Pelas √°guas da ‘Amaz√īnia paulista’

Matéria publicada na Unesp Ciência de julho de 2011.

Na bacia hidrográfica do rio Itanhaém, na Baixada Santista, biólogo de Rio Claro estuda o papel das plantas aquáticas na preservação dos mananciais; seus resultados estão sendo aplicados na aquicultura sustentável

Pouca gente sabe, mas existe um lugar no litoral sul de S√£o Paulo conhecido como “Amaz√īnia paulista”. Fica a apenas 115 km da capital, no munic√≠pio de Itanha√©m, o segundo mais antigo do Brasil. A compara√ß√£o com o famoso bioma do Norte costuma ser feita por quem divulga o discreto turismo ecol√≥gico neste bem preservado fragmento de Mata Atl√Ęntica, regado por sinuosos cursos d’√°gua que des√°guam no rio Itanha√©m.

Evidentemente, n√£o √© uma compara√ß√£o feita com base em escala. Enquanto a bacia hidrogr√°fica do rio Amazonas ocupa 3,8 milh√Ķes de km2 s√≥ no lado brasileiro, a do rio Itanha√©m tem m√≠seros 930 km2. Em compensa√ß√£o, o paralelo faz sentido depois que se constata o que h√° em comum entre os dois lugares: o fato de seus rios principais serem formados pelo encontro de um afluente de √°gua escura com outro, de √°gua branca.

No caso amaz√īnico, s√£o os rios Negro e Solim√Ķes que formam o Amazonas. Em territ√≥rio bandeirante, s√£o os rios Preto e Branco que originam o Itanha√©m, no sop√© da Serra do Mar (saiba mais aqui: http://bit.ly/kABj7V).

√Č por essa paisagem quase desconhecida dos paulistas que navega com familiaridade o bi√≥logo Antonio Fernando Monteiro Camargo, pesquisador do departamento de Ecologia do Instituto de Bioci√™ncias da Unesp em Rio Claro.

Antonio Camargo √© especialista em Limnologia, a ci√™ncia que estuda as √°guas interiores, isto √©, os sistemas aqu√°ticos continentais, como rios, lagos, estu√°rios etc. Parente da Hidrologia, mais interessada nas origens geol√≥gicas das √°guas do planeta, a Limnologia √© um ramo da Ecologia. Logo, est√° preocupada com as intera√ß√Ķes dos seres vivos com seu ambiente e a rela√ß√£o deles com as caracter√≠sticas f√≠sicas e qu√≠micas da √°gua.

“Isso diz muito sobre a qualidade e a preserva√ß√£o de uma bacia hidrogr√°fica”, justifica o pesquisador. Em Itanha√©m, esses dados tamb√©m revelam a qualidade da √°gua oferecida aos habitantes da cidade e de parte de Praia Grande e Peru√≠be.

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M√£o

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Que privil√©gio √© o seu? Por que o √≥rg√£o mudo e cego nos fala com tanta for√ßa persuasiva? Porque √© um dos mais originais, um dos mais diferenciados, √† maneira das formas superiores de vida. Articulado por meio de gonzos delicados, o punho arma-se sobre um sem-n√ļmero de oss√≠culos. Cinco ramos √≥sseos, com um sistema de nervos e ligamentos, projetam-se por baixo da pele, para depois se separar de chofre e dar origem a cinco dedos separados, cada um dos quais, articulado sobre tr√™s juntas, com atitude e esp√≠rito peculiares. Uma plan√≠cie abaulada, percorrida por veias e art√©rias, arredondada nas bordas, une o punho aos dedos, ao mesmo tempo que lhes encobre a estrutura oculta. O verso √© um recept√°culo. Na vida ativa da m√£o, ela √© suscet√≠vel de se distender e de se endurecer, assim como √© capaz de se moldar ao objeto. Esse trabalho deixou marcas no oco da m√£o, e podem-se ler a√≠, se n√£o os s√≠mbolos lineares das coisas passadas e futuras, ao menos o tra√ßo e como que as mem√≥rias de nossa vida de resto j√° apagada – e quem sabe, at√©, alguma heran√ßa mais antiga. De perto, trata-se de uma paisagem singular, com seus montes, sua grande depress√£o central, seus estreitos vales fluviais, ora fissurados por acidentes, cadeias e tramas, ora puros e finos como uma escritura. Toda figura permite o devaneio. N√£o sei se o homem que interroga esta chegar√° a decifrar algum enigma, mas me parece bom que contemple com respeito essa sua serva orgulhosa.

