Cobras e lagartos

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TIVE APENAS duas conversas brev√≠ssimas com Paulo Em√≠lio Vanzolini, e sa√≠ de ambas amaldi√ßoando o velho zo√≥logo. A primeira foi no come√ßo da d√©cada passada, quando tive a imper√≠cia de perguntar a Vanzo se ele j√° havia batizado alguma esp√©cie que descobrira com um nome engra√ßado. “Quem √© s√©rio tem perfil baixo”, disparou o cientista. A entrevista durou dois minutos e meio. A segunda vez foi h√° alguns meses, durante um show de sua mulher, a cantora Ana Bernardo, no Bar do Alem√£o, na Pompeia. Fui cumpriment√°-lo. Ele me estendeu a m√£o e virou a cara, como se dissesse “OK, agora desinfeta daqui e deixa eu terminar meu chope”, sob olhar constrangido da mulher (Ana seria vitimada pela indiferen√ßa do marido v√°rias vezes durante o show).

Fato √© que Vanzolini nunca gostou de perder tempo com bobagens. Essa intoler√Ęncia se acentuou na velhice, fase da vida em que a gente mais pode se dar o luxo da sinceridade e que o herpet√≥logo paulista, morto ontem aos 89 anos, soube aproveitar muito bem (para azar de quem, como eu, estava na extremidade errada de sua metralhadora). A quem lhe perguntasse sobre sua carreira de compositor, um hobby que rendeu cl√°ssicos da MPB como Volta por Cima, Pra√ßa Cl√≥vis e Ronda, Vanzo rosnava logo que nunca foi m√ļsico, mas sim especialista “em cobras e lagartos”.

Um amigo que estudou com uma das filhas do herpet√≥logo/sambista costumava contar, √†s risadas, que cada entrevista de Vanzo criava uma crise na fam√≠lia. Falava mal de todo mundo, e com gosto especial dos baianos Gilberto Gil (“insignificante”), Caetano Veloso e Maria Beth√Ęnia, sua mais famosa int√©rprete (“n√£o √© uma cantora, √© uma declamadora”). Parecia, por√©m, reservar elogios √† improv√°vel Ivete Sangalo. Numa de suas √ļltimas entrevistas longas, a Eduardo Geraque na Folha de S.Paulo, em 2008, disparou contra Marina Silva (“muito ruim”), Jo√£o Paulo Capobianco (“o pior que tem”) e o ent√£o diretor do Museu de Zoologia da USP, Carlos Brand√£o (“√© at√© meu sobrinho, mas √© um imbecil completo”). Sobre Ronda, seu mais popular cl√°ssico, disse certa vez estar perplexo com o fato de o samba ter ficado entre os tr√™s finalistas num concurso para escolher a can√ß√£o-s√≠mbolo de S√£o Paulo. “N√£o entendo como uma m√ļsica sobre uma prostituta que mata seu cafet√£o pode ser hino de S√£o Paulo”, disparou. N√£o poupava nem Ernst Mayr, seu professor em Harvard e um dos bi√≥logos mais influentes da hist√≥ria: costumava contar como Mayr havia vetado sua participa√ß√£o num congresso cient√≠fico por Vanzolini ter deixado de citar os trabalhos do alem√£o num paper.

Filho de um professor da Escola Polit√©cnica da USP, Paulo Em√≠lio Vanzolini nasceu em S√£o Paulo em 25 de abril de 1924. Aos dez anos ganhou uma bicicleta e fez sua primeira visita ao Instituto Butant√£. Apaixonou-se por r√©pteis. Quis seguir carreira em zoologia. Por√©m, aconselhado pelo bi√≥logo Andr√© Dreyfuss, fundador do Instituto de Biologia da USP e amigo de seu pai, acabou se matriculando na Faculdade de Medicina da USP. ‚ÄúSe voc√™ quiser fazer zoologia de vertebrados, v√° para a Faculdade de Medicina onde vai estudar anatomia, histologia, embriologia e fisiologia num curso b√°sico de primeiro n√≠vel. O resto voc√™ rola com a barriga‚ÄĚ, disse-lhe Dreyfuss, conforme o pr√≥prio Vanzolini relatou a Dr√°uzio Varella numa de suas entrevistas mais completas, republicada pela Folha em 2000. “Foi o que eu fiz e foi um conselho t√£o bom que, quando cheguei para fazer p√≥s-gradua√ß√£o nos Estados Unidos, fui dispensado de v√°rios cr√©ditos.” De fato, admitiu, empurrou o curso com a barriga. Nunca apareceu nas aulas de cl√≠nica m√©dica nem no hospital.

