De fato, essas rochas contêm o maior número de fósseis de dinossauros do Brasil, porém devido a outros fatores que serão abordados na seqüência, a maioria deles não permite uma identificação precisa.
 
Outro fator crucial para a preservação de fósseis é o grau de transporte aos quais os restos são submetidos. Eventos de transporte acabam por retrabalhar o fóssil, ocasionando desarticulação e fragmentação do esqueleto, e consequentemente, perda de informações valiosas para a identificação de tais restos. Na Bacia Bauru, como comentado anteriormente, o clima era semiárido. Sendo assim, as chuvas eram concentradas em poucas estações do ano, sendo torrenciais, num tipo de regime hídrico que favorece o aparecimento de rios entrelaçados, Neste tipo de rio, a quantidade de sedimentos presente é muito maior do que aquela que o rio consegue transportar, Os sedimentos então ficam depositados no próprio canal, e a água precisa abrir novos espaços para fluir, criando uma feição entrelaçada. Nos anos seguintes, novas chuvas fazem com que o processo se repita, e a água acaba atravessando os canais em que os sedimentos com esqueletos estavam acabando por desarticulá-los de acordo com a sua densidade, fazendo com que boa parte dos ossos ficasse exposta ao intemperismo, desaparecendo gradualmente. Muitos dentes e pequenos fragmentos fossilizados são encontrados na região, pois estes são mais resistentes aos processos de transporte e diagênesis, porém essas partes muitas vezes não são suficientes para identificação de uma espécie.
 
Já na Bacia de São Luis-Grajaú, os esqueletos sofreram com um tipo de retrabalhamento diferente, ocasionado pelas forças da maré, pois no passado o local era um grande estuário, uma região onde a força das marés adentrava pelo rio, que era circundado por uma vegetação densa, capaz de prover recursos para muitas espécies de dinossauros. Porém, o efeito do vaivém das marés era grande, e os esqueletos ali depositados eram retrabalhados, sendo constantemente fragmentados, transportados e destruídos. Assim como na Bacia Bauru, apenas partes mais densas, como vértebras e dentes conseguiam suportar estes eventos sem se fragmentar, e são hoje encontradas nas rochas da região. Por fim, como foi visto, a laguna que serviu como ambiente deposicional da Bacia do Araripe propiciou um bom ambiente de deposição de sedimentos, com pouca energia de transporte. De fato, muitos fósseis de peixes e outros organismos aquáticos são encontrados em excelente estado de conservação. Os fósseis de dinossauros, porém, são raros, pois o modo de vida desses animais não estava tão diretamente relacionado com a água. Portanto, além do clima semiárido, o tipo de ambiente deposicional foi um fator crucial para que o Brasil tivesse uma menor quantidade de fósseis diagnósticos de dinossauros.
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Exemplo de dinossauro (Oxalaia quilombensis) encontrado nos depósitos da Bacia de São Luis-Grajaú mostrando o alto grau de retrabalhamento e fragmentação dos materiais da região. (Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-5ImRSMo_z6A/Tme-JCGjQ6I/AAAAAAAAAnw/9_6B4LNW6kc/s320/Oxalaia+%25282%2529.jpg)
 
Finalmente, o último e mais importante fator determinante na diferença dos números de espécies de dinossauros entre os dois países está relacionado com o clima atual de Brasil e Argentina. Em nosso país, as bacias sedimentares onde os fósseis são encontrados estão localizadas em regiões com alta taxa de insolação e/ou elevados índices pluviométricos, além de em sua maioria as bacias hidrográficas se sobreporem quase que por completo as bacias sedimentares (por exemplo a Bacia do rio Paraná que se sobrepõem à Bacia Sedimentar do Paraná). Tal situação favorece a ação do intemperismo, tanto o físico, responsável pela dilatação e contração térmica, quanto o químico, onde a água proveniente das chuvas reage com os elementos químicos que compõe a rocha e altera sua composição, transformando-a em solo, juntamente com os fósseis nela preservados. Devido a isso, a maior parte das camadas de rochas sedimentares brasileiras está coberta por estratos de solo de grande espessura, o que impede que os paleontólogos tenham acesso aos fósseis nela contidos. Apenas em regiões onde a rocha foi cortada no intuito de abrir espaço para a construção de rodovias e ferrovias, ou então em margens de rios expostas à erosão por eles causada, é possível observar o afloramento das rochas sedimentares e dos fósseis, porém essas áreas representam somente uma pequena parcela do total de rochas com potencial fossilífero.
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Ilustrando o alto indice pluviométrico no Brasil, inclusive havendo regiões com tempestades tropicais. (Fonte: https://eco4u.files.wordpress.com/2011/06/tempestade.jpg)
 
Já na Argentina, o cenário é completamente oposto, pois diversos fatores, como a Corrente fria de Humboldt, a presença da Cordilheira dos Andes, entre outros, tornam o clima mais seco nas áreas em que são encontradas rochas sedimentares, diminuindo os efeitos do intemperismo, fazendo com que a camada de solo seja muito fina, impossibilitando o estabelecimento de uma cobertura vegetal e expondo a maioria das rochas e, consequentemente, dos fósseis, assim como acontece em outras regiões do planeta com condições semelhantes, como, por exemplo, o deserto de Gobi, na Mongólia e o meio oeste americano, notáveis pela imensa quantidade dos mais variados fósseis.
 
