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Astropaleobiologia: Uma ciência embrionária

 
Esta contribui√ß√£o foi feita pelo aluno de gradua√ß√£o da Universidade Federal de Uberl√Ęndia (UFU) chamado Rodolfo Ot√°vio dos Santos. Atualmente ele se encontra no¬†6¬ļ per√≠odo do curso de Ci√™ncias Biol√≥gicas e est√° estagiando no Laborat√≥rio de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU).
Devido ao seu interesse na √°rea e de auxiliar na divulga√ß√£o sobre tais assuntos, ele seguir√° contribuindo com mais postagens sobre os mais variados t√≥picos. Rodolfo fez sua primeira contribui√ß√£o tratando sobre a discrep√Ęncia entre a abund√Ęncia de dinossauros na Argentina x Brasil (aqui) e sua segunda discutindo sobre quais f√≥sseis reais foram usados como base para os Pokemon f√≥sseis (aqui). Hoje elecomenta brevemente sobre uma ci√™ncia que n√£o √© nova, mas que nas √ļltimas d√©cadas tem apresentado novas descobertas incr√≠veis. A ci√™ncia em quest√£o √© a Astrobiologia, bastante em voga nas ultimas semanas devido a descoberta de novos planetas com potencial significativo de haver vida!


Uma forma bastante eficiente de se conhecer uma ci√™ncia √© saber qual seu objeto de estudo, ou seja, quais perguntas ela busca responder. Dessa forma a Biologia, por exemplo, tem como objetivo final explicar a totalidade das quest√Ķes relacionadas √† vida. Para √°reas emergentes da ci√™ncia, no entanto, delimitar as quest√Ķes que as concernem n√£o √© uma tarefa muito simples, pois a maioria aborda temas cujo nosso conhecimento atual √© demasiadamente pequeno. Podemos citar, como exemplo, estudos sobre a astropaleobiologia, o tema deste texto.
√Č preciso, de in√≠cio, definir o termo astropaleobiologia, que √©: √°rea da ci√™ncia respons√°vel pelo estudo dos f√≥sseis encontrados fora do planeta Terra. Nesse sentido, √© v√°lido mencionar que o voc√°bulo astropaleontologia j√° era utilizado anteriormente, por√©m com outros significados, como: o estudo da evolu√ß√£o das estrelas e/ou o estudo de como os eventos astron√īmicos influenciaram a vida da Terra. Sendo assim, o termo astropaleobiologia √© atualmente o mais utilizado para designar a √°rea que estuda os restos de organismos vivos que porventura habitaram outros locais do nosso universo.
A partir do momento que os astr√īnomos come√ßaram a estimar com maior precis√£o o tamanho do universo e se depararam com sua grandeza, logo perceberam que as escalas de medidas convencionais eram ineficazes para as dist√Ęncias c√≥smicas. A no√ß√£o de que o universo √© infinitamente grande e antigo fez com que novos questionamentos surgissem. Parece existir uma incongru√™ncia entre a quantidade de espa√ßo dispon√≠vel e o n√ļmero de formas de vida no universo, conhecida popularmente como Paradoxo de Fermi. Em outras palavras, parafraseando o c√©lebre astr√īnomo norte americano Carl Sagan: ‚ÄúSeria o universo um grande desperd√≠cio de espa√ßo?‚ÄĚ.

Fig. 1 (Créditos NASA)
Fig. 1: Foto conhecida como ‚ÄúO ponto p√°lido azul‚ÄĚ, tirada pela espa√ßonave Voyager 1, a uma dist√Ęncia de 6,4 bilh√Ķes de km, pr√≥xima da √≥rbita de Saturno. Nela, nosso planeta aparece como um pequeno ponto luminoso, em contraste com a imensid√£o e escurid√£o do espa√ßo circundante. (Cr√©ditos: NASA)

Quando o assunto √© a possibilidade de vida extraterrestre, outro t√≥pico importante √© a Equa√ß√£o de Drake. Trata-se de um famoso c√°lculo, criado por Frank Drake, que busca estimar a quantidade de civiliza√ß√Ķes presentes na gal√°xia, partindo do uso de algumas vari√°veis (at√© ent√£o imposs√≠veis de serem mensuradas na √©poca de sua cria√ß√£o, ainda que hoje algumas delas sejam razoavelmente conhecidas). A equa√ß√£o foi recentemente atualizada, havendo uma substitui√ß√£o de algumas vari√°veis por outras que atualmente s√£o capazes de serem mensuradas, passando a ser conhecida como Equa√ß√£o de Seager.
Fig. 2 (Cr√©ditos Revista √Čpoca)
Fig. 2: Compara√ß√£o entre as duas equa√ß√Ķes. A mais recente possui vari√°veis que podem ser mensuradas a partir de dados coletados principalmente pela Sonda Kepler, dando uma estimativa mais aproximada do n√ļmero de planetas habit√°veis. (Cr√©ditos: Revista √Čpoca)

 
A descoberta de organismos vivos fora da Terra traria implica√ß√Ķes para toda nossa sociedade, principalmente para a ci√™ncia, filosofia e religi√£o. Por exemplo, a possibilidade de m√ļltiplas origens do que conhecemos como vida, ou o fato dos organismos vivos terem se originado em outros locais do universo e posteriormente terem colonizado a Terra (a famosa panspermia c√≥smica) revolucionariam toda a Sistem√°tica Filogen√©tica e, consequentemente, o modo como entendemos as rela√ß√Ķes de parentesco entre os seres vivos.
Mesmo nos dias atuais, não existe um consenso entre os biólogos sobre uma definição universal de vida. A existência de seres extraterrestres, que provavelmente teriam uma bioquímica muito diferente da nossa, poderia fazer com que a resposta para tal pergunta ficasse ainda mais difícil, pois ampliaria o leque de possibilidades para aquilo que definimos como um ser vivo. Em Titã, um dos satélites naturais de Saturno, cientistas têm especulado sobre um possível tipo de vida muito diferente da terrestre, baseado em hidrocarbonetos como o metano, dada a ausência de água líquida nessa lua.
Fig. 3 (Créditos Walter Myers)
Fig. 3: Representa√ß√£o art√≠stica de uma sonda explorando os lagos de hidrocarbonetos de Tit√£. Astr√īnomos descobriram que existe um ciclo de metano semelhante ao ciclo da √°gua terrestre. Dessa forma, haveriam condi√ß√Ķes para o desenvolvimento de formas de vida muito diferentes das terr√°queas, ainda que muito simples. (Cr√©ditos: Walter Myers)

 
Do ponto de vista astropaleobiol√≥gico, a hip√≥tese mais interessante seria a de que, tal como ocorre na Terra, as taxas de extin√ß√Ķes de seres vivos no universo sejam grandes, de forma que a grande maioria dos organismos j√° se extinguiram. Dessa forma, para conhecermos de fato essa diversidade inimagin√°vel, ter√≠amos que estudar os vest√≠gios por eles deixados, provavelmente an√°logos ao que conhecemos como ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ. Portanto, nesse momento, entra em cena a Astropaleobiologia.
Desde o final do século XX, graças às melhorias em nossa tecnologia, foi possível detectar os primeiros exoplanetas (planetas localizados fora do sistema solar). Atualmente, são conhecidos mais de 3000, alguns deles com características semelhantes às encontradas na Terra e consequentemente, os locais mais prováveis de encontrarmos vida fora de nosso planeta. Os radiotelescópios também têm ajudado os astrobiólogos na procura pela vida extraterrestre. Em 2016, a China inaugurou o maior até então já construído, o que pode ser um passo definitivo para respondermos a questão: estamos ou não sozinhos no universo?
Fig. 4 (Créditos Nan et al)
Fig. 4: Radiotelesc√≥pio chin√™s, conhecido como FAST (sigla para Five-hundred-meter Aperture Spherical Telescope). Estes aparelhos captam sinais (ondas de radio), emitidos naturalmente por estrelas, gal√°xias, quasares e outros objetos. Al√©m disso, podem ser utilizados na procura de eventuais transmiss√Ķes de civiliza√ß√Ķes extraterrestres. (Cr√©ditos: Nan et al)

