Carolina Maria de Jesus e a polêmica sobre o que é literatura

Em abril desse ano, a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) divulgou a lista de livros para o vestibular de 2019. Entre os já canonizados Luís de Camões, Antônio Vieira e Camilo Castelo Branco, a grande novidade foi encontrar o nome da escritora Carolina Maria de Jesus e seu livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada (1960) entre as leituras obrigatórias.

Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977)

Entre tantos livros escritos por homens e já conhecidos pelos vestibulandos, essa foi a primeira vez que a obra de uma mulher negra apareceu na lista da Unicamp. Há muito o que comemorar quando uma mudança como essa acontece em um dos maiores vestibulares do país: aos poucos, mais vozes começam a contar histórias que já conhecemos, mas que nos foram sempre contadas pelas mesmas perspectivas.

O fato dos candidatos ao vestibular terem que se preparar para a prova de literatura lendo uma obra que muitos nem sequer conheciam gera uma reação em cadeia muito interessante. Mais pessoas começam a ler Carolina de Jesus nas escolas e cursinhos, logo, mais pessoas têm contato com um universo literário distante dos padrões que já conhecemos. Não estamos habituados a ler escritoras mulheres, muito menos mulheres negras e pobres. Ao inserir essa escolha no vestibular, a Unicamp acaba por apresentar essa leitura a estudantes de todo o país, os quais precisarão pensar, discutir, refletir sobre isso. Não é pouca coisa.

Capa – Quarto de Despejo

É importante conhecer as particularidades desse livro. Quarto de despejo foi lançado em 1960 e descreve o cotidiano de Carolina de Jesus na favela do Canindé, em São Paulo, entre os anos de  1955 e 1960. De maneira bastante realista e impactante, a escritora relata em uma espécie de diário as dificuldades de viver em um barraco sem saneamento e condições básicas para criar seus filhos. Para sobreviver, catava papel e ferro pelas ruas da cidade e os trocava por dinheiro e comida. Nem sempre era suficiente, e em muitos momentos Carolina descreve a fome que sentia. Só a partir de sua descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que seus livros foram publicados, venderam milhares de exemplares e passaram a ser traduzidos para diversas línguas.

Recentemente, em um evento da Academia Carioca de Letras em homenagem à escritora,  o estatuto de obra literária atribuído a Quarto de despejo foi questionado. E muito se falou sobre o assunto nos últimos tempos. Parece que estamos diante de uma pergunta incômoda, que tantos tentam responder, mas poucos chegam de fato a uma conclusão: o que é literatura?

Para a crítica literária e professora Marisa Lajolo, esse tipo de embate já apareceu outras vezes em nossa história e recorrentemente ressurge. Seria o mesmo caso dos estudos literários que se dedicaram às letras das canções de Chico Buarque, por exemplo, ou o mesmo questionamento que houve quando Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura. Para a estudiosa, essa questão mostra que o conceito de literatura precisa se relativizar e se reinventar à medida que novos tempos e novas demandas surgem: “o conceito de literatura – felizmente! – alarga-se”.

E, felizmente, os estudos literários também se renovam. Hoje, existem diversas pesquisas interessadas em compreender as condições de produção e os efeitos produzidos pelas obras de Carolina Maria de Jesus. Sua repercussão também lhe garantiu 8 livros publicados e traduções em mais de 10 línguas. Carolina tem sido lida cada vez por mais pessoas, de origens diversificadas, o que gera reflexões cada vez mais democráticas sobre o que é literatura e o que pode pertencer ao cânone literário de língua portuguesa.

Motivada por essa nova onda de leituras, a Banca de elaboração do vestibular Unicamp toma uma atitude que começa a mudar os rumos da literatura brasileira. Como já disse, não estamos habituados a ler escritoras negras, mas essa situação começa a mudar. E a Unicamp e a sociedade brasileira como um todo só tem a ganhar com isso.

 

 

 

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