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Município de Coração de Jesus, uma experiência além do tempo

Ol√° a todos! Seguindo a vertente de postagens relacionadas √†¬†divulga√ß√£o cient√≠fica e sua import√Ęncia, temos aqui outra narrativa¬†acerca da divulga√ß√£o da descoberta do¬†Tapuiasaurus macedoi em sua cidade natal, o munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus! Este texto, redigido pelo Me. Natan Santos Brilhante, traz uma perspectiva complementar √† postagem pr√©via sobre o assunto (veja aqui). Espero que gostem!


Sob a mira de olhares curiosos e intrigados, forasteiros em um ve√≠culo branco com logotipo (representado pela silhueta de um Tamandu√°-bandeira) de uma institui√ß√£o p√ļblica conduziram diversas expedi√ß√Ķes de coleta de f√≥sseis no norte do estado de Minas Gerais. Os trabalhos na regi√£o duraram v√°rios anos, mais precisamente de 2005 at√© 2012. Entretanto, na perspectiva dos habitantes, quais seriam os motivos que trariam por tanto tempo pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo (MZUSP)1 para uma cidade modesta e long√≠nqua?

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Veículo oficial do MZUSP no afloramento. Fonte: Natan Santos Brilhante

Logo MZUSP Atualizado
Logo em evidência, o mesmo visto na porta dianteira do veículo oficial do MZUSP. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Talvez o município de Coração de Jesus seja considerado simples em comparação com as grandes metrópoles brasileiras. Contudo, é uma cidade extremamente rica em cultura, hospitalidade e vivacidade. Em meio a toda a sua diversidade, nunca faltaram pessoas com disposição e prontidão em ajudar, seja para desatolar o veículo quando este enfrentou chuvas torrenciais nas estradas de barro do município, ou para servir com capricho uma boa refeição para toda a equipe depois de um dia exaustivo de trabalho.
 
Outras situa√ß√Ķes inusitadas fazem parte das boas lembran√ßas, e ocupam as p√°ginas do di√°rio de campo, como o deslocamento de um bloco de grandes dimens√Ķes e peso, localizado em √°rea de dif√≠cil acesso. Esse material s√≥ p√īde ser transportado para o alto do barranco gra√ßas ao aux√≠lio de um ‚Äúcarro de boi‚ÄĚ , gentilmente disponibilizado por Jos√© Ad√£o Pereira de Souza, o ‚ÄúZezinho‚ÄĚ, respons√°vel pela descoberta dos primeiros ossos fossilizados expostos na regi√£o por a√ß√£o do intemperismo*.
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‚ÄúCarro de boi‚ÄĚ, comumente usado para auxiliar em atividades de zonas rurais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Moradores do município de Coração de Jesus ajudando a equipe de pesquisa do MZUSP a transportar os materiais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Fragmentos de ossos fossilizados (esbranquiçados) aflorando em meio aos sedimentos por ação do intemperismo. Fonte: Natan Santos Brilhante

E o que falar da amizade do Sr. Israel Cruz e da Sra. Marylene Ferreira que abriram as porteiras da Fazenda Santa Tereza para os pesquisadores trabalharem e que, no entardecer, os acolhia com tanto carinho em sua casa para oferecer um bolo caseiro acompanhado de suco de coquinho azedo***. Vale lembrar ainda do Sr. Amilcar, que nos recebeu em sua resid√™ncia semelhante a uma ‚Äúcasa de taipa‚ÄĚ, a alguns quil√īmetros dos afloramentos. Sua atitude cordial possibilitou o abastecimento de √°gua para as etapas de coleta, resguardando o uso de recurso pot√°vel destinado ao nosso consumo e, consequentemente, evitando a nossa desidrata√ß√£o diante do sol forte e de temperaturas com m√©dias di√°rias acima dos 40 graus (na sombra). Curiosamente, ele sempre lembrava com precis√£o o nome de integrantes da equipe que por l√° passaram h√° anos (mem√≥ria invej√°vel para qualquer taxonomista, n√£o?!).
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Um dos pontos de coleta de fósseis nos domínios da Fazenda Santa Tereza. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Estes foram apenas alguns dos eventos e personagens que fizeram parte das muitas histórias de bastidores que ocorreram durante os trabalhos de campo.
Tal empenho e esfor√ßo renderam frutos, ou melhor… f√≥sseis, de dinossauros saur√≥podes e ter√≥podes, que foram (e continuam sendo) dedicadamente estudados por pesquisadores nacionais e internacionais. Entre as descobertas mais emblem√°ticas est√° a esp√©cie Tapuiasaurus macedoi, a partir de um exemplar que det√©m o mais bem preservado cr√Ęnio de titanossauro da Am√©rica do Sul. Essa descoberta recebeu destaque na comunidade cient√≠fica e na m√≠dia por meio da publica√ß√£o de um artigo na PLoS ONE4 em 2011 e, mais recentemente, na Zoological Journal of the Linnean Society5 em 2016.
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Coleta de fósseis de dinossauros nos arredores do município de Coração de Jesus. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Equipe de pesquisa do MZUSP protegendo e preparando a retirada dos fósseis no afloramento para serem transportados. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Cr√Ęnio do esp√©cime MZSP-PV 807 (Tapuiasaurus macedoi). A barra de escala representa 10 cm. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Infelizmente, nem sempre cabem agradecimentos em uma revista cient√≠fica a cada pessoa que, direta ou indiretamente, colaborou com o desenvolvimento da pesquisa. Eventualmente, estas ser√£o retratadas em outros meios de comunica√ß√£o, como internet, jornais e r√°dio. Outra quest√£o recorrente √© a falta de acesso e de linguagem adequada a este tipo de conte√ļdo por p√ļblico o qual a vida acad√™mica n√£o faz parte da sua realidade.
Ent√£o, como retribuir o apoio t√£o caloroso? Como mostrar √† popula√ß√£o a import√Ęncia e a seriedade do que est√° sendo realizado nos arredores da sua cidade? Ou o porqu√™ de estar sendo realizado. Como resposta, cito a seguir alguns dos trabalhos promovidos por alunos, funcion√°rios e professores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo, em parceria com o Museu de Ci√™ncias da USP – Pr√≥-Reitoria de Cultura e Extens√£o Universit√°ria2 e o Instituto Butantan3.
As atividades contaram também com o apoio da Prefeitura local e ocorreram a partir de duas frentes principais:
(1) Montagem da exposi√ß√£o itinerante ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ
Abordou tem√°ticas como Paleontologia, Evolu√ß√£o e Din√Ęmica da Terra, e foi uma remontagem (e recontextualiza√ß√£o) de uma exposi√ß√£o com o mesmo t√≠tulo, montada para o Museu de Zoologia da USP, em 2011.
A exposi√ß√£o permaneceu aberta de ter√ßa-feira a domingo, durante todo o dia, entre os meses de maio e agosto de 2012. Adentro, o p√ļblico p√īde contemplar f√≥sseis originais e r√©plicas de diferentes regi√Ķes e contextos geol√≥gicos, assim como dioramas, v√≠deos informativos e ‚Äúpaleoarte‚ÄĚ. Entre os v√≠deos, destaca-se um feito com os depoimentos de algumas pessoas da cidade, sobre suas impress√Ķes ou sua participa√ß√£o na descoberta dos f√≥sseis.
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Vista geral da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

