Populismo: breves considerações sobre seu significado

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Rodrigo Mayer, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

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Nas últimas décadas, muito se tem falado e escrito sobre o populismo. Seu uso se refere tanto a lideranças e partidos à direita (Trump, Le Pen, entre outros) quanto à esquerda (Chávez, Podemos, etc.) do espectro político que se opõe as estruturas de poder vigentes. A origem do termo remete a expansão da participação popular na arena política, fato que foi utilizado por diversas lideranças (Perón e Vargas, são os maiores exemplos na América Latina) para se opor as forças dominantes de seu período e construir uma relação simbólica com a população e, assim, legitimar seu poder (WEFFORT, 1989).

Durante as décadas de 1950 e 1960 o termo caiu em desuso e foi retomado na década de 1980, para se referir a Frente Nacional francesa. Apesar de possuírem representantes à esquerda, os novos populistas são comumente identificados como conservadores, ou seja, as estratégias populistas não se restringem a apenas uma ideologia. Como consequência do processo de profissionalização dos partidos políticos e a maior fluidez das identidades, os novos populistas focam em diversas camadas sociais, porém mantém a característica essencial do populismo que é retirada de sua legitimidade através de vínculos emotivos com o povo e se auto intitularem defensores da população.

Embora muito utilizada, a definição de populismo ainda é vaga e pode se referir tanto as lideranças originárias do processo de modernização na América Latina quanto a líderes de outras regiões que buscam extrair seu poder por meio da relação direta com o povo descontente com os rumos da política.

Mas afinal, o que é o populismo? Essa não é uma pergunta fácil de responder, pois o fenômeno pode ser definido como uma espécie de ideologia, uma forma de governo ou como um fenômeno social (CERVI, 2001). Em comum, as três definições argumentam que o populismo se refere a construção de uma relação simbólica entre o líder e parte da população através de um apelo contrário as elites, isso é, a construção de um discurso de “nós”, a população, contra setores privilegiados (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013).

O relacionamento com o povo – que também é pouco teorizado – é a principal fonte de legitimidade da liderança populista. Ela, não apenas discursa em seu nome, como também fala em devolver o poder ao povo. A definição deste se encontra repleto de significados, que podem ser mais gerais – como nacionalismo versus estrangeiros, população contra a elite, etc. – bem como mais específicos, como representações de etnias e culturas (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013). O líder, neste caso, não é apenas o auto intitulado porta voz das aspirações populares, mas também o que melhor sabe o que é bom para o povo. Por fim, esse relacionamento pode ser interpretado de duas formas: a) positivo: o líder é tido como um indivíduo que lê as demandas da população e trazê-las para a arena política e; b) negativa: em que a população é estigmatizada e considerada como incapaz de perceber apelos demagógicos e de participar do processo eleitoral. É importante notar que a visão positiva trata basicamente de características pessoais das lideranças, enquanto a negativa, carrega uma certa dose de elitismo ao considerar a população inapta a participação na esfera política

A emergência de movimentos populistas se encontra intimamente relacionada com a insatisfação e problemas com os resultados das democracias. No primeiro momento, na América Latina, o crescimento destes movimentos veio acompanhado com problemas decorrentes do processo de modernização (passagem de uma sociedade urbana para rural, baixa qualidade dos empregos, intensas migrações e, concentração do poder econômico em poucas mãos) (DI TELLA, 1997). Em um segundo momento, o populismo emana da insatisfação com as promessas não cumpridas pelos regimes democráticos (aumento de desigualdades econômicas e sociais, crise de representação, corrupção, etc. e a exclusão da população do centro do poder decisório (CANOVAN, 2004). Como alternativa a esses problemas, os populistas propõem o uso de mecanismos de democracia direta (consultas, plebiscitos, referendos) ou apelar ao povo, de modo a se sobrepor as instâncias decisórias institucionais.

Portanto, o populismo, apesar de muito citado, é um fenômeno ainda pouco teorizado nas ciências sociais (e na ciência política, em particular). O fenômeno, de modo sintético, trata basicamente da construção de uma relação simbólica entre uma liderança do tipo carismático e uma parcela da população em oposição a grupos que são identificados como portadores de privilégios.

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Rodrigo Mayer, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

 

Referências bibliográficas

CANOVAN, M. Trust the people! Populism and the two faces of democracy. Political studies, vol.47, n.1, p.2-16, 1999.

