Uma reportagem desleixada sobre publishers predatórios

A reportagem ‚ÄúUma praga na ci√™ncia brasileira: os artigos de segunda‚ÄĚ, publicada na revista Veja no domingo retrasado (6/12), causou espanto (para dizer o m√≠nino) entre pesquisadores, alunos de p√≥s-gradua√ß√£o e outros profissionais ligados ao mundo acad√™mico brasileiro. Eu fiquei perplexa com tantas informa√ß√Ķes que n√£o refletem a realidade. E pela repercuss√£o no boca a boca e nas redes sociais, percebo que n√£o fui a √ļnica. O texto traz um problema real, por√©m sob uma √≥tica distorcida e com tom incriminat√≥rio que desinforma leitores acad√™micos e n√£o-acad√™micos. Para quem n√£o leu, fa√ßo uma sinopse.

A matéria aborda a prática de pesquisadores brasileiros de publicar artigos científicos em periódicos de reputação duvidosa que, mediante a cobrança de uma taxa de publicação, aceitam quaisquer trabalhos sem que esses passem pela revisão por pares. Eles fariam isso porque, como a qualidade dos artigos é supostamente baixa, teriam poucas chances de serem aceitos por um periódico de maior impacto.

Por meio deste subterf√ļgio, os cientistas driblariam um mecanismo cl√°ssico, secular da ci√™ncia para avalia√ß√£o cr√≠tica do resultados gerados por uma investiga√ß√£o cient√≠fica. E ao mesmo tempo se beneficiariam ilegitimamente da pontua√ß√£o que a publica√ß√£o de tais ¬†artigos lhe confere ao curr√≠culo, de acordo com os sistemas de avalia√ß√£o da produ√ß√£o acad√™mica de ag√™ncias como Capes e CNPq. Avalia√ß√£o essa que √© importante tanto para a obten√ß√£o de recursos para novos projetos de pesquisa quanto para a progress√£o na carreira acad√™mica.

Em s√≠ntese: como s√£o cada vez mais pressionados para publicar, os pesquisadores estariam se valendo cada vez mais deste tipo de publica√ß√£o ‚Äď que a reportagem chama (sistematicamente ao longo do texto) de ‚Äúperi√≥dicos desleixados‚ÄĚ -, o que seria atentado contra √†s boas pr√°ticas de publica√ß√£o e √† pr√≥pria √©tica do fazer cient√≠fico.

Do ponto de vista jornalístico, este é um daqueles casos em que uma boa ideia de pauta terminou numa reportagem lastimável.

A pauta √© oportuna porque, de fato, estas publica√ß√Ķes existem e seu n√ļmero cresce em ritmo assustador. √Č uma praga mesmo, no mundo inteiro. E √© uma pena que a reportagem n√£o tenha usado o termo apropriado para se referir a estes peri√≥dicos, bem como √†s editoras (algumas delas de fachada) que os publicam. Nos meios acad√™mico e editorial, tais empresas s√£o conhecidas como publishers predat√≥rios.

Atentar aqui para o uso do termo t√©cnico n√£o √© preciosismo, por duas raz√Ķes. Primeiro, porque d√° uma refer√™ncia para quem quiser saber mais fazendo buscas no Google. Ainda que n√£o haja muita coisa em portugu√™s, a pesquisa com ‚Äúpredatory publisher‚ÄĚ ou ‚Äúpredatory journal‚ÄĚ vai trazer algumas dezenas de milhares de fontes para o leitor se informar melhor sobre este fen√īmeno (h√° verbete na Wikipedia). Segundo: ao saber como funciona esta pr√°tica predat√≥ria, compreende-se que o papel dedicado ao pesquisador √© o de presa.

Como em todo ramo há picaretas, deve haver entre os pesquisadores quem se vale deste tipo de periódico como uma via fácil e rápida para publicação de artigos. Mas, sendo bastante pragmática, vejo pelo menos dois motivos que me levam a crer que a prática não seja disseminada nem esteja se disseminando no Brasil.

A principal razão é que a imensa maioria dos periódicos tidos como predatórios não tem fator de impacto ou não está indexada nas bases de dados mais respeitadas, como Web of Science, Scopus, PubMed e outras específicas de cada área. Esses são os principais requisitos, para a maioria das áreas, para que um título seja incluído no Qualis (o sistema indexador da Capes). Fora dele, o periódico é muito pouco atrativo para os autores.

Ainda que a reportagem tenha citado alguns peri√≥dicos que figuram no Qualis, e que s√£o surpreendemente bem avaliados, acho mais prov√°vel que isto seja um acidente de percurso do que um ato de m√° f√©. A classifica√ß√£o das revistas no Qualis n√£o √© feita na canetada por um burocrata da Capes, mas faz parte de um trabalho maior e complexo realizado por comit√™s de √°reas que se re√ļnem a cada 3 anos e s√£o formados por pesquisadores. Pesquisadores que, na minha vis√£o, ainda n√£o est√£o suficientemente informados sobre esta praga digital que afeta o mundo da comunica√ß√£o cient√≠fica.

Nem sempre √© f√°cil reconhecer um peri√≥dico predat√≥rio. Muitas vezes as evid√™ncias s√≥ ficam claras depois de ele estar operando h√° alguns anos. Com alguma frequ√™ncia pesquisadores me perguntam coisas do tipo: ‚Äúrecebi este email me convidando para publicar/fazer parte do conselho do editorial, voc√™ conhece esta revista ou publisher?‚ÄĚ Geralmente eles n√£o sabem da lista de Jeffrey Beall, um bibliotec√°rio americano dedicado a desmascarar os impostores. Quase sempre o suspeito est√° l√°.

Mas a lista de Beall n√£o √© consensual, ainda que seja umas das refer√™ncias mais importantes nesta √°rea ‚Äď algumas vezes ele j√° se viu obrigado a remover peri√≥dicos e publishers dela. De qualquer forma, se a reportagem tem algum m√©rito, √© o de chamar a aten√ß√£o da Capes e dos pesquisadores para este problema, e incentivar a discuss√£o pelos comit√™s de √°rea sobre a necessidade de uma avalia√ß√£o mais rigorosa das revistas inclu√≠das no Qualis. Esta seria uma medida eficaz para desestimular autores que, por ignor√Ęncia ou m√° f√©, consideram a publica√ß√£o de seus artigos em algum destes peri√≥dicos.

