“Ambientalista” do STF libera Belo Monte

ALEGRIA DE POBRE e índio dura pouco. Depois de uma semana de interrupção por decisão do TRF de Brasília, a hidrelétrica de Belo Monte ganhou ontem à noite mais uma liminar permitindo sua continuação. Desta vez, quem assina a ordem é o ministro Ayres Britto, tido e havido como o maior ambientalista do Supremo e com um histórico de proteção a direitos coletivos e difusos.

Antes de xingar Ayres Britto, lembre-se de suas posi√ß√Ķes tradicionalmente progressistas, da anencefalia √†s c√©lulas-tronco √† uni√£o homoafetiva, e de seu voto hist√≥rico a favor dos √≠ndios no julgamento de Raposa-Serra do Sol. Lembrou? Pronto, pode xingar agora.

O presidente do STF deferiu um pedido da Advocacia-Geral da Uni√£o pela continuidade da obra por julgar que o TRF descumpriu decis√£o do Supremo ao embarg√°-la. O objeto da pendenga √© uma a√ß√£o movida pelo Minist√©rio P√ļblico do Par√° em 2005, que pede a nulidade do licenciamento de Belo Monte por considerar que os √≠ndios deveriam ser ouvidos pelo Congresso Nacional antes de o Ibama conceder qualquer licen√ßa.

Para ningu√©m achar que os procuradores est√£o ca√ßando pelo em ovo, o que o MPF de fato faz com frequ√™ncia, a necessidade de oitiva dos √≠ndios foi apontada pela pr√≥pria Funai no parecer t√©cnico que atesta a viabilidade da obra — desde que cumpridas certas condicionantes. Ou seja, havia (e h√°) uma demada real por parte das comunidades afetadas.

Ao se pronunciar em favor da obra, a ent√£o presidente do STF, Helen Ellen Gracie, concordou que havia problemas jur√≠dicos, mas em nome da “ordem econ√īmica” mandou seguir com a barragem at√© que se julgasse o m√©rito. O MP recorreu, entrou com nova a√ß√£o no TRF, perdeu ap√≥s um julgamento esquisito, recorreu de novo, ganhou, a AGU chiou. Agora, Ayres Britto emula Ellen Gracie e manda seguir com Belo Monte at√© que se julgue o m√©rito da a√ß√£o do MP.

Antes que você xingue o poeta sergipano de novo, lembro que ele agiu da mesma forma com Raposa: mandou suspender a operação da PF que tirava os arrozeiros da terra indígena e, no mérito, decidiu contra os arrozeiros.

A diferen√ßa, aqui, √© que Belo Monte ser√° um fato consumado quando se julgar o m√©rito. Depois de constru√≠da a usina e empatados R$ 23 bilh√Ķes, quem √© o ministro do Supremo que vai dizer que o licenciamento foi ilegal? Ayres n√£o ser√°, j√° que ele se aposenta em dois meses. V√£o deixar na m√£o do ex-AGU T√≥ffoli?

 

√Ārtico j√° tem o maior degelo ha hist√≥ria

A desgra√ßa em tempo real: a linha azul mostra a extens√£o de gelo marinho (√°rea so oceano com pelo menos 15% de mar congelado) no √Ārtico medida em 2012 (cr√©dito: NSIDC)

QUANDO A REP√ďRTER Aline Ribeiro, da revista √Čpoca, publicou dois domingos atr√°s um infogr√°fico profetizando que a perda de gelo no Oceano √Ārtico em 2012 seria maior que em 2007, segundo an√°lise da Universidade de Illinois, achei que ela estava fazendo uma aposta correta, por√©m arriscada: a esta√ß√£o de degelo vai at√© meados de setembro, e n√£o importa onde esteja a curva de derretimento em agosto, ela pode mudar de dire√ß√£o muito depressa. Eu estava no Oceano √Ārtico em agosto do ano passado, a 950 km do polo Norte, e todos esperavam que a extens√£o m√≠nima em setembro fosse ficar menor que em 2007, mas na √ļltima semana de degelo as condi√ß√Ķes meteorol√≥gicas mudaram e um peda√ßo de mar recongelou (embora a espessura de gelo estimada tenha sido a menor da hist√≥ria at√© ent√£o).

Pois bem: as d√ļvidas acabaram. O Centro Nacional de Ci√™ncia e Tecnologia da Criosfera, em Porto Alegre, acaba de divulgar que a superf√≠cie de gelo marinho em 2012 j√° √© a menor desde que as medi√ß√Ķes co sat√©lite come√ßaram, em 1979. E isso com mais 20 dias de degelo pela frente. O Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve dos EUA, uma esp√©cie de Inpe polar que d√° a “taxa oficial”de degelo todo ano, ainda n√£o soltou nenhum comunicado √† imprensa. Mas o que circula entre os glaciologistas desde s√°bado √© que ningu√©m acredita mais que varia√ß√Ķes meteorol√≥gicas possam reverter a situa√ß√£o.

Ent√£o temos a√≠ mais um item para a listinha do apocalipse, somando-se √† onda de calor no hemisf√©rio Norte, √† seca recorde nos EUA que levou para as picas o pre√ßo do milho, √† seca no Nordeste do Brasil, √† cheia recorde na Amaz√īnia que se seguiu a uma seca recorde em 2010, que por sua vez aconteceu ao mesmo tempo que a seca recorde na R√ļssia que tamb√©m levou para as picas o pre√ßo dos gr√£os.