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Painel com informes e material a respeito do vasto universo da Paleontologia. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Ap√≥s poucos dias de abertura, a exposi√ß√£o j√° havia recebido milhares de visitantes, alcan√ßando n√£o apenas os Corjesuenses, mas tamb√©m cidad√£os de munic√≠pios pr√≥ximos e de outros estados . Para se ter ideia em n√ļmeros, a exposi√ß√£o foi visitada por mais de 9 mil pessoas, em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes!
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Dia de visita. Intera√ß√£o entre o p√ļblico e a exposi√ß√£o. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Acreditamos que este tipo de realiza√ß√£o estimule uma pr√°tica de grande import√Ęncia para a regi√£o: o turismo. Afinal, a rotatividade intensa de pessoas pode ser uma importante fonte para a economia regional, uma vez que a cidade est√° distante de grandes centros urbanos e o com√©rcio se restringe basicamente aos seus pr√≥prios habitantes.
(2) Projeto de extens√£o ‚ÄúPaleontologia sob a perspectiva da Educa√ß√£o Patrimonial: aproximando os f√≥sseis da popula√ß√£o de Cora√ß√£o de Jesus‚ÄĚ
Foi de car√°ter educativo e teve o intuito de permitir o reconhecimento do patrim√īnio fossil√≠fero da regi√£o, assim como apresentar quest√Ķes cient√≠ficas relacionadas √† Paleontologia, relev√Ęncia desta ci√™ncia para o mundo e valor do Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico. Foram efetivadas as seguintes atividades:
I. Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores – visou um melhor entendimento do patrim√īnio fossil√≠fero regional e do conte√ļdo da exposi√ß√£o itinerante por parte de professores, de modo que eles pudessem promover visitas direcionadas com seus alunos, utilizando ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial e o conhecimento obtido a partir de estudos regionais. Esse evento ocorreu em mar√ßo de 2012, teve dura√ß√£o de uma semana (40 horas) e contou com a participa√ß√£o de 118 professores e funcion√°rios de escolas p√ļblicas estaduais e municipais, tanto de √°reas urbanas quanto rurais, divididos em duas turmas.
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Curso sendo ministrado para a formação continuada de professores. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

II. Oficinas nas escolas – promoveu monitorias e oficinas para desenvolver dobraduras e desenhos relacionados √† Paleontologia, assim como o contato com f√≥sseis e r√©plicas. Essa etapa incluiu tamb√©m a iniciativa ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ, promovendo o di√°logo direto entre alunos das escolas e profissionais e estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o em Paleontologia para discutir e esclarecer d√ļvidas a respeito da atua√ß√£o do paleont√≥logo e a relev√Ęncia da sua √°rea de estudo. Participaram mais de 600 alunos de 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), em maio de 2012.
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Colaboradores do Laborat√≥rio de Paleontologia do MZUSP em di√°logo aberto com alunos de escolas p√ļblicas. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

III. Forma√ß√£o de Monitores – prestou treinamento t√©cnico para o atendimento ao p√ļblico na exposi√ß√£o citada acima, de maio a julho de 2012. Os mediadores eram alunos do Ensino M√©dio, selecionados a partir de uma parceira junto √†s escolas. O curso abordou conceitos relacionados √† Museologia, Paleontologia e Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico, totalizando 24 horas.
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Monitores atendendo o p√ļblico na exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