Em segundo lugar, h√° raz√Ķes econ√īmicas para que a pr√°tica n√£o seja t√£o disseminada no Brasil como a reportagem faz parecer. Da forma como as linhas de financiamento √† pesquisa est√£o estabelecidas aqui, n√£o √© nada simples para o pesquisador obter o recurso para pagar a taxa de publica√ß√£o de artigo ‚Äď mesmo quando ele quer publicar em peri√≥dicos de acesso aberto bem conceituados ou que simplesmente fazem seu trabalho corretamente (sim, eles existem e j√° vou falar deles).

O principal desservi√ßo prestado pela mat√©ria foi ter jogado um caminh√£o de areia sobre a j√° confusa compreens√£o que a comunidade acad√™mica brasileira tem sobre os peri√≥dicos de acesso aberto. Ela refor√ßa a percep√ß√£o equivocada de muitos pesquisadores de que todo acesso aberto √© predat√≥rio. Ou a de que os √ļnicos peri√≥dicos de acesso aberto confi√°veis s√£o aqueles que n√£o cobram taxa de publica√ß√£o de artigo. Ou ainda a de que apenas as revistas de assinatura s√£o dignas de respeito.

A reportagem ignora a exist√™ncia de peri√≥dicos de acesso aberto que cobram taxa de publica√ß√£o e s√£o altamente conceituados em suas √°reas. Assim como os predat√≥rios que n√£o cobram taxa de publica√ß√£o (no in√≠cio, at√© ter um certo n√ļmero de artigos publicados e com isso persuadir suas presas). E ao afirmar que ‚Äútodo peri√≥dico desleixado √© de acesso aberto‚ÄĚ, omite a exist√™ncia de t√≠tulos de assinatura com baixa reputa√ß√£o e impacto que igualmente aceitam qualquer artigo.

Mas a confus√£o n√£o para a√≠. Trabalho para um publisher de acesso aberto h√° um ano e meio, tempo suficiente para colecionar alguns casos bem ilustrativos. Como o de um pesquisador para quem eu e um colega est√°vamos tentando explicar os benef√≠cios do acesso aberto em rela√ß√£o aos peri√≥dicos de assinatura. Ele parecia intrigado e, a certa altura, nos questionou: ‚ÄúMas hoje em dia tudo √© acesso aberto, n√£o? Do meu computador [na universidade] eu entro na Web of Science e baixo qualquer artigo!‚ÄĚ. Faltava-lhe a informa√ß√£o que a Capes gasta quantias consider√°veis para dar acesso aos cientistas brasileiros n√£o s√≥ a milhares de peri√≥dicos de assinatura mas tamb√©m¬†√† pr√≥pria Web of Science. Isto n√£o √© acesso aberto.

A literatura em acesso aberto √© aquela que √© digital, online e que pode ser lida, reproduzida, distribu√≠da e adaptada sem custo e livre da maioria das restri√ß√Ķes impostas por direitos autorais e licenciamento. Esta √© a defini√ß√£o de Peter Suber, diretor do Harvard Open Access Project, reconhecido como um l√≠der mundial do movimento de acesso aberto. Para quem quiser saber mais recomendo fortemente seu livro Open Access (MIT Press, 2012; que obviamente est√° em acesso aberto e pode ser visto aqui ‚Äď em ingl√™s).

Na pr√°tica, publicar um artigo em uma revista de acesso aberto significa n√£o apenas que os leitores em qualquer parte do mundo poder√£o l√™-lo e baixar o arquivo sem custo, mas tamb√©m que os direitos autorais s√£o exclusivamente dos autores. Al√©m disso, seu conte√ļdo deve ter uma licen√ßa Creative Commons do tipo CC-BY, o que permite a livre reprodu√ß√£o, tradu√ß√£o, distribui√ß√£o e adapta√ß√£o (para outros formatos e plataformas, por exemplo) por qualquer pessoa, sendo que a √ļnica exig√™ncia √© citar a fonte.

Citando mais uma vez Suber (em tradu√ß√£o livre), ‚Äúo acesso aberto beneficia literalmente a todos, pelas mesmas raz√Ķes que a pesquisa cient√≠fica beneficia literalmente a todos. O acesso aberto desempenha este servi√ßo por facilitar a pesquisa e tornar seus resultados amplamente dispon√≠veis e utiliz√°veis. Beneficia os pesquisadores enquanto leitores por ajud√°-los a encontrar e reter a informa√ß√£o de que eles precisam, e tamb√©m beneficia os pesquisadores enquanto autores ao ajud√°-los a alcan√ßar leitores que podem aplicar e citar seu trabalho e gerar novos conhecimentos com base nele. O acesso aberto beneficia quem n√£o √© pesquisador porque acelera a pesquisa cient√≠fica e todas as coisas que dependem dela, como novos medicamentos e tecnologias, a resolu√ß√£o de problemas, a tomada de decis√Ķes, o aperfei√ßoamento de pol√≠ticas p√ļblicas e a aprecia√ß√£o da beleza da ci√™ncia‚ÄĚ.

O acesso aberto só se tornou possível no início dos anos 2000, graças à revolução que a internet promoveu nos meios de comunicação em geral e na comunicação científica em particular. As facilidades tecnológicas para acessar, reproduzir e distribuir o conhecimento se chocaram com o modelo tradicional de periódicos, até então baseado em veículos impressos e em vigor há pelo menos 300 anos. Sob este modelo o acesso aos artigos tem custo, os autores têm de transferir os direitos autorais de seu trabalho para o publisher e muito pouco se pode fazer com este conhecimento, em termos de disseminação, sem autorização dele. Na mesma época, o valor das assinaturas dos periódicos cresceu muito acima da inflação e universidades mundo afora começaram a ter dificuldade em renová-las. Como consequência, o modelo passou a ser questionado pela comunidade acadêmica.

Tr√™s confer√™ncias internacionais realizadas neste per√≠odo produziram documentos que assentaram as bases do movimento de acesso aberto: Budapest Open Access Initiative(2002), Bethesda Statement on Open Access Publishing ¬†(2003) e Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities (2003). A premissa comum entre os tr√™s √© a seguinte: na era digital, n√£o faz sentido que os resultados de pesquisa cient√≠fica financiada com recursos p√ļblicos tenham barreiras de acesso e dissemina√ß√£o.