Aos 24 anos, contra a vontade do pai, foi para os EUA, fazer p√≥s-gradua√ß√£o em herpetologia no Museu de Zoologia de Harvard, ent√£o dirigido por Mayr, o “Darwin do S√©culo XX”. “Fui para Harvard me achando o fino”, contou. “Tive um choque cultural t√£o violento ao descobrir o que era a zoologia moderna que quase desisti do projeto.”

Foi tamb√©m na juventude que ele come√ßou a compor. Nunca soube tocar nenhum instrumento e n√£o tinha vergonha de admitir-se um desafinado total. Imaginava os sambas na cabe√ßa e cantarolava-os a amigos m√ļsicos, como Lu√≠s Carlos Paran√°. A paix√£o pelo boteco, da qual os sambas eram n√£o mais do que um complemento, acabou tomando dimens√Ķes inesperadas e Vanzolini terminaria mais conhecido do p√ļblico por seu hobby do que pela sua carreira real (evid√™ncia disso foi que sua morte hoje foi noticiada pelos cadernos de cultura, n√£o de ci√™ncia). Em algumas ocasi√Ķes, unia os dois mundos, como quando recolheu a linda moda “Cuitelinho” numa expedi√ß√£o pelo interior paulista.

Sua maior contribui√ß√£o √† ci√™ncia seria dada nos anos 1960, num trabalho em colabora√ß√£o com o geomorf√≥logo Aziz Ab’S√°ber, o “Turco”, morto em 2011, e com o americano Ernest Williams. Encafifado com o processo de especia√ß√£o de um lagarto do g√™nero Anolis, Vanzolini intuiu, com a ajuda de Ab’ S√°ber, que as mudan√ßas clim√°ticas no Pleistoceno, que alternaram per√≠odos de seca e de umidade na Amaz√īnia, provocaram ora a expans√£o do cerrado para √°reas que hoje s√£o floresta, ora o contr√°rio. Em ambas as situa√ß√Ķes, ilhas da vegeta√ß√£o retra√≠da se mantinham no novo ambiente, deixando esp√©cies isoladas. A barreira geogr√°fica criada por esses ref√ļgios, como ficaram conhecidos, facilitava a diferencia√ß√£o das esp√©cies. Isso explicaria o alto grau de endemismo, ou seja, de esp√©cies s√≥ encontradas numa determinada regi√£o e em nenhum outro lugar, verificado hoje na Amaz√īnia e no cerrado.

Em 1969, antes de publicar seu trabalho, o paulista recebeu da revista Science um trabalho para revisar. Era do alem√£o J√ľrgen Haffer, que estudara o processo de especia√ß√£o de v√°rias aves na Amaz√īnia — e chegara exatamente √† mesma conclus√£o de Vanzo e Williams. “Passaram a perna na gente”, disse Vanzolini a seu coautor americano. Haffer tinha a documenta√ß√£o mais completa. Mas ambos acabaram entrando em acordo (Haffer veio ao Brasil discutir os dados com Vanzolini) e publicando simultaneamente, no ano seguinte, a Teoria dos Ref√ļgios.