IV. Curso de Extens√£o Universit√°ria – foi ministrado para 16 graduandos em agosto de 2012. Para transmitir ideias gerais sobre o que √© a Paleontologia, a sua import√Ęncia, e o qu√£o promissoras s√£o as descobertas regionais.
Foram desenvolvidos tamb√©m diversos materiais did√°ticos para complementar, ilustrar e relembrar muitas das informa√ß√Ķes transmitidas em sala de aula pelos colaboradores do projeto educativo, como o livreto ‚ÄúCabe√ßa DINOSSAURO – o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ.
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Material educativo. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Al√©m dessas pr√°ticas, foram tamb√©m doadas r√©plicas do ‚Äútapuiassauro‚ÄĚ para o Centro Cultural Jos√© Alves Macedo, um n√ļcleo hist√≥rico-cultural sediado na pra√ßa central da cidade. Essa institui√ß√£o foi fundada e √© administrada por Ubirajara Alves Macedo, personagem folcl√≥rico e um tanto exc√™ntrico da regi√£o, que foi homenageado pela sua colabora√ß√£o na descoberta e na divulga√ß√£o inicial dos f√≥sseis com o sobrenome da sua fam√≠lia posto no ep√≠teto espec√≠fico da esp√©cie supracitada (Tapuiasaurus macedoi).
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A pra√ßa central da cidade pode ser facilmente reconhecida pela presen√ßa de uma ic√īnica est√°tua, Sagrado Cora√ß√£o de Jesus, que remete ao nome herdado pelo munic√≠pio. Fonte: Natan Santos Brilhante

Por meio dessas a√ß√Ķes de ensino e divulga√ß√£o, foi poss√≠vel mostrar √† popula√ß√£o da cidade de Cora√ß√£o de Jesus a import√Ęncia dos trabalhos paleontol√≥gicos, conscientizando e educando os moradores em como proceder diante de novas descobertas, valorizando assim os ideais de preserva√ß√£o e valoriza√ß√£o do patrim√īnio geopaleontol√≥gico. Esperamos com isso resgatar n√£o somente o patrim√īnio fossil√≠fero, mas tamb√©m, com empenho, incentivar as futuras gera√ß√Ķes de paleont√≥logos(as) e demais entusiastas da ci√™ncia.
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Monitores transmitindo conhecimento aos visitantes da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

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Alunos de escolas p√ļblicas do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus durante uma visita √† exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Nota-se a curiosidade e o entusiasmo em suas express√Ķes faciais ao bordarem a tem√°tica Paleontologia. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

* A história mais completa sobre a descoberta dos fósseis no município de Coração de Jesus foi relatada em uma matéria do Estadão, um jornal do estado de São Paulo, o qual, na época (2010), dedicou um caderno especial a essa temática. A reportagem contou também com uma série de entrevistas de alguns dos moradores e dos pesquisadores que estiveram à frente das descobertas na região.
*** Coquinho azedo (Butia capitata): planta típica do cerrado rica em vitamina A, C e potássio.
 
Endere√ßo eletr√īnico de algumas das reportagens sobre o assunto:
I. http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,um-dinossauro-no-coracao-de-jesus,609332
II. http://topicos.estadao.com.br/tapuiassauro
III. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-o-trabalho-dos-paleontologos,242506
IV. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-entrevista-com-alberto-carvalho,244709
Endere√ßo eletr√īnico das institui√ß√Ķes mencionadas:
1 – http://www.mz.usp.br
2 – http://biton.uspnet.usp.br/mc/
3 – http://www.butantan.gov.br
Endere√ßo eletr√īnico dos¬†artigos cient√≠ficos a respeito do Tapuiasaurus:
4 – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0016663
5 – http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zoj.12420/abstract


Natan Santos Brilhante

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Formação acadêmica: Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Grande ABC, Licenciatura Plena e Bacharelado; Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Experi√™ncia profissional: elabora√ß√£o e execu√ß√£o de exposi√ß√Ķes, treinamento e medeio de monitores, atendimento ao p√ļblico, expedi√ß√Ķes de campo (paleontologia e herpetologia) e outros trabalhos t√©cnicos devido a sua colabora√ß√£o junto ao Laborat√≥rio de Paleontologia e √† Museologia do Museu de Zoologia da USP, de 2008 a 2013. Ap√≥s esse per√≠odo, ingressou no Museu Nacional/UFRJ e, desde ent√£o, segue como colaborador no Setor de Paleovertebrados do Departamento de Geologia e Paleontologia.
√Ārea de estudo: Zoologia, com √™nfase em Paleontologia de Vertebrados. Atua principalmente nos seguintes temas: Taxonomia de arcossauros f√≥sseis e recentes, curadoria de cole√ß√Ķes, coleta e prepara√ß√£o de f√≥sseis de vertebrados.

