“Lost” animal

São nove da manhã na marina do Saco da Ribeira, em Ubatuba, litoral norte paulista, de onde sai diariamente o barco que leva ao trabalho os funcionários do Parque Estadual da Ilha Anchieta. O céu está aberto, mas o vento que agita o mar prenuncia virada no tempo. Durante o percurso de quase uma hora, a reportagem de Unesp Ciência vai ouvindo histórias estranhas.

A primeira vem de um oficial do Exército que, com uma equipe de seis homens, tem a inusitada missão de resgatar os destroços de um avião que caiu numa área de mata fechada da ilha em 1957. Depois, um vigia do parque relata causos de fantasmas do presídio que lá funcionou entre 1907 e 1955.

Pelo biólogo Paulo Cicchi, nosso anfitrião nesta viagem, conhecemos a história dos mamíferos que inadvertidamente foram parar ali há mais de 20 anos, como numa versão animal da ilha de Lost, e hoje protagonizam um verdadeiro drama ambiental.

Em 1983, os 828 hectares da Ilha Anchieta foram palco de um “experimento” atualmente considerado uma enorme insensatez. O objetivo era tentar recompor a fauna do lugar, que tanto sofrera com a devasta√ß√£o causada pelas atividades do pres√≠dio, hoje em ru√≠nas. Para isso, a Funda√ß√£o Parque Zool√≥gico, com o aval da administra√ß√£o do parque, introduziu ali 14 esp√©cies de mam√≠feros, num total de cem indiv√≠duos.

Algumas se extinguiram rapidamente, como a pregui√ßa e o veado catingueiro, este √ļltimo t√≠pico do cerrado – a vegeta√ß√£o da ilha √© Mata Atl√Ęntica. O problema atual est√° naqueles que, al√©m de sobreviverem, se reproduziram al√©m da conta por falta de predadores. √Č o caso de capivaras, cutias, quatis e saguis.

O impacto da fauna introduzida sobre as espécies nativas, tanto vegetais como animais, tem motivado diversos estudos, como o de Paulo Cicchi, doutorando do Instituto de Biociências da Unesp em Botucatu.

Ele come√ßou a trabalhar na Ilha Anchieta em 2005, j√° com a ideia de investigar como os mam√≠feros ex√≥ticos ou alien√≠genas, no jarg√£o dos bi√≥logos, estavam afetando a diversidade de anf√≠bios e r√©pteis, que s√£o sua especialidade. “Acontece que n√£o havia nenhum levantamento pr√©vio desta fauna [antes da chegada dos mam√≠feros]”, conta. Ele decidiu fazer esse levantamento em seu mestrado. Ao longo de dois anos, registrou 17 esp√©cies de sapos e 8 de r√©pteis das quais 3 serpentes e 5 lagartos.

“√Č pouco se comparado com trechos continentais de Mata Atl√Ęntica”, explica o herpet√≥logo. “Mas a diversidade desses animais em ilhas nunca √© muito alta”, acrescenta. Com esses dados, partiu para o doutorado, em 2007, a fim de entender qual seria a influ√™ncia dos mam√≠feros ex√≥ticos nesses baixos n√ļmeros.

No fim de mar√ßo passado, n√≥s o acompanhamos em uma de suas √ļltimas incurs√Ķes por l√° neste ano, para remover as armadilhas que ainda restam em alguns pontos da mata. O trabalho de coleta de informa√ß√Ķes acabou, e at√© dezembro Cicchi pretende consolidar os dados, alguns ainda n√£o analisados, e se isolar na casa de veraneio da fam√≠lia na praia de Itamambuca, tamb√©m em Ubatuba, para escrever a tese (sem deixar de pegar umas ondas no fim de tarde, como bom surfista que √©, para aliviar o estresse).

Continue lendo em pdf.

Post relacionado:
As mil e uma histórias da Ilha Anchieta

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Pol√≠tica de Privacidade | Termos e Condi√ß√Ķes | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


P√°ginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM