Estudos Liter√°rios: existimos, a que ser√° que se destina?

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. Essa semana é Tema Livre. Hoje quem escreve é Claudia Alves, escreve no Blogs Marca Páginas dos Blogs de Ciência da Unicamp.

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Sempre imagino come√ßar uma aula de Literatura perguntando aos alunos o que se estuda nas outras aulas. Matem√°tica? N√ļmeros, equa√ß√Ķes, formas geom√©tricas. Biologia? Reino animal, reino vegetal, corpo humano. Hist√≥ria? Gr√©cia, Imp√©rio Romano, Independ√™ncia do Brasil, Segunda Guerra Mundial. E ent√£o perguntar para a classe: e Literatura? Esperaria respostas como livros, escritores, hist√≥rias. Mas acho que poder√≠amos complementar e dizer ainda tudo o mais que se aprende nas outras aulas, afinal n√ļmeros, corpos e guerras, por exemplo, s√£o temas bastante recorrentes tamb√©m na Literatura.

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Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

Esse exerc√≠cio de imagina√ß√£o sempre me fez acreditar que ali naquele contexto escolar seria poss√≠vel mostrar aos alunos que, em uma aula de Literatura, podemos passar, em maior ou menor medida, pelos conte√ļdos de todas as outras disciplinas. Nesse grande guarda-chuva, n√£o haveria limites para imaginar quais temas existem e podem ser trabalhados na escola. Tudo que √© humano √© pass√≠vel de ser liter√°rio.

De alguma maneira, quando explico o que são os Estudos Literários, tento percorrer esse mesmo trajeto. Se a Literatura nos permite criar em cima de tudo o que é humano, os Estudos Literários se abrem como uma área capaz de propor os mais variados tipos de exercícios de reflexão a partir da Literatura e de seus desdobramentos.

Existimos como uma área científica, então, nessa perspectiva: produzindo os mais diferentes conhecimentos possíveis de serem pensados a partir de obras literárias e de tudo o que pode existir ao seu redor. Na prática, isso significa pensar e questionar desde o contexto histórico em que um livro foi escrito até a biografia de quem o escreveu, passando pelas mais diversas características de forma e estilo do próprio texto, ou ainda pelas teorias literárias que se constituem a partir de um conjunto de textos.

Pensemos em um grande cl√°ssico da literatura brasileira como Dom Casmurro, por exemplo, escrito no s√©culo XIX por Machado de Assis. Esse livro √© certamente uma das obras mais analisadas at√© hoje pelos Estudos Liter√°rios no Brasil e tamb√©m no exterior. E como pode tanta gente ainda ter tanta coisa a dizer sobre um texto de 200 e poucas p√°ginas? A come√ßar por sua constru√ß√£o liter√°ria, Dom Casmurro √© um dos enredos mais instigantes da hist√≥ria da Literatura. Em seu universo, √© poss√≠vel estudar desde as escolhas lingu√≠sticas operadas por Machado at√© as maneiras como os sentimentos humanos e as subjetividades das personagens s√£o constru√≠das literariamente. Por outro lado, √© tamb√©m uma representa√ß√£o muito interessante de um certo Rio de Janeiro dos anos de 1800 e em certa medida do pr√≥prio contexto brasileiro da √©poca. Al√©m disso, h√° a oportunidade de investigar a biografia de Machado de Assis e suas trajet√≥rias de leitura e reflex√£o, que ganharam novos contornos em suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Finalmente, as infinitas possibilidades que surgem das rela√ß√Ķes com outros livros, outros escritores, outros tempos e tamb√©m com outras l√≠nguas, gra√ßas √† √°rea de tradu√ß√Ķes liter√°rias. Sem esquecer, √© claro, dos di√°logos com outras Artes, como Cinema e Teatro, algo que tamb√©m tem ganhado espa√ßo nos Estudos Liter√°rios.

Com tais ideias em mente, muito se pode discutir ainda sobre os Estudos Liter√°rios em si serem ou n√£o considerados um ramo das Ci√™ncias Humanas e, consequentemente, fazerem parte dos interesses da Divulga√ß√£o Cient√≠fica. Ora, mais do que responder a essa pergunta de forma pragm√°tica, parece ser mais interessante instigar a reflex√£o cr√≠tica: por que Literatura seria ou n√£o uma Ci√™ncia? Que tipo de produ√ß√£o de conhecimento est√° atrelada a essa quest√£o ou por que essa d√ļvida √© feita de maneira mais atenuada, com menos desconfian√ßa, quando se trata de pesquisas das √°reas de exatas e biol√≥gicas? Ou ainda, a quem interessa um certo tipo de sociedade em que fazer Ci√™ncia e produzir conhecimento √© algo diretamente relacionado √† utilidade pr√°tica que tais pesquisas ter√£o, o que excluiria a princ√≠pio o tipo de pesquisa feita nos Estudos Liter√°rios?