 
Apesar do pequeno n√ļmero de evid√™ncias, existem materiais para estudos astropaleobiol√≥gicos e, por mais paradoxal que possa parecer, esses materiais foram encontrados em nosso pr√≥prio planeta, por√©m suas origens remontam a um local distante. No passado, corpos celestes chocaram-se contra Marte, fazendo com que rochas marcianas fossem lan√ßadas para o espa√ßo. Eventualmente, algumas delas ca√≠ram na Terra e os cientistas, ao estudarem sua composi√ß√£o, perceberam que tais rochas n√£o eram terrestres.
Em 1996, a not√≠cia de que um meteorito (ALH 84001), encontrado na Ant√°rtica, continha estruturas muito semelhantes a f√≥sseis de ‚Äúbact√©rias marcianas‚ÄĚ correu o mundo. Em 2006 cientistas analisaram outro meteorito, encontrado em 1911 no Egito, que possu√≠a estruturas microtubulares, poss√≠vel evid√™ncia de atividade microbiana. Mais recentemente, em 2014, outra rocha marciana (Y000593), encontrada no Jap√£o, ganhou as manchetes por tamb√©m apresentar microt√ļbulos, al√©m de pequenas esferas, prov√°veis resqu√≠cios da presen√ßa de organismos vivos.
Alguns cientistas alegam que os microt√ļbulos seriam, na realidade, t√ļneis escavados por estes organismos extraterrestres enquanto se alimentavam, de forma muito semelhante ao que √© feito por algumas bact√©rias terrestres. Outros pesquisadores, entretanto, afirmam que tais estruturas teriam uma origem totalmente abi√≥tica, sendo resultantes de rea√ß√Ķes f√≠sico-qu√≠micas desvinculadas de atividade biol√≥gica, pois n√£o foram encontrados vest√≠gios de mol√©culas capazes de se replicar. H√° ainda a possibilidade de contamina√ß√£o do material por organismos terrestres, o que dificulta os estudos.
Fig. 5 (Créditos McKay)
Fig. 5 (Dom√≠nio P√ļblico)
Fig. 5: Microscopia eletr√īnica do meteorito ALH 840001, acima, detalhando estruturas muito semelhantes a bact√©rias fossilizadas. Passado o alvoro√ßo da descoberta, estudos posteriores mostraram que elas poderiam ter se originado a partir de processos f√≠sico qu√≠micos. Abaixo, microscopia do meteorito Y000593, evidenciando a presen√ßa de micro esferas ricas em Carbono no c√≠rculo vermelho (prov√°veis f√≥sseis de ‚Äúbact√©rias‚ÄĚ), e microt√ļbulos, no c√≠rculo em azul, que teriam sido feitos por atividade bi√≥tica (um poss√≠vel icnof√≥ssil extraterrestre). (Modificado de McKay (1996)).

Por√©m, de nada adianta os organismos vivos deixarem restos de sua exist√™ncia para tr√°s se os futuros cientistas n√£o conseguirem ter acesso aos materiais. Em nosso planeta, conseguimos ter acesso aos f√≥sseis pois as camadas em que eles se encontram s√£o soerguidas gra√ßas √† for√ßas vindas do interior da Terra, possibilitando aos paleont√≥logos acesso mais f√°cil aos materiais. Isso s√≥ √© poss√≠vel devido ao fato de que a Terra √© um planeta geologicamente ativo. No sistema solar, corpos celestes como V√™nus provavelmente compartilham essa caracter√≠stica, enquanto outros, como Merc√ļrio e Marte, s√£o geologicamente inativos, fator que dificultaria, e muito, o trabalho dos futuros astropaleobi√≥logos.
√Č importante salientar que as buscas por vida extraterrestre s√£o altamente enviesadas, pois nossa procura se concentra em locais semelhantes √† Terra (restrita, portanto, a planetas rochosos e com √°gua). De forma similar, a procura pelos ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ extraterrestres tamb√©m est√° limitada ao nosso conhecimento acerca dos processos de fossiliza√ß√£o terrestres. Entretanto, muito provavelmente, a imensa biodiversidade universal, ainda oculta, deve carregar consigo uma gama ainda maior de processos que desafiam nosso conhecimento.
Fig. 6 (Créditos NASA)
Fig. 6: Sonda Espacial Kepler, lan√ßada em 2009 e respons√°vel pela descoberta de milhares de exoplanetas. Estimativas feitas por cientistas, com base nos dados por ela obtidos, indicam que podem haver aproximadamente 40 bilh√Ķes de planetas rochosos na Via L√°ctea. (Cr√©ditos: NASA)