Nos anos 1980, a teoria come√ßou a cair em descr√©dito. Um dos tiros veio do pesquisador Paul Colinvaux, do Laborat√≥rio de Biologia Marinha dos EUA. Estudando amostras da paleoflora amaz√īnica em sedimentos, ele e seus colegas conclu√≠ram que a Amaz√īnia sempre esteve coberta por florestas — o avan√ßo do cerrado na Era do Gelo n√£o teria existido, pelo menos n√£o na escala necess√°ria aos ref√ļgios. Outro ponto contr√°rio √† teoria veio do avan√ßo da biologia molecular: as sequ√™ncias gen√©ticas de v√°rias esp√©cies da Amaz√īnia faziam supor uma especia√ß√£o muito anterior ao Pleistoceno. Haffer e Vanzolini nunca deixaram de defender a teoria, o primeiro admitindo, por√©m, que as mudan√ßas clim√°ticas respons√°veis pela especia√ß√£o podem ter ocorrido antes, no final do Terci√°rio. Em 2008, um grupo da Unesp publicou no peri√≥dico PLoS One um estudo sobre especia√ß√£o de sa√ļvas que confirmava, em ess√™ncia, a ideia dos ref√ļgios, embora de forma um tanto diferente da teoria original.

Vanzolini andava desgostoso com o samba, devido √† morte de v√°rios de seus parceiros ao longo dos anos e √†s √ļlceras que lhe mandaram por quase dois mese √† UTI em uma ocasi√£o e lhe roubaram o prazer da cacha√ßa. Mas tamb√©m perdera nos √ļltimos tempos colaboradores importantes na ci√™ncia, como Ab’S√°ber. De certa forma, Vanzo sobreviveu tamb√©m √† morte de sua disciplina, a biologia evolutiva de organismos, sepultada pela biologia molecular. Era o maior representante no Brasil de uma gera√ß√£o de zo√≥logos de “unhas sujas”, como costumava dizer, de gente que andava no mato ca√ßando, abrindo e empalhando bichos para descrev√™-los (numa ocasi√£o, quando o Greenpeace buscava uma foto de um macaco descrito por ele para uma campanha sobre a Amaz√īnia, Vanzo apresentou imagens do bicho taxidermizado e xingou os ambientalistas quando declinaram sua oferta). Pouca gente quer seguir carreira em zoologia no pa√≠s que det√©m a maior biodiversidade do mundo e que carece de sistematas para dar conta de conhecer essas esp√©cies antes que o agroneg√≥cio, as hidrel√©tricas e a minera√ß√£o levem-nas embora. A profiss√£o de zo√≥logo foi, al√©m de tudo, instrumentalizada pela ind√ļstria do EIA-Rima, frequentemente para dizer aos empreendedores o que eles querem ouvir — que n√£o, n√£o h√° esp√©cies raras, end√™micas ou amea√ßadas no caminho da estrada ou da barragem. Vanzo era s√≠mbolo de uma gera√ß√£o de cientistas que olhava a floresta para tentar entend√™-la como fim, n√£o como meio. Em meio √† maior crise da biodiversidade desde o Pleistoceno, profissionais como ele far√£o falta.

Brasil, potência antártica em 2018?

Módulo Criosfera-1, instalado por cientistas brasileiros no interior do continente: só o começo? (UFRGS)

Módulo Criosfera-1, instalado por cientistas brasileiros no interior do continente: só o começo? (UFRGS)

TRINTA ANOS DEPOIS da viagem inaugural do Bar√£o de Teff√©, o Brasil come√ßa a falar s√©rio sobre a Ant√°rtida. Pela primeira vez, um plano de a√ß√£o para a pesquisa cient√≠fica no continente √© elaborado por cientistas e recebe a b√™n√ß√£o da burocracia estatal. Ele est√° desde quarta-feira em consulta p√ļblica no site do Minist√©rio da Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o, que o encomendara a um grupo de l√≠deres da pesquisa polar como revis√£o do Proantar, o Programa Ant√°rtico Brasileiro. O plano tra√ßa um conjunto de objetivos a serem atingidos nos pr√≥ximos dez anos em cinco √°reas do conhecimento, aponta novos campos de investiga√ß√£o para os quais o Brasil deveria olhar e traz uma vis√£o ambiciosa: tornar o Proantar um programa de excel√™ncia internacional at√© 2018, garantindo ao Brasil o reconhecimento como “um dos l√≠deres nas investiga√ß√Ķes sobre o papel dos processos polares no hemisf√©rio Sul”.

