Uma reportagem desleixada sobre publishers predat贸rios

A reportagem 鈥Uma praga na ci锚ncia brasileira: os artigos de segunda鈥, publicada na revista Veja no domingo retrasado (6/12), causou espanto (para dizer o m铆nino) entre pesquisadores, alunos de p贸s-gradua莽茫o e outros profissionais ligados ao mundo acad锚mico brasileiro. Eu fiquei perplexa com tantas informa莽玫es que n茫o refletem a realidade. E pela repercuss茫o no boca a boca e nas redes sociais, percebo que n茫o fui a 煤nica. O texto traz um problema real, por茅m sob uma 贸tica distorcida e com tom incriminat贸rio que desinforma leitores acad锚micos e n茫o-acad锚micos. Para quem n茫o leu, fa莽o uma sinopse.

A mat茅ria aborda a pr谩tica de pesquisadores brasileiros de publicar artigos cient铆ficos em peri贸dicos de reputa莽茫o duvidosa que, mediante a cobran莽a de uma taxa de publica莽茫o, aceitam quaisquer trabalhos sem que esses passem pela revis茫o por pares. Eles fariam isso porque, como a qualidade dos artigos 茅 supostamente baixa, teriam poucas chances de serem aceitos por um peri贸dico de maior impacto.

Por meio deste subterf煤gio, os cientistas driblariam um mecanismo cl谩ssico, secular da ci锚ncia para avalia莽茫o cr铆tica do resultados gerados por uma investiga莽茫o cient铆fica. E ao mesmo tempo se beneficiariam ilegitimamente da pontua莽茫o que a publica莽茫o de tais 聽artigos lhe confere ao curr铆culo, de acordo com os sistemas de avalia莽茫o da produ莽茫o acad锚mica de ag锚ncias como Capes e CNPq. Avalia莽茫o essa que 茅 importante tanto para a obten莽茫o de recursos para novos projetos de pesquisa quanto para a progress茫o na carreira acad锚mica.

Em s铆ntese: como s茫o cada vez mais pressionados para publicar, os pesquisadores estariam se valendo cada vez mais deste tipo de publica莽茫o 鈥 que a reportagem chama (sistematicamente ao longo do texto) de 鈥減eri贸dicos desleixados鈥 -, o que seria atentado contra 脿s boas pr谩ticas de publica莽茫o e 脿 pr贸pria 茅tica do fazer cient铆fico.

Do ponto de vista jornal铆stico, este 茅 um daqueles casos em que uma boa ideia de pauta terminou numa reportagem lastim谩vel.

A pauta 茅 oportuna porque, de fato, estas publica莽玫es existem e seu n煤mero cresce em ritmo assustador. 脡 uma praga mesmo, no mundo inteiro. E 茅 uma pena que a reportagem n茫o tenha usado o termo apropriado para se referir a estes peri贸dicos, bem como 脿s editoras (algumas delas de fachada) que os publicam. Nos meios acad锚mico e editorial, tais empresas s茫o conhecidas como publishers predat贸rios.

Atentar aqui para o uso do termo t茅cnico n茫o 茅 preciosismo, por duas raz玫es. Primeiro, porque d谩 uma refer锚ncia para quem quiser saber mais fazendo buscas no Google. Ainda que n茫o haja muita coisa em portugu锚s, a pesquisa com 鈥減redatory publisher鈥 ou 鈥減redatory journal鈥 vai trazer algumas dezenas de milhares de fontes para o leitor se informar melhor sobre este fen么meno (h谩 verbete na Wikipedia). Segundo: ao saber como funciona esta pr谩tica predat贸ria, compreende-se que o papel dedicado ao pesquisador 茅 o de presa.

Como em todo ramo h谩 picaretas, deve haver entre os pesquisadores quem se vale deste tipo de peri贸dico como uma via f谩cil e r谩pida para publica莽茫o de artigos. Mas, sendo bastante pragm谩tica, vejo pelo menos dois motivos que me levam a crer que a pr谩tica n茫o seja disseminada nem esteja se disseminando no Brasil.

A principal raz茫o 茅 que a imensa maioria dos peri贸dicos tidos como predat贸rios n茫o tem fator de impacto ou n茫o est谩 indexada nas bases de dados mais respeitadas, como Web of Science, Scopus, PubMed e outras espec铆ficas de cada 谩rea. Esses s茫o os principais requisitos, para a maioria das 谩reas, para que um t铆tulo seja inclu铆do no Qualis (o sistema indexador da Capes). Fora dele, o peri贸dico 茅 muito pouco atrativo para os autores.

Ainda que a reportagem tenha citado alguns peri贸dicos que figuram no Qualis, e que s茫o surpreendemente bem avaliados, acho mais prov谩vel que isto seja um acidente de percurso do que um ato de m谩 f茅. A classifica莽茫o das revistas no Qualis n茫o 茅 feita na canetada por um burocrata da Capes, mas faz parte de um trabalho maior e complexo realizado por comit锚s de 谩reas que se re煤nem a cada 3 anos e s茫o formados por pesquisadores. Pesquisadores que, na minha vis茫o, ainda n茫o est茫o suficientemente informados sobre esta praga digital que afeta o mundo da comunica莽茫o cient铆fica.

Nem sempre 茅 f谩cil reconhecer um peri贸dico predat贸rio. Muitas vezes as evid锚ncias s贸 ficam claras depois de ele estar operando h谩 alguns anos. Com alguma frequ锚ncia pesquisadores me perguntam coisas do tipo: 鈥渞ecebi este email me convidando para publicar/fazer parte do conselho do editorial, voc锚 conhece esta revista ou publisher?鈥 Geralmente eles n茫o sabem da lista de Jeffrey Beall, um bibliotec谩rio americano dedicado a desmascarar os impostores. Quase sempre o suspeito est谩 l谩.

Mas a lista de Beall n茫o 茅 consensual, ainda que seja umas das refer锚ncias mais importantes nesta 谩rea 鈥 algumas vezes ele j谩 se viu obrigado a remover peri贸dicos e publishers dela. De qualquer forma, se a reportagem tem algum m茅rito, 茅 o de chamar a aten莽茫o da Capes e dos pesquisadores para este problema, e incentivar a discuss茫o pelos comit锚s de 谩rea sobre a necessidade de uma avalia莽茫o mais rigorosa das revistas inclu铆das no Qualis. Esta seria uma medida eficaz para desestimular autores que, por ignor芒ncia ou m谩 f茅, consideram a publica莽茫o de seus artigos em algum destes peri贸dicos.

