Choro e ranger de dentes: a formação do pesquisador brasileiro precisa mesmo disso?

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana √© Tema Livre. Hoje quem escreve √© Mariella De Oliveira-Costa √© doutora em sa√ļde coletiva.

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Ansiedade, ang√ļstia, des√Ęnimo, depress√£o e dificuldades de concentra√ß√£o s√£o alguns dos problemas de sa√ļde f√≠sica e mental que acometem parte dos estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o, assim como quem est√° na √©poca de realizar sua monografia.

Todos vibram muito com a conquista daquela sonhada vaga  na universidade mas nem sempre (ou quase nunca) a vida acadêmica se mostra tranquila e interessante. A família que apoiou a escolha daquele aluno, o encontra por vezes isolado de tudo e de todos, sem tempo para atividades coletivas e até mal humorado.

Boa parte dos estudantes se frustra com as dificuldades inerentes dessa etapa da vida acad√™mica, com o orientador, com o programa de p√≥s, com os colegas, com os conte√ļdos de pesquisa, enfim, com o ambiente dentro de uma universidade ou institui√ß√£o de pesquisa.

Mas esta etapa da vida n√£o precisa ser assim.

Existem in√ļmeras dificuldades, mas tamb√©m muitas estrat√©gias para que esta fase de forma√ß√£o de um pesquisador, da inicia√ß√£o cient√≠fica, passando pelo TCC, mestrado e doutorado sejam momento de crescimento e aprendizado.

Nas redes sociais, tem sido comum observar um discurso de tristeza, abatimento e desilusão para com a pós-graduação e seus desafios e dificuldades.

Me incomoda bastante o discurso de que uma pós-graduação é apenas para alguns poucos iluminados e que a maioria deve sim viver num mar de choro e ranger de dentes. A vida acadêmica, bem administrada, pode ser leve e um momento bem feliz (e é importante compartilhar essa ideia)!

Sou recém-doutora e ao longo de minha formação sempre busquei espaços na agenda para atividades completamente fora do meu tema de pesquisa, e me cerquei de pessoas que tinham outras carreiras, falassem de outras coisas e ventilassem minha conversas e minha mente.

Pensando nisso, comecei um canal no youtube para falar sobre a vida acadêmica de uma forma mais realista e bem humorada.

Meu intuito é apresentar que existe vida além da pós-graduação, com temas do cotidiano acadêmico de maneira leve e breve, para  auxiliar os pós-graduandos (e os candidatos a uma pós) a encararem esta etapa da vida tal como ela realmente é: apenas uma parte, uma etapa, um degrau na sua caminhada (e não a caminhada toda).

Existe vida al√©m da p√≥s-gradua√ß√£o¬† e nenhuma vida precisa ser resumida a uma rotina casa-universidade. Um problema no laborat√≥rio, um resultado inesperado, uma pesquisa com uma s√©rie de limita√ß√Ķes n√£o pode definir a personalidade de ningu√©m, pois n√£o somos m√°quinas e √© preciso saber lidar com as dificuldades sem se tornar ref√©m delas.

Afinal, se formarmos pesquisadores desanimados, frustrados na sua forma√ß√£o b√°sica e com a sa√ļde mental comprometida, qual ser√° o futuro da ci√™ncia brasileira?

mariellaMariella De Oliveira-Costa √© doutora em sa√ļde coletiva, jornalista, escritora e tem como um de seus hobbies seu canal no Youtube. Atualmente trabalha na Fiocruz Bras√≠lia.

Do Papai Noel à Metástase

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana √© Tema Livre. Hoje quem escreve √© Bruno Ricardo Barreto Pires, Bi√≥logo e P√≥s-doutorando do Instituto Nacional de C√Ęncer.

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Eu nasci e fui criado no interior de Goi√°s, em uma cidade de 25.000 habitantes chamada Posse. Tive uma inf√Ęncia sem shoppings ou cinemas, mas com muito contato com a natureza e com os meus 20 primos. No natal de 1994, nos reunimos na casa dos meus av√≥s maternos para a ceia. Na √©poca, eu tinha 5 anos e carregava uma enorme vontade de falar tudo o que pensava. O cl√≠max daquela noite foi a apari√ß√£o do Papai Noel durante o jantar. Eu estava empolgad√≠ssimo com aquela presen√ßa, assim como os meus primos que tinham mais ou menos a mesma idade, at√© que percebi que a minha av√≥ n√£o estava mais no recinto. Comecei a observar bem aquele Papai Noel, sua barba branca, seu cabelo branco, gorro e roupas vermelhas… ent√£o, gritei ‚ÄúO Papai Noel √© a vov√≥!‚ÄĚ

Todos os adultos se espantaram. Meus pais desconversaram e depois de alguns minutos, o bom velhinho partiu. Eu insistia que era, mas parecia que eu havia falado um palavr√£o, pois todos me olhavam com um certo desprezo. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi questionar a minha m√£e. Ela confirmou, ‚Äúele n√£o √© real‚ÄĚ. Apesar de ela ter me explicado todo o motivo pelo qual ele foi criado, eu senti aquilo como uma facada nas minhas v√≠sceras. Embora aquela verdade tenha sido dif√≠cil de administrar no auge dos meus 5 anos, eu quis mais: ‚Äúent√£o, o coelhinho da P√°scoa tamb√©m n√£o existe?‚ÄĚ Tamb√©m n√£o, respondeu a minha m√£e com um olhar de vel√≥rio. Naquele dia, eu dormi muito mal, mas decidi contar a verdade para as outras pessoas (que tinham a mesma idade). No final de semana subsequente, est√°vamos todos os primos reunidos na casa dos meus av√≥s e aproveitei a ocasi√£o para libert√°-los daquela mentira. No entanto, para a minha maior decep√ß√£o, eles disseram que era eu quem estava mentido e um deles completou: ‚Äúmeus pais falaram que existe e eles n√£o mentem‚ÄĚ. Eu fiquei arrasado. Percebi que meus pares preferiam viver em uma ilus√£o do que aceitar a ‚Äúverdade nua e crua‚ÄĚ.

Aquela hist√≥ria envolvendo o papai noel me deu uma enorme coragem para questionar qualquer coisa. Al√©m disso, ela quebrou o paradigma de que eu deveria acreditar em tudo que ‚Äúos mais experientes‚ÄĚ afirmam. S√≥ que eu me empolguei. Aos 6 anos, eu estava desenvolvendo uma no√ß√£o sobre parentesco/hereditariedade, e cheguei a conclus√£o de que os meus pais n√£o pareciam fisionomicamente comigo. Sem saber o que a gen√©tica mendeliana conta sobre os alelos raros, acusei os meus pais de terem me adotado. No come√ßo, os meus pais riram, mas eu insisti tanto com o assunto que no mesmo dia, a minha m√£e me levou ao hospital em que nasci para que todos dessem o depoimento que testemunhava a favor dela. ‚ÄúEles est√£o todos comprados‚ÄĚ, repeti a frase que ouvia ocasionalmente no Programa Livre ‚Äď um cl√°ssico da d√©cada de 90.

Nesse dia, eu tinha passado da conta. Mesmo para uma crian√ßa de 6 anos, era percept√≠vel a tristeza de uma m√£e que se sentia rejeitada pelo pr√≥prio filho. ‚ÄúVoc√™ √© sangue do meu sangue, meu filho. Por que est√° fazendo isso comigo?‚ÄĚ Esse di√°logo nunca mas saiu da minha cabe√ßa…

Alguns anos depois, a minha av√≥ materna falece com c√Ęncer de mama. Lembro de uma conversa entre os meus pais que contava, segundo o oncologista do Hospital de Base, que o c√Ęncer havia se espalhado e que n√£o havia tratamento para isso. No dia ap√≥s o vel√≥rio, eu contei no ouvido da minha m√£e, que eu iria estudar porque ‚Äúaquilo‚ÄĚ matou a minha av√≥. Naquele momento, eu descobri como utilizar a minha vontade de investigar/pesquisar sem machucar as pessoas. Muito pelo contr√°rio, ajudando-as. Ent√£o, naquele dia eu aceitei a miss√£o de ser um cientista.

Desde ent√£o, eu persigo a met√°stase do c√Ęncer de mama como aquele que busca vingan√ßa, mas ao mesmo tempo, como aquele que quer dar esperan√ßa a todas as fam√≠lias que sofrem com esta doen√ßa.

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Bruno Ricardo Barreto Pires, Bi√≥logo e P√≥s-doutorando do Instituto Nacional de C√Ęncer. Escreve no blog ‚ÄúNovais da Silveira‚ÄĚ e √© entusiasta da divulga√ß√£o cient√≠fica nas redes sociais.