Por esta √©poca surgiram os primeiros publishers de acesso aberto, tendo como pioneiros PLOS, em S√£o Francisco (EUA), e BioMed Central, em Londres (Reino Unido). (Eu trabalho para o segundo.) Estabeleceu-se um novo modelo de neg√≥cio para a publica√ß√£o de peri√≥dicos. Nele, os custos dos servi√ßos editoriais, em vez de serem cobertos pela cobran√ßa do acesso, como ocorre nas revistas de assinatura, agora s√£o pagos por meio da taxa de publica√ß√£o de artigo (APC, na sigla em ingl√™s). √Č importante ressaltar que esta mudan√ßa n√£o altera em nada o compromisso dos publishers e dos editores com as boas pr√°ticas de publica√ß√£o cient√≠fica, especialmente no que diz respeito √† revis√£o por pares. E vale a pena esclarecer tamb√©m que a cobran√ßa da APC deve ser feita depois desta revis√£o e apenas se o artigo for aceito pelo editor-chefe, que toma sua decis√£o baseado na avalia√ß√£o dos revisores.

Muitos outros publishers de acesso aberto surgiram desde então. Paralelamente, diversos publishers tradicionais começaram a migrar, pelo menos parte de seu portfólio, para o novo modelo. Mas não demorou muito para que os impostores começassem a aparecer.

Quem est√° por tr√°s dos peri√≥dicos predat√≥rios conhece muito bem o mundo acad√™mico e enxergou oportunidades. Percebeu que na √ļltima d√©cada a produ√ß√£o cient√≠fica cresceu muito no mundo todo, mas especialmente nos pa√≠ses emergentes. J√° os recursos para pesquisa n√£o aumentaram na mesma propor√ß√£o, o que tornou o ambiente mais competitivo. A produ√ß√£o de artigos passou a ser a principal m√©trica usada na avalia√ß√£o do desempenho acad√™mico, o que gerou uma press√£o enorme, por parte das ag√™ncias de fomento e dos programas de p√≥s-gradua√ß√£o, por este tipo de publica√ß√£o.

O resultado √© que hoje quase qualquer peri√≥dico, de assinatura ou acesso aberto, bem ou mais ou menos conceituado, tem de lidar com uma longa fila submiss√Ķes, principalmente dos pa√≠ses emergentes. Nos t√≠tulos mais estabelecidos, as taxas de rejei√ß√£o subiram para conter a demanda. Em outros, os autores podem esperar mais de um ano para ter seu artigo publicado. Ou seja, √© muito artigo para pouca revista.

Pressionados para publicar e/ou frustrados com a demora de muitos peri√≥dicos ou rejei√ß√Ķes sucessivas, muitos pesquisadores se tornam presas f√°ceis dos publishers predat√≥rios, que infestam a caixa postal de suas potenciais v√≠timas. √Äs vezes o t√≠tulo da revista e o website s√£o muito parecidos com o de outra, tradicional, na qual aquele autor j√° publicou anteriormente. ¬†O conselho editorial quase sempre √© fabricado e as indexa√ß√Ķes, principalmente quando s√£o muito vistosas, geralmente s√£o falsas. Alguns usam fatores de impacto ‚Äúalternativos‚ÄĚ que levam os autores a crer que se trata do (venerado) indicador da Thomson Reuters.

Tem gente que se d√° conta da farsa a tempo, como quando recebe o aviso de aceite e o boleto para pagar a APC poucos dias depois da submiss√£o ‚Äď uma revis√£o por pares decente raramente leva menos de dois meses. Outros, infelizmente, s√≥ percebem a armadilha depois que o artigo foi publicado, o que √© uma pena, pois jamais conseguir√£o retir√°-lo de l√°.

Algu√©m poderia argumentar que bastaria apagar tais e-mails para n√£o cair em cilada. Mas n√£o √© t√£o simples. Faz parte da rotina do pesquisador receber mensagens, nem sempre indesejadas, enviadas por publishers. Ele pode ter se registrado para receber alertas das novas edi√ß√Ķes dos peri√≥dicos que acompanha, ser convidado para revisar artigos de revistas de sua √°rea ou para submeter artigos para uma edi√ß√£o tem√°tica de um t√≠tulo no qual j√° publicou. E pode tamb√©m receber convites para publicar em novas revistas de acesso aberto n√£o predat√≥rias para as quais, sobretudo nos seus primeiros anos de exist√™ncia, este tipo de promo√ß√£o √© importante (e h√° formas de se fazer isso sem recorrer ao spam). Afinal, publishers s√©rios tamb√©m sabem que existe uma demanda reprimida e investem em novos t√≠tulos.

Al√©m de atazanar a vida dos pesquisadores, os publishers predat√≥rios amea√ßam a expans√£o do modelo de acesso aberto, que apesar do belo caminho trilhado nesses √ļltimos 15 anos ainda √© minorit√°rio em rela√ß√£o ao modelo de assinatura. Para mim, a conclus√£o que fica √© que precisamos urgentemente falar mais sobre as virtudes do acesso aberto. E esquecer aquela mat√©ria desleixada.

 

Instituto Biológico

Existe um cafezal na cidade de S√£o Paulo (aparentemente o √ļnico), remanescente dos √°ureos tempos em que o caf√© era a commodity mais importante deste pa√≠s. Fica na Vila Mariana, bem perto do Parque Ibirapuera, e pertence ao Instituto Biol√≥gico, uma institui√ß√£o de pesquisa ligada √† Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo paulista.

No dia 24 de maio, uma quarta-feira, lá estávamos eu e minha amiga Thaisi, às 9h da manhã, para acompanhar a primeira colheita da safra de 2012. O evento acontece todo ano, mas desta vez foi maior por causa dos 85 anos do Instituto Biológico.

Era uma manhã quente de outono, de céu acinzentado. Bolos, biscoitinhos, canjica e outros quitutes compunham uma farta mesa de café-da-manhã. Além de sucos e, claro, cafezinho feito na hora. Os convivas eram praticamente todos de meia idade, muitos japoneses, outros com aquele ar aristocrático de morador antigo da Vila Mariana, além dos funcionários do Instituto. A casa estava cheia.

Como era evento importante, n√£o podia faltar o secret√°rio de agricultura e mais um bando de burocratas doidos para discursar e aplaudir. Enquanto todos se encaminhavam para debaixo de uma tenda para o momento solene, eu e Thaisi fomos dar umas bandas pela propriedade de 122 mil metros quadrados, tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrim√īnio Hist√≥rico, Arqueol√≥gico, Art√≠stico e Tur√≠stico do Estado de S√£o Paulo). Foi quando fiz estas fotos. √Č um lugar parado no tempo. O tombamento n√£o justifica o ar de abandono.