Em segundo lugar, h谩 raz玫es econ么micas para que a pr谩tica n茫o seja t茫o disseminada no Brasil como a reportagem faz parecer. Da forma como as linhas de financiamento 脿 pesquisa est茫o estabelecidas aqui, n茫o 茅 nada simples para o pesquisador obter o recurso para pagar a taxa de publica莽茫o de artigo 鈥 mesmo quando ele quer publicar em peri贸dicos de acesso aberto bem conceituados ou que simplesmente fazem seu trabalho corretamente (sim, eles existem e j谩 vou falar deles).

O principal desservi莽o prestado pela mat茅ria foi ter jogado um caminh茫o de areia sobre a j谩 confusa compreens茫o que a comunidade acad锚mica brasileira tem sobre os peri贸dicos de acesso aberto. Ela refor莽a a percep莽茫o equivocada de muitos pesquisadores de que todo acesso aberto 茅 predat贸rio. Ou a de que os 煤nicos peri贸dicos de acesso aberto confi谩veis s茫o aqueles que n茫o cobram taxa de publica莽茫o de artigo. Ou ainda a de que apenas as revistas de assinatura s茫o dignas de respeito.

A reportagem ignora a exist锚ncia de peri贸dicos de acesso aberto que cobram taxa de publica莽茫o e s茫o altamente conceituados em suas 谩reas. Assim como os predat贸rios que n茫o cobram taxa de publica莽茫o (no in铆cio, at茅 ter um certo n煤mero de artigos publicados e com isso persuadir suas presas). E ao afirmar que 鈥渢odo peri贸dico desleixado 茅 de acesso aberto鈥, omite a exist锚ncia de t铆tulos de assinatura com baixa reputa莽茫o e impacto que igualmente aceitam qualquer artigo.

Mas a confus茫o n茫o para a铆. Trabalho para um publisher de acesso aberto h谩 um ano e meio, tempo suficiente para colecionar alguns casos bem ilustrativos. Como o de um pesquisador para quem eu e um colega est谩vamos tentando explicar os benef铆cios do acesso aberto em rela莽茫o aos peri贸dicos de assinatura. Ele parecia intrigado e, a certa altura, nos questionou: 鈥淢as hoje em dia tudo 茅 acesso aberto, n茫o? Do meu computador [na universidade] eu entro na Web of Science e baixo qualquer artigo!鈥. Faltava-lhe a informa莽茫o que a Capes gasta quantias consider谩veis para dar acesso aos cientistas brasileiros n茫o s贸 a milhares de peri贸dicos de assinatura mas tamb茅m聽脿 pr贸pria Web of Science. Isto n茫o 茅 acesso aberto.

A literatura em acesso aberto 茅 aquela que 茅 digital, online e que pode ser lida, reproduzida, distribu铆da e adaptada sem custo e livre da maioria das restri莽玫es impostas por direitos autorais e licenciamento. Esta 茅 a defini莽茫o de Peter Suber, diretor do Harvard Open Access Project, reconhecido como um l铆der mundial do movimento de acesso aberto. Para quem quiser saber mais recomendo fortemente seu livro Open Access (MIT Press, 2012; que obviamente est谩 em acesso aberto e pode ser visto aqui 鈥 em ingl锚s).

Na pr谩tica, publicar um artigo em uma revista de acesso aberto significa n茫o apenas que os leitores em qualquer parte do mundo poder茫o l锚-lo e baixar o arquivo sem custo, mas tamb茅m que os direitos autorais s茫o exclusivamente dos autores. Al茅m disso, seu conte煤do deve ter uma licen莽a Creative Commons do tipo CC-BY, o que permite a livre reprodu莽茫o, tradu莽茫o, distribui莽茫o e adapta莽茫o (para outros formatos e plataformas, por exemplo) por qualquer pessoa, sendo que a 煤nica exig锚ncia 茅 citar a fonte.

Citando mais uma vez Suber (em tradu莽茫o livre), 鈥渙 acesso aberto beneficia literalmente a todos, pelas mesmas raz玫es que a pesquisa cient铆fica beneficia literalmente a todos. O acesso aberto desempenha este servi莽o por facilitar a pesquisa e tornar seus resultados amplamente dispon铆veis e utiliz谩veis. Beneficia os pesquisadores enquanto leitores por ajud谩-los a encontrar e reter a informa莽茫o de que eles precisam, e tamb茅m beneficia os pesquisadores enquanto autores ao ajud谩-los a alcan莽ar leitores que podem aplicar e citar seu trabalho e gerar novos conhecimentos com base nele. O acesso aberto beneficia quem n茫o 茅 pesquisador porque acelera a pesquisa cient铆fica e todas as coisas que dependem dela, como novos medicamentos e tecnologias, a resolu莽茫o de problemas, a tomada de decis玫es, o aperfei莽oamento de pol铆ticas p煤blicas e a aprecia莽茫o da beleza da ci锚ncia鈥.

O acesso aberto s贸 se tornou poss铆vel no in铆cio dos anos 2000, gra莽as 脿 revolu莽茫o que a internet promoveu nos meios de comunica莽茫o em geral e na comunica莽茫o cient铆fica em particular. As facilidades tecnol贸gicas para acessar, reproduzir e distribuir o conhecimento se chocaram com o modelo tradicional de peri贸dicos, at茅 ent茫o baseado em ve铆culos impressos e em vigor h谩 pelo menos 300 anos. Sob este modelo o acesso aos artigos tem custo, os autores t锚m de transferir os direitos autorais de seu trabalho para o publisher e muito pouco se pode fazer com este conhecimento, em termos de dissemina莽茫o, sem autoriza莽茫o dele. Na mesma 茅poca, o valor das assinaturas dos peri贸dicos cresceu muito acima da infla莽茫o e universidades mundo afora come莽aram a ter dificuldade em renov谩-las. Como consequ锚ncia, o modelo passou a ser questionado pela comunidade acad锚mica.

Tr锚s confer锚ncias internacionais realizadas neste per铆odo produziram documentos que assentaram as bases do movimento de acesso aberto: Budapest Open Access Initiative(2002), Bethesda Statement on Open Access Publishing 聽(2003) e Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities (2003). A premissa comum entre os tr锚s 茅 a seguinte: na era digital, n茫o faz sentido que os resultados de pesquisa cient铆fica financiada com recursos p煤blicos tenham barreiras de acesso e dissemina莽茫o.