Henri Focillon (1881-1943), em Elogio da m√£o, tradu√ß√£o de Samuel Titan Jr., publicado na revista Serrote, n√ļmero 6, novembro de 2010.

Foto: JonGenius

Quem vai querer plantar banana?

Matéria publicada na Unesp Ciência de maio de 2011.

Fungos agressivos colocam o cultivo da fruta mais popular do país em alto risco; novas técnicas de manejo e de melhoramento são promissoras, mas ameaças podem levar a uma reinvenção da cultura no futuro

Yes, n√≥s temos… problemas. √Č o que provavelmente diriam muitos produtores de banana do Vale do Ribeira, no sul do Estado de S√£o Paulo, se parafraseassem o imortal verso da marchinha de Braguinha e Alberto Ribeiro, lan√ßada no carnaval de 1938.

A regi√£o, uma das maiores concentra√ß√Ķes de plantio da fruta do pa√≠s, j√° h√° algum tempo sofre com a Sigatoka negra – doen√ßa que atinge as folhas da bananeira, tingindo-as de manchas escuras. Sem poder capturar energia solar, esse arbusto gigante (n√£o √© uma √°rvore) fica incapaz de fazer corretamente a fotoss√≠ntese e, portanto, n√£o consegue nutrir seu cacho.

Quem passa por uma estrada de terra que corta v√°rios bananais comerciais nos arredores de Registro, a maior cidade do Vale do Ribeira (70 mil habitantes), v√™ de vez em quando bananeiras com cachos atrofiados que, se n√£o forem cortados, v√£o cair e apodrecer antes de amadurecer. A imagem mais frequente, por√©m, s√£o folhas estragadas, que um leigo pode pensar serem apenas velhas, mas nas quais qualquer agr√īnomo do lugar bate o olho e diagnostica facilmente a doen√ßa.

“Os bananicultores que me perdoem, mas a doen√ßa aqui est√° um espet√°culo. Para mostrar para os alunos”, ironiza o engenheiro agr√īnomo amapaense Wilson da Silva Moraes, enquanto dirige seu carro e mostra √† reportagem de Unesp Ci√™ncia algumas √°reas afetadas.

Pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia de Agronegócios (Apta), no polo do Vale do Ribeira, Moraes faz suas pesquisas em conjunto com a Unesp em Registro, onde é professor em tempo parcial no curso de Agronomia. Ele chegou à cidade em 2004, praticamente junto com a praga.

A Sigatoka negra √© uma doen√ßa incur√°vel causada pelo fungo Mycosphaerella fijiensis, cujos esporos podem viajar no vento por dist√Ęncias de at√© 50 km. Surgida no Caribe no fim dos anos 1970, ela desceu o continente por Col√īmbia e Equador, grandes centros exportadores de banana. Em 1998, o fungo foi encontrado em Manaus. De l√° se alastrou pela Regi√£o Norte, atravessou Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e conquistou finalmente o Sudeste e o Sul. Por enquanto, apenas o Nordeste est√° livre do problema, exceto o Maranh√£o.

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Células imortais

Matéria publicada na Unesp Ciência de abril de 2011.

Laboratório em Botucatu cria seres híbridos que não morrem nunca e são capazes de fabricar os anticorpos monoclonais, moléculas indispensáveis nos bancos de sangue e na medicina diagnóstica

Estranhas formas de vida são cultivadas no subsolo da Faculdade de Medicina de Botucatu. Numa área de acesso restrito do hemocentro, uma equipe de pesquisadores cria os chamados hibridomas, células híbridas que não existem espontaneamente. Ao contrário das células naturais, elas não morrem nunca, desde que bem cuidadas e alimentadas.

Mas n√£o √© por serem imortais que essas quimeras biotecnol√≥gicas s√£o manipuladas com tanto zelo. √Č porque elas s√£o verdadeiras f√°bricas microsc√≥picas, capazes de gerar ad eternum um produto sofisticado e valioso – os anticorpos monoclonais. Usadas como ferramenta de identifica√ß√£o em an√°lises laboratoriais, essas complexas prote√≠nas, altamente espec√≠ficas, revolucionaram o modo de fazer transfus√£o de sangue e a medicina diagn√≥stica nos √ļltimos 30 anos.

