Arquivo da categoria: Cretáceo

Vertebrados fósseis da região de Marília, SP

O paleontólogo e coordenador do Museu de Paleontologia de Marília, William Nava, vem há 17 anos fazendo um minucioso trabalho de escavação e coleta de fósseis nas rochas da região de Marília, interior de São Paulo. Seu trabalho resultou em importantes descobertas para a Paleontologia brasileira no que tange estudos sobre o Cretáceo do Brasil. Nesta postagem, convidamos William para nos contar um pouco da sua história trabalhando com fósseis no interior de São Paulo:

Texto de William Nava

As minhas primeiras coletas de fósseis em Marília datam do início dos anos 90 e referem-se a fragmentos ósseos identificados como pertencentes à saurópodes do grupo dos titanossauros.Fiz a primeira descoberta de ossos de um dinossauro na região de Marília em 1993, na estrada vicinal P. Nóbrega-Rosália. O achado ganhou repercussão nacional na época, sendo amplamente divulgado pelos meios de comunicação. 

O incremento das pesquisas ao longo dos anos, revelou inúmeros afloramentos do Cretáceo Superior por toda a região. A partir de 1996, com o achado dos primeiros fósseis de crocodilomorfos notossúquios (que 3 anos depois seriam descritos cientificamente como  Mariliasuchus amarali) em rochas próximas ao vale do Rio do Peixe,  foi possível  concluir que a região tinha  potencial para fósseis muito bem preservados. A grande maioria desses fósseis vem sendo coletada em cortes de estradas rurais. Inúmeros materiais, principalmente de crocodilomorfos, como  o pequeno crocodilo Adamantinasuchus navae,   foram descobertos durante a  escavação de obras  no Córrego Arrependido, afluente do Rio do Peixe.
A vantagem de residir na cidade onde estão os sítios paleontológicos é que se pode ir à campo a qualquer dia, ou mesmo nos finais de semana.  Igualmente, se pode abrir novas frentes de escavação e acompanhar esse trabalho, catalogando, fotografando as ocorrências e os níveis estratigráficos onde ocorrem os fósseis.
William Nava explicando sobre os fósseis e a geologia da região. Foto de Bernardo Pimenta.

Com o passar dos anos, acumulei muitos restos ósseos de dinossauros e crocodilos que escavava pela região, além de alguns materiais obtidos por doação (como peixes do Nordeste e restos de madeiras petrificadas oriundos de outros estados) formando um considerável acervo, que mais cedo ou mais tarde, necessitaria de ser exposto à comunidade. Em pouco mais de uma década de escavações e coletas, os trabalhos na região resultaram numa diversificada fauna de vertebrados fósseis, com dinossauros do grupo dos titanossauros, pequenos crocodilomorfos (Mariliasuchus e Adamantinasuchus), escamas ganóides (de peixes lepisosteiformes), dentes e restos ósseos de vários tipos de peixes, dentes de pequenos terópodes, um pequeno lagarto, além de microfósseis. 

Reconstituição artística de um dinossauro saurópode titanossaurídeo. Arte de Felipe Elias (http://felipe-elias-portfolio.blogspot.com/)

 
Mariliasuchus e Adamantinasuchus

Entre os fósseis mais importantes relacionados aos crocodilomorfos da região de Marília estão ovos fossilizados e coprólitos de Mariliasuchus amarali.  Esses ovos fósseis constituem o primeiro registro desse tipo de fóssil no Brasil. Em 2002 encontrei num bloco de arenito uma ninhada composta por 9 ovos fossilizados, um achado fantástico. Tudo indica que os animais, vivendo em populações perto de lagoas, ali depositavam seus ovos e muitos  eram rapidamente soterrados por grandes cargas de sedimentos, passando assim para o registro fóssil. 

Reconstituição de Mariliasuchus em vida. Arte de Maurílio de Oliveira.