De que evidência mais essas pessoas precisam?

Ele quer salvar o √Ārtico (mas precisa combinar com os esquim√≥s)

TODA VEZ que os aldorrebelos da vida xingam o Greenpeace de ‚ÄúONG holandesa‚ÄĚ eu dou uma risadinha por dentro e penso em Kumi Naidoo. O diretor-executivo da organiza√ß√£o, uma das duas pessoas que mais mandam nela (a outra, pasmem, √© uma carioca), √© um neg√£o* sul-africano do tamanho de um urso, dono de uma cole√ß√£o de batiques e de nenhum barbeador, que foi membro do Congresso Nacional Africano e lutou contra o Apartheid ao lado de Jacob Zuma. √Č dif√≠cil imaginar algu√©m menos holand√™s neste mundo, e f√°cil imaginar o quanto Kumi deve perturbar os brancos de papete do Greenpeace com seu discurso de erradica√ß√£o da pobreza e inclus√£o social.

Neste momento, Kumi est√° numa briga de foice contra a Shell, a multinacional ‚Äď esta sim, holandesa ‚Äď que se prepara para furar seu primeiro po√ßo de petr√≥leo no oceano √Ārtico, numa regi√£o do litoral do Alasca que at√© alguns anos atr√°s era coberta de gelo marinho a maior parte do ano e n√£o √© mais gra√ßas ao petr√≥leo que a Shell, entre outras empresas, vende por a√≠ para que eu, voc√™ e todos os nossos amigos possamos andar de carro. √Č o que Mill√īr Fernandes chamaria de ‚Äúuma coisa redonda‚ÄĚ, e que os cientistas preferem chamar pelo nome mais antip√°tico de retroalimenta√ß√£o positiva: a queima de hidrocarbonetos esquenta o planeta, o que derrete o √Ārtico, o que abre novas √°reas para a explora√ß√£o de mais hidrocarbonetos, o que esquentar√° mais o planeta e derreter√° mais o √Ārtico. O Greenpeace est√° tentando impedir que a Shell se lance em sua aventura polar, queimando o filme da empresa (√†s vezes de forma bem engra√ßada) com seus consumidores e acionistas, como se donos de carro tivessem escolha e algum acionista de empresa de petr√≥leo fosse contra a explora√ß√£o de petr√≥leo.

A a√ß√£o faz parte de uma campanha maior do Greenpeace para salvar o √Ārtico, que Kumi lan√ßou em junho durante a Rio +20 (vou te dar uns minutos para se lembrar dessa confer√™ncia) numa entrevista coletiva com o dono da Virgin, Richard Branson, e a atriz Lucy Lawless, AKA Xena, a Princesa Guerreira (que aos 50 ainda bate um bol√£o). O objetivo √© mobilizar a opini√£o p√ļblica para transformar o chamado Alto √Ārtico, a √°rea do oceano glacial ainda coberta por gelo marinho, numa √°rea protegida internacional, livre de pesca, extra√ß√£o de √≥leo e outras atividades econ√īmicas.

Para quem acha que isso √© del√≠rio de hippies, permita-me lembrar que h√° um precedente: em 1991, um continente inteiro, a Ant√°rtida, foi declarado √°rea de prote√ß√£o ambiental, e todas as atividades econ√īmicas propostas ali, congeladas por 50 anos. No √Ārtico o buraco √© mais embaixo (ou em cima), claro, porque a maior parte da regi√£o est√° sob jurisdi√ß√£o de meia d√ļzia de pa√≠ses (EUA, Canad√°, R√ļssia, Noruega, Dinamarca), e ningu√©m, em especial os russos, que dia desses tentaram tomar posse do fundo do mar do Polo Norte, abre m√£o de sua soberania. Mas a extrema fragilidade do ambiente √°rtico, seu papel na regula√ß√£o do clima da Terra, sua fauna carism√°tica (que vai do delicioso bacalhau ao tristonho papagaio-do-mar, do urso polar √† beluga) e uma beleza que s√≥ quem j√° teve o privil√©gio de ir para l√° consegue apreender, mais do que justificam a tentativa.

Num momento em que o movimento ambientalista mergulha em seu per√≠odo de maior irrelev√Ęncia em 40 anos ‚Äď tendo salvo as baleias, a Amaz√īnia e contado com uma ajudinha de um tsunami e a incompet√™ncia dos engenheiros japoneses para salvar o mundo da energia nuclear ‚Äď, o √Ārtico √© a pen√ļltima causa na qual grupos de press√£o como o Greenpeace podem fazer alguma diferen√ßa (a √ļltima s√£o os oceanos al√©m de jurisdi√ß√Ķes nacionais, tema sobre o qual o GP estranhamente n√£o faz esc√Ęndalo).