O Instituto Biol√≥gico foi criado em 1927 por causa de uma praga que abatia os cafezais paulistas. No ano seguinte come√ßou a constru√ß√£o do pr√©dio na avenida Rodrigues Alves, em estilo art d√©co, que s√≥ foi conclu√≠da em 1945. Em 1932, o pr√©dio serviu de hospedagem para tropas ga√ļchas que lutaram ao lado dos paulistas na Revolu√ß√£o Constitucionalista.

Em 1929, o Instituto Biológico admitiu o médico e microbiologista José Reis (1907-2002) que mais tarde abraçou o jornalismo e foi um grande incentivador da divulgação científica no país. Reis manteve durante mais de 50 anos uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, tendo chegado a ser diretor de redação do jornal em 1962.

Para ver mais fotos e vers√Ķes ampliadas destas, Flickr.

A Amaz√īnia, por Adrian Cowell

Est√° em cartaz no Cinesesc, em S√£o Paulo, at√© quinta-feira (12/7), uma mostra dos filmes de Adrian Cowell, um brit√Ęnico formado em hist√≥ria pela Universidade de Cambridge que pisou pela primeira vez na Amaz√īnia em 1957 e produziu, ao longo dos 50 anos seguintes, mais de 30 document√°rios, a maioria deles para a TV brit√Ęnica e ainda in√©ditos no Brasil.

A mostra Amaz√īnia 50: meio s√©culo de cinema documental de Adrian Cowell homenageia este documentarista que morreu em outubro do ano passado, aos 77 anos, de ataque card√≠aco, √†s v√©speras de mais uma viagem ao Brasil para finalizar seu derradeiro filme. Cowell nos deixou um registro farto e sem precedentes da hist√≥ria da floresta amaz√īnica, contido em cerca de 3.500 latas de filme de valor incalcul√°vel.

Imagino que quem assistiu a Xingu (2012), de Cao Hamburguer, ter√° gosto de rever, como eu tive, muitas situa√ß√Ķes vividas pelos irm√£os Claudio e Orlando Villas B√īas – em √≥tima interpreta√ß√£o de Jo√£o Miguel e Felipe Camargo, respectivamente – na pele real dos pr√≥prios.

Vi no sábado A tribo que se escondia do homem, de 1970 (passará de novo na quarta às 21h), que é uma espécie de Xingu 2, só que de verdade. O filme começa exatamente no ponto onde termina o longa de Hamburger, ou seja (isso não é spoiling), quando Claudio e Orlando partem numa missão de resgate dos arredios índios Kreen-akore, antes que uma estrada passe por cima deles.

Embora pouco conhecidos por aqui, os filmes de Cowell foram muito vistos no Reino Unido e na Europa, onde receberam alguns pr√™mios. Seu registro do trabalho dos irm√£os Villas B√īas de salvamento dos povos ind√≠genas do Brasil central contou muito para as duas indica√ß√Ķes ao Nobel da Paz que eles tiveram na d√©cada de 1970. Pr√™mio que teria sido muito merecido.

Cowell conviveu também com Chico Mendes e ao lado dele, nos anos 1980, documentou o estado de violência da floresta, tão tristemente atual.

Toda sua obra está sob a guarda do Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia da PUC de Goiás, colaborador na produção de vários filmes, e que restaurou diversos títulos. No site deles é possível conferir todas as sinopses, mas não baixar os documentários, que, segundo anunciado, em breve serão vendidos em DVD. No Youtube se encontra vários trechos curtos e um ou outro filme na íntegra, raramente em português.

A mostra no CineSesc (rua Augusta, 2075) começou no dia 5 e, repetindo, vai até a próxima quinta (12). Entrada grátis. Por favor, ajudem a divulgar.

Programação no CineSesc

Acervo na PUC de Goi√°s

Homenagem na Globo News

Matando por terras, no blog de Eliane Brum

Dois longos obituários (em inglês): Telegraph e Guardian

Memórias de um subversivo

Lenda viva no meio acadêmico e talentoso cronista, o médico Luiz Hildebrando narra os momentos mais críticos do século 20 por meio de histórias pessoais que ajudam a entender melhor o Brasil e sua ciência.

(Texto publicado na edição de junho/2012 da revista Unesp Ciência)

Aos 83 anos ‚Äď dos quais 60 de carreira acad√™mica ‚Äď, o m√©dico e parasitologista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva √© um dos mais importantes cientistas brasileiros vivos e em atividade, ainda que pouco conhecido fora desse meio. Mas, mais importante que conhecer suas credenciais cient√≠ficas superlativas √© saber que o narrador destas Cr√īnicas subversivas de um cientista um dia foi um menino que cresceu na zona sul da cidade de S√£o Paulo ouvindo pelo r√°dio as not√≠cias da Segunda Guerra; foi um estudante que viveu de corpo e alma a efervesc√™ncia pol√≠tica dos anos 1940 e 1950; e se fez homem num mundo coberto pelas nuvens da Guerra Fria.

Intelectual combativo, militante comunista e habilidoso articulador pol√≠tico, Hildebrando tornou-se uma das primeiras presas da ditadura militar. Expulso ainda em 1964 ap√≥s uma investiga√ß√£o por ‚Äúatividades subversivas‚ÄĚ na Faculdade de Medicina da USP, da qual era professor, ele passou mais de 25 anos ‚Äď somados os dois per√≠odos de ex√≠lio ‚Äď trabalhando no Instituto Pasteur em Paris, ao lado de figuras estelares da ci√™ncia. De volta ao pa√≠s h√° 15 anos, como autoridade mundial em mal√°ria, assumiu a tarefa de criar um centro avan√ßado de pesquisas na improv√°vel Porto Velho (RO), onde tamb√©m ajudou a criar e dirige uma unidade da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz.