A busca por organismos extraterrestres, estejam eles j√° extintos ou ainda vivos, √© sobretudo uma forma de conhecermos a n√≥s mesmos, de entendermos qual nosso papel no universo. No futuro, talvez o conhecimento adquirido com o estudo de poss√≠veis ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ extraterrestres, possamos definir e explicar de forma mais satisfat√≥ria o fen√īmeno que denominamos de vida. Quanto aos paleont√≥logos do presente, resta usar a imagina√ß√£o, na tentativa de vislumbrar o passado de outros mundos, e aguardar pacientemente o progresso da ci√™ncia em sua procura por organismos extraterrestres.
Adendo: Duas descobertas recentes trouxeram grandes avanços para a Astropaleobiologia. A primeira pesquisa revelou a existência de um sistema composto por sete planetas rochosos, distante 39 anos-luz da Terra, orbitando a estrela TRAPPIST-1, dos quais três estão na chamada zona habitável, a região em que, caso exista água, ela se encontra no estado líquido, aumentando as chances de encontrarmos organismos vivos. Foi a primeira vez que um sistema contendo tantos planetas com grande potencial para abrigar vida foi encontrado.
Fig. 7 (Créditos NASA)
Fig. 7: Representação artística do recém-descoberto sistema planetário da estrela anã-vermelha TRAPPIST-1, com seus sete planetas rochosos, mostrados em escala de tamanho em relação ao planeta Terra. (Créditos: NASA)

 
A segunda pesquisa mostrou a exist√™ncia de f√≥sseis de bact√©rias com uma idade entre 3,8 e 4,3 bilh√Ķes de anos, os mais antigos encontrados at√© o momento. Os materiais foram encontrados no Nuvvuagittuq Supracrustal Belt, em Quebec. No passado, este local foi um sistema de fontes hidrotermais rico em ferro, elemento que era utilizado no metabolismo dessas bact√©rias, que deixaram vest√≠gios na forma de pequenos t√ļbulos. Essa descoberta indica que a vida na Terra apareceu pouco tempo ap√≥s a forma√ß√£o dos oceanos.
Fig. 8 (Créditos Matthew Dodd)
Fig. 8: Fósseis das mais antigas formas de vida até então conhecidas, bactérias que viviam em fontes hidrotermais, numa região onde hoje se localiza o Canadá. (Créditos: Mathew Dodd)

 
Os autores do estudo ainda lembraram que as condi√ß√Ķes do planeta Marte h√° 4,3 bilh√Ķes de anos eram semelhantes √†s da Terra primitiva, um forte ind√≠cio de que a vida possa ter prosperado tamb√©m no planeta vermelho, ainda que por um curto per√≠odo de tempo. Considerando tais estudos, a exist√™ncia de vida extraterrestre ganhou fortes evid√™ncias a seu favor e agora √© uma quest√£o e tempo at√© que novas descobertas sobre o assunto sejam encontradas, confirmando a exist√™ncia de vida extraterrestre.
 