Em suma, os dois últimos fatores abordados – o grau de retrabalhamento dos fósseis brasileiros, e a pequena disponibilidade de rochas sedimentares expostas – são apontados como fatores responsáveis pela grande discrepância dos números de fósseis de dinossauros entre Brasil e Argentina. Entretanto, locais ainda pouco explorados em nosso país, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, podem futuramente mostrar um cenário diferente, onde as condições necessárias para a formação e preservação dos fósseis sejam melhores, tornando possível diminuir essa diferença no número de espécies encontradas. Além disso, evidências provenientes da paleoicnologia apontam uma diversidade muito maior de dinossauros para o território brasileiro, como as ocorrências de pegadas de Ornithischia enquanto ainda não registro de materiais fósseis corporais destes animais.
Referências bibliográficas:
ANELLI, L. E. O guia completo dos Dinossauros do Brasil. 1 ed. São Paulo: Peirópolis, 2010. 222 p.

>Xixi de Dinossauro? – O Paleo-deserto Botucatu Parte IV

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Dando continuidade a série de posts sobre os icnofósseis da Formação Botucatu (Veja as outras publicações AQUI), hoje vamos apresentar a última parte da história: A verdade sobre o URÓLITO, o vulgo “xixi fóssil”.

Figura 1. Laje de arenito com preservação de extrusão líquida: Urólito. Foto por Marcelo Adorna Fernandes.

A descoberta foi feita em Araraquara, interior de São Paulo. Trata-se da primeira evidência de que os dinossauros pudessem urinar.

Marcelo Adorna Fernandes (paleontólogo e professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da UFSCar) e sua esposa, Dra. Luciana Bueno dos Reis Fernandes, descobriram no ano de 2001, em uma pedreira local de Araraquara, nos arenitos da Formação Botucatu, uma marca fossilizada supostamente deixada pela urina de um dinossauro. Essa estrutura preservada, com cerca de 140 milhões de anos (Período Jurássico), foi analisada pelo paleontólogo especialista em Coprólitos (fezes fossilizadas), Dr. Paulo Roberto de Figueiredo Souto, da UFRJ, Rio de Janeiro, que confirmou a identificação inusitada.
A descoberta de Marcelo e Luciana foi apresentada pelos pesquisadores à comunidade científica em congressos nacionais e internacionais, até que em 2004, eles e o Dr. Paulo Souto finalmente publicaram o achado na Revista Brasileira de Paleontologia (acesse o artigo AQUI).

Até então a única evidência da ocorrência urina associada a dinossauros havia sido apresentada à comunidade científica no ano de 2002, durante o 62o Congresso da Sociedade Norte Americana de Paleontologia de Vertebrados em Oklahoma, nos Estados Unidos, por um casal de geólogos, McCarville & Bishop. Nenhum trabalho científico foi publicado desde então e nem tão pouco sugerida uma terminologia específica para classificar essa estrutura de escavação produzida por fluxo de líquido dessa natureza.

Figura 2. Imagem retirada do site “Ciência Hoje”.

O termo urólito, composto por duas palavras de origem grega, “uro” que significa urina e “lithos” que significa pedra, foi sugerido para nomear a estrutura com 34 cm de comprimento; trata-se de uma pequena cratera elíptica de escavação provocada pelo impacto de líquido em queda, com um escorrimento de sedimento depositado gravitacionalmente em um plano inclinado (Figura 1, 3 e 7).

Figura 3. Urólito – Por Marcelo Adorna Fernandes.


As pegadas deixadas por dinossauros ornitópodes e terópodes que caminharam através das dunas do paleodeserto são bem diferentes da estrutura correspondente ao urólito. Ao caminhar, os animais compactavam a areia onde pisavam, deixando preservadas, além da depressão da pegada, uma elevação em forma de meia-lua nas bordas de maior esforço.

Figura 4. Pegada de dinossauro terópode da Fm. Botucatu. Foto por Marcelo Adorna Fernandes.

Simulando-se as condições pretéritas, um simples teste experimental foi realizado, onde certa quantidade de água foi derramada em um plano inclinado, o que produziu uma estrutura de escavação e escorrimento muito semelhante ao urólito (Foto abaixo).