A m√©dica hemoterapeuta Elenice Deffune, chefe do Laborat√≥rio de Engenharia de Tecidos da Unesp em Botucatu, aprendeu a construir hibridomas em Paris, durante o mestrado e o doutorado feitos entre a Universidade Pierre e Marie Curie e o Instituto Pasteur, de 1986 a 1992. Ela foi estudar o assunto ap√≥s se inquietar com rea√ß√Ķes do organismo √† transfus√£o de sangue, que ocorrem em uma minoria dos pacientes, mas costumam ser fatais. Com os anticorpos monoclonais, diz ela, a hemoterapia (o emprego terap√™utico de sangue e seus derivados) evoluiu muito nas √ļltimas d√©cadas.

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Cartas de um herói ressentido

Resenha publicada na Unesp Ciência de abril de 2011.

An√°lise das missivas de Sim√≥n Bol√≠var, um dos maiores √≠cones da independ√™ncia da Am√©rica Latina, revela o esfor√ßo de um homem frustrado para salvar sua honra e ser idolatrado pelas gera√ß√Ķes futuras

Alheia √† hist√≥ria da independ√™ncia da Am√©rica hisp√Ęnica, a maioria dos brasileiros talvez deva a Hugo Ch√°vez o pouco que sabe sobre o general Sim√≥n Bol√≠var (1783-1830).

O presidente da Rep√ļblica Bolivariana da Venezuela (assim renomeada por Ch√°vez) comporta-se como a reencarna√ß√£o do her√≥i que derrotou o dom√≠nio europeu no s√©culo 19 e at√© hoje √© cultuado com tintas vibrantes tamb√©m na Col√īmbia, no Peru e na Bol√≠via.

Em julho passado, Ch√°vez ordenou a exuma√ß√£o dos restos de Bol√≠var, para investigar a “verdadeira” causa mortis. Os registros oficiais d√£o conta de que a tuberculose matou lentamente o general, mas o l√≠der venezuelano desconfia que ele foi envenenado – afinal, her√≥i que se preze morre assassinado, n√£o de infec√ß√£o.

√Č poss√≠vel que a historiadora Fabiana de Souza Fredrigo tivesse problemas se quisesse publicar seu Guerras e escritas (Editora Unesp) no pa√≠s de Hugo Ch√°vez, pois o Sim√≥n Bol√≠var que ela revela, por meio da an√°lise de suas cartas, √© um ser humano vaidoso, ambicioso e, mais tarde, frustrado e amargurado. E, acima de tudo, um homem preocupado com a forma como seria lembrado na posteridade.

Por meio das 2.815 missivas que escreveu ao longo da vida, analisadas em seu doutorado na Unesp em Franca, a autora descortina um projeto de memória que Bolívar assumia como parte importante de sua vida.

“Ao oferecer aos seus interlocutores, cuidadosamente escolhidos, suas missivas, o general constru√≠a um c√≥digo de valor entre seus homens (…). Bol√≠var pretendia que sua mem√≥ria atingisse e mobilizasse gera√ß√Ķes futuras. Pleitear a possibilidade de a posteridade anuir a seu projeto era uma aposta audaciosa, reveladora do fato de que, embora Bol√≠var n√£o pudesse ter o dom√≠nio do futuro, o projetava. As cartas e os documentos que deixara para comprovar sua hist√≥ria eram a armadura protetora de sua honra”, escreve a autora.

Em nome dessa honra, o general costumava exagerar nos relatos de sucesso de suas estrat√©gias militares e no n√ļmero de soldados de que dispunha. Numa carta de 1822, Bol√≠var pede a outro militar: “[escreva] mil exageros de paz, guerra e coisas de Europa para que eu possa mostrar estas cartas a todos, principalmente aos inimigos, mas [escreva] exageros que sejam cr√≠veis”. Em 1825, quando come√ßa sua decad√™ncia f√≠sica, ele dissimuladamente registra: “N√£o mande publicar minhas cartas, nem vivo nem morto, porque elas est√£o escritas com muita liberdade e desordem”.