O diabo √© como Kumi e seus greenpeacers far√£o isso sem serem acusados, com justi√ßa, de agir como uma ‚ÄúONG holandesa‚ÄĚ. No ano passado, meu amigo colecionador de batiques foi preso com Lawless (‚Äúlawless‚ÄĚ presa, sacou?) e outros ativistas ap√≥s tentarem escalar uma plataforma da Cairn Energy, uma empresa escocesa que fazia perfura√ß√Ķes explorat√≥rias na Ba√≠a de Baffin, entre a Groenl√Ęndia e o Canad√°. O Greenpeace argumenta, com raz√£o, que vazamentos de √≥leo naquela regi√£o produziriam desastres de grandes propor√ß√Ķes, inclusive para o modo de vida tradicional inu√≠te, j√° que os 56 mil groenlandeses vivem basicamente daquilo que o mar lhes fornece.

Acontece que os groenlandeses est√£o babando pelo dinheiro do petr√≥leo, e todos com quem eu conversei que falavam alguma coisa de ingl√™s compartilhavam uma raiva imensa do Greenpeace. Afinal, raciocinam, quem esses caras pensam que s√£o para dizerem que n√≥s precisamos viver de pescar camar√£o e ca√ßar foca para o resto da vida? Com que direito eles negam √†s popula√ß√Ķes do √Ārtico uma op√ß√£o de desenvolvimento econ√īmico e n√£o fazem a mesma coisa, digamos, com a Statoil no Mar do Norte?

Fiz essa pergunta a Kumi da √ļltima vez que nos encontramos, no Rio. Sua resposta: “n√≥s somos contra qualquer explora√ß√£o de petr√≥leo”. OK, legal, eu tamb√©m, mas isso n√£o responde √† pergunta. Para ser justo, n√£o √© s√≥ gente morena que sofre bullying do Greenpeace por causa de petr√≥leo: os brancos de olhos azuis das areias betuminosas do Canad√° tamb√©m apanham. Mas insisto: por que dois pesos e duas medidas com a Groenl√Ęndia e o Mar do Norte? Claro, os esquim√≥s, como os brasileiros, podem se beneficiar do dinheiro do petr√≥leo da maneira norueguesa (usando a riqueza para se desenvolver de forma sustent√°vel) ou da maneira venezuelana. Mas a decis√£o tem de ser deles. Os americanos continuar√£o dirigindo SUVs mesmo que n√£o saia uma gota de √≥leo do √Ārtico (de fato, a maior parte do √≥leo americano nas pr√≥ximas d√©cadas sair√° dos pr√≥prios EUA continentais, durma com este barulho). O Greenpeace sabe disso.

√Ä parte o problema groenland√™s, mais ao sul, transformar o Alto Oceano √Ārtico num santu√°rio parece uma ideia fact√≠vel, at√© porque o mundo n√£o precisa do petr√≥leo extra que possa ser descoberto por l√° (em parte, gra√ßas ao pr√©-sal, o que pode produzir o efeito curioso de Lula dizer daqui a um tempo que salvou o √Ārtico). Isso, por√©m, n√£o vai eliminar a maior amea√ßa ambiental √† regi√£o: a mudan√ßa clim√°tica. Segundo dados do National Snow and Ice Data Center, dos EUA, que acompanha em tempo real a cobertura de gelo marinho, 2012 bater√° 2007 como o ano de maior perda de gelo no polo Norte. Nem o neg√£o do Greenpeace pode impedir isso.

PS:¬†Juro que n√£o combinei nada com ele, mas enquanto eu escrevia este post, ontem √† noite, Kumi Naidoo escalava a Prirazlomnaya, a primeira plataforma de petr√≥leo do mundo constru√≠da especialmente para resistir ao gelo marinho, que a petroleira russa Gazprom instalou no Oceano √Ārtico, no Mar de Pechora. Leia aqui o blog de Kumi sobre a a√ß√£o.

 

* Kumi nasceu em Durban e √© de fam√≠lia indiana, mas os sul-africanos dividem a si mesmos em “brancos” e “pretos”, e os indianos se colocam na segunda categoria.

Como o g√°s natural derrubou as emiss√Ķes dos EUA. E por que n√£o d√° pra confiar demais nele

Plataforma da Cabot Oil and Gas em Springville, PA

A MAIOR revolu√ß√£o energ√©tica do s√©culo 21 n√£o foi planejada. Ela est√° acontecendo longe dos centros de pesquisa avan√ßada e mais longe ainda da mesa de negocia√ß√Ķes de clima das Na√ß√Ķes Unidas. Seu palco √© um cu-de-mundo chamado Susquehana, um condado de estradas de terra e caipiras tementes a Deus na divisa entre os Estados da Pensilv√Ęnia e de Nova York, nos EUA.

Desde 2007, essa regi√£o tem sido palco de uma febre de explora√ß√£o de g√°s natural, estocado a 800 m abaixo da superf√≠cie numa camada de rochas conhecida como folhelho Marcellus, ou Marcellus shale, em ingl√™s. Trata-se de um antigo mar raso que se estendia por um ter√ßo de Nova York, metade da Pensilv√Ęnia e ia at√© o atual Ohio, conhecido hoje pelo singelo apelido de “Ar√°bia Saudita do g√°s”. O Marcellus √© uma das forma√ß√Ķes onde a ind√ļstria dos hidrocarbonetos americana tem aplicado uma t√©cnica conhecida como fraturamento hidr√°ulico, ou “fracking”, que permite acessar √≥leo e g√°s em forma√ß√Ķes rochosas n√£o-convencionais.

