Uma reportagem desleixada sobre publishers predat贸rios

A reportagem 鈥Uma praga na ci锚ncia brasileira: os artigos de segunda鈥, publicada na revista Veja no domingo retrasado (6/12), causou espanto (para dizer o m铆nino) entre pesquisadores, alunos de p贸s-gradua莽茫o e outros profissionais ligados ao mundo acad锚mico brasileiro. Eu fiquei perplexa com tantas informa莽玫es que n茫o refletem a realidade. E pela repercuss茫o no boca a boca e nas redes sociais, percebo que n茫o fui a 煤nica. O texto traz um problema real, por茅m sob uma 贸tica distorcida e com tom incriminat贸rio que desinforma leitores acad锚micos e n茫o-acad锚micos. Para quem n茫o leu, fa莽o uma sinopse.

A mat茅ria aborda a pr谩tica de pesquisadores brasileiros de publicar artigos cient铆ficos em peri贸dicos de reputa莽茫o duvidosa que, mediante a cobran莽a de uma taxa de publica莽茫o, aceitam quaisquer trabalhos sem que esses passem pela revis茫o por pares. Eles fariam isso porque, como a qualidade dos artigos 茅 supostamente baixa, teriam poucas chances de serem aceitos por um peri贸dico de maior impacto.

Por meio deste subterf煤gio, os cientistas driblariam um mecanismo cl谩ssico, secular da ci锚ncia para avalia莽茫o cr铆tica do resultados gerados por uma investiga莽茫o cient铆fica. E ao mesmo tempo se beneficiariam ilegitimamente da pontua莽茫o que a publica莽茫o de tais 聽artigos lhe confere ao curr铆culo, de acordo com os sistemas de avalia莽茫o da produ莽茫o acad锚mica de ag锚ncias como Capes e CNPq. Avalia莽茫o essa que 茅 importante tanto para a obten莽茫o de recursos para novos projetos de pesquisa quanto para a progress茫o na carreira acad锚mica.

Em s铆ntese: como s茫o cada vez mais pressionados para publicar, os pesquisadores estariam se valendo cada vez mais deste tipo de publica莽茫o 鈥 que a reportagem chama (sistematicamente ao longo do texto) de 鈥減eri贸dicos desleixados鈥 -, o que seria atentado contra 脿s boas pr谩ticas de publica莽茫o e 脿 pr贸pria 茅tica do fazer cient铆fico.

Do ponto de vista jornal铆stico, este 茅 um daqueles casos em que uma boa ideia de pauta terminou numa reportagem lastim谩vel.

A pauta 茅 oportuna porque, de fato, estas publica莽玫es existem e seu n煤mero cresce em ritmo assustador. 脡 uma praga mesmo, no mundo inteiro. E 茅 uma pena que a reportagem n茫o tenha usado o termo apropriado para se referir a estes peri贸dicos, bem como 脿s editoras (algumas delas de fachada) que os publicam. Nos meios acad锚mico e editorial, tais empresas s茫o conhecidas como publishers predat贸rios.

Atentar aqui para o uso do termo t茅cnico n茫o 茅 preciosismo, por duas raz玫es. Primeiro, porque d谩 uma refer锚ncia para quem quiser saber mais fazendo buscas no Google. Ainda que n茫o haja muita coisa em portugu锚s, a pesquisa com 鈥減redatory publisher鈥 ou 鈥減redatory journal鈥 vai trazer algumas dezenas de milhares de fontes para o leitor se informar melhor sobre este fen么meno (h谩 verbete na Wikipedia). Segundo: ao saber como funciona esta pr谩tica predat贸ria, compreende-se que o papel dedicado ao pesquisador 茅 o de presa.

Como em todo ramo h谩 picaretas, deve haver entre os pesquisadores quem se vale deste tipo de peri贸dico como uma via f谩cil e r谩pida para publica莽茫o de artigos. Mas, sendo bastante pragm谩tica, vejo pelo menos dois motivos que me levam a crer que a pr谩tica n茫o seja disseminada nem esteja se disseminando no Brasil.

A principal raz茫o 茅 que a imensa maioria dos peri贸dicos tidos como predat贸rios n茫o tem fator de impacto ou n茫o est谩 indexada nas bases de dados mais respeitadas, como Web of Science, Scopus, PubMed e outras espec铆ficas de cada 谩rea. Esses s茫o os principais requisitos, para a maioria das 谩reas, para que um t铆tulo seja inclu铆do no Qualis (o sistema indexador da Capes). Fora dele, o peri贸dico 茅 muito pouco atrativo para os autores.

Ainda que a reportagem tenha citado alguns peri贸dicos que figuram no Qualis, e que s茫o surpreendemente bem avaliados, acho mais prov谩vel que isto seja um acidente de percurso do que um ato de m谩 f茅. A classifica莽茫o das revistas no Qualis n茫o 茅 feita na canetada por um burocrata da Capes, mas faz parte de um trabalho maior e complexo realizado por comit锚s de 谩reas que se re煤nem a cada 3 anos e s茫o formados por pesquisadores. Pesquisadores que, na minha vis茫o, ainda n茫o est茫o suficientemente informados sobre esta praga digital que afeta o mundo da comunica莽茫o cient铆fica.

Nem sempre 茅 f谩cil reconhecer um peri贸dico predat贸rio. Muitas vezes as evid锚ncias s贸 ficam claras depois de ele estar operando h谩 alguns anos. Com alguma frequ锚ncia pesquisadores me perguntam coisas do tipo: 鈥渞ecebi este email me convidando para publicar/fazer parte do conselho do editorial, voc锚 conhece esta revista ou publisher?鈥 Geralmente eles n茫o sabem da lista de Jeffrey Beall, um bibliotec谩rio americano dedicado a desmascarar os impostores. Quase sempre o suspeito est谩 l谩.

Mas a lista de Beall n茫o 茅 consensual, ainda que seja umas das refer锚ncias mais importantes nesta 谩rea 鈥 algumas vezes ele j谩 se viu obrigado a remover peri贸dicos e publishers dela. De qualquer forma, se a reportagem tem algum m茅rito, 茅 o de chamar a aten莽茫o da Capes e dos pesquisadores para este problema, e incentivar a discuss茫o pelos comit锚s de 谩rea sobre a necessidade de uma avalia莽茫o mais rigorosa das revistas inclu铆das no Qualis. Esta seria uma medida eficaz para desestimular autores que, por ignor芒ncia ou m谩 f茅, consideram a publica莽茫o de seus artigos em algum destes peri贸dicos.

Em segundo lugar, h谩 raz玫es econ么micas para que a pr谩tica n茫o seja t茫o disseminada no Brasil como a reportagem faz parecer. Da forma como as linhas de financiamento 脿 pesquisa est茫o estabelecidas aqui, n茫o 茅 nada simples para o pesquisador obter o recurso para pagar a taxa de publica莽茫o de artigo 鈥 mesmo quando ele quer publicar em peri贸dicos de acesso aberto bem conceituados ou que simplesmente fazem seu trabalho corretamente (sim, eles existem e j谩 vou falar deles).

O principal desservi莽o prestado pela mat茅ria foi ter jogado um caminh茫o de areia sobre a j谩 confusa compreens茫o que a comunidade acad锚mica brasileira tem sobre os peri贸dicos de acesso aberto. Ela refor莽a a percep莽茫o equivocada de muitos pesquisadores de que todo acesso aberto 茅 predat贸rio. Ou a de que os 煤nicos peri贸dicos de acesso aberto confi谩veis s茫o aqueles que n茫o cobram taxa de publica莽茫o de artigo. Ou ainda a de que apenas as revistas de assinatura s茫o dignas de respeito.

A reportagem ignora a exist锚ncia de peri贸dicos de acesso aberto que cobram taxa de publica莽茫o e s茫o altamente conceituados em suas 谩reas. Assim como os predat贸rios que n茫o cobram taxa de publica莽茫o (no in铆cio, at茅 ter um certo n煤mero de artigos publicados e com isso persuadir suas presas). E ao afirmar que 鈥渢odo peri贸dico desleixado 茅 de acesso aberto鈥, omite a exist锚ncia de t铆tulos de assinatura com baixa reputa莽茫o e impacto que igualmente aceitam qualquer artigo.

