A patela, o pilar e o karatê acidental

Tudo durou menos de um minuto. Nós na padaria Santa Ifigênia, que fica debaixo do edifício Copan, centro de São Paulo, tomando um lanche com café, protegidos pelo toldo por cuja fresta entrava de vez em quando o vento gelado de uma tarde dominical de inverno – um pouco mais frio do que os dos últimos anos.

Animada por um bonito pedaço de bolo no prato de T., avancei rumo à sobremesa. Para alcançar o setor de guloseimas do estabelecimento, em vez de fazer o caminho usual e mais longo, preferi um espaço estreito, mas suficiente para minha silhueta, entre um pilar e um suporte que prendia aquele tipo de fita que costuma demarcar filas de bancos e aeroportos. Havia bem aí um degrau, a ser subido. Ao dobrar a perna esquerda para superá-lo, num erro estúpido de cálculo enfiei o meio do joelho bem na quina do pilar. Pegou em cheio a patela. Nunca senti uma dor tão lancinante.

Impossível gritar uma vez que havia perdido o fôlego. O passo seguinte foi reflexo e num instante o degrau ficou para trás. Curvei-me, apoiada na vítima e tentando ser discreta, enquanto à minha volta as pessoas hesitavam entre bolos, bombas de chocolate e rabanadas. Latejava. Muito mais a alma do que o joelho. Se durasse mais, nem sei o que podia acontecer, talvez desmaiasse. Não saí mancando, porém. Em compensação, o apetite evaporou. A visão escureceu, como sempre quando a pressão cai subitamente.

Aposto que estava pálida. Sobrou, entretanto, um mínimo de lucidez para não voltar à mesa de prato vazio, e nele depositei com pressa a menor coisa que encontrei, uma espécie de empada doce, com um morango envernizado em cima.

O mal-estar ia cedendo e rapidamente, para meu espanto. Na breve fila para registrar a iguaria na minha conta, apalpei mais uma vez o pobre coitado temendo por avaria mais séria, afinal com joelho não se brinca. Com um prato cheio de coxinhas e quibes nas mãos, o senhor depois de mim, que eu desconfiava mesmo ter acompanhado meu agudo sofrimento, perguntou-me se estava doendo, com aquela cara de quem já sabe a resposta. “De um jeito que nunca vi”, confessei, ainda meio zonza. “Isso aí é um golpe de karatê. Isso acaba com uma pessoa.” Agora me arrependo de não ter perguntado o nome do golpe.

A., C. e T. só perceberam que algo não ia bem quando se depararam com a empada de morango solitária no prato branco, o que não correspondia à disposição com que eu os deixara momentos antes.

Estranhamente, ao lhes explicar o acidente, a patela já havia retornado ao seu silêncio habitual e obediente. A caminhada até o metrô, e deste até a casa, se deu na ausência total de sinal qualquer de dor, tampouco me obrigou a alterar os passos. Que sorte. Um joelho danificado é quase sempre um pesadelo, ainda mais nessa época fria do ano, não muito amiga das articulações em geral. A gente anda décadas e décadas com a mesma carcaça e não conhece as sensações que ela é capaz de deflagrar.

Espero que tenha sido a primeira e última vez que certas terminações nervosas que fielmente recobrem minha patela esquerda tenham cumprido sua função. Tudo por causa de um instante de distração, no qual me autoinfligi um duro golpe de karatê, com a colaboração de uma quina de uma padaria debaixo do edifício Copan numa tarde de domingo de inverno paulistano. Ainda não consigo acreditar que saí ilesa.

Discussão - 9 comentários

  1. Aula de narrativa, sem tirar nem pôr, Lu 😉
    Abraço,
    R.

  2. maria disse:

    fiquei curiosa por uma explicação neuroanatômica.

  3. Eu também, Maria. E espero que uma boa alma que passar por aqui possa oferecer uma resposta. Agora, quanto ao lance do golpe de karatê, acho que faz muito sentido, pois tem o jeitão de filosofia marcial, em que se deve paralisar o inimigo, mas sem o deixar estrupiado.