Por esta 茅poca surgiram os primeiros publishers de acesso aberto, tendo como pioneiros PLOS, em S茫o Francisco (EUA), e BioMed Central, em Londres (Reino Unido). (Eu trabalho para o segundo.) Estabeleceu-se um novo modelo de neg贸cio para a publica莽茫o de peri贸dicos. Nele, os custos dos servi莽os editoriais, em vez de serem cobertos pela cobran莽a do acesso, como ocorre nas revistas de assinatura, agora s茫o pagos por meio da taxa de publica莽茫o de artigo (APC, na sigla em ingl锚s). 脡 importante ressaltar que esta mudan莽a n茫o altera em nada o compromisso dos publishers e dos editores com as boas pr谩ticas de publica莽茫o cient铆fica, especialmente no que diz respeito 脿 revis茫o por pares. E vale a pena esclarecer tamb茅m que a cobran莽a da APC deve ser feita depois desta revis茫o e apenas se o artigo for aceito pelo editor-chefe, que toma sua decis茫o baseado na avalia莽茫o dos revisores.

Muitos outros publishers de acesso aberto surgiram desde ent茫o. Paralelamente, diversos publishers tradicionais come莽aram a migrar, pelo menos parte de seu portf贸lio, para o novo modelo. Mas n茫o demorou muito para que os impostores come莽assem a aparecer.

Quem est谩 por tr谩s dos peri贸dicos predat贸rios conhece muito bem o mundo acad锚mico e enxergou oportunidades. Percebeu que na 煤ltima d茅cada a produ莽茫o cient铆fica cresceu muito no mundo todo, mas especialmente nos pa铆ses emergentes. J谩 os recursos para pesquisa n茫o aumentaram na mesma propor莽茫o, o que tornou o ambiente mais competitivo. A produ莽茫o de artigos passou a ser a principal m茅trica usada na avalia莽茫o do desempenho acad锚mico, o que gerou uma press茫o enorme, por parte das ag锚ncias de fomento e dos programas de p贸s-gradua莽茫o, por este tipo de publica莽茫o.

O resultado 茅 que hoje quase qualquer peri贸dico, de assinatura ou acesso aberto, bem ou mais ou menos conceituado, tem de lidar com uma longa fila submiss玫es, principalmente dos pa铆ses emergentes. Nos t铆tulos mais estabelecidos, as taxas de rejei莽茫o subiram para conter a demanda. Em outros, os autores podem esperar mais de um ano para ter seu artigo publicado. Ou seja, 茅 muito artigo para pouca revista.

Pressionados para publicar e/ou frustrados com a demora de muitos peri贸dicos ou rejei莽玫es sucessivas, muitos pesquisadores se tornam presas f谩ceis dos publishers predat贸rios, que infestam a caixa postal de suas potenciais v铆timas. 脌s vezes o t铆tulo da revista e o website s茫o muito parecidos com o de outra, tradicional, na qual aquele autor j谩 publicou anteriormente. 聽O conselho editorial quase sempre 茅 fabricado e as indexa莽玫es, principalmente quando s茫o muito vistosas, geralmente s茫o falsas. Alguns usam fatores de impacto 鈥渁lternativos鈥 que levam os autores a crer que se trata do (venerado) indicador da Thomson Reuters.

Tem gente que se d谩 conta da farsa a tempo, como quando recebe o aviso de aceite e o boleto para pagar a APC poucos dias depois da submiss茫o 鈥 uma revis茫o por pares decente raramente leva menos de dois meses. Outros, infelizmente, s贸 percebem a armadilha depois que o artigo foi publicado, o que 茅 uma pena, pois jamais conseguir茫o retir谩-lo de l谩.

Algu茅m poderia argumentar que bastaria apagar tais e-mails para n茫o cair em cilada. Mas n茫o 茅 t茫o simples. Faz parte da rotina do pesquisador receber mensagens, nem sempre indesejadas, enviadas por publishers. Ele pode ter se registrado para receber alertas das novas edi莽玫es dos peri贸dicos que acompanha, ser convidado para revisar artigos de revistas de sua 谩rea ou para submeter artigos para uma edi莽茫o tem谩tica de um t铆tulo no qual j谩 publicou. E pode tamb茅m receber convites para publicar em novas revistas de acesso aberto n茫o predat贸rias para as quais, sobretudo nos seus primeiros anos de exist锚ncia, este tipo de promo莽茫o 茅 importante (e h谩 formas de se fazer isso sem recorrer ao spam). Afinal, publishers s茅rios tamb茅m sabem que existe uma demanda reprimida e investem em novos t铆tulos.

Al茅m de atazanar a vida dos pesquisadores, os publishers predat贸rios amea莽am a expans茫o do modelo de acesso aberto, que apesar do belo caminho trilhado nesses 煤ltimos 15 anos ainda 茅 minorit谩rio em rela莽茫o ao modelo de assinatura. Para mim, a conclus茫o que fica 茅 que precisamos urgentemente falar mais sobre as virtudes do acesso aberto. E esquecer aquela mat茅ria desleixada.

 

Instituto Biol贸gico

Existe um cafezal na cidade de S茫o Paulo (aparentemente o 煤nico), remanescente dos 谩ureos tempos em que o caf茅 era a commodity mais importante deste pa铆s. Fica na Vila Mariana, bem perto do Parque Ibirapuera, e pertence ao Instituto Biol贸gico, uma institui莽茫o de pesquisa ligada 脿 Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo paulista.

No dia 24 de maio, uma quarta-feira, l谩 est谩vamos eu e minha amiga Thaisi, 脿s 9h da manh茫, para acompanhar a primeira colheita da safra de 2012. O evento acontece todo ano, mas desta vez foi maior por causa dos 85 anos do Instituto Biol贸gico.

Era uma manh茫 quente de outono, de c茅u acinzentado. Bolos, biscoitinhos, canjica e outros quitutes compunham uma farta mesa de caf茅-da-manh茫. Al茅m de sucos e, claro, cafezinho feito na hora. Os convivas eram praticamente todos de meia idade, muitos japoneses, outros com aquele ar aristocr谩tico de morador antigo da Vila Mariana, al茅m dos funcion谩rios do Instituto. A casa estava cheia.

Como era evento importante, n茫o podia faltar o secret谩rio de agricultura e mais um bando de burocratas doidos para discursar e aplaudir. Enquanto todos se encaminhavam para debaixo de uma tenda para o momento solene, eu e Thaisi fomos dar umas bandas pela propriedade de 122 mil metros quadrados, tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrim么nio Hist贸rico, Arqueol贸gico, Art铆stico e Tur铆stico do Estado de S茫o Paulo). Foi quando fiz estas fotos. 脡 um lugar parado no tempo. O tombamento n茫o justifica o ar de abandono.