Figura 5. Ao derramar-se certa quanti
dade de líquido em um plano inclinado, a estrutura formada é semelhante a do urólito. Foto por Marcelo Adorna Fernandes.
Os estudos referentes a paleofauna da região atestam a presença de pequenos mamíferos e de dinossauros, porém o urólito só poderia ter sido produzido por animal de médio à grande porte, neste caso só poderia ser um dinossauro.

Comparando e analisando o comportamento de aves ratitas atuais, como o Struthio camelus (avetruz), foi possível verificar um forte fluxo de extrusão líquida (urina) produzida por estes animais antes da excreção da parte sólida. Nos avestruzes, antes da eliminação, a urina fica armazenada no urodeum, que tem uma função semelhante à bexiga urinária dos mamíferos. A parte sólida fica armazenada no coprodeum e são eliminadas posteriormente à eliminação da urina. Assumindo que certos grupos de dinossauros tivessem uma fisiologia parecida a do avestruz, eles poderiam provocar uma erosão na superfície do sedimento inconsolidado quando eliminassem certas quantidades de líquido na forma de urina.

Figura 6. Extrusão líquida em avestruzes. Foto por Marcelo Adorna Fernandes.
Uma bexiga urinária nos tetrápodes é muito importante na conservação de água sendo que em alguns grupos de animas como sapos, rãs, pererecas, jabutis e em alguns lagartos, admite-se que a reabsorção de água pela bexiga seja essencial para impedir a dessecação quando em ambiente terrestre de pouca umidade. A eliminação de urina da bexiga desses animais ocorre através de um orifício cloacal comum.
O fato desse urólito estar associado à fauna dinossauriana da Formação Botucatu, que corresponde a um antigo ambiente desértico, sugere que a presença de uma estrutura responsável pelo armazenamento e reabsorção de água seja aceitável e possível, corroborando com a idéia de que haveriam grupos de dinossauros que pudessem urinar.

Este urólito é o primeiro registro deste tipo de vestígio fóssil no Brasil, sendo também uma das primeiras evidências do modo de extrusão líquida atribuída a dinossauros no mundo.
– Para a Formação Botucatu são conhecidas pelo menos duas ocorrências de urólitos.
Figura 7. Detalhe do Urólito (Esquerda)

Entre em contato com o Paleontólogo Dr. Marcelo Adorna Fernandes:
Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia – Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva – Universidade Federal de São Carlos, UFSCar
Contatos pelo telefone: +55 (16) 3351-8322
E-mail: mafernandes@ufscar.br

>O Brasil pré-histórico era realmente dos crocodilos…

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Neste último mês, novas descobertas sobre o Cretáceo brasileiro vieram afirmar que neste período os Crocodyliformes realmente dominavam nosso país. Enquanto os dinossauros reinavam com soberania na maioria dos ecossistemas terrestres, aqui no território tupiniquim os crocodyliformes se diversificavam e ocupavam os mais diversos nichos. Desde animais com cerca de 4 metros de comprimento, ágeis e carnívoros, como o Baurusuchus, até pequenos onívoros, como o Mariliasuchus e o Adamantinasuchus. Haviam espécies escavadoras, oportunistas e até mesmo consumidoras de plantas e raízes.

Estas descobertas têm elucidado como teriam sido as relações ecológicas pretéritas do paleoambiente hoje representados pelas rochas do Grupo Bauru. As rochas do Grupo Bauru são de idade Neocretácica (Final do período Cretáceo, do Cenomaniano ao Maastrichiano, 99-65 milhões de anos atrás) e foram depositadas em um contexto continental fluvial e lacustre de clima quente e árido. Elas estão bem distribuídas nos estados de São Paulo e Minhas Gerais, mas também são encontradas no Paraná e Goiás, e até mesmo no estado do Mato Grosso. Estas rochas representam um antigo ecossistema que possuía uma diversificada fauna de vertebrados, incluindo dinossauros saurópodes (titanossauros) e terópodes (abelissauros, carcharodontossauros e maniraptores, incluindo as aves), lagartos, cobras, quelônios, anfíbios, pequenos mamíferos, mas principalmente crocodyliformes. Estes últimos englobavam até seis distintos grupos: os notossuquídeos, os sphagessaurídeos, candidodontídeos, peirossaurídeos, trematocampsídeos e baurussuquídeos.

Ao que se deve esta incrível diversidade de crocodilomorfos? O que pode ter favorecido o desenvolvimente deste grupo de arcossauros neste particular contexto pretérito? Os pesquisadores ainda procuram uma resposta. A solução para o enigma pode estar envolvida com o fato deste local pretérito ter sido geograficamente isolado e ter produzido uma situação ecológica e ambiental única, que favoreceu estes animais. Teriam eles ocupado o nicho até mesmo de dinossauros? Competido com eles? Ou o nicho de mamíferos, tão raros neste registro por algum propósito? A continuidade dos estudos vai ajudar a resposder estas perguntas.
Campinasuchus, o novo crocodyliforme do Cretáceo brasileiro

Fantástica reconstituição artística de Campinasuchus em vida por Rodolfo Nogueira.

