O Ser Paleontólogo…

“A caça aos fósseis é de longe o mais fascinante de todos os esportes. Nele, a gente acha incerteza, excitação e todo o arrepio do jogo de azar, sem nenhum dos aspectos negativos dele. (…) No próximo morro pode estar enterrada a grande descoberta. (…) Além do mais, o caçador de fósseis não mata, ele ressuscita.”

 
George Gaylord Simpson, paleontólogo norte-americano, em seu relatório de expedições pela Patagônia Argentina.
 
 
Paleontólogo é o cientista que procura entender a vida e investigar o passado geológico da Terra através dos fósseis. O estudo destes últimos pode revelar diversas questões, como a datação de estratos rochosos, a biologia e ecologia de organismos extintos, detalhes sobre ecossistemas pretéritos, padrões de distribuição biológica, a evolução dos seres vivos, a origem das espécies, as suas respostas a grandes eventos de extinção, além de questões mais práticas, como por exemplo, no que diz respeito à prospecção de reservas minerais (como o petróleo, o gás e o carvão mineral).
 
O paleontólogo, sobretudo é um apaixonado pelo que faz. É necessário muito estudo e anos de esforço para assumir a profissão. Ela é maravilhosa, mas complexa em muitos aspectos, e geralmente não é a melhor opção para quem quer ganhar muito dinheiro.
 
Em geral o paleontólogo deve ter formação superior em Biologia ou Geologia e prosseguir seus estudos no mestrado e doutorado. Os postos de trabalho não são tão variados e geralmente restringem-se a vida acadêmica como professor universitário e/ou pesquisador, consultor e curador de coleções museológicas. É comum também a contratação por empresas da área do petróleo – desde que especialização do profissional seja a Micropaleontologia – e por alguns órgãos do governo, como o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral). Muitos paleontólogos trabalham ainda com a divulgação científica e alguns em parques naturais ou áreas protegidas para valorização da Geodiversidade.
 
 
A vantagem de ser um paleontólogo é ter uma profissão diferente, imaginativa e absolutamente estimulante. A área abre oportunidades para estudar temas fascinantes e fazer descobertas. O profissional trabalha em contato com a natureza e pode viajar para locais exóticos – desde desertos a florestas tropicais do mundo todo – em busca de fósseis para estudo.
 
 
 
Todavia, a vida de um paleontólogo não é somente uma grande aventura. Depois do trabalho de campo, onde – deve-se dizer – eles trabalham arduamente para localizar e escavar os fósseis, eles vão para o laboratório, onde ficam um longo período envolvidos com a preparação, a montagem e estudo de tudo o que foi encontrado. Tudo isso para produzir um documento conclusivo, em forma de relatório ou artigo científico, que deverá ser publicado e divulgado ao público especializado e leigo.
 
A metodologia de trabalho do paleontólogo varia de acordo com os tipos de fósseis que ele pretende estudar. Sejam somatofósseis ou icnofósseis, fósseis de plantas ou animais, vertebrados ou invertebrados, e estes últimos, microscópicos ou não. De qualquer forma, sempre é um trabalho meticuloso, pautado por critérios científicos rigorosos e bem definidos, cujo objetivo final é recuperar o máximo de informação possível.
 
 
É importante lembrar que um paleontólogo não é um arqueólogo. O arqueólogo estuda especificamente evidências culturais do passado dos seres humanos, já o paleontólogo tem uma visão mais ampla, ele estuda toda a vida extinta, incluindo fósseis de humanos, porém de um ponto de vista paleobiológico.
 
Outro mito que se deve desfazer é: Não é todo o paleontólogo que estuda dinossauros. Apenas uma fração o faz. E os dinossauros, apesar de grandes, não fornecem tantas respostas quanto, por exemplo, organismos microscópicos fossilizados.
 
Pegadas de dinossauros em Sousa, PB, Brasil.
 
