Solução do Cunha: abra uma igreja e salve um parque

"Quer um conselho? Abra uma igreja, Niéde."
“Quer um conselho? Abra uma igreja, Ni√©de.”

Eu sei que estou comparando alhos com bugalhos aqui, mas ver essas duas not√≠cias na minha linha do tempo do facebook me fez vomitar um pouquinho para dentro. Sabe n√©, aquela azia que sobe pelo es√īfago at√© a base da l√≠ngua? Esse mesmo.

Primeira notícia: CUnha enfia mais um jabuti.

Podia ser uma excelente notícia se fosse mesmo um jabuti (animal) e fosse em outro lugar que não na MP 668, que versa sobre o aumento de impostos sobre produtos importados. Jabuti é o apelido que se dá a um item que não tem nada a ver com o tema da MP. Afinal, isenção de imposto para trabalhadores de igrejas não tem muito a ver com aumentar impostos de importação, certo?

Basicamente, se for aprovada, e vai ser, afinal j√° foi tudo conversado por l√°, comiss√Ķes e gastos de servidores de igrejas n√£o pagar√£o impostos. Vai se abrir uma via imensa de sonega√ß√£o, j√° que o pastor pode estar registrado com um sal√°rio m√≠nimo mas ganhar 100 mil por m√™s em comiss√£o limpinha.

Segunda notícia: o fim da Serra da Capivara.

O Brasil pode mudar a hist√≥ria da ra√ßa humana. Os estudos da Ni√©de Guidon no Parque da Serra da Capivara t√™m mostrado que o homem pode ter chegado aqui nas am√©ricas muito antes do que se acreditava. As pinturas rupestres nas cavernas s√£o patrim√īnio da humanidade, o que obriga o Brasil a preserv√°-las. Mas com que dinheiro?
Em entrevista, Guidon fala que até o fim do ano o parque fecha por falta de verba. O aeroporto, que poderia trazer muitos turistas para aquela região e manter o parque, foi começado e nunca terminado.

‚ÄúEu acho que perdi realmente a minha confian√ßa no Brasil, inclusive estou pensando que tenho que voltar para a Fran√ßa, porque aqui n√£o deu certo. (‚Ķ) E n√£o tem nada a ver o fato de o Parque ser no Piau√≠, ele √© nacional e √© obriga√ß√£o do governo federal, do qual sempre tivemos apoio, mas agora est√° em redu√ß√£o completa porque o Brasil est√° falido. ‚ÄĚ ‚Äď Ni√©de Guidon.

Não vá não, Niéde Guidon. Quem sabe se montarmos a Igreja da Serra da Capivara a coisa não se resolve?

A NATURE liberou geral! Como ler artigos científicos sem pagar por eles

Denunciando a idade com a Porta da Esperança.
Denunciando a idade com a Porta da Esperança.

Vamos abrir as portas da esperança!!!

A Nature liberou para ler online todo o seu acervo! Não dá pra baixar, como eu disse é só para ler online, mas já é alguma coisa.

Ah, também não é qualquer um, você tem que receber um link de algum assinante para poder ver.

√Č, na verdade n√£o ajudou muito n√©?

Mas e daí?

√Č que pirataria na ci√™ncia acontece e muito. N√£o estou falando de pl√°gio de dados¬†ou coisas assim (que tamb√©m acontecem), mas de artigos cient√≠ficos distribu√≠dos sem autoriza√ß√£o das editoras. Sabe baixar m√ļsica de torrent? [Torrent? eu? Magina…]¬†Sei sei… Ent√£o, √© a mesma coisa, s√≥ que com informa√ß√£o cient√≠fica.

As revistas mais importantes, que os cientistas mais usam para se informar e se manter atualizados, são pagas. E são muito caras. E rola uma polêmica, porque funciona assim: o cientista produz o artigo, escreve, manda pra revista, ela escolhe se publica ou não, e se publicar ela cobra de todo mundo que quiser ler. Lembrando que o cientista que escreveu não recebe NADA por isso. Sacanagem, né? Ficou claro que publicar revistas científicas é um ótimo negócio, e que só institutos grandes conseguem pagar isso tudo.

Por causa disso, um cientista pobre, ou um jornalista, ou um professor, ou um ex-cientista blogueiro que escreve sobre ciência ( o/ ), fica sem poder se atualizar. E é impossível fazer ciência sem ler os artigos. Daí o moleque cruza o braço e chora? Claro que não. Ele Pirateia.