Estudos Liter√°rios: existimos, a que ser√° que se destina?

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Claudia Alves, escreve no Blogs Marca Páginas dos Blogs de Ciência da Unicamp.

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Sempre imagino come√ßar uma aula de Literatura perguntando aos alunos o que se estuda nas outras aulas. Matem√°tica? N√ļmeros, equa√ß√Ķes, formas geom√©tricas. Biologia? Reino animal, reino vegetal, corpo humano. Hist√≥ria? Gr√©cia, Imp√©rio Romano, Independ√™ncia do Brasil, Segunda Guerra Mundial. E ent√£o perguntar para a classe: e Literatura? Esperaria respostas como livros, escritores, hist√≥rias. Mas acho que poder√≠amos complementar e dizer ainda tudo o mais que se aprende nas outras aulas, afinal n√ļmeros, corpos e guerras, por exemplo, s√£o temas bastante recorrentes tamb√©m na Literatura.

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Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Esse exerc√≠cio de imagina√ß√£o sempre me fez acreditar que ali naquele contexto escolar seria poss√≠vel mostrar aos alunos que, em uma aula de Literatura, podemos passar, em maior ou menor medida, pelos conte√ļdos de todas as outras disciplinas. Nesse grande guarda-chuva, n√£o haveria limites para imaginar quais temas existem e podem ser trabalhados na escola. Tudo que √© humano √© pass√≠vel de ser liter√°rio.

De alguma maneira, quando explico o que são os Estudos Literários, tento percorrer esse mesmo trajeto. Se a Literatura nos permite criar em cima de tudo o que é humano, os Estudos Literários se abrem como uma área capaz de propor os mais variados tipos de exercícios de reflexão a partir da Literatura e de seus desdobramentos.

Existimos como uma área científica, então, nessa perspectiva: produzindo os mais diferentes conhecimentos possíveis de serem pensados a partir de obras literárias e de tudo o que pode existir ao seu redor. Na prática, isso significa pensar e questionar desde o contexto histórico em que um livro foi escrito até a biografia de quem o escreveu, passando pelas mais diversas características de forma e estilo do próprio texto, ou ainda pelas teorias literárias que se constituem a partir de um conjunto de textos.

Pensemos em um grande cl√°ssico da literatura brasileira como Dom Casmurro, por exemplo, escrito no s√©culo XIX por Machado de Assis. Esse livro √© certamente uma das obras mais analisadas at√© hoje pelos Estudos Liter√°rios no Brasil e tamb√©m no exterior. E como pode tanta gente ainda ter tanta coisa a dizer sobre um texto de 200 e poucas p√°ginas? A come√ßar por sua constru√ß√£o liter√°ria, Dom Casmurro √© um dos enredos mais instigantes da hist√≥ria da Literatura. Em seu universo, √© poss√≠vel estudar desde as escolhas lingu√≠sticas operadas por Machado at√© as maneiras como os sentimentos humanos e as subjetividades das personagens s√£o constru√≠das literariamente. Por outro lado, √© tamb√©m uma representa√ß√£o muito interessante de um certo Rio de Janeiro dos anos de 1800 e em certa medida do pr√≥prio contexto brasileiro da √©poca. Al√©m disso, h√° a oportunidade de investigar a biografia de Machado de Assis e suas trajet√≥rias de leitura e reflex√£o, que ganharam novos contornos em suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Finalmente, as infinitas possibilidades que surgem das rela√ß√Ķes com outros livros, outros escritores, outros tempos e tamb√©m com outras l√≠nguas, gra√ßas √† √°rea de tradu√ß√Ķes liter√°rias. Sem esquecer, √© claro, dos di√°logos com outras Artes, como Cinema e Teatro, algo que tamb√©m tem ganhado espa√ßo nos Estudos Liter√°rios.

Com tais ideias em mente, muito se pode discutir ainda sobre os Estudos Liter√°rios em si serem ou n√£o considerados um ramo das Ci√™ncias Humanas e, consequentemente, fazerem parte dos interesses da Divulga√ß√£o Cient√≠fica. Ora, mais do que responder a essa pergunta de forma pragm√°tica, parece ser mais interessante instigar a reflex√£o cr√≠tica: por que Literatura seria ou n√£o uma Ci√™ncia? Que tipo de produ√ß√£o de conhecimento est√° atrelada a essa quest√£o ou por que essa d√ļvida √© feita de maneira mais atenuada, com menos desconfian√ßa, quando se trata de pesquisas das √°reas de exatas e biol√≥gicas? Ou ainda, a quem interessa um certo tipo de sociedade em que fazer Ci√™ncia e produzir conhecimento √© algo diretamente relacionado √† utilidade pr√°tica que tais pesquisas ter√£o, o que excluiria a princ√≠pio o tipo de pesquisa feita nos Estudos Liter√°rios?

Deixo essas d√ļvidas sem respostas porque nem eu mesma as tenho, mas fato √© que n√≥s, pesquisadoras e pesquisadores de Estudos Liter√°rios, existimos. Somos uma √°rea de pesquisa presente nas universidades, nas bibliotecas, nos institutos de pesquisa, ou seja, em inst√Ęncias institucionais de renome, onde s√£o produzidos conhecimentos. Estamos compartilhando esses espa√ßos com muita resist√™ncia, j√° que socialmente os conhecimentos produzidos pelas Ci√™ncias Humanas ainda s√£o muito desvalorizados; principalmente quando se espera das Ci√™ncias uma aplicabilidade instant√Ęnea, o que n√£o condiz com o que √© feito nos Estudos Liter√°rios. Nossa tentativa, portanto, √© n√£o sermos sufocados pela grande pergunta “mas pra que serve o que voc√™ est√° fazendo?”.

Por√©m, quando confrontada com ela, gosto de responder e, mais do que isso, de acreditar que estamos pensando e repensando as formas que o ser humano encontrou para estar no mundo, sobretudo por meio de suas mais diversas manifesta√ß√Ķes liter√°rias e lingu√≠sticas – e isso n√£o √© pouca coisa. Para mim, parece que √© um bom destino para uma √°rea de conhecimento e, em certa medida, para todas as ci√™ncias existentes. E voc√™, concorda?

 

claudiaAlvesClaudia Alves, escreve no Marca Páginas, dos Blogs de Ciência da Unicamp.

A ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ da ci√™ncia

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Natália Coelho Ferreira, bióloga e co-fundadora da iniciativa de ONG chamada Draw Earth.

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Antes de come√ßarmos a dissertar sobre o tema proposto, vamos refletir? Afinal, o que √© ci√™ncia? Quando pesquisamos no site google, aparece uma lista de significados e aplica√ß√Ķes que podem ser resumidos em uma palavra: Conhecimento. Desta forma, podemos dizer que a ci√™ncia √© o conhecimento, saber, estar ciente, ter per√≠cia e etc. Com isso, chamo a aten√ß√£o para o tema com uma nova pergunta, o que seria a ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ da ci√™ncia? Quando falamos sobre ‚Äúlegaliza√ß√£o‚ÄĚ de algo nos referimos a libera√ß√£o de alguma coisa com a aprova√ß√£o da justi√ßa, correto? Correto. Mas a ci√™ncia n√£o √© ilegal… ou √©? Uma nova pergunta, a ci√™ncia abrange toda a popula√ß√£o? Sim ou n√£o, eis a quest√£o.

Na vis√£o popular o cientista √© um ser ranzinza, arrogante e exc√™ntrico que fica brincando de ‚ÄúDeus‚ÄĚ dentro de um laborat√≥rio. Mas entenda, n√£o √© todo mundo que pensa assim, viu? Vemos a sabotagem de pesquisa por mau uso da √©tica profissional ou por simples ignor√Ęncia, e quando digo ignor√Ęncia quero dizer falta de conhecimento, falta de saber, falta da ci√™ncia. Essa falta de conhecimento por parte de uma popula√ß√£o que se v√™ fadada ao ‚Äúachismo‚ÄĚ, sensacionalismo da m√≠dia e o estere√≥tipo formulado do ser cientista. Esse estere√≥tipo muitas vezes s√£o consolidados profissionais que ret√©m o saber ao seu √Ęmbito profissional e compartilham apenas com pessoas que possam entender do assunto. Estou mentindo? Com quantas pessoas voc√™ conversou por iniciativa pr√≥pria uma conversa cient√≠fica?