No campo, o paleontólogo pode passar dias sob um Sol escaldante, portanto deve estar bem preparado: acompanhado do seu fiel chapéu, protetor solar, roupas e calçados confortáveis (nada de shorts! Ele precisa se proteger de insetos e cobras!), além de muita água. Situações de acampamento são comuns e muitas vezes o banho pode ser um luxo. Os equipamentos básicos incluem uma caderneta de campo, bússola ou GPS, lupas, pincel, algum tipo de martelo geológico, além de outras ferramentas de extração (ponteiras e cinzéis) e proteção (óculos, luvas, etc.). Este material, todavia, varia com a natureza do fóssil buscado. Alguns são pequenos e delicados e outros tão grandes que precisam ser retirados na base de picaretas ou mesmo britadeiras.
 
 
Paleontólogos não saem por aí procurando fósseis em qualquer lugar. Estão munidos de mapas geológicos, que os auxiliam a guiar seus esforços de coleta, e muitas vezes contam até com estudos prévios de localidades fossilíferas, portanto já vão preparados para o tipo de fóssil que querem encontrar.
 
Os fósseis necessariamente devem ser abrigados em um museu ou instituição de pesquisa e só podem ser extraídos com autorização. Eles são propriedades da União. Não se tratam de um bem negociável. Todos os que fazem a retirada ou os que adquirem, transportam e comercializam incorrem em crime. Qualquer fóssil enviado ao exterior pela compra ilegal está em desacordo com a lei. Cabe ao DNPM a proteção e fiscalização do patrimônio fossilífero brasileiro e, sem licença expressa deste departamento, o particular que estiver explorando depósitos de fósseis estará sujeito à prisão, como espoliador do patrimônio científico nacional.
 
 
Ufa! Acredito que algumas dúvidas tenham sido retiradas com este post. A paleontologia é uma ciência e uma profissão encantadora. Se você nos acompanha é porque deve achar também! Não deixe então de seguir as nossas aventuras pela ‘Caderneta de Campo’, onde poderá conhecer de perto a emoção de ser paleontólogo. Até lá!!

>O Brasil pré-histórico era realmente dos crocodilos…

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Neste último mês, novas descobertas sobre o Cretáceo brasileiro vieram afirmar que neste período os Crocodyliformes realmente dominavam nosso país. Enquanto os dinossauros reinavam com soberania na maioria dos ecossistemas terrestres, aqui no território tupiniquim os crocodyliformes se diversificavam e ocupavam os mais diversos nichos. Desde animais com cerca de 4 metros de comprimento, ágeis e carnívoros, como o Baurusuchus, até pequenos onívoros, como o Mariliasuchus e o Adamantinasuchus. Haviam espécies escavadoras, oportunistas e até mesmo consumidoras de plantas e raízes.

Estas descobertas têm elucidado como teriam sido as relações ecológicas pretéritas do paleoambiente hoje representados pelas rochas do Grupo Bauru. As rochas do Grupo Bauru são de idade Neocretácica (Final do período Cretáceo, do Cenomaniano ao Maastrichiano, 99-65 milhões de anos atrás) e foram depositadas em um contexto continental fluvial e lacustre de clima quente e árido. Elas estão bem distribuídas nos estados de São Paulo e Minhas Gerais, mas também são encontradas no Paraná e Goiás, e até mesmo no estado do Mato Grosso. Estas rochas representam um antigo ecossistema que possuía uma diversificada fauna de vertebrados, incluindo dinossauros saurópodes (titanossauros) e terópodes (abelissauros, carcharodontossauros e maniraptores, incluindo as aves), lagartos, cobras, quelônios, anfíbios, pequenos mamíferos, mas principalmente crocodyliformes. Estes últimos englobavam até seis distintos grupos: os notossuquídeos, os sphagessaurídeos, candidodontídeos, peirossaurídeos, trematocampsídeos e baurussuquídeos.

