Algumas ponderações sobre a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística do IEL, por Lucas Michelani

Daqui a algumas semanas, o blog Marca Páginas completa um ano de existência. Durante esse tempo, fiz (e continuo fazendo) um esforço contínuo para reavaliar os rumos temáticos e ideológicos que me guiam por essa experiência. O que significa, de fato, levar adiante um blog sobre divulgação científica de estudos literários? Quais espaços posso ocupar, dentro e fora da universidade, com essa tentativa? Quais redes de cooperação tem sido possível estabelecer? Com quem tenho dialogado? Esse debate (que, para mim, não é óbvio em nenhuma dessas esferas) me coloca questões recorrentes sobre literatura, academia e ciência, e quais pontes podem ou não ser construídas para se passar de um lugar a outro. A ideia tem sido prosseguir com esse método baseado em tentativa e erro. Já obtive muitos retornos (nem sempre totalmente positivos, diga-se de passagem) que me ajudaram a reconhecer os alcances dessa iniciativa. Fazendo um balanço, acredito ainda nesse percurso errante, nesse jeito de ir tateando aos poucos os caminhos, para então definir (e redefinir, sempre que necessário) quais são as pretensões desse projeto. Muita gente tem ajudado e só posso agradecer a colaboração de todos, tanto dos que aqui publicaram seus textos, quanto daqueles que me procuraram fosse para elogiar, criticar ou fazer a ideia crescer. E o espaço continua aberto para quem, como eu, estiver disposto a descobrir novas formas de expandir o que muitas vezes fica enclausurado nas estantes das bibliotecas ou entre as 4 paredes das salas das universidades. Tudo pode integrar e enriquecer esse experimento que, assim como nas pesquisas acadêmicas, não sei exatamente onde vai dar, mas que continua valendo a pena pelo percurso até lá.

Mantendo essa perspectiva e seguindo o objetivo de democraticamente abrir espaços e criar diálogos com o que existe dentro e fora da academia, o post de hoje é uma contribuição de Lucas Michelani, aluno do curso de Estudos Literários, na Unicamp. Lucas integra a comissão organizadora de um dos eventos mais legais e acessíveis que acontece no IEL-Unicamp, a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística, SELLL. A iniciativa se baseia na intenção de unir os 3 cursos do instituto para conversar sobre temas comuns a essas áreas interessadas em pensar a linguagem e suas múltiplas formas de expressão. Apesar de ser uma semana acadêmica (ou seja, de estar inserida nos círculos comuns à academia, o que envolve pesquisas acadêmicas, palestrantes que são muitas vezes professores acadêmicos e ter um público majoritariamente acadêmico), os objetivos pretendidos pela organização do evento têm passado por reformulações que procuram diminuir os isolamentos que esse mesmo círculo cria. Obrigada por dividir com o Marca Páginas sua reflexão, Lucas! Que sejamos sempre estimulados a repensar e reavaliar onde estamos no mundo, e que diante desse tipo de atitude crítica seja sempre possível crescer e compartilhar nossos conhecimentos e nossas experiências com mais gente.

Algumas ponderações sobre a Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística do IEL

Lucas Michelani

Há três anos, no grupo de Facebook do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), vi uma chamada para fazer parte da Comissão Organizadora da Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística (SELLL). Eu havia acabado de sair de uma experiência como assistente de produção de um festival internacional de teatro, e estava procurando um projeto cultural na minha área. Decidi aparecer para a reunião. Havia bastante gente, estudantes novos, como eu, procurando se engajar em algo que não fosse apenas as leituras para as aulas. Chamamos pesquisadores de dentro e fora do Instituto em um evento que duraria uma semana inteira. Chegada a hora, era difícil convencer os professores a suspenderem suas aulas para prestigiar as palestras. Alguns estudantes saíam da classe, outros permaneciam, retidos pelo medo de perderem o conteúdo. Lembro uma das palestras, sentado na plateia; a palestrante falava sobre Peirce e eu pensava que aquilo era muito interessante, mas ao mesmo tempo muito rebuscado e abstrato.

