Richard Preston fala de jornalismo científico como literatura

Tapeçaria “O Unicórnio em Cativeiro”, 1495-1505, da coleção The Cloisters, Nova YorkTapeçaria "O Unicórnio em Cativeiro", 1495-1505, da coleção The Cloisters, Nova York

Uma aula para o escritor iniciante interessado em ciência é a entrevista que Richard Preston concedeu a Carl Zimmer. Confira na íntegra, no blog de Zimmer, The Loom.

Preston coemça dizendo que o que o interessa na ciência e o que ele precebe que também move os cientistas com quem conversou não é a mera compilação de fatos e teorias sobre o mundo. “Ciência tem haver a ver com mistério, com portas que nunca foram abertas e coisas que nunca foram antes vistas.”

Na marca dos 19 minutos de conversa, mais ou menos, Zimmer comenta que o novo livro de Preston, Panic Level 4, além de ser uma compilação de textos publicados originalmente na revista The New Yorker, pode ser lido como “o retrato de um escritor de ciência”. Zimmer então pergunta à Preston como ele se interessou por escrever sobre ciência. Preston conta que, enquanto completava seu doutorado em literatura na Universidade de Princeton, resolveu assitir ao curso de graduação “A Literatura do Fato”, ministrado por John McPhee. Preston se apaixonou pela própria noção de nonfiction writing, e percebeu o potencial de explorar por meio desse gênero literário os recantos mais obscuros e profundos da existência humana. Resolveu também dar vazão a sua antiga paixão pela ciência, escolhendo assuntos científicos.

Aos 26 minutos, Preston explica como a partir de suas entrevistas consegue construir uma narrativa no estilo dos diálogos interiores de James Joyce. Zimmer quer saber qual é o segredo para penetrar tão profundamente na mente dos entrevistados. “Carl, eu sou que nem a KGB, sem a tortura física. É uma questão de entrevistar, re-entrevistar e re-entrevistar…”

Zimmer e Preston se queixam da indisposição de muitos cientistas em falar sobre experiências pessoais, mesmo com relação ao trabalho.

Na coletânea Panic Level 4 há duas reportagens disponíveis para ler de graça no site da revista The New Yorker.

A mais recente, de 2005, “Capturing the Unicorn”,conta a história da restauração e documentação fotográfica da tapeçaria Unicórnio em Cativeiro. Para juntar corretamente o mosaico de fotos digitais de alta reolução da tapeçaria, os curadores do museu procuram os irmãos Chudnovsky, um par de gênios matemáticos que usa seu supercomputador para reconstituir a estrutura tridimensional do entrelaçamento dos fios da tapeçaria. Ao entrelaçar narrativas, descrições e explicações científicas, Preston provoca ressonâncias de emoções, sensações, idéias e símbolos por todo o texto, fazendo dele mesmo uma intrincada tapeçaria.

Os irmãos Chudnovsky foram também os protagonistas da reportagem “Mountains of Pi“, publicada em 1992. Embora não ache a forma do texto tão envolvente quanto a do Unicórnio, que escritor não venderia a alma para começar uma reportagem com a frase “Gregory Volfovich Chudnovsky recently built a supercomputer in his apartment from mail-order parts.“?

Acompanhando a história dos irmãos matemáticos que calculam dois bilhões de algarismos do número pi em um computador na sala de estar, conhecemos os personagens e o cenário da história em primeira mão. Posso ver o corredor escuro da casa de Gregory Chudnovsky, sem uma foto sequer ilustrando o artigo, e, em seguida, aprender mais sobre números transcendentais do que me ensinaram na graduação em física na USP.

A história dos irmãos Chudnovsky inspirou o excelente filme Pi, de Darren Aronofsky.

Discussão - 3 comentários

  1. massacritica disse:

    Uma dúvida… é correto escrever ´tem haver´?
    Gostei das informações sobre ´jornalismo científico como literatura´, estou colecionando informações sobre isso. 🙂

  2. Igor Zolnerkevic disse:

    Tem razão! o correto é “tem a ver com”
    Esse assunto é minha vida. Que informações são essas que está colecionando?

  3. Luis Brudna disse:

    Na verdade comecei procurar sobre isso para uma palestra que fiz sobre ´Ciência e livros´
    http://www.gluon.com.br/blog/2008/10/07/ciencia-e-livros/
    Percebi que existem mais coisas do que eu desconfiava. Mas ainda não tenho um aspecto geral dessa área.
    Acho que vou continuar antenado no assunto para (talvez) repetir a palestra na pós-grad aqui na Unipampa.

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