Ao que se deve esta incrível diversidade de crocodilomorfos? O que pode ter favorecido o desenvolvimente deste grupo de arcossauros neste particular contexto pretérito? Os pesquisadores ainda procuram uma resposta. A solução para o enigma pode estar envolvida com o fato deste local pretérito ter sido geograficamente isolado e ter produzido uma situação ecológica e ambiental única, que favoreceu estes animais. Teriam eles ocupado o nicho até mesmo de dinossauros? Competido com eles? Ou o nicho de mamíferos, tão raros neste registro por algum propósito? A continuidade dos estudos vai ajudar a resposder estas perguntas.
Campinasuchus, o novo crocodyliforme do Cretáceo brasileiro

Fantástica reconstituição artística de Campinasuchus em vida por Rodolfo Nogueira.

Campinasuchus é um novo gênero de Baurusuchidae descrito com base em alguns crânios parciais e esqueletos encontrados na região de Campina Verde, MG, contexto da Formação Adamantina, Grupo Bauru, Bacia Bauru.
Os Baurusuchidae incluem crocodyliformes com crânios lateralmente comprimidos e gracilmente alongados. São conhecidos para o Cretáceo Tardio do Brasil, Argentina e Paquistão. Todos os membros podem ser considerados de médio e grande porte, cursoriais (caminhavam ativamente sem encostar a barriga no chão, com os membros posicionados mais verticalmente) e predadores. Outras espécies de Baurusuchidae incluem: Baurusuchus pachecoi, Baurusuchus salgadoensis, Baurusuchus albertoi e Stratiosuchus maxhechti do Brasil, além de Cynodontosuchus e Wargosuchus da Argentina.
Campinasuchus se diferencia dos outos Baurusuchidae por possuir um focinho mais curto e afilado, uma dentição diferenciada e peculiaridades no seu osso palatal (céu da boca).
A sua presença reforça a idéia de que a aridez, ou possivelmente um regime específico de sazonalidade (alternância de períodos quentes e secos com períodos de alta pluviosidade), dirigiram a diversificação dos crocodyliformes terrestres neste ecossistema peculiar do Cretáceo Tardio brasileiro.
O trabalho foi publicado por Ismar de Souza e Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colaboradores, na revista Zootaxa, de distribuição on line e gratuita, em 9 de maio de 2011.
O primeira icnoespécie de ovos fossilizados da América do Sul


Ovo fossilizado de crocodyliforme , foto de Carlos de Oliveira.


Ninhos de 70 milhões de anos foram encontrados nas proximidades da cidade de Jales, interior do estado de São Paulo, por Carlos de Oliveira, da Fundação Educacional de Fernandópolis (SP). A descoberta foi publicada este mês na revista Paleontoloy por ele e colaboradores. Os ovos foram encontrados em 2006 em rochas da Formação Adamantina, Grupo Bauru. A grande concentração deste material chamou a atenção de Carlos, que com o prosseguimento das escavações encontrou o que seria equivalente a 17 ninhadas situadoas em 3 diferentes níveis de deposição sedimentar (o que corresponderia a três eventos temporais diferentes).


Foto por Carlos de Oliveira.


Os ovos são alongados e tem forma elíptica. O tamanho varia entre 5,8 e 6,5 cm. A maioria estava quebrada, o que pode sugerir que os filhotes haviam nascido e deixado os ovos. Apenas alguns estavam completos.

Esqueleto parcial de Baurusuchus encontrado em associação com os ninhos. Foto: Carlos Oliveira.

Todos eles foram considerados como pertencentes a um gênero de crocodyliforme, Baurusuchus, devido a inúmeros ossos, e inclusive crânios e esqueletos parciais destes animais, que foram encontrados associados aos ninhos. Mas não foi só isso que ajudou os pesquisadores a definirem os produtores destes ovos. A microestrutura da casca também revela detalhes sobre quem os depositou:

Ovos de aves, dinossauros, crocodyliformes, quelônios, lagartos e cobras têm estruturas macro e microscópicas diferentes. Além do tamanho e formato ovo, aspectos histoestruturais da casca, como a organização do sistema de poros e a forma de deposição de cálcio (existem diferentes morfotipos estruturais: testudinóide, crocodilóide, dinossauróide, ornitóide e geckóide por exemplo) ajudam a identificar o produtor.