CANOVAN, M. Populism for political theorists? Journal of political ideologies, vol.9, n.3, p.241-252, 2004.

CERVI, E. As sete vidas do populismo. Revista Sociologia e Política, n.17, p.151-156, 2001.

DI TELLA, T. Populism into the twenty-first century. Government and opposition, vol.32, n.2, p. 187-200, 1997.

LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013.

WEFFORT, F. 1989. O populismo na política brasileira. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Ciência e política: duas coisas inseparáveis

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Eduardo Sato, autor do blog Torta de Maçã Primordial.

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Provavelmente muitos não enxerguem quanto ciência e política estão atreladas e quanto uma afeta a outra, minha hipótese é que a ciência como forma crítica de interpretar o mundo não é ensinada nas escolas de maneira proposital, como diria Darcy Ribeiro: “A crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, não é uma crise, é um projeto” [1].

Talvez parte do problema seja o fato das pessoas não entenderem o que um cientista faz, ou mesmo o que é ciência de modo geral. Mas não se engane, isto não quer dizer de forma alguma que a população brasileira não tem interesse por ciência: uma enquete realizada em 2015 pelo Centro de Gestão em Estudos Estratégicos (CGCE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostra que 61% dos entrevistados se declararam interessados ou muito interessados pelo tema, porém 87% não soube informar o nome de um instituto de pesquisa científica brasileiro e 94% não conhece o nome de um cientista brasileiro [2].

Quando a (falta de) ciência afeta a política

            Existem dois pontos onde a falta de ciência é bastante problemática: na percepção da população sobre algumas decisões políticas e nas próprias tomadas de decisão dos políticos em questões que envolvem ciência.

Um caso onde o primeiro ponto ficou bastante claro para mim aconteceu em 2016, quando Michel Temer assumiu a presidência e montou sua equipe de ministros sem ao menos uma mulher [3]. Na época, houve uma grande polêmica sobre este fato, como um claro exemplo de machismo, pois a probabilidade de isto acontecer ao acaso era muito baixa. Eu (que ainda não tinha nenhum envolvimento com divulgação científica) concordei com o argumento e supus que ninguém havia calculado esta probabilidade por preguiça, então eu fiz um modelinho simples, fiz o calculo e publiquei a imagem a seguir no Facebook.

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            Figura 1: Probabilidade de uma equipe com 23 pessoas escolhida ao acaso contenha um número m de mulheres, dado o pré-requisito de que todos sejam brasileiros, acima de 25 anos e possuam ensino superior completo [4].

            Acompanhando os comentários, percebi que a grande maioria das pessoas nunca tinha visto um teste de hipótese nula! Isto foi um choque para mim, pois no mundo das ciências exatas esta ferramenta é usada de forma bastante corriqueira, por que não ensinamos isto nas escolas? Outro choque para mim, foi o fato de muitos não entenderem o que é uma distribuição binomial (esta inclusive é parte do currículo do ensino médio) fora do contexto bobo de lançamento de vários moedas para determinar o número de caras e coroas.

Refletindo um pouco sobre este caso, comecei a pensar como a estatística e diversas outras ciências não são ensinadas nas escolas como ferramentas para interpretar o mundo, mas sim como coisas para se decorar para a prova. Em especial, a estatística é apresentada como argumento em diversos meios de comunicação, mas me respondam estimados leitores, vocês aprenderam no ensino médio, o que significa por exemplo, a “margem de erro de 2% para mais ou para menos” que tanto se fala nas pesquisas eleitorais?

Outro problema que podemos apontar no aspecto de percepção política é que posições políticas são tratadas por muitos como uma crença, ou como uma parte da suas personalidades e não como algo baseado em evidências: um estudo realizado pela University of Southern Carolina indica que pessoas tem mais resistência a mudar de opinião sobre questões politicas quando apresentadas a contra-argumentos em relação a opiniões sobre questões não políticas [5].

Isto vai completamente contra o espírito do método científico, onde se o mundo não corresponde as previsões do nosso modelo devemos descartar completamente nossas hipóteses. Então fica a pergunta: se a população tivesse um letramento científico “ideal”, teríamos um reflexo disso nas visões políticas?