Com um frango no quintal

Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar √© a de divulgar a ci√™ncia, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulga√ß√£o cientifica possibilita a aproxima√ß√£o de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que √© o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulga√ß√£o os pesquisadores nutrem a esperan√ßa de que pelo menos partes do conhecimento cientifico comece a integrar o conhecimento popular (e.g., teoria da gravidade, relatividade, alguns fatos sobre dinosauros, etc). A divulga√ß√£o cientifica feita pelos pr√≥prios cientistas √© relativamente rara e no m√≠nimo controversa, visto que pesquisadores divulgadores s√£o vistos como “estranhos no ninho” por seus pares (ver postagem). No entanto, cada vez mais os org√£os de fomento brasileiros est√£o reconhecendo a import√Ęncia de divulgar os resultados das pesquisas por eles financiadas. Portanto, vem ¬†se tornando cada vez mais comum a necessidade de direcionar parte do recurso solicitado, via projeto a um destes org√£os, a divulga√ß√£o direta de seus resultados.
Com o intuito de ilustrar a import√Ęncia da divulga√ß√£o da ci√™ncia para a comunidade n√£o-cientifica trago os relatos de dois pesquisadores que estiveram envolvidos no projeto de divulga√ß√£o do Tapuiasaurus realizado em sua “cidade natal”, Cora√ß√£o de Jesus.
Esta primeira postagem foi feita pela doutoranda Mariana Galera Soler e a segunda postagem será uma contribuição do doutorando Natan Santos Brilhante.
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A divulga√ß√£o da ci√™ncia n√£o √© uma novidade da nossa sociedade. Desde o s√©culo XVIII h√° extensos registros de a√ß√Ķes de profissionais e amadores da ci√™ncia buscando apresentar os seus resultados para plateias, muitas vezes selecionadas. Longe de ser uma a√ß√£o altru√≠sta, o processo de comunica√ß√£o dos resultados de uma pesquisa √© fundamental para a valida√ß√£o desta pesquisa pelo p√ļblico que, em √ļltima inst√Ęncia, atende fun√ß√Ķes econ√īmicas (financiamento p√ļblico e privado) e profissionais (forma√ß√£o de novos profissionais e apoio social √† pesquisa).
J√° na contemporaneidade, a partir da d√©cada de 1970 houve um forte movimento intitulado public undestanding of science, que tem resultado nas a√ß√Ķes de divulga√ß√£o que conhecemos atualmente, como centros de ci√™ncia mega-interativos, clubes de ci√™ncias, jogos, livros, filmes etc. Neste per√≠odo a divulga√ß√£o cient√≠fica passou a ter um car√°ter de essencialmente educativo. Fala-se no meio acad√™mico em letramento cient√≠fico ou alfabetiza√ß√£o cient√≠fica, ou seja, informar as pessoas de modo que elas possam tomar suas decis√Ķes de acordo com os conceitos cient√≠ficos vigentes. Em uma sociedade imersa em ci√™ncia e tecnologia, como vivemos atualmente, parece um discurso coerente.
No entanto, ao mesmo tempo que falamos em sociedade do conhecimento, hiperconectividade, redes sociais, ao abrirmos os jornais nos deparamos com uma chamada ‚Äúcrise dos direitos humanos‚ÄĚ, novos muros estabelecendo fronteiras f√≠sicas, al√©m dos ‚Äúfatos alternativos‚ÄĚ e da pseudoci√™ncia. Conhecemos o corpo humano e o universo em um n√≠vel de detalhamento que era impens√°vel no s√©culo XIX, mas questionamos a ci√™ncia que nos deu acesso a estas informa√ß√Ķes de uma forma que jamais pens√°vamos no p√≥s-guerra.

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‚ÄúVivemos em uma sociedade extremamente dependente de ci√™ncia e tecnologia, em que quase ningu√©m sabe nada de ci√™ncia e tecnologia‚ÄĚ ‚Äď Carl Sagan. Fonte da imagem: http://bigthink.com/words-of-wisdom/carl-sagan-on-science-and-technology

 
Ent√£o, p√Ķe-se em quest√£o: como falar de ci√™ncia para p√ļblicos que interessados em likes no Instagram?
Atualmente falar de ci√™ncia parece cool, ent√£o vou focar em exemplos da Paleontologia. Desenhos de dinossauros estampam camisetas e geralmente grandes bilheterias no cinema. Mas, o que √© mesmo um f√≥ssil? Um dinossauro √© t√£o antigo quando meu tatarav√ī? Eu posso ter um f√≥ssil em casa? Quando Pedro Alvares Cabral chegou no Brasil ainda existiam pregui√ßas gigantes?
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‚ÄúEm minhas veias corre o sangue dos Dinossauros. Dos dinossauros eu te digo!‚ÄĚ. Um dos meus memes favoritos sobre dinossauros! Por que divulga√ß√£o cient√≠fica tamb√©m pode ser feita com likes e curtidas. Fonte: http://www.ifunny.com/pictures/veins-flows-blood-dinosaurs/

