O Grande Debate do Unic贸rnio

鈥淒ou cem d贸lares se algu茅m puder demonstrar que n茫o existe um unic贸rnio imaterial nesta sala.鈥

Quando eu disse isso aos meus alunos num curso sobre ci锚ncia e pseudoci锚ncia, eles me olharam com descren莽a. Suspeito que a incredulidade n茫o seja pela 贸bvia impossibilidade da tarefa, mas pelo fato do professor colocar uma nota de cem sua na mesa para provar uma posi莽茫o. Assim come莽ou o Grande Debate do Unic贸rnio, que durou v谩rias semanas, at茅 que a energia intelectual dos participantes tivesse sido exaurida. As primeiras tentativas de resolver o problema foram geradas por uma m谩 compreens茫o da quest茫o: um dos estudantes declarou que era muito simples: basta encher a sala com 谩gua, e o corpo do unic贸rnio deslocaria um certo volume de 谩gua, o que revelaria a presen莽a ou demonstraria a aus锚ncia do animal (aparentemente, preocupa莽玫es 茅ticas sobre a possibilidade de afogar o unic贸rnio estavam fora da proposta). 鈥淓u disse 鈥榠material鈥, n茫o 鈥榠nvis铆vel,鈥欌 lembrei. Como todos sabem, a 谩gua passa por corpos imateriais sem ser deslocada. 鈥淥h!鈥 As tentativas seguintes foram forjadas mais cuidadosamente.

Um esfor莽o particularmente esperto 鈥 que claramente pegou o objetivo do exerc铆cio 鈥 foi: 鈥淣茫o h谩 unic贸rnios imateriais nesta sala de aula, porque em nossa sala existe uma condi莽茫o atmosf茅rica, indetect谩vel por qualquer dispositivo que temos atualmente, que faz com que unic贸rnios materiais se materializem, dessa forma tornando-os vis铆veis a olho nu鈥. Fala em me vencer no meu pr贸prio jogo.Mas eu n茫o ia deixar meus cem irem embora t茫o f谩cil. Eu respondi que a pessoa em quest茫o obviamente n茫o entendia os mist茅rios do Unicornismo, ou perceberia o quanto essa tentativa foi tola.

Uma aluna veio com uma solu莽茫o filosoficamente mais desafiadora ao problema:

  • Fato 1: Imaterialidade 茅 definido como aus锚ncia de mat茅ria.
  • Fato 2: A mat茅ria n茫o pode ser criada nem destru铆da.
  • Conclus茫o 1: Algo imaterial n茫o pode ser criado nem destru铆do.
  • Fato 3: O pensamento existe apenas como algo imaterial.
  • Fato 4: O pensamente existe apenas na pr贸pria mente.
  • Conclus茫o 2: H谩 algo imaterial que existe apenas na pr贸pria mente.
  • Conclus茫o 3: A presen莽a de algo imaterial pode ser criada ou destru铆da apenas na pr贸pria mente.
  • Conclus茫o 4: A cria莽茫o ou destrui莽茫o de algo imaterial na pr贸pria mente 茅 determinada pela cren莽a.
  • Conclus茫o Final: N茫o h谩 um unic贸rnio imaterial e invis铆vel a n茫o ser que se creia nisso dentro da pr贸pria mente.

Maldi莽茫o! Queria que mais te贸logos mostrassem um senso de racioc铆nio t茫o agu莽ado.

Ainda assim, n茫o era bom o bastante, e pedi 脿 turma que verificasse a prova apresentada e visse onde estavam as falhas. Em meia hora de discuss茫o, v谩rios problemas foram revelados.

Primeiro, a f铆sica moderna n茫o sustenta mais que a mat茅ria n茫o pode ser criada nem destru铆da. De fato, de acordo com a mec芒nica qu芒ntica, esses processos acontecem o tempo todo. A raz茫o pela qual normalmente n茫o os detectamos 茅 que s茫o muito r谩pidos e se equilibram perfeitamente, assim n茫o esperamos que uma cadeira subitamente apare莽a do nada ou desapare莽a. (Embora, pela teoria das supercordas, esse tipo de flutua莽茫o qu芒ntica pode ter sido respons谩vel pela origem do Universo, que teria literalmente vido 脿 exist锚ncia de lugar nenhum. Assustador鈥)

