Poluição após a morte

Matéria publicada na Unesp Ciência de novembro de 2011 (pdf).

Foto: luispabon

Geólogo de Rio Claro adapta método de imageamento do solo para avaliar a contaminação ambiental gerada pelos cemitérios, um tema tabu até mesmo no meio científico

√Č bom avisar logo que o assunto √© um tanto inc√īmodo e justamente por isso tende a ser negligenciado. Para tratar objetivamente do impacto ambiental dos cemit√©rios √© preciso antes passar por cima ‚Äď ainda que momentaneamente ‚Äď de nada menos que o tabu da morte. Seja l√° qual for sua cren√ßa ou descren√ßa em rela√ß√£o √† exist√™ncia p√≥s-t√ļmulo, o fato √© que para todos n√≥s √© muito mais f√°cil lidar com a possibilidade, real ou fict√≠cia, de uma alma sem corpo (alma no sentido b√°sico, de anima) do que com a ideia concreta de um corpo sem alma. Mas esp√≠ritos ou fantasmas, ao que tudo indica, n√£o poluem o solo ou a √°gua, ao contr√°rio do que pode ocorrer com o corpo humano depois que perde a vida.

O tema √© ainda mais delicado para os cientistas que se disp√Ķem a estud√°-lo, que n√£o por acaso s√£o poucos em qualquer pa√≠s. Bem o sabe o ge√≥logo Walter Malagutti Filho, do Instituto de Geoci√™ncias e Ci√™ncias Exatas da Unesp em Rio Claro, que est√° investigando o grau de contamina√ß√£o do solo abaixo das sepulturas de um cemit√©rio municipal na mesma cidade e j√° concluiu trabalho semelhante na vizinha Piracicaba.

A primeira dificuldade, explica ele, √© convencer a administra√ß√£o do lugar a autorizar a pesquisa, algo que √© bem mais dif√≠cil de se obter das¬† necr√≥poles privadas, segundo Malagutti. O segundo desafio √© a coleta de dados propriamente dita. ‚ÄúO cemit√©rio √© um espa√ßo sagrado‚ÄĚ, justifica. ‚ÄúOs ge√≥logos costumam trabalhar no campo de um jeito muito descontra√≠do. J√° no cemit√©rio temos de trabalhar de forma muito discreta, r√°pida e silenciosa. As pessoas olham feio.‚ÄĚ

O ge√≥logo utiliza um m√©todo el√©trico para detectar abaixo da superf√≠cie as chamadas plumas de contamina√ß√£o, que s√£o como l√≠nguas por onde se infiltra o fluido viscoso que tem origem nas sepulturas e √© resultado natural da decomposi√ß√£o. Nesse processo, no qual atua um grande n√ļmero de bact√©rias, um corpo de 70 kg pode gerar at√© 40 litros do chamado necrochorume, ao longo de um per√≠odo que varia de tr√™s a cinco anos ap√≥s o sepultamento.

Onde h√° plumas de contamina√ß√£o, o solo fica menos resistente √† passagem de corrente el√©trica. Usando quatro eletrodos fincados no ch√£o, Malagutti faz as medidas que, uma vez processadas no computador, formam uma imagem indireta dos subterr√Ęneos do cemit√©rio. O imageamento el√©trico √© um m√©todo diagn√≥stico relativamente simples e pouco invasivo, mas tem suas limita√ß√Ķes, segundo o pesquisador.

A medida direta ideal, esclarece, exigiria grandes perfura√ß√Ķes em meio √†s sepulturas, o que obviamente est√° fora de cogita√ß√£o. ‚ÄúO imageamento el√©trico j√° √© usado para avaliar a contamina√ß√£o subterr√Ęnea causada por aterros sanit√°rios. Estamos adaptando-o para os cemit√©rios‚ÄĚ, diz Malagutti com muito cuidado, reconhecendo que, do ponto de vista sentimental, a compara√ß√£o parece aviltante.

O fato √© que, do ponto de vista t√©cnico, o impacto ambiental de um cemit√©rio √© compar√°vel ao de um aterro de lixo ‚Äď mais precisamente de lixo hospitalar, j√° que muitos defuntos passaram antes por interna√ß√Ķes e est√£o impregnados de medicamentos e materiais m√©dicos e cir√ļrgicos. H√° duas diferen√ßas importantes, entretanto, no que se refere √† escala de tempo, lembra o ge√≥logo: os aterros t√™m vida √ļtil, ao t√©rmino da qual s√£o fechados. J√° a popula√ß√£o das necr√≥poles, por assim dizer, se renova continuamente.

Efeito cumulativo
Em Rio Claro, o pesquisador tem verificado que as plumas de contaminação parecem mais intensas justamente nas áreas mais antigas do cemitério (que tem 130 anos), sugerindo um impacto maior por efeito cumulativo. O ideal, segundo ele, seria não fazer mais sepultamentos ali.

Ainda n√£o se sabe se essas poss√≠veis plumas alcan√ßam o len√ßol fre√°tico que passa 20 m abaixo da superf√≠cie. Tal profundidade imp√Ķe a dificuldade t√©cnica de chegar at√© l√° para coletar amostras da √°gua, mas, em compensa√ß√£o, atua como fator de prote√ß√£o. Em Piracicaba, por√©m, os resultados obtidos por Malagutti foram confirmados por testes que detectaram contamina√ß√£o do len√ßol, bem mais raso nesse caso.

Se a √°gua contaminada pelo necrochorume passar por uma esta√ß√£o de tratamento antes de chegar √†s nossas torneiras, menos mal. L√° ela ser√° desinfectada (a um custo que √© pago pela sociedade, sempre √© bom lembrar). ‚ÄúAgora imagine quantos po√ßos artesianos existem por a√≠, onde n√£o √© feito controle de qualidade‚ÄĚ, aponta o pesquisador. Muitos deles podem ser usados para irrigar lavouras.

Nos cemitérios construídos mais recentemente, o risco de contaminação é bem menor. Desde 2003, a legislação estipula, entre outros itens, que eles não podem ocupar áreas de preservação ambiental, nem terrenos sob os quais o lençol freático passa a menos de 5 m de profundidade, além de dispor sobre normas para construção dos jazigos a fim de evitar a infiltração do necrochorume no solo.

O problema, portanto, concentra-se nas necr√≥poles antigas ‚Äď a esmagadora maioria. O ideal seria que elas n√£o recebessem mais corpos e que novas √°reas, fora da cidade, fossem abertas para esse fim e seguindo a legisla√ß√£o ambiental, defende o ge√≥logo da USP Alberto Pacheco, o pioneiro nessa √°rea no Brasil.

São dele os trabalhos que já mostraram sérios problemas de contaminação do solo e do lençol freático em dois grandes cemitérios da cidade de São Paulo: na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte) e na Vila Formosa (zona leste).

Aposentado, Pacheco est√° escrevendo um livro de divulga√ß√£o cient√≠fica sobre o tema para chamar a aten√ß√£o da popula√ß√£o e do poder p√ļblico. ‚ÄúPrecisamos entender que, vivo ou morto, o ser humano polui o ambiente‚ÄĚ, diz ele. ‚ÄúUsando o conhecimento da geologia e t√©cnicas de gerenciamento, n√≥s podemos tornar os cemit√©rios mais sustent√°veis e evitar que um risco potencial de contamina√ß√£o se torne um risco efetivo‚ÄĚ, resume.

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