As mulheres dos estudos literários: Regina Dalcastagnè

Esse post é dedicado à memória de Marielle Franco: socióloga, pesquisadora, vereadora, feminista, militante dos direitos humanos, mulher, negra, lésbica, favelada, e brutalmente assassinada pelo Estado brasileiro em 14 de março de 2018.

Nesse mês de março, historicamente dedicado às lutas das mulheres, gostaria de divulgar, numa série de posts aqui no blog Marca Páginas, os trabalhos de algumas das mulheres que nos dias de hoje se dedicam aos estudos literários no Brasil. Nesse campo de pesquisa tomado por vozes masculinas (como tantos outros), vale a pena lembrar que esse espaço é ocupado também por mulheres incríveis, professoras-pesquisadoras que são referências pela qualidade de seus estudos. São apenas alguns nomes dentre tantos que poderiam ser citados, mas espero que cada uma de nós – professoras, pesquisadoras, estudantes – se sinta contemplada e reconheça a importância de compor esse círculo de mulheres competentes. Como sempre repito: a cada vez que nos percebemos menos sozinhas em nossas lutas, nos tornamos mais fortes.

Regina Dalcastagnè 

Fonte: Facebook.com

Falar sobre os estudos de literatura brasileira contemporânea atualmente passa, sem dúvida, por reconhecer a importâncias das pesquisas que Regina Dalcastagnè vem desenvolvendo nos últimos anos. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Regina se dedicou especificamente à literatura a partir do mestrado e do doutorado: no primeiro, com a dissertação “O espaço da dor: o regime de 64 na produção romanesca brasileira”, defendida na Universidade de Brasília em 1993 e publicada em livro em 1996 com o título O espaço da dor: o regime de 64 no romance brasileiro; no segundo, com a tese “Uma obra em movimento: leitura(s) de Avalovara, de Osman Lins”, defendida em 1997 na Universidade Estadual de Campinas, sob orientação de Vilma Âreas, outra grande mulher dos estudos literários brasileiros e professora aposentada do Instituto de Estudos da Linguagem aqui na Unicamp.

Atualmente, Dalcastagnè é professora titular livre de literatura brasileira na UnB e pesquisadora de produtividade CNPq. Além disso, coordena o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBC) e faz parte do corpo editorial de várias revistas importantes da área. Suas principais linhas de pesquisa estão relacionadas aos estudos de representação na literatura contemporânea e da narrativa contemporânea brasileira, passando pela representação de grupos marginalizados, ocupação dos espaços urbanos e crítica literária em periódicos. Vale citar alguns de seus projetos de pesquisa mais recentes: “Fora do retrato, no meio da história: a Brasília contada pelas periferias”, “A superfície das coisas: objetos e memória na literatura brasileira contemporânea” e “Narrativas da cidade: Brasília e a experiência urbana na literatura brasileira contemporânea”. Regina publicou e organizou ainda vários livros e artigos com os resultados de suas pesquisas, dentre os quais destaco Literatura e exclusão, de 2017, Espaço e gênero na literatura brasileira contemporânea e Representación y resistencia en la literatura brasileña contemporánea, ambos de 2015. A extensa lista de suas publicações e atuações profissionais pode ser consultada em <http://lattes.cnpq.br/2599879538822377>.

Como já dito, uma das pesquisas mais importantes desenvolvidas por Dalcastagnè nas últimas décadas diz respeito aos modelos sociais representados na literatura brasileira contemporânea, além do perfil desses escritores. Você sabia, por exemplo, que quase 73% dos romances brasileiros publicados de 1990 a 2005 foram escritos por homens, em sua maioria brancos e de classe média? E que 62% das personagens criadas nesse mesmo período são também homens? Esses números ficam mais assustadores se pensarmos que, entre os 258 romances estudados nessa pesquisa, apenas 3 protagonistas eram mulheres negras. A seguir, reproduzo o infográfico [http://arquivo.pontoeletronico.me/2013/02/18/eu-quero-escrever-um-livro-sobre-literatura-brasileira/] de Niege Borges, publicado no site Ponto Eletrônico, que organiza os dados impressionantes recolhidos pelo GELBC durante a pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004”:

Esses números chocam, o que reforça mais uma vez a relevância que esse tipo de pesquisa tem. Regina Dalcastagnè, acompanhada por seu grupo de pesquisa, realiza esse importante trabalho, e por isso deve ser lembrada como uma mulher dos estudos literários.

Para mais informações sobre as pesquisas desenvolvidas por Regina Dalcastagnè, seguem alguns links:

3 respostas para “As mulheres dos estudos literários: Regina Dalcastagnè”

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