Referências Bibliográficas:
Astropaleobiologia:
COX, G. Astropaleobiology. Disponível em: <https://starscapescientific.wordpress.com/2012/06/09/astropaleobiology/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Paradoxo de Fermi:
NUNES, J. O Paradoxo de Fermi. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/o-paradoxo-de-fermi/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Equação de Drake e Seager:
OLIVEIRA, D. R. A. Equação de Drake para a vida alienígena recebe um upgrade. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/equacao-de-drake-para-a-vida-alienigena-recebe-um-upgrade/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
PONTES, F. A ca√ßadora de extraterrestres: A ex√≥tica miss√£o da astr√īnoma Sara Seager, em busca de planetas habit√°veis pelo Universo. Dispon√≠vel em: <http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/08/cacadora-de-bextraterrestresb.html>. Acesso em 4 mar. 2017.
Vida em Tit√£:
HRALA, J. Life “Not as We Know It” Might Be Possible on Titan. Dispon√≠vel em: <http://www.sciencealert.com/life-on-titan-might-be-completely-different-than-the-life-we-re-familiar-with>. Acesso em 4 de mar 2017.
Radiotelescópio Chinês:
O’NEILL, I. Monster Chinese Telescope the Next ET Hunter?. Disponível em: <http://www.seeker.com/monster-chinese-telescope-the-next-et-hunter-1765285433.html>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Vida em Marte e Meteoritos:
S√ČRVULO, F. Como procurar por vida em Marte?. Dispon√≠vel em: <http://www.universoracionalista.org/como-procurar-por-vida-em-marte>. Acesso em: 4 de mar. 2017.
MCKAY, D. S. et al. Search for past life on Mars: Possible relic biogenic activity in martian meteorite ALH84001. Science, Washington, v. 273, p. 924-930, ago. 1996.
MIKOUCHI, T. et al. Mineralogy and petrology of Yamato 000593: Comparison with other Martian nakhlite meteorites. Antarctic Meteorite Research, Washington, v. 16, p. 34-57, fev. 2003.
MCKAY, D. S. et al. Life on Mars: new evidence from martian meteorites. Proceedings of SPIE Annual Meeting, Bellingham, v. 7441, p. 80-102, ago. 2009.
WARMFLASH, D.; WEISS, B. Dis life come from another world?. Disponível em: <http://www.bibliotecapleyades.net/ciencia/esp_ciencia_life09.htm>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Miss√£o Kepler:
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CLARK, S. Kepler space telescope in emergency mode. Disponível em: <https://spaceflightnow.com/2016/04/09/kepler-space-telescope-in-emergency-mode/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Exoplanetas:
SCHNEIDER, J. et al. Defining and cataloging exoplanets: the exoplanet.eu database. Astronomy & Astrophysics. Paris, v. 532, p. 79-90, jul. 2011.
LOPES, M. Métodos de Detecção de Planetas Extrasolares. Disponível em: <http://www.astropt.org/2013/11/20/metodos-de-deteccao-de-planetas-extrasolares/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Planetas geologicamente ativos:
SANCEVERO, S. Vênus é um planeta geologicamente ativo?. Disponível em: <http://www.astropt.org/2016/11/30/venus-e-um-planeta-geologicamente-ativo/>. Acesso em: 4 de mar. 2017.
Planetas em TRAPPIST-1:
BARSTOW, J. K.; IRWIN, P. G .J. Habitable worlds with JWST: transit spectroscopy of the TRAPPIST-1 system?. Monthly Notices of the Royal Astronomy Society, Oxford, v. 461, n. 1, p. 92-96, mai. 2016.
Fósseis mais antigos já encontrados:
DODD, M. S. et al. Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Nature, Londres, v. 543, p. 60-64, jan. 2017.

>Paleontologia dos Micro: O que é MISS?

>

Darei uma pequena e sucinta amostra sobre o tema do meu projeto de mestrado. Sou suspeita em falar, mas acho fant√°stico o estudo de MISS, pois atrav√©s do mesmo permito-me viajar ao remoto tempo em que a vida come√ßou, e enxergar a import√Ęncia de seres t√£o diminutos mas ao mesmo tempo t√£o influentes em processos grandiosos, como a forma√ß√£o de rochas… est√° curioso ou confuso? Vamos explanar conceitos agora mesmo…

O que é MISS?!