Mas a confus茫o n茫o para a铆. Trabalho para um publisher de acesso aberto h谩 um ano e meio, tempo suficiente para colecionar alguns casos bem ilustrativos. Como o de um pesquisador para quem eu e um colega est谩vamos tentando explicar os benef铆cios do acesso aberto em rela莽茫o aos peri贸dicos de assinatura. Ele parecia intrigado e, a certa altura, nos questionou: 鈥淢as hoje em dia tudo 茅 acesso aberto, n茫o? Do meu computador [na universidade] eu entro na Web of Science e baixo qualquer artigo!鈥. Faltava-lhe a informa莽茫o que a Capes gasta quantias consider谩veis para dar acesso aos cientistas brasileiros n茫o s贸 a milhares de peri贸dicos de assinatura mas tamb茅m聽脿 pr贸pria Web of Science. Isto n茫o 茅 acesso aberto.

A literatura em acesso aberto 茅 aquela que 茅 digital, online e que pode ser lida, reproduzida, distribu铆da e adaptada sem custo e livre da maioria das restri莽玫es impostas por direitos autorais e licenciamento. Esta 茅 a defini莽茫o de Peter Suber, diretor do Harvard Open Access Project, reconhecido como um l铆der mundial do movimento de acesso aberto. Para quem quiser saber mais recomendo fortemente seu livro Open Access (MIT Press, 2012; que obviamente est谩 em acesso aberto e pode ser visto aqui 鈥 em ingl锚s).

Na pr谩tica, publicar um artigo em uma revista de acesso aberto significa n茫o apenas que os leitores em qualquer parte do mundo poder茫o l锚-lo e baixar o arquivo sem custo, mas tamb茅m que os direitos autorais s茫o exclusivamente dos autores. Al茅m disso, seu conte煤do deve ter uma licen莽a Creative Commons do tipo CC-BY, o que permite a livre reprodu莽茫o, tradu莽茫o, distribui莽茫o e adapta莽茫o (para outros formatos e plataformas, por exemplo) por qualquer pessoa, sendo que a 煤nica exig锚ncia 茅 citar a fonte.

Citando mais uma vez Suber (em tradu莽茫o livre), 鈥渙 acesso aberto beneficia literalmente a todos, pelas mesmas raz玫es que a pesquisa cient铆fica beneficia literalmente a todos. O acesso aberto desempenha este servi莽o por facilitar a pesquisa e tornar seus resultados amplamente dispon铆veis e utiliz谩veis. Beneficia os pesquisadores enquanto leitores por ajud谩-los a encontrar e reter a informa莽茫o de que eles precisam, e tamb茅m beneficia os pesquisadores enquanto autores ao ajud谩-los a alcan莽ar leitores que podem aplicar e citar seu trabalho e gerar novos conhecimentos com base nele. O acesso aberto beneficia quem n茫o 茅 pesquisador porque acelera a pesquisa cient铆fica e todas as coisas que dependem dela, como novos medicamentos e tecnologias, a resolu莽茫o de problemas, a tomada de decis玫es, o aperfei莽oamento de pol铆ticas p煤blicas e a aprecia莽茫o da beleza da ci锚ncia鈥.

O acesso aberto s贸 se tornou poss铆vel no in铆cio dos anos 2000, gra莽as 脿 revolu莽茫o que a internet promoveu nos meios de comunica莽茫o em geral e na comunica莽茫o cient铆fica em particular. As facilidades tecnol贸gicas para acessar, reproduzir e distribuir o conhecimento se chocaram com o modelo tradicional de peri贸dicos, at茅 ent茫o baseado em ve铆culos impressos e em vigor h谩 pelo menos 300 anos. Sob este modelo o acesso aos artigos tem custo, os autores t锚m de transferir os direitos autorais de seu trabalho para o publisher e muito pouco se pode fazer com este conhecimento, em termos de dissemina莽茫o, sem autoriza莽茫o dele. Na mesma 茅poca, o valor das assinaturas dos peri贸dicos cresceu muito acima da infla莽茫o e universidades mundo afora come莽aram a ter dificuldade em renov谩-las. Como consequ锚ncia, o modelo passou a ser questionado pela comunidade acad锚mica.

Tr锚s confer锚ncias internacionais realizadas neste per铆odo produziram documentos que assentaram as bases do movimento de acesso aberto: Budapest Open Access Initiative(2002), Bethesda Statement on Open Access Publishing 聽(2003) e Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities (2003). A premissa comum entre os tr锚s 茅 a seguinte: na era digital, n茫o faz sentido que os resultados de pesquisa cient铆fica financiada com recursos p煤blicos tenham barreiras de acesso e dissemina莽茫o.

Por esta 茅poca surgiram os primeiros publishers de acesso aberto, tendo como pioneiros PLOS, em S茫o Francisco (EUA), e BioMed Central, em Londres (Reino Unido). (Eu trabalho para o segundo.) Estabeleceu-se um novo modelo de neg贸cio para a publica莽茫o de peri贸dicos. Nele, os custos dos servi莽os editoriais, em vez de serem cobertos pela cobran莽a do acesso, como ocorre nas revistas de assinatura, agora s茫o pagos por meio da taxa de publica莽茫o de artigo (APC, na sigla em ingl锚s). 脡 importante ressaltar que esta mudan莽a n茫o altera em nada o compromisso dos publishers e dos editores com as boas pr谩ticas de publica莽茫o cient铆fica, especialmente no que diz respeito 脿 revis茫o por pares. E vale a pena esclarecer tamb茅m que a cobran莽a da APC deve ser feita depois desta revis茫o e apenas se o artigo for aceito pelo editor-chefe, que toma sua decis茫o baseado na avalia莽茫o dos revisores.

Muitos outros publishers de acesso aberto surgiram desde ent茫o. Paralelamente, diversos publishers tradicionais come莽aram a migrar, pelo menos parte de seu portf贸lio, para o novo modelo. Mas n茫o demorou muito para que os impostores come莽assem a aparecer.

Quem est谩 por tr谩s dos peri贸dicos predat贸rios conhece muito bem o mundo acad锚mico e enxergou oportunidades. Percebeu que na 煤ltima d茅cada a produ莽茫o cient铆fica cresceu muito no mundo todo, mas especialmente nos pa铆ses emergentes. J谩 os recursos para pesquisa n茫o aumentaram na mesma propor莽茫o, o que tornou o ambiente mais competitivo. A produ莽茫o de artigos passou a ser a principal m茅trica usada na avalia莽茫o do desempenho acad锚mico, o que gerou uma press茫o enorme, por parte das ag锚ncias de fomento e dos programas de p贸s-gradua莽茫o, por este tipo de publica莽茫o.

O resultado 茅 que hoje quase qualquer peri贸dico, de assinatura ou acesso aberto, bem ou mais ou menos conceituado, tem de lidar com uma longa fila submiss玫es, principalmente dos pa铆ses emergentes. Nos t铆tulos mais estabelecidos, as taxas de rejei莽茫o subiram para conter a demanda. Em outros, os autores podem esperar mais de um ano para ter seu artigo publicado. Ou seja, 茅 muito artigo para pouca revista.

Pressionados para publicar e/ou frustrados com a demora de muitos peri贸dicos ou rejei莽玫es sucessivas, muitos pesquisadores se tornam presas f谩ceis dos publishers predat贸rios, que infestam a caixa postal de suas potenciais v铆timas. 脌s vezes o t铆tulo da revista e o website s茫o muito parecidos com o de outra, tradicional, na qual aquele autor j谩 publicou anteriormente. 聽O conselho editorial quase sempre 茅 fabricado e as indexa莽玫es, principalmente quando s茫o muito vistosas, geralmente s茫o falsas. Alguns usam fatores de impacto 鈥渁lternativos鈥 que levam os autores a crer que se trata do (venerado) indicador da Thomson Reuters.