Estas quest√Ķes podem parecer bobas para quem √© da √°rea, mas n√£o s√£o triviais para a maioria das pessoas. No contexto mais √≥bvio, o escolar, embora sejam assuntos apontados nos par√Ęmetros curriculares de todos os n√≠veis da Educa√ß√£o B√°sica brasileira, s√£o temas pouco explorados pelos livros did√°ticos e na forma√ß√£o dos profissionais da Educa√ß√£o, de forma que a informa√ß√£o sobre paleontologia n√£o est√° evidente e os conte√ļdos paleontol√≥gicos aparecem dispersos nos curr√≠culos escolares, quando aparecem.
Espa√ßos para aprender sobre Paleontologia no Brasil tamb√©m s√£o escassos. Por exemplo, em todo o estado de S√£o Paulo h√° menos de uma dezena de museus que possuem f√≥sseis em exposi√ß√£o. H√° tamb√©m alguns centros de ci√™ncia, como o Catavento Cultural (em S√£o Paulo/SP), Sabina ‚Äď Parque Escola do Conhecimento (Santo Andr√©/SP) ou o Museu de Ci√™ncia e Tecnologia da PUCRS (Rio Grande do Sul / RS), mas dada as dimens√Ķes brasileiras ainda s√£o a√ß√Ķes esparsas. O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ) √© uma institui√ß√£o diferenciada neste aspecto, dado ao espa√ßo oferecido a uma exposi√ß√£o permanente sobre as diferentes faunas paleontol√≥gicas brasileiras, como tamb√©m por a√ß√Ķes educativas desenvolvidas pela equipe e alunos do museu.
Estas s√£o a√ß√Ķes pontuais e, geralmente, circunscritas a capitais e regi√Ķes de grande circula√ß√£o de pessoas. No entanto, quem usa t-shirt com a estampa do ‚ÄúT-rex‚ÄĚ, em geral, tem acesso a um museu ou a internet e pode descobrir mais facilmente que aquele personagem t√£o bravo do ‚ÄúJurassic Park‚ÄĚ n√£o passa de um frang√£o desengon√ßado e carniceiro. Voltando a sociedade hiperconectada, a informa√ß√£o paleontol√≥gica nas redes sociais est√° dispon√≠vel, e √© poss√≠vel dar likes no Instagram de diversos museus, seguir canais no Youtube de divulgadores cient√≠ficos. O desafio √© descobrir onde est√° a informa√ß√£o qualificada sobre a Paleontologia. E, neste sentido, as institui√ß√Ķes e os termos ‚Äúestudos comprovam‚ÄĚ apresentam um peso de qualificadores.
No entanto, esta √© uma quest√£o j√° bem explorada por outros textos. Gostaria aqui de discutir uma outra situa√ß√£o: como nos comunicar com quem encontra f√≥sseis nos seus quintais? Com quem est√° a margem destas grandes institui√ß√Ķes, cuja ci√™ncia se aprende tanto na pr√°tica cotidiana quanto na escola. Como falar em tempo geol√≥gico, para aqueles que contam os per√≠odos do ano entre as √©pocas de chuva e seca?
Para esta quest√£o, trago um outro referencial que ainda √© pouco explorado na Paleontologia brasileira, que √© o conceito do f√≥ssil como um patrim√īnio. Embora legalmente reconhecido como tal desde a d√©cada de 1940, e esta ser uma legisla√ß√£o bastante conhecida pelos paleont√≥logos, a dimens√£o cultural dos f√≥sseis ainda √© pouco explorada nas a√ß√Ķes educativas.
Entender o f√≥ssil como um patrim√īnio natural, implica em contextualizar estes materiais por meio de uma linguagem clara e objetiva, buscando estabelecer rela√ß√Ķes entre as popula√ß√Ķes locais onde os f√≥sseis foram encontrados e as equipes que pesquisam. Para al√©m quest√Ķes biol√≥gicas e geol√≥gicas diretamente relacionas aos f√≥sseis, a utiliza√ß√£o do referencial da educa√ß√£o patrimonial em Paleontologia fornece subs√≠dios para que esses materiais fa√ßam parte da identidade local e sejam entendidos como um patrim√īnio natural a ser preservado. Para que sejam efetivas estas pr√°ticas, ou seja, para que a popula√ß√£o local seja agente na conserva√ß√£o de s√≠tios paleontol√≥gicos e tamb√©m possam compartilhar seu conhecimento, at√© mesmo indicando novos afloramentos, abrindo suas casas e propriedades ou hist√≥ricos da regi√£o, √© fundamental que as a√ß√Ķes atendam as demandas espec√≠ficas dos grupos locais.
N√£o h√° apostilas ou f√≥rmulas. H√° estudos de caso que demonstram que a parceria entre popula√ß√Ķes locais e paleont√≥logos podem ser frut√≠feras para ambos. Um exemplo ocorreu no ano de 2012, no munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus (MG). Nesta localidade foram encontrados f√≥sseis de dinossauros ter√≥podes e saur√≥podes da Bacia S√£o-franciscana que datam do Per√≠odo Cret√°ceo Inferior, com idades em torno de 120 milh√Ķes de anos. Esta regi√£o tem sido objeto de estudo da equipe de paleontologia do Museu de Zoologia da USP (SP), desde 2005.
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Em destaque, município de Coração de Jesus, no norte do estado de Minas Gerais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cora%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_(Minas_Gerais)