De acordo com estudos já publicados sobre o Mariliasuchus e o Adamantinasuchus, apurou-se que esses animais, além de um comportamento gregário e terrestre, que lhes permitia caminhar longas distâncias em áreas com clima quente e seco, tinham um hábito alimentar bastante diversificado, podendo incluir em sua dieta desde carne até vegetais. Isso é um dado bastante incomum para os crocodilos de hoje, que só vivem na água e possuem dieta carnívora. Dessa forma, as duas espécies de crocodilos encontradas em Marília, além de muito raras no registro fossilífero, permitem a nós, paleontólogos, inúmeras possibilidades de estudos, devido à boa preservação dos fósseis encontrados nas rochas da Formação Adamantina, que ocorrem em todo o oeste do estado de São Paulo.
Reconstituição Artística de Adamantinasuchus navae. Arte de Deverson da Silva (Pepi).
O MUSEU DE PALEONTOLOGIA

Museu de Paleontologia de Marília

Inaugurado em novembro de 2004 pela Secretaria Municipal da Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Marília, o Museu de Paleontologia é uma significativa contribuição ao conhecimento científico nacional e internacional na área da paleontologia. Está localizado no centro da cidade, e vem se tornando um dos grandes potenciais científicos da região, tendo em vista a raridade do material  encontrado. Trata-se do segundo museu do interior paulista com exposição permanente de fósseis de animais que viveram no período Cretáceo, entre 70 e 90 milhões de anos atrás. Está aberto a toda a comunidade e também á escolas e universidades. Além das dezenas de escolas da cidade e da região, também já recebemos alunos de graduação e pós-graduação do curso de Geologia da Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade de São Paulo, entre outras.
O Museu abre novas perspectivas no campo científico e também para o turismo local e regional com o incremento de atividades pedagógicas, visitas técnicas monitorizadas, produção de material impresso e outros recursos que auxiliam na educação e na maior divulgação do espaço, até como forma de gerar e atrair novos recursos e investimentos. O museu tem como objetivo a busca e pesquisa dos fósseis, sua preservação, divulgação junto à comunidade local e regional, exposição do acervo de ossos principalmente de dinossauros, que são o grande chamariz para o público leigo e crianças, e as reconstituições em vida do Mariliasuchus e do Adamantinasuchus, para dar uma idéia de como eram esses pequenos crocodilos, que viviam entre os grandes titanossauros. Temos recebido milhares de visitantes tanto daqui e da região, como também de outros estados, fazendo do museu hoje, um forte atrativo cultural e turístico para uma vasta região do interior do estado.
 
No museu podem ser vistos diversos ossos de dinossauros (titanossauros), restos de crocodilos, ovos fossilizados, peixes da Chapada do Araripe (CE), troncos de árvores  fossilizados, restos de tartarugas, banners ilustrativos, fotografias de expedições realizadas nos campos de pesquisa da região e mapa de ocorrências fossilíferas dentro do Grupo Bauru, entre outras atrações.

O museu está situado na Av. Sampaio Vidal, 245, esquina com a Av. Rio Branco, em Maríla, no centro, e fica aberto de segunda à sexta, das 8h30 às 18h00.
O telefone para contato é (14) 3402-6600 –  ramal 6614.
  
PARCERIAS, ESTUDOS e DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
 
Diversos fósseis escavados nas rochas da região encontram-se depositados para estudos em instituições como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Museu Nacional da UFRJ, UNIRIO, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Museu de Zoologia da USP, UNESP campus de Bauru-SP, Museu de História Natural de Taubaté-SP, e recentemente UnB- Universidade de Brasília, em parcerias técnico-científicas bastante promissoras.
Atualmente Marília se coloca ao lado das grandes regiões fossilíferas do país, contribuindo com seus fósseis para um melhor entendimento acerca dos ecossistemas e da paleofauna que existiu no Brasil há milhões de anos. Os fósseis aqui achados já foram citados em periódicos de Paleontologia, como o American Museum Novitates, Gondwana Research, e recentemente o Bulletin of Geosciences, da República Tcheca.

Visite o site www.dinosemmarilia.blogspot.com para saber mais sobre os fósseis de Marília e região.
 
William Roberto Nava
Paleontólogo e Coordenador do Museu de Paleontologia de Marília
Secretaria Municipal da Cultura e Turismo
Prefeitura Municipal de Marília

>Olá Pakasuchus!

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Novo (e mais um bizarro) crocodilomorfo fóssil encontrado. Dessa vez na Tanzânia.