Tem gente que se d谩 conta da farsa a tempo, como quando recebe o aviso de aceite e o boleto para pagar a APC poucos dias depois da submiss茫o 鈥 uma revis茫o por pares decente raramente leva menos de dois meses. Outros, infelizmente, s贸 percebem a armadilha depois que o artigo foi publicado, o que 茅 uma pena, pois jamais conseguir茫o retir谩-lo de l谩.

Algu茅m poderia argumentar que bastaria apagar tais e-mails para n茫o cair em cilada. Mas n茫o 茅 t茫o simples. Faz parte da rotina do pesquisador receber mensagens, nem sempre indesejadas, enviadas por publishers. Ele pode ter se registrado para receber alertas das novas edi莽玫es dos peri贸dicos que acompanha, ser convidado para revisar artigos de revistas de sua 谩rea ou para submeter artigos para uma edi莽茫o tem谩tica de um t铆tulo no qual j谩 publicou. E pode tamb茅m receber convites para publicar em novas revistas de acesso aberto n茫o predat贸rias para as quais, sobretudo nos seus primeiros anos de exist锚ncia, este tipo de promo莽茫o 茅 importante (e h谩 formas de se fazer isso sem recorrer ao spam). Afinal, publishers s茅rios tamb茅m sabem que existe uma demanda reprimida e investem em novos t铆tulos.

Al茅m de atazanar a vida dos pesquisadores, os publishers predat贸rios amea莽am a expans茫o do modelo de acesso aberto, que apesar do belo caminho trilhado nesses 煤ltimos 15 anos ainda 茅 minorit谩rio em rela莽茫o ao modelo de assinatura. Para mim, a conclus茫o que fica 茅 que precisamos urgentemente falar mais sobre as virtudes do acesso aberto. E esquecer aquela mat茅ria desleixada.

 

Instituto Biol贸gico

Existe um cafezal na cidade de S茫o Paulo (aparentemente o 煤nico), remanescente dos 谩ureos tempos em que o caf茅 era a commodity mais importante deste pa铆s. Fica na Vila Mariana, bem perto do Parque Ibirapuera, e pertence ao Instituto Biol贸gico, uma institui莽茫o de pesquisa ligada 脿 Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo paulista.

No dia 24 de maio, uma quarta-feira, l谩 est谩vamos eu e minha amiga Thaisi, 脿s 9h da manh茫, para acompanhar a primeira colheita da safra de 2012. O evento acontece todo ano, mas desta vez foi maior por causa dos 85 anos do Instituto Biol贸gico.

Era uma manh茫 quente de outono, de c茅u acinzentado. Bolos, biscoitinhos, canjica e outros quitutes compunham uma farta mesa de caf茅-da-manh茫. Al茅m de sucos e, claro, cafezinho feito na hora. Os convivas eram praticamente todos de meia idade, muitos japoneses, outros com aquele ar aristocr谩tico de morador antigo da Vila Mariana, al茅m dos funcion谩rios do Instituto. A casa estava cheia.

Como era evento importante, n茫o podia faltar o secret谩rio de agricultura e mais um bando de burocratas doidos para discursar e aplaudir. Enquanto todos se encaminhavam para debaixo de uma tenda para o momento solene, eu e Thaisi fomos dar umas bandas pela propriedade de 122 mil metros quadrados, tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrim么nio Hist贸rico, Arqueol贸gico, Art铆stico e Tur铆stico do Estado de S茫o Paulo). Foi quando fiz estas fotos. 脡 um lugar parado no tempo. O tombamento n茫o justifica o ar de abandono.

O Instituto Biol贸gico foi criado em 1927 por causa de uma praga que abatia os cafezais paulistas. No ano seguinte come莽ou a constru莽茫o do pr茅dio na avenida Rodrigues Alves, em estilo art d茅co, que s贸 foi conclu铆da em 1945. Em 1932, o pr茅dio serviu de hospedagem para tropas ga煤chas que lutaram ao lado dos paulistas na Revolu莽茫o Constitucionalista.

Em 1929, o Instituto Biol贸gico admitiu o m茅dico e microbiologista Jos茅 Reis (1907-2002) que mais tarde abra莽ou o jornalismo e foi um grande incentivador da divulga莽茫o cient铆fica no pa铆s. Reis manteve durante mais de 50 anos uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, tendo chegado a ser diretor de reda莽茫o do jornal em 1962.

Para ver mais fotos e vers玫es ampliadas destas, Flickr.

A Amaz么nia, por Adrian Cowell

Est谩 em cartaz no Cinesesc, em S茫o Paulo, at茅 quinta-feira (12/7), uma mostra dos filmes de Adrian Cowell, um brit芒nico formado em hist贸ria pela Universidade de Cambridge que pisou pela primeira vez na Amaz么nia em 1957 e produziu, ao longo dos 50 anos seguintes, mais de 30 document谩rios, a maioria deles para a TV brit芒nica e ainda in茅ditos no Brasil.

A mostra Amaz么nia 50: meio s茅culo de cinema documental de Adrian Cowell homenageia este documentarista que morreu em outubro do ano passado, aos 77 anos, de ataque card铆aco, 脿s v茅speras de mais uma viagem ao Brasil para finalizar seu derradeiro filme. Cowell nos deixou um registro farto e sem precedentes da hist贸ria da floresta amaz么nica, contido em cerca de 3.500 latas de filme de valor incalcul谩vel.

Imagino que quem assistiu a Xingu (2012), de Cao Hamburguer, ter谩 gosto de rever, como eu tive, muitas situa莽玫es vividas pelos irm茫os Claudio e Orlando Villas B么as – em 贸tima interpreta莽茫o de Jo茫o Miguel e Felipe Camargo, respectivamente – na pele real dos pr贸prios.

Vi no s谩bado A tribo que se escondia do homem, de 1970 (passar谩 de novo na quarta 脿s 21h), que 茅 uma esp茅cie de Xingu 2, s贸 que de verdade. O filme come莽a exatamente no ponto onde termina o longa de Hamburger, ou seja (isso n茫o 茅 spoiling), quando Claudio e Orlando partem numa miss茫o de resgate dos arredios 铆ndios Kreen-akore, antes que uma estrada passe por cima deles.

Embora pouco conhecidos por aqui, os filmes de Cowell foram muito vistos no Reino Unido e na Europa, onde receberam alguns pr锚mios. Seu registro do trabalho dos irm茫os Villas B么as de salvamento dos povos ind铆genas do Brasil central contou muito para as duas indica莽玫es ao Nobel da Paz que eles tiveram na d茅cada de 1970. Pr锚mio que teria sido muito merecido.

Cowell conviveu tamb茅m com Chico Mendes e ao lado dele, nos anos 1980, documentou o estado de viol锚ncia da floresta, t茫o tristemente atual.

Toda sua obra est谩 sob a guarda do Instituto Goiano de Pr茅-hist贸ria e Antropologia da PUC de Goi谩s, colaborador na produ莽茫o de v谩rios filmes, e que restaurou diversos t铆tulos. No site deles 茅 poss铆vel conferir todas as sinopses, mas n茫o baixar os document谩rios, que, segundo anunciado, em breve ser茫o vendidos em DVD. No Youtube se encontra v谩rios trechos curtos e um ou outro filme na 铆ntegra, raramente em portugu锚s.

A mostra no CineSesc (rua Augusta, 2075) come莽ou no dia 5 e, repetindo, vai at茅 a pr贸xima quinta (12). Entrada gr谩tis. Por favor, ajudem a divulgar.

Programa莽茫o no CineSesc

Acervo na PUC de Goi谩s

Homenagem na Globo News

Matando por terras, no blog de Eliane Brum

Dois longos obitu谩rios (em ingl锚s):聽Telegraph e Guardian

Mem贸rias de um subversivo

Lenda viva no meio acad锚mico e talentoso cronista, o m茅dico Luiz Hildebrando narra os momentos mais cr铆ticos do s茅culo 20 por meio de hist贸rias pessoais que ajudam a entender melhor o Brasil e sua ci锚ncia.