Com isso podemos pensar no segundo ponto: as tomadas de decisões políticas. Segundo uma tese de doutorado defendida na London School of Economics, cientistas costumam ter pouca voz no processo de formulação de políticas públicas na área ambiental [6]. Possivelmente esta conclusão possa ser generalizada para as demais áreas de ciência, onde dificilmente cientistas são consultados em questões técnicas e prevalecem as opiniões dos seres políticos.

Um exemplo na cidade de São Paulo é a lei municipal 13.440 de 2002 (com redação alterada pela lei municipal 16.644 de 2017) que proíbe o uso de celulares em postos de gasolina [7], com a justificativa de que celulares poderiam produzir faíscas que levariam a acidentes devido a presença de materiais inflamáveis.  Quão absurda é a existência de uma lei assim?

Sabem o que produz faíscas? Carros. Como será que o redator dessa lei acha que funciona o sistema de ignição de um carro? Será que deveríamos todos empurrar nossos carros para fora do posto antes de ligá-los? Aliás, as máquinas utilizadas na cobrança de cartões de débito/crédito são celulares disfarçados… elas também são proibidas? Não é preciso um físico ou um engenheiro eletricista para perceber a ineficácia desta lei, mas se apenas um deles tivesse sido consultado, esta lei nunca existiria.

E não só nas leis está o problema da falta de voz dos cientistas nas pautas que envolvem ciência, pois estes mesmos políticos que não confiam em ciência, decidem os orçamentos da ciência, através dos repasses para agências de fomento, universidades, laboratórios nacionais e demais centros de pesquisas públicos.

Não é à toa que ao primeiro sinal de crise financeira tenhamos cortes enormes nos investimentos em ciência e tecnologia como os que acontecem atualmente e motivam diversas marchas pela ciência por todo o país.

Divulgação científica como parte da solução

            Com o apresentado fica claro que o letramento científico não é o único fator para mudar as políticas públicas, mas talvez parte da solução seja mudar a percepção pública de ciência. Cientistas por muito tempo se dedicaram e ainda se dedicam exclusivamente à ciência sem se importar em explicar à população (que financia as pesquisas) qual a importância do seu trabalho, ou mesmo qual é o trabalho de um cientista.

Está mais do que na hora dos cientistas saírem das suas torres de marfim e criarem um canal de dialogo aberto com a sociedade. Parte importante dessa comunicação já existe através dos meios de divulgação científica, mas o que temos ainda é pouco.

Neste contexto quero parabenizar o ScienceBlogs Brasil, pelos dez anos nessa jornada de levar ciência de forma acessível a população e por servir como inspiração para o surgimento de diversos outros canais de divulgação científica no Brasil, onde incluo nós do Blogs de Ciência da Unicamp. Nós temos um papel de extrema importância nessa mediação entre ciência e sociedade e precisamos não só continuar este trabalho mas também incentivar novas iniciativas que ampliem esta comunicação! Continuemos escrevendo, pois como já concluímos os blogs não morreram!

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Eduardo Sato é doutorando em física pela Unicamp, autor do blog Torta de Maçã Primordial e membro da equipe do Blogs de Ciência da Unicamp.

 

 

[1] Ribeiro, D. Sobre o óbvio. Em: Ensaios insólitos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

[2] Moraes B,  Caires L, Fontes H. Pesquisa revela que brasileiro gosta de ciência, mas sabe pouco sobre ela. Jornal da Unicamp. Campinas: 2017, Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/09/25/pesquisa-revela-que-brasileiro-gosta-de-ciencia-mas-sabe-pouco-sobre-ela

[3] Arbex T, Bilenky T. Ministério de Temer deve ser o primeiro sem mulheres desde Geisel. Folha de São Paulo, São Paulo: 2016, Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1770420-ministeriado-de-temer-deve-ser-o-primeiro-sem-mulheres-desde-geisel.shtml

[4] Sato, EA. Meus dois centavos sobre a falta de representatividade dos ministros de Temer. Facebook, Campinas: 2016, Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=999783896742911&set=a.255352981186010.71761.100001339318044&type=3&theater

[5] Kaplan JT, Gimbel SI, Harris H. Neural Correlates of maintaing one’s political beliefs in the face of counterevidence. Sci. Rep. 6, 39589; doi: 10.1038/srep39589 (2016). Disponível em: https://www.nature.com/articles/srep39589

[6] Donadelli FMM, Reaping the seeds of discord: advocacy coalitions and changes in brazilian enviromental regulation. London School of Economics, PhD thesis, London: 2017, Disponível em: https://www.researchgate.net/project/PhD-Thesis-5

[7] Nunes R. Lei Nº 16.644, de 9 de maio de 2017. Disponível em: https://leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/lei-ordinaria/2017/1664/16644/lei-ordinaria-n-16644-2017-altera-a-redacao-dos-arts-1-e-2-da-lei-municipal-n-13440-de-14-de-outubro-de-2002-e-da-outras-providencias

 

Uma cientista no Parlamento

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Mariana Moura membro-fundadora do Movimento dos Cientistas Engajados e pré-candidata a deputada estadual.