Não, dessa vez esse não é brasileiro, mas é um primo próximo dos bichinhos daqui. Pakasuchus foi encontrado na África, especificamente no sul Tanzânia, lado leste da costa africana. Trata-se de um pequeno crocodilomorfo de idade cretácica (105 milhões de anos), do tamanho de um gato doméstico e, como bom notosuquídeo que é, terrestre e portador de algumas características bem bizarras. Como vocês verão, esse animal possuía dentes muito similares ao de mamíferos e, ao que tudo indica, alguma capacidade de mastigar….

Ilustração de Zina Deretsky, US National Science Foundation

Para recapitularem o que é um crocodilomorfo notosuquídeo, revisitem o post de Morrinhosuchus (aqui).

Os fósseis de Pakasuchus foram encontrados na Bacia de Rukwa Rift, na Tanzânia. O responsável pela descoberta é o Prof. Patrik O’Connor, da Universidade de Ohio, EUA, que juntamente com um time internacional de outros cientistas, descreveu o pequeno crocodilo. O estudo foi financiado pela U.S National Science Foundation e a National Geographic Society, e publicado esse mês na revista Nature.  

O primeiro espécime de Pakasuchus foi coletado em 2008, em rochas do Cretáceo Médio (105 milhões de anos), e tratava-se de um exemplar completo. Foram encontrados posteriormente, no entanto, materiais equivalente à outros 7 indivíduos, que apesar de fragmentados,  ajudaram a complementar o estudo. Levou um tempo até que todos os espécimes fossem analisados, mas não para que o pequeno crocodilo se mostrasse uma descoberta interessante.

O mais impressionante nesse animal não é o formato de seu corpo, mas o de seus dentes:

“Se você somente pudesse observar os dentes desse animal, não pensaria que se trata de um crocodilo. Você se perguntaria que tipo estranho de mamífero ou ‘réptil-mamaliforme’ possuía aquilo”, afirmou Patrik, que admite que se surpreendeu com o novo animal.

A nova espécie de crocodilomorfo era grácil, sem a pesada armadura dérmica dos crocodilos atuais – com exceção de duas fileiras de placas na cauda. O animal possuía os membros alongados e uma cabeça relativamente pequena com narinas frontais. Todos os aspectos da sua anatomia sugerem fortemente hábitos terrestres e bastante móveis (cursoriais).

O pequeno crânio cabe na palma de uma mão e o animal não deveria ser maior do que um gato doméstico. As características de sua dentição logo se destacam: Há redução dentária – como em todos os notossuquídeos –  e uma acentuada heterodontia (diferenciação dentária). Grandes caniniformes frontais são seguidos por alguns pequenos dentes cônicos e então substituídos ao longo da fileira por conspícuos dentes molariformes.

Pakasuchus kapilimai (Ilustração: Zina Deretsky)
A dentição de Pakasuchus: Formas molariformes destacadas e a mandíbula que poderia se movimentar para frente e para trás. (Ilustração: Zina Deretsky)
Vista esquerda do crânio de Pakasuchus

Os dentes molariformes desse notossúquio possuem pequenas cúspides para o processamento de alimento, semelhante àquelas dos dentes de alguns mamíferos carnívoros. Certamente esse animal processava seu alimento de uma maneira bem peculiar. Trata-se de mais um exemplo de que os crocodilomorfos possuíram linhagens incrivelmente variadas: muitas formas, tamanhos e estilos de vida distintos.

Pakasuchus viveu num período em que as massas de terra do Gondwana ainda estavam ligadas, portanto será possível reconstituir a história biogeográfica que o relacionava com os notossúquios sulamericanos. Frente aos bichinhos da América do Sul, Pakasuchus não é nenhuma novidade surpreendente… apenas mais um fragmento da história das bizarrices crocodilianas.

Nos continentes do Hemisfério Norte, pequenos mamíferos estavam em ascensão. Essas criaturinhas exploravam todos os tipos de oportunidades ecológicas periféricas enquanto os dinossauros dominavam os ecossistemas terrestres. Porém, no Hemisfério Sul, essa história parece ter sido um pouco diferente. O que os registros fósseis indicam é que os pequenos mamíferos eram relativamente raros e esses estranhos crocodilos, os notossúquios, é que deveriam preencher os nichos disponíveis com adaptações bastante similares aos seus equivalentes mamíferos do Hemisfério Norte.

Patrik nomeou Pakasuchus em referência ao vocábulo para ‘gato’ em  Kiswahili (uma língua Bantu) e adicionou o sufixo ‘suchus’ de ‘crocodilo’. O nome completo do bichinho é Pakasuchus kapilimai.