Estas mem√≥rias que saem agora pela Vieira & Lent s√£o uma recompila√ß√£o de dois livros ‚Äď O fio da meada (Brasiliense, 1990) e Cr√īnicas de nossa √©poca (Paz e Terra, 2001). Nelas Hildebrando mostra que, al√©m de √≥tima mem√≥ria e muita hist√≥ria para contar, tem ainda uma bem lapidada veia liter√°ria. N√£o se trata de um livro de ci√™ncia nem de divulga√ß√£o cient√≠fica, porque n√£o pretende ensinar nada a ningu√©m. Ele n√£o pretende se ocupar da Hist√≥ria com H mai√ļsculo, mas das pequenas narrativas do cotidiano, que por sua vez atravessam os momentos mais conturbados da pol√≠tica nacional e da geopol√≠tica mundial do s√©culo 20. E que o leitor revive na pele de um cientista engajado, com ideais e convic√ß√Ķes de sua gera√ß√£o, mas que sabe passar ao largo da tenta√ß√£o da autocongratula√ß√£o.

As cr√īnicas de Hildebrando est√£o cheias de pessoas e afetos. Assim, as lembran√ßas da av√≥ Chiquinha adquirem a mesma estatura das do amigo e f√≠sico M√°rio Schenberg, ou das do mestre Fran√ßois Jacob, Nobel de Medicina em 1965. Em muitas¬† flagramos¬† o autor rindo de si mesmo, como quando decidiu pegar em armas ‚Äst aparentemente pela primeira e √ļltima vez ‚Äď para matar mosquitos.

Corria o ano de 1968, Hildebrando acabara de voltar do primeiro ex√≠lio e ainda n√£o sabia que logo depois o AI-5 o expulsaria de novo. Entediados com a vida pacata como professores na USP em Ribeir√£o Preto, ele o amigo Erney Camargo ‚Äď dois seres urbanos ‚Äď usaram coquet√©is molotov para exterminar os criadouros dos mosquitos que infestavam o c√Ęmpus da Faculdade de Medicina (leia trecho abaixo).

Outras hist√≥rias revelam os bastidores do jogo de for√ßas que permeava a pol√≠tica universit√°ria paulista e descrevem lances que tiveram profundo impacto no desenvolvimento cient√≠fico e tecnol√≥gico do Estado e do pa√≠s nas d√©cadas seguintes. √Č o caso da cria√ß√£o da Fapesp.

A lei org√Ęnica do governo Carvalho Pinto que institu√≠a a ag√™ncia de fomento √† pesquisa de S√£o Paulo √© de 1960, mas houve dificuldades para regulament√°-la, em grande medida por resist√™ncia da USP.¬† A oportunidade de furar esse cerco veio quando o matem√°tico italiano Jaur√®s Cecconi, que trabalhava no c√Ęmpus da universidade em S√£o Carlos desde 1956, havia dado por conclu√≠da sua miss√£o no Brasil e precisava retornar a G√™nova, onde um¬† novo contrato o aguardava. Ocorreu, por√©m, que a reitoria n√£o cumpriu o prometido e negou custeio da viagem de retorno para ele e a fam√≠lia, algo que na √©poca era mais comum fazer de navio.

A not√≠cia se espalhou e foi bater no telefone de Hildebrando, que pensou, pensou e arriscou ligar para Pl√≠nio de Arruda Sampaio, ent√£o chefe de gabinete do governo estadual, que n√£o era exatamente um companheiro, mas a quem respeitava. O governador Carvalho Pinto n√£o gostou nada do constrangimento sofrido pelo professor Cecconi e pagou-lhe passagens de avi√£o. Como a elei√ß√£o na USP estava pr√≥xima, o incidente foi a gota d¬ī√°gua para o in√≠cio de uma articula√ß√£o de pesquisadores, apoiada pelo Pal√°cio dos Bandeirantes, para colocar algu√©m da oposi√ß√£o na reitoria. Dos intensos debates sobre o tema, que acirraram os √Ęnimos de Mario Schenberg e do arquiteto Vilanova Artigas e tiveram grande participa√ß√£o do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, saiu a indica√ß√£o de Antonio Barros de Ulh√īa Cintra, que se elegeu em 1961 e botou a Fapesp em funcionamento no ano seguinte.

Quando Hildebrando √© exilado pela segunda vez e retorna a Paris, em 1968, enfia a cara na gen√©tica de parasitas e d√° passos cient√≠ficos importantes, pelos quais o Instituto Pasteur investe nele. Aqui, o leitor que n√£o vem das ci√™ncias biol√≥gicas pode n√£o entender muito bem a descri√ß√£o dos experimentos no laborat√≥rio, as hip√≥teses de trabalho ou resultados obtidos, mas isso n√£o prejudica o fluxo da narrativa, porque importam menos as tecnicalidades que acompanham as perguntas da ci√™ncia do que o percurso, as convic√ß√Ķes e os percal√ßos que levam o pesquisador at√© elas.

‚ÄúMilhares ‚Äď milh√Ķes mesmo ‚Äď de outros jovens que viveram os mesmos acontecimentos permaneceram indiferentes ou tomaram posi√ß√Ķes opostas‚ÄĚ, reflete o m√©dico na p√°gina 47. ‚ÄúEnt√£o, se nos interessa saber como e por que um adolescente insignificante, perdido num ponto do mapa-m√ļndi, virou isso ou aquilo, ou n√£o virou nada, √© preciso se interessar pelo molho servido com o prato principal.‚ÄĚ

Seu livro √©, portanto, puro molho, temperado e maturado ao longo de v√°rias d√©cadas, de sabor ao mesmo tempo suave e intenso. Pois o prato principal, a Hist√≥ria mai√ļscula, ele deixa humildemente para os¬† historiadores.

Cr√īnicas subversivas de um cientista
Luiz Hildebrando; Vieira & Lent; 480 p√°gs.; R$ 68

Trecho
A ideia para sair do buraco veio num domingo, na hora do aperitivo, Erney e eu sentados na varanda, olhando as vacas ao longe. ‚Äď A √ļnica solu√ß√£o que vejo √© virar ecologista, disse. Erney engasgou com seu u√≠sque e quase se afogou num acesso de tosse. Ele era al√©rgico √† palavra. Tudo o que fazia lembrar a natureza o enchia de urtic√°ria.

(‚Ķ) ‚Äď Escuta, Astolfo voc√™ n√£o pensa que a situa√ß√£o do Culex aqui¬† √© inadmiss√≠vel? Uma faculdade de Medicina que se orgulha, com raz√£o, de ser uma das melhores do pa√≠s. Com um ensino de parasitologia de primeira qualidade e infestada de Culex! √Č vergonhoso!