Como conseguir um artigo sem pagar por ele:

Mandar email para o autor:

Esse era o mais comum e antigo. Houve época em que se mandava pedaços de celulose com traços de tinta (carta) para o autor e este enviava uma fotocópia do artigo. Bacana disso é que estreitava laços e o autor sabia quem estava interessado na sua pesquisa. Com o email foi a mesma coisa, apesar de o autor em geral não poder fazer isso sem autorização da editora.

Pedir ajuda para os universit√°rios:

[segunda refer√™ncia a Silvio Santos, aff] – Universidades e outros institutos grandes fazem assinaturas para que todos os seus funcion√°rios possam ler os artigos que quiserem. Se eu n√£o trabalho l√°, mas conhe√ßo algu√©m que trabalha… Bom, entendeu n√©? √Č s√≥ pedir. E ningu√©m na lista interna de emails do Scienceblogs tinha pensado nisso! Olha que exemplo de retid√£o. O novo¬†sistema da Nature parece que vai ser s√≥ uma evolu√ß√£o desse tipo de envio, agora com uma autoriza√ß√£o da editora.

Esquema russo

Quando imagin√°vamos que o comunismo n√£o mais nos ajudaria… ele n√£o ajudou mesmo, afinal a Russia n√£o √© mais socialista. Mas l√° est√° hospedado um site que tira,¬†sabe Darwin de onde, os artigos abertos para voc√™. √Č s√≥ colocar o site com o artigo que ele se abre todo. √Äs vezes funciona, √†s vezes n√£o, mas √© o pre√ßo da clandestinidade, de quem¬†tem que ficar fugindo a todo momento¬†das editoras com advogados farejadores. O endere√ßo √© sci-hubPONTOorg, e voc√™ N√ÉO viu isso aqui!

Réxitégui

Sim, o twitter serve para alguma coisa! √Č s√≥ pedir o seu artigo com a rashtag¬†#icanhazpdf.

Google, sempre ele:

Google Acadêmico indexa pdf de qualquer fonte (site pessoal, rede social científica, etc) e coloca tudo em um mesmo link ( http://scholar.google.com.br/ )

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Dica do Massa Crítica

Nature makes all articles free to view

O maior mist√©rio, e o post mais in√ļtil, de 2013

Quem é macaco velho já sabe que o que vem fácil vai fácil. E com informação é a mesma coisa.

A gente vive num mundo onde ninguém paga nada para ter informação. Mas como pode ser isso se um bom escritor/jornalista/roteirista é caro? Porque a informação de graça que temos quase sempre é ruim. Muito ruim.

Nessa fome que os sites têm por cliques, que é o que paga as contas pela publicidade, eles fazem alguns absurdos.

Quer um exemplo simples?

O maior mist√©rio de 2013…

We have absolutely no clue what built this crazy-complex structureSabe o que √© isso? N√£o? Nem eu. Nem NINGU√ČM!

Em mar√ßo de 2013 saiu num post no site io9 uma not√≠cia¬†(copiado do post original da WIRED) a imagem de uma estrutura encontrada na amaz√īnia que ningu√©m fazia ideia do que era. Bonitinha, estranha e realmente ningu√©m sabe o que √©. Ok, isso √© uma not√≠cia ou pelo menos uma informa√ß√£o interessante e instigante. Passa.

Agora em dezembro aparece um UPDATE dessa not√≠cia com o t√≠tulo “Cientistas est√£o prestes a desvendar o maior mist√©rio de 2013”, e l√° estava a foto da coisinha estranha. Cliquei. [Mas voc√™ n√£o precisa clicar, viu. S√≥ ponho o link aqui por princ√≠pio, mas leia o resto antes]

…e o post mais in√ļtil do ano

√Č um post citando um twit de um grupo de cientistas dizendo que encontraram 11 dessas estruturas e que est√£o prestes a resolver esse mist√©rio. E √© isso. Mais nada.

Não, io9, isso NÃO é uma notícia. Não me interessa saber que alguém está quase desvendando um mistério, principalmente quando essa pessoa só disse que está perto de conseguir. Nem pra mandar um email pra esse pessoal? Esperar uma resposta minimamente informativa? Aliás, nem pra me dizer quem é esse cara, se é um cientista mesmo ou só um charlatão.