Campinasuchus é um novo gênero de Baurusuchidae descrito com base em alguns crânios parciais e esqueletos encontrados na região de Campina Verde, MG, contexto da Formação Adamantina, Grupo Bauru, Bacia Bauru.
Os Baurusuchidae incluem crocodyliformes com crânios lateralmente comprimidos e gracilmente alongados. São conhecidos para o Cretáceo Tardio do Brasil, Argentina e Paquistão. Todos os membros podem ser considerados de médio e grande porte, cursoriais (caminhavam ativamente sem encostar a barriga no chão, com os membros posicionados mais verticalmente) e predadores. Outras espécies de Baurusuchidae incluem: Baurusuchus pachecoi, Baurusuchus salgadoensis, Baurusuchus albertoi e Stratiosuchus maxhechti do Brasil, além de Cynodontosuchus e Wargosuchus da Argentina.
Campinasuchus se diferencia dos outos Baurusuchidae por possuir um focinho mais curto e afilado, uma dentição diferenciada e peculiaridades no seu osso palatal (céu da boca).
A sua presença reforça a idéia de que a aridez, ou possivelmente um regime específico de sazonalidade (alternância de períodos quentes e secos com períodos de alta pluviosidade), dirigiram a diversificação dos crocodyliformes terrestres neste ecossistema peculiar do Cretáceo Tardio brasileiro.
O trabalho foi publicado por Ismar de Souza e Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colaboradores, na revista Zootaxa, de distribuição on line e gratuita, em 9 de maio de 2011.
O primeira icnoespécie de ovos fossilizados da América do Sul


Ovo fossilizado de crocodyliforme , foto de Carlos de Oliveira.


Ninhos de 70 milhões de anos foram encontrados nas proximidades da cidade de Jales, interior do estado de São Paulo, por Carlos de Oliveira, da Fundação Educacional de Fernandópolis (SP). A descoberta foi publicada este mês na revista Paleontoloy por ele e colaboradores. Os ovos foram encontrados em 2006 em rochas da Formação Adamantina, Grupo Bauru. A grande concentração deste material chamou a atenção de Carlos, que com o prosseguimento das escavações encontrou o que seria equivalente a 17 ninhadas situadoas em 3 diferentes níveis de deposição sedimentar (o que corresponderia a três eventos temporais diferentes).


Foto por Carlos de Oliveira.


Os ovos são alongados e tem forma elíptica. O tamanho varia entre 5,8 e 6,5 cm. A maioria estava quebrada, o que pode sugerir que os filhotes haviam nascido e deixado os ovos. Apenas alguns estavam completos.

Esqueleto parcial de Baurusuchus encontrado em associação com os ninhos. Foto: Carlos Oliveira.

Todos eles foram considerados como pertencentes a um gênero de crocodyliforme, Baurusuchus, devido a inúmeros ossos, e inclusive crânios e esqueletos parciais destes animais, que foram encontrados associados aos ninhos. Mas não foi só isso que ajudou os pesquisadores a definirem os produtores destes ovos. A microestrutura da casca também revela detalhes sobre quem os depositou:

Ovos de aves, dinossauros, crocodyliformes, quelônios, lagartos e cobras têm estruturas macro e microscópicas diferentes. Além do tamanho e formato ovo, aspectos histoestruturais da casca, como a organização do sistema de poros e a forma de deposição de cálcio (existem diferentes morfotipos estruturais: testudinóide, crocodilóide, dinossauróide, ornitóide e geckóide por exemplo) ajudam a identificar o produtor.

Tipos de ovos de acordo com sua microestrutura. A micro-estrutura pode ser avaliada por meio de cortes histológicos da casca, que são então observados com o auxílio da microscopia eletrônica de varredura.

O estudo dos ovos fossilizados se chama Paleo-oologia e está inserida numa área da paleontologia chamada de Paleoicnologia, palaios=antigo, iknos=vestígios e logos=estudo, ou seja, O estudo dos vestígios antigos.

A Paleoicnologia estuda todo tipo de vestígio fóssil indireto ou evidência comportamental de uma atividade biológica (produzida por um organismo extinto). Os ovos constituem vestígios do comportamento de reprodução de animais extintos, logo estão no escopo de estudo da Paleoicnologia, assim como as pegadas fósseis, por exemplo, que são vestígios de locomoção.

A Paleoicnoloia tem toda uma taxonomia própria para definir diferentes tipos de vestígios. Essa ‘parataxonomia’, à modo do sistema de nomenclatura biológica, é binomial e latinizada. Se as características gerais de uma estrutura paleoicnológica foram parecidas com as de materiais já conhecidos, elas recebem o mesmo nome destes, mas se foram diferentes, ganham uma nova designação, como uma nova espécie. A propósito, ICNOespécie e icnogênero são a maneira correta de se denominar estas estruturas, para não se confundir com o sistema de nomenclatura biológica – o que é muito comum.