Foram utilizadas técnicas de CAT Scan para o estudo detalhado da dentição do animal. Pakasuchus possuía apenas 13 dentes de cada lado da boca e uma mandíbula relativamente móvel, o que sugere uma certa capacidade de mastigação.


Os estudos filogenéticos de Pakasuchus indicam que ele seria um parente muito próximo de Adamantinasuchus navae um pequeno notossúquio brasileiro descrito em 2006. Adamantinasuchus viveu há 90 milhões de anos no que é hoje a região de Marília, SP, tinha a mesma forma grácil, não passava de 50 cm de comprimento e também apresentava heterodontia.


A heterodontia, portanto, não é nenhuma novidade surpreendente nesse grupo. Diversos outros notossúquios apresentam configuração dentárias bastante exóticas indicando dietas ímpares. Desde carnivoria estrita, passando por onivoria, até possivelmente a herbivoria.


Pakasuchus também é proximamente relacionado à Mariliasuchus e Candidodon, outros dois crocodilinhos terrestres brasileiros. Candidodon no início fora confundido com um mamífero (o nome inclusive faz alusão), justamente pela sua configuração dentária peculiar, só posteriormente quando encontraram melhores evidências do animal é que ele foi reclassificado corretamente como um crocodilomorfo.

Mariliasuchus amarali 
Dente de Candidodon itapecuruense – Fonte: Carvalho, I.S. 1994. Candidodon: Um crocodilo com heterodontia (Notosuchia, Cretáceo Inferior, Brasil). Anais da Ac. Bras. de Ciências, 66(3): 331-346. (aqui)

Pakasuchus de fato é um novo bichinho muito interessante, mas atenção: sem alarme ou estardalhaço demais. A heterodontia e a relativa flexibilidade mandibular já eram bem conhecidas entre os crocodilomorfos. Os nossos bichinhos brasileiros estão beeeem a frente nisso. O que Pakasuchus leva ao extremo – o que o torna tão especial –  é a condição molariforme altamente modificada que ele
alcançou, com cúspides acessórias incrivelmente semelhantes aos mamíferos carnívoros atuais.

Para mais informações: 
Veja o vídeo da reconstituição crânio/dentes aqui.
A matéria site da National Geographic Society aqui  – e a do site da Nature aqui

O’Connor, P. et al 2010. The evolution of mammal-like crocodyliforms in the Cretaceous Period of Gondwana. Nature, 466: 748-751  | doi:10.1038/nature09061;

>O Ano dos Ceratopsia !! – Parte 2

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Continuando…

No post passado ficou faltando falar de mais algumas figurinhas ceratopsianas de 2010, como lembrei nos comentários. Sendo assim, retorno agora para lhes apresentar: Rubeosaurus ovatus, o Styracosaurus que não era; Tatankaceratops sacrisonorum, um novo pequeno e controverso Charmosaurinae e Archaeoceratops yujingziensis, uma nova espécie de um gênero já conhecido.

Rubeosaurus ovatus McDonald & Horner, 2010 – originalmente decrito por Gilmore (1930) como “Styracosaurus” ovatus


Styracosaurus ovatus foi descrito por Gilmore em 1930 a partir de fragmentos de um escudo cefálico (partes de um osso parietal) destacado por ser bastante oval em seu aspecto e por possuir dois pares de chifres epocipitais e não três como Styracosaurus albertensis. Novos materiais, de um crânio parcial, permitiram, todavia identificar esse táxon como não relacionado ao gênero Styracosaurus, mas mais proximamente relacionado à Einiosaurus procuryicornis. Dessa forma, o antigo S. ovatus ganhou um novo nome: Rubeosaurus ovatus.


Rubeosaurus aumenta para 3 o número de centrosaurinae válidos da Formação Two Medicine, Montana, Canadá, e torna Stauricosaurus um táxon monotípico confinado à Formação Dinosaur Park de Alberta, Canadá.


McDonald, A. T. & Horner, J. R., 2010. New material of “Styracosaurus” ovatus from the Two Medicine Formation of Montana. In: Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier, and David A. Eberth (eds), New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Indiana University Press, 656 pp.