Mas pra quê apurar, né? O negócio é ter o máximo de cliques pelo mínimo esforço.

A revista WIRED √© que fez direito: mandou uma rep√≥rter para a amaz√īnia e est√° l√° para dar em primeira m√£o os resultados.

 

Eu fiquei na d√ļvida se eu esperava esse resultado sair antes de publicar isto aqui. Mas sabe como √©, se eu resolver tudo em um post, perco a chance de fisgar o seu click em mais um texto. Ent√£o FIQUE LIGADO NOS PR√ďXIMOS CAP√ćTULOS! ¬†ūüėČ

P√ĀRA, P√ĀRA, P√ĀRA! Depois dos comerciais eu mostro

Jornalistas de ciência são caros. Quem vai pagar?

Hunter S Thompson by nevarraven
Hunter S Thompson
by nevarraven

O jornalismo est√° em crise. E uma crise feia.

Se você é um cidadão, mesmo que não-jornalista, você TEM QUE LER esse artigo chamado O que podemos fazer para salvar o jornalismo, que dá uma boa ideia de toda a situação. Ele até sugere meios de resolver isso tudo. Muito bom esse artigo. LEIA! 

O problema é sempre a grana. Agora, com a internet, a publicidade saiu dos jornais e revistas impressos mas não foi todo para as mídias digitais: de cada  4 dólares de publicidade que saem dos impressos, só 1 vai para a internet, ou seja, os blogueiros não ganham mais e os jornalistas da impressa ficam desempregados.

Bons jornalistas, experientes e especializados em política e economia, por exemplo, são importantes, claro. Nenhum estagiário pode fazer o papel de uma Mirian Leitão ou um William Waack. O problema é que eles são caros, e com razão.

Bom, se o jornalismo como um todo j√° est√° passando por maus bocados, imagina os pobres jornalistas de ci√™ncia, que sempre cobriram esse tema t√£o dif√≠cil, delicado e importante como pol√≠tica e economia, mas que √© tratado como uma curiosidade sup√©rflua nas reda√ß√Ķes do mundo todo. Contamos nos dedos os bons jornalistas de ci√™ncia brasileiros, e eu tenho a honra de¬†¬†ter muitos deles como colegas aqui no¬†ScienceBlogs Brasil. Foi o contato com esse pessoal que me mostrou a diferen√ßa de um jornalista generalista e um especializado, e a diferen√ßa √© imensa, acredite.

Todo cidadão tem que estar esperto com esta questão do jornalismo porque ele é uma ferramenta indispensável para o nosso sistema democrático. A gente precisa de informação pertinente, imparcial, investigativa e de qualidade pra tocar o país.

E em ciência, viver de press release não dá!

 

Como um doutor em biologia pode ser anti-Darwin?

Three_Wise_Monkeys

Uma amiga minha, Rubia, me mandou este texto que mostra um inconformismo parecido com o que eu senti quando fiquei sabendo, nas palavras dela, que ”¬†51%¬†dos norte-americanos n√£o acredita na evolu√ß√£o darwiniana e eles dizem isso¬†na maior cara-de-pau”. Absurdo n√©? Farei os meus coment√°rios depois, talvez em outro post, mas agora veja o que ela tem a dizer sobre isso.

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Esta semana eu estava fazendo as leituras obrigatórias para uma disciplina que curso como ouvinte no Departamento de Comunicação da Universidade de Cornell. O tema é o debate sobre o ensino da teoria da evolução versus design inteligente (D.I.) nas escolas norte-americanas. Vale ressaltar neste ponto que sou formada em ciências biológicas e que acredito na evolução tanto quanto acredito na lei da gravidade.

Enquanto lia, visualizava os adeptos do D.I. como uma minoria caipira do tipo que vai fazer compras no supermercado vestindo a cueca por fora da calça. A cavalo.