Tipos de ovos de acordo com sua microestrutura. A micro-estrutura pode ser avaliada por meio de cortes histológicos da casca, que são então observados com o auxílio da microscopia eletrônica de varredura.

O estudo dos ovos fossilizados se chama Paleo-oologia e está inserida numa área da paleontologia chamada de Paleoicnologia, palaios=antigo, iknos=vestígios e logos=estudo, ou seja, O estudo dos vestígios antigos.

A Paleoicnologia estuda todo tipo de vestígio fóssil indireto ou evidência comportamental de uma atividade biológica (produzida por um organismo extinto). Os ovos constituem vestígios do comportamento de reprodução de animais extintos, logo estão no escopo de estudo da Paleoicnologia, assim como as pegadas fósseis, por exemplo, que são vestígios de locomoção.

A Paleoicnoloia tem toda uma taxonomia própria para definir diferentes tipos de vestígios. Essa ‘parataxonomia’, à modo do sistema de nomenclatura biológica, é binomial e latinizada. Se as características gerais de uma estrutura paleoicnológica foram parecidas com as de materiais já conhecidos, elas recebem o mesmo nome destes, mas se foram diferentes, ganham uma nova designação, como uma nova espécie. A propósito, ICNOespécie e icnogênero são a maneira correta de se denominar estas estruturas, para não se confundir com o sistema de nomenclatura biológica – o que é muito comum.

Por exemplo, o icnogênero de pegadas de mamíferos conhecido como Brasilichnium elusivum ( descrito para Fm. Botucatu, Bacia do Paraná) comumente é confundido com o nome do produtor das pegadas… que na verdade não é conhecido por nenhuma evidência de fóssil corporal! O nome B. elusivum se refere somente às pegadas, não ao seu produtor. Até mesmo animais diferentes poderiam ter produzido o mesmo tipo de vestígio. Cuidado…

No caso do material de Jales, SP, os autores consideraram que todas as características identificadas poderiam sustentar um novo icnogênero, que denominaram de Bauruoolithus fragilis. Esta seria a primeira icnoespécie de ovos fossilizados descrita para a América do Sul (mas não os primeiros ovos fósseis descritos nem para o Brasil, nem para a América Latina! Há abundantes registros de ovos fossilizados na Argentina e vários também aqui no Brasil. Referências em nosso país são os ovos de dinossauro encontrados na região de Uberaba e os ovos atribuídos a Mariliasuchus em Marília, SP).

As feições encontradas nos ovos, segundo os autores, são muito diferentes daquelas encontradas em outros crocodilomorfos, o que leva a suspeita de que os produtores de Bauruoolithus teriam um modo de reprodução peculiar. Isto pode estar diretamente ligado com o sucesso ecológico do grupo e pode fornecer respostas interessantes quanto a adaptação destes animais às condições ambientais do sudeste brasileiro durante o Cretáceo Tardio.

O estudo de ovos fósseis pode revelar detalhes de aspectos biológicos e ecológicos dos seus produtores. –estratégias ou comportamentos de reprodução estão intimamente ligadas ao rigor ambiental e estresse ecológico (competição, predação, etc), assim como aspectos paleoambientais – recuperados direta (tafonomia) ou indiretamente (um estresse ambiental -uma grande seca, período de escassez de alimentos, etc. – pode ser detectado estudando-se a microestrutura dos ovos)-, e paleoclimáticos (inferidos utilizando-se análise de isótopos). Estes estudos são um passo além da simples descrição.

Há muito a ser feito!