A relev√Ęncia de um programa ant√°rtico robusto para o Brasil deveria dispensar coment√°rios. Como gosta de dizer o glaciologista Jefferson Sim√Ķes, da UFRGS, relator do plano de a√ß√£o, a Ant√°rtida controla 50% do clima do pa√≠s. Tem papel direto, para falar a l√≠ngua que nossos governantes entendem, no PIB do agroneg√≥cio. √Č chave para a compreens√£o do efeito das mudan√ßas clim√°ticas no resto do planeta e na Am√©rica do Sul em particular. Na√ß√Ķes emergentes, como a Coreia do Sul e a China, t√™m tamb√©m usado seus programas ant√°rticos ao mesmo tempo como indutores e “showcases” de seu desenvolvimento tecnol√≥gico. O Brasil, para variar, est√° atrasado em se lan√ßar candidato a pot√™ncia cient√≠fica polar (como em tudo o mais que se refere ao papel estrat√©gico da ci√™ncia nas decis√Ķes de governo), mas antes tarde do que nunca.

A revisão da parte científica do Proantar havia sido pedida já em 2011 pelo secretário de Políticas de Pesquisa do MCTI, Carlos Nobre, mas o processo foi atropelado, ironicamente, pela tragédia do incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz, em fevereiro de 2012, que matou duas pessoas.

O novo plano incorpora basicamente toda a ci√™ncia feita hoje sob o guarda-chuva dos Institutos Nacionais de Ci√™ncia e Tecnologia que investigam a Ant√°rtida, um liderado por Sim√Ķes no Rio Grande do Sul e outro por Yocie Valentim no Rio de Janeiro. Por√©m, traz uma clivagem fundamental em rela√ß√£o √† t√īnica do Proantar: os projetos de balc√£o desaparecem. Toda a pesquisa passa a ser organizada em torno de cinco eixos ou programas:

1 – InteracŐßoŐÉes gelo-atmosfera: o papel da criosfera no sistema terrestre e o registro de mudancŐßas ambientais (um jeito elegante de dizer “glaciologia);

2 – Efeitos das MudancŐßas ClimaŐĀticas na Biocomplexidade dos Ecossistemas AntaŐĀrticos e suas ConexoŐÉes com a AmeŐĀrica do Sul (um jeito elegante de dizer “biologia”);

3 – MudancŐßas e Vulnerabilidade ClimaŐĀtica no Oceano Austral (um jeito elegante de dizer “oceanografia f√≠sica”);

4 – O papel da AntaŐĀrtica na evolucŐßaŐÉo e ruptura do Gondwana e na evolucŐßaŐÉo do AtlaŐāntico Sul (um jeito elegante de dizer “geologia”);

5 – DinaŐāmica da alta atmosfera na AntaŐĀrtica, interacŐßoŐÉes com o geoespacŐßo e conexoŐÉes com a AmeŐĀrica do Sul (um jeito elegante de dizer “meteorologia”).

Pesquisa induzida por eixos n√£o √© exatamente novidade no Proantar: aconteceu em 2002, quando o dinheiro do CNPq desapareceu e o programa foi salvo pelo Minist√©rio do Meio Ambiente, que formou duas redes tem√°ticas; e durante o Ano Polar Internacional, em 2007/2009, no qual 11 linhas de pesquisa foram contempladas com verba. Se o novo plano colar e decolar (e √© um grande “se”), essa democracia excessiva que pulverizava verbas escassas em projetos muitas vezes in√ļteis (ou de qualidade question√°vel) vai acabar. Demor√ī.