(Texto publicado na edi莽茫o de junho/2012 da revista Unesp Ci锚ncia)

Aos 83 anos 鈥 dos quais 60 de carreira acad锚mica 鈥, o m茅dico e parasitologista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva 茅 um dos mais importantes cientistas brasileiros vivos e em atividade, ainda que pouco conhecido fora desse meio. Mas, mais importante que conhecer suas credenciais cient铆ficas superlativas 茅 saber que o narrador destas Cr么nicas subversivas de um cientista um dia foi um menino que cresceu na zona sul da cidade de S茫o Paulo ouvindo pelo r谩dio as not铆cias da Segunda Guerra; foi um estudante que viveu de corpo e alma a efervesc锚ncia pol铆tica dos anos 1940 e 1950; e se fez homem num mundo coberto pelas nuvens da Guerra Fria.

Intelectual combativo, militante comunista e habilidoso articulador pol铆tico, Hildebrando tornou-se uma das primeiras presas da ditadura militar. Expulso ainda em 1964 ap贸s uma investiga莽茫o por 鈥渁tividades subversivas鈥 na Faculdade de Medicina da USP, da qual era professor, ele passou mais de 25 anos 鈥 somados os dois per铆odos de ex铆lio 鈥 trabalhando no Instituto Pasteur em Paris, ao lado de figuras estelares da ci锚ncia. De volta ao pa铆s h谩 15 anos, como autoridade mundial em mal谩ria, assumiu a tarefa de criar um centro avan莽ado de pesquisas na improv谩vel Porto Velho (RO), onde tamb茅m ajudou a criar e dirige uma unidade da Funda莽茫o Oswaldo Cruz.

Estas mem贸rias que saem agora pela Vieira & Lent s茫o uma recompila莽茫o de dois livros 鈥 O fio da meada (Brasiliense, 1990) e Cr么nicas de nossa 茅poca (Paz e Terra, 2001). Nelas Hildebrando mostra que, al茅m de 贸tima mem贸ria e muita hist贸ria para contar, tem ainda uma bem lapidada veia liter谩ria. N茫o se trata de um livro de ci锚ncia nem de divulga莽茫o cient铆fica, porque n茫o pretende ensinar nada a ningu茅m. Ele n茫o pretende se ocupar da Hist贸ria com H mai煤sculo, mas das pequenas narrativas do cotidiano, que por sua vez atravessam os momentos mais conturbados da pol铆tica nacional e da geopol铆tica mundial do s茅culo 20. E que o leitor revive na pele de um cientista engajado, com ideais e convic莽玫es de sua gera莽茫o, mas que sabe passar ao largo da tenta莽茫o da autocongratula莽茫o.

As cr么nicas de Hildebrando est茫o cheias de pessoas e afetos. Assim, as lembran莽as da av贸 Chiquinha adquirem a mesma estatura das do amigo e f铆sico M谩rio Schenberg, ou das do mestre Fran莽ois Jacob, Nobel de Medicina em 1965. Em muitas聽 flagramos聽 o autor rindo de si mesmo, como quando decidiu pegar em armas 鈥撀 aparentemente pela primeira e 煤ltima vez 鈥 para matar mosquitos.

Corria o ano de 1968, Hildebrando acabara de voltar do primeiro ex铆lio e ainda n茫o sabia que logo depois o AI-5 o expulsaria de novo. Entediados com a vida pacata como professores na USP em Ribeir茫o Preto, ele o amigo Erney Camargo 鈥 dois seres urbanos 鈥 usaram coquet茅is molotov para exterminar os criadouros dos mosquitos que infestavam o c芒mpus da Faculdade de Medicina (leia trecho abaixo).

Outras hist贸rias revelam os bastidores do jogo de for莽as que permeava a pol铆tica universit谩ria paulista e descrevem lances que tiveram profundo impacto no desenvolvimento cient铆fico e tecnol贸gico do Estado e do pa铆s nas d茅cadas seguintes. 脡 o caso da cria莽茫o da Fapesp.

A lei org芒nica do governo Carvalho Pinto que institu铆a a ag锚ncia de fomento 脿 pesquisa de S茫o Paulo 茅 de 1960, mas houve dificuldades para regulament谩-la, em grande medida por resist锚ncia da USP.聽 A oportunidade de furar esse cerco veio quando o matem谩tico italiano Jaur猫s Cecconi, que trabalhava no c芒mpus da universidade em S茫o Carlos desde 1956, havia dado por conclu铆da sua miss茫o no Brasil e precisava retornar a G锚nova, onde um聽 novo contrato o aguardava. Ocorreu, por茅m, que a reitoria n茫o cumpriu o prometido e negou custeio da viagem de retorno para ele e a fam铆lia, algo que na 茅poca era mais comum fazer de navio.

A not铆cia se espalhou e foi bater no telefone de Hildebrando, que pensou, pensou e arriscou ligar para Pl铆nio de Arruda Sampaio, ent茫o chefe de gabinete do governo estadual, que n茫o era exatamente um companheiro, mas a quem respeitava. O governador Carvalho Pinto n茫o gostou nada do constrangimento sofrido pelo professor Cecconi e pagou-lhe passagens de avi茫o. Como a elei莽茫o na USP estava pr贸xima, o incidente foi a gota d麓谩gua para o in铆cio de uma articula莽茫o de pesquisadores, apoiada pelo Pal谩cio dos Bandeirantes, para colocar algu茅m da oposi莽茫o na reitoria. Dos intensos debates sobre o tema, que acirraram os 芒nimos de Mario Schenberg e do arquiteto Vilanova Artigas e tiveram grande participa莽茫o do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, saiu a indica莽茫o de Antonio Barros de Ulh么a Cintra, que se elegeu em 1961 e botou a Fapesp em funcionamento no ano seguinte.

Quando Hildebrando 茅 exilado pela segunda vez e retorna a Paris, em 1968, enfia a cara na gen茅tica de parasitas e d谩 passos cient铆ficos importantes, pelos quais o Instituto Pasteur investe nele. Aqui, o leitor que n茫o vem das ci锚ncias biol贸gicas pode n茫o entender muito bem a descri莽茫o dos experimentos no laborat贸rio, as hip贸teses de trabalho ou resultados obtidos, mas isso n茫o prejudica o fluxo da narrativa, porque importam menos as tecnicalidades que acompanham as perguntas da ci锚ncia do que o percurso, as convic莽玫es e os percal莽os que levam o pesquisador at茅 elas.

鈥淢ilhares 鈥 milh玫es mesmo 鈥 de outros jovens que viveram os mesmos acontecimentos permaneceram indiferentes ou tomaram posi莽玫es opostas鈥, reflete o m茅dico na p谩gina 47. 鈥淓nt茫o, se nos interessa saber como e por que um adolescente insignificante, perdido num ponto do mapa-m煤ndi, virou isso ou aquilo, ou n茫o virou nada, 茅 preciso se interessar pelo molho servido com o prato principal.鈥

Seu livro 茅, portanto, puro molho, temperado e maturado ao longo de v谩rias d茅cadas, de sabor ao mesmo tempo suave e intenso. Pois o prato principal, a Hist贸ria mai煤scula, ele deixa humildemente para os聽 historiadores.

Cr么nicas subversivas de um cientista
Luiz Hildebrando; Vieira & Lent; 480 p谩gs.; R$ 68

Trecho
A ideia para sair do buraco veio num domingo, na hora do aperitivo, Erney e eu sentados na varanda, olhando as vacas ao longe. 鈥 A 煤nica solu莽茫o que vejo 茅 virar ecologista, disse. Erney engasgou com seu u铆sque e quase se afogou num acesso de tosse. Ele era al茅rgico 脿 palavra. Tudo o que fazia lembrar a natureza o enchia de urtic谩ria.

(鈥) 鈥 Escuta, Astolfo voc锚 n茫o pensa que a situa莽茫o do Culex aqui聽 茅 inadmiss铆vel? Uma faculdade de Medicina que se orgulha, com raz茫o, de ser uma das melhores do pa铆s. Com um ensino de parasitologia de primeira qualidade e infestada de Culex! 脡 vergonhoso!