Libertar as col√īnias sul-americanas do dom√≠nio espanhol at√© que foi f√°cil se comparado ao trabalho que foi lidar com as guerras internas que se sucederam √† independ√™ncia e fragmentaram parte do continente, para profundo desgosto do general. “A vida de gl√≥rias terminaria com a incompreens√£o do povo que ele havia lutado para libertar”, afirma Fabiana. “Se, ao final da vida, algo paralisava Bol√≠var, n√£o era exatamente a doen√ßa, mas o ressentimento.”

E se hoje nada disso transparece no culto ao mito √© porque seu projeto de mem√≥ria foi de fato bem-sucedido. Influenciou gera√ß√Ķes de historiadores latino-americanos, principalmente venezuelanos, que abriram m√£o do olhar cr√≠tico e ignoraram as contradi√ß√Ķes do personagem – um cen√°rio que felizmente come√ßa a mudar, como mostra este livro.

Guerras e escritas РA correspondência de Simón Bolívar (1799-1830)
Fabiana de Souza Fredrigo; Editora Unesp; 290 p√°gs. R$ 59

Dan√ļbio vermelho

(publicado na UC dezembro/2010)

Mais acostumados a divulgar vazamentos de petr√≥leo que acidentes da ind√ļstria de alum√≠nio, jornais de todo mundo espantaram seus leitores ao divulgarem no come√ßo de outubro imagens da pequena cidade h√ļngara de Ajka (a 160 km de Budapeste), inundada por um l√≠quido espesso, vermelho e altamente c√°ustico. A destrui√ß√£o, causada pelo rompimento de um reservat√≥rio de “lama t√≥xica” – como ficou conhecido o material, que chegou a alcan√ßar o rio Dan√ļbio -, trouxe √† tona as s√©rias quest√Ķes ambientais que envolvem a fabrica√ß√£o do metal.

Para alguns pesquisadores, a catástrofe reforça a necessidade urgente de encontrar uma utilidade para esse resíduo corrosivo, que se acumula em gigantescas lagoas artificiais construídas em diversos países onde há exploração de bauxita Рentre eles, o Brasil. Da bauxita se extrai a alumina (óxido de alumínio), que depois é convertida em alumínio, o metal leve e maleável com o qual são feitas latas de bebidas, embalagens de alimentos e esquadrias de portas e janelas, para citar apenas alguns exemplos domésticos.

Para produzir uma tonelada de alum√≠nio s√£o necess√°rias quatro toneladas de bauxita e, no processo de beneficiamento, s√£o geradas duas toneladas de lama vermelha, explica Maria L√ļcia Pereira Antunes, pesquisadora do N√ļcleo de Automa√ß√£o e Tecnologias Limpas da Unesp em Sorocaba. “Ningu√©m sabe o que fazer com esse res√≠duo. √Č um enorme passivo ambiental.”

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Pesquisas no anel de luz

(publicado na UC dezembro/2010)

Alguns pesquisadores precisam de muita luz para trabalhar. E luz, nesse caso, na sua defini√ß√£o mais b√°sica: a de um amplo espectro de radia√ß√£o eletromagn√©tica. Para analisar as entranhas microsc√≥picas, moleculares ou at√īmicas de suas amostras, esses cientistas precisam ora de raios X, ora de luz ultravioleta ou infravermelha, de ondas de r√°dio ou at√© mesmo de luz vis√≠vel. Tudo depende do material que querem conhecer melhor, da propriedade que pretendem medir e do fen√īmeno que precisam esmiu√ßar, seja ele f√≠sico, qu√≠mico ou biol√≥gico. √Č a fase embrion√°ria do que pode vir a ser o desenvolvimento de uma nova tecnologia.

Em 2009, essa necessidade de luz levou 2.320 cientistas de todo o pa√≠s (e alguns de pa√≠ses vizinhos) a passar alguns dias, praticamente em regime de internato, no Laborat√≥rio Nacional de Luz S√≠ncrotron (LNLS), que fica no distrito de Bar√£o Geraldo, em Campinas (SP). L√° funciona, desde 1997, o √ļnico anel de luz s√≠ncrotron da Am√©rica Latina. Um s√≠ncrotron (para os √≠ntimos) √© um acelerador de el√©trons que emite simultaneamente – e com muita intensidade – um amplo espectro de radia√ß√£o, sob a forma de feixes muito finos.

