Blogs de Ciência da Unicamp РAinda estamos aqui

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Quem escreve hoje é a Erica Mariosa Moreira Carneiro, do Blogs de Ciência da Unicamp.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

os blogs morreram2

It’s Alive” – Frankenstein (1931)

 

O prognóstico de morte dos blogs já foi anunciado por diversas vezes na mídia, contudo muitas iniciativas continuam insistindo nessa plataforma e conseguindo resultados interessantes e promissores! Tais como  nos seguintes casos, Science Blogs Рque está comemorando 10 anos com essa blogagem coletiva -, Ciência Informativa, Gene Repórter, Blogs da Ciência, Mural Científico e nós, do Blogs de Ciência da Unicamp, que desde 2015 promovemos divulgação científica escrita e produzida por pesquisadores, docentes e alunos da Unicamp.

Os blogs surgiram, de acordo com Malini (2008) e Paquet (2002), h√° mais de duas d√©cadas. O objetivo principal era ser um espa√ßo virtual para, por meio de textos, expressar ideias, informar e opinar sobre assuntos variados. Diferentemente das comunica√ß√Ķes em massa, como televis√£o e r√°dio, os blogs ganharam notoriedade devido √† possibilidade de liberdade de express√£o e intera√ß√£o com os leitores.

O nome ‚Äúblog‚ÄĚ vem de web-log, ou di√°rio de rede e foi usado inicialmente pelo norte americano Jorn Barger para se referir ao seu jornal online Robot Wisdom que, na √©poca, tinha a inten√ß√£o de ser uma ferramenta que indicava p√°ginas atrav√©s de links, de acordo com a import√Ęncia que o pr√≥prio autor do conte√ļdo as atribuia.

Com a evolu√ß√£o da tecnologia, do acesso e da maior disponibilidade de ferramentas, os blogs foram sofrendo mudan√ßas. Primeiramente em seu tamanho, depois ao agregar fun√ß√Ķes, como inclus√£o de imagens, √°udios, v√≠deos, etc. O Blogs de Ci√™ncia da Unicamp surgiu em 2015 em meio a essas mudan√ßas, com o prop√≥sito de ser um portal de blogs de divulga√ß√£o cient√≠fica com conte√ļdo exclusivo e in√©dito produzidos por cientistas. Atualmente o projeto conta com 31 blogs ativos e 25 em fase de constru√ß√£o.

Dos anos noventa at√© os dias de hoje muita tecnologia ‚Äúnasceu‚ÄĚ e ‚Äúmorreu‚ÄĚ e outras se reinventaram para se manterem competitivas. Neste contexto, arautos do apocalipse sugeriram por diversas vezes como ‚Äúos blogs perderam sua for√ßa‚ÄĚ, j√° que¬† ‚Äúas pessoas n√£o l√™em mais‚ÄĚ.

OS BLOGS PERDERAM SUA FORÇA:

Enquanto surgiam iniciativas de blogs no Brasil, o mundo da tecnologia apresentava novos formatos de comunica√ß√£o que chamavam a aten√ß√£o dos blogueiros e de seu p√ļblico, sendo assim, muitos blogs foram abandonados ou migraram para outras plataformas.

Esse fen√īmeno motivou um extenso debate no canal de Blogs Gene Rep√≥rter, do divulgador cient√≠fico Roberto Takata, com o t√≠tulo ‚ÄúH√° uma crise nos blogues brazucas de ci√™ncias?‚ÄĚ, rendendo 7 postagens de 2013 √† 2015. Dentre as diversas colabora√ß√Ķes, Takata destaca que mesmo sem ter dados precisos, √© poss√≠vel perceber a diminui√ß√£o das postagens em canais que acompanha. Percep√ß√£o essa que se concretiza com a pesquisas a seguir:

  • Realizada em 2015 pela ag√™ncia Grumft e divulgada pela Ag√™ncia Adnews conclui-se que a blogosfera brasileira possu√≠a 200 milh√Ķes de blogs ativos.
  • Em 2017 a empresa BigData Corp atualizou os dados da blogosfera brasileira, constatando que existem mais de 5,5 milh√Ķes de blogs no Brasil. Sendo que mais de 90% dos blogs aliam a sua exposi√ß√£o a redes sociais e outras plataformas, 48,53% utilizam Facebook, 48,21% o Youtube e 33,97% Twitter.

Com uma redu√ß√£o de 97% de blogs ativos no Brasil em dois anos de atua√ß√£o √© poss√≠vel admitir que os blogs de fato perderam sua for√ßa, principalmente quando comparados a iniciativas de divulga√ß√£o cient√≠fica em outras plataformas, como o YouTube que possui uma audi√™ncia de 95% da populacŐßaŐÉo online brasileira – de acordo com os dados fornecidos pelo Youtube Insights 2017.

