Fritz Kahn: livro e exposição em Berlim

Em novembro passado foi lançado o primeiro livro sobre a vida e a obra de Fritz Kahn (1888-1968), um ginecologista alemão e autor de bestsellers mundiais sobre o corpo humano, que se destacaram por uma iconografia farta, original e extravagante.

Em muitas das 206 ilustra√ß√Ķes de “Fritz Kahn – Man Machine”, organizado por Uta e Thilo von Debschitz, (SpringerWienNewYork, 2009), o cora√ß√£o √© uma bomba, os nervos s√£o cabos telef√īnicos, os rins s√£o destilarias. Na linguagem visual de Kahn, baseada em met√°foras e analogias que espelhavam o progresso tecnol√≥gico da primeira metade do s√©culo 20, cada √≥rg√£o √© uma eficiente linha de produ√ß√£o e o organismo todo, um pal√°cio industrial.

"O homem como um pal√°cio industrial", em "Das Leben des menschen" (A vida do homem), de 1924.

Provavelmente voc√™ j√° viu a ilustra√ß√£o acima, ou pelo menos algo parecido com ela (Kahn √© refer√™ncia para v√°rios ilustradores e editores de arte.) “O homem como um pal√°cio industrial” faz parte de “Das Leben des menschen” (Life of man), s√©rie de cinco volumes publicados entre 1922 e 1931. Foi traduzida em diversos pa√≠ses, inclusive no Brasil, onde saiu por diferentes editoras ao longo dos anos 1940 e 1970 com o t√≠tulo “O corpo humano“.

Kahn despontou como science writer durante a Rep√ļblica de Weimar, o per√≠odo entre as duas guerras no qual a Alemanha teve seus anos dourados de desenvolvimento t√©cnico e industrial. Em 1933, com a chegada dos nazistas ao poder e a consequente persegui√ß√£o aos judeus, o m√©dico viu seus livros serem queimados e algumas de suas ilustra√ß√Ķes usadas em publica√ß√Ķes a servi√ßo do Terceiro Reich.

Depois de vagar um tempo pela Europa, Kahn emigrou para os Estados Unidos em 1941, no que contou com a ajuda de uma carta enviada por Albert Einstein ao consulado americano em Lisboa (f√°c-s√≠mile na p√°g. 51). Uma vez na Am√©rica, foi logo incorporado a um mercado editorial que j√° vinha explorando o ent√£o emergente nicho de livros de ci√™ncia e medicina para o grande p√ļblico.

Kahn n√£o desenhava, mas tinha uma imagina√ß√£o visual prol√≠fica. Para colocar suas ideias no papel, ele mantinha equipes de ilustradores profissionais (donos dos mais diversos estilos), em grande parte desconhecidos porque n√£o costumavam assinar as ilustra√ß√Ķes. O pr√≥prio Kahn s√≥ come√ßou a imprimir nelas o “fk” depois de ter seu trabalho pirateado mundo afora.

As ilustra√ß√Ķes do livro dos irm√£os von Debschitz mostram, entretanto, que Kahn n√£o se restringiu ao universo das plantas industriais.¬† Em “Travel experiences of wandering cell”, de 1924, ele narra a aventura de uma c√©lula por intrigantes paisagens do corpo humano. O tra√ßo refinado do artista produziu a ilustra√ß√£o abaixo, que √© uma das minhas preferidas.

As imagens imaginadas por Kahn e executadas por sua equipe est√£o cheias de excessos, por√©m. Como escreveu um revisor do American Quartely Review of Biology sobre “Man in structure and function” em 1943: “O aspecto mais not√°vel da publica√ß√£o consiste nas 461 ilustra√ß√Ķes bem reproduzidas, muitas das quais s√£o altamente imaginativas e a maioria tem um raro grau de detalhe. √Äs vezes, por√©m, o desejo de originalidade atingiu extremos absurdos” (p√°g. 15). O pre√ßo dessa obsess√£o foi a perda de precis√£o e incorre√ß√Ķes do ponto de vista biol√≥gico. Alguns o criticavam por isso, entre eles seu pr√≥prio filho, ao qual o ginecologista replicou uma vez: “Elas [as ilustra√ß√Ķes] podem estar erradas, mas assim √© mais f√°cil de entender!” (p√°g. 37).

Fritz Kahn era um homem inquieto, bem-humorado e intempestivo. Todos os assuntos o interessavam — escreveu sobre o √°tomo, a vida sexual, a natureza, a cultura jadaica, a quest√£o palestina e suas viagens. Tamb√©m foi um homem de sorte. Depois de uma opera√ß√£o para retirar um tumor do c√©rebro, foi um dos poucos sobreviventes do desabamento de um hotel em Agadir, Marrocos, onde excursionava em 1960, quando um forte terremoto atingiu a cidade. Saiu de l√° sem ferimentos graves.

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Arquitetura da digest√£o, de "Man in structure and function", de 1943


O trabalho de Kahn aos poucos foi esquecido, embora suas imagens nunca tenham parado de circular pelo mundo, especialmente pela internet. √Ä medida que a tecnologia se renovou e a ci√™ncia e a medicina se especializaram cada vez mais, suas compara√ß√Ķes ficaram obsoletas e perderam o sentido. Com uma vis√£o hol√≠stica do ser humano e da natureza, ele criticou a “compartimentaliza√ß√£o” do paciente e imaginou, em 1925, o m√©dico do futuro como um burocrata em frente a um painel de controle.

The doctor of the future, 1925


√Č a primeira vez que obra de Kahn √© reunida em livro. Sempre estranhei a escassez de informa√ß√£o sobre ele na internet (na Wikipedia n√£o h√° verbete em ingl√™s ou alem√£o, embora haja em portugu√™s, curiosamente). Al√©m das imagens, o livro conta com dois bons cap√≠tulos de texto, um ensaio e um perfil. Um p√īster grande da ilustra√ß√£o “O homem como um pal√°cio industrial” acompanha o volume.

A autoria √© dos irm√£os alem√£es Uta e Thilo Von Debschitz, que sem saber conviveram com os descendentes do m√©dico alem√£o por mais 20 anos, antes de descobrir, em meados de 2008, de quem se tratava. Uta √© arquiteta, escritora freelancer e curadora de projetos em cultura e sa√ļde em Berlim; Thilo √© designer e editor de arte e trabalha com publicidade em Wiesbaden.

Exposição na Charité
Além do livro, o trabalho rendeu uma exposição que acontece entre janeiro e abril no Museu de História de Medicina de Berlim, da Universidade Charité, que assim inaugura o calendário de comemoração dos 300 anos que a instituição completa em 2010. A Charité é um dos maiores centros de pesquisa médica do mundo, de onde já saíram nada menos que oito prêmios Nobel, entre eles Emil von Behring (1901), Robert Koch (1905) e Paul Ehrlich (1908).

Links diversos:

# O livro: Fritz Kahn РMan Machine, Uta e Thilo von Debschitz, SpringerWienNewYork, 2009, 56 dólares, bilíngue (inglês e alemão).

# A exposição: de 23 de janeiro a 11 de de abril de 2010, no Museu de História da Medicina da Universidade Charité em Berlim.

# Anima√ß√£o de 2009 baseada em “O homem como um pal√°cio industrial”, de Henning M. Lederer, no blog Street Anatomy.

# Contato para imprensa (em inglês)
Tel: +49 (0)30 280 99 104
stefanie.link@publicscience.de
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