O equipamento √© grande e sofisticado demais para caber no laborat√≥rio ou no or√ßamento individual de qualquer projeto de pesquisa. √Č por isso que a maioria dos 30 an√©is de luz deste tipo em funcionamento no mundo s√£o instala√ß√Ķes multiusu√°rio, que atendem √† comunidade cient√≠fica de uma determinada regi√£o e funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, praticamente o ano inteiro.

Um dos usu√°rios do LNLS √© o engenheiro de materiais Celso Valentim Santilli, do Departamento de F√≠sico-qu√≠mica do Instituto de Qu√≠mica da Unesp em Araraquara, distante 190 km de Campinas. A partir das 8 h do √ļltimo dia 13 de outubro, logo ap√≥s o feriado prolongado, Santilli e tr√™s de seus orientandos passaram 48 horas numa das 14 linhas de luz do anel, a chamada SAX-2, uma das duas linhas por onde passam apenas raios X de baixo √Ęngulo, na sigla em ingl√™s.

Considerando a quantidade de amostras que eles levaram na bagagem e todas as medidas a serem feitas, al√©m dos naturais imprevistos que sempre surgem ao longo de um experimento, 48 horas n√£o √© muito. Como a pr√≥xima visita pode demorar v√°rios meses para ser agendada, √© preciso aproveitar cada minuto e se revezar na tarefa dia e noite. “√Č puxado”, resigna-se Eduardo Molina, aluno de p√≥s-doc de Santilli.

O orientador acompanharia o trabalho do grupo at√© o fim daquela tarde, mas, por causa de compromissos no dia seguinte, voltaria para dormir em Araraquara, deixando a responsabilidade nas m√£os dos tr√™s pupilos. “Quando √© um experimento novo, ele (Santilli) fica, mas esse n√≥s j√° fizemos outras vezes”, diz Molina. “S√≥ n√£o vai dar para dormir muito. (Na madrugada) vamos ter que trocar (de turno) a cada 3 ou 4 horas. O ideal era ter mais uma pessoa.”

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Sede de sal

(publicado na UC de março/2011)

Pode acontecer com qualquer um. Já aconteceu com cerca de 30% dos brasileiros adultos. Um belo dia, provavelmente depois dos 50 anos, com azar antes disso, o sujeito deixa o consultório médico com a receita de um anti-hipertensivo e a recomendação expressa de fazer exercícios e diminuir muito o sal de sua comida. Ele é o mais novo membro do clube dos portadores de pressão alta, candidatos preferenciais ao infarto e ao derrame cerebral.

Tomar o rem√©dio ser√° a parte mais f√°cil. E se conseguir vencer a pregui√ßa e a falta de tempo, o sujeito se dar√° conta de que a atividade f√≠sica, nem que seja uma simples caminhada, pode ser prazerosa. A pior parte vai ser se acostumar √† ‘vida sem sal’. E ter de lutar contra instintos primitivos que provavelmente o paciente nunca imaginou que tivesse.

O cloreto de s√≥dio √© t√£o importante para a biologia e a cultura da humanidade que nossos ancestrais percorreram dist√Ęncias absurdas e at√© travaram guerras por um bom punhado do mineral. “Subst√Ęncia divina”, para o poeta Homero, e um mineral “particularmente caro aos deuses”, segundo o fil√≥sofo Plat√£o, seu simbolismo fica evidente no nosso vocabul√°rio. Do latim sale derivaram palavras como sal√°rio, sa√ļde e saud√°vel (veja quadro abaixo).

A evolução talhou nosso cérebro para gostar de sal, precisamente do sódio. Fomos programados para buscá-lo. Em especial porque Рe essa talvez seja a parte mais surpreendente dessa necessidade fisiológica Рo apetite para este nutriente e a sede são irmãos gêmeos siameses.

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Uma ciência em transformação

(publicado na UC fevereiro/2011)
Em uma de suas can√ß√Ķes menos lembradas hoje em dia, Renato Russo dizia que n√£o sabia nada de F√≠sica, Literatura ou Gram√°tica. “S√≥ gosto de Educa√ß√£o Sexual”, afirmava ele no refr√£o, para em seguida frisar: “E eu odeio Qu√≠mica, Qu√≠mica, Qu√≠mica!”.

Os químicos que me perdoem, assim como eles devem ter perdoado o líder da Legião Urbana por seus versos juvenis e insensatos. Mas o que nem eles ignoram é que as pessoas em geral têm um pé atrás em relação a tudo o que é químico.