AS PESSOAS NÃO LÊEM MAIS:

Guimar√£es (2018) comenta que a √ļltima pesquisa sobre an√°lise de comportamento de leitura foi aplicada em 2015, pelo Ibope Intelig√™ncia sob encomenda do Instituto Pr√≥-Livro para o projeto Retratos da Leitura no Brasil[1], verificou-se que 56% da popula√ß√£o brasileira √© leitora, contudo o brasileiro l√™ poucos livros, uma m√©dia de 4 livros por ano, sendo que 2 dos livros n√£o s√£o terminados.

Entretanto, nessa análise precisamos também considerar o leitor virtual, ou seja, aquele que utiliza de blogs, e-books e redes sociais para ler. De acordo com o Instituto Reuters de Oxford[2] em 2016, 91% dos brasileiros usam a internet para se informar, sendo 72% desses, leitores de notícias.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠stica – IBGE[3] em sua √ļltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic√≠lios Cont√≠nua, em seu suplemento de Tecnologias da Informa√ß√£o e Comunica√ß√£o (TIC) referente a 2016, concluiu que 64,7% da popula√ß√£o brasileira est√° conectada a internet, desse montante, 71% usam a internet para educa√ß√£o e aprendizado e 68,6% para comunica√ß√£o com outras pessoas. A partir dessas pesquisas, observa-se que o p√ļblico leitor mant√©m-se ‚Äúvivo‚ÄĚ e utilizando cada vez mais o meio digital.

E o Blogs de Ci√™ncia da Unicamp, como se insere nesta discuss√£o? Ser√° que tem visto diferen√ßa, em seu p√ļblico, desde seu lan√ßamento nestes 2 anos e meio?

O BLOGS DE CIÊNCIA DA UNICAMP

Como o pr√≥prio nome j√° sugere, essa plataforma de blogs realiza divulga√ß√£o cient√≠fica a partir do conte√ļdo gerado pela Unicamp, sendo que as estrat√©gias de divulga√ß√£o de conte√ļdo para a sociedade acontece apenas de forma org√Ęnica[4], em quatro redes sociais oficiais e quatro redes sociais em fase de teste.

Publicando ao menos uma postagem in√©dita ao dia direcionada ao seu p√ļblico de interesse previamente identificado, realiza-se tamb√©m sugest√Ķes de pauta para ve√≠culos de m√≠dia, entre outras estrat√©gias.

O projeto acaba de realizar sua 9a Integração com futuros blogueiros/cientistas da Unicamp. Desde o início do projeto, foram integrados 382 pesquisadores, dentre os quais 97 continuam ativos e 25 ainda estão em fase de desenvolvimento e preparação de seus blogs. A maioria dos participantes é formada por pós-graduandos (35% de doutorandos e 6% de pós doutorandos para 24% de docentes e) e mulheres (55%).

A administra√ß√£o do projeto √© realizada por uma equipe de volunt√°rios, divididos de acordo com suas atribui√ß√Ķes e expertises pessoais, sendo 2 docentes, 1 doutor, 4 doutorandos, 1 mestre, 1 mestrando e 2 graduandos, desses s√£o 7 mulheres e 4 homens.

Os resultados do projeto são medidos através dos analytics (oferecidos pelas mídias sociais, google e piwik). De 2015 até 2 de julho de 2018, segundo dados apresentados pelo Google Analytics, tivemos 75.851 leitores nas postagens do portal, destes 66% são de novos visitantes e 33% de visitantes que retornaram, 59,87% são mulheres e 40,13% são homens.

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Figura 1 – Visualiza√ß√Ķes no portal principal coletadas no Google Analytics

O Blogs de Ci√™ncia da Unicamp teve um aumento expressivo de leitores ao longo de 2 anos e meio de atua√ß√£o, principalmente se considerarmos que n√£o houve nenhum tipo de investimento financeiro em divulga√ß√£o no projeto. Isso mostra que, apesar de novas tecnologias surgirem todos os dias, e a comunica√ß√£o estar sempre se renovando, este tipo de m√≠dia continua tendo um p√ļblico cativo e crescente, que procura, se interessa e divulga seu conte√ļdo.

Talvez as iniciativas de divulga√ß√£o cient√≠fica que optem por esse formato n√£o atinjam milh√Ķes de seguidores e algumas classes sociais rapidamente, como faz o YouTube, por exemplo. Contudo a fun√ß√£o da divulga√ß√£o cient√≠fica escrita, o Blogs de Ci√™ncia da Unicamp tem se realizado satisfatoriamente.

