#tevegolpe, e j√° faz tempo

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OS JORNAIS COME√áAM a inventariar as causas do vergonhoso colapso do governo Dilma e tentam identificar em que ponto a administra√ß√£o da petista come√ßou a fazer √°gua. Ser√° que foi na reelei√ß√£o? Ou nos protestos de junho de 2013? No c√Ęncer de Lula, que deixou Dilma sem supervis√£o de adultos e livre para barbarizar no governo? Ou na tentativa do PT de dar um toco em Eduardo Cunha com a indica√ß√£o de Arlindo Chinaglia para presidir a C√Ęmara? Incrivelmente ausente da narrativa que se desenha para o impeachment est√° a primeira grande derrota legislativa de Dilma, um momento que diz muito sobre a compuls√£o da quase-ex-presidente por perder oportunidades: a aprova√ß√£o do novo C√≥digo Florestal.

Em 2011, o governo rec√©m-eleito tentava costurar com sua sabidamente ruralista base aliada uma solu√ß√£o para a proposta do novo c√≥digo. No ano anterior, o c√©lebre parecer de Aldo Rebelo (PCdoB) fora aprovado por uma comiss√£o especial talhada pelo PMDB e de maioria ruralista. Dilma contava com seu vice, Michel Temer, para segurar os √Ęnimos do partido e evitar um desgaste logo no in√≠cio do governo.

Mas Temer sabia desde sempre com quem estava sua fidelidade: com os deputados a quem ele prometera o c√©u, meu bem, e seu amor tamb√©m, em troca do apoio dado quando era presidente da C√Ęmara – posi√ß√£o que o catapultou para o Jaburu. Em maio daquele ano, Temer viajou em miss√£o oficial √† R√ļssia e levou junto o l√≠der do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). Voltaram de l√° com a infame emenda 164, de autoria do √ľber-ruralista Paulo Piau (PMDB-MG), que anistiava toda e qualquer recupera√ß√£o de √°reas de preserva√ß√£o permanente. O texto foi aprovado no plen√°rio da C√Ęmara por acachapantes 273 votos a 182. A “base aliada” de Dilma, formada numa ampla “coaliz√£o”, come√ßava a dizer a que viera. Ainda zonza, no final de uma reuni√£o de gabinete para decidir o que fazer depois da traulitada, Dilma desabafou com um dos presentes: “Fomos tra√≠dos pelo Michel”.

Diante desse diagn√≥stico preciso, Dilma fez o que fazia sempre que confrontada com uma falha em seu esquema: dobrou a aposta. Resolveu negociar uma redu√ß√£o de danos na C√Ęmara e mobilizou as tropas que ainda tinha no Senado para produzir um texto de C√≥digo Florestal pr√≥prio, negociado linha a linha com a bancada ruralista. De repente, a revis√£o do c√≥digo, um projeto do PMDB ruralista e cuja pr√≥pria origem era “n√£o merit√≥ria”, como admitiu um senador governista, virava um projeto do governo, com direito a mexidas sugeridas ao texto pela pr√≥pria presidente. Dilma reagiu √† “trai√ß√£o do Michel” como como a mulher tra√≠da que reage ao adult√©rio chamando a amante para morar em sua casa.

Como viraria regra no seu governo, o movimento desagradou a todos: Dilma perdeu ali a chance de acenar aos eleitores de Marina Silva, que pediam veto total √† sandice da nova lei. Alijou a esquerda do PT e a Contag, a confedera√ß√£o da pequena agricultura, que assistiam com revolta latente √† camarada presidenta virar BFF da rainha do latif√ļndio e mentora do C√≥digo, K√°tia Abreu. Deu uma banana √† comunidade cient√≠fica, que provou por A mais B por que n√£o era necess√°rio mexer na lei. E, por √≥bvio, n√£o saciou o apetite dos ruralistas, que passaram a exigir mais flexibiliza√ß√Ķes e votaram en masse pelo impeachment daquela que lhes deu tanto. Ah, a pol√≠tica, essa ingrata.

Mas Dilma soube dar o troco nessa cambada de filhos da puta turma, n√©? Sen√£o vejamos: Aldo Rebelo, o traidor original, que fez um relat√≥rio sob encomenda do PMDB por m√°goa contra o PT e favores devidos a Temer, teve o castigo que mereceu: virou ministro do Esporte, depois da Ci√™ncia (!) e, por fim, da Defesa. K√°tia Abreu, que no meio da negocia√ß√£o fora flagrada pelo jornal O Globo dizendo “Dilm√£o concordou com tudo”, virou ministra da Agricultura, confidente e afilhada de casamento. Michel Temer ganhou a articula√ß√£o pol√≠tica. E, de fato, articulou politicamente, mas n√£o exatamente como Dilma queria. O governo restaurou o passivo de imagem deixado pelo C√≥digo Florestal a golpes de Jo√£o Santana: a propaganda na campanha de reelei√ß√£o dizia que a “Cora√ß√£o Valente” havia pacificado o campo, ou algo assim. As a√ß√Ķes de inconstitucionalidade correm hoje no Supremo provam o contr√°rio. E a confus√£o criada pela condu√ß√£o pol√≠tica dilmista da lei de florestas ficar√° como um dos testamentos de seu governo.

Li√ß√Ķes aprendidas? Sei l√°. Obviamente Dilma n√£o caiu por causa do C√≥digo Florestal. Mas o epis√≥dio, ocorrido a partir dos primeiros meses de seu governo, j√° trazia todos os elementos de instabilidade que culminaram no 17 de abril. Com um elemento a mais, que tampouco teve papel pequeno nos cinco anos seguintes do desastre dilmista: o voluntarismo da presidente. As profundas convic√ß√Ķes antiambientalistas de Dilma impediram que ela enxergasse no veto ao C√≥digo Florestal e na proposi√ß√£o de uma alternativa (como vinha sendo negociada desde 2008 pelo ent√£o ministro Carlos Minc com os pequenos agricultores) a oportunidade de escolher um lado e de fazer de fato uma op√ß√£o √† esquerda. Provavelmente achou que estivesse fazendo a coisa certa, a op√ß√£o pelo “progresso”, pela “justi√ßa social” e pela “competitividade” do agroneg√≥cio, contra as “ONGs estrangeiras” e a “Marina Silva”. Meio de ladinho, ficou com os ruralistas, pingando a primeira gota de sangue no tanque dos tubar√Ķes.

Famosa por achar que sabia mais sobre tudo do que todo mundo, Dilma Rousseff recusou-se a aprender com o episódio sobre como se relacionar com o PMDB. Colheu o que plantou.

 

 

Atualizado ap√≥s vota√ß√£o do impeachment na C√Ęmara

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