O Instituto Biol贸gico foi criado em 1927 por causa de uma praga que abatia os cafezais paulistas. No ano seguinte come莽ou a constru莽茫o do pr茅dio na avenida Rodrigues Alves, em estilo art d茅co, que s贸 foi conclu铆da em 1945. Em 1932, o pr茅dio serviu de hospedagem para tropas ga煤chas que lutaram ao lado dos paulistas na Revolu莽茫o Constitucionalista.

Em 1929, o Instituto Biol贸gico admitiu o m茅dico e microbiologista Jos茅 Reis (1907-2002) que mais tarde abra莽ou o jornalismo e foi um grande incentivador da divulga莽茫o cient铆fica no pa铆s. Reis manteve durante mais de 50 anos uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, tendo chegado a ser diretor de reda莽茫o do jornal em 1962.

Para ver mais fotos e vers玫es ampliadas destas, Flickr.

A Amaz么nia, por Adrian Cowell

Est谩 em cartaz no Cinesesc, em S茫o Paulo, at茅 quinta-feira (12/7), uma mostra dos filmes de Adrian Cowell, um brit芒nico formado em hist贸ria pela Universidade de Cambridge que pisou pela primeira vez na Amaz么nia em 1957 e produziu, ao longo dos 50 anos seguintes, mais de 30 document谩rios, a maioria deles para a TV brit芒nica e ainda in茅ditos no Brasil.

A mostra Amaz么nia 50: meio s茅culo de cinema documental de Adrian Cowell homenageia este documentarista que morreu em outubro do ano passado, aos 77 anos, de ataque card铆aco, 脿s v茅speras de mais uma viagem ao Brasil para finalizar seu derradeiro filme. Cowell nos deixou um registro farto e sem precedentes da hist贸ria da floresta amaz么nica, contido em cerca de 3.500 latas de filme de valor incalcul谩vel.

Imagino que quem assistiu a Xingu (2012), de Cao Hamburguer, ter谩 gosto de rever, como eu tive, muitas situa莽玫es vividas pelos irm茫os Claudio e Orlando Villas B么as – em 贸tima interpreta莽茫o de Jo茫o Miguel e Felipe Camargo, respectivamente – na pele real dos pr贸prios.

Vi no s谩bado A tribo que se escondia do homem, de 1970 (passar谩 de novo na quarta 脿s 21h), que 茅 uma esp茅cie de Xingu 2, s贸 que de verdade. O filme come莽a exatamente no ponto onde termina o longa de Hamburger, ou seja (isso n茫o 茅 spoiling), quando Claudio e Orlando partem numa miss茫o de resgate dos arredios 铆ndios Kreen-akore, antes que uma estrada passe por cima deles.

Embora pouco conhecidos por aqui, os filmes de Cowell foram muito vistos no Reino Unido e na Europa, onde receberam alguns pr锚mios. Seu registro do trabalho dos irm茫os Villas B么as de salvamento dos povos ind铆genas do Brasil central contou muito para as duas indica莽玫es ao Nobel da Paz que eles tiveram na d茅cada de 1970. Pr锚mio que teria sido muito merecido.

Cowell conviveu tamb茅m com Chico Mendes e ao lado dele, nos anos 1980, documentou o estado de viol锚ncia da floresta, t茫o tristemente atual.

Toda sua obra est谩 sob a guarda do Instituto Goiano de Pr茅-hist贸ria e Antropologia da PUC de Goi谩s, colaborador na produ莽茫o de v谩rios filmes, e que restaurou diversos t铆tulos. No site deles 茅 poss铆vel conferir todas as sinopses, mas n茫o baixar os document谩rios, que, segundo anunciado, em breve ser茫o vendidos em DVD. No Youtube se encontra v谩rios trechos curtos e um ou outro filme na 铆ntegra, raramente em portugu锚s.

A mostra no CineSesc (rua Augusta, 2075) come莽ou no dia 5 e, repetindo, vai at茅 a pr贸xima quinta (12). Entrada gr谩tis. Por favor, ajudem a divulgar.

Programa莽茫o no CineSesc

Acervo na PUC de Goi谩s

Homenagem na Globo News

Matando por terras, no blog de Eliane Brum

Dois longos obitu谩rios (em ingl锚s):聽Telegraph e Guardian

Mem贸rias de um subversivo

Lenda viva no meio acad锚mico e talentoso cronista, o m茅dico Luiz Hildebrando narra os momentos mais cr铆ticos do s茅culo 20 por meio de hist贸rias pessoais que ajudam a entender melhor o Brasil e sua ci锚ncia.

(Texto publicado na edi莽茫o de junho/2012 da revista Unesp Ci锚ncia)

Aos 83 anos 鈥 dos quais 60 de carreira acad锚mica 鈥, o m茅dico e parasitologista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva 茅 um dos mais importantes cientistas brasileiros vivos e em atividade, ainda que pouco conhecido fora desse meio. Mas, mais importante que conhecer suas credenciais cient铆ficas superlativas 茅 saber que o narrador destas Cr么nicas subversivas de um cientista um dia foi um menino que cresceu na zona sul da cidade de S茫o Paulo ouvindo pelo r谩dio as not铆cias da Segunda Guerra; foi um estudante que viveu de corpo e alma a efervesc锚ncia pol铆tica dos anos 1940 e 1950; e se fez homem num mundo coberto pelas nuvens da Guerra Fria.

Intelectual combativo, militante comunista e habilidoso articulador pol铆tico, Hildebrando tornou-se uma das primeiras presas da ditadura militar. Expulso ainda em 1964 ap贸s uma investiga莽茫o por 鈥渁tividades subversivas鈥 na Faculdade de Medicina da USP, da qual era professor, ele passou mais de 25 anos 鈥 somados os dois per铆odos de ex铆lio 鈥 trabalhando no Instituto Pasteur em Paris, ao lado de figuras estelares da ci锚ncia. De volta ao pa铆s h谩 15 anos, como autoridade mundial em mal谩ria, assumiu a tarefa de criar um centro avan莽ado de pesquisas na improv谩vel Porto Velho (RO), onde tamb茅m ajudou a criar e dirige uma unidade da Funda莽茫o Oswaldo Cruz.