Deixo essas d√ļvidas sem respostas porque nem eu mesma as tenho, mas fato √© que n√≥s, pesquisadoras e pesquisadores de Estudos Liter√°rios, existimos. Somos uma √°rea de pesquisa presente nas universidades, nas bibliotecas, nos institutos de pesquisa, ou seja, em inst√Ęncias institucionais de renome, onde s√£o produzidos conhecimentos. Estamos compartilhando esses espa√ßos com muita resist√™ncia, j√° que socialmente os conhecimentos produzidos pelas Ci√™ncias Humanas ainda s√£o muito desvalorizados; principalmente quando se espera das Ci√™ncias uma aplicabilidade instant√Ęnea, o que n√£o condiz com o que √© feito nos Estudos Liter√°rios. Nossa tentativa, portanto, √© n√£o sermos sufocados pela grande pergunta “mas pra que serve o que voc√™ est√° fazendo?”.

Por√©m, quando confrontada com ela, gosto de responder e, mais do que isso, de acreditar que estamos pensando e repensando as formas que o ser humano encontrou para estar no mundo, sobretudo por meio de suas mais diversas manifesta√ß√Ķes liter√°rias e lingu√≠sticas – e isso n√£o √© pouca coisa. Para mim, parece que √© um bom destino para uma √°rea de conhecimento e, em certa medida, para todas as ci√™ncias existentes. E voc√™, concorda?

 

claudiaAlvesClaudia Alves, escreve no Marca Páginas, dos Blogs de Ciência da Unicamp.

Todos os nomes*…

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Poema para Lu√≠s de Cam√Ķes
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho p√°ra,
Na figura do corpo est√° a escala do mundo.
Olho cansado as m√£os, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
S√£o as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da √ļltima raz√£o, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das est√°tuas jazentes, repousando,
N√£o mortas, n√£o geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as m√£os presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na l√°grima comum.
Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
J√° n√£o fosse este canto.

(Jos√© Saramago in ‘Provavelmente Alegria‘)

E qual designa a perda maior?

Jos√© de Sousa Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/nov/1922 – Lanzarote, Can√°rias, 18/jun/2010) escritor portugu√™s, Nobel de Literatura de 1998 e Pr√™mio Cam√Ķes de 1995.

Jos√©, do lat. Ioseph < gr. őôŌČŌÉő∑ŌÜIoseph‘ < heb. ◊ô◊ē÷Ļ◊°÷Ķ◊£ ‘Yosef’ (“ele acrescentar√°”). √Č um nome b√≠blico por excel√™ncia, embora o escritor tenha sido ateu, fiel ao seu materialismo comunista. Esp. Jos√©, fr. Joseph, ing. Joseph.

Sousa < Souza. Originalmente top√īnimos de v√°rias localidades da Pen√≠nsula Ib√©rica. Correspondente ao esp. Sosa. Algumas fontes especulam que teria origem no port. ant. sausa (“p√Ęntano salgado”) do lat. salsa, us “salgada,o”.

Saramago (√°r. ō≥ōßōĪŔÖōßŔā ‘sarmaq‘ – mas essa denomina√ß√£o em √°rabe √© aplicada para outras plantas, em especial da fam√≠lia das Amaranthaceae [1,2]), r√°bano-silvestre, nabi√ßo ou cabresto (Raphanus raphanistrum L.), esp√©cie selvagem da qual procedem os r√°banos cultivados. Esp. rabanillo, fr. ravenelle, ing. wild radish. Planta amarga a que os interioranos de Portugal se voltavam em tempos de safras magras. O pai de Jos√© Saramago chamava-se Jos√© de Sousa e – por motivos um tanto discutidos – acrescentou a alcunha de Saramago (algumas fontes dizem que se tratava de um ep√≠teto insultoso; outras, que foi uma autodenomina√ß√£o volunt√°ria). [3]

Em “Pequenas Mem√≥rias”, o nobelista descreve o registro de seu nome:
Que esse Saramago n√£o era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a fam√≠lia era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Goleg√£ o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcion√°rio (chamado ele Silvino) estava b√™bado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai) e que, sob os efeitos do √°lcool e sem que ningu√©m se tivesse apercebido da onom√°stica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lac√īnico Jos√© de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.” [Nota: em Portugal, “apelido” tem o significado de “sobrenome”; no Brasil, √© o mesmo que “alcunha”.]

E ele acrescentou o sal na amargura da vida.

Referências
[1] R.A. Blackelock. 1950. The Rustam Herbarium, ‘Iraq. Part IV.
[2] J. Aquilina. 1973. Maltese Plant Names.
[3] José Saramago. Autobiography.

*Todos os nomes, nome do romance de José Saramago de 1997.