Por exemplo, o icnogênero de pegadas de mamíferos conhecido como Brasilichnium elusivum ( descrito para Fm. Botucatu, Bacia do Paraná) comumente é confundido com o nome do produtor das pegadas… que na verdade não é conhecido por nenhuma evidência de fóssil corporal! O nome B. elusivum se refere somente às pegadas, não ao seu produtor. Até mesmo animais diferentes poderiam ter produzido o mesmo tipo de vestígio. Cuidado…

No caso do material de Jales, SP, os autores consideraram que todas as características identificadas poderiam sustentar um novo icnogênero, que denominaram de Bauruoolithus fragilis. Esta seria a primeira icnoespécie de ovos fossilizados descrita para a América do Sul (mas não os primeiros ovos fósseis descritos nem para o Brasil, nem para a América Latina! Há abundantes registros de ovos fossilizados na Argentina e vários também aqui no Brasil. Referências em nosso país são os ovos de dinossauro encontrados na região de Uberaba e os ovos atribuídos a Mariliasuchus em Marília, SP).

As feições encontradas nos ovos, segundo os autores, são muito diferentes daquelas encontradas em outros crocodilomorfos, o que leva a suspeita de que os produtores de Bauruoolithus teriam um modo de reprodução peculiar. Isto pode estar diretamente ligado com o sucesso ecológico do grupo e pode fornecer respostas interessantes quanto a adaptação destes animais às condições ambientais do sudeste brasileiro durante o Cretáceo Tardio.

O estudo de ovos fósseis pode revelar detalhes de aspectos biológicos e ecológicos dos seus produtores. –estratégias ou comportamentos de reprodução estão intimamente ligadas ao rigor ambiental e estresse ecológico (competição, predação, etc), assim como aspectos paleoambientais – recuperados direta (tafonomia) ou indiretamente (um estresse ambiental -uma grande seca, período de escassez de alimentos, etc. – pode ser detectado estudando-se a microestrutura dos ovos)-, e paleoclimáticos (inferidos utilizando-se análise de isótopos). Estes estudos são um passo além da simples descrição.

Há muito a ser feito!


>Um estranho nas dunas – O Paleo-deserto Botucatu, Parte III

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Texto original de Marcelo Adorna Fernandes, adaptado por Aline Ghilardi

Durante o XX Congresso Brasileiro de Paleontologia (XX CBP), realizado em 2007 na cidade de Búzios, Rio de Janeiro, foi anunciada pela primeira vez a descoberta dos vestígios do maior dinossauro herbívoro bípede do Estado de São Paulo. Um dinossauro do deserto que habitou o Brasil há mais de 140 milhões de anos. O Paleo-deserto Botucatu, veja as outras partes desta história nestes posts AQUI e AQUI.

Reconstituição do ‘ornitópode gigante’ do antigo deserto Botucatu. Por Marcelo Adorna Fernandes.


Os vestígios descritos deste animal são compostos por um conjunto de lajes de arenito contendo seis pegadas. As características das mesmas – com três dedos (tridáctilas) curtos e arredondados (sem evidências de garras, mas ‘cascos’) – indicam que o produtor se tratava de um dinossauro do grupo dos Ornithopoda.

Os Ornithopoda ou ornitópodes consituem uma subordem dos dinossauros Ornitísquios, ou ‘dinos com pelves de ave’, que incluem também os Ceratopsia, os Thyreophora e os Pachycephalosauria. Os dinos ornitópodes englobam animais hebívoros de portes diversificados, todos dotados de um aparelho mastigatório sofisticado, que favoreceu seu sucesso durante o período Cretáceo. Eles apresentavam desde porturas bípedes à quadrúpedes, uma cauda rígida e um bico córneo. O ápice de sua evolução se deu no final do Cretáceo com a expansão dos ‘dinos bico-de-pato’ ou hadrossauros.

O Paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes e o conjunto de pegadas do grande ornitópode.

Cinco das pegadas encontradas são pertencentes a uma pista contínua com aproximadamente 3,60 metros de comprimento de uma ponta a outra (veja figura acima), cujos contra-moldes também estão preservados. A sexta pegada trata-se de um registro isolado (Veja figuras abaixo).


Cada pegada possui em média 35 cm de comprimento e 30 cm de largura; um fato bastante exótico quando se considera as proporções das demais ocorrências de pegadas da Formação Botucatu.

Pegada isolada (Esquerda) e contramolde (direita).


Existem muitas crenulações (deformações no substrato) ao redor das pegadas e as cristas de arenito em forma de meia-lua são bem evidentes na margem posterior (parte de trás) de cada pegada. Estas meias-luas, quase sempre na direção do mergulho dos estratos sedimentares, são o resultado do deslocamento de areia pelos pés do animal, quando este estava em progressão através das paleodunas (o esforço que ele fazia ao caminhar deslocava a areia para trás). O esforço observado nas pegadas encontradas indica que o dinossauro estivesse subindo a duna do paleodeserto.