Estava cansada de ler e as tr√™s gurias com quem eu moro estavam conversando¬†sobre as aulas da semana, ent√£o resolvi aproveitar a pausa para falar do tema¬†da minha aula. Falei por uns 3 minutos sobre as leituras e li em voz alta uma¬†ou outra frase de uma entrevista que dizia que Darwin era o respons√°vel pela¬†difus√£o do ate√≠smo no mundo. Tudo com bastante sarcasmo e ironia, pois achei¬†que estava falando de algo bastante √≥bvio. Uma delas ent√£o me perguntou o que¬†eu achava da evolu√ß√£o. N√£o entendi a pergunta e ela repetiu, ‚Äúvoc√™ acredita na¬†evolu√ß√£o? Acha que √© verdade?‚ÄĚ Ainda confusa com a pergunta (d√£h!) respondi¬†que sim, e com bastante medo praticamente sussurrei: ‚Äúvoc√™…n√£o?‚ÄĚ

ATEN√á√ÉO ‚Äď OS PR√ďXIMOS PAR√ĀGRAFOS PODEM CAUSAR ARRITMIA,¬†CONFUS√ÉO MENTAL E TAQUICARDIA

Ela com a cara mais lavada me diz que n√£o. E uma por uma, as outras tr√™s¬†(t√≠nhamos uma visitante) confirmaram que ‚Äútamb√©m n√£o acreditam na¬†evolu√ß√£o‚ÄĚ. E pasmem, tamb√©m n√£o acreditam na teoria do Big Bang.

Eu simplesmente não sabia o que dizer, estava horrorizada. Chocada. Triste. Com pena do Darwin. Para os desavisados como eu, saibam que algo entre 48% e 51% dos norte-americanos não acredita na evolução darwiniana e eles dizem isso na maior cara-de-pau, sem o menor medo de ser feliz. Aqui é normal.

A entrevista da qual eu falei foi feita em 2009 com o Jonathan Wells, um Doutor em biologia celular e molecular pela Universidade da Califórnia (ele também é Doutor em estudos religiosos pela Universidade de Yale). Selecionei dois trechos particularmente interessantes, a entrevista na íntegra pode ser encontrada aqui:

Entrevistador: “Este ano é o bicentenário de Darwin. O que você poderia dizer

que √© um bom resumo, hoje em dia, dos seus escritos sobre evolu√ß√£o?‚ÄĚ
JW: “Por quê não celebramos o centenário de Mendel nos anos 1920, ou o
tricenten√°rio de Newton nos anos 1940? Ambos foram grandes cientistas.‚ÄĚ

Pausa: Hein?! O que tem a ver o c….

Prosseguindo:

JW: ‚ÄúDarwin n√£o √© celebrado por suas contribui√ß√Ķes cient√≠ficas, mas porque sua
teoria se tornou o mito criador do ate√≠smo.‚ÄĚ

Outro trecho peculiar:

JW: ‚Äú(…) dados do projeto genoma est√£o revelando grandes inconsist√™ncias no
argumento Darwiniano de que todos os organismos compartilham um ancestral
comum, e que ningu√©m nunca observou a origem de uma nova esp√©cie ‚Äď muito
menos a origem de novos √≥rg√£os ‚Äď por varia√ß√£o e sele√ß√£o. Por outro lado, a
evidência para o design inteligente está aumentando. Mais cedo ou mais tarde,
evid√™ncia vencer√°.‚ÄĚ

O que não sai da minha cabeça é: como uma pessoa que passou por um doutorado em biologia celular e molecular pode ser anti-Darwin? Mais ainda, com uma quantidade irrefutável de evidências científicas e de consenso quanto à teoria da evolução, como é possível que de cada 2 norte-americanos, só 1 acredite nela?

Para Chris Mooney e Matthew Nisbet, a pol√™mica tem ra√≠zes religiosas mas¬†grande parte da culpa √© da m√≠dia. Eles afirmam em um artigo intitulado¬†‚ÄúUndoing Darwin‚ÄĚ (ou ‚ÄúDesfazendo Darwin‚ÄĚ) que quando a evolu√ß√£o sai do¬†campo cient√≠fico e entra no campo pol√≠tico e jur√≠dico, ela deixa de ser coberta¬†por jornalistas com conhecimento cient√≠fico para navegar entre p√°ginas sobre¬†pol√≠tica e opini√£o, e tamb√©m nos jornais televisivos. Todos esses contextos, cada¬†um ao seu modo, tendem a retirar a √™nfase na forte evid√™ncia cient√≠fica em favor¬†da evolu√ß√£o para dar credibilidade √† ideia de que h√° uma crescente controv√©rsia¬†sobre a ci√™ncia evolutiva, e assim a m√≠dia est√° cumprindo o seu papel e cobrindo¬†‚Äúos dois lados‚ÄĚ do t√≥pico. Eles afirmam categoricamente que esta pr√°tica ‚Äúpode¬†ser politicamente conveniente, mas √© falsa‚ÄĚ.