>Colecionadores na Rádio

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Houve uma confusão de informações e a entrevista não foi transmitida esta quarta-feira, mas sim gravada. Será apresentada quando o programa ‘É Brasil que não acaba mais’ for ao ar no sábado ou domingo desta semana (14 ou 15 de maio) entre as 12h e 13h30.
Atualizaremos as informações até lá.




Até lá!

A Paleontologia e a Mídia no Brasil

A Paleontologia é uma ciência carismática, que desperta curiosidade, admiração – as vezes assombro -, mas sobretudo, nos faz refletir sobre uma questão muito importante – e até filosófica: ‘De onde viemos‘?
Essa busca talvez esse seja o verdadeiro tempero da ciência que ‘estuda os seres antigos‘…

Pa.le.on.to.lo.gi.a (do grego: palaiós – antigo; onto – ser; lógos – estudo)
Paleontologia é a ciência natural que estuda a vida do passado na Terra e o seu desenvolvimento ao longo do tempo geológico, bem como a integração da informação biológica no registro geológico (isto é: a formação de fósseis).
O enigma que a Paleontologia busca resolver constitui uma das maiores dúvidas que angustia a humanidade. Sob esta perspectiva, esta ciência desempenha um papel muito importante no amadurecimento intelectual da sociedade. O mais importante é que na atualidade ela tornou-se uma ciência aberta e não mais hermética, exclusiva dos acadêmicos. Todos se interessam pela história da Terra e tem ânsia por conhecer suas origens.
A informação sobre a vida no passado geológico está contida nos fósseis e na sua relação com as rochas e os contextos geológicos em que ocorrem. O mundo biológico que hoje conhecemos é o resultado de muitos milhões de anos de evolução. Somente estudando-se o registro fóssil é que é possível entender e explicar a diversidade, afinidade e distribuição dos grupos biológicos atuais.
É importante entender que paleontologia não é feita somente de montros gigantes com garras afiadas e inúmeros dentes. Ela também estuda os pequenos e os muito pequenos (micropaleontologia).  Principalmente: Ela não é feita só de dinossauros – eles são só um ‘grupo bandeira’ – e nem tudo que viveu no passado é um dinossauro; e ela não é Arqueologia. A divulgação apropriada faz com que o público entenda isso.

A Paleontologia divide-se basicamente em Paleobiologia, Tafonomia e Biocronologia. A primeira estuda a vida do passado geológico propriamente dita, a segunda, a integração da informação biológica no registro geológico e a terceira, estuda o desenvolvimento temporal dos eventos paleobiológicos. A Paleobiologia, por exemplo, apresenta inúmeras subdivisões e estas, por sua vez, outras mais (Paleozoologia, Paleobotânica, Paleoicnologia, Paleoecologia, Paleopatologia, etc.). Algumas áreas de estudo da Paleontologia – não se pode deixar de dizer – são fundamentais para a prospecção e exploração de recursos geológicos como o carvão e o petróleo.

É muito interessante, e importante, observar que a Paleontologia está ganhando espaço na mídia brasileira. Como ciência já bem consolidada no Brasil, em franca expansão e avançado estágio de amadurecimento acadêmico, ressaltar a Paleontologia Nacional e trazer as informações produzidas por cientistas brasileiros ao público, é mais do que um dever.
É muito recompensador saber que há um conjuto de pessoas que se interessa e busca informação sobre o tema. Todavia, acreditamos que ainda há um longo trabalho a ser feito. A população precisa ser estimulada de outras maneiras. Peças paradas em museus podem ser legais, mas não são interessantes por muito tempo. São estáticas, e paleontologia, apesar de estudar fósseis sem vida, é muito dinâmica! Os paleontólogos brasileiros devem se esforçar para procurar outras maneiras de tocar e atrair o público, além dos museus tradicionais. O trabalho do paleontólogo é excitante e o público deve conhecer também os bastidores dos seus resultados (veja a ‘Caderneta de Campo‘).
É com júbilo que nós paleontólogos recebemos o interesse por documentários, reportagens especiais, eventos e até novelas.