N√£o √© muito f√°cil iniciar uma conversa de conte√ļdo cient√≠fico com pessoas leigas, e talvez seja esse o ponto de desest√≠mulo. Falar em uma linguagem acess√≠vel para a popula√ß√£o, promover a√ß√Ķes de integra√ß√£o. Por√©m, liberar a ci√™ncia para um p√ļblico comum destoando do meio cient√≠fico, evita especula√ß√Ķes sobre a ci√™ncia e seus m√©todos. Afinal, que cientista n√£o √© posto em tabu sobre as experi√™ncias com animais? J√° fui questionada sobre o assunto mesmo sem trabalhar com fauna, imagina quem trabalha? Al√©m disso, a populariza√ß√£o da ci√™ncia evitaria pesquisas tendenciosas, embora sejam feitas em termos legais. Contudo, as consequ√™ncia dessas pesquisas prejudicam tanto a conserva√ß√£o que se torna um crime contra a natureza, na qual ela cobra e quem responde n√£o √© s√≥ o ‚Äúr√©u‚ÄĚ da quest√£o. O pre√ßo de um crime ambiental √© t√£o incomensur√°vel que n√£o h√° dinheiro que o pague, ‚Äújeitinho‚ÄĚ que se d√™ e fuga das consequ√™ncias.

Então, pontuando o título: Liberte a ciência. O conhecimento não é objeto de posse de cientista e nem o cientista é o ser estereotipado que afirmam ser. Cientistas são todos que sabem sobre algo, ao mesmo tempo que não nutrem perícia de nada e tem curiosidade pelo todo. A ciência é do povo e os profissionais de cada ramo são os porta-vozes da área. Sendo então esses porta-vozes, temos que disseminar, não apenas para preencher currículo ou inflar o ego de profissionais. Devemos propagar a ciência para que ela seja acessível por todos, para manutenção do saber, para que ela possa ser aplicada e que principalmente, para que a ciência não seja perdida e nem os fatos corrompidos.

Assim, finalizo meu texto, meu discurso e argumento. A ciência é bem e pode ser maldição, depende de quem usa e para o que usa. Entretanto, ela é irrestringível e por isso, não pode ser limitada a segmentos. Cada cientista em sua área contribui para algo além dele. O saber promove a evolução, previne tragédias e expande o universo. Desta forma, temos que começar a pensar na ciência como um assunto mais holístico em que todos se inserem e tem sua função. Nós temos que libertar, legalizar e consolidar a ciência no seu significado mais profundo, o aprofundamento do conhecimento.

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Natália Coelho Ferreira, bióloga, mestranda em Ecologia de Sistemas na Universidade de Vila Velha.

Que a ciência esteja com você

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Arthur Filipe, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos da UFAL.

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Quando eu fiquei sabendo da blogagem coletiva de divulga√ß√£o cient√≠fica para comemorar os 10 anos do ScienceBlogs Brasil, logo pensei: ‚ÄúO que √© que eu t√ī fazendo aqui fora da festa?‚ÄĚ. Acontece que neste exato momento em que estou escrevendo este texto tamb√©m estou desenvolvendo a minha disserta√ß√£o do mestrado, e justamente por isso as coisas andam t√£o corridas que √†s vezes fica meio dif√≠cil dedicar o tempo que eu gostaria para a divulga√ß√£o cient√≠fica. Mas, de repente, um pensamento me veio: ‚ÄúEi, e por que n√£o fazer as duas coisas ao mesmo tempo?‚ÄĚ; assim sendo, resolvi p√īr as m√£os na massa e escrever um texto para falar um pouco para voc√™s sobre o que eu ando aprontando na minha disserta√ß√£o.

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Nada de moleza, caro Padawan: assim como Luke em seu treinamento Jedi, um cientista em formação também tem muitos desafios!

Recentemente, numa galáxia bem conhecida, um cientista chamado Lei Wang, da Universidade Nacional da Austrália, teve uma ideia genial: criar hologramas. Se você for um admirador de obras de ficção científica como eu, entenderá logo do que estou falando. Resumindo, hologramas são imagens tridimensionais formadas a partir de diferentes intensidades de luz, e esta inovação pode revolucionar desde mensagens que enviamos no celular até tecnologias utilizadas por astronautas no espaço. Se você está pensando que esta ideia parece ter nascido de um filme de ficção científica não está enganado: Lei Wang é fã de Star Wars desde criança.

Quando o cineasta George Lucas criou Star Wars, o seu objetivo principal era contar uma história que tivesse conceitos de mitologia antiga; além disso, Star Wars também apresenta conceitos influenciados pela ciência, como as tão conhecidas viagens mais rápidas do que a luz da nave Millenium Falcon. As viagens mais rápidas do que a luz se parecem com o conceito da velocidade de dobra no espaço-tempo, que ainda é uma especulação dos físicos e dos fãs de Star Trek (olá, leitor do futuro, aí já existem naves que viajam na velocidade de dobra no espaço-tempo?); contudo, George Lucas considerou viagens mais rápidas do que a luz como uma realidade bem plausível em seu universo. Quanto a viagens mais rápidas do que a luz ainda permanecemos no campo da especulação, mas já podemos ter bons pressentimentos sobre os hologramas, apesar das pesquisas nesta área ainda estarem em fase inicial.

‚ÄúMe d√° um help aqui na disserta√ß√£o, orientador, voc√™ √© minha √ļnica esperan√ßa!‚ÄĚ XD

‚ÄúMe d√° um help aqui na disserta√ß√£o, orientador, voc√™ √© minha √ļnica esperan√ßa!‚ÄĚ XD

Bom, mas afinal de contas, o que isso tudo tem a ver com a minha pesquisa do mestrado? Na verdade, tem tudo a ver! Se um cientista Jedi, como o que mencionamos acima, decide trabalhar com hologramas devido ao fato de se interessar muito por ficção científica, podemos nos perguntar: o que mais faz um cientista querer trabalhar com determinado ramo da ciência? Existem algumas pesquisas, por exemplo, que demonstram que muitas pessoas escolhem ser astronautas ou físicas teóricas por gostarem de filmes e séries sobre exploração espacial; mas existem muitos outros motivos que também podem explicar os interesses de pesquisa. E são esses motivos que eu quero descobrir na minha dissertação!

Trazendo essa discuss√£o para dentro da Biologia (que √© a minha √°rea de atua√ß√£o), a minha pergunta √© sobre quais as raz√Ķes que levam um pesquisador estudar uma determinada esp√©cie, e n√£o outra. Seria o seu status de amea√ßa na IUCN? Ou talvez seria o fato da esp√©cie ser conhecida h√° mais tempo pelos pesquisadores? Ser√° que vari√°veis biol√≥gicas, como os h√°bitos de vida ou os tipos de ambientes das esp√©cies influenciam o esfor√ßo da pesquisa? Para responder a essas perguntas, os organismos-modelo do meu estudo s√£o as esp√©cies da Classe Amphibia, importantes indicadoras ambientais e de grande relev√Ęncia comercial. Para encontrar as respostas, a minha pesquisa necessita simplesmente de um computador e ideias bem definidas em mente; e, no final das contas, ser√° poss√≠vel entender um pouco as motiva√ß√Ķes dos pesquisadores, e como isso afeta as esp√©cies biol√≥gicas. Legal, n√©?

Eu ainda não sei o que influencia (ou deixa de influenciar) a pesquisa para os anfíbios, mas pelo que tudo indica, o Heavy Metal tem tudo para ser uma variável preditora: que o diga a espécie Dendropsophus ozzyi, batizada assim em homenagem ao cantor Ozzy Osbourne!

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Arthur Filipe da Silva,¬† bi√≥logo formado na Universidade Federal de Alagoas, atualmente √© mestrando no Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Diversidade Biol√≥gica e Conserva√ß√£o nos Tr√≥picos dessa mesma universidade. √Č integrante do Laborat√≥rio de Ecologia Quantitativa e do Laborat√≥rio de Biologia Integrativa. Edita o blog Hip√≥tese Nula, e adora coisas como ecologia, evolu√ß√£o, ci√™ncia livre, R, e, claro, caf√©.

Perguntas que n√£o acabam

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Fazer Ciência, minha vida de cientista. Hoje quem escreve é Gracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

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Imagine como se sente uma criança que adora ciência ao ver na TV como os cientistas conseguiram fazer crescer algo com o formato de uma orelha humana nas costas de um rato. Talvez você tenha sido uma destas crianças, certo? Pois é, este foi o momento exato em que eu decidi que seria cientista. O engraçado é que eu não me interesso tanto assim por orelhas humanas, ou mesmo por ratos; eu sempre adorei Ecologia (lembro nitidamente da aula na primeira série em que aprendi sobre o ciclo da água e entendi por que chove). Só que esse episódio do rato não tinha a ver com minhas perguntas preferidas: foi ali que eu vi como a ciência pode alcançar feitos incríveis, e eu queria que todo mundo percebesse isso. Talvez isso as fizesse acreditar que qualquer pessoa pode conquistar coisas incríveis, com o método certo.