Algumas pegadas da pista apresentam-se pouco definidas, devido à areia inconsolidada e seca da superfície ser facilmente deformável (bastante plástica). Animais de grande porte, portanto mais pesados, imprimiriam suas pegadas diretamente abaixo da camada mais seca de areia que sofreria total deformação, sem que houvesse preservação da morfologia dos pés nas camadas superficiais.

Devido ao excesso de peso no substrato arenoso, o animal produtor das pegadas coletadas provocou uma deformação das camadas inferiores de sedimento, transmitindo a impressão em subsuperfície e gerando o que chamamos de undertrack (‘sub-pegada’). O contato do pé do animal com a subsuperfície, possivelmente mais úmida, produziu as crenulações, podendo ter alterado o comprimento real do eixo maior da pegada ao levantar o pé para mudar o passo, revolvendo a areia seca em superfície. — Experimente isso ao caminhar na praia!

Ao todo, quase uma tonelada de rocha contendo os icnofósseis foram coletadas no dia 08 de julho de 2004 na pedreira São Bento, localizada no município de Araraquara no Estado de São Paulo, nas coordenadas de 21o49’03.4”S e 48o04’22.9”W. Estre estas, os registros do dinossauro aqui descrito. Esta pedreira apresenta a secção de uma grande duna fóssil com 20 m de altura e 100 m de comprimento, com mergulho de 29° aproximadamente em direção S-SW. As lajes coletadas estão depositadas na coleção de paleontologia do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (DEBE/UFSCar).

Pedreira São Bento em Araraquara, SP – Corte de uma Paleo-duna. Pode-se observar as pegadas do grande ornitópode em fase de retirada. Foto por Luciana B. Fernandes.


Desde os primeiros estudos sobre pegadas fossilizadas da região de Araraquara, em 1976 pelo paleontólogo e padre italiano Dr. Giuseppe Leonardi, somente pegadas com no máximo 15 cm de comprimento tinham sido registradas.

Nunca havia sido registrada a ocorrência de dinossauros bípedes herbívoros deste porte aqui descrito na região Sudeste. Em 30 anos de pesquisa é primeiro registro de um dinossauro de grandes dimensões para a Formação Botucatu. Fato novo e muito importante para a compreensão da evolução dos dinossauros no Brasil e para o entendimento das mudanças ambientais em nosso País.

O Dinossauro Ornithopoda do interior paulista pesava aproximadamente duas toneladas, com uma altura de quase 4 metros e comprimento de 6 metros. Um gigante em se tratando de uma fauna de deserto.

Reconstituição do grande Ornithopoda da Fm. Botucatu. Por Marcelo Adorna Fernandes.


Entre em contato com o Paleontólogo Prof. Dr. Marcelo Adorna Fernandes:
Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia – Universidade Federal de São Carlos, UFSCar
Contatos pelo telefone: +55 (16) 3351-8322
E-mail: mafernandes@ufscar.br
Fernandes, M.A. & Carvalho, I.S. 2007. Pegadas fósseis da Formação Botucatu (Jurássico Superior – Cretáceo Inferior): O registro de um grande dinossauro Ornithopoda na Bacia do Paraná. In: Carlhalho, I.S. et al (eds.) Paleontologia: Cenários da Vida, vol. 1, Editora Interciência.

>A fauna do Paleo-deserto Botucatu – O Paleo-deserto Botucatu, Parte II

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“O paleodeserto Botucatu foi um gigantesco deserto de dunas, que existiu durante o final do Período Jurássico (145 milhões de anos atrás) e começo do Período Cretáceo (há 130 Milhões de anos), quando os atuais continentes do hemisfério sul ainda estavam reunidos formando o chamado mega-continente austral Gondwana. Este antigo deserto abrangia algo como 1.500.000 Km² e se estendia desde o Estado de Minas Gerais até o Uruguai – em latitude – e da Bolívia até onde antes estava acomodada a África, na costa leste brasileira… Tratava-se de uma verdadeira imensidão de areia, com um clima seco rigoroso e condições aparentemente pouco propícias à vida…. mas apenas aparentemente… — Veja a primeira parte desta reportagem AQUI.

Reconstituição artística do antigo ambiente do deserto Botucatu por Ariel Milani.
Em um lugar perdido em um pretérito tão remoto, numa era de animais tão diferentes, a curiosidade nos leva a perguntar: que tipo de criaturas viveram em condições tão adversas? É sobre isso que vamos tratar neste post do Colecionadores de Ossos.

