Células imortais

Matéria publicada na Unesp Ciência de abril de 2011.

Laboratório em Botucatu cria seres híbridos que não morrem nunca e são capazes de fabricar os anticorpos monoclonais, moléculas indispensáveis nos bancos de sangue e na medicina diagnóstica

Estranhas formas de vida são cultivadas no subsolo da Faculdade de Medicina de Botucatu. Numa área de acesso restrito do hemocentro, uma equipe de pesquisadores cria os chamados hibridomas, células híbridas que não existem espontaneamente. Ao contrário das células naturais, elas não morrem nunca, desde que bem cuidadas e alimentadas.

Mas n√£o √© por serem imortais que essas quimeras biotecnol√≥gicas s√£o manipuladas com tanto zelo. √Č porque elas s√£o verdadeiras f√°bricas microsc√≥picas, capazes de gerar ad eternum um produto sofisticado e valioso – os anticorpos monoclonais. Usadas como ferramenta de identifica√ß√£o em an√°lises laboratoriais, essas complexas prote√≠nas, altamente espec√≠ficas, revolucionaram o modo de fazer transfus√£o de sangue e a medicina diagn√≥stica nos √ļltimos 30 anos.

A m√©dica hemoterapeuta Elenice Deffune, chefe do Laborat√≥rio de Engenharia de Tecidos da Unesp em Botucatu, aprendeu a construir hibridomas em Paris, durante o mestrado e o doutorado feitos entre a Universidade Pierre e Marie Curie e o Instituto Pasteur, de 1986 a 1992. Ela foi estudar o assunto ap√≥s se inquietar com rea√ß√Ķes do organismo √† transfus√£o de sangue, que ocorrem em uma minoria dos pacientes, mas costumam ser fatais. Com os anticorpos monoclonais, diz ela, a hemoterapia (o emprego terap√™utico de sangue e seus derivados) evoluiu muito nas √ļltimas d√©cadas.

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O outro card√°pio da mandioca

Matéria publicada na Unesp Ciência de outubro de 2009.

Nossa mais tradicional raiz comest√≠vel n√£o √© s√≥ farinha ou petisco de bar. Estudos mostram as oportunidades e vantagens econ√īmicas e ecol√≥gicas do etanol produzido a partir dela

At√© o in√≠cio de 2010, o Brasil vai come√ßar a produzir etanol a partir de sua mais popular e original raiz comest√≠vel ‚Äď a mandioca, tamb√©m conhecida como aipim ou macaxeira. Duas usinas est√£o em fase final de montagem: uma em Botucatu, no interior paulista, e outra em Porto Nacional, no Tocantins. Elas fazem parte de um projeto de transfer√™ncia tecnol√≥gica da Unesp cujo objetivo √© oferecer a pequenos agricultores, principalmente das regi√Ķes Norte e Nordeste, um modelo de neg√≥cio sustent√°vel do ponto de vista econ√īmico, social e ambiental.

N√£o ser√° a primeira vez que o pa√≠s vai produzir etanol da mandioca. Nos anos 1970, √©poca do Pr√≥-√Ālcool, chegaram a ser implantadas nove usinas. Elas n√£o vingaram por pelo menos duas raz√Ķes. De um lado, houve problemas na articula√ß√£o com os produtores do tub√©rculo. De outro, o grande sucesso industrial da cana-de-a√ß√ļcar acabou por inviabilizar o neg√≥cio. √Č por isso que, desta vez, o foco no pequeno produtor est√° no cerne do projeto, segundo Cl√°udio Cabello, vice-diretor do Centro de Ra√≠zes e Amidos Tropicais (Cerat), do c√Ęmpus Lageado da Unesp em Botucatu.

Por ironia, essa planta origin√°ria da Amaz√īnia, largamente difundida pelo continente e profundamente ligada com a cultura popular brasileira, j√° √© usada para a produ√ß√£o de √°lcool na China, na Indon√©sia e nas Filipinas, onde sua principal finalidade √© a adi√ß√£o √† gasolina. Aqui, por√©m, o produto √© mais atraente n√£o como fonte de energia, mas como insumo para os mercados cosm√©tico, farmac√™utico, de bebidas e de tintas e vernizes.

O etanol √© o segundo insumo mais usado pela ind√ļstria depois da √°gua. E esses mercados demandam um √°lcool mais puro, como o da mandioca, o da batata-doce ou o do milho. Por isso eles s√£o mais caros que o da cana-de-a√ß√ļcar, que cont√©m mais impurezas. ‚ÄúN√≥s temos um produto de melhor qualidade. Mas ao mesmo tempo sabemos que n√£o podemos competir com os n√≠veis espetaculares de efici√™ncia do eixo da (rodovia) Castelo Branco‚ÄĚ, afirma Cabello, referindo-se ao polo sucroalcooleiro do centro-oeste paulista.

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