Foi assim que me tornei ecóloga teórica com uma grande paixão por divulgação científica. Hoje estou fazendo doutorado em Ecologia e Evolução e sempre me metendo em projetos paralelos de comunicação científica e ciência aberta. Eu me dedico bastante a estes projetos porque eu acredito que a ciência pode empoderar todos nós, e estou sempre tentando convencer meus colegas a embarcarem comigo nessas aventuras. Então eu vou contar aqui como é essa minha vida de cientista um pouco menos tradicional. Vamos lá?

Bom, pra começar, desde 2014 sou pós-graduanda (com um intervalo aí no meio de pesquisa independente). Isso quer dizer que eu faço parte de uma categoria de trabalhadores que quase ninguém entende muito bem como funciona. Nossos direitos, deveres e verbas passeiam entre o Ministério da Educação e o da Ciência e Tecnologia. A gente assiste a aulas, apresenta trabalhos, faz matrícula, paga meia entrada no cinema. A gente também dá aulas, tem contrato de dedicação exclusiva, produz a maior parte do conhecimento e desenvolvimento tecnológico do país. Porém, não temos férias, aposentadoria, adicional de insalubridade, e só recentemente conseguimos licença maternidade.

Isso também significa que eu estou naquela janela da vida em que eu tenho que explorar todo o meu potencial, tentar botar pra funcionar todos os meus planos A, B e C pra ter como me sustentar depois do doutorado sem depender de concurso ou bolsas de pós-doc (cada vez mais raras). E também é nesta fase que eu tenho que desenvolver a cientista que eu quero ser nos próximos anos, e isso, definitivamente, não inclui somente a minha tese.

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Por isso a minha rotina inclui, por exemplo, um clube de revisão de preprints, porque quero exercitar a capacidade de analisar criticamente os artigos, sabendo identificar o que eles têm de bom e no que podem melhorar. Sem contar o benefício ENORME pra ciência que é a revisão de preprints, né, mores? Os preprints são artigos científicos completos que seus autores consideram prontos, mas que precisam de discussão e maturação antes da submissão à publicação em uma revista. Às vezes a revisão pela qual esse artigo passa enquanto é um preprint já adianta bastante o processo de publicação, fazendo toda a pesquisa andar mais rápido.

Minha rotina tamb√©m tem uma parte significativa dedicada √† divulga√ß√£o cient√≠fica de alguma forma. Ano passado, toda sexta-feira √† tarde eu escrevia algum texto, lia artigos sobre o assunto, atualizava a p√°gina do LEQ ou do TheMetaLand (meus labs ‚̧) no Facebook, ou ajudava algum colega com suas tarefas relacionadas √† DC. Este ano eu mudei esse dia da DC para as quartas, que eram os dias em que me reunia com o pessoal do Mozilla Open Leaders e trabalho no meu projeto aberto, o IGNITE. O Mozilla Open Leaders √© um programa de treinamento de l√≠deres de projetos abertos, aqueles em que tudo √© transparente e a lideran√ßa √© descentralizada, do jeitinho que eu gostaria que funcionasse o meu futuro laborat√≥rio. O MOL me ajudou a pensar de um jeito diferente na divulga√ß√£o cient√≠fica, na minha carreira e na minha pesquisa. Tamb√©m foi durante o MOL que eu aprendi ferramentas de gerenciamento de projetos que eu estou aplicando na minha tese com um plano de auto-mentoria.

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No meio disso tudo eu estudo como as espécies se organizam no espaço, do ponto de vista continental, e por quê. Quero entender o que tem nos locais em que as espécies estão que fazem elas estarem lá, ou o que tem nos locais onde elas não estão que fazem elas não estarem lá. Outro dia eu encontrei um texto (que infelizmente eu não sei quem escreveu) que descreve exatamente o que eu faço no meu dia-a-dia:

‚Äú[…] eu fa√ßo mundos que n√£o s√£o reais em computadores. Nestes mundos n√£o-reais, eu fa√ßo muitos, muitos animais n√£o-reais e fa√ßo eles brigarem muitas, e muitas, e muitas vezes. Ent√£o eu vejo quais animais brigaram mais. √Č muito legal.‚ÄĚ

Esta é parte da minha pesquisa. Só que nos meus mundos não-reais, estas brigas geram agrupamentos de espécies ou buracos sem espécies. Uma espécie empurra a outra mais pro cantinho, ou uma faz a outra sumir, todo esse tipo de coisa.

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Quando eu era criança, lá naquela época em que eu vi o ratinho com a orelha nas costas, eu queria crescer e ter um emprego em que eu pudesse responder perguntas, e sabia que este seria um trabalho infinito, porque as respostas de vez em quando acabam, mas as perguntas não. E esta é a minha vida de cientista hoje: respondendo perguntas que nunca acabam.

gracielleGracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG, escreve no blog Hipótese Nula e toca o projeto IGNITE de treinamento em divulgação científica.

Minha vida de matemático e lógico

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Fazer Ciência, minha vida de cientista. Hoje quem escreve é Walter Carnielli, professor Titular do Departamento de  Filosofia da Unicamp.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

 

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Em novembro de 1023. Zach Weber, professor de Filosofia da Universidade de Otago, Nova Zel√Ęndia, entrevistou-me para a publica√ß√£o “The Reasoner” (Volume 7, N√ļmero 11, November 2013, ISSN 1757-0522 www.thereasoner.org, “Features: Interview with Walter Carnielli”)

Penso que as perguntas do Zach Weber foram muito bem colocadas (talvez as respostas nem tanto). Mas acredito que valha a pena rever algumas respostas, com novos detalhes, para a iniciativa “Fazer ci√™ncia, minha vida de cientista”.

Esta não é a entrevista na íntegra, apenas uma revisitação elaborada de algumas partes menos técnicas.

The Reasoner, ZW: Como começou sua  carreira em  matemática e lógica?

WAC: No in√≠cio do ensino m√©dio, eu tive um jovem professor que estava fazendo seu doutorado em l√≥gica. Um dia chovia pesadamente e apenas algumas crian√ßas vieram para a aula. Eu pedi que ele nos explicasse em duas frases o que era uma “tese de doutorado”. Ele explicou seu trabalho em indu√ß√£o matem√°tica, com alguns exemplos. Eu n√£o acho que o outros estudantes estavam prestando aten√ß√£o, mas eu achei surpreendente como algu√©m poderia dominar o infinito, provando coisas que eu pensava¬† que levaria uma eternidade, apenas com alguns passos! Eu pedi mais, e ele e o professor de f√≠sica me deram alguns problemas combinat√≥rios para resolver. N√≥s j√° hav√≠amos¬† tido aulas sobre l√≥gica, envolvendo tabelas de verdade elementares- tabelas de verdade, argumentos simples e afins – e eu achei muito impressionante como combinat√≥ria e l√≥gica tinham m√©todos semelhantes. Isso influenciou bastante minha carreira, e o que investigo ainda hoje.

Na verdade, essa espanto positivo j√° era¬† reflexo de algo muito interessante que havia na casa dos meus pais, quando eu era menino: havia dois lindos guarda-roupas antigos num quarto, um em frente ao outro, cada um com um grande espelho de cristal. Quando algu√©m se colocava no meio, via-se. uma imagem refletida na outra, indefinidamente, at√© o “infinito”… Nunca vi uma melhor imagem do infinito do que essa. A ci√™ncia n√£o sabe se o universo √© finito ou n√£o. N√£o h√° representa√ß√Ķes √≥bvias do infinito. Mas dois bons espelhos paralelos d√£o uma √≥tima ideia. Qualquer um pode tentar!

De repente, na aula chuvosa de matemática, tudo fez sentido. O jogo dos espelhos encontrava uma formulação matemática na indução aritmética. Decidi estudar isso e as coisas ligadas a isso para sempre!

Tamb√©m t√≠nhamos nos bons tempos do Col√©gio Culto √† Ci√™ncia em Campinas, muita geometria e desenho geom√©trico resolvendo problemas com linhas, planos, tri√Ęngulos, etc. A principal dica – isso levou anos para eu entender – era¬† sempre ‚Äúsuponha o problema resolvido, e a partir da√≠ resolva-o‚ÄĚ. Funcionava¬† em muitos casos, n√£o sempre, mas eu estava sempre intrigado: como voc√™ pode supor um problema resolvido e, em seguida, resolv√™-lo? E se fosse em princ√≠pio n√£o solucion√°vel? O professor n√£o sabia porqu√™ isso funcionava, Mais tarde, muito mais tarde, eu conheci o m√©todo anal√≠tico de Pappus de Alexandria (290 – 350), que inspirou Newton e Descartes entre outros. Parece misterioso, ligado de alguma forma √† auto-refer√™ncia a ao infinito, que apenas mentes mais elevadas poderiam realmente entender. Eu decidi, muito imodestamente como costuma ser a juventude (felizmente), estar mais perto das mentes mais elevadas estudando matem√°tica.