Estas mem贸rias que saem agora pela Vieira & Lent s茫o uma recompila莽茫o de dois livros 鈥 O fio da meada (Brasiliense, 1990) e Cr么nicas de nossa 茅poca (Paz e Terra, 2001). Nelas Hildebrando mostra que, al茅m de 贸tima mem贸ria e muita hist贸ria para contar, tem ainda uma bem lapidada veia liter谩ria. N茫o se trata de um livro de ci锚ncia nem de divulga莽茫o cient铆fica, porque n茫o pretende ensinar nada a ningu茅m. Ele n茫o pretende se ocupar da Hist贸ria com H mai煤sculo, mas das pequenas narrativas do cotidiano, que por sua vez atravessam os momentos mais conturbados da pol铆tica nacional e da geopol铆tica mundial do s茅culo 20. E que o leitor revive na pele de um cientista engajado, com ideais e convic莽玫es de sua gera莽茫o, mas que sabe passar ao largo da tenta莽茫o da autocongratula莽茫o.

As cr么nicas de Hildebrando est茫o cheias de pessoas e afetos. Assim, as lembran莽as da av贸 Chiquinha adquirem a mesma estatura das do amigo e f铆sico M谩rio Schenberg, ou das do mestre Fran莽ois Jacob, Nobel de Medicina em 1965. Em muitas聽 flagramos聽 o autor rindo de si mesmo, como quando decidiu pegar em armas 鈥撀 aparentemente pela primeira e 煤ltima vez 鈥 para matar mosquitos.

Corria o ano de 1968, Hildebrando acabara de voltar do primeiro ex铆lio e ainda n茫o sabia que logo depois o AI-5 o expulsaria de novo. Entediados com a vida pacata como professores na USP em Ribeir茫o Preto, ele o amigo Erney Camargo 鈥 dois seres urbanos 鈥 usaram coquet茅is molotov para exterminar os criadouros dos mosquitos que infestavam o c芒mpus da Faculdade de Medicina (leia trecho abaixo).

Outras hist贸rias revelam os bastidores do jogo de for莽as que permeava a pol铆tica universit谩ria paulista e descrevem lances que tiveram profundo impacto no desenvolvimento cient铆fico e tecnol贸gico do Estado e do pa铆s nas d茅cadas seguintes. 脡 o caso da cria莽茫o da Fapesp.

A lei org芒nica do governo Carvalho Pinto que institu铆a a ag锚ncia de fomento 脿 pesquisa de S茫o Paulo 茅 de 1960, mas houve dificuldades para regulament谩-la, em grande medida por resist锚ncia da USP.聽 A oportunidade de furar esse cerco veio quando o matem谩tico italiano Jaur猫s Cecconi, que trabalhava no c芒mpus da universidade em S茫o Carlos desde 1956, havia dado por conclu铆da sua miss茫o no Brasil e precisava retornar a G锚nova, onde um聽 novo contrato o aguardava. Ocorreu, por茅m, que a reitoria n茫o cumpriu o prometido e negou custeio da viagem de retorno para ele e a fam铆lia, algo que na 茅poca era mais comum fazer de navio.

A not铆cia se espalhou e foi bater no telefone de Hildebrando, que pensou, pensou e arriscou ligar para Pl铆nio de Arruda Sampaio, ent茫o chefe de gabinete do governo estadual, que n茫o era exatamente um companheiro, mas a quem respeitava. O governador Carvalho Pinto n茫o gostou nada do constrangimento sofrido pelo professor Cecconi e pagou-lhe passagens de avi茫o. Como a elei莽茫o na USP estava pr贸xima, o incidente foi a gota d麓谩gua para o in铆cio de uma articula莽茫o de pesquisadores, apoiada pelo Pal谩cio dos Bandeirantes, para colocar algu茅m da oposi莽茫o na reitoria. Dos intensos debates sobre o tema, que acirraram os 芒nimos de Mario Schenberg e do arquiteto Vilanova Artigas e tiveram grande participa莽茫o do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, saiu a indica莽茫o de Antonio Barros de Ulh么a Cintra, que se elegeu em 1961 e botou a Fapesp em funcionamento no ano seguinte.

Quando Hildebrando 茅 exilado pela segunda vez e retorna a Paris, em 1968, enfia a cara na gen茅tica de parasitas e d谩 passos cient铆ficos importantes, pelos quais o Instituto Pasteur investe nele. Aqui, o leitor que n茫o vem das ci锚ncias biol贸gicas pode n茫o entender muito bem a descri莽茫o dos experimentos no laborat贸rio, as hip贸teses de trabalho ou resultados obtidos, mas isso n茫o prejudica o fluxo da narrativa, porque importam menos as tecnicalidades que acompanham as perguntas da ci锚ncia do que o percurso, as convic莽玫es e os percal莽os que levam o pesquisador at茅 elas.

鈥淢ilhares 鈥 milh玫es mesmo 鈥 de outros jovens que viveram os mesmos acontecimentos permaneceram indiferentes ou tomaram posi莽玫es opostas鈥, reflete o m茅dico na p谩gina 47. 鈥淓nt茫o, se nos interessa saber como e por que um adolescente insignificante, perdido num ponto do mapa-m煤ndi, virou isso ou aquilo, ou n茫o virou nada, 茅 preciso se interessar pelo molho servido com o prato principal.鈥

Seu livro 茅, portanto, puro molho, temperado e maturado ao longo de v谩rias d茅cadas, de sabor ao mesmo tempo suave e intenso. Pois o prato principal, a Hist贸ria mai煤scula, ele deixa humildemente para os聽 historiadores.

Cr么nicas subversivas de um cientista
Luiz Hildebrando; Vieira & Lent; 480 p谩gs.; R$ 68

Trecho
A ideia para sair do buraco veio num domingo, na hora do aperitivo, Erney e eu sentados na varanda, olhando as vacas ao longe. 鈥 A 煤nica solu莽茫o que vejo 茅 virar ecologista, disse. Erney engasgou com seu u铆sque e quase se afogou num acesso de tosse. Ele era al茅rgico 脿 palavra. Tudo o que fazia lembrar a natureza o enchia de urtic谩ria.

(鈥) 鈥 Escuta, Astolfo voc锚 n茫o pensa que a situa莽茫o do Culex aqui聽 茅 inadmiss铆vel? Uma faculdade de Medicina que se orgulha, com raz茫o, de ser uma das melhores do pa铆s. Com um ensino de parasitologia de primeira qualidade e infestada de Culex! 脡 vergonhoso!

(鈥) Astolfo n茫o sabia o que era [coquetel molotov]. N茫o estava escrito nos seus livros. Sem fornecer a origem de minhas compet锚ncias, explico o princ铆pio. No laborat贸rio preparamos sete 鈥渕olotovs鈥 (鈥) Abro caminho entre a vegeta莽茫o. Um fogar茅u, vinte metros 脿 direita, me anuncia que Erney lan莽ou o ataque.