Segundo, quem disse que o pensamento 茅 imaterial? Alguns remanescentes cartesianos podem ainda pensar assim, mas no s茅culo 21 est谩 se tornando mais aceit谩vel considerar o pensamente como um aspecto de atividades bem f铆sicas ocorrendo no c茅rebro. De fato, podemos medir quais partes do c茅rebro est茫o envolvidas em v谩rios tipos de pensamentos e at茅 sentimentos. N茫o quer dizer que tenhamos um entendimento total do que 茅 o pensamento – longe disso. Mas as chances de que se mostre que s茫o imateriais (no sentido de n茫o depender da mat茅ria) s茫o muito reduzidas.

Mas observe que eu concordo plenamente com a conclus茫o: n茫o h谩 unic贸rnio imaterial a n茫o ser que se acredite nisso na sua pr贸pria mente. Mas a 煤nica justificativa que eu (ou qualquer um, at茅 onde eu saiba) posso dar para tal conclus茫o 茅 a minha pr贸pria intui莽茫o.

A mesma aluna apresentou outro argumento, dessa vez baseado nas leis da f铆sica. Ela corretamente sustentou que um unic贸rnio imaterial n茫o poderia ser afetado pelas leis da f铆sica, ou se aproveitar delas, por ser imaterial por defini莽茫o. Assim, poder铆amos imaginar o unic贸rnio como um ponto imaterial sem extens茫o, como um ponto euclidiano. Tal ponto imaterial n茫o poderia 鈥渇icar鈥 na sala porque a pr贸pria sala 鈥 junto com a Terra e o Sistema Solar 鈥 se move pelo espa莽o em alta velocidade. O cerne dessa demonstra莽茫o depende na intui莽茫o do pr贸prio Descartes do problema em que se meteu propondo um conceito dual铆stico do corpo humano: se a mente n茫o 茅 corp贸rea, como ela afeta o corpo?

Descartes 鈥渞esolveu鈥 o problema postulando que a gl芒ndula pineal era a sede da alma. Mas, como todos os fil贸sofos depois dele perceberam, minimizar o tamanho do ponto de contato entre o material e o imaterial (a gl芒ndula pineal 茅 a menor do sistema end贸crino) n茫o desfaz o paradoxo de uma entidade imaterial agindo sobre a mat茅ria (ou vice versa). De fato, isso 茅 o que torna fantasmas, ectoplasmas e experi锚ncias extracorp贸reas t茫o dif铆ceis de acreditar: se voc锚 est谩 fora do corpo, como voc锚 se v锚 deitado na cama? Com que olhos? Que c茅rebro h谩 para processar o sinal visual? E, dado que seu sentido de 鈥渟i鈥 depende de ter um c茅rebro funcionando, quem 茅 voc锚, quando voc锚 est谩 fora do corpo?

Mas, claro, para salvar meu dinheirinho, s贸 o que eu precisava responder era que 鈥 de novo 鈥 os mist茅rios do Unicornismo dizem n茫o apenas que o unic贸rnio imaterial n茫o 茅 um ponto, mas que ele permanece na sala sem problema, 茅 macho, tem um metro e meio de altura e 茅 branco (como eu sei que ele 茅 branco se ele 茅 imaterial e invis铆vel? Bem, a essa altura voc锚 deve saber: 茅 um mist茅rio do Unicornismo鈥).

Ao fim, meus alunos concordaram que n茫o h谩 maneira de demonstrar a inexist锚ncia do unic贸rnio fantasmal. Depois de garantir meus cem d贸lares, eu perguntei se apesar de tudo eles acreditavam na exist锚ncia do unic贸rnio. A resposta foi unanimemente negativa. 鈥淧or qu锚?鈥, perguntei, fingindo surpresa. 鈥Porque 茅 tolice acreditar em uma coisa para o qual n茫o h谩 evid锚ncia,鈥 foi a aturdida resposta geral. Alguns segundos depois, algu茅m perguntou: 鈥淓nt茫o qual 茅 a diferen莽a para a cren莽a em Deus?鈥 Mas a hora da aula havia terminado, e deixei-os discutindo teologia, com a satisfa莽茫o de ter feito um bom trabalho.

Texto de Massimo Pigliucci, Via Godless Liberator

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