O plano de a√ß√£o aponta, ainda, novas √°reas de investiga√ß√£o, como lagos subglaciais (tema quent√≠ssimo que o Brasil n√£o tem sequer ferramentas para investigar), micr√≥bios patog√™nicos (o papel de aves migrat√≥rias e pinguins na gesta√ß√£o, por exemplo, de cepas novas de gripe) e psicologia de grupos humanos sob press√£o extrema est√£o entre as indica√ß√Ķes. Conex√Ķes com o √Ārtico e forma√ß√£o de professores em ci√™ncias ant√°rticas completam a lista de desejos.

A vis√£o delineada no plano, por√©m, precisa de dois recheios importantes. Primeiro, de “benchmark”: como saberemos se chegamos a pot√™ncia ant√°rtica em 2018? Como medir essa excel√™ncia? Depois, falta aquilo que os diplomatas chamam de “meios de implementa√ß√£o”: bufunfa. Quanto ser√° necess√°rio? Em quanto tempo? De onde o dinheiro vir√°? Essa informa√ß√£o precisa surgir no fim da consulta p√ļblica, sob pena de o plano n√£o ser nem ao menos apreciado no Pal√°cio do Planalto.

Por fim, √© preciso lembrar que o Proantar n√£o √© feito s√≥ por cientistas. Metade do programa, e a metade onde est√° o dinheiro grosso, √© de log√≠stica, a cargo da Marinha. E a Marinha do Brasil tem um problema fundamental com a Ant√°rtida, que √© a falta de quadros espec√≠ficos para o Proantar. Meios operativos s√£o muitas vezes subutilizados por conta da falta de experi√™ncia dos militares, que fazem rod√≠zio a cada tr√™s anos na regi√£o. Opera√ß√Ķes polares dependem de conhecimento acumulado, algo que n√£o existe na estrutura log√≠stica brasileira. Um comandante que n√£o quer arriscar navegar num campo de gelo fino mesmo sabendo que seu navio foi projetado para isso pode p√īr uma pesquisa a perder. A Marinha sempre se achou dona do programa, n√£o sem raz√£o: s√£o os militares que garantem o funcionamento das coisas mesmo em tempo de vacas magras para a ci√™ncia. A tomada das r√©deas pelo MCTI, que ora se ensaia, pode criar conflitos s√©rios com a Defesa, mas esta √© uma briga que precisa acontecer h√° muito tempo para que as coisas possam avan√ßar num patamar diferente.

Outra oportunidade est√° nas opera√ß√Ķes a√©reas. Hoje o Brasil usa dois avi√Ķes H√©rcules C-130 para levar passageiros e carga at√© a ilha Rei George, onde o Chile tem uma base a√©rea. Se quisesse, a FAB poderia treinar seus pilotos com os chilenos e os argentinos para pousar no gelo, o que daria ao Brasil mobilidade para operar no interior do continente (os cientistas que fazem isso hoje contratam empresas de transporte polar). Isso nunca foi feito, entre outras raz√Ķes porque a frota √© limitada e n√£o pode ficar dedicada ao polo Sul. Mas essa situa√ß√£o pode mudar: os H√©rcules est√£o se aposentando, e o avi√£o que os substituir√°, o KC-390, est√° sendo feito pela Embraer. “√Č nosso sonho”, diz Sim√Ķes sobre a nova aeronave e a perspectiva de seu uso na Ant√°rtida (que de resto seria um belo marketing para a empresa). S√≥ falta combinar com a Defesa.

#400ppmday

A curva de Keeling, batendo nos 400 ppm (Scripps/UCSD)

A curva de Keeling, batendo nos 400 ppm (Scripps/UCSD)