(鈥) O cheiro de carne queimada de mosquito invade o ar 鈥 se 茅 que mosquito queimado cheira a alguma coisa. Lan莽o meu segundo coquetel e espero. Depois me aproximo com o lat茫o de 贸leo diesel. Chego mais perto鈥 E o que vejo? Uma cabe莽a de cobra jararacu莽u, assustada pelo fogo, emerge da superf铆cie da 谩gua.

Ruth K眉nzli e as origens do homem

 

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de setembro de 2009.

Com um grande fragmento de cer芒mica nas m茫os, o fazendeiro Luiz Alvim procurava por um ge贸logo na Faculdade de Ci锚ncias e Tecnologia da Unesp em Presidente Prudente. Sua propriedade em Itoror贸 do Paranapanema, distante 26 km da cidade, fora duramente afetada pelas chuvas que castigaram o Sudeste e o Sul do Brasil em meados de 1983 鈥 sob influ锚ncia do fen么meno El Ni帽o. No oeste paulista, a grande cheia do rio Paran谩, ainda hoje lembrada, inundou tamb茅m cidades 脿s margens de seus afluentes, entre eles o Paranapanema. Al茅m de invadir casas e terras agr铆colas, as 谩guas revolveram sedimentos do passado, trazendo 脿 tona rel铆quias que abriram um novo cap铆tulo na arqueologia brasileira.

Era fim de tarde e o ge贸logo n茫o estava. 鈥淪e 茅 por conta desse material a铆, pode falar comigo鈥, disse a antrop贸loga Ruth K眉nzli ao fazendeiro, com o peculiar tom decidido pelo qual ela se destacou na universidade, na regi茫o e entre os colegas de profiss茫o.

No dia seguinte, ela e alguns colegas da faculdade foram at茅 a propriedade dele. L谩 se depararam com uma enorme quantidade de cer芒micas ind铆genas 脿 flor do solo, antes cobertas pela camada de terra que a inunda莽茫o recente havia levado 鈥 vest铆gios de um grande grupo de 铆ndios tupi-guarani que habitara a regi茫o havia aproximadamente mil anos. O s铆tio arqueol贸gico Alvim foi o primeiro de muitos outros identificados por Ruth e colegas na regi茫o de Presidente Prudente,聽 local que, por sua riqueza hidrogr谩fica, foi um grande polo de atra莽茫o humana desde tempos imemoriais.

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Lan莽amento da revista Unesp Ci锚ncia

 

A Unesp est谩 lan莽ando sua revista mensal de divulga莽茫o cient铆fica, a Unesp Ci锚ncia (ainda sem site, aguardem), na noite da pr贸xima quarta-feira, na Barra Funda, em Sampa – clique no convite acima para ampliar.

Por uma dessas felizes coincid锚ncias, dois sciencebloggers est茫o na equipe da revista: eu e o Igor Zolnerkevic, junto com a Giovana Girardi, o Pablo Nogueira, o Ricardo Miura – todos capitaneados pelo Maur铆cio Tuffani. No n煤mero de estreia, temos tamb茅m as colabora莽玫es de Reinaldo Jos茅 Lopes e Ricardo Bonalume.

Na cerim么nia haver谩 ainda a apresenta莽茫o do Piap, o grupo de percuss茫o do Instituto de Artes da Unesp, que, como conta um dos artigos desta edi莽茫o, 茅 super bacana e forma os talentos da principais orquestras brasileiras.

Ou seja, imperd铆vel. S贸 n茫o vai rolar prosecco, porque leis estaduais n茫o permitem bebidas alco贸licas na universidade, lamento 馃檪

Quem puder, compare莽a. E ajudem a divulgar.

Incr铆vel zoom dental

A patela, o pilar e o karat锚 acidental

Tudo durou menos de um minuto. N贸s na padaria Santa Ifig锚nia, que fica debaixo do edif铆cio Copan, centro de S茫o Paulo, tomando um lanche com caf茅, protegidos pelo toldo por cuja fresta entrava de vez em quando o vento gelado de uma tarde dominical de inverno – um pouco mais frio do que os dos 煤ltimos anos.

Animada por um bonito peda莽o de bolo no prato de T., avancei rumo 脿 sobremesa. Para alcan莽ar o setor de guloseimas do estabelecimento, em vez de fazer o caminho usual e mais longo, preferi um espa莽o estreito, mas suficiente para minha silhueta, entre um pilar e um suporte que prendia aquele tipo de fita que costuma demarcar filas de bancos e aeroportos. Havia bem a铆 um degrau, a ser subido. Ao dobrar a perna esquerda para super谩-lo, num erro est煤pido de c谩lculo enfiei o meio do joelho bem na quina do pilar. Pegou em cheio a patela. Nunca senti uma dor t茫o lancinante.

Imposs铆vel gritar uma vez que havia perdido o f么lego. O passo seguinte foi reflexo e num instante o degrau ficou para tr谩s. Curvei-me, apoiada na v铆tima e tentando ser discreta, enquanto 脿 minha volta as pessoas hesitavam entre bolos, bombas de chocolate e rabanadas. Latejava. Muito mais a alma do que o joelho. Se durasse mais, nem sei o que podia acontecer, talvez desmaiasse. N茫o sa铆 mancando, por茅m. Em compensa莽茫o, o apetite evaporou. A vis茫o escureceu, como sempre quando a press茫o cai subitamente.

Aposto que estava p谩lida. Sobrou, entretanto, um m铆nimo de lucidez para n茫o voltar 脿 mesa de prato vazio, e nele depositei com pressa a menor coisa que encontrei, uma esp茅cie de empada doce, com um morango envernizado em cima.

O mal-estar ia cedendo e rapidamente, para meu espanto. Na breve fila para registrar a iguaria na minha conta, apalpei mais uma vez o pobre coitado temendo por avaria mais s茅ria, afinal com joelho n茫o se brinca. Com um prato cheio de coxinhas e quibes nas m茫os, o senhor depois de mim, que eu desconfiava mesmo ter acompanhado meu agudo sofrimento, perguntou-me se estava doendo, com aquela cara de quem j谩 sabe a resposta. “De um jeito que nunca vi”, confessei, ainda meio zonza. “Isso a铆 茅 um golpe de karat锚. Isso acaba com uma pessoa.” Agora me arrependo de n茫o ter perguntado o nome do golpe.