A t√©cnica foi criada por um texano teimoso chamado George Mitchell, em 1999. Mitchell j√° sabia que folhelhos continham muito g√°s, mas ningu√©m at√© ent√£o sabia como extra√≠-lo, j√° que ele fica preso em fendas min√ļsculas na rocha. Disposto a abrir a fechadura dos folhelhos, Mitchell passou 20 anos testando maneiras de reativar as fendas ricas e g√°s. J√° estava quase falido quando descobriu a f√≥rmula: √°gua, areia e qu√≠micos surfactantes injetados a alta press√£o em po√ßos horizontais de quil√īmetros de extens√£o.

O sucesso do “fracking” foi t√£o estrondoso e t√£o r√°pido que passou longe do radar dos analistas de clima e energia e do IPCC. Em cinco anos, derrubou o pre√ßo do g√°s natural nos EUA de US$ 15 o milh√£o de BTUs para US$ 2 (no come√ßo deste ano). O pa√≠s, que preparava o retrofit de v√°rios portos para importar g√°s liquefeito do Qatar, hoje estuda um novo retrofit desses mesmos portos para exportar g√°s da Pensilv√Ęnia e do Texas a partir de 2014. E tudo isso considerando que Nova York, que abriga a fatia do le√£o das jazidas do Marcellus, ainda tem uma morat√≥ria ao “fracking” em vigor.

Outra maneira de medir o sucesso do fraturamento hidr√°ulico √© seu impacto nas emiss√Ķes dos EUA. O g√°s barato tem desestimulado as termel√©tricas a carv√£o, e o presidente Barack Obama resolveu surfar nesta onda e baixar, no come√ßo do ano, uma regula√ß√£o da EPA (Ag√™ncia de Prote√ß√£o Ambiental) limitando as emiss√Ķes das usinas a carv√£o. Aqui entra a genialidade pol√≠tica de Obama, faturando em cima de algo que j√° estava mais ou menos no script. A participa√ß√£o do carv√£o na matriz energ√©tica caiu de 51% em 2005 para 43% em 2011, e a de g√°s subiu no mesmo per√≠odo de 14% para 24% , segundo um relat√≥rio da Ag√™ncia de Informa√ß√£o sobre Energia dos EUA divulgado na semana passada.

Segundo me contou David Victor, professor da Universidade da Calif√≥rnia em San Diego e um dos poucos te√≥ricos das rela√ß√Ķes internacionais que levam o aquecimento global a s√©rio, de 2006 a 2011 as emiss√Ķes de CO2 dos EUA ca√≠ram em 186 milh√Ķes de toneladas. Para voc√™ ter uma ideia do que isso significa, √© como se o Brasil tivesse seguido o receitu√°rio do Greenpeace e zerado as emiss√Ķes na Amaz√īnia. √Č claro que n√£o foi s√≥ m√©rito do g√°s: tivemos tamb√©m uma crisezinha econ√īmica nos √ļltimos anos. Mas o sinal que o “fracking” manda √© poderoso, especialmente aos burocratas da Conven√ß√£o do Clima, que passaram os √ļltimos 20 anos parolando sem conseguir realizar o que os capiaus furadores de po√ßo da Pensilv√Ęnia fizeram em 5, seguindo apenas seus bolsos.

O mundo est√° salvo, ent√£o? Podemos ir embora? Mais ou menos. Como toda boa festa, a do g√°s de folhelho tamb√©m tem convidados barraqueiros. Nos EUA, eles atendem principalmente por tr√™s nomes: Tony Ingraffea, Bob Howarth e Mark Ruffalo. Os dois primeiros s√£o professores da Universidade Cornell. O √ļltimo, bem, √© um cara que fica verde e quebra tudo quando passa raiva.

Ruffalo virou ativista antifracking depois de comprar uma casa nas Catskills, montanhas id√≠licas a noroeste de Nova York de onde v√™m os rios que abastecem a metr√≥pole e que est√£o no mapa da ind√ļstria do g√°s. Howarth e Ingraffea fizeram uma s√©rie de contas e descobriram que as emiss√Ķes de sistemas de g√°s natural s√£o maiores que as do carv√£o, pelo menos nos primeiros 20 anos. Isso porque os po√ßos fraturados passam semanas “vomitando” metano juntamente com √°gua depois da perfura√ß√£o. O vazamento √© pelo menos duas vezes maior do que em po√ßos convencionais, perfurados sem √°gua. Como o metano √© muito mais¬†eficiente que o g√°s carb√īnico em reter radia√ß√£o infravermelha (e aquecer a Terra), a multiplica√ß√£o de po√ßos pode aumentar perigosamente as emiss√Ķes de metano dos EUA, a ponto de anular os ganhos com a redu√ß√£o de CO2.

Isso n√£o seria um problema no longo prazo, j√° que o metano tem tamb√©m uma vida curta na atmosfera. Acontece que os pr√≥ximos anos ser√£o cruciais para a humanidade, j√° que as emiss√Ķes globais teriam de alcan√ßar seu pico em 2020, no m√°ximo. Um tratado internacional contra o CO2 tem chance zero de dar conta dessa janela de oportunidade. Uma das maneiras de ganhar tempo, defendida pelo pr√≥prio governo dos EUA, √© cortar emiss√Ķes de fuligem e metano, que juntos respondem por 40% da eleva√ß√£o da temperatura. √Č dif√≠cil ver onde o “fracking” se encaixa nessa redu√ß√£o.