Tatankaceratops sacrisonorum Ott & Larson 2010


Tatankaceratops foi preliminarmente descrito com base em um crânio parcial e fragmentos de um esqueleto provindos da Formação Hell Creek, South Dakota, EUA. Tatankaceratops representaria um novo táxon de um pequeno ceratopsiano chasmosaurinae, cujo comprimento do crânio teria aproximadamente 1 m e o tamanho total do animal não passaria de 3m. Os autores discutem que todos os elementos esqueletais, apesar do tamanho, pertenceriam a um animal adulto, e isso, somado a diferenças morfológicas significativas entre o material desse espécime e o de outros ceratopsídeos contemporâneos suportaria a designação de um novo táxon.

Os autores examinaram hipóteses alternativas, como considerando esse animal como proximamente relacionado ou possivelmente descendente de Triceratops. Se esse fosse o caso, os autores sugeriram que isso poderia representar um caso de pedomorfose (retenção de caracteres juvenis na forma adulta). Porém, a análise cladística realizada não suportou essa alternativa. Assim como também descartou a hipótese de se tratar de alguma forma de nanismo em Triceratops dada por algum grau de isolamento populacional (como no caso dos saurópodes anões alemães – em breve uma revisão sobre “Dinos anões” aqui no Colecionadores).

Tudo aponta para afinidades com os ceratopsídeos chasmosaurinae, no entanto os autores destacam que uma melhor preparação do material é necessária e que a descoberta de outros espécimes com caracteres preservados que sejam mais filogenéticamente informativos tornariam mais claras as relações desse táxon com outras formas neoceratopsianas.

Houve certo questionamento sobre a qualificação de “adulto” desse espécime. Talvez análises histológicas em comparação com o que se é conhecido para a ontogenia (desenvolvimento) de Triceratops deveriam ser feitas para confirmar esse status. A validez de “Tatankaceratops” se mostra controversa.

Estudos posteriores devem ser realizados para confirmar toda história.

O nome “Tatanka” é um desígnio indígena (Lakota) para o Bisão das planícies. (Alguém aí assistiu “Dança com lobos”??)

Christopher J. Ott & Peter L. Larson, 2010. A New, Small Ceratopsian Dinosaur from the Latest Cretaceous Hell Creek Formation, Northwest South Dakota, United States: A Preliminary Description.
In
: Ryan, M.J., Chinnery-Allgeier, B.J., and Eberth, D.A. (eds.)
 New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana University Press, 656 pp.

Archaeoceratops yujingziensis You & Dodson 2010

Archaeoceratops trata-se de um gênero já conhecido de Ceratopsia basal do início do Cretáceo (Aptiano) da China. Eram animais pequenos (cerca de 1m de comprimento), com uma cabeça comparativamente grande em relação ao corpo e provavelmente bípedes. Não possuíam chifres e tinham apenas um tímido escudo cefálico projetando-se da cabeça.

O gênero foi proposto em 1997 por Dong & Azuma e a espécie tipo foi designada A. oshimai.

Archaeoceratops yunjingziensis foi descrito com base em um espécime coletado no Grupo Xingminpu da Bacia de Yujingzi, região de Mazongshan, noroeste da China. É representado por um crânio parcial e fragmentos do esqueleto. Os autores diferem A. yunjingziensis da espécie tipo por uma série de caracteres específicos do crânio e da dentição. Esse novo táxon amplia a distribuição geográfica do gênero em cerca de 100 km para sudoeste, ainda na mesma bacia.

Reconstituição artística de Archaeoceratops oshimai


You H.-l., Tanoue K. & Dodson, P. 2010. A new species of Archaeoceratops (Dinosauria: Neoceratopsia) from the Early Cretaceous of the Mazongshan area, northwestern China. I:n Ryan, M.J.; Chinnery-Allgeier, B.J. & Eberth D.A. (eds.) New Perspectives on Horned Dinosaurs: the Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana university Press. p59-67.

O que mais virá?

>Morrinhosuchus luziae, mais um bizarro crocodilomorfo do Cretáceo brasileiro

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Recentemente mais um novo crocodilomorfo notossúquio foi descrito para o Cretáceo do Brasil:  Morrinhosuchus luziae.

Morrinhosuchus foi descrito com base em um espécime encontrado no município de Monte Alto, SP, e  vem juntar-se à família das bizarrices crocodilianas da Bacia Bauru.