(‚Ķ) Astolfo n√£o sabia o que era [coquetel molotov]. N√£o estava escrito nos seus livros. Sem fornecer a origem de minhas compet√™ncias, explico o princ√≠pio. No laborat√≥rio preparamos sete ‚Äúmolotovs‚ÄĚ (‚Ķ) Abro caminho entre a vegeta√ß√£o. Um fogar√©u, vinte metros √† direita, me anuncia que Erney lan√ßou o ataque.

(‚Ķ) O cheiro de carne queimada de mosquito invade o ar ‚Äď se √© que mosquito queimado cheira a alguma coisa. Lan√ßo meu segundo coquetel e espero. Depois me aproximo com o lat√£o de √≥leo diesel. Chego mais perto‚Ķ E o que vejo? Uma cabe√ßa de cobra jararacu√ßu, assustada pelo fogo, emerge da superf√≠cie da √°gua.

Ruth K√ľnzli e as origens do homem

 

Matéria publicada na Unesp Ciência de setembro de 2009.

Com um grande fragmento de cer√Ęmica nas m√£os, o fazendeiro Luiz Alvim procurava por um ge√≥logo na Faculdade de Ci√™ncias e Tecnologia da Unesp em Presidente Prudente. Sua propriedade em Itoror√≥ do Paranapanema, distante 26 km da cidade, fora duramente afetada pelas chuvas que castigaram o Sudeste e o Sul do Brasil em meados de 1983 ‚Äď sob influ√™ncia do fen√īmeno El Ni√Īo. No oeste paulista, a grande cheia do rio Paran√°, ainda hoje lembrada, inundou tamb√©m cidades √†s margens de seus afluentes, entre eles o Paranapanema. Al√©m de invadir casas e terras agr√≠colas, as √°guas revolveram sedimentos do passado, trazendo √† tona rel√≠quias que abriram um novo cap√≠tulo na arqueologia brasileira.

Era fim de tarde e o ge√≥logo n√£o estava. ‚ÄúSe √© por conta desse material a√≠, pode falar comigo‚ÄĚ, disse a antrop√≥loga Ruth K√ľnzli ao fazendeiro, com o peculiar tom decidido pelo qual ela se destacou na universidade, na regi√£o e entre os colegas de profiss√£o.

No dia seguinte, ela e alguns colegas da faculdade foram at√© a propriedade dele. L√° se depararam com uma enorme quantidade de cer√Ęmicas ind√≠genas √† flor do solo, antes cobertas pela camada de terra que a inunda√ß√£o recente havia levado ‚Äď vest√≠gios de um grande grupo de √≠ndios tupi-guarani que habitara a regi√£o havia aproximadamente mil anos. O s√≠tio arqueol√≥gico Alvim foi o primeiro de muitos outros identificados por Ruth e colegas na regi√£o de Presidente Prudente,¬† local que, por sua riqueza hidrogr√°fica, foi um grande polo de atra√ß√£o humana desde tempos imemoriais.

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Lançamento da revista Unesp Ciência

 

A Unesp está lançando sua revista mensal de divulgação científica, a Unesp Ciência (ainda sem site, aguardem), na noite da próxima quarta-feira, na Barra Funda, em Sampa Рclique no convite acima para ampliar.

Por uma dessas felizes coincid√™ncias, dois sciencebloggers est√£o na equipe da revista: eu e o Igor Zolnerkevic, junto com a Giovana Girardi, o Pablo Nogueira, o Ricardo Miura – todos capitaneados pelo Maur√≠cio Tuffani. No n√ļmero de estreia, temos tamb√©m as colabora√ß√Ķes de Reinaldo Jos√© Lopes e Ricardo Bonalume.

Na cerim√īnia haver√° ainda a apresenta√ß√£o do Piap, o grupo de percuss√£o do Instituto de Artes da Unesp, que, como conta um dos artigos desta edi√ß√£o, √© super bacana e forma os talentos da principais orquestras brasileiras.

Ou seja, imperd√≠vel. S√≥ n√£o vai rolar prosecco, porque leis estaduais n√£o permitem bebidas alco√≥licas na universidade, lamento ūüôā

Quem puder, compareça. E ajudem a divulgar.

Incrível zoom dental

A patela, o pilar e o karatê acidental

Tudo durou menos de um minuto. N√≥s na padaria Santa Ifig√™nia, que fica debaixo do edif√≠cio Copan, centro de S√£o Paulo, tomando um lanche com caf√©, protegidos pelo toldo por cuja fresta entrava de vez em quando o vento gelado de uma tarde dominical de inverno – um pouco mais frio do que os dos √ļltimos anos.

Animada por um bonito peda√ßo de bolo no prato de T., avancei rumo √† sobremesa. Para alcan√ßar o setor de guloseimas do estabelecimento, em vez de fazer o caminho usual e mais longo, preferi um espa√ßo estreito, mas suficiente para minha silhueta, entre um pilar e um suporte que prendia aquele tipo de fita que costuma demarcar filas de bancos e aeroportos. Havia bem a√≠ um degrau, a ser subido. Ao dobrar a perna esquerda para super√°-lo, num erro est√ļpido de c√°lculo enfiei o meio do joelho bem na quina do pilar. Pegou em cheio a patela. Nunca senti uma dor t√£o lancinante.

Imposs√≠vel gritar uma vez que havia perdido o f√īlego. O passo seguinte foi reflexo e num instante o degrau ficou para tr√°s. Curvei-me, apoiada na v√≠tima e tentando ser discreta, enquanto √† minha volta as pessoas hesitavam entre bolos, bombas de chocolate e rabanadas. Latejava. Muito mais a alma do que o joelho. Se durasse mais, nem sei o que podia acontecer, talvez desmaiasse. N√£o sa√≠ mancando, por√©m. Em compensa√ß√£o, o apetite evaporou. A vis√£o escureceu, como sempre quando a press√£o cai subitamente.

Aposto que estava pálida. Sobrou, entretanto, um mínimo de lucidez para não voltar à mesa de prato vazio, e nele depositei com pressa a menor coisa que encontrei, uma espécie de empada doce, com um morango envernizado em cima.

O mal-estar ia cedendo e rapidamente, para meu espanto. Na breve fila para registrar a iguaria na minha conta, apalpei mais uma vez o pobre coitado temendo por avaria mais s√©ria, afinal com joelho n√£o se brinca. Com um prato cheio de coxinhas e quibes nas m√£os, o senhor depois de mim, que eu desconfiava mesmo ter acompanhado meu agudo sofrimento, perguntou-me se estava doendo, com aquela cara de quem j√° sabe a resposta. “De um jeito que nunca vi”, confessei, ainda meio zonza. “Isso a√≠ √© um golpe de karat√™. Isso acaba com uma pessoa.” Agora me arrependo de n√£o ter perguntado o nome do golpe.