De forma que, passados sete anos em que a popula√ß√£o local convivia com a chegada de uma pick-up branca com emblema de uma universidade de outro estado, pessoas estranhas saiam cedo, iam para a √°rea rural do munic√≠pio e voltavam sujos de terra e com o carro cheios de rochas cobertas por gesso, muitas hist√≥rias foram criadas e situa√ß√Ķes com a equipe. Dizia-se de tudo um pouco: havia um tal dinossauro na cidade, que foi vendido para os EUA h√° centenas de milhares de reais, os donos das terras onde os f√≥sseis foram encontrados ganharam dinheiro e as equipes de paleont√≥logos eram apelidados de ‚Äúosseiros‚ÄĚ.¬† Depois de tanto tempo sem entender bem o que estava acontecendo, as rela√ß√Ķes entre a popula√ß√£o e a equipe come√ßaram a se tornar mais dif√≠ceis, ao ponto do prefeito da √©poca ligar para o Museu de Zoologia e pedir explica√ß√Ķes.
Bem, tais explica√ß√Ķes vieram na forma de um projeto educativo e uma exposi√ß√£o itinerante. Como n√£o era poss√≠vel levar e fazer uma montagem do f√≥ssil original, foi montada a exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, ao redor da r√©plica completa do dinossauro Tapuiassaurus macedoi. As a√ß√Ķes educativas seguiram quatro linhas: (i) Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores, em que os conhecimentos gerados a partir dos estudos na regi√£o foram compartilhados com professores; tamb√©m foram abordadas ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial, para que os professores e alunos pudessem explorar a exposi√ß√£o e o patrim√īnio fossil√≠fero regional. Participaram 118 professores e funcion√°rios das escolas p√ļblicas estaduais e municipais, urbanas e rurais. (ii) Oficinas nas escolas, que discutiram o trabalho do paleont√≥logo, por meio de desenhos, dobraduras, intera√ß√£o com r√©plicas e f√≥sseis e roda de conversa entre alunos e profissionais, intitulada ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ. Em maio de 2012, foram realizadas oficinas para 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), envolvendo mais de 600 alunos. (iii) Forma√ß√£o de Monitores, como parte da parceria com as escolas, em que foram escolhidos 20 alunos do Ensino M√©dio os quais atuaram como mediadores na exposi√ß√£o entre os meses de maio e julho de 2012. Estes alunos realizaram um curso de forma√ß√£o (dura√ß√£o de 24 horas), em que se discutiram conceitos relacionados √† Paleontologia, museus e patrim√īnio geopaleontol√≥gico. E, (iv) Curso de Extens√£o Universit√°ria, abordando aspectos gerais da Paleontologia e ratificando a import√Ęncia cient√≠fica das descobertas regionais. Participaram do curso 16 estudantes, em agosto de 2012.
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Exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo¬†tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante, em Cora√ß√£o de Jesus (MG), maio de 2012. Na foto, um grupo de estudantes da cidade √© atendido na exposi√ß√£o por dois monitores (tamb√©m estudantes da cidade que participaram do projeto educativo). Foto: Mariana Galera Soler

 
Durante todo este projeto, que durou cerca de 6 meses, os ‚Äúosseiros‚ÄĚ acabaram sendo pessoas conhecidas na cidade. Quando sa√≠amos nas ruas (e aqui me incluo, pois fui coordenadora deste projeto e tamb√©m uma das ‚Äúosseiras‚ÄĚ que estava na coleta dos f√≥sseis) √©ramos convidados para entrar nas casas, conversar com as pessoas sobre o tal dinossauro. De elementos estranhos, passamos a fazer parte da hist√≥ria daquele local, materializado na forma do ‚Äútal dinossauro‚ÄĚ entrar nas propostas de letra para um novo hino da cidade ou da ‚Äúexplica√ß√£o‚ÄĚ de uma lenda local***.
De porteiras fechadas nas regi√Ķes dos afloramentos, fomos recebidos com caf√© e biscoito de toalha e conhecemos uma Cora√ß√£o de Jesus absolutamente nova para n√≥s. Os resultados n√£o foram ‚Äúapenas‚ÄĚ a divulga√ß√£o dos resultados da pesquisa paleontol√≥gica, as pessoas de Cora√ß√£o de Jesus sabiam nossos nomes e se interessavam pelo nosso trabalho, j√° n√£o √©ramos mais os ‚Äúosseiros‚ÄĚ. E de muitas hist√≥rias que podem ser contadas, uma frase de um professor no √ļltimo dia do curso registrou fundamentalmente esta parceria: ‚ÄúObrigado por ter nos ajudado a descobrir que a nossa cidade √© mais importante do que parece‚ÄĚ.
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Nas visitas as escolas realizávamos diferentes oficinas, entre elas a construção de dinossauros de origamis. Na imagem, um dos alunos das escolas rurais de Coração de Jesus (MG) com seus dinossauros. Foto: Mariana Galera Soler

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Exposi√ß√£o de trabalhos dos alunos em escola rural do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus. A atividade de ‚Äúcriar f√≥sseis‚ÄĚ com a impress√£o de folhas em argila foi uma das oficinas propostas para os professores durante o curso. Ao fundo, algumas reconstitui√ß√Ķes dos animais extintos encontrados na regi√£o, tamb√©m feitas em argila por alunos. Foto: Mariana Galera Soler

Este √© apenas um caso, mas existem outros. Embora escassos, projetos focados em popula√ß√Ķes locais e tratando os f√≥sseis como um patrim√īnio e em parceria com as pessoas s√£o um caminho poss√≠vel para al√©m da divulga√ß√£o da ci√™ncia mais √≥bvia, cheia de f√≥rmulas prontas e high tech de comunicar uma ci√™ncia neutra e fechada em si, tratando os f√≥sseis como todos sendo um dinossauro sem penas que corre como um guepardo. Projetos locais e contextualizados s√£o um caminho para a preserva√ß√£o do patrim√≥nio fossil√≠fero in situ e para que a ci√™ncia n√£o seja apenas um conjunto de resultados empilhados, ass√©pticos e descontextualizados, e produzida por homens brancos, de meia idade e jaleco branco (eventualmente, com a l√≠ngua de fora).
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Não basta ser monitor tem que participar! Alunos do Ensino Médio foram indicados por seus professores para atuar como monitores na exposição. Para tanto participaram de um curso sobre Paleontologia e também de diversas atividades práticas, entre elas ajudar na montagem da própria exposição. Foto: Marcia Fernades Lourenço