Notossúquios foram crocodiliformes que viveram durante o Período Cretáceo (110-65 m.a.a.). Seus fósseis são encontrados na América do Sul, África e Ásia. Eram animais essencialmente terrestres que apresentavam características peculiares adaptadas a esse estilo de vida, como um crânio alto e lateralmente achatado, narinas externas e em posição frontal, órbitas lateralmente localizadas, redução no número de dentes e membros mais desenvolvidos à locomoção cursorial. Ocuparam variados nichos ecológicos, com formas carnívoras, onívoras e possivelmente até herbívoras, tendo atingido variados tamanhos. A partir disso, não é difícil de concluir que se verifica uma considerável variação morfológica entre as espécies desse grupo, principalmente no crânio e em especial nos padrões de dentição, que incluem heterodontia e alta especialização dentária.

A Bacia Bauru, de onde proveio o espécime de Morrinhosuchus, é uma bacia sedimentar que se distribui no Brasil pelos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. No total ela abrange uma área de aproximadamente 370 000 Km2.  Sua sedimentação ocorreu num ambiente de clima quente, semi-árido nas bordas e desértico no interior. A principal fase de deposição se deu durante o Cretáceo Superior entre o Coniaciano e o Maastrichtiano.

Mapa geológico da Bacia Bauru

Já haviam sido descritas formalmente para essa bacia 10 espécies de crocodiliformes – Sphagesaurus huenei, Mariliasuchus amarili, Adamantinasuchus navae, Mariliasuchus robustus, Sphagesaurus montealtensis, Armadillosuchus arrudai,Baurusuchus salgadoensis, Baurusuchus pachecoi, Stratiotosuchus maxhechti, Uberabasuchus terrificus e Montealtosuchus arrudacamposi -, uma forma mais extraordiária que a outra. O último deles a ser publicado foi, Armadillosuchus arrudai, ou “crocodilo-tatu” como foi apelidado. O apelido se baseia em algumas características peculiares do animal, como a couraça de proteção em seu dorso.

Voltando a Morrinhosuchus, apesar de ter sido descrito com base em somente um espécime, constituído apenas das regiões distais do crânio e mandíbula, os autores puderam identificar uma série de características relevantes para a definição de uma nova espécie.

Ele apresenta uma morfologia dentária semelhante à encontrada no gênero Mariliasuchus, com dentes globosos, porém de arranjo distinto. A estrutura  geral do rosto, que se mostra bastante alta e estreita, também sublinha  diferenças. Esse animal vem ampliar a diversidade de formas de notossúquios gondwânicos e contribuir para o conhecimento faunístico e dos ecossistemas cretácicos da Bacia Bauru.

Reconstituição de Morrinhosuchus por Deverson da Silva


Parabéns Fabiano! Abraço dos Colecionadores!


IORI, F.V. & CARVALHO, I.S. 2009. Morrinhosuchus luziae, um novo Crocodylomorpa Notosuchia da Bacia Bauru, Brasil. Revista Brasileira de Geociências, 39(4): 717-725.

>O Maranhão no tempo dos dinossauros

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PARTE I –A ILHA DO CAJUAL

Essas semanas sem postagens têm uma boa justificativa…

Recentemente os colecionadores de ossos estiveram reunidos no Estado do Maranhão para uma viagem no tempo. Estivemos todos mergulhados no Cretáceo maranhense em busca dos famosos fósseis da Ilha do Cajual.

A Ilha do Cajual já é lendária na paleontologia. Além de ser cenário inspirador com seu ar pré-histórico, ela guarda um dos mais importantes afloramentos fossilíferos do país, com mais fósseis de dinossauros por metro quadrado do que qualquer outro no território nacional.

Sua geologia e paleontologia são peculiares e no post de hoje vamos resumir um pouco dessa história fascinante.

Antes de iniciar essa viagem no tempo com vocês, não podemos deixar de destacar nossos agradecimentos ao Prof. Manuel Alfredo Medeiros e a toda equipe de paleontologia da UFMA, e sublinhar aqui também, com admiração, o seu fantástico empenho e trabalho na região.