The Reasoner, ZW: Grande parte da sua pesquisa tem sido em lógica paraconsistente. Como você vê a relação entre a lógica clássica e a lógica não-clássica?

WAC: Eu acho que a express√£o “l√≥gica cl√°ssica” n√£o √© mais do que uma “fa√ßon de parler“. A l√≥gica formal ou simb√≥lica como um todo √© apenas um modelo matem√°tico da linguagem natural e do racioc√≠nio, quer incorpore ou n√£o quaisquer ferramentas ou teorias que carregam o r√≥tulo ‚Äún√£o cl√°ssico‚ÄĚ. N√£o h√° rivalidade entre “l√≥gica cl√°ssica” e ‚Äúl√≥gicas n√£o cl√°ssicas‚ÄĚ. O que √© ‚Äď impropriamente – chamado por muitas pessoas ‚Äúl√≥gica cl√°ssica ‚ÄĚ √© simplesmente uma cole√ß√£o de princ√≠pios e leis herdados de Arist√≥teles. Mas a l√≥gica aristot√©lica e l√≥gica moderna, na tradi√ß√£o de Frege, Russell, Whitehead, Wittgenstein, etc., n√£o coincidem. Uma diferen√ßa substancial, entre outras, √© que a l√≥gica aristot√©lica e a l√≥gica moderna diferem fortemente na quest√£o da importa√ß√£o existencial. Acho que n√≥s podemos nos referir √† l√≥gica tradicional como uma contrapartida da l√≥gica moderna, e a l√≥gica contempor√Ęnea √© melhor vista como l√≥gica universal.

The Reasoner, ZW : Ent√£o tudo √© apenas “l√≥gica”, se visto de uma perspectiva suficientemente alta?

WAC: Se h√° alguma coisa que mere√ßa o nome “l√≥gica cl√°ssica”, √© a l√≥gica considerada adequada para as necessidades da maioria da matem√°tica. A matem√°tica, pelo menos em sua pr√°tica, n√£o envolve o passado ou tempos futuros, nem hermen√™utica, nem racioc√≠nio contra factual, adv√©rbios, modalidades, adjetivos, graus, etc. Outras √°reas n√£o t√£o imunes a perspectivas e interpreta√ß√Ķes filos√≥ficas, podem exigir distin√ß√Ķes mais sutis – e esse √© o ponto¬† onde surgem as chamadas ‚Äúl√≥gicas n√£o cl√°ssicas‚ÄĚ.

Mas depois de tudo, as l√≥gicas ‚Äún√£o-cl√°ssicas‚ÄĚ acabam se revelando aplic√°veis √† matem√°tica. √Č um ponto de vista filos√≥fico que justifica a matem√°tica intuicionista e construtiva, a chamada matem√°tica inconsistente, as teorias de conjunto paraconsistentes, as teorias de conjuntos difusos, etc.

No limite, novos objetos matem√°ticos beneficiam-se quando a distin√ß√£o cl√°ssica/ n√£o cl√°ssica √© deixada para tr√°s: √© bem conhecido que existem “topoi” (na teoria. dos¬† topos) que n√£o verificam a lei do terceiro exclu√≠do, e o matem√°tico que entende essa vis√£o contempor√Ęnea n√£o se sente desconcertado.

The Reasoner, ZW : Eu posso ver esse ponto de vista refletido em alguns de seus trabalhos. Você pode nos falar sobre as Lógicas da Inconsistência Formal (LFIs)?

WAC: Eu trabalhei, com colegas como Marcelo Coniglio e estudantes de doutorado √† √©poca como o agora professor Jo√£o Marcos¬† na formaliza√ß√£o da distin√ß√£o entre consist√™ncia e n√£o-contradi√ß√£o, o que levou √†s LFIs. Em termos sint√°ticos, isso √© feito simplesmente adicionando as no√ß√Ķes meta-te√≥ricas de consist√™ncia e inconsist√™ncia no n√≠vel da linguagem objeto, adicionando √† linguagem novos conectivos com o significado pretendido de ‚Äú√© consistente‚ÄĚ e ‚Äú√© inconsistente‚ÄĚ, e alguns axiomas relacionando as no√ß√Ķes de consist√™ncia e inconsist√™ncia com a nega√ß√£o e a contradi√ß√£o.

Um conceito mais amplo de paraconsist√™ncia surge da√≠, o qual incorpora v√°rios outros: apenas uma contradi√ß√£o sobre um assunto consistente leva √† explos√£o. Uma contradi√ß√£o sobre algo que n√£o temos certeza se se comporta de forma consistente, n√£o causa qualquer explos√£o dedutiva. Isso torna a l√≥gica paraconsistente completamente livre de quaisquer suposi√ß√Ķes metaf√≠sicas como objetos contradit√≥rios reais existentes no mundo, ou de qualquer influ√™ncia de Hegel. N√£o √© contr√°rio a Arist√≥teles, quando levamos a s√©rio seu famoso coment√°rio sobre acreditar em contradi√ß√Ķes no Livro őď da Metaf√≠sica: n√≥s podemos dizer as palavras, mas n√£o podemos realmente acreditar no que estamos dizendo.

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Walter Carnielli¬† √© Professor Titular do Departamento de¬† Filosofia da Unicamp. Membro e ex-diretor do Centro de L√≥gica, Epistemologia e Hist√≥ria da Ci√™ncia da Unicamp. Sua pesquisa atual envolve as rela√ß√Ķes entre l√≥gica,¬† probabilidade e racionalidade. Ganhador da Medalha Telesio-Galilei e Pr√™mio Jabuti.

Ascensão e queda da ciência brasileira

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana √© Ci√™ncia e Pol√≠tica. Hoje quem escreve √© Luciano Queiroz, cientista, bi√≥logo, divulgar de ci√™ncia no Drag√Ķes de Garagem e pr√©-candidato a deputado estadual pelo PT/SP.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

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‚ÄúO n√ļmero de mestres e doutores formados no Brasil aumentou mais de cinco vezes (401%) desde 1996‚ÄĚ, √© assim que come√ßa a mat√©ria do jornalista Herton Escobar do dia 05 de julho de 2016. Esse n√ļmero nos diz muito e devemos analisar com calma.

Quero demonstrar que o aumento no n√ļmero de cientistas indica a ascens√£o da ci√™ncia brasileira em um primeiro momento e, como isso est√° se tornando um fardo, contribuindo para queda.

A maior parte da ci√™ncia brasileira √© feita dentro das universidades p√ļblicas. Bolsas de mestrado e doutorado, projetos de pesquisa e investimento em infraestrutura s√£o responsabilidades de dois minist√©rios Educa√ß√£o (MEC) e Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o (MCTI).

Os or√ßamentos de ambos os minist√©rios cresceram nesse mesmo per√≠odo e podemos dizer que o aumento no n√ļmero de mestres e doutores formados √© um reflexo desse aumento. Outro indicativo da ascens√£o da ci√™ncia brasileira foi o aumento no n√ļmero de publica√ß√Ķes em revistas cient√≠ficas. Aumento esse muito discutido nos √ļltimos anos por ser apenas em quantidade e n√£o em qualidade (dados mais detalhados aqui e aqui).

Esse crescimento foi cont√≠nuo at√© 2013 quando come√ßou a diminuir, vieram elei√ß√Ķes, crise econ√īmica e golpe parlamentar. Desde ent√£o, a maioria das not√≠cias que lemos sobre ci√™ncia e tecnologia cont√™m palavras como ‚Äúcortes‚ÄĚ, ‚Äúcontingenciamento‚ÄĚ, ‚Äúperda de recursos‚ÄĚ, ‚Äúdesmonte‚ÄĚ, etc. E, acompanhando os gr√°ficos do or√ßamento, inicia-se a queda da ci√™ncia brasileira.

Pretendo n√£o me aprofundar muito nos sucessivos cortes – iniciados ainda no governo Dilma, aproveitando para fazer aqui minha autocr√≠tica como petista – porque j√° dedicamos muito esfor√ßo para apont√°-los √† sociedade. Algo que j√° est√° ficando cansativo at√© para mim. Temos que avan√ßar na discuss√£o, temos que pensar solu√ß√Ķes pr√°ticas e agir.