A., C. e T. só perceberam que algo não ia bem quando se depararam com a empada de morango solitária no prato branco, o que não correspondia à disposição com que eu os deixara momentos antes.

Estranhamente, ao lhes explicar o acidente, a patela j√° havia retornado ao seu sil√™ncio habitual e obediente. A caminhada at√© o metr√ī, e deste at√© a casa, se deu na aus√™ncia total de sinal qualquer de dor, tampouco me obrigou a alterar os passos. Que sorte. Um joelho danificado √© quase sempre um pesadelo, ainda mais nessa √©poca fria do ano, n√£o muito amiga das articula√ß√Ķes em geral. A gente anda d√©cadas e d√©cadas com a mesma carca√ßa e n√£o conhece as sensa√ß√Ķes que ela √© capaz de deflagrar.

Espero que tenha sido a primeira e √ļltima vez que certas termina√ß√Ķes nervosas que fielmente recobrem minha patela esquerda tenham cumprido sua fun√ß√£o. Tudo por causa de um instante de distra√ß√£o, no qual me autoinfligi um duro golpe de karat√™, com a colabora√ß√£o de uma quina de uma padaria debaixo do edif√≠cio Copan numa tarde de domingo de inverno paulistano. Ainda n√£o consigo acreditar que sa√≠ ilesa.

Miroslav Holub (1923-1998), imunologista e poeta tcheco

Experiências com animais

√Č mais f√°cil com coelhos do que com c√£es ou gatos. O
animal da experi√™ncia n√£o deve ser demasiado inteligente. √Č
desconfort√°vel quando as suas a√ß√Ķes lembram as dos humanos,
é desconfortável quando conseguimos compreender o seu terror
e a sua tristeza.

Mas a coisa mais triste é trabalhar com porcos recém-nascidos.

S√£o feios.

N√£o possuem nem desejam mais nada sen√£o a sua fonte de leite.

As suas pernas √°speras e desastradas resvalam debaixo deles,
os seus focinhos e cascos min√ļsculos s√£o extraordinariamente
in√ļteis.

S√£o feios e est√ļpidos.

Quando tenho de matar um leit√£o paro sempre por um instante.

Mais ou menos cinco ou seis segundos.

Mais ou menos cinco ou seis segundos em nome de toda a beleza
e tristeza do mundo.

РAcaba lá com isso Рalguém diz então.

Ou então sou eu que o digo a mim próprio.

(Encontrado no Trapézio Sem Rede, a partir da tradução de Daniel Simko do tcheco para o inglês, em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, pp. 219-220)

***

A brief reflection on the Theory of Relativity

Albert Einstein, in conversation –
(Knowledge is discovering
what to say) – in conversation one day
with Paul Valéry
was asked:
Mr. Einstein, how do you work
with your ideas? Do you note them down
the moment they strike you? Or only
at night? Or the morning?
Albert Einstein replied:
Monsieur Valéry, in our business
ideas are so rare that
if a man hits upon one
he certainly won’t forget it
not in a year.

(Tradução de David Young, do livro Intensive Care: Selected & New Poems, Oberlin College Press, 1996. Por mais que pareça fácil, acredito que a tradução de poesia cabe apenas aos poetas, por isso não me atrevo)

***

Wings

We have
a map of the universe
for microbes
we have
a map of a microbe
for the universe
We have
a Grand Master of chess
made of eletronic circuits
But above all
we have
the ability
to sort peas
to cup water in our hands
to seek
the right screw
under the sofa
for hours
This
gives us
wings
Idem ao anterior.

Miroslav Holub na Wikipedia

“Debo confesar que fue un fin de semana tenso”

 

mexico2.jpg

Foto: El_Enigma, Cidade do México, 29/04/2009

Adriana Gonzalez Hirales eu temos um amigo em comum.Por meio dele cheguei ao texto dela publicado no jornal El Vig√≠a, de Ensenada, uma est√Ęncia tur√≠stica na costa do Pac√≠fico, no estado de Baja California, M√©xico, muito perto da fronteira com os Estados Unidos e bem longe da Cidade do M√©xico (DF). Mesmo ela n√£o estando no olho do furac√£o, pedi que relatasse o que viu, sentiu e pensa sobre a convuls√£o que tomou conta do pa√≠s e deixou o mundo em alerta. Seu texto me chegou na madrugada do dia 6 de maio. Adriana, muito obrigada. Boa sorte para os mexicanos e para todos n√≥s.

***

Yo encantada de poder relatarte la experiencia que he tenido esta √ļltima semana en relaci√≥n a este brote de influenza, y como tu bien anotas, yo no he estado en el lugar donde surgi√≥ el brote con m√°s fuerza que fue en el Distrito Federal. De hecho, hasta la fecha en Baja California, estado en donde radico, solamente se han registrado un par de casos pero seg√ļn datos de los secretarios de salud las personas ya se han recuperado y est√°n en sus casas.

Bueno, creo que todo comenzó obviamente el día en que el Secretario de Salud dio una conferencia de prensa en donde anunciaba que habia un brote de influenza entre personas jóvenes, cosa inusual para ese tipo de virus, por lo que llamó a tomar medidas ya que se habían registrado supuestamente 26 muertes asociadas y mas de 150 personas contagiadas.

Esto fue el jueves 23 de abril y honestamente mucha gente no le tomó mucha atención, porque yo el sábado siguiente, el 25, fui a la Universidad y nadie comentó nada, no había nadie con tapabocas y la escuela y las clases seguían su ritmo normal. Pero en el DF ya habían comenzado a tomar medidas de contención como la prohibición de eventos masivos como los partidos de futbol que fueron jugados a puerta cerrada durante el fin de semana del 25 y 26 de abril.

Fue hasta principios de la semana, alrededor del 28 de abril que el tema de la influenza ya acaparaba todos los medios, peri√≥dicos, noticieros, estaciones de radio, televisi√≥n, etc, no se hablaba m√°s que de eso. En el Distrito Federal el Secretario de Salud ofrec√≠a diariamente una conferencia de prensa en donde daba las √ļltimas estad√≠sticas y segu√≠a subiendo las cifras de muertos y de casos sospechosos. Ya para este momento, la gente comenz√≥ a asustarse. Fue una combinaci√≥n del bombardeo incesante de los medios de comunicaci√≥n y de las cifras alarmistas que expon√≠a el Gobierno.