A Bacia de São Luís-Grajaú

A Bacia de Grajaú se estende por grande parte do Estado do Maranhão. Ela foi atrelada à Bacia de São Luís, ao norte, por considerar-se afinidades no seu arcabouço estrutural e na natureza de seu preenchimento sedimentar. Estudos demonstram ainda, que estas bacias se comportaram como depressões individualizadas somente até o Albiano (meados do Cretáceo, entre 113 e 97 milhões de anos atrás), quando então passaram a se comportar como uma única grande bacia sedimentar.

Localização das Bacias São Luís – Grajaú

A Bacia de São Luís-Grajaú tem sua origem relacionada em parte devido ao processo de fragmentação do Gondwana e a separação da América do Sul e a África. Sua área total é de 250 000 km2, com uma parcela expressiva englobando o Estado do Maranhão. Sua seqüência sedimentar é predominantemente de idade cretácica e é bastante espessa, chegando a alcançar 4000 m em algumas localidades.

O Grupo Itapecuru

O Grupo Itapecuru, no topo da seqüência sedimentar da Bacia de São Luís-Grajaú, é composto por 3 unidades litoestratigráficas depositadas durante o Eocretáceo (início do Albiano, 113 milhões de anos atrás) até o fim do Neocretáceo e início do Paleógeno (65 milhões de anos atrás). Essa sucessão de estratos contém um importante registro fóssil de vertebrados, muito promissor para pesquisas paleontológicas.

A Formação Alcântara

A Formação Alcântara, unidade litoestratigráfica predominante em exposição no litoral maranhense, contém a mais diversificada fauna de vertebrados fósseis conhecida do grupo Itapecuru.
É de idade Albiana-Eocenomaniana (Cretáceo Médio – entre 113 e 95 milhões de anos atrás) e é composta por um conjunto de arenitos estratificados, folhelhos sílticos, com a presença de lentes de calcário e eventuais conglomerados, estes formados por processos de tempestades de grande intensidade e, subordinariamente, correntes de maré em ambientes marinhos rasos transicionais.

A Ilha do Cajual e a Laje do Coringa

A Ilha do Cajual está localizada no lado oeste da Baía de São Marcos, próximo a cidade de Alcântara, MA. Essa ilha abriga o afloramento da Laje do Coringa, o mais fossilífero dos níveis da Formação Alcântara.

 
Localização da Ilha do Cajual

A Laje do Coringa localiza-se na borda oriental da ilha. Descoberta em 1994, ela é reconhecida como um bone-bed: Uma área com elevada concentração de fósseis de por metro quadrado. Ela concentra mais fósseis dinossauros por unidade de área do que qualquer outro afloramento do país. Têm cerca de 4 hectares e contém uma grande variedade de formas dinossaurianas, além de restos de peixes, crocodilos, quelônios, pterossauros e diferentes formas vegetais. Reúne uma mistura de fauna marinha e continental, documentando um paleoambiente típico costeiro.

A fauna que habitou o norte-nordeste brasileiro durante o meso-cretáceo e que está representada no registro fossilífero da Ilha do Cajual e imediações é muito similar à fauna africana da mesma época. A composição faunística abrange dinossauros saurópodes (Grandes herbívoros com cauda e pescoço comprido – Titanosauridae, Andesauridae e Diplodocoidea) e terópodes (dinossauros bípedes predadores – Carcharodontosauridae, Spinosauridae e Dromeosauridae), além pterossauros, crocodilomorfos, plesiossauros (répteis marinhos de pescoço comprido), quelônios e numerosas ocorrências de peixes, tanto ósseos quanto cartilaginosos (Lepidotes, Mawsonia, tubarões hybodontiformes, peixes pulmonados e raias Sclerorhynchidae). Quanto a paleoflora são comuns troncos de coníferas, que deviam atingir mais de 20 m de altura, associados a samambaias arborescentes com 3 m de altura e equisetos (tipo de planta primitiva a grosso modo parecida com o Bambu), que se alastravam pelas margens dos rios e lagos compondo uma espécie de mata ciliar. 


O clima da região era de árido à semi-árido, com uma temperatura média de 45 graus Celsius, mas ainda assim comportava bolsões de vegetação luxuriosa confinados às proximidades dos cursos d’água.