Falando em novela, esta tem abordado de um jeito bastante realista o trabalho do paleontólogo: Como é a vida de um acadêmico nesta área, como é executar um projeto sob financiamento, como ocorrem as atividades de campo, além de expor algumas das dificuldades que o profissional da paleontologia enfrenta, como o problema real do tráfico de fósseis. É interessante também, que a região de Marília tenha sido escolhida, já que realmente é uma área prolífera em fósseis. As informações paleontológicas estão bastante condizentes e a acessoria técnica fez um bom trabalho.

Tudo vai funcionar em harmonia quando o ‘espectador’ compreender que a paleontologia não é só um conjunto de curiosidades, mas sim uma grande resposta para várias de suas perguntas.
Saudações dos Colecionadores de Ossos.

>Paleontologia dos Micro: O que é MISS?

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Darei uma pequena e sucinta amostra sobre o tema do meu projeto de mestrado. Sou suspeita em falar, mas acho fantástico o estudo de MISS, pois através do mesmo permito-me viajar ao remoto tempo em que a vida começou, e enxergar a importância de seres tão diminutos mas ao mesmo tempo tão influentes em processos grandiosos, como a formação de rochas… está curioso ou confuso? Vamos explanar conceitos agora mesmo…

O que é MISS?!

Estruturas sedimentares primárias, ou seja, aquelas formadas durante o processo de deposição, junto com fatores físicos do meio e na presença de microbiais produzem o que hoje se é chamado de MISS – Microbially Induced Sedimentary Structure. Esse termo foi proposto pela pesquisadora alemã Nora Noffke. Ela, em seus estudos sedimentares, notou uma série de estruturas que pareciam de origem orgânica, que formavam uma esteira ou camada sobre o sedimento. Num estudo mais detalhado em laboratório, foi possível identificar essas estruturas como esteiras microbianas. Tais microbialitos produzem uma mucilagem especifica que se adere sobre o sedimento recém depositado, protegendo-o como uma capa dura mantendo sua forma original. Os principais micróbios estudados em MISS são as cianobactérias, ou algas azuis.

MISS é uma classificação e objeto de estudo relativamente novo dentro da geo-paleontologia. Estruturas microbiais antes eram observadas, mas deixadas de lado, pois pesquisadores não lhes davam significativa importância. Isso mudou até que em estudos aprofundados, notou-se que estas estruturas poderiam ser de grande influência na formação de rochas sedimentares e na preservação das mesmas e de outras estruturas deixadas por seres vivos do passado, como por exemplo, pegadas de dinossauros..

Esteiras microbianas se desenvolvem especialmente em planicies de maré, lagoas e plataforma continental. Seu crescimento se dá, segundo registro geológico e fossilífero, em períodos de transgressão – ou seja, quando o nível do mar aumenta e numa profundidade onde haja luz suficiente para atividade bacteriana fotoautotrófica.

Diferentemente dos estromatólitos, que são registros de atividades bacterianas em rochas carbonáticas, MISS ocorre em rochas siliciclásticas, ou seja, aquelas formadas a partir da fragmentação de outras rochas.

Estas estruturas preservadas são importantes para análise paleoambiental, uma vez que ajudam a manter a forma original do sedimento. Para estudo do MISS, é importante uma análise do ambiente presente (tafonomia atualistica), como dita o principio do atualismo, é necessário estudar o presente para então se entender o passado, pois as leis físicas que atuaram no passado são as mesma que atuam hoje, porém, não necessariamente com a mesma intensidade.

Registros de MISS existem desde o Proterozóico (Mais de 550 M.A.), sendo um objeto de estudo de grande potencial para o tema “Origem da Vida” e “Vida Extraterrestre”, adentrando em estudos astrobiológicos realizados pela NASA, por exemplo. Assim como para a indústria do petróleo, seu estudo é relativamente significativo, uma vez que podem ajudar a manter intactos os poros de rochas reservatório. Essa é um discussão que será melhor abordada no fim do projeto, depois de muito estudo sobre o tema.