Estruturas sedimentares prim√°rias, ou seja, aquelas formadas durante o processo de deposi√ß√£o, junto com fatores f√≠sicos do meio e na presen√ßa de microbiais produzem o que hoje se √© chamado de MISS ‚Äď Microbially Induced Sedimentary Structure. Esse termo foi proposto pela pesquisadora alem√£ Nora Noffke. Ela, em seus estudos sedimentares, notou uma s√©rie de estruturas que pareciam de origem org√Ęnica, que formavam uma esteira ou camada sobre o sedimento. Num estudo mais detalhado em laborat√≥rio, foi poss√≠vel identificar essas estruturas como esteiras microbianas. Tais microbialitos produzem uma mucilagem especifica que se adere sobre o sedimento rec√©m depositado, protegendo-o como uma capa dura mantendo sua forma original. Os principais micr√≥bios estudados em MISS s√£o as cianobact√©rias, ou algas azuis.

MISS √© uma classifica√ß√£o e objeto de estudo relativamente novo dentro da geo-paleontologia. Estruturas microbiais antes eram observadas, mas deixadas de lado, pois pesquisadores n√£o lhes davam significativa import√Ęncia. Isso mudou at√© que em estudos aprofundados, notou-se que estas estruturas poderiam ser de grande influ√™ncia na forma√ß√£o de rochas sedimentares e na preserva√ß√£o das mesmas e de outras estruturas deixadas por seres vivos do passado, como por exemplo, pegadas de dinossauros..

Esteiras microbianas se desenvolvem especialmente em planicies de mar√©, lagoas e plataforma continental. Seu crescimento se d√°, segundo registro geol√≥gico e fossil√≠fero, em per√≠odos de transgress√£o ‚Äď ou seja, quando o n√≠vel do mar aumenta e numa profundidade onde haja luz suficiente para atividade bacteriana fotoautotr√≥fica.

Diferentemente dos estromatólitos, que são registros de atividades bacterianas em rochas carbonáticas, MISS ocorre em rochas siliciclásticas, ou seja, aquelas formadas a partir da fragmentação de outras rochas.

Estas estruturas preservadas são importantes para análise paleoambiental, uma vez que ajudam a manter a forma original do sedimento. Para estudo do MISS, é importante uma análise do ambiente presente (tafonomia atualistica), como dita o principio do atualismo, é necessário estudar o presente para então se entender o passado, pois as leis físicas que atuaram no passado são as mesma que atuam hoje, porém, não necessariamente com a mesma intensidade.

Registros de MISS existem desde o Proteroz√≥ico (Mais de 550 M.A.), sendo um objeto de estudo de grande potencial para o tema ‚ÄúOrigem da Vida‚ÄĚ e ‚ÄúVida Extraterrestre‚ÄĚ, adentrando em estudos astrobiol√≥gicos realizados pela NASA, por exemplo. Assim como para a ind√ļstria do petr√≥leo, seu estudo √© relativamente significativo, uma vez que podem ajudar a manter intactos os poros de rochas reservat√≥rio. Essa √© um discuss√£o que ser√° melhor abordada no fim do projeto, depois de muito estudo sobre o tema.

Alinhar ao centro

Planicia de Maré moderna, com variedade de microbiota bentica. Foto: Nora Noffke

Microscopia eletr√īnica mostrando biofilme e mucilagem envolvendo gr√£os de quartzo. Foto: Nora Noffke

Origem das cianobactérias

Entender a origem das cianobact√©rias √© extremamente importante, tendo em vista que a atmosfera primitiva, no come√ßo da forma√ß√£o da Terra, era isenta de oxig√™nio. Com o passar do tempo, bact√©rias foram evoluindo e passaram a produzir oxig√™nio atrav√©s da luz solar, como as plantas verdes. Isso √© infer√≠vel atrav√©s de MISS de cianobact√©rias encontradas, por exemplo, em rochas de 2,9 Ga do Supergrupo Pongola, no Sul da √Āfrica. Contudo, ainda n√£o √© claro se esteiras microbianas encontradas h√° milh√Ķes e bilh√Ķes de anos s√£o provenientes de cianobact√©rias ou de algum outro organismo fotoutotr√≥fico. A resposta para isso, talvez, sabe
remos em estudos futuros mais detalhados…