A., C. e T. s贸 perceberam que algo n茫o ia bem quando se depararam com a empada de morango solit谩ria no prato branco, o que n茫o correspondia 脿 disposi莽茫o com que eu os deixara momentos antes.

Estranhamente, ao lhes explicar o acidente, a patela j谩 havia retornado ao seu sil锚ncio habitual e obediente. A caminhada at茅 o metr么, e deste at茅 a casa, se deu na aus锚ncia total de sinal qualquer de dor, tampouco me obrigou a alterar os passos. Que sorte. Um joelho danificado 茅 quase sempre um pesadelo, ainda mais nessa 茅poca fria do ano, n茫o muito amiga das articula莽玫es em geral. A gente anda d茅cadas e d茅cadas com a mesma carca莽a e n茫o conhece as sensa莽玫es que ela 茅 capaz de deflagrar.

Espero que tenha sido a primeira e 煤ltima vez que certas termina莽玫es nervosas que fielmente recobrem minha patela esquerda tenham cumprido sua fun莽茫o. Tudo por causa de um instante de distra莽茫o, no qual me autoinfligi um duro golpe de karat锚, com a colabora莽茫o de uma quina de uma padaria debaixo do edif铆cio Copan numa tarde de domingo de inverno paulistano. Ainda n茫o consigo acreditar que sa铆 ilesa.

Miroslav Holub (1923-1998), imunologista e poeta tcheco

Experi锚ncias com animais

脡 mais f谩cil com coelhos do que com c茫es ou gatos. O
animal da experi锚ncia n茫o deve ser demasiado inteligente. 脡
desconfort谩vel quando as suas a莽玫es lembram as dos humanos,
茅 desconfort谩vel quando conseguimos compreender o seu terror
e a sua tristeza.

Mas a coisa mais triste 茅 trabalhar com porcos rec茅m-nascidos.

S茫o feios.

N茫o possuem nem desejam mais nada sen茫o a sua fonte de leite.

As suas pernas 谩speras e desastradas resvalam debaixo deles,
os seus focinhos e cascos min煤sculos s茫o extraordinariamente
in煤teis.

S茫o feios e est煤pidos.

Quando tenho de matar um leit茫o paro sempre por um instante.

Mais ou menos cinco ou seis segundos.

Mais ou menos cinco ou seis segundos em nome de toda a beleza
e tristeza do mundo.

– Acaba l谩 com isso – algu茅m diz ent茫o.

Ou ent茫o sou eu que o digo a mim pr贸prio.

(Encontrado no Trap茅zio Sem Rede, a partir da tradu莽茫o de Daniel Simko do tcheco para o ingl锚s, em Contemporary east european poetry, organiza莽茫o de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2陋 edi莽茫o, pp. 219-220)

***

A brief reflection on the Theory of Relativity

Albert Einstein, in conversation –
(Knowledge is discovering
what to say) – in conversation one day
with Paul Val茅ry
was asked:
Mr. Einstein, how do you work
with your ideas? Do you note them down
the moment they strike you? Or only
at night? Or the morning?
Albert Einstein replied:
Monsieur Val茅ry, in our business
ideas are so rare that
if a man hits upon one
he certainly won’t forget it
not in a year.

(Tradu莽茫o de David Young, do livro Intensive Care: Selected & New Poems, Oberlin College Press, 1996. Por mais que pare莽a f谩cil, acredito que a tradu莽茫o de poesia cabe apenas aos poetas, por isso n茫o me atrevo)

***

Wings

We have
a map of the universe
for microbes
we have
a map of a microbe
for the universe
We have
a Grand Master of chess
made of eletronic circuits
But above all
we have
the ability
to sort peas
to cup water in our hands
to seek
the right screw
under the sofa
for hours
This
gives us
wings
Idem ao anterior.

Miroslav Holub na Wikipedia

“Debo confesar que fue un fin de semana tenso”

 

mexico2.jpg

Foto: El_Enigma, Cidade do M茅xico, 29/04/2009

Adriana Gonzalez Hirales eu temos um amigo em comum.Por meio dele cheguei ao texto dela publicado no jornal El Vig铆a, de Ensenada, uma est芒ncia tur铆stica na costa do Pac铆fico, no estado de Baja California, M茅xico, muito perto da fronteira com os Estados Unidos e bem longe da Cidade do M茅xico (DF). Mesmo ela n茫o estando no olho do furac茫o, pedi que relatasse o que viu, sentiu e pensa sobre a convuls茫o que tomou conta do pa铆s e deixou o mundo em alerta. Seu texto me chegou na madrugada do dia 6 de maio. Adriana, muito obrigada. Boa sorte para os mexicanos e para todos n贸s.

***

Yo encantada de poder relatarte la experiencia que he tenido esta 煤ltima semana en relaci贸n a este brote de influenza, y como tu bien anotas, yo no he estado en el lugar donde surgi贸 el brote con m谩s fuerza que fue en el Distrito Federal. De hecho, hasta la fecha en Baja California, estado en donde radico, solamente se han registrado un par de casos pero seg煤n datos de los secretarios de salud las personas ya se han recuperado y est谩n en sus casas.

Bueno, creo que todo comenz贸 obviamente el d铆a en que el Secretario de Salud dio una conferencia de prensa en donde anunciaba que habia un brote de influenza entre personas j贸venes, cosa inusual para ese tipo de virus, por lo que llam贸 a tomar medidas ya que se hab铆an registrado supuestamente 26 muertes asociadas y mas de 150 personas contagiadas.

Esto fue el jueves 23 de abril y honestamente mucha gente no le tom贸 mucha atenci贸n, porque yo el s谩bado siguiente, el 25, fui a la Universidad y nadie coment贸 nada, no hab铆a nadie con tapabocas y la escuela y las clases segu铆an su ritmo normal. Pero en el DF ya hab铆an comenzado a tomar medidas de contenci贸n como la prohibici贸n de eventos masivos como los partidos de futbol que fueron jugados a puerta cerrada durante el fin de semana del 25 y 26 de abril.

Fue hasta principios de la semana, alrededor del 28 de abril que el tema de la influenza ya acaparaba todos los medios, peri贸dicos, noticieros, estaciones de radio, televisi贸n, etc, no se hablaba m谩s que de eso. En el Distrito Federal el Secretario de Salud ofrec铆a diariamente una conferencia de prensa en donde daba las 煤ltimas estad铆sticas y segu铆a subiendo las cifras de muertos y de casos sospechosos. Ya para este momento, la gente comenz贸 a asustarse. Fue una combinaci贸n del bombardeo incesante de los medios de comunicaci贸n y de las cifras alarmistas que expon铆a el Gobierno.