O AQUECIMENTO GLOBAL, esse fen√īmeno que s√≥ existe na cabe√ßa de fan√°ticos de esquerda como eu e a Angela Merkel, continua a brindar-nos com novas bizarrices para assistir em tempo real. Nos √ļltimos dez anos, n√≥s j√° vimos o esfacelamento das plataformas de gelo Larsen-B e Wilkins, o encolhimento do mar congelado no √Ārtico, o degelo superficial de toda a Groenl√Ęndia, a temporada de furac√Ķes de 2005, duas secas recorde na Amaz√īnia e a volta do Renan Calheiros v√°rias epidemias de dengue. A nova trag√©dia nos chega com antecipa√ß√£o: em algum momento do m√™s que vem, poderemos ver a concentra√ß√£o de g√°s carb√īnico na atmosfera bater as 400 partes por milh√£o (ppm) pela primeira vez em pelo menos 850 mil anos. Para comemorar esse dia especial, proponho uma grande celebra√ß√£o na sede da Conven√ß√£o do Clima da ONU: o 400 ppm Day. Com webcast para a Casa Branca, o Itamaraty e a sede do PC Chin√™s.

Saberemos que o CO2 chegou l√° quase em tempo real, gra√ßas √† internet e aos esfor√ßos incans√°veis de Charles David Keeling, um cientista da Universidade da Calif√≥rnia em San Diego, EUA, que dedicou sua vida a medir as concentra√ß√Ķes do g√°s num observat√≥rio constru√≠do no alto do vulc√£o Mauna Loa, no Hava√≠. Keeling come√ßou a fazer suas medi√ß√Ķes em 1958, em dois momentos: na primavera e no outono do hemisf√©rio Norte. A plotagem dos dados produziu um dos gr√°ficos mais famosos da ci√™ncia, a curva de Keeling, reproduzida acima. Ela d√° a medida da acelera√ß√£o sem precedentes na hist√≥ria humana das concentra√ß√Ķes de gases-estufa produzidas pela queima de combust√≠veis f√≥sseis e pelo desmatamento nas √ļltimas d√©cadas. Quando Keeling montou seu observat√≥rio, o CO2 estava em 318 ppm. Durante toda a era pr√©-industrial, at√© onde os registros confi√°veis de qu√≠mica atmosf√©rica v√£o (ou seja, 850 mil anos atr√°s), ela jamais ultrapassou 280 ppm. Quando eu comecei a cobrir esse assunto, em 2000, ela estava em 360 ppm. Pouco mais de uma d√©cada depois, bater√° os 400. O Instituto de Oceanografia Scripps, ao qual pertence o observat√≥rio de Mauna Loa, inaugurou at√© um servi√ßo de atualiza√ß√£o da curva em tempo real. Com a morte de Keeling, em 2005, o bast√£o passou para seu filho, Ralph.

A marca, porém, será temporária: a concentração de CO2 chega ao pico sempre na primavera setentrional por causa da decomposição das folhas que caem no hemisfério Norte (onde está a maior parte das terras emersas) no outono e no inverno, e cai à medida que novas folhas sequestram carbono na atmosfera. Isso dá à curva seu padrão característico em serrote, mas basta olhar para ela para perceber qual é a tendência.

E a tend√™ncia, como diria Marco Aur√©lio Garcia, √© top-top. Vamos cair um pouquinho na nossa primavera, para ultrapassar a barreira dos 400 ppm para valer no ano seguinte. E 400 ppm, s√≥ para registrar, era o limite inferior de estabiliza√ß√£o do CO2 na atmosfera para que o mundo tivesse uma chance de 50% de manter o aquecimento global em “apenas” 2 graus Celsius em rela√ß√£o √† era pr√©-industrial neste s√©culo. Como nossos diplomatas resolveram deixar esse assunto para 2020, a chance de estabilizarmos o carbono no limite de 450 ppm (ponto m√©dio entre 400 e 500) √©, para dizer de um jeito educado, muito pequena.

O legal do 400 ppm Day √© que, para comemor√°-lo, voc√™ n√£o precisar√° sair da rotina nem fazer esses sacrif√≠cios bobinhos que o Grinp√≠s e os pandas exigem de voc√™ uma vez por ano. As sugest√Ķes deste blog para marcar a data:

– Tome um banho bem demorado logo de manh√£ (se o chuveiro for a g√°s, tanto melhort) e deixe as luzes acesas.