√Č fundamental acrescentar que a din√Ęmica de acesso e o consumo do conte√ļdo escrito √© diferente do conte√ļdo em v√≠deo ou √°udio. Tal suporte n√£o deve ser descartado por mera justificativa de procura de aumento de audi√™ncia, tendo seu nicho espec√≠fico e, muitas vezes, complementar a outras plataformas e produ√ß√Ķes. √Č importante que conte√ļdos escritos de divulga√ß√£o cient√≠fica continuem sendo disponibilizados, j√° que a rela√ß√£o do leitor com o texto √© diferente daquele que assiste com o v√≠deo. O ideal seria que os formatos se combinassem de forma complementar, com uma introdu√ß√£o mais simples em v√≠deo e seu aprofundamento por meio de um conte√ļdo textual.

Tamb√©m √© preciso dizer que o blog √© uma op√ß√£o acess√≠vel ao cientista que opta por realizar divulga√ß√£o cient√≠fica independente dos canais de comunica√ß√£o de seus institutos e universidades, pois esse tipo de plataforma n√£o exige uma¬† infraestrutura cara, como c√Ęmeras, editor de v√≠deo ou √°udio, por exemplo. Tamb√©m se destaca a relativa independ√™ncia do divulgador cient√≠fico, que usa a escrita como meio, em fun√ß√£o de outras plataformas exigirem mais pessoas envolvidas (e com qualifica√ß√Ķes diferentes) na produ√ß√£o de conte√ļdo e/ou maior desenvoltura do divulgador – o que pode gerar um disp√™ndio de tempo e custo maior tamb√©m. Contudo, embora a escrita seja um modo de divulga√ß√£o mais individualizado, n√£o torna simples ou f√°cil ao pesquisador. O futuro divulgador cient√≠fico deve se esfor√ßar em utilizar uma linguagem acess√≠vel por qualquer p√ļblico que possa vir a seguir o seu canal, sempre primando pela qualidade da informa√ß√£o.

Quanto a pergunta inicial desta postagem…

NÃO, OS BLOGS NÃO MORRERAM!

Mas a divulgação científica, independente do formato escolhido, ainda precisa de um maior reconhecimento, investimento e engajamento para continuar se desenvolvendo. Há muito chão pela frente! Que tal caminharmos juntos?

 Agradecimento especial a toda a equipe Blogs de Ciência da Unicamp que participa, escreve e contribui voluntariamente para que o projeto se mantenha vivo e operante.

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Erica Mariosa Moreira Carneiro –¬†Administradora do Blogs de Ci√™ncia da Unicamp. Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o Social em Rela√ß√Ķes P√ļblicas ‚Äď PUCCampinas. P√≥s Gradua√ß√£o em Jornalismo Cient√≠fico ‚Äď Labjor/Unicamp. Mestranda em Divulga√ß√£o Cient√≠fica e Cultural ‚Äď Labjor/Unicamp. Experi√™ncia em Divulga√ß√£o em M√≠dias Sociais com Pr√°ticas N√£o Onerosas.

Colabora√ß√Ķes: Andr√© Garcia, Ana de Medeiros Arnt e C√°ssio Riedo

BIBLIOGRAFIA

FRANKENSTEIN: The movie. Direção de James Whale e Produção de Carl Laemmle Jr. Estados Unidos: James Whale, 1931. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=J8KHc3ipm-0>. Acesso em: 03. jul. 2018.

MALINI, F. Por uma genealogia da Blogosfera: considera√ß√Ķes hist√≥ricas (1997 a 2001), 2008. Dispon√≠vel em: <http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/lcvt/article/view/35> Acesso em: 28 mar. 2017.

PAQUET, S. Personal knowledge publishing and its uses in research. 2002. Disponível em : <http://radio.weblogs.com/0110772/stories/2002/10/03/ personal Know ledgePublishingAndItsUsesInResearch.html>. Acesso em: 25 mar. 2017.

GUIMAR√ÉES, P. Retratos da Leitura ‚Äď Perfil do Leitor. 2017. Dispon√≠vel em: <https://www.institutoguimaraes.com.br/single-post/2017/07/27/Retratos-da-Leitura-%E2%80%93-Perfil-do-Leitor>. Acesso em: 03 jul. 2018.

SANTOS, I. Manuel Castells: um país educado com internet progride; um país sem educação usa a internet para fazer estupidez. 2017. Disponível em: <https://www.fronteiras.com/entrevistas/manuel-castells-um-pais-educado-com-internet-progride>. Acesso em: 03 jul. 2018.

[1] Foram entrevistadas 5.012 pessoas de 5 anos ou mais, alfabetizadas, ou não, e foram considerados leitores aqueles que leram algum livro nos três meses anteriores à entrevista.

[2] Pesquisa Completa: https://www.poder360.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Pesquisa-instituto-Reuters.pdf

[3] pesquisa completa: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2015/default.shtm

[4] Divulgação feita com estratégias de comunicação sem a geração de custo para o projeto.