A primeira coisa que devemos fazer é entender as consequências da nossa queda. E vale uma observação, na ciência, assim como em outras áreas, os efeitos são sentidos à médio e longo prazo.

Mesmo com os cortes, grupos de pesquisa ainda tinham projetos aprovados, recursos disponíveis e a maioria dos alunos possuíam suas bolsas de pesquisa. Vamos dizer que essa era a gordura que tínhamos para queimar, só que ela está acabando.

As universidades p√ļblicas brasileiras est√£o em uma situa√ß√£o grav√≠ssima, depois de termos experimentado a maior expans√£o do ensino superior p√ļblico com o REUNI, constru√ß√£o de centenas de universidade e institutos federais em todo o Brasil e aumento no n√ļmero de vagas de professores (entende-se: cientista, pesquisador, docente, administrador, adicione mais uma fun√ß√£o a sua escolha) e alunos. O efeito dos cortes, somado a emenda constitucional do teto de gastos (PEC do Fim do Mundo), est√° come√ßando a ser sentido com maior intensidade.

Diversas universidades estão tendo que cortar despesas com serviços de manutenção. A Universidade Federal do ABC (UFABC), como aponta matéria do G1, reduziu os contratos realizados com empresas terceirizadas para segurança e zeladoria, além de desligar os elevadores. Mas não só as universidades federais estão passando por isso, a UERJ está em situação muito mais complicada há mais tempo. Só para ficarmos em alguns exemplos.

Talvez voc√™ n√£o saiba, mas os alunos de p√≥s-gradua√ß√£o s√£o a principal m√£o de obra da ci√™ncia no mundo. Estamos passando pelo processo de forma√ß√£o cient√≠fica, realizamos nossos estudos que normalmente comp√Ķem um projeto maior do orientador. As publica√ß√Ķes com pequenas ou grandes descobertas, patentes e ideias s√£o frutos dos trabalhos realizados pelos alunos sob supervis√£o do orientador (mentor cient√≠fico).

Com os cortes, o interesse dos alunos pela carreira cient√≠fica tende a diminuir, mesmo porque os incentivos (bolsa de estudos, coloca√ß√£o no mercado) tamb√©m diminu√≠ram. Resumindo, o n√ļmero de alunos saindo da p√≥s-gradua√ß√£o est√° maior do que os que entram. E para onde eles est√£o indo? Alguns conseguem ocupando vagas em universidades p√ļblicas e privadas, apesar da diminui√ß√£o da oferta dessas vagas, outros v√£o para doc√™ncia no Ensino B√°sico ou, na pior das hip√≥teses, mudam de profiss√£o. Mas quero focar em um destino que tem me preocupado um pouco mais.

Esse destino j√° foi apontado pelo Cl√°udio √āngelo no texto ‚ÄúQuem matou a ci√™ncia brasileira?‚ÄĚ como a Op√ß√£o Bol√≠var (eu inventei esse nome). Citando o Cl√°udio √āngelo, ‚Äú√© fazer o que Simon Bol√≠var recomendou no fim da vida que se fizesse na Am√©rica: emigrar‚ÄĚ. Outros t√™m dito que o melhor caminho para o cientista brasileiro √© o aeroporto. E √© aqui que o aumento no n√ļmero de mestres e doutores se tornou um fardo.

Isso me preocupa porque fizemos um investimento grande (recursos) e longo (tempo), foram mais de 10 anos formando cientistas, enviando vários deles para o exterior a fim de se especializar e retornarem para o Brasil. Deixar que essa massa crítica vá embora é lamentável, não podemos forçá-los a ficar, mas mostra como a política influencia diretamente na vida do cientistas e, consequentemente, na sociedade como um todo que não terá o conhecimento daquele cientista a sua disposição. Além de perdemos o investimento financeiro, perdemos a pessoa.

E de onde vem a solu√ß√£o? Seria muito bom se tivesse uma resposta simples e direta para isso, mas n√£o tenho. A √ļnica solu√ß√£o a m√©dio e longo prazo que vejo √© o nosso envolvimento do pol√≠tica. Todos esses eventos de cortes e contingenciamentos acontecerem e n√≥s cientistas n√£o conseguimos responder a altura, ficamos esperando por um ‚Äúlogo melhora‚ÄĚ e acreditamos em promessas furadas. No fundo, espero que tudo isso sirva, e estou trabalhando nesse sentido, para que comecemos a criar uma identidade coletiva a partir dessa massa disforme de pessoas.

A pol√≠tica faz parte das nossas vidas e por mais que o tempo seja curto, que tenhamos reuni√Ķes longas e burocr√°ticas, que o prazo para entrega do relat√≥rio esteja chegando, que os experimentos n√£o est√£o dando certo‚Ķ n√≥s devemos participar da pol√≠tica. Nossa aus√™ncia est√° cobrando caro.

Talvez a queda da ci√™ncia brasileira seja apenas um decl√≠nio moment√Ęneo e logo voltamos a crescer, mas temos muito trabalho pela frente. Li uma frase ontem que resumiu bem meu sentimento, ‚ÄúNenhum pa√≠s ter√° futuro melhor se n√£o constru√≠-lo no presente‚ÄĚ. A ci√™ncia faz parte desse pa√≠s, desse futuro e presente.

luciano

Luciano Queiroz √© cientista, bi√≥logo, divulgar de ci√™ncia no Drag√Ķes de Garagem e pr√©-candidato a deputado estadual pelo PT/SP.

Quem matou a ciência brasileira?

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana √© Ci√™ncia e Pol√≠tica. Hoje quem escreve √© Claudio Angelo, dispensa maiores apresenta√ß√Ķes uma vez que ele escreve no Curupira, blog do Science Blogs Brasil.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

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Rodrigo trabalhou de gar√ßom e faz bicos depois do p√≥s-doc na Inglaterra. Jefferson perdeu dez alunos e quatro p√≥s-doutorandos porque n√£o tinha como pag√°-los. Sidarta racha com outros professores a conta de internet de seu laborat√≥rio numa universidade federal. Sergio viu alunos irem embora do Brasil porque n√£o consegue manter a col√īnia de camundongos transg√™nicos da qual dependiam as teses deles. Jos√© Antonio n√£o tem para comprar reagentes. Ronald precisou escolher entre demitir pessoas e cancelar contratos de manuten√ß√£o de equipamentos sofisticados ‚Äď optou pela segunda.

Essas s√£o hist√≥rias reais, de cientistas brasileiros reais. Algumas delas me foram narradas pelos pr√≥prios. Qualquer pesquisador ou aluno de p√≥s do Brasil hoje tem um conto de terror para relatar, como testemunha ou como v√≠tima. Quem n√£o chegou ontem de J√ļpiter sabe que a ci√™ncia brasileira enfrenta o que talvez seja sua maior crise, que n√£o h√° solu√ß√£o √† vista e que os efeitos do tombo no desenvolvimento cient√≠fico, tecnol√≥gico e econ√īmico do pa√≠s ser√£o sentidos por muitos anos no futuro.

N√£o √© o caso de entrar nos detalhes num√©ricos aqui, mas o or√ßamento do Minist√©rio da Ci√™ncia, Tecnologia em seu auge, em 2010, era de cerca de R$ 9 bilh√Ķes. Em 2017 ele caiu para metade disso ‚Äď uma das propostas or√ßament√°rias feitas naquele ano correspondia a um ter√ßo desse valor. Em 2018, num requinte de crueldade, 10% dos R$ 4 bilh√Ķes or√ßados ainda foram congelados. Considere, ainda, que essa farinha pouca ainda precisa ser dividida com o pir√£o das Comunica√ß√Ķes ‚Äď e que a PEC do Teto inviabiliza recupera√ß√£o or√ßament√°ria significativa pelos pr√≥ximos 19 anos.

Como tudo no Brasil, esse or√ßamento vai sendo emendado por meio de cambalachos sucessivos: descongela um tico aqui, faz um decreto de suplementa√ß√£o ali. √Č uma esp√©cie de waterboarding financeiro: antes de a v√≠tima morrer voc√™ tira a cabe√ßa dela da √°gua, para ela respirar um pouco e agradecer por estar viva antes de mergulhar de novo. Esses remendos t√™m mantido as universidades e institutos de pesquisa (Uerjs da vida fora) mais ou menos funcionais, ao mesmo tempo em que d√£o a nossos distintos doutores e doutoras a ilus√£o de que ainda n√£o √© hora de fechar estradas, se imolar em pra√ßa p√ļblica ou invadir Bras√≠lia e quebrar a porra toda. M√° not√≠cia, amigues: essa hora j√° passou faz tempo.