A priori, essa √© a conceitua√ß√£o, ao meu ponto de vista, mais enxuto sobre o tema. MISS, como j√° supracitado, √© ainda uma novidade nas ci√™ncias geol√≥gicas. Em cima dela, espero que fa√ßamos grandes descobertas que esclare√ßam mais os nossos estudos sobre os processos geol√≥gicos desse gigante planeta, e quem sabe, de outros mundos desconhecidos…


Para entender melhor sobre o assunto, aconselho a ler os livros de Nora Noffke, em especial:

Geobiology: Microbial Mats in Sandy Deposits from the Archean Era to Today


>A MEGA Import√Ęncia dos MICRO e NANO organismos

>

H√° quem diga que estudar os microf√≥sseis n√£o tem nada de interessante ou n√£o seja t√£o emocionante como encontrar um grande cr√Ęnio ou f√™mur de dinossauro. Oras, eu tamb√©m poderia pensar o mesmo. Entretanto n√£o √© bem assim. O estudo de microf√≥sseis √© extremamente importante para a Paleontologia, e n√£o deve ser subestimado, muito pelo contr√°rio. Veremos logo abaixo, de maneira bastante sucinta, alguns dos por qu√™s!


São considerados microfósseis todos aqueles vestígios microscópicos de organismos vAdicionar imagemivos, que representam ou o organismo todo ou partes deles Рcomo ossos, unhas, dentes, conchas, fragmentos do exoesqueleto ou pólen. Os mesmos podem não só ajudar, mas são essenciais à paleoecologia e à paleoclimatologia, sendo muitos, peças fundamentais para determinar como se estruturava o ambiente primitivo. São peças-chave também na bioestratigrafia, ajudando a correlacionar estratos entre os depósitos sedimentares por todo o Planeta.


Alguns Microf√≥sseis: diatom√°ceas, ostracodes, radiol√°rios, esp√≠cula de esponja,foram√≠niferos planct√īnicos e coc√≥litos

Microfósseis e o Petróleo


A utilização de microfósseis na petrologia se dá pela correlação, a partir de estudos, de espécies de determinados microorganismos em diferentes camadas sedimentares. Esses microorganismos, na maioria dos casos, são representados por microfósseis carbonatados ou calcários. Tratam-se de foraminíferos, ostracodes e cocolitóforos. Abaixo tratarei mais especificamente dos cocolitóforos.

Os nanof√≥sseis calc√°rios s√£o um conjunto de part√≠culas de calc√°rios, com dimens√Ķes menores que 50 micra, com grandes variedades de formas, mas geralmente constituem-se de placas arredondadas conhecidas como coc√≥litos. Parece redund√Ęncia, mas esses coc√≥litos formam a cocosfera e s√£o encontrados nos cocolifor√≠deos, seres unicelulares, biflagelados, fotossintetizantes, geralmente planct√īnicos e predominantemente marinhos.

O primeiro registro de cocolifor√≠deos se d√° no Tri√°ssico Superior. Sua import√Ęncia na ind√ļstria do petr√≥leo est√° no fato de apresentarem grande diversidade biol√≥gica, alta taxa evolutiva, especificidades ecol√≥gicas e muito de seus representantes serem cosmopolitas, o que os torna fant√°sticos indicadores cronoestratigr√°ficos e elementos identificadores de zona√ß√Ķes ecol√≥gicas.

Nanofóssil Calcário: Cocolitoforídeo

Cocólitos apresentam características ideais para o estudo de camadas sedimentares. Um pesquisador estudando um bolsão de combustível fóssil em qualquer parte do mundo pode saber com uma boa margem de segurança qual a época de sua formação. Por exemplo, se uma espécie tal qual a Braarudosphaera chalk, for encontrada em uma determinada camada estratigráfica, o pesquisador logo saberá que esta pertence ao Oligoceno Рépoca marcada por esta espécie. Então, se o mesmo ou outro pesquisador encontrar essa espécie em outra camada estratigráfica em outra parte do mundo, ele pode caracterizar aquele estrato como também pertencente ao Oligoceno, descartando muitas vezes a necessidade de uma datação radiométrica.