Fue en ese momento que la OMS entr贸 a escena e impuso la alerta 4 y en tan s贸lo en un par de d铆as la subi贸 al nivel 5. En mi ciudad comenzaron a verse m谩s y m谩s personas con tapabocas caminando por las calles y yo tambi茅n comenc茅 a caer en la paranoia, porque incluso el d铆a 29 de abril cada vez que entraba a alg煤n lugar p煤blico como dependencias de gobierno o bancos me pon铆a el tapabocas y ve铆a a mucha gente usandolo pero la gran mayor铆a no lo llevaba puesto.

Esto contrastaba con las imagenes que nos llegaban desde el DF, en donde se veia a casi toda la gente con tapabocas, ya para este entonces el Gobierno hab铆a impuesto que se cerraran las escuelas del DF, y del Estado de Mexico, asi como establecimientos comerciales como restaurantes, discotecas, cines y eventos masivos.

El punto cumbre fue cuando el mi茅rcoles [quarta-feira] 29 en la tarde se anuncia el cierre de todas las escuelas a nivel nacional, la suspensi贸n de eventos masivos, el cierre de las cadenas de cine, etc, y que se regresar铆a a clases hasta el 6 de mayo, el Presidente en un mensaje que dio a la naci贸n declar贸 que debido a que el dia primero [dia internacional do trabalho] y cinco de mayo [Batalla de Puebla, feriado oficial no M茅xico] eran festivos la medida de aislar a la gente e invitarla a mantenerse en sus hogares no significaria un cambio tan brusco en las actividades pues de todas maneras la mayoria de la gente se hubiera tomado todos esos dias de descanso.

Asi que todo el fin de semana del 2 y 3 de mayo las calles del DF lucieron pr谩cticamente vac铆as y aunque aqui tambien el trafico de personas y autos disminuyo por el cierre de escuelas, cines y algunos lugares de trabajo, la gente no dej贸 de salir de sus casas. Ya para este entonces, el Secretario de Salud habia dicho que despues de analizar mas de mil muestras se lleg贸 a la conclusi贸n de que solo habian muerto por el virus de la influenza tipo A siete personas.

Los reporteros comenzaron a confundirse porque primero se habian declarado mas de veinte personas muertas, y ahora solo eran 7, las cifras comenzaron a confundirse y el Secretario de Salud comenz贸 a dudar en sus respuestas, fue alli que mucha gente comenz贸 a pensar que todo esto hab铆a sido muy exagerado, que resultaba inusual que por 7 muertes se hubiera paralizado todo un pais y mas cuando en Estados Unidos tambien habian casos y el pa铆s seguia funcionando como si nada.

En ese momento mucha gente comenz贸 a hablar sobre teorias de conspiracion, cortinas de humo, comenz贸 a ver esto como un fraude del gobierno, pero como expongo en mi articulo esto surge por la confusi贸n en las cifras y porque la gente ya no tiene confianza en lo que les dicen sus gobernantes.
La mayor铆a de la gente que conozco pensaba que esto era una desviaci贸n, que el Gobierno ocultaba algo, porque en los medios de comunicaci贸n no se hablaba de otra cosa y todos los problemas que nos aquejan diariamente como delincuencia, crisis economica, narcotrafico,etc, desaparecieron de los titulares.

Debo confesar que fue un fin de semana tenso, yo no estaba acongojada por la enfermedad en si, sino porque veia como muchos mexicanos estaban siendo tratados en el extranjero, o por lo menos los medios asi lo publicitaban, veia c贸mo los cruceros turisticos que llegan cada semana a Ensenada, mi ciudad, no anclaban aqui y se iban a San Diego, California, lo que significaba perdidas economicas tremendas para muchos comerciantes, y todo porque hasta ese momento se habian registrado 11 muertos en el pais, y en Ensenada solo un caso de un ni帽o que ya se encuentra bien.

Fue alli cuando despues de leer una columna en el periodico local en donde el consejo editorial decia que los ensenadenses no habiamos hecho caso de las recomendaciones del Gobierno, que nos estabamos exponiendo, que nos creiamos inmunes, que decidi escribir el art铆culo que leiste y que sorpresivamente publicaron, nunca lo esper茅. Pero creo que era necesario que alguien pusiera las cosas en perspectiva y que nos dieramos cuenta que esta influenza no era mas letal que una gripe com煤n y que el uso del tapabocas resultaba mas una medida para llamar la atencion de los fotografos internacionales que para realmente protegerse de algo.

Uno no subestima la muerte de nadie, pero si tan solo en Mexico mueren casi 8,000 personas al a帽o por complicaciones de la influenza, es evidente que todo esto resulta exagerado, y las muertes fueron por la mala cultura de salud que tenemos los mexicanos al automedicarnos y no querer ir a las instituciones publicas porque sabemos que nos tendran esperando todo el dia y exponiendonos a contagiarnos de algo mas grave entre los demas enfermos.

Los muertos han sido por los altos costos en las consultas privadas, y porque desgraciadamente en Mexico se invierte poco en ciencia y en tecnologia, tanto asi que cuatro dias despues el Secretario de Salud se tuvo que retractar de las cifras que habia anunciado previamente por no contar con laboratorios especializados y tener que mandar las muestras a Estados Unidos y Canad谩. Es por eso que segun mi opini贸n, s贸lo hubo muertos en M茅xico [at茅 05/05, segundo boletim da OMS, a 煤nica morte registrada nos EUA era de uma crian莽a mexicana que contraiu a infec莽茫o no seu pa铆s; s贸 no dia seguinte foi contabilizada a morte de uma cidad茫 do Texas].

Espero que con toda esta campa帽a la gente adopte habitos basicos de limpieza, y que esto nos ayude a enfrentar alguna otra epidemia que pudiera surgir, ya que dicen que es probable que en invierno regrese esto con mas fuerza, mas sin embargo, espero que a la proxima exista mas informacion objetiva, menos amarillismo, y sobre todo mucha mucha informacion, y mas que nada que nuestro sistema de salud se renueve y mejore para que la gente no piense dos veces en asistir a un centro de salud a la presencia de los primeros sintomas de una dolencia.

Adriana Gonzalez Hilares
, 34, 茅 formada em comunica莽茫o e publicidade e trabalha como tradutora em Ensenada, M茅xico. Escreve nos blogs Mezcla Cultural e Audio en Armon铆a.

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