Logotipo por Fernanda Ferreira

No ano seguinte, decidimos mudar os rumos. Entendemos que o evento deveria ser uma ponte entre o conhecimento teórico adquirido em sala de aula e sua aplicação prática no cotidiano dos estudantes. Institucionalizamos o evento como parte da Semana Acadêmica do IEL, período em que as aulas são suspensas para que alunos e alunas pudessem prestigiar os eventos da graduação e da pós (como o Seminário de Pesquisas na Graduação-SEPEG e o Seminário de Teses em Andamento-SETA). Criamos sessões de debate em ambientes externos do Instituto para que as pessoas se sentissem mais confortáveis para expor suas ideias. Mantivemos as palestras trazendo temas que dialogassem com as três áreas, para que todas e todos pudessem compreender os assuntos ali tratados.

Tenho a impressão de que, quando se entra na universidade, há a possibilidade da carreira acadêmica em que cada etapa (mestrado, doutorado, pós-doutorado) te leva a estudar mais a fundo um único tema. E isso não é de todo ruim. É importante que pesquisadores se dediquem integralmente a um assunto para entendê-lo e conhecê-lo melhor. O problema se encontra quando falar sobre esse tema se torna muito abstrato e rebuscado.

Realizar um evento dentro da universidade já é, por si só, uma barreira física e intelectual. Não apenas pelo posicionamento do campus em um distrito, longe da cidade, mas também em relação ao conteúdo das pesquisas apresentadas. Mesmo entre os estudantes, são poucos os que parecem despertar do torpor do ritmo acadêmico – aulas, leituras e trabalhos. Sem contar o engessamento de docentes que só possuem interesse caso aquilo acrescente algo em seu currículo Lattes.

Um dos melhores comentários que recebi no evento de 2017 foi o de uma participante que disse: “não interpretem como ofensa, mas o evento de vocês nem parece um evento acadêmico”. Não ter o aspecto de um evento acadêmico não é ofensa, é elogio. É ressignificar o conhecimento, é mostrar que a academia, a pesquisa, os estudos não precisam ser chatos, enfadonhos, entediantes. Afinal, estamos falando sobre linguagem, e a linguagem permeia tudo.

Algumas simples medidas contribuem para tornar um evento acadêmico menos sisudo. Como qualquer outro evento cultural, procurar fisgar o interesse através de outros meios como a divulgação e a arte gráfica. As pesquisas dos próprios alunos são fundamentais, a fim de serem ouvidos e de mostrarem com o que se importam ou como (re)pensam a própria cultura acadêmica. Trazer para perto e esmiuçar questões teóricas para mostrar que podem sim fazer parte de nossa rotina.

Pesquisando em arquivos do centro acadêmico, encontrei alguns DVDs que mostram, por uma câmera gravada na mão, palestras, saraus e momentos de descontração entre os estudantes. Há também outros registros de que a SELL (ainda com dois L’s, por não existir o curso de Estudos Literários) ocorre desde 1989. Me questiono como um evento tão antigo demorou tanto para se enraizar enquanto uma cultura no IEL. Talvez seja esse torpor, talvez seja a indiferença, ou pior, o esquecimento.

O tempo de uma graduação é de memória curta. As questões de uma geração de alunos pode não ser a da geração seguinte. É preciso mostrar que tudo bem não parecer um evento acadêmico. Mais do que um evento, a SELLL se tornou um espaço para o diálogo, para provocar e ser provocado, para ultrapassar as fronteiras acadêmicas e mostrar que é possível ter uma boa conversa sobre linguagem, com qualquer um.

Para mais informações sobre a SELLL: http://www2.iel.unicamp.br/selll/; https://www.facebook.com/semana.iel/ e Instagram @selll_iel

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