  4. Carlos Hotta disse:

    OUCH!
    Doeu em mim essa.

  5. Karl disse:

    As dores extremas desencadeiam uma reação vagal. A pressão pode mesmo cair, há sudorese fria, náuseas. O bom é que, cessado o estímulo, tudo vai vagarosamente voltando ao normal. Belíssima descrição! Há muito se sabe que os escritores são muito mais eficientes que os médicos em descrever doenças.
    As superfícies ósseas do organismo, são fonte de muita dor devido à exposição do periósteo. Os exemplos clássicos são a face medial da tíbia (canela), o joelho, o cotovelo e a cabeça. Desses, só a cabeça faz “galo” devido a sua vascularização abundante. Os outros podem fazer só um hematominha no local.
    Tem material nesse texto para uns três posts. A ver: 1) Por que a fome sumiu? 2) São as náuseas o extremo oposto exato da fome? 3)”A gente anda décadas e décadas com a mesma carcaça e não conhece as sensações que ela é capaz de deflagrar.” Nada mais compatível com a prática. Passo uma grande porção das consultas ensinando as sensações para os pacientes. Muitos nunca tiveram de fato, certos tipos de dor ou sensação. Outros entretanto, não estão familiarizados com a sensação de fome! (ex. os gordinhos que começam um regime) e eu preciso explicar que aquela sensação de desconforto na região epigástrica que eles estão sentindo NÃO é “gastrite”.
    Desculpe o longo comentário. Parabéns pelo texto.

  6. Grande Karl. Acho que saquei. Estimulação intensa e aguda do nervo vago é levar o tônus parassimpático às alturas (cai pressão, frequência cardíaca, isso quando não se desmaia). É exatamente o oposto daquela famosa reação de “luta ou fuga” (coisa do sistema simpático). Aqui vc fica prostrado e reza pra nada de pior acontecer. Sim, eu fiquei nauseada. Cara, doeu pacas. Não quero sentir isso de novo não. O mais louco é que passou muito rápido.

  7. maria disse:

    karl, não vai embora que ainda não me saciou. como assim? qual a relação entre o periósteo e o nervo vago? o que é o periósteo? por que essa sensibilidade? no cotovelo você quer dizer aquele choque horroroso que dá quando a gente bate o cotovelo? quando estudei anatomia humana na faculdade (de biologia) o professor não soube me explicar essa do cotovelo. até hoje não sei.
    quero ver essa série de posts!

  8. Karl disse:

    Ô bando de mulheres insaciáveis!!! 😉
    Periósteo é uma fina camada de tecido altamente vascularizado e inervado que recobre as superfícies ósseas. Foi assim selecionado, imagino, porque tem um papel importantíssimo na formação de calos ósseos, cicatrização de fraturas. Pegue um martelo-de-bater-bife e dê uma pancadinha na sua canela e vc entenderá que o periósteo é MUITO inervado =).
    Dores extremas, principalmente as dores viscerais (tipo cólica renal, infarto, etc) podem desencadear reações parassimpáticas, que apelidamos de vagais. O vago é o principal nervo que carreia respostas do sistema nervoso autônomo parassimpático e, como a Luciana disse, tem reações complementares, às vezes mesmo antagônicas, ao simpático.
    O choque do cotovelo é porque o nervo ulnar corre naquele sulco e fica bem acessível ao toque. É semelhante às estrelinhas que vemos quando levamos um soco no olho (já levou algum?) ou ao choquinho da acupuntura. São estímulos físicos para um “terminal” que conduz impulsos químicos (os nervos). O resultado é uma sensação grosseira e equivalente a uma interferência. Aqui, não tem relação com o sistema nervoso autônomo.
    Espero ter dado conta do recado 🙂

  9. maria disse:

    estou satisfeita. agora você vê por que tem que ter paciência pra ser meu médico!
    já levei muito soco, quando fazia caratê. mas felizmente no olho nunca.
    mas já caí em cima de um pé recém-operado e fiquei sem conseguir respirar ou me mexer e vendo estrelinhas pra todo lado, deitada no chão. deve ser por aí.

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