“N√£o h√° jeito de uma ci√™ncia que trata fundamentalmente de mudan√ßa ser encarada de modo inteiramente positivo por seres humanos, que s√£o, no fundo, ambivalentes em rela√ß√£o √†s mudan√ßas”, escreveu Roald Hoffmann, Nobel de Qu√≠mica em 1981, em O mesmo e o n√£o-mesmo (Editora Unesp, 2000), um elogio cr√≠tico √† ci√™ncia das mol√©culas.

Poluidora e t√≥xica s√£o alguns dos r√≥tulos negativos que nas √ļltimas d√©cadas se colaram √† atividade industrial amparada no conhecimento desta ci√™ncia dura, cheia de f√≥rmulas e nomes antip√°ticos, mas que seus defensores definem como central, como a ci√™ncia da transforma√ß√£o.

No Ano Internacional da Qu√≠mica, as Na√ß√Ķes Unidas e qu√≠micos do mundo todo unem esfor√ßos para limpar sua reputa√ß√£o. “A ideia √© mudar sua imagem na sociedade, porque ela est√° associada apenas a coisas ruins”, afirma Vanderlan Bolzani, do Instituto de Qu√≠mica da Unesp em Araraquara e membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Qu√≠mica.

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Papai Noel na berlinda

(publicado na UC dezembro/2010)
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Papai Noel √© coisa s√©ria. E n√£o apenas para as criancinhas que o aguardam no Natal. Tamb√©m na ci√™ncia h√° quem acredite nele, pelo menos o suficiente para investig√°-lo. Esses pesquisadores tentam entender o segredo de t√£o duradouro sucesso, assim como os efeitos (nem sempre admir√°veis) que essa presen√ßa vermelha e rotunda exerce na psicologia de crian√ßas e adultos, nas rela√ß√Ķes sociais, na religi√£o e at√© na sa√ļde p√ļblica. Afinal, o “bom” velhinho tem l√° suas idiossincrasias. Ao longo das √ļltimas d√©cadas, uma s√©rie de estudos tem revelado resultados surpreendentes e at√© perturbadores, que tendem a ser ofuscados por interesses comerciais.

Um dos primeiros a dedicar uma an√°lise aprofundada sobre o protagonista do Natal foi ningu√©m menos que o antrop√≥logo franc√™s Claude L√©vi-Strauss (1908-2009). Sua motiva√ß√£o teve origem numa not√≠cia publicada no jornal France Soir, em 24 de dezembro de 1951, com o t√≠tulo: “Papai Noel √© queimado no √°trio da Catedral de Dijon diante de crian√ßas de orfanatos”. Coordenada pelo clero cat√≥lico (com apoio de protestantes), a manifesta√ß√£o do dia anterior apregoava o car√°ter pag√£o daquela figura, que estaria arruinando a tradi√ß√£o crist√£.

A opini√£o p√ļblica francesa se dividiu diante da inusitada situa√ß√£o: de um lado, a Igreja demonstrando esp√≠rito cr√≠tico e, de outro, os racionalistas defendendo a supersti√ß√£o. A contradi√ß√£o chamou a aten√ß√£o de L√©vi-Strauss e resultou no livro O supl√≠cio do Papai Noel (Cosac Naify, 2009, tradu√ß√£o de Denise Bottmann). Nele, o antrop√≥logo classifica o Papai Noel do ponto de vista da tipologia religiosa:

“N√£o √© um ser m√≠tico, pois n√£o h√° um mito que d√™ conta de sua origem e de suas fun√ß√Ķes; tampouco √© um personagem lend√°rio, visto que n√£o h√° nenhuma narrativa semi-hist√≥rica ligada a ele. Na verdade, esse ser sobrenatural e imut√°vel, fixado eternamente em sua forma e definido por uma fun√ß√£o exclusiva e um retorno peri√≥dico, pertence mais √† fam√≠lia das divindades; as crian√ßas prestam-lhe culto em certas √©pocas do ano, sob a forma de cartas e pedidos; ele recompensa os bons e priva os maus. √Č a divindade de uma categoria et√°ria de nossa sociedade (…) e a √ļnica diferen√ßa entre Papai Noel e a verdadeira divindade √© que os adultos n√£o creem nele, embora incentivem as crian√ßas a acreditar e mantenham essa cren√ßa com in√ļmeras mistifica√ß√Ķes”

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