(鈥) Astolfo n茫o sabia o que era [coquetel molotov]. N茫o estava escrito nos seus livros. Sem fornecer a origem de minhas compet锚ncias, explico o princ铆pio. No laborat贸rio preparamos sete 鈥渕olotovs鈥 (鈥) Abro caminho entre a vegeta莽茫o. Um fogar茅u, vinte metros 脿 direita, me anuncia que Erney lan莽ou o ataque.

(鈥) O cheiro de carne queimada de mosquito invade o ar 鈥 se 茅 que mosquito queimado cheira a alguma coisa. Lan莽o meu segundo coquetel e espero. Depois me aproximo com o lat茫o de 贸leo diesel. Chego mais perto鈥 E o que vejo? Uma cabe莽a de cobra jararacu莽u, assustada pelo fogo, emerge da superf铆cie da 谩gua.

A culpa n茫o 茅 do capim

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de mar莽o de 2012 (pdf).

O sol massacrante e o predom铆nio de gado holand锚s 茅 que prejudicam a pecu谩ria leiteira no semi谩rido cearense, aponta estudo da Unesp em Jaboticabal; t茅cnicas de manejo poderiam amenizar o problema

 

Ningu茅m mais lembra quando nem como vacas holandesas chegaram pela primeira vez a Limoeiro do Norte, cidade cearense que fica a 200 km de Fortaleza, em pleno semi谩rido nordestino. Como a pecu谩ria extensiva e a atividade leiteira s茫o tradicionais na regi茫o, para os limoeirenses 茅 normal ver esses animais, com seu pelo malhado em branco e preto, soltos nos pastos ou, o que 茅 bastante comum, descansando na sombra das 谩rvores, dentro de pequenas propriedades espalhadas pelo munic铆pio onde vivem cerca de 56 mil pessoas e quase 7 mil vacas de leite, segundo o IBGE.

Ver essa ra莽a de gado originada dos Pa铆ses Baixos 鈥 onde o clima 茅 classificado como temperado mar铆timo 鈥 sendo criada numa das regi玫es mais t贸rridas do Brasil pode ser normal para os limoeirenses, mas n茫o para o zootecnista acreano Alex Sandro Campos Maia.

鈥淔iquei muito surpreso鈥, recorda o pesquisador da Faculdade de Ci锚ncias Agr谩rias e Veterin谩rias da Unesp em Jaboticabal, que na 茅poca da visita ao local, anos atr谩s, estava ligado 脿 Universidade Federal Rural do Semi-脕rido (Ufersa). 鈥淨uando conto para meus colegas do exterior, que tamb茅m trabalham com gado holand锚s, ningu茅m acredita que isso 茅 poss铆vel.鈥 Segundo ele, existem ra莽as de gado mais bem adaptadas ao calor intenso.

A contradi莽茫o clim谩tica chamou a aten莽茫o do pesquisador, que conversando com produtores locais logo descobriu que a produtividade deles 茅 muito baixa.

Enquanto no Sudeste uma vaca holandesa produz em m茅dia 33 quilos de leite por dia 鈥 em casos excepcionais podendo superar 40 quilos di谩rios 鈥, em Limoeiro do Norte cada animal rende diariamente entre 12 e 15 quilos de leite, compara Campos Maia. 鈥淣茫o que eles (os produtores) reclamem鈥, afirma. 鈥淥 neg贸cio parece estar indo bem. Mas podia estar muito melhor.鈥

O pesquisador constatou tamb茅m que os produtores sabem que suas vacas podiam render mais leite e costumam justificar o infort煤nio culpando o capim, que seria de m谩 qualidade 鈥 hip贸tese que n茫o convenceu o zootecnista. 鈥淣茫o h谩 nada de errado com o pasto. A folhagem 茅 boa鈥, afirma.
Desde o princ铆pio, sua suspeita recaiu sobre o estresse t茅rmico severo a que aquelas vacas est茫o expostas. Para comprov谩-lo, ele elaborou um projeto de pesquisa cujos resultados est茫o prestes a ser publicados na revista Applied Animal Behaviour Science. Os resultados permitem concluir que a culpa n茫o 茅 do capim, mas do sol e do calor acachapantes do lugar 鈥 n茫o h谩 holand锚s que aguente.

A vaca foi pra sombra
A pesquisa consistiu na observa莽茫o de oito vacas holandesas, ao longo de uma semana em outubro de 2010, numa das propriedades do munic铆pio cearense. Quem estava l谩 de prontid茫o, das 6 h da manh茫 脿s 6h da tarde, era Steffan Edward Oct谩vio de Oliveira, na 茅poca aluno do 煤ltimo ano do curso de Zootecnia da Ufersa, que fez do projeto seu trabalho de conclus茫o de curso, sob orienta莽茫o de Campos Maia. 鈥淎nalisamos o efeito da radia莽茫o solar no comportamento das vacas鈥, explica ele.

As vacas tinham acesso ao pasto a partir das 6 h da manh茫, depois da primeira ordenha do dia, em est谩bulo, que come莽ava 脿s 3 h. O problema 茅 que 脿s 7 h o sol j谩 茅 鈥渕uito forte鈥, segundo Campos Maia. E h谩 um incremento brutal nas horas seguintes. 鈥溍s 7 h, a intensidade da radia莽茫o solar est谩 em torno de 500 Watts por metro quadrado (W/m2). Uma hora depois, esse valor chega a 900 W/m2鈥, acrescenta. O pico, entre 10 h e 11 h, ultrapassa 1.100 W/m2.

Os resultados mostraram que a partir das 8 h, quando a radia莽茫o solar superava 600 W/m2, os animais procuravam a sombra e l谩 ficavam, parados, a maior parte do tempo. O hor谩rio em que mais comeram foi das 6 h 脿s 7 h, quando a radia莽茫o ainda estava abaixo dos 300 W/m2. Durante a tarde, n茫o lhes restava muito tempo para pastar, pois quando o sol come莽ava a amainar, ao redor das 15h, eles eram reconduzidos ao est谩bulo para nova ordenha e dali s贸 sa铆am no dia seguinte.

脡 por comer pouco que as vacas n茫o est茫o produzindo todo o leite de que s茫o capazes. Segundo o pesquisador, o sol intenso as faz perder o apetite, tal como ocorre com humanos. 鈥淢etabolicamente falando, o animal faz uma conta interna, segundo a qual 茅 melhor ficar sem comer, mas na sombra, do que buscar alimento no sol. 脡 uma quest茫o de sobreviv锚ncia.鈥

Algumas medidas deixam claro que a decis茫o das vacas 茅, de fato, a mais prudente. Enquanto a temperatura m茅dia do solo 脿 sombra ficava por volta dos 30 oC, a do ch茫o exposto ao sol superou os 60 oC. J谩 a temperatura superficial dos animais, medida com c芒meras de infravermelho, foi pelo menos 5 oC menor 脿 sombra em compara莽茫o a quando estavam debaixo do sol.

A segunda fase da pesquisa j谩 come莽ou. Desta vez, o hor谩rio da ordenha ser谩 alterado para que o rebanho possa pastar em momentos do dia com menor radia莽茫o solar. Se com isso ele ficar mais tempo no pasto, a produ莽茫o de leite deve aumentar.

Esta 茅 a hip贸tese que Oliveira vai testar ao longo do seu mestrado, iniciado no ano passado, na Unesp em Jaboticabal. 鈥淓xistem sistemas de sombreamento, mas custam caro para o produtor. Estamos buscando solu莽玫es simples鈥, conta o aluno. 鈥淨ueremos adiantar as ordenhas em uma hora e verificar se h谩 resultado.鈥 Seu orientador n茫o descarta a ideia de interferir um pouco mais, permitindo que o rebanho possa pastar 脿 noite, por exemplo.

Sem protetor
Mesmo que t茅cnicas de manejo n茫o aumentem a produtividade da pecu谩ria leiteira de Limoeiro do Norte (o que 茅 pouco prov谩vel), poupar o rebanho holand锚s do sol聽 do semi谩rido deve pelo menos amenizar um problema de sa煤de bovina comum na regi茫o: o c芒ncer de pele. 鈥淐erca de 10% dos animais que vi l谩 tinham a doen莽a, 脿s vezes em est谩gio avan莽ado. 脡 um n煤mero muito alto鈥, diz Campos Maia.