 
*** Cora√ß√£o de Jesus teve nos anos 1960 ‚Äď 70 certa notoriedade na regi√£o e grandes investimentos p√ļblicos que geraram, por exemplo, a constru√ß√£o de um espa√ßo esportivo e complexo de piscinas bem estruturados. Contudo, esse projeto foi abandonado e o munic√≠pio voltou a ser apenas mais um dos pequenos lugares na borda do Vale do Jequitinhonha. Para explicar esta ‚Äúperda de status‚ÄĚ, os mais velhos costumavam dizer que no passado algu√©m havia enterrado a cabe√ßa de um burro na cidade e por isso ela n√£o ‚Äúia para frente‚ÄĚ. Com a descoberta do cr√Ęnio (‚Äúcabe√ßa‚ÄĚ) de um dinossauro (bicho antigo que viveu h√° muito tempo), diversas pessoas relacionaram o f√≥ssil a ‚Äúcabe√ßa do burro‚ÄĚ e viram nesta descoberta a chance da cidade voltar a progredir.


Mariana Galera Soler

Forma√ß√£o: Bi√≥18109741_1315265438526683_809310084_nloga pela Faculdade de Filosofia Ci√™ncias e Letras de Ribeir√£o Preto (USP/RP) e Mestre em Museologia pela USP/SP. Estudante de doutorado em Hist√≥ria e Filosofia da Ci√™ncia, com especializa√ß√£o em Museologia pela Universidade de √Čvora / Portugal.
√Ārea de estudo: comunica√ß√£o e divulga√ß√£o cient√≠fica; museus de hist√≥ria natural; exposi√ß√Ķes e cole√ß√Ķes cient√≠ficas.
 Mas onde entra Paleontologia em tudo isso? Desde a graduação trabalhei o Laboratório de Paleontologia da USP Ribeirão Preto. Depois fui ao Museu de Zoologia da USP / São Paulo, onde trabalhei na curadoria da coleção paleontológica, além de participar de outras atividades do Laboratório de Paleontologia.
Bem tudo isso j√° faz algum tempo! Tamb√©m j√° fui professora de biologia e ci√™ncias e, nos √ļltimos seis anos, atuei na coordena√ß√£o do setor educativo do Museu Biol√≥gico do Instituto Butantan. O que n√£o quer dizer que eu deixei a Paleontologia de lado. Continuo trabalhando no gerenciamento da base de dados paleontol√≥gicos brasileira LUND (www.lund.fc.unesp.br/lund) e atuei em alguns trabalhos de divulga√ß√£o e exposi√ß√Ķes paleontol√≥gicas, em que uma das hist√≥rias conto aqui nesse texto.
 

>Novos vertebrados do Mesozóico brasileiro РComeçamos bem 2011!

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Depois do an√ļncio de Tapuiasaurus em fevereiro, somam-se √† lista de vertebrados mesoz√≥icos do Brasil o gigante dino carn√≠voro Oxalaia, mais um bizarro crocodilomorfo terrestre – Pepesuchus – e Brasiliguana, um pequeno lagarto da regi√£o de Presidente Prudente, SP… 
Mas isso não é só, ainda há muito mais por vir!!

Tapuiasaurus foi descrito ainda em fevereiro na revista cient√≠fica de divulga√ß√£o livre, PLoS ONE (acesse o artigo aqui). O an√ļncio do bicho foi um sucesso: Dinossauro na cabe√ßa! Um cr√Ęnio completo foi apresentado por Zaher e colaboradores e o estado de conserva√ß√£o do material deixou pesquisadores do mundo inteiro boquiabertos. Tapuiasaurus pertence a um grupo de dinossauros chamado de saur√≥podes (dinos gigantes de pesco√ßo e cauda longos) e mais especificamente a um ramo chamado de ‘titanossaur√≠deos’. Cr√Ęnios de dinossauros saur√≥podes s√£o relativamente raros, j√° que tendem a logo se desarticular do corpo depois da morte do animal. Por isso Tapuiasaurus foi recebido com tanta festa.!
A idade do f√≥ssil est√° entre 125 e 112 milh√Ķes de anos. Ele foi encontrado nos estratos cret√°cicos da Bacia Sanfranciscana, nas imedia√ß√Ķes do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus, Minas Gerais, pr√≥ximo a divisa com a Bahia.
N√£o s√≥ o cr√Ęnio, mas v√©rtebras, partes da esc√°pula, um r√°dio e um f√™mur tamb√©m foram descritos.
O cr√Ęnio √© impressionante. Com o focinho alongado e a abertura nasal na altura dos olhos, ele lembra aquele de outros titanossauros como Rapetosaurus e Nemegtosaurus. Por√©m, Tapuiasaurus viveu bem antes destes animais – pelo menos 30 milh√Ķes de anos antes. Em termos evolutivos, essa √© uma informa√ß√£o muito importante. Tudo indica que este formato craniano, comumente encontrado em dinossauros saur√≥podes titanossaur√≠deos do final do Per√≠odo Cret√°ceo, j√° havia evolu√≠do bem antes do que se pensava.
Uma exposi√ß√£o tem√°tica com os f√≥sseis do animal est√° sendo apresentada no Museu de Zoologia da USP em S√£o Paulo. Vale a pena visitar!! Exposi√ß√£o “Cabe√ßa Dinossauro”.