Fue en ese momento que la OMS entr√≥ a escena e impuso la alerta 4 y en tan s√≥lo en un par de d√≠as la subi√≥ al nivel 5. En mi ciudad comenzaron a verse m√°s y m√°s personas con tapabocas caminando por las calles y yo tambi√©n comenc√© a caer en la paranoia, porque incluso el d√≠a 29 de abril cada vez que entraba a alg√ļn lugar p√ļblico como dependencias de gobierno o bancos me pon√≠a el tapabocas y ve√≠a a mucha gente usandolo pero la gran mayor√≠a no lo llevaba puesto.

Esto contrastaba con las imagenes que nos llegaban desde el DF, en donde se veia a casi toda la gente con tapabocas, ya para este entonces el Gobierno había impuesto que se cerraran las escuelas del DF, y del Estado de Mexico, asi como establecimientos comerciales como restaurantes, discotecas, cines y eventos masivos.

El punto cumbre fue cuando el miércoles [quarta-feira] 29 en la tarde se anuncia el cierre de todas las escuelas a nivel nacional, la suspensión de eventos masivos, el cierre de las cadenas de cine, etc, y que se regresaría a clases hasta el 6 de mayo, el Presidente en un mensaje que dio a la nación declaró que debido a que el dia primero [dia internacional do trabalho] y cinco de mayo [Batalla de Puebla, feriado oficial no México] eran festivos la medida de aislar a la gente e invitarla a mantenerse en sus hogares no significaria un cambio tan brusco en las actividades pues de todas maneras la mayoria de la gente se hubiera tomado todos esos dias de descanso.

Asi que todo el fin de semana del 2 y 3 de mayo las calles del DF lucieron prácticamente vacías y aunque aqui tambien el trafico de personas y autos disminuyo por el cierre de escuelas, cines y algunos lugares de trabajo, la gente no dejó de salir de sus casas. Ya para este entonces, el Secretario de Salud habia dicho que despues de analizar mas de mil muestras se llegó a la conclusión de que solo habian muerto por el virus de la influenza tipo A siete personas.

Los reporteros comenzaron a confundirse porque primero se habian declarado mas de veinte personas muertas, y ahora solo eran 7, las cifras comenzaron a confundirse y el Secretario de Salud comenzó a dudar en sus respuestas, fue alli que mucha gente comenzó a pensar que todo esto había sido muy exagerado, que resultaba inusual que por 7 muertes se hubiera paralizado todo un pais y mas cuando en Estados Unidos tambien habian casos y el país seguia funcionando como si nada.

En ese momento mucha gente comenzó a hablar sobre teorias de conspiracion, cortinas de humo, comenzó a ver esto como un fraude del gobierno, pero como expongo en mi articulo esto surge por la confusión en las cifras y porque la gente ya no tiene confianza en lo que les dicen sus gobernantes.
La mayoría de la gente que conozco pensaba que esto era una desviación, que el Gobierno ocultaba algo, porque en los medios de comunicación no se hablaba de otra cosa y todos los problemas que nos aquejan diariamente como delincuencia, crisis economica, narcotrafico,etc, desaparecieron de los titulares.

Debo confesar que fue un fin de semana tenso, yo no estaba acongojada por la enfermedad en si, sino porque veia como muchos mexicanos estaban siendo tratados en el extranjero, o por lo menos los medios asi lo publicitaban, veia c√≥mo los cruceros turisticos que llegan cada semana a Ensenada, mi ciudad, no anclaban aqui y se iban a San Diego, California, lo que significaba perdidas economicas tremendas para muchos comerciantes, y todo porque hasta ese momento se habian registrado 11 muertos en el pais, y en Ensenada solo un caso de un ni√Īo que ya se encuentra bien.

Fue alli cuando despues de leer una columna en el periodico local en donde el consejo editorial decia que los ensenadenses no habiamos hecho caso de las recomendaciones del Gobierno, que nos estabamos exponiendo, que nos creiamos inmunes, que decidi escribir el art√≠culo que leiste y que sorpresivamente publicaron, nunca lo esper√©. Pero creo que era necesario que alguien pusiera las cosas en perspectiva y que nos dieramos cuenta que esta influenza no era mas letal que una gripe com√ļn y que el uso del tapabocas resultaba mas una medida para llamar la atencion de los fotografos internacionales que para realmente protegerse de algo.

Uno no subestima la muerte de nadie, pero si tan solo en Mexico mueren casi 8,000 personas al a√Īo por complicaciones de la influenza, es evidente que todo esto resulta exagerado, y las muertes fueron por la mala cultura de salud que tenemos los mexicanos al automedicarnos y no querer ir a las instituciones publicas porque sabemos que nos tendran esperando todo el dia y exponiendonos a contagiarnos de algo mas grave entre los demas enfermos.

Los muertos han sido por los altos costos en las consultas privadas, y porque desgraciadamente en Mexico se invierte poco en ciencia y en tecnologia, tanto asi que cuatro dias despues el Secretario de Salud se tuvo que retractar de las cifras que habia anunciado previamente por no contar con laboratorios especializados y tener que mandar las muestras a Estados Unidos y Canad√°. Es por eso que segun mi opini√≥n, s√≥lo hubo muertos en M√©xico [at√© 05/05, segundo boletim da OMS, a √ļnica morte registrada nos EUA era de uma crian√ßa mexicana que contraiu a infec√ß√£o no seu pa√≠s; s√≥ no dia seguinte foi contabilizada a morte de uma cidad√£ do Texas].

Espero que con toda esta campa√Īa la gente adopte habitos basicos de limpieza, y que esto nos ayude a enfrentar alguna otra epidemia que pudiera surgir, ya que dicen que es probable que en invierno regrese esto con mas fuerza, mas sin embargo, espero que a la proxima exista mas informacion objetiva, menos amarillismo, y sobre todo mucha mucha informacion, y mas que nada que nuestro sistema de salud se renueve y mejore para que la gente no piense dos veces en asistir a un centro de salud a la presencia de los primeros sintomas de una dolencia.

Adriana Gonzalez Hilares
, 34, é formada em comunicação e publicidade e trabalha como tradutora em Ensenada, México. Escreve nos blogs Mezcla Cultural e Audio en Armonía.

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