 

 

Polui莽茫o ap贸s a morte

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de novembro de 2011 (pdf).

Foto: luispabon

Ge贸logo de Rio Claro adapta m茅todo de imageamento do solo para avaliar a contamina莽茫o ambiental gerada pelos cemit茅rios, um tema tabu at茅 mesmo no meio cient铆fico

脡 bom avisar logo que o assunto 茅 um tanto inc么modo e justamente por isso tende a ser negligenciado. Para tratar objetivamente do impacto ambiental dos cemit茅rios 茅 preciso antes passar por cima 鈥 ainda que momentaneamente 鈥 de nada menos que o tabu da morte. Seja l谩 qual for sua cren莽a ou descren莽a em rela莽茫o 脿 exist锚ncia p贸s-t煤mulo, o fato 茅 que para todos n贸s 茅 muito mais f谩cil lidar com a possibilidade, real ou fict铆cia, de uma alma sem corpo (alma no sentido b谩sico, de anima) do que com a ideia concreta de um corpo sem alma. Mas esp铆ritos ou fantasmas, ao que tudo indica, n茫o poluem o solo ou a 谩gua, ao contr谩rio do que pode ocorrer com o corpo humano depois que perde a vida.

O tema 茅 ainda mais delicado para os cientistas que se disp玫em a estud谩-lo, que n茫o por acaso s茫o poucos em qualquer pa铆s. Bem o sabe o ge贸logo Walter Malagutti Filho, do Instituto de Geoci锚ncias e Ci锚ncias Exatas da Unesp em Rio Claro, que est谩 investigando o grau de contamina莽茫o do solo abaixo das sepulturas de um cemit茅rio municipal na mesma cidade e j谩 concluiu trabalho semelhante na vizinha Piracicaba.

A primeira dificuldade, explica ele, 茅 convencer a administra莽茫o do lugar a autorizar a pesquisa, algo que 茅 bem mais dif铆cil de se obter das聽 necr贸poles privadas, segundo Malagutti. O segundo desafio 茅 a coleta de dados propriamente dita. 鈥淥 cemit茅rio 茅 um espa莽o sagrado鈥, justifica. 鈥淥s ge贸logos costumam trabalhar no campo de um jeito muito descontra铆do. J谩 no cemit茅rio temos de trabalhar de forma muito discreta, r谩pida e silenciosa. As pessoas olham feio.鈥

O ge贸logo utiliza um m茅todo el茅trico para detectar abaixo da superf铆cie as chamadas plumas de contamina莽茫o, que s茫o como l铆nguas por onde se infiltra o fluido viscoso que tem origem nas sepulturas e 茅 resultado natural da decomposi莽茫o. Nesse processo, no qual atua um grande n煤mero de bact茅rias, um corpo de 70 kg pode gerar at茅 40 litros do chamado necrochorume, ao longo de um per铆odo que varia de tr锚s a cinco anos ap贸s o sepultamento.

Onde h谩 plumas de contamina莽茫o, o solo fica menos resistente 脿 passagem de corrente el茅trica. Usando quatro eletrodos fincados no ch茫o, Malagutti faz as medidas que, uma vez processadas no computador, formam uma imagem indireta dos subterr芒neos do cemit茅rio. O imageamento el茅trico 茅 um m茅todo diagn贸stico relativamente simples e pouco invasivo, mas tem suas limita莽玫es, segundo o pesquisador.

A medida direta ideal, esclarece, exigiria grandes perfura莽玫es em meio 脿s sepulturas, o que obviamente est谩 fora de cogita莽茫o. 鈥淥 imageamento el茅trico j谩 茅 usado para avaliar a contamina莽茫o subterr芒nea causada por aterros sanit谩rios. Estamos adaptando-o para os cemit茅rios鈥, diz Malagutti com muito cuidado, reconhecendo que, do ponto de vista sentimental, a compara莽茫o parece aviltante.

O fato 茅 que, do ponto de vista t茅cnico, o impacto ambiental de um cemit茅rio 茅 compar谩vel ao de um aterro de lixo 鈥 mais precisamente de lixo hospitalar, j谩 que muitos defuntos passaram antes por interna莽玫es e est茫o impregnados de medicamentos e materiais m茅dicos e cir煤rgicos. H谩 duas diferen莽as importantes, entretanto, no que se refere 脿 escala de tempo, lembra o ge贸logo: os aterros t锚m vida 煤til, ao t茅rmino da qual s茫o fechados. J谩 a popula莽茫o das necr贸poles, por assim dizer, se renova continuamente.

Efeito cumulativo
Em Rio Claro, o pesquisador tem verificado que as plumas de contamina莽茫o parecem mais intensas justamente nas 谩reas mais antigas do cemit茅rio (que tem 130 anos), sugerindo um impacto maior por efeito cumulativo. O ideal, segundo ele, seria n茫o fazer mais sepultamentos ali.

Ainda n茫o se sabe se essas poss铆veis plumas alcan莽am o len莽ol fre谩tico que passa 20 m abaixo da superf铆cie. Tal profundidade imp玫e a dificuldade t茅cnica de chegar at茅 l谩 para coletar amostras da 谩gua, mas, em compensa莽茫o, atua como fator de prote莽茫o. Em Piracicaba, por茅m, os resultados obtidos por Malagutti foram confirmados por testes que detectaram contamina莽茫o do len莽ol, bem mais raso nesse caso.

Se a 谩gua contaminada pelo necrochorume passar por uma esta莽茫o de tratamento antes de chegar 脿s nossas torneiras, menos mal. L谩 ela ser谩 desinfectada (a um custo que 茅 pago pela sociedade, sempre 茅 bom lembrar). 鈥淎gora imagine quantos po莽os artesianos existem por a铆, onde n茫o 茅 feito controle de qualidade鈥, aponta o pesquisador. Muitos deles podem ser usados para irrigar lavouras.

Nos cemit茅rios constru铆dos mais recentemente, o risco de contamina莽茫o 茅 bem menor. Desde 2003, a legisla莽茫o estipula, entre outros itens, que eles n茫o podem ocupar 谩reas de preserva莽茫o ambiental, nem terrenos sob os quais o len莽ol fre谩tico passa a menos de 5 m de profundidade, al茅m de dispor sobre normas para constru莽茫o dos jazigos a fim de evitar a infiltra莽茫o do necrochorume no solo.

O problema, portanto, concentra-se nas necr贸poles antigas 鈥 a esmagadora maioria. O ideal seria que elas n茫o recebessem mais corpos e que novas 谩reas, fora da cidade, fossem abertas para esse fim e seguindo a legisla莽茫o ambiental, defende o ge贸logo da USP Alberto Pacheco, o pioneiro nessa 谩rea no Brasil.

S茫o dele os trabalhos que j谩 mostraram s茅rios problemas de contamina莽茫o do solo e do len莽ol fre谩tico em dois grandes cemit茅rios da cidade de S茫o Paulo: na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte) e na Vila Formosa (zona leste).

Aposentado, Pacheco est谩 escrevendo um livro de divulga莽茫o cient铆fica sobre o tema para chamar a aten莽茫o da popula莽茫o e do poder p煤blico. 鈥淧recisamos entender que, vivo ou morto, o ser humano polui o ambiente鈥, diz ele. 鈥淯sando o conhecimento da geologia e t茅cnicas de gerenciamento, n贸s podemos tornar os cemit茅rios mais sustent谩veis e evitar que um risco potencial de contamina莽茫o se torne um risco efetivo鈥, resume.

Uma hist贸ria de amor e ang煤stia

(Este texto foi originalmente publicado em 7/10/2011 no blog da revista Unesp Ci锚ncia.)