Outros objetos de estudo da Micropaleontologia: Palinologia e os Microfósseis de vertebrados

Dentro da micropaleontologia encontramos vertentes important√≠ssimas, tal qual a Paleopalinologia, ci√™ncia que dedica-se a estudar os gr√£os de p√≥len e esporos f√≥sseis. √Č um ramo paleontol√≥gico extremamente importante para o estudo de paleoclimas e paleoecossistemas. Uma vez que cada esp√©cie vegetal possui tipo particular de p√≥len ou esporo, torna-se poss√≠vel determinar a composi√ß√£o vegetal e as caracter√≠sticas clim√°ticas de Eras passadas e como foi sua evolu√ß√£o ao longo do tempo geol√≥gico.

Não menos importante, é o estudo dos microfósseis de vertebrados, Além de ajudar a entender melhor a diversidade de vida do passado e estabelecer marcos estratigráficos (como acontece com os dentes de conodontes), eles podem em alguns casos auxiliar a reconstruir características de ambientes extintos. Microfósseis de roedores cenozóicos oferecem essa possibilidade, por exemplo. Esses animais têm exigências ecológicas específicas e estudando a sua assembléia fóssil em uma localidade, podemos reconhecer como eram fisionomias vegetacionais do passado, mais abertas ou florestais por exemplo.

Concluindo, n√£o devemos subestimar o “poder” dos microf√≥sseis. eles s√£o, na verdade, as principais ferramentas da paleontologia. A import√Ęncia n√£o est√° no tamanho, mas nas informa√ß√Ķes que eles s√£o capazes de fornecer sobra a nossa fant√°stica e misteriosa hist√≥ria evolutiva.

Quando se fala em paleontologia, a primeira coisa que se vem a cabe√ßa, s√£o os fant√°sticos e imponentes dinossauros do mesoz√≥ico, mas o que as pessoas n√£o sabem, ou ignoram, √© que a paleontologia √© muito mais que isso. Ela √© abrangente assim como a gen√©tica, que n√£o se baseia s√≥ no estudo de rela√ß√Ķes de paternidade entre indiv√≠duos, ou a ecologia, que n√£o estuda somente as rela√ß√Ķes entre organismos, ou ainda a bioqu√≠mica, que esta al√©m do funcionamento do ciclo de Krebs. Essa abrang√™ncia se confirma em congressos de paleontologia, com temas diversificados em todas as escalas, nano, micro, macro ou mega. Considerando a diversidade dentro da micropaleontologia e o seu fant√°stico poder de predi√ß√£o, muito do que √© discutido nesses congressos tem sim por base esse ramo paleontol√≥gico.

Em outras oportunidades voltaremos ao assunto, abordando outros grupos de microfósseis bastante importantes na Paloentologia.

Refêrencias

Alves, C.F.; Wanderley, M.D. Utiliza√ß√£o dos Nanof√≥sseis Calc√°rios na Industria do Petr√≥leo. 2¬ļ Congresso Brasileiro de P&D em Petr√≥leo & G√°s.

Carvalho, I.S. 2004. Sumário. In: Carvalho, I.S.(ed). Paleontologia. Vol 1. Rio de Janeiro: Interciência.

Fauth, G. ; Fauth, S.B., 2009. Microfósseis. Livro digital de paleontologia na sala de aula, UFRGS. Disponivel em: http://www.ufrgs.br/paleodigital/Microfósseis.html.

SEED, 2009. Geology: Microfósseis. Disponível em: http://www.seed.slb.com/v2/FAQView.cfm?ID=970&Language=PT

Aqui vai uma dica de site para quem se interessa por micropaleontologia, o criador, Jere H. Lipps, aborda sobre os mais comumente e importantes microfósseis estudados dentro da Micropaleontologia. Boa leitura!
http:/www.ucmp.berkeley.edu/fosrec/Lipps1.html