Alinhar ao centro

Planicia de Maré moderna, com variedade de microbiota bentica. Foto: Nora Noffke

Microscopia eletrônica mostrando biofilme e mucilagem envolvendo grãos de quartzo. Foto: Nora Noffke

Origem das cianobactérias

Entender a origem das cianobactérias é extremamente importante, tendo em vista que a atmosfera primitiva, no começo da formação da Terra, era isenta de oxigênio. Com o passar do tempo, bactérias foram evoluindo e passaram a produzir oxigênio através da luz solar, como as plantas verdes. Isso é inferível através de MISS de cianobactérias encontradas, por exemplo, em rochas de 2,9 Ga do Supergrupo Pongola, no Sul da África. Contudo, ainda não é claro se esteiras microbianas encontradas há milhões e bilhões de anos são provenientes de cianobactérias ou de algum outro organismo fotoutotrófico. A resposta para isso, talvez, sabe
remos em estudos futuros mais detalhados…

A priori, essa é a conceituação, ao meu ponto de vista, mais enxuto sobre o tema. MISS, como já supracitado, é ainda uma novidade nas ciências geológicas. Em cima dela, espero que façamos grandes descobertas que esclareçam mais os nossos estudos sobre os processos geológicos desse gigante planeta, e quem sabe, de outros mundos desconhecidos…


Para entender melhor sobre o assunto, aconselho a ler os livros de Nora Noffke, em especial:

Geobiology: Microbial Mats in Sandy Deposits from the Archean Era to Today


>Um estranho nas dunas – O Paleo-deserto Botucatu, Parte III

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Texto original de Marcelo Adorna Fernandes, adaptado por Aline Ghilardi

Durante o XX Congresso Brasileiro de Paleontologia (XX CBP), realizado em 2007 na cidade de Búzios, Rio de Janeiro, foi anunciada pela primeira vez a descoberta dos vestígios do maior dinossauro herbívoro bípede do Estado de São Paulo. Um dinossauro do deserto que habitou o Brasil há mais de 140 milhões de anos. O Paleo-deserto Botucatu, veja as outras partes desta história nestes posts AQUI e AQUI.

Reconstituição do ‘ornitópode gigante’ do antigo deserto Botucatu. Por Marcelo Adorna Fernandes.


Os vestígios descritos deste animal são compostos por um conjunto de lajes de arenito contendo seis pegadas. As características das mesmas – com três dedos (tridáctilas) curtos e arredondados (sem evidências de garras, mas ‘cascos’) – indicam que o produtor se tratava de um dinossauro do grupo dos Ornithopoda.

Os Ornithopoda ou ornitópodes consituem uma subordem dos dinossauros Ornitísquios, ou ‘dinos com pelves de ave’, que incluem também os Ceratopsia, os Thyreophora e os Pachycephalosauria. Os dinos ornitópodes englobam animais hebívoros de portes diversificados, todos dotados de um aparelho mastigatório sofisticado, que favoreceu seu sucesso durante o período Cretáceo. Eles apresentavam desde porturas bípedes à quadrúpedes, uma cauda rígida e um bico córneo. O ápice de sua evolução se deu no final do Cretáceo com a expansão dos ‘dinos bico-de-pato’ ou hadrossauros.

O Paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes e o conjunto de pegadas do grande ornitópode.

Cinco das pegadas encontradas são pertencentes a uma pista contínua com aproximadamente 3,60 metros de comprimento de uma ponta a outra (veja figura acima), cujos contra-moldes também estão preservados. A sexta pegada trata-se de um registro isolado (Veja figuras abaixo).


Cada pegada possui em média 35 cm de comprimento e 30 cm de largura; um fato bastante exótico quando se considera as proporções das demais ocorrências de pegadas da Formação Botucatu.