Os fósseis da Laje do Coringa, via de regra são encontrados desarticulados e por terem sofrido processo de retrabalhamento, apresentam diferentes graus de desgaste. Quanto a materiais de dinossauros, por exemplo, são comuns centros vertebrais isolados de seus respectivos complexos neurais, fragmentos de ossos longos em geral não identificáveis e dentes. A gênese da Laje do Coringa é interpretada como tendo se dado em um contexto marinho raso, que reuniu elementos retrabalhados de diferentes fontes, com pelo menos algumas delas de origem fluvial. Os elementos isolados e desgastados tem utilidade limitada nas diagnoses, entretanto quando se dispões somente destes elementos para identificação, um esforço extra tem que ser feito para se realizar um diagnóstico efetivo.


Icnofósseis de vertebrados e invertebrados também são comuns. A grande quantidade de coprólitos encontrada poderia, segundo Prof. Manuel Alfredo, ser relacionada principalmente a pterossauros. Ele argumenta que é possível que o local abrigasse um grande ninhal, dado a grande quantidade de dentes e coprólitos desses animais encontrados ali.


Dos peixes são comuns escamas e dentes, mas também fragmentos ósseos do crânio, em especial de Mawsonia. Os exemplares de Mawsonia da região, devido a proporção dos ossos encontrados, deveriam apresentar tamanhos descomunais, maiores de 3 metros de comprimento. As tartarugas são representadas por placas ósseas da carapaça e plastrão, os crocodiliformes por dentes e placas ósseas e os plesiossauros (répteis marinhos) por raros dentes isolados. 


As coníferas, pteridóftas e equisetaceas são representadas pela preservação de suas porções mais lignificadas, como troncos e frondes.

Reconstrução do cenário cretácico maranhense por Felipe Elias. Representados: Dinossauro terópode Spinosauridae, Peixe (Mawsonia), dinossauro saurópode Titanosauridae e crocodilomorfo (Candidodon).

A Laje do Coringa fica imersa 2 metros embaixo d’água durante a maré cheia. Ela fica exposta somente algumas horas durante o dia. Nesse período é possível percorrer a pé o tapete de fósseis e se surpreender com a quantidade de material coletado em poucas horas.

Infelizmente, com a ação do maré, bancos de areia estão cobrindo a laje e a cada subida da mesma, várias partes da rocha se soltam. É um processo natural, mas que infelizmente destrói muitos fósseis e vem tornando inacessível algumas partes do afloramento.

Uma grande coleção de fósseis da Laje do Coringa e outros afloramentos da Formação Itapecuru da Ilha do Cajual estão depositados no museu da UFMA, em São Luís, outros, abrigados no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão. É típica a sua coloração escura, de castanho a negro e seu aspecto desgastado, de quem sobreviveu a mais de 95 milhões de anos de história….

Os fósseis maranhenses ajudam a reforçar uma importante interpretação da história dos continentes. A similaridade faunística entre o norte maranhense e o norte africano em meados do Cretáceo, nos ajuda a entender que um dia estes continentes já estiveram unidos em um único bloco de terra emersa: o Gondwana. “Seria impossível explicar esta similaridade entre as faunas se considerássemos que a posição dos continentes sempre foi a mesma que hoje. Temos que admitir que a África e a América do Sul já estiveram unidas num passado remoto”,  destaca o paleontólogo Manuel Alfredo Medeiros (UFMA).

Referências Bibliográficas

Medeiros M.A. & Schultz C.L. 2002. A fauna dinossauriana  da “Laje do Coringa”, Cretáceo Médio do Nordeste do Brasil. Arquivos do Museu Nacional, 60:155-162.

Medeiros M.A. & Schultz C.L. 2001. Uma paleocomunidade  de vertebrados do Cretáceo médio, Bacia de São Luís. In: Rossetti D.F., Góes A.M., Truckenbrodt W. (eds.) Cretáceo na Bacia de São Luís-Grajaú. Coleção Friedrich Katzer, Ed. Museu Paraense Emílio Goeldi, p. 209- 221.

Medeiros, M.A. 2003. Terra de Gigantes. Produção independente, 69 p.

Rossetti D.F. 2001. Arquitetura deposicional da Bacia de São Luís-Grajaú. In: Rossetti D.F., Góes A.M., Truckenbrodt W. (eds.) O Cretáceo na Bacia de São Luís-Grajaú. Coleção Friedrich Katzer, Ed. Museu Paraense Emílio Goeldi, p. 31-46.