Em um ambiente extremamente árido como foi o deserto do Botucatu, dificilmente são preservados fósseis de restos corporais de animais, tais como, ossos ou conchas…… Quanto a partes moles, então, nem pensar. Desta forma, a única maneira de saber quais animais viviam nesse deserto é por meio dos icnofósseis.

Icnofósseis, de forma geral, são registros de um comportamento de um determinado organismo que acabaram por ser preservados em um substrato que, depois de passar por processos químicos e físicos (Litificação), veio a tornar-se rocha.

Os tipos de icnofósseis mais comuns na Formação Botucatu (conjunto de rochas que representam hoje o antigo deserto Botucatu) são pegadas de vertebrados e invertebrados e evidências de alimentação de invertebrados endoestratais (“de dentro do substrato” ou “escavadores”).

Exemplos de comportamento que produzem icnofósseis: locomoção, alimentação, descanso, reprodução, etc. Exemplos de tipos de icnofósseis deixados por estes comportamentos: pegadas, perfurações, ovos, coprólitos (fezes fósseis), etc.

Os icnofósseis na Formação Botucatu são raros em alguns níveis. No entanto, existem estratos onde eles são extremamente abundantes, como por exemplo, aqueles que afloram nas cidades de São Carlos e Araraquara, no interior do Estado de São Paulo. Acredita-se que esta abundância relativa de rastros nas imediações destas cidades seja porque na época em que o antigo Deserto Botucatu existiu, haviam diversos oásis espalhados pela imensidão de areia. Estes abrigavam uma diversificada fauna e atraíam animais a procura de água. A existência destes oásis é corroborada com a própria preservação das pegadas, favorecida somente por causa da umidade.
Mas agora a pergunta que não quer calar: quem eram esses animais?

PERIGO !!!!. Apesar de ser irresistível e tentador atribuir um organismo produtor a icnofósseis… temos que tomar muito cuidado ! Não foram raras as vezes em que a atribuição de produtores a um determinado icnofóssil se mostrou totalmente equivocada, principalmente em se tratando de rastros de invertebrados. Pode-se dizer que, na icnologia de vertebrados isso é mais aceitável, afinal existe uma diferença mais conspícua entre os rastros de um dinossauro e de um mamífero , e dificilmente, eles produziriam um rastro semelhante – ainda assim isso poder acontecer… Entretanto, entre os invertebrados isto é comum, ou seja, grupos de invertebrados pouco aparentados – muito diferentes – podem produzir marcas muito semelhantes e, um mesmo grupo de animais – até mesmo da mesma espécie! – podem produzir rastros muito diferentes. Pense nisto!

Quando não existem fósseis de restos corporais, como é o caso do deserto do Botucatu, os cientistas recorrem, com muita parcimônia e cuidado, aos icnofósseis para saber que animais viviam naquele lugar.
Talvez o mais interessante sobre o Deserto Botucatu seja que, apesar de ser um deserto de mais de 130 milhões de anos, ele se parecia muito com um deserto atual, exceto pelas espécies hoje extintas, claro. Ele abrigava uma fauna adaptada ao ambiente desértico com uma composição semelhante ecológica a que vemos em desertos contemporâneos… vamos ver por quê.
Começando do alto da cadeia alimentar:
Hoje, esta posição é ocupada por mamíferos carnívoros de maior porte, répteis diversos e dinossauros terópodes do grupo dos coelurossauros com penas – as aves! Outrora, no antigo deserto, era ocupada também por dinossauros terópodes, como as aves atuais, mas por representantes de ramos ancestrais hoje extintos. A figura 1 mostra uma pegada de terópode coelurossaurídeo encontrado na Fm. Botucatu. Esta pegada apresenta um comprimento maior do que a sua largura, três dígitos com evidência de garras, sendo o dígito do meio o maior de todos.
Figura 1 – Pegadas de dinossauros atribuídas a Theropoda Coelurosauria encontradas na Formação Botucatu (Fotografias por Marcelo Adorna Fernandes).
Habitando o antigo deserto, ainda, poderia ser encontrado outro grupo de terópode, e sabemos disso por causa da presença de outro tipo de pegada. Estas também com os três dígitos, também com marcas de garras, porém os dedos mais espaçados: características típicas do grupo dos carnossauros (Figura 2). Veja a diferença.
Figura 2 – Pegadas de dinossauros atribuídas a Theropoda Carnossauria encontradas na Formação Botucatu (Fotografia por Marcelo A. Fernandes).
Os carnossauros, e também os coelurossaros, de fato estariam no topo da cadeia alimentar, já que são os maiores organismos carnívoros identificados no registro icnológico.
Existem evidências também de dinossauros herbívoros do grupo dos ornitópodes. Animais bípedes, reconhecidos por pegadas tão compridas quanto largas, com três dedos de extremidades arredondadas (sem marcas de garras), como mostrado na figura 3.
Figura 3 – Pegadas atribuídas a dinossauros ornitópodes encontradas na Formação Botucatu (Fotografia por Marcelo Adorna Fernandes).
E como não poderia deixar de ser dito, destoando da maioria das pegadas de dinossauros geralmente encontradas – todas de porte pouco avantajado – foi encontrada ainda uma trilha muito curiosa pelo tamanho do seu produtor. As pegadas gigantes seriam atribuídas a um grande dinossauro ornitópode, e foram encontradas pelo Prof. Dr. Marcelo Adorna (Figura 4). É muito estranho encontrar pegadas de um animal herbívoro tão grande em um lugar com tão poucos recursos vegetais para sustentá-lo.
Figura 4 – Pegadas atribuídas a um grande dinossauro ornitópode encontradas na Formação Botucatu. Ao fundo o Professor Marcelo Adorna, um grande estudioso dos icnofósseis desta Formação.
Nos desertos atuais existem ainda pequenos mamíferos muito bem adaptados às árduas condições dos ambientes desérticos. No deserto do Botucatu não faltavam estes animais. Eles ocupavam uma posição intermediária na cadeia alimentar, como as várias espécies de roedores atuais. A figura 5 mostra os característicos rastros deixados por eles. A figura 6 mostra uma cena que seria comum quando o deserto do Botucatu existia: uma interação entre dinossauro e um mamífero da época.
Figura 5 – Rastros identificados como Brasilichnium elusivum – atribuídos a mamíferos de pequeno porte – encontrados na Formação Botucatu (Marcelo Adorna Fernandes). Escala = 10cm.