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Você consome tecnologia todos os dias. Está surpreso?

O nosso colchão, a toalha, a roupa que usamos no dia a dia, o café, o pão e o leite, o pacote de macarrão e o de molho de tomate. A luz que chega na nossa casa, a geladeira, a televisão, o rádio. O nosso despertador, o chuveiro. O celular e o computador. As paredes da nossa casa, a tinta, o nosso sofá. O remédio que tomamos quando estamos doentes e o conhecimento do médico que a gente consulta. Tudo isso é resultado da ciência. O conhecimento acumulado pela humanidade ao longo dos séculos transformado em produtos. Ciência é qualidade de vida.

É a casa mais barata e construída com materiais melhores. É o remédio da doença que as empresas farmacêuticas não têm interesse em curar. É a comida mais barata porque a terra produz mais e porque chega mais rápido na nossa mesa. É a possibilidade de estudar à noite porque tem energia elétrica. É o emprego com salários melhores e a valorização do salário mínimo. Ciência é Habitação, Alimentação, Saúde, Segurança, Educação e Emprego.

Os países centrais perceberam isso há décadas. Perceberam também que desenvolvimento científico se produz com investimento do Estado. No Brasil, pelo contrário, os investimentos em ciência são sempre os primeiros a sofrer cortes quando chega uma crise. Desde 2013, os repasses federais para o Ministério da Ciência e Tecnologia caíram quase pela metade chegando, no ano passado, a patamares do início do Século XX. O corte de 44% nos recursos deixaram a pasta com apenas R$ 3,7 bilhões para investir em 2017. Essa mentalidade está colocando em risco as pesquisas em andamento com o êxodo de recursos humanos que levaram anos e muito investimento para serem formados. Formamos 20 mil doutores por ano, mas estes profissionais não têm onde trabalhar no Brasil e acabam saindo do país para continuar suas pesquisas. Um projeto como o LNLS, que contém o laboratório de luz síncroton mais avançado do mundo, e que foi orçado em R$ 1,8 bilhão, adiou suas atividades pela falta de recursos este ano. Para poder produzir novos materiais de construção, novos medicamentos, empregos com salários melhores é preciso investimento público maciço e contínuo em Ciência e Tecnologia. A interrupção desses recursos põe a perder o que foi feito antes.

Nós exportamos milhões de toneladas de minério barato para comprar barras de aço,  exportamos petróleo para importar gasolina. Consumimos a tecnologia produzida por outros países a um custo anual de R$ 20 bilhões apenas para o pagamento de royalties e licenças de uso. Só para ter a permissão de usar. Isso é de uma irracionalidade sem tamanho. Temos todas as condições de transformar essa matéria-prima gerando emprego e renda. Temos que mudar a lógica e explorar conscientemente os materiais que temos respeitando limites ambientais e sociais do nosso território. O Brasil não pode se dar ao luxo de não investir em Ciência.

Um país com tanta riqueza não pode achar normal que existam pessoas sem um lugar para morar, sem saberem o que vão comer na próxima refeição. São 52 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. Isso é inadmissível! Especialmente em um país que possui reservas minerais e naturais entre as maiores do mundo e em uma época em que a cada dia, a cada hora, surgem novos mecanismos, novos processos, novos produtos que são capazes de melhorar a vida das pessoas. Permitir que vivamos mais e melhor.

Há décadas não temos grandes projetos científicos e o Plano Nacional de Ciência e Tecnologia, construído com pesquisadores, trabalhadores e agentes sociais de todo o país, foi abandonado em 2014 antes mesmo de ser colocado em prática. Tivemos recursos, mas não tínhamos projeto e, quando tivemos projeto, os recursos foram extraídos dele. Os atuais políticos do país pensam em ciência com base em um modelo não eficiente, sem visão global e gerenciado de modo não organizado que não trouxe os resultados esperados. Temos hoje excelência em setores pontuais, mas isso não chega à sociedade. Para reverter essa situação, é preciso pensar em Ciência como motor do desenvolvimento e inserir a produção científica no projeto nacional.