Pegada isolada (Esquerda) e contramolde (direita).


Existem muitas crenulações (deformações no substrato) ao redor das pegadas e as cristas de arenito em forma de meia-lua são bem evidentes na margem posterior (parte de trás) de cada pegada. Estas meias-luas, quase sempre na direção do mergulho dos estratos sedimentares, são o resultado do deslocamento de areia pelos pés do animal, quando este estava em progressão através das paleodunas (o esforço que ele fazia ao caminhar deslocava a areia para trás). O esforço observado nas pegadas encontradas indica que o dinossauro estivesse subindo a duna do paleodeserto.

Algumas pegadas da pista apresentam-se pouco definidas, devido à areia inconsolidada e seca da superfície ser facilmente deformável (bastante plástica). Animais de grande porte, portanto mais pesados, imprimiriam suas pegadas diretamente abaixo da camada mais seca de areia que sofreria total deformação, sem que houvesse preservação da morfologia dos pés nas camadas superficiais.

Devido ao excesso de peso no substrato arenoso, o animal produtor das pegadas coletadas provocou uma deformação das camadas inferiores de sedimento, transmitindo a impressão em subsuperfície e gerando o que chamamos de undertrack (‘sub-pegada’). O contato do pé do animal com a subsuperfície, possivelmente mais úmida, produziu as crenulações, podendo ter alterado o comprimento real do eixo maior da pegada ao levantar o pé para mudar o passo, revolvendo a areia seca em superfície. — Experimente isso ao caminhar na praia!

Ao todo, quase uma tonelada de rocha contendo os icnofósseis foram coletadas no dia 08 de julho de 2004 na pedreira São Bento, localizada no município de Araraquara no Estado de São Paulo, nas coordenadas de 21o49’03.4”S e 48o04’22.9”W. Estre estas, os registros do dinossauro aqui descrito. Esta pedreira apresenta a secção de uma grande duna fóssil com 20 m de altura e 100 m de comprimento, com mergulho de 29° aproximadamente em direção S-SW. As lajes coletadas estão depositadas na coleção de paleontologia do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (DEBE/UFSCar).

Pedreira São Bento em Araraquara, SP – Corte de uma Paleo-duna. Pode-se observar as pegadas do grande ornitópode em fase de retirada. Foto por Luciana B. Fernandes.


Desde os primeiros estudos sobre pegadas fossilizadas da região de Araraquara, em 1976 pelo paleontólogo e padre italiano Dr. Giuseppe Leonardi, somente pegadas com no máximo 15 cm de comprimento tinham sido registradas.

Nunca havia sido registrada a ocorrência de dinossauros bípedes herbívoros deste porte aqui descrito na região Sudeste. Em 30 anos de pesquisa é primeiro registro de um dinossauro de grandes dimensões para a Formação Botucatu. Fato novo e muito importante para a compreensão da evolução dos dinossauros no Brasil e para o entendimento das mudanças ambientais em nosso País.

O Dinossauro Ornithopoda do interior paulista pesava aproximadamente duas toneladas, com uma altura de quase 4 metros e comprimento de 6 metros. Um gigante em se tratando de uma fauna de deserto.

Reconstituição do grande Ornithopoda da Fm. Botucatu. Por Marcelo Adorna Fernandes.


Entre em contato com o Paleontólogo Prof. Dr. Marcelo Adorna Fernandes:
Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia – Universidade Federal de São Carlos, UFSCar
Contatos pelo telefone: +55 (16) 3351-8322
E-mail: mafernandes@ufscar.br
Fernandes, M.A. & Carvalho, I.S. 2007. Pegadas fósseis da Formação Botucatu (Jurássico Superior – Cretáceo Inferior): O registro de um grande dinossauro Ornithopoda na Bacia do Paraná. In: Carlhalho, I.S. et al (eds.) Paleontologia: Cenários da Vida, vol. 1, Editora Interciência.