Figura 6 – Uma interação comum entre um representante do grupo dos Dinossauros Theropoda e um mamífero durante o final do Jurássico, começo do Cretáceo, na região que compreendia o deserto do Botucatu.
Figura 7 – Reconstrução do paleoambiente durante o final do Jurássico, começo do Cretáceo, no deserto do Botucatu, com integrantes comuns da sua fauna: escorpiões, insetos e pequenos mamíferos.
Atualmente é muito comum encontrar em desertos diversos grupos de artrópodes adaptados a ambientes áridos, tais como, aranhas, escorpiões e variados insetos….. no Deserto Botucatu não era diferente. Existem icnofósseis atribuídos a esses animais que atestam a existência pretérita de animais muito semelhantes aos atuais no paleo-deserto (Figura 7).

Entre os invertebrados, além dos que deixam marcas na superfície (epiestratais), existem também registros de Taenidium isp, que consistem em escavações sinuosas e meniscadas (em forma de menisco) atribuídas a anelídeos ou insetos coleópteros (Figura 8).

Figura 8 – Rastros identificados como Taenidium isp. Atribuídos a invertebrados (anelídeos ou insetos). Esta laje em especial antes de ser tombada no Museu de Hist;oria Natural Prof. Dr. Mário Tolentino, na UFSCar, era usada como pavimentação de uma calçada na cidade de Araraquara, SP.
Esses invertebrados poderiam ter servido de alimento para os mamíferos, já que estes animais conviveram juntos.

Os rastros fósseis do Botucatu são um testemunho muito interessante sobre um ambiente bastante particular do passado: um colossal deserto com dunas esparsamente pontuadas de oásis. Conhecer a diversidade biológica deste lugar é um desafio por causa da escassez de restos corporais preservados de animais e plantas. Até agora, apenas troncos fóssilizados foram encontrados, todos retirados da região de Minas Gerais.
Estes indicam a presença de gimnospermas, plantas do grupo dos pinheiros e araucárias. Já quanto a fauna, representativos e bem preservados icnofósseis nos permitem obter uma sólida idéia de como seria o cenário Juro-cretácico. Eles fornecem uma verdadeira e fantástica janela para que possamos vislumbrar a vida e as interações dos habitantes daquele ambiente passado.
Referências Bibliográficas
FERNANDES, M. A. Paleoicnologia em ambientes desérticos: análise da icnocenose de vertebrados da pedreira São Bento (Formação Botucatu, Jurássico Superior – Cretáceo Inferior, Bacia do Paraná), Araraquara, SP. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. Instituto de Geociências. Rio de Janeiro, 2005.


FERNANDES, M. A.; CARVALHO, I. DE S. Revisão diagnóstica para a icnoespécie de tetrápode Mesozóico Brasilichnium elusivum ( Leonardi , 1981 ) ( Mammalia ) da Formação Botucatu , Bacia do Paraná , Brasil. Ameghiniana, v. 45, n. 1, p. 167-173, 2008.


FERNANDES, A. C. S.; CARVALHO I DE S.; NETTO, R. G. Ichnofósseis de invertebrados da Formação Botucatu, São Paulo (Brasil). Anais da Academia Brasileira de Ciências, v 62, n. 1, p. 45 – 49, 1990

A seguir, continuando a série de artigos sobre a Icnologia da Formação Botucatu: Um estranho gigante nas dunas e Xixi de dinossauro.