O cr√Ęnio de Tapuiasaurus macedoi.

Reconstituição do animal pelo paleoartista Leandro Sanchez.

Quanto a Oxalaia, anunciado √† imprenssa brasileira no dia 16 de mar√ßo, temos um registro bem menos impressionante, mas t√£o importante quanto o de Tapuiasaurus. Oxalaia tratava-se de um imenso dinossauro carn√≠voro espinossaur√≠deo (da fam√≠lia do Espinossauro e do Suchomimus, dinos com o focinho alongado e achatado como o dos crocodilos), que devia medir entre 12 e 14 metros. Seria o segundo maior dinossauro dessa fam√≠lia de ter√≥podes. Os restos do animal foram encontrados ainda em 1999 durante uma expedi√ß√£o da equipe de paleont√≥logos do Museu Nacional √† Ilha do Cajual, no Estado do Maranh√£o (Leia aqui!). Encontrado na famosa ‘Laje do Coringa’, o n√≠vel mais fossil√≠fero da Forma√ß√£o Alc√Ęntara, o bicho parece ter sido um elemento comum no ambiente pret√©rito daquela regi√£o, onde s√£o encontrados abundantes dentes do animal. Foram descritos por Kellner e colaboradores dois fragmentos de cr√Ęnio, considerados suficientes para definir a nova esp√©cie. O trabalho foi apresentado numa edi√ß√£o especial dos Anais da Academia Brasileira de Ci√™ncias e pode ser acessado aqui. Oxalaia pode ser considerado hoje o maior dinossauro carn√≠voro brasileiro. Tr√™s esp√©cies de espinossaur√≠deos j√° foram descritas para o Brasil: Irritator challengeri, Angaturama limai e Oxalaia quilombensis. O nome Oxalaia faz refer√™ncia a divindade africana Oxal√° e quilombensis √† um antigo Quilombo da regi√£o da Ilha do Cajual.

Fragmentos do cr√Ęnio de Oxalaia, descritos por Kellner e colaboradores.

Reconstituição artística do animal por Maurílio de Oliveira.

Pepesuchus pode parecer um nome estranho, mas foi uma homenagem ao Prof. Jos√© Martin Suar√©z (conhecido por seus colegas como Pepe) para nomear o mais novo crocodilomorfo terrestre barsileiro. Descrito por Di√≥genes de Almeida Campos e colaboradores, a nova esp√©cie conta com dois cr√Ęnios quase completos e mand√≠bulas. O material √© proveniente do famoso s√≠tio “Tartaruguito” (Fm. Presidente Prudente, Grupo Bauru, Bacia Bauru), pr√≥ximo √†s cidades de Pirapozinho e Presidente Prudente, no Estado de S√£o Paulo. A nova esp√©cie foi classificada como um peirossaur√≠deo e acrescenta ainda mais ao conhecimento desses animais na Bacia Bauru, Cret√°ceo Superior brasileiro. Os peirossaur√≠deos parecem ter sido um dos clados de Mesoeucrocodylia mais bem representados no paleocontinente austral, Gondwana. O material p√≥s-craniano da nova esp√©cie ser√° descrito separadamente.

Reconstitui√ß√£o do cr√Ęnio de Pepesuchus.
Reconstituição artística de Pepesuchus.

Por fim, n√£o poder√≠amos deixar de falar de Brasiliguana, tamb√©m publicado na edi√ß√£o especial dos Anais da Academia Brasileira de Ci√™ncias (acesse aqui). Brasiliguana trata-se de um pequeno lagarto dos estratos do Cret√°ceo Superior da Forma√ß√£o Adamantina, Bacia Bauru, da regi√£o do munic√≠pio de Presidente Prudente, SP. O registro de squamatas no Brasil √© raro e inclui somente 6 apontamentos: Tijubina, Olindalacerta e squamata indeterminado, da Bacia do Araripe, e Pristiguana e 2 registros tamb√©m n√£o espec√≠ficos da Bacia Bauru. Brasiliguana viria a acrescentar este conhecimento.
O animal foi descrito por William Nava e Agustín Martinelli com base em um fragmento cranial, cujos formato e implantação dos dentes, de acordo com os autores, são semelhantes a dos lagartos iguanídeos.

Material descrito de Brasiliguana prudentensis.


Já que falamos tanto da edição especial dos Anais da Academia Brasileira de Ciências, vale a pena checar os outros artigos. Você os encontra disponíveis aqui.

N√£o deixe de dar uma olhada naquele de Bittencourt & Langer (aqui). O amigo Johnny fez uma fant√°stica revis√£o sobre as ocorr√™ncias de dinossauros no Brasil e as suas rela√ß√Ķes biogeogr√°ficas. Refer√™ncia!
As novidades por enquanto s√£o estas, mas fiquem de olho porque tem muito mais por vir!