Mesmo que Howarth e Ingraffea estejam errados em seus c√°lculos, o affair do g√°s de folhelho traz dois recados importantes para a comunidade internacional: primeiro, a mudan√ßa clim√°tica n√£o ser√° combatida de cima para baixo¬†sob ausp√≠cios da¬†ONU. O g√°s da Pensilv√Ęnia √© um trunfo do modelo americano: n√£o fa√ßa nada na arena internacional e espere um “fix” tecnol√≥gico para o problema. Segundo, √©¬†arriscado p√īr todos os ovos em uma cesta s√≥: al√©m do risco de emiss√Ķes de metano, o mesmo “fracking” tamb√©m est√° sendo usado para extrair petr√≥leo no Texas e na Dakota do Norte, o que pode tamb√©m aumentar as emiss√Ķes totais de CO2 e anular o ganho com a redu√ß√£o no carv√£o mineral. Ou seja: o mercado n√£o pode ser deixado t√£o livre quanto o Partido Republicano almeja, se a ideia √© produzir algum tipo de bem comum.

R$ 113 bilh√Ķes e mais uma chance perdida

UM AMIGO ingl√™s me escreveu ontem um e-mail engra√ßado. “E a√≠, quanto disso vai para pesquisa?”, perguntou, mandando embaixo o link para uma mat√©ria do Financial Times sobre o “pacote de est√≠mulo de US$ 66 bilh√Ķes de Ms. Rousseff”. Dei uma risadinha e respondi: “Voc√™ deve estar confundindo o Brasil com a Coreia. Nosso pacote √© s√≥ para fazer estrada e ponte”. Meu amigo n√£o desistiu: “Mas, puxa, e os cientistas, n√£o est√£o reclamando? Porque todos os pa√≠ses que aprovaram pacotes de est√≠mulo √† economia inclu√≠ram um dinheir√£o para pesquisa…”

Esses ingleses são uns ingênuos, pensei. Não sei como conseguiram dominar o mundo por dois séculos. Mas depois, claro, veio a depressão. Não, nossos cientistas não estão reclamando. Talvez porque eles tenham se acostumado a NUNCA verem a pesquisa incluída na conta dos investimentos do governo. Não esperavam nada, não ganharam nada.

Por um lado, n√£o d√° para ser contra o pacote de subs√≠dio √†s privatiza√ß√Ķes da mocr…, digo, da presidenta. Conceder estradas, ferrovias, portos e aeroportos √© um grande passo na resolu√ß√£o de um (desculpem o clich√™) gargalo de infraestrutura que √© muito real no pa√≠s. Faz a iniciativa privada trabalhar e botar a m√£o no bolso. E rompe mais um pouquinho com o ide√°rio esquerdizante tosco que ainda domina alguns setores do governo.

Por outro lado, o pacote √© mais uma chance desperdi√ßada por um governo que insiste em ver ci√™ncia, tecnologia e educa√ß√£o como gasto — na contram√£o do resto do mundo, como apontou candidamente meu amigo brit√Ęnico. Uma parte muito pequena desses 113 bilh√Ķes recomporia o or√ßamento do Minist√©rio da Ci√™ncia e Tecnologia, cortado por Dilma em 22%. Com uns caramingu√°s a mais, Dilma poderia iniciar um crash-program em inova√ß√£o tecnol√≥gica — energias limpas, por exemplo, ou tecnologia espacial para a agricultura, ou biotecnologia, voc√™ escolhe — que poderia ajudar a qualificar o crescimento do pa√≠s no m√©dio-longo prazo. Com apenas US$ 400 milh√Ķes, Barack Obama fez o Arpa-e, que visa devolver os EUA √† linha de frente das tecnologias de energia. N√£o √© que falte dinheiro no Brasil: nesta semana, a Petrobras anunciou um investimento de R$ 3 BIlh√Ķes para P&D em quatro anos, com dinheiro do petr√≥leo.

Um programa como o Arpa-e no Brasil poderia turbinar setores estrat√©gicos para o nosso crescimento limpo, em linha com os compromissos que n√≥s juramos adotar na Rio +20. Mas a esta altura n√£o h√° mais ningu√©m que se lembre da Rio +20 em Bras√≠lia. O pacote de Dilma, por sua vez, √© novamente (lembrem-se do IPI zero) a ant√≠tese da sustentabilidade: ao destravar a log√≠stica, vai facilitar ainda mais o crescimento do agroneg√≥cio desmatador, que j√° est√° montado no maior pacote de cr√©dito da hist√≥ria (R$ 114 bilh√Ķes) e num C√≥digo Florestal enfraquecido. N√£o √© √† toa que as privatiza√ß√Ķes foram saudadas con gusto por K√°tia Abreu e a CNA.

E os nossos cientistas, onde est√£o que n√£o est√£o invadindo o Pal√°cio do Planalto neste momento? Ficaram t√£o acostumados assim a perder? Ou n√£o conseguem pensar em um uso para, digamos, 10% do pacote de log√≠stica de Dilma? O que voc√™s fariam com R$ 11 bilh√Ķes?