 

Teresa e Joaquim formam um casal de meia-idade que vive em Botucatu, no interior de S茫o Paulo, e na realidade n茫o tem esses nomes que acabei de inventar. N茫o querem ser identificados porque guardam um segredo. Ningu茅m sabe que h谩 cerca de tr锚s anos eles se descobriram portadores do v铆rus da Aids.

Ningu茅m exceto a filha, uma comadre muito amiga de Teresa e os profissionais de sa煤de que os acompanham no Hospital Dia Domingos Alves Meira, um centro especializado no tratamento de HIV e hepatites virais da mesma cidade, ligado 脿 Faculdade de Medicina da Unesp.

O filho deles, com mais de 30 anos, nem sonha com o drama dos pais, que querem poup谩-lo do sofrimento. O mesmo sofrimento com o qual teve de lidar a filha, de quem foi in煤til ocultar a situa莽茫o. Ela desconfiou de tantas idas e vindas ao m茅dico, do abatimento emocional deles e dos segredos sussurrados pelos cantos da casa. Um dia botou a m茫e contra parede, pediu uma explica莽茫o sincera e a conseguiu.

Entrevistei Teresa e Joaquim na manh茫 gelada de 1潞 de setembro deste ano. O infectologista que os acompanha, com quem passei quase o dia inteiro apurando a reportagem de capa desta edi莽茫o, j谩 havia me dito como o casal contra铆ra o HIV. Ela foi infectada por ele, que por sua vez adquiriu o v铆rus numa rela莽茫o extraconjugal desprotegida.

N茫o sei o quanto o casamento dos dois foi abalado por essa trai莽茫o de consequ锚ncia tr谩gica, n茫o tive coragem de perguntar. Seja l谩 o que tenha acontecido com a rela莽茫o deles diante desta revela莽茫o, o fato 茅 que, mesmo os tendo visto uma 煤nica vez, para mim era evidente que o v铆nculo do casal estava mais s贸lido do que nunca.

Mais tarde o m茅dico me diria que normalmente 茅 assim, quando os dois est茫o infectados, a uni茫o geralmente se fortalece. Quando apenas um deles contrai o v铆rus, a separa莽茫o 茅 a regra. Tamb茅m 茅 comum entre os soropositivos de qualquer idade, casados, solteiros ou separados, manterem sua condi莽茫o em segredo. O temor do estigma e da discrimina莽茫o ainda fala mais alto.

Teresa estava muito abalada naquele dia. Ao contr谩rio do marido, ela nunca tinha tomado os medicamentos anti-HIV porque sua contagem de linf贸citos CD4 n茫o havia atingido o n铆vel abaixo do qual o tratamento 茅 iniciado. Mas o 煤ltimo exame mostrava que a malfadado dia estava pr贸ximo, apesar de todas as suas preces. Dizia isso com um fiapo de voz e os olhos marejados. Joaquim segurava sua m茫o.

H谩 tr锚s anos ele quase morreu por causa de repetidas pneumonias, de cuja verdadeira causa os m茅dicos tardaram a suspeitar. Foi s贸 quando Joaquim desenvolveu herpes, infec莽茫o oportunista t铆pica da Aids, que o exame de HIV foi pedido. O atraso no diagn贸stico lhe custou a vis茫o de um dos olhos, motivo pelo qual hoje ele est谩 aposentado.

Apesar de tudo, Teresa e Joaquim se consideram pessoas de sorte pela qualidade do atendimento que recebem no Hospital Dia Domingos Alves Meira. Criado em 2004, o centro leva o nome de seu fundador e coordenador, um veterano e obstinado infectologista que batalhou muito para colocar em pr谩tica uma unidade multidisciplinar cujo pilar principal 茅 a medicina humanizada. Al茅m do tratamento padr茫o, os pacientes 聽recebem assist锚ncia odontol贸gica, psicol贸gica, fisioter谩pica, sempre de gra莽a pelo SUS. Brasil afora, nem todo lugar tem essa estrutura e n茫o por acaso vem gente de longe para se tratar em Botucatu.

***

Nada do que Teresa e Joaquim me contaram naquele dia foi usado por mim na reportagem, que trata de uma nova faceta da Aids, ainda pouco conhecida pela popula莽茫o, mas que j谩 preocupa os especialistas. A longevidade conquistada pelo tratamento com o potente coquetel de medicamentos gerou um novo problema. A conviv锚ncia prolongada com o v铆rus leva o organismo a envelhecer precocemente. Doen莽as t铆picas da senesc锚ncia, como infarto, derrame, dem锚ncias, osteoporose, c芒ncer, entre outras, s茫o mais comuns nos soropositivos e, al茅m disso, costumam se manifestar mais cedo.

Minha conversa com o casal passou muito longe desses problemas, que eram o foco principal da reportagem. Percebi que eles nem desconfiavam disso, que suas preocupa莽玫es eram mais imediatas: o in铆cio do tratamento dela, o hor谩rio dos rem茅dios dele, a manuten莽茫o do segredo no c铆rculo familiar e social, ficar bem f铆sica e emocionalmente, na medida do poss铆vel.

Teresa e Joaquim n茫o entraram explicitamente na reportagem, mas n茫o me sa铆ram da cabe莽a ao longo dos dias que levei para escrev锚-la. Sentia-me a portadora de muitas m谩s not铆cias e imaginava qual seria a rea莽茫o deles e de tantas outras pessoas na mesma condi莽茫o quando lessem o que eu estava escrevendo. Fiquei angustiada. Pela primeira vez eu escrevia uma mat茅ria sobre uma doen莽a desejando fortemente que os portadores dessa doen莽a nunca a lessem.

Mas espero que a reportagem sirva para refor莽ar o alerta incans谩vel dos m茅dicos, para o qual a sociedade em geral parece j谩 um pouco dessensibilizada, infelizmente. O sucesso do tratamento tem feito muita gente baixar a guarda, expondo-se ao risco da infec莽茫o, como se bastasse um punhado de comprimidos fornecidos pelo governo para remediar o problema e ter uma vida normal. Grande engano.

A Aids pode n茫o ser mais a senten莽a de morte que era nos anos 1980, mas 茅 importante ressaltar que o tratamento resolve apenas uma parte dos problemas: as infec莽玫es oportunistas que se instalam no organismo debilitado pelo v铆rus. Isso n茫o permite supor, entretanto, que a doen莽a esteja controlada. Os especialistas ainda n茫o sabem muito bem como prevenir e contornar o envelhecimento precoce causado pela persist锚ncia do HIV em regi玫es do corpo que os medicamentos n茫o alcan莽am, por exemplo, o c茅rebro. As pesquisas nessa 谩rea est茫o s贸 come莽o.

Leia a reportagem aqui, em pdf. Desde j谩 agrade莽o a todos que puderem ajudar a divulg谩-la.

Aids 3.0

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de outubro de 2011.

Depois de tr锚s d茅cadas de luta contra o HIV,o tratamento garantiu vida longa aos pacientes; mas agora a medicina se depara com outro problema: envelhecer com a doen莽a 茅 envelhecer mais cedo

Nos 30 anos que se passaram desde que os primeiros casos de Aids foram confirmados nos Estados Unidos, o papel da medicina em rela莽茫o 脿 doen莽a evoluiu de 鈥渆xpectadora da cat谩strofe鈥 a controladora muito eficiente da replica莽茫o viral, permitindo aos soropositivos viverem livres das infec莽玫es oportunistas e por muito mais tempo. Mas se a conquista da longevidade foi umas das principais vit贸rias na luta contra a Aids, hoje a ci锚ncia se v锚 mais uma vez diante de um desafio. Justamente por causa dessa conviv锚ncia prolongada com o v铆rus da imunodefici锚ncia humana, o HIV, a doen莽a est谩 revelando uma nova face.

O avan莽o promovido, a partir de 1996, pelo uso combinado de drogas potentes, o chamado coquetel, possibilitou que muitos j谩 convivam com o HIV h谩 mais de dez anos, passando a sensa莽茫o de que os pacientes regularmente medicados teriam toda a vida pela frente como qualquer pessoa. Tal percep莽茫o mudou, por茅m 鈥 pelo menos entre os especialistas.