O Estado √© laico mas mesmo assim temos referencias religiosas no dinheiro,¬†nas escolas, na pol√≠tica com o caso escandaloso do pastor Feliciano como¬†presidente da Comiss√£o de Direitos Humanos. √Č o verdadeiro samba do crioulo¬†doido.

Algo semelhante acontece com o caso das mudan√ßas clim√°ticas e aquecimento¬†global. Ao tentar veicular ambos os lados do debate de maneira ‚Äúimparcial‚ÄĚ, a¬†m√≠dia retrata de maneira bastante desproporcional a opini√£o partilhada pela¬†maioria dos cientistas quando dedica o mesmo tempo no ar (ou o mesmo espa√ßo¬†na m√≠dia impressa) para os c√©ticos. D√° nisso, o p√ļblico fica confuso e a ignor√Ęncia¬†se espalha feito fogo no milharal.

 

@rubiagaissler √© doutoranda em ambiente e sociedade e estuda as rela√ß√Ķes entre m√≠dia e ambiente.¬†Seu blog, Ci√™ncia Sapiens, pode ser visto aqui:¬†rubiagaissler.wordpress.com.

 

UPDATE: continue lendo sobre este assunto no próximo post:

Se a sua fé precisa de embasamento científico é porque está fazendo alguma coisa errada

 

Ato P√ļblico na SBPC sobre a distribui√ß√£o dos royalties do pr√©-sal!

Sei que está muito em cima da hora, mas não posso deixar de divulgar o evento que acontecerá hoje na sede da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, em São Paulo.

Trata-se de um Ato P√ļblico que come√ßar√° √†s 14h30 no Sal√£o Nobre da entidade e tem como objetivo chamar a aten√ß√£o e tentar reverter o quadro atual de distribui√ß√£o dos royalties do petr√≥leo que n√£o inclui um percentual de destina√ß√£o para as √°reas de educa√ß√£o, ci√™ncia, tecnologia e inova√ß√£o (C,T&I).

O evento √© aberto ao p√ļblico e reunir√° dirigentes de institui√ß√Ķes de educa√ß√£o e C,T&I, docentes, pesquisadores, parlamentares e autoridades dos governos estadual e federal.

Eu estarei l√°. Quem n√£o puder comparecer saber√° tudo o que aconteceu aqui pelo RNAm.

Mais informa√ß√Ķes sobre o evento em Entidades cient√≠ficas fazem novo ato p√ļblico em favor da Educa√ß√£o e C,T&I.

Já escrevi sobre a situação dos royalties do pré-sal no post Royalties do pré-sal: como transformar óleo em desenvolvimento nacional.

Aproveite a oportunidade para contribuir com a sua assinatura e ajudar essa importante causa!

“Overdose homeop√°tica” Dia 5 de fevereiro tem Desafio 10:23!

No pr√≥ximo s√°bado acontecer√° o Desafio 10:23, um protesto que busca conscientizar o p√ļblico sobre o que a homeopatia realmente √©.

√Äs 10h23 da manh√£ do dia 5 de fevereiro, hor√°rio local, ativistas em mais de 10 pa√≠ses realizar√£o uma “overdose homeop√°tica” coletiva para demonstrar que:

1023-Brazil-300x205.pngHomeopatia – √Č feita de nada

A “overdose” ser√° registrada por fotos e filmes, sendo em seguida compartilhada em redes sociais como Twitter, Facebook, Orkut etc. pelos volunt√°rios e apoiadores. H√° alguns dias apoiadores, organizadores e volunt√°rios est√£o divulgando material relacionado √† campanha. Alguns deles s√£o:

Homeopatia não é feita de nada (Rainha Vermelha)

M√©dicos, CFM, homeopatia e imoralidades (U√īleo)

Para uma ideia diluída, o remédio é conhecimento concentrado. (RNAm)

Será que ele é? (RNAm)

Para saber como o protesto funciona, confira o vídeo abaixo!

A mídia também tem dado cobertura ao evento:

Céticos questionam a eficácia da homeopatia (Gazeta do Povo РPR)

Ativistas contra a homeopatia v√£o tomar “overdose” (Portal R7)

Ativistas contra a homeopatia v√£o tomar ‘overdose’ no pr√≥ximo s√°bado, 5 (Estad√£o.com.br)

Mais informa√ß√Ķes sobre a a√ß√£o em http://1023.haaan.com/

Será que ele é?