Como o nosso empresariado ‚Äď que cresceu mamando no Estado e cujos l√≠deres hoje aplaudem Jair Bolsonaro e insinuam que canudo pl√°stico em est√īmago de baleia √© arma√ß√£o de ambientalista ‚Äď √© notoriamente avesso a investir em pesquisa e desenvolvimento, a ci√™ncia est√° √† merc√™ dos recursos federais e dos Estados que ainda t√™m ag√™ncias de fomento fortes (N=1). Quando a Uni√£o sai de cena, a ci√™ncia desmonta.

Excluindo os relatos aned√≥ticos sobre fuga de c√©rebros e uns dados preliminares quase dois anos atr√°s do Rog√©rio Meneghini, da Scielo, sobre queda na produ√ß√£o cient√≠fica, ainda n√£o vi nenhuma avalia√ß√£o sistem√°tica do preju√≠zo estrutural da crise sobre a pesquisa no Brasil. Mas essa conta vir√°, por quest√£o de simples aritm√©tica. O sistema cresceu muito durante a bonan√ßa da era Lula. Portanto, o tombo, causado principalmente (mas n√£o s√≥) pela Grande Recess√£o Brasileira (ela merece a grafia em caixa alta), √© maior do que as pinda√≠bas anteriores. No que isso d√° todo mundo sabe: menos pesquisadores igual a menos papers igual a menos quest√Ķes relevantes para o pa√≠s sendo abordadas igual a menos desenvolvimento, menos inova√ß√£o, menos dinheiro, menos bem-estar social, num c√≠rculo dif√≠cil de quebrar. O Brasil n√£o conseguir√° assegurar uma recupera√ß√£o econ√īmica duradoura sem um sistema de C&T restaurado.

Mas que fazer, al√©m de assaltar uns bancos? Esta √© a pergunta de 9 bilh√Ķes de reais. Talvez um bom come√ßo seja escapar da armadilha do punitivismo.

Nossa polariza√ß√£o pol√≠tica atual n√£o resiste a procurar culpados. Enquanto esquerda e direita brigam para saber quem bateu no iceberg, o conv√©s vai alagando. Muita gente de bem insiste em que a culpa √© do vampir√£o, o ‚Äúgolpista‚ÄĚ que aprovou a PEC do teto e extinguiu o MCTI. Esse povo se esquece de que a crise foi gestada por Dilma, A Breve. Mas talvez, cavando bem, suas ra√≠zes sejam encontradas em seu apogeu, na era Lula.

Ou, o que √© menos gostoso de ouvir, talvez quem matou a ci√™ncia brasileira de fato tenhamos sido eu e voc√™. Por omiss√£o. Ao eleger sucessivos governos sem uma plataforma consistente para a ci√™ncia. Ao permitir que o MCTI tenha sempre entrado na barganha pol√≠tica como um minist√©rio de consola√ß√£o para os partidos m√©dios da base. Ao deixar de ir para a rua contra o verdadeiro golpe ‚Äď o mais insidioso, pois mina nossa perspectiva de futuro, e o mais dif√≠cil de comunicar √† popula√ß√£o, porque, afinal, quem se importa com meia-d√ļzia de laborat√≥rios ‚Äď porque simpatizamos com tal partido ou odiamos o outro.

Na real, nada disso importa mais. Outubro vem aí, e o que fazer com o cadáver da ciência brasileira (entre os outros que se acumulam no morgue de ideias nacional) é essencialmente um não-assunto. Eu adoraria dizer os candidatos estão em silêncio porque estão dedicados à tarefa mais urgente de impedir uma escalada fascista no Brasil. Mas não: o sistema político e a imprensa estão presos ao loop de discutir quem vai levar o apoio do Centrão.

As urnas s√£o o locus prim√°rio de resist√™ncia e retomada, mas h√° dois problemas: um, o sistema representativo est√° estragado; dois, o principal foco de crise, o Congresso, tende a ter uma renova√ß√£o muito baixa devido √† engenhosidade maligna da minirreforma pol√≠tica. Candidaturas de cientistas s√£o uma excelente novidade e precisam ser fomentadas de toda forma, mas, mesmo na eventualidade de triunfarem, formar√£o mais uma bancada marginal numa C√Ęmara convertida em balc√£o de neg√≥cios. √ďbvio que isso √© melhor que nada.

De pr√°tico e no curto prazo, restam dois caminhos. Um √© a desobedi√™ncia civil em massa, que me foi aventada em 2016 por um cientista s√™nior (o que se viu em vez disso foi meia-d√ļzia de protestos comportadinhos dentro dos campi). Deu certo com os caminhoneiros, mas, francamente, o sex appeal deles √© muito maior. O outro √© fazer o que Simon Bol√≠var recomendou no fim da vida que se fizesse na Am√©rica: emigrar. Parece derrotismo, e √©. Mas talvez a di√°spora brasileira acumule massa cr√≠tica no exterior a ponto de facilitar o acesso de brasileiros a grupos de pesquisa globais em algum momento no futuro.

Não chega a ser um consolo, mas é o que temos para hoje.

claudioangelo

Claudio Angelo, é autor de A Espiral da Morte Рcomo a humanidade alterou a máquina do clima, vencedor do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática e tem o blog Curupira no ScienceBlogs Brasil.

Conflito e Governo

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Ricardo de João Braga, atualmente cursando mestrado em Democracia (Roads to Democracy) na Universidade de Siegen, na Alemanha.