Por isso sou pré-candidata a deputada estadual em São Paulo.

E conto com vocês nesta empreitada!

Um forte abraço,

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Mariana Moura – Mestre em Ciências e doutoranda em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. Foi coordenadora geral da Associação de Pós Graduandos da USP Capital. É membro-fundadora do Movimento dos Cientistas Engajados e pré-candidata a deputada estadual pelo Partido Pátria Livre

E você, também é de ler?

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Hoje quem escreve é Maria Leticia Bonatelli do Blog Ciência Informativa.

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O que você faz para atingir o seu público alvo? Você conhece as pessoas que consomem o produto que você oferece? Existe uma fórmula ideal para uma divulgação científica que realmente contemple TODOS?

Bom, essas são perguntas que passam (ou deveriam passar) pela cabeça de qualquer pessoa que produz conteúdo. Aqui eu vou falar de nós, divulgadores científicos. Como muitos de vocês, eu tenho um passado na pós-graduação (mestrado e doutorado) e sempre tive interesse em compartilhar o meu conhecimento com o público que, muitas vezes, não tem acesso ao que é discutido na academia.

Foi então que em meados de 2014, eu e um grupo de colegas iniciamos um projeto de divulgação científica chamado Ciência Informativa. O projeto incluía a criação de um blog de divulgação, no qual textos abordando diferentes tópicos da ciência seriam publicados semanalmente e, além disso, o mesmo espaço seria oferecido para que QUALQUER pesquisador ou aluno pudesse publicar textos de divulgação científica sobre a sua pesquisa.

E se você observar a data de criação do blog – 2014 – vai ver que não foi exatamente no auge dos blogs. Outras mídias – vlogs, podcasts – estavam surgindo e ganhando muita, ou até mais, atenção que os blogs. Eu já ouvi de colegas da área que deveria mudar de mídia, que eu precisava ir para o Youtube e que os blogs já eram.

Mas, calma lá. Se pensarmos nas três perguntas iniciais que fiz, existe uma mídia que contemple todos? Um conteúdo que seja acessado por muitos públicos distintos? Crianças, jovens e adultos? E você, qual o produto que você mais consome na hora de se informar? Vlogs, podcasts ou blogs?

Particularmente, eu sou uma pessoa que gosta de ler para me manter informada. Consumo outros tipos de produtos também, mas de longe prefiro ler artigos e análises. E, então, será que não é assim com as outras pessoas também? Será que diferentes conteúdos não podem ser produzidos para contemplar diferentes públicos?

Um artigo publicado pela revista Nature em janeiro deste ano leva o título “Why science blogging still matters” e levanta diferentes pontos sobre a importância e as dificuldades da blogagem – se você ainda não leu, recomendo. Segundo o artigo, blogar pode ser um desafio por conta da disponibilidade de tempo (ainda mais se você também é pesquisador) e ainda por competir com outras mídias que acabam diluindo o impacto dos posts produzidos. Mas ainda assim, pode ser uma interessante forma de networking e, claro, de disseminação do conhecimento científico – seja entre pares ou não.

Nesses quase 4 anos de blogagem – o Ciência Informativa assopra velinhas em setembro de 2018 – nós vimos muitas mudanças acontecerem no mundo da internet. De fato, é difícil dizer qual será a nova mídia do momento ou qual app que usaremos daqui a seis meses. A mudança parece ser a única constante do mundo em que vivemos. E o blog, assim como as outras mídias, tem que se adaptar a essa realidade.

Se você me pergunta: o Ciência Informativa atinge números de visualizações de Youtube? Minha resposta é não. Nosso crescimento é mais lento e orgânico. Conquistamos nosso público ao longo desses anos, assim como os nossos colaboradores: cerca de 10% do conteúdo do blog foi escrito por pesquisadores e alunos que utilizaram a plataforma para realizar divulgação científica.

Sabemos sobre o que o nosso público mais se interessa: textos sobre meio ambiente são os mais acessados. Textos sobre linguagem e comportamento, que são tópicos com conteúdo mais escasso na internet, também são muito acessados. Além disso, sabemos que