Tirinha.jpg

Hunf, toler√Ęncia tem limite…

Essa tirinha foi traduzida do ótimo Saturday Morning Breakfast Cereal e inaugura os posts relacionados ao Desafio 10:23, um protesto em que ativistas em mais de 10 países se reunirão no fim de semana de 5-6 de fevereiro de 2011 para
esclarecer que:

1023-Brazil-300x205.png

Querem saber mais? Acessem http://1023.haaan.com/ e saibam tudo sobre a ação!

ps 1: Culpem o GIMP e suas fontes gringas pela falta de acentuação, eu juro que tentei encontrar uma fonte boa que as aceitasse.

ps 2: Por favor, não me façam explicar a piada da tirinha. Sério.

O caso dos amino√°cidos perdidos…

A motiva√ß√£o desse texto vem de uma reportagem sobre a possibilidade de alguns amino√°cidos serem provenientes do espa√ßo, na qual senti necessidade de corrigir alguns escorreg√Ķes:

  1. “Os amino√°cidos s√£o important√≠ssimos porque ajudam a compor as prote√≠nas, indispens√°veis para a exist√™ncia de todas as formas de vida no nosso
    planeta.”
  2. “Ao estudar os fragmentos de um meteorito… descobriram… amino√°cidos do tipo canhoto.” (nunca ouvi amino√°cidos D e L serem chamados “destros” e “canhotos”, algu√©m pode confirmar?)
  3. “Na Terra, todos os seres vivos t√™m amino√°cidos canhotos… Mas isso n√£o quer dizer que a vers√£o destra seja imposs√≠vel
    por aqui. Cientistas j√° conseguiram sintetiz√°-la em laborat√≥rio.”

Sabemos que os aminoácidos são moléculas que, interligadas,
formam a cadeia principal de todas as proteínas. Ao contrário do comentado na reportagem, não é uma questão de
“ajudar a compor” e sim de definir. Desse modo, sem os os amino√°cidos simplesmente n√£o h√° prote√≠na.

Aproveitando o tema, existem dois “causos” relacionados aos amino√°cidos que me incomodam demais h√° algum tempo:

  1. Por que quase ningu√©m fora da √°rea de prote√≠nas reconhece a exist√™ncia de 2 amino√°cidos “extras” al√©m dos 20 cl√°ssicos?
  2. O que diabos h√° com um mundo em que ainda √© comum encontrar a frase “os L-amino√°cidos s√£o os √ļnicos presentes nas prote√≠nas” e suas vari√°veis?

O mistério dos aminoácidos proscritos
Os dois amino√°cidos nunca citados s√£o a selenociste√≠na e a pirrolisina. Pode-se imaginar que os dois sejam resultado de alguma modifica√ß√£o p√≥s-traducional, ou seja, a informa√ß√£o para sintetiz√°-los n√£o estaria no DNA mas seria um produto indireto da express√£o gen√©tica. No entanto, dados cient√≠ficos j√° demonstraram que ambos s√£o codificados como os 20 amino√°cidos “cl√°ssicos”. Por que continuamos com o padr√£o “existem 20 amino√°cidos codificados pelo nosso genoma”?

Uma explica√ß√£o √≥bvia poderia ser: “o conhecimento √© muito novo, por isso ainda n√£o foi incorporado aos livros e √© desconhecido por gente fora da √°rea”.

Essa justificativa pode ser válida para a pirrolisina, identificada em bactérias do gênero Methanosarcina apenas em 2002, mas no caso da selenocisteína esse conhecimento está disponível desde a década de 1960! Qual é a explicação?

Aminoácidos através do espelho

Quem j√° estudou Biologia e nunca ouviu a frase “todos os amino√°cidos biol√≥gicos (com exce√ß√£o da glicina) s√£o L-amino√°cidos”?

quiral.jpgA nomenclatura D ou L vem da compara√ß√£o estrutural com a mol√©cula quiral do gliceralde√≠do. Quiral √© o nome dado a mol√©culas que possuem um √°tomo de carbono ligado a 4 grupos qu√≠micos diferentes, de modo que sua estrutura n√£o √© sobrepon√≠vel √† sua imagem num espelho. √Č a distribui√ß√£o espacial dos grupos qu√≠micos em torno desse carbono quiral que denomina, em compara√ß√£o √†s formas do gliceralde√≠do, os amino√°cidos L ou D.