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¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Conflitos s√£o inerentes √†s sociedades humanas e, devido √† sua presen√ßa permanente e principalmente aos seus efeitos muitas vezes danosos, foram objeto de reflex√£o permanente ao longo dos s√©culos. Conflitos ocorrem devido a disputas por recursos materiais escassos, por valores ¬≠‚Äď defini√ß√£o do que √© certo, bom, justo, etc. ‚Äď ou pela liberdade ‚Äď defini√ß√£o das esferas da vida submetidas ao coletivo ou independentes dele. Um conflito pode surgir porque ningu√©m √© t√£o fraco e o outro t√£o forte que alguma forma de a√ß√£o ou verbaliza√ß√£o n√£o possa ser manifestada. Conflitos relacionam-se √† viol√™ncia, ao poder e ao governo.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Op√Ķem-se ao conflito a ordem ou a harmonia. Nos extremos das possibilidades situam-se o ‚Äúestado de natureza‚ÄĚ ca√≥tico de Hobbes (escritor ingl√™s do s√©c. 17), onde o ‚Äúhomem √© o lobo do homem‚ÄĚ, isto √©, cada indiv√≠duo √© amea√ßado mortalmente por cada um dos seus pr√≥ximos, e no outro oposto, da absoluta ordem, o Admir√°vel Mundo Novo de Aldous Huxley (tamb√©m ingl√™s, mas do s√©c. 20), com sua ordem radical e f√ļnebre.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† A reflex√£o sobre o conflito, e suas extens√Ķes a governo, poder, autoridade, etc., diminui nossa ingenuidade sobre as rela√ß√Ķes pol√≠ticas e sociais, e em alguma medida aumenta nossos recursos de conviv√™ncia e avalia√ß√£o de alternativas pol√≠ticas.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O mote da semana, Ci√™ncia e Pol√≠tica, aqui ganha uma qualifica√ß√£o importante. A hist√≥ria da reflex√£o sobre o conflito n√£o apresenta propriamente uma avalia√ß√£o cient√≠fica no sentido moderno do termo, o qual pretende limitar-se √† an√°lise de fatos e objetos sem perspectivas de valor. De fato, a reflex√£o sobre conflito surgiu muito antes da concep√ß√£o moderna de ci√™ncia. Contudo, isto n√£o diminui o valor de tais reflex√Ķes. Em primeiro lugar tais reflex√Ķes basearam-se em boa medida na observa√ß√£o da realidade por homens de g√™nio e extrema habilidade discursiva (em geral s√£o grandes escritores), mas mais importante, ideias, argumentos e modelos criados nestas reflex√Ķes influenciaram a pr√°tica dos homens p√ļblicos ao longo dos s√©culos e ainda hoje. Assim, aqui se apresentam alguns marcos desta reflex√£o. Vamos a eles.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Plat√£o, no s√©c. 4 a.C., prop√īs a cria√ß√£o de uma sociedade harmoniosa, baseada numa r√≠gida divis√£o de tarefas. A sociedade seria governada por um pequeno grupo de ‚Äúreis fil√≥sofos‚ÄĚ que considerariam as necessidades da sociedade como um todo, atendendo somente a ela. Conflito para Plat√£o equivaleria a uma doen√ßa da sociedade, a uma divis√£o de vontades, vis√Ķes, valores.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Maquiavel, florentino do s√©c. 16, compreendia a sociedade como imersa no caos e sofrendo por isso toda sorte de mazelas. O criador da ordem seria o pr√≠ncipe afortunado e virtuoso, fundador do estado e da ordem. Fortuna aqui equivaleria ao toque gracioso da sorte, e virtuoso entende-se no sentido pol√≠tico, n√£o religioso. O bom pr√≠ncipe deveria saber usar a for√ßa e a ast√ļcia a fim de conquistar e manter o poder. Paradoxalmente, o afortunado e virtuoso pr√≠ncipe funda a ordem e p√Ķe fim ao conflito, contudo, o caos cria-se pois todos os seres humanos, potencialmente, det√™m esse germe da busca do poder, e muitos debatem-se por ele. Assim, os potenciais pr√≠ncipes criam o conflito, e o vencedor entre eles instaura a ordem.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Rousseau, genebrino do s√©c. 18, proclamava que n√£o deveria haver conflito entre os homens, se estes compreendem-se apropriadamente o mundo pol√≠tico. Todas as pessoas, para ele, deveriam se unir em torno da ‚Äúvontade geral‚ÄĚ. Esta ideia expressa o real interesse de todas as pessoas e det√©m uma superioridade metaf√≠sica. Difere da aglutina√ß√£o das vontades individuais, pois caso algu√©m tenha opini√£o diferente da vontade geral, diante de sua presen√ßa esta pessoa converter-se-ia a ela, compreendendo que incorria em erro em sua posi√ß√£o individual. Assim, como em Plat√£o, conflito aqui teria uma conota√ß√£o patol√≥gica.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Montesquieu, franc√™s tamb√©m do s√©c. 18, temia sobretudo os abusos do poder. Para ele, conflitos s√£o inerentes √†s sociedades humanas reais, e n√£o haveria como suprimi-los. O que se deveria buscar, sim, era controlar os conflitos. Poder demais num conflito poderia destruir tudo que √© valioso aos homens ‚Äď vida, liberdade. Sua famosa solu√ß√£o √© a divis√£o de poderes, a ideia de que o poder apenas det√©m-se diante de poder, e por isso sua divis√£o no estado entre Executivo, Legislativo e Judici√°rio ofereceria a saud√°vel solu√ß√£o. Os poderes de um estado confrontar-se-iam frequentemente, mas ningu√©m seria absoluto e desta forma encontraria limites as suas a√ß√Ķes. Esta preocupa√ß√£o com os limites do poder √© o germe do liberalismo.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Quando da aprova√ß√£o da Constitui√ß√£o dos EUA no final do s√©c. 18, tr√™s homens p√ļblicos envolvidos no processo constituinte lan√ßaram 85 artigos na imprensa a fim de explicar e granjear apoio para sua ratifica√ß√£o. Eram James Madison, Alexander Hamilton e John Jay. Leitores de Montesquieu, compreendiam o conflito como inerente √† sociedade, e o grande perigo a ser evitado era a concentra√ß√£o de poder, pois concentrado ele poderia trazer danos absolutos. A solu√ß√£o encontrada foi a divis√£o dos poderes no sentido horizontal, como j√° prescrevera Montesquieu, entre Executivo, Legislativo e Judici√°rio, e tamb√©m no sentido vertical, prescrevendo a federa√ß√£o, com poderes nacional, estadual e local. Assim, por mais que as pessoas diferenciassem-se, detivessem interesses distintos e fossem propensas ao conflito, a aus√™ncia de um poder majorit√°rio ‚Äď pois haveria um sem n√ļmero de fac√ß√Ķes ‚Äď impediria a domina√ß√£o de v√°rios grupos por um mais forte.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Marx, alem√£o do s√©c. 19, via a sociedade humana desolada sob uma radical explora√ß√£o, os capitalistas dominariam os prolet√°rios. Neste quadro, uma infinidade de conflitos surgiria, motivados pelas justas raz√Ķes dos que n√£o desejam ser oprimidos rebelarem-se contra os opressores. Contudo, no horizonte de Marx encontrava-se uma sociedade que haveria superado os conflitos, superado as classes, onde o proletariado venceria os conflitos e mudaria o mundo. Neste mundo ideal n√£o existiria conflito pois a verdade do desenvolvimento hist√≥rico seria incontorn√°vel, todos seriam iguais. Estas ideias s√£o a base do comunismo cient√≠fico, segundo Marx, e do comunismo real, aplicado em grande n√ļmero de pa√≠ses posteriormente a ele.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O s√©culo XX, experimentando a ascens√£o pol√≠tica das massas populares como nunca antes na hist√≥ria, viu crescer nos extremos ideol√≥gicos duas solu√ß√Ķes id√™nticas para os conflitos. √Ä direita o fascismo e o nazismo, √† esquerda o comunismo. Tais regimes visavam suprimir o conflito ao controlar todas as esferas da vida de cada cidad√£o. Acima de tudo estava o partido, a classe dirigente, e abaixo as massas submetiam todas suas a√ß√Ķes, manifesta√ß√Ķes e pensamentos a eles. Deu-se a isso o nome de regimes totalit√°rios, pois controlavam totalmente os indiv√≠duos.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Entre os extremos postou-se a democracia liberal representativa de nossos tempos. Para ela, o conflito √© inerente √† sociedade, mas deve ser controlado ¬≠‚Äď uma retomada das posi√ß√Ķes de Montesquieu e outros liberais. Acreditava-se numa pluralidade de grupos, indiv√≠duos, cren√ßas e posicionamentos na sociedade, mas estes por um lado deveriam controlar-se na esfera pol√≠tica pela grande dispers√£o, e na esfera jur√≠dica pela garantia de direitos b√°sicos do indiv√≠duo que n√£o poderiam ser suprimidos, como liberdade de express√£o, opini√£o, cren√ßa, etc. Na democracia liberal representativa, delimita-se uma esfera de conflitos poss√≠veis e controlados e outra de direitos individuais resguardados pela Justi√ßa.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Contemporaneamente, contudo, esta perspectiva de democracia liberal representativa foi questionada. Sua limita√ß√£o √†s elei√ß√Ķes como mecanismo √ļnico de participa√ß√£o pol√≠tica levaria ao recrudescimento de conflitos em casos de alto questionamento, como sociedades com clivagens sociais, culturais, √©tnicas importantes. Al√©m disso, brotam in√ļmeros questionamentos ao estado pelos resultados que estas democracias entregam aos cidad√£os, vistos como aqu√©m ao desejado e que assim deslegitimam o sistema pol√≠tico.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Diante dos problemas da democracia liberal representativa, surgiram as chamadas democracias participativa e deliberativa. Ambas, com √™nfases diferentes, enfatizam a cria√ß√£o e expans√£o de inst√Ęncias de di√°logo, livres e igualit√°rias, que promovam a cria√ß√£o de ideias e aproxima√ß√£o de posi√ß√Ķes entre os participantes. Os conflitos, aqui, deveriam diluir-se diante da pr√°tica do reconhecimento dos argumentos racionais, do valor do outro, e da conviv√™ncia, mas sem submeter o indiv√≠duo, e sim produzindo-se nele a concord√Ęncia livre, racional e aut√īnoma.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Como se v√™, o conflito, na hist√≥ria, permeou esta outra inescap√°vel realidade humana, a constitui√ß√£o de governos. Alguns objetivaram suprimir o conflito nivelando a todos, outros criando categorias estanques de governantes e governados. O conflito, contudo, tamb√©m foi aceito, e as solu√ß√Ķes passaram por dividir os grupos para que fosse imposs√≠vel surgirem vencedores e derrotados absolutos, e tamb√©m se garantiram direitos que deveriam ser resguardados de todos os conflitos, os direitos individuais. Por fim, atualmente, com a primazia do indiv√≠duo no mundo contempor√Ęneo e uma no√ß√£o mais radical de autodetermina√ß√£o, al√©m da presen√ßa dos mecanismos liberais cl√°ssicos de divis√£o de poderes e resguardo de direitos b√°sicos, busca-se a constru√ß√£o de solu√ß√Ķes de conv√≠vio que sejam livres e aut√īnomas. Para isso, os cidad√£os precisam compreender-se tanto como diferentes, postados em posi√ß√Ķes distintas com interesses e vis√Ķes diversos, quanto interdependentes e associados no destino de todos e de cada um. Assim, nada mais √ļtil para podermos cumprir bem nosso papel neste mundo cada vez mais complexo do que entender o que j√° se pensou sobre o conflito e o que se fez e faz para lidar com ele.

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Ricardo de João Braga tem graduação em economia, mestrado e doutorado em Ciência Política. Atualmente cursa mestrado em Democracia (Roads to Democracy) na Universidade de Siegen, na Alemanha.