РSaia com seu carro. Se for flex, abasteça com gasolina. Ah, esqueci: você já faz isso (quem é que guenta pagar esse álcool, né?).

– Coma um bif√£o no almo√ßo e agrade√ßa a S√£o Aldo e a Santa K√°tia de Palmas pelo novo C√≥digo Florestal, que nos deu comida barata e, er…, sustent√°vel.

Como você viu, são coisas que a gente faz todos os dias que garantem o sucesso do 400 ppm Day. Eu, por boa medida, vou aproveitar e abrir um belo Pinot Noir da Borgonha: a cepa tem tido quebras de safra com o aumento da temperatura, mas justamente por isso o vinho tem ficado cada vez melhor.

O desmatamento subiu e ninguém viu

QUINTA-FEIRA SANTA, v√©spera de feriado. Ministra do Meio Ambiente na Indon√©sia. Presidente do Ibama convoca entrevista coletiva para dar os dados do desmatamento na Amaz√īnia. Entre agosto de 2012 e fevereiro de 2013, o ronco da motosserra disparou: 26,6% de crescimento em rela√ß√£o ao mesmo per√≠odo do ano anterior. Dois jornais noticiaram, discretamente. Ficou nisso.

O Minist√©rio do Meio Ambiente escolheu o dia, a hora e o porta-voz a dedo para abafar a disparada, num momento em que o desempenho ambiental (logo ele) aparece como uma das raz√Ķes da popularidade descaralhante-que-nem-o-cogumelo-gigante de Dilma Rousseff, a presidenta-TPM. Soltou um press release dando um belo spin na m√° not√≠cia, desmentido j√° previamente pelo contraspin do Greenpeace. Aparentemente o minist√©rio comemora que a devasta√ß√£o tenha ca√≠do entre agosto e fevereiro, mas deixa eu contar um segredo: cai todo ano entre esses meses, porque chove na Amaz√īnia. Se o √≠ndice acumulado subiu quase 27% no final do ano √© porque a coisa pode ficar bem feia de maio em diante, quando come√ßa a esta√ß√£o seca e o pau canta (ou melhor, chora) na floresta. Por menos do que isso Marina Silva baixou a lista dos munic√≠pios campe√Ķes de desmatamento, que deu no que deu nos anos seguintes.

√Č direito do minist√©rio apresentar sua vers√£o dourada dos fatos. Afinal, qualquer cidad√£o com acesso √† internet pode ir at√© a p√°gina do Inpe na internet checar a real dos dados do Deter. Ou pelo menos podia.

Desde a disparada de 220% em agosto os dados do sistema n√£o s√£o postados na internet com a frequ√™ncia prometida. Depois que o site O Eco flagrou o pulo da devasta√ß√£o, o Inpe prometeu que colocaria os dados do Deter no ar de 15 em 15 dias. Mas nem mesmo a frequ√™ncia mensal foi mantida, j√° que o sistema ficou meses sem atualiza√ß√£o. Em 2008, quando o desmatamento disparou (tamb√©m no segundo semestre) e o governo de Mato Grosso jurava que n√£o, o Inpe moveu c√©us e terra para provar que seus dados estavam certos. “A transpar√™ncia dos dados do Deter √© uma conquista da sociedade brasileira”, repetia na √©poca o diretor do instituto, Gilberto C√Ęmara. √Č preciso que a sociedade cobre o Inpe pela manuten√ß√£o dessa conquista.

O governo tenta reagir ao crescimento do desmate como sabe: na porrada. A esperan√ßa √© que o dado do Prodes, o sistema que d√° a taxa oficial, fique est√°vel ou mesmo caia em 2012/2013, mas, assim como a pol√≠tica econ√īmica lulodilmista, o efeito da pancada tem uma efici√™ncia cada vez mais baixa com taxas mais baixas de desmate. E a flexibiliza√ß√£o da legisla√ß√£o ambiental, no governo Dilma, juntamente com o avan√ßo do PAC sobre a Amaz√īnia, n√£o ajudam muito na conten√ß√£o.

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