 

Código Florestal: só acaba quando termina

QUEM N√ÉO AGUENTA mais ouvir falar de C√≥digo Florestal atire o primeiro corrent√£o. Pouca gente se lembra daquele que j√° foi O assunto mais pol√™mico deste Brasil varonil, o babado do momento, the talk of town, antes do Mensal√£o e da elei√ß√£o passarem por cima at√© da CPI do Cachoeira e daquela gatinha da Andressa. Pois bem, senhoras e senhores, o c√≥digo est√° de volta, arrebatando multid√Ķes e dando v√°rios cabelos brancos √† ministra Izabella Teixeira. Hoje parlamentares da bancada do trator, maioria na comiss√£o mista que examina o texto da MP do c√≥digo, deram mais uma volta na bancada dos abra√ßadores de √°rvores e aprovaram quatro destaques que aumentam ainda mais o teor de l√°tex da j√° mui flexibiizada lei (deixo a voc√™s imaginarem o que eles v√£o fazer com tanto l√°tex). O governo jurou vingan√ßa.

Vamos recapitular: os ruralistas queriam mudar o c√≥digo porque em 2008 o maluco do Carlos Minc resolveu ter o desplante de baixar um decreto determinando que a lei (de 1965) fosse cumprida. Fez-se um relat√≥rio ruim, aprovado por uma comiss√£o de maioria ruralista. O governo chiou, porque n√£o queria anistia a desmatadores. Aprovou-se em maio do ano passado na C√Ęmara, por 410 votos, uma nova vers√£o do texto, que… bem, anistiava desmatadores. O Senado mexeu, melhorou. Voltou para a C√Ęmara. Piorou de vez. Dilma vetou parte e baixou uma MP, a 571, para recompor os buracos do veto com o texto do original do Senado. O Congresso agora aprecia a MP, numa comiss√£o formada por… ruralistas.

A comiss√£o produziu um relat√≥rio mais ou menos salom√īnico, que cedia aos ruralistas entregando um pouquinho mais de √°reas de preserva√ß√£o permanente (APPs) que deveriam ser recuperadas √† produ√ß√£o, aliviando para a esp√©cie em extin√ß√£o (mas ainda boa de lobby) dos m√©dios propriet√°rios, mas preservando a ess√™ncia do Artigo Primeiro, que evita que a lei ambiental vire uma lei rural. A√≠ veio o recesso. E a√≠ vieram os destaques. Mais de 300 deles. Quase todos de ruralistas, e quase todos para enfraquecer a lei.

Centenas de destaques foram derrubados em bloco. Sobraram 37. Quatro foram aprovados hoje. O mais grave deles √© o que acaba com a necessidade de APP para cursos d’√°gua intermitentes, ou seja, para rios que secam em parte do ano. Oi? Mas… e os rios do Nordeste, n√£o s√£o quase todos intermitentes? Sim. E o Nordeste n√£o atravessa hoje sua pior seca em mais de tr√™s d√©cadas? Hm, sim. E falta de mata ciliar n√£o ajuda a secar rio? Sim! Mas n√£o √© um esc√°rnio o Congresso Nacional aprovar uma coisa dessas? Sim.

O governo tamb√©m achou, pelo visto, e segundo me informou uma fonte com bom tr√Ęnsito no Planalto, parou de negociar. A continua√ß√£o da vota√ß√£o dos destaques, marcada para ocorrer na manh√£ desta quinta, teria sido suspensa ontem at√© 28 de agosto. Aparentemente o governo quer trucar (mais uma vez) os ruralistas e devolver o teor do texto votado na comiss√£o. Sen√£o…

Pois √©: sen√£o o qu√™? O governo j√° provou que n√£o tem n√ļmeros e que n√£o controla a base nesta mat√©ria. Dilma vai fazer o veto do veto? Pode ser. A√≠ o veto do veto vai voltar para aprecia√ß√£o pelo Congresso ruralista. A√≠ vem o veto do veto do veto, e enquanto isso ningu√©m paga multa, ninguem recomp√Ķe floresta e tudo fica exatamente como na teoria da Rainha Vermelha, mudando para n√£o sair do lugar.

Precisava tanto drama para isso?

A Groenl√Ęndia est√° derretendo. Mas n√£o como voc√™ imagina

Icebergs gigantes se desprendem da Corrente de Gelo de Upernavik, um dos glaciares estudados pelo grupo dinamarquês (Foto: Science)

Muita gente se acostumou a incluir o derretimento acelerado do manto de gelo da Groenl√Ęndia juntamente com a morte e os impostos na lista das grandes certezas da vida. Um estudo publicado na edi√ß√£o de hoje da revista Science sugere que √© assim, mas n√£o √© bem assim. Na verdade, o degelo d√° mostras de que est√° desacelerando neste momento.

Calma, leitor. Os climatologistas n√£o piraram nem a ind√ļstria do petr√≥leo est√° por tr√°s disso. Mas um grupo de cientistas da Dinamarca e dos EUA concluiu, examinando tr√™s d√©cadas de fotografias a√©reas do noroeste da ilha, que a maior parte da perda de gelo da Groenl√Ęndia acontece em pulsos e “de baixo para cima”, por assim dizer: o degelo superficial, decorrente da resposta do manto √†s temperaturas do ar mais elevadas, √© irrelevante. O que importa mesmo √© o que acontece no ponto de contato entre o mar e as termina√ß√Ķes das grandes geleiras da regi√£o.