Um n煤mero crescente de estudos mostra que 鈥渁 terapia anti-HIV previne as complica莽玫es associadas 脿 Aids e prolonga a vida, mas n茫o restabelece completamente a sa煤de鈥, como frisaram os editores da revista Annals of Internal Medicine em outubro do ano passado, numa edi莽茫o dedicada ao tema do envelhecimento precoce ou acelerado 鈥 o mais novo verbete no l茅xico de pesquisas em torno da Aids.

O acompanhamento dessas pessoas ao longo dos 煤ltimos anos vem demonstrando que envelhecer na companhia do HIV 茅, infelizmente, envelhecer mais r谩pido. Uma s茅rie de problemas t铆picos da senesc锚ncia, como infarto, derrame, osteoporose, dem锚ncia e c芒ncer, n茫o s茫o apenas mais comuns numa parcela significativa desta popula莽茫o, como tendem a aparecer mais cedo. Tamb茅m 茅 fato que, embora alguns destes males sejam causados pelo uso continuado da medica莽茫o, v谩rios outros est茫o relacionados 脿 persist锚ncia prolongada do v铆rus no organismo.

鈥淐om o tratamento, n贸s resolvemos o pior dos problemas, que eram as infec莽玫es oportunistas鈥, diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, pesquisador da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu. O paciente que faz o uso correto da medica莽茫o, explica ele, consegue manter a carga viral no sangue em n铆veis baixos ou at茅 mesmo indetect谩veis por muitos anos. Assim, os linf贸citos CD4, que s茫o o alvo do HIV, s茫o poupados, e as defesas imunol贸gicas do organismo seguem funcionando.

鈥淥 problema 茅 que existem outros s铆tios de replica莽茫o do v铆rus, onde a maioria dos medicamentos n茫o consegue chegar鈥, diz o m茅dico. S茫o eles o sistema linf谩tico e o sistema nervoso central.

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Floresta de f贸sseis

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de setembro de 2011.

No meio do Cerrado nordestino, restos petrificados de plantas que viveram h谩 mais de 250 milh玫es de anos contam a hist贸ria da regi茫o em uma 茅poca em que os continentes estavam unidos e o mar chegava at茅 ali

Era um domingo como outro qualquer em Nova Iorque. Por volta das 10 h da manh茫 o sol j谩 impunha respeito e v谩rias fam铆lias curtiam a praia. Crian莽as brincavam na areia ou na 谩gua, e adultos batiam papo e bebericavam em torno de mesas de pl谩stico sob a sombra das 谩rvores. N茫o parava de chegar gente. Trilha sonora: o t铆pico brega nordestino.

脌 beira do lago da Hidrel茅trica de Boa Esperan莽a, no rio Parna铆ba, esta pequena cidade do interior do Maranh茫o fica a mais de 500 km de dist芒ncia de S茫o Lu铆s, na fronteira com o Piau铆. 脡 uma esp茅cie de o谩sis no Cerrado, que oferece divers茫o e umidade aos nova-iorquenses e moradores de munic铆pios vizinhos que passam por ali nos finais de semana.

No pen煤ltimo domingo de julho passado, por茅m, estes descontra铆dos cidad茫os interromperam por um instante o que faziam para observar a chegada de um grupo de oito forasteiros que n茫o pareciam ter vindo para pegar praia. N茫o mesmo. Eles estavam atr谩s de f贸sseis. Procuravam os restos de uma floresta fossilizada.

O grupo 鈥渁lien铆gena鈥 era formado por cinco homens e tr锚s mulheres, todos usando chap茅u, blusa de manga comprida, cal莽a e botina. A maioria tinha pele muito clara. O mais alto carregava na m茫o um martelo e o mais magro, de cabelos longos e sotaque estrangeiro, andava na frente perguntando sobre um tal barqueiro, que sabia onde ficavam 鈥渁s pedras que parecem madeira鈥.

Mas o rapaz n茫o veio e o jeito foi esperar por uma embarca莽茫o maior, que s贸 poderia sair 脿 tarde. Um mau press谩gio rondava os pensamentos daquele que segurava o martelo. 鈥淥 n铆vel do rio est谩 muito alto. Acho que vai estar tudo debaixo d鈥櫭ua鈥, comentou.

Enquanto esperavam, os forasteiros se aboletaram no quiosque de seu Alzair, um pescador cearense, nova-iorquense de cora莽茫o e que 鈥 como se descobriria depois 鈥 gosta muito de ler. Ao saber das inten莽玫es deles, seu Alzair aproveitou para tirar uma d煤vida antiga que deixou o grupo embasbacado.

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Nanotecnologia em tamanho real

Mat茅ria publicada na Unesp Ci锚ncia de agosto de 2011.

Alardeada em suas origens como uma nova revolu莽茫o industrial, a nanotecnologia passa por momento de revis茫o de seu potencial e de redu莽茫o das expectativas, ao mesmo tempo em que cresce a preocupa莽茫o com seus impactos 脿 sa煤de e ao ambiente

Nos 煤ltimos 20 anos, a nanotecnologia conquistou um lugar de vanguarda na ci锚ncia – esse posto avan莽ado de onde se vislumbram as fronteiras do conhecimento e que naturalmente irradia tanto fasc铆nio quanto expectativa. Ao conseguir ver como a mat茅ria se organiza em escala molecular e at么mica, deparamo-nos com paisagens inusitadas, como as que ilustram esta reportagem. Mais importante que ver, por茅m, 茅 manipular o novo mundo que se mede em nan么metros (as bilion茅simas partes do metro) para tirar proveito dele.

Esses avan莽os costumam ser ostensivamente descritos como o germe de uma nova revolu莽茫o industrial, com potencial de trazer benef铆cios ilimitados para a sociedade, dos tecidos que n茫o mancham 脿 cura do c芒ncer por drogas inteligentes, passando por transforma莽玫es radicais no campo eletr么nico e energ茅tico. Tal discurso, entretanto, aparenta sinais de exaust茫o. Se de um lado v谩rias aplica莽玫es nanotecnol贸gicas j谩 podem ser compradas, de outro, suas vantagens ainda est茫o muito aqu茅m das que foram alardeadas, o que vem abrindo uma lacuna na qual se acumulam questionamentos.

Dentro da comunidade cient铆fica surgem perguntas como: As inova莽玫es nanotecnol贸gicas (veja infogr谩fico no pdf) s茫o mesmo revolucion谩rias ou somente o aperfei莽oamento de tecnologias j谩 existentes? Quantas aplica莽玫es desse tipo est茫o de fato no mercado? Os nanomateriais n茫o poderiam trazer riscos 脿 sa煤de humana? E ao ambiente? Se houver riscos, a sociedade n茫o deveria ser informada? O discurso euf贸rico sobre o potencial dessa 谩rea n茫o estaria impregnado de elementos t铆picos das narrativas de fic莽茫o cient铆fica?

Todas essas d煤vidas encaminham a nanotecnologia para a berlinda, onde, sem desqualificar os m茅ritos cient铆ficos que lhe correspondem, seus futuros passos tendem a ser reavaliados daqui para a frente. E as quest玫es mais priorit谩rias est茫o relacionadas 脿 sustentabilidade. A problem谩tica foi resumida no editorial da revista Nature Nanotechnology de junho deste ano, em edi莽茫o dedicada a uma subdivis茫o emergente desta ci锚ncia – a nanotoxicologia:

“Peixes, vermes, roedores, algas, bact茅rias e c茅lulas. Nanotubos de carbono, 贸xidos met谩licos e pontos qu芒nticos. Escolha um modelo animal da primeira lista e um nanomaterial da segunda, e haver谩 chances de voc锚 encontrar dois ou mais estudos toxicol贸gicos com resultados ligeiramente diferentes sobre o impacto dos 煤ltimos sobre os primeiros. Vinte anos de pesquisas confirmam que os nanomateriais podem apresentar toxicidade incomum e inesperada, mas o quanto n贸s aprendemos sobre as intera莽玫es desses materiais com humanos, animais e o ambiente?”. A conclus茫o dos editores 茅: a nanotoxicologia mal engatinha.

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