Voltando à questão: em biologia sempre teremos L-aminoácidos, certo? Errado!

Em mais um inexplicável caso, desde a década de 1940 são conhecidos D-aminoácidos em organismos vivos. Inicialmente identificados nas paredes celulares de bactérias Gram-positivas, a suspeita da existência biológica desses aminoácios existia desde a década de 1930, quando foi descoberta uma enzima de mamíferos chamada D-aminoácio oxidase EC 1.4.3.310.

A suspeita é lógica: porque haveria uma enzima especializada em D-aminoácidos se os mesmos não participassem no metabolismo desses animais? Como esperado, algum tempo depois foram identificados e quantificados D-aminoácidos nos fluidos corporais de vertebrados. Novamente: porque esse conhecimento não foi atualizado?

O que justifica essa defasagem do ensino? Tomara que as atualiza√ß√Ķes dos livros de Biologia n√£o demorem muito mais tempo, afinal, a situa√ß√£o j√° est√° ficando feia!

Notícias:

Referência:

SILVA, Jo√£o J. R. Fra√ļsto da  and  SILVA, Jos√©
Armando L. da. D-amino√°cidos em biologia: mais do que se julga. Qu√≠m. Nova [online]. 2009, vol.32, n.2 [cited  2011-01-20], pp. 554-561 (Link para a vers√£o PDF.)

A ingenuidade de Bill Gates sobre a Biologia

Caro Bill Gates,

Sinto informar que células não são tão rápidas quanto elétrons. Mais que isso: burocracia para mexer com gente e com o ambiente não é tão simples quanto programar um software.

Digo isto em vista da reportagem do New York Times, repassado pela √Čpoca, sobre o balan√ßo dos investimentos em pesquisa em sa√ļde feitos pela funda√ß√£o Gates.

 

“Cerca de 1.600 propostas chegaram, e as 43 principais eram t√£o promissoras que a Funda√ß√£o Bill & Melinda Gates liberaram US$ 450 milh√Ķes em bolsas de cinco anos _ mais de duas vezes a estimativa inicial.
Recentemente, a funda√ß√£o chamou todos os cientistas a Seattle para avaliar os resultados e decidir quem seguir√° recebendo os financiamentos. Numa entrevista, Gates soou de certa forma moderado, dizendo diversas vezes: “N√≥s fomos ing√™nuos”.”

[Leia a história e os projetos selecionados aqui]

 

Mas na verdade n√£o d√° pra saber se ele foi ing√™nuo ou enganado pelo hype alardeado pelos projetos. Afinal o objetivo de escrever um projeto √© justamente convencer a todo custo quem o l√™. O famoso “puxar a sardinha pro seu lado”, coisa que as vezes (muitas vezes) os cientistas fazem exagerando nas expectativas e enviesando as perspectivas. Outra coisa √© que tem v√°rios ganhadores do Nobel participando, e convenhamos que receber um projeto de um cara desses e dizer “n√£o” n√£o deve ser f√°cil.

Fato √© que ele parece n√£o ter gostado do resultado. E muita gente, incluindo um comentarista da reportagem acima, os cientistas e o pr√≥prio Bill Gates acham que o dinheiro investido nessas pesquisas foi algo bem significativo! Quando na verdade o gasto √© irris√≥rio comparando com gastos militares por exemplo. Para entender meu ponto de vista voc√™ precisa ler este texto espetacular do 100 Nexos, onde se l√™ que antes do telesc√≥pio Hubble, o instrumento mais fant√°stico da astronomia por muito tempo, que ajudou a desvendar milhares de mist√©rios do espa√ßo, do tempo passado e do futuro, √© uma aplica√ß√£o tardia de um projeto de sat√©lites-espi√Ķes que somaram 9 em nossa √≥rbita!

Ou seja, enquanto mendigamos por recursos para a astronomia e tamb√©m para outras √°reas como a sa√ļde e o bem-estar humano, uma quantia gigantesca √© gasta sem que n√≥s sequer saibamos onde.

Obrigado Bill Gates, continue assim gastando parte da sua fortuna pelo bem do próximo (e olhem que eu não estou nem questionando o como essa fortuna foi adquirida), mas acho que mesmo este esforço é uma gota num oceano de descaso pela vida humana.