O grupo liderado por Kurt Kjaer, da Universidade de Copenhague, analisou centenas de fotos, cruzadas com dados de altimetria a laser coletados nos √ļltimos anos pela Nasa, para montar um mapa de eleva√ß√£o do noroeste da Groenl√Ęndia, mostrando como variou a espessura do gelo. Eles identificaram dois grandes epis√≥dios de perda: um entre 1985 e 1992 e outro, mais dram√°tico, entre 2005 e 2010. Embora o derretimento superficial tenha crescido, ele ainda √© literalmente uma gota d’√°gua no oceano se comparado a esses “pulsos”. Portanto, √© precipitado extrapolar uma tend√™ncia para calcular a contribui√ß√£o da Groenl√Ęndia para a eleva√ß√£o total do n√≠vel do mar neste s√©culo.

“√Č um sinal peri√≥dico, o que significa que voc√™ tem uma perda de gelo imensa num per√≠odo de 5 a 8 anos e um per√≠odo est√°vel, seguido por um outro evento de 5 a 8 anos. N√£o √© um sinal linear e n√£o tem uma tend√™ncia”, diz Shafaqat Abbas Khan, da Universidade T√©cnica da Dinamarca, co-autor do estudo.

Abbas √© um jovem de origem paquistanesa que eu conheci no ano passado em Copenhague e que tem um emprego que me mata de inveja: todo ver√£o ele √© despejado de um helic√≥ptero sobre geleiras em derretimento acelerado, faz uma s√©rie de medi√ß√Ķes com GPS em poucos minutos e pula de volta no helic√≥ptero antes que o movimento do gelo o empurre no abismo. “Depois de um tempo voc√™ se acostuma, vira s√≥ mais um trabalho”, minimiza.

Sua especialidade √© medir o chamado “repique isost√°tico”, em tradu√ß√£o livre, o levantamento da crosta da Groenl√Ęndia em resposta ao al√≠vio de peso causado pela perda de gelo. Parece incr√≠vel que essa “espregui√ßada”da ilha possa ser medida, mas basta ter um bom GPS.

O que me impressiona em Abbas √© que ele √© um c√©tico do clima. C√©tico no bom sentido da palavra: um cientista que questiona o tempo todo as suposi√ß√Ķes por tr√°s do pr√≥prio trabalho. Como lida com observa√ß√Ķes e n√£o com modelagem,o geof√≠sico se recusa em fazer previs√Ķes sobre o colapso do manto e sobre o consequente aumento do n√≠vel do mar no mundo — apesar de se declarar chocado com o rebaixamento que observa ano ap√≥s ano nas geleiras que visita. Ele diz que n√£o √© poss√≠vel afirmar, como alguns colegas t√™m sugerido, que a Groenl√Ęndia j√° tenha ultrapassado o ponto de n√£o retorno, algo que provavelmente aconteceu 125 mil anos atr√°s, quando estima-se que a ilha tenha derretido quase completamente. “Quando esse cara come√ßar a derreter, a√≠ sim eu vou ficar preocupado”, me disse uma vez, apontando num mapa um rio de gelo v√°rias vezes mais largo que o Amazonas, conhecido apenas como Geleira 79, no nordeste groenland√™s.

A descoberta do derretimento em pulsos (que o grupo de Abbas e Kjaer chama de “perda de gelo din√Ęmica”) n√£o significa que o aquecimento global n√£o tenha culpa no cart√≥rio — ao contr√°rio, j√° que o principal suspeito de causar o fen√īmeno √© o aumento peri√≥dico da temperatura do mar nos fiordes de Kalaallit Nunaat (como os groenlandeses chamam seu pa√≠s). V√°rios cientistas j√° vinham chamand aten√ß√£o para isso. Mas ela serve como um alerta para os pesquisadores da complexidade da natureza e da dificuldade de prever seu comportamento, e como baliza para os modeladores clim√°ticos.

O grupo dinamarquês lança, ainda, um alerta: o degelo superficial teve participação quase zero no episódio de 1985-1992, mas causou 33% da perda nas margens das geleiras no de 2005-2010, o que sugere uma sensibilidade cada vez maior do manto à elevação da temperatura do ar. Tudo que Kalaallit Nunaat não precisa agora é de um golpe nos dois flancos.

Os sectários e os do pé virado

FAZ EXATOS DOIS ANOS que eu recebi o primeiro convite do Carlos Hotta para cometer um blog que discutisse meio ambiente no Brasil. Eram tempos interessantes no pa√≠s: o debate sobre o C√≥digo Florestal pegava fogo no Congresso e a elei√ß√£o presidencial era disputada por uma ambientalista — mas todo mundo sabia que quem iria levar seria sua ant√≠tese. Eram tamb√©m tempos interessantes para mim: sa√≠a ap√≥s seis anos da editoria de Ci√™ncia da Folha de S. Paulo para voltar a Bras√≠lia, minha savana de origem, justamente para acompanhar mais de perto o debate ambiental.

A combina√ß√£o n√£o deu certo na √©poca por raz√Ķes contratuais. Mas os tempos ficaram interessantes mais uma vez, ent√£o c√° estamos: bem-vindos ao Curupira.

Este blog empresta seu nome da criatura m√≠tica de p√©s virados que, no imagin√°rio caboclo, funciona como uma esp√©cie de fiscal do Ibama: imp√Ķe quotas de ca√ßa, pro√≠be o abate de filhotes e f√™meas prenhes, pune quem desmata al√©m do necess√°rio. O curupira, por√©m, √© mais pedag√≥gico que o Ibama: em vez de uma multa que o infrator jamais pagar√°, imp√Ķe-lhe como castigo a loucura: perder-se ou desaparecer na mata.

Assemelha-se nisso a outro dem√īnio do desenvolvimento sustent√°vel, a sanguin√°ria caipora (do tupi kaa-pora, ou “morador do mato”), cujas hist√≥rias, contadas pela minha bab√° nos j√° long√≠nquos anos 80, nunca falharam em me fazer pensar duas vezes antes de estilingar um passarinho ou entrar no mato. Cheguei a considerar esta figura medonha para o t√≠tulo do blog, mas lembrei-me de um detalhe: a caipora, como alguns fiscais do Ibama, √© corromp√≠vel. Basta o cidad√£o botar um fumo de rolo numa pedra e ela esquece sua “job description” e alivia para o criminoso. Fiquemos, pois, com o curupira.

Escrevo este blog convicto de que alguma coisa se perdeu na discuss√£o sobre meio ambiente na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que o C√≥digo Florestal e a confer√™ncia de Copenhague trouxeram a tem√°tica para o hor√°rio nobre do debate p√ļblico, culminando numa elei√ß√£o presidencial, criou-se uma polariza√ß√£o est√ļpida entre “ambientalistas” e “ruralistas” ou entre “ambientalistas” e “desenvolvimentistas”, como se a defesa do meio ambiente fosse uma quest√£o ideol√≥gica ou partid√°ria, como se nela houvesse “dois lados”.

Essa bestagem fez v√≠timas tanto √† esquerda quanto √† direita no Brasil. Na esquerda, como o demonstrou a abertura das Olimp√≠adas de Londres, a defesa do meio ambiente √© enxergada como “marinismo”, “oportunismo eleitoral” ou “fantasia”. Quando acaba o argumento, √© um “instrumento de domina√ß√£o dos pa√≠ses ricos, que j√° desmataram tudo” etc. Coisas que a gente espera da esquerda, que vive mesmo de pregar r√≥tulos nos outros.

Mas a direita, pelo menos neste pa√≠s, costumava pensar com um tico mais de sofistica√ß√£o. E virou modinha entre os “intelectuais de direita”, com o perd√£o do oximoro, atacar a defesa do meio ambiente como sendo um instrumento de domina√ß√£o do mundo da… esquerda! Assim, falam do “aquecimentismo global” como uma conspira√ß√£o anticapitalista, sem mencionar entre as fileiras “aquecimentistas” (como nunca se cansou de lembrar meu amigo Rafael Garcia) not√≥rios comunistas como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Quando acaba o argumento, usam o mesm√≠ssimo tigre de papel da esquerda: os “pa√≠ses ricos” e as “ONGs estrangeiras”. Que pregui√ßa.

Sempre t√£o orgulhosa de sua independ√™ncia de pensamento, a direita no Brasil acabou papagaiando o mais tosco fundamentalismo norte-americano, que conseguiu transformar a ci√™ncia numa quest√£o de crer ou n√£o crer. √Č preciso fazer uma pausa para a reflex√£o e lembrar, como diz o cientista americano Tom Lovejoy, que “conserva√ß√£o” e “conservador” t√™m a mesma etimologia.

Os ambientalistas exageram? Dimais da conta. Erram sempre que deixam de lado evid√™ncias e usam argumentos religiosos. Um exemplo √© a maneira irracional como boa parte do movimento ambientalista tratou os transg√™nicos — demonizando a tecnologia em vez de olhar caso a caso. Outro √© a rea√ß√£o tamb√©m at√°vica √† energia nuclear. Em ambos os casos, o ambientalismo se afasta de quem deveria ser sua maior aliada, a ci√™ncia, e aferra a um vago princ√≠pio da precau√ß√£o, cuja aplica√ß√£o absoluta √© imposs√≠vel.

Mas talvez os ambientalistas sejam, no fim das contas, o setor menos sectário da sociedade. Evidência disso é a coisa mais bonita que já se escreveu sobre o assunto no Brasil:

“Todos t√™m direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem comum de uso do povo e essencial √† sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder P√ļblico o dever de defend√™-lo e preserv√°-lo para as presentes e futuras gera√ß√Ķes.”

Este √© o “caput” do Artigo 225 da Constitui√ß√£o de 88 e ser√° o mantra deste blog. Como o curupira, os constituintes n√£o escolheram “lados”. Tinham objetivos mais altos em mente.

PS: Foi apertar o bot√£o de “publicar” e eu lembrei que o Scienceblogs Brasil j√° tem uma Caipora. Ou melhor, uma Caapora, dos zo√≥logos Luciano Moreira Lima, Rafael Marcondes e Guilherme Terra (que vai entrar na minha lista de apt√īnimos), a quem pe√ßo desculpas por um quase-pl√°gio involunt√°rio e por eventuais ofensas √† sua entidade mitol√≥gica. Vou me lembrar de levar um rolo de fumo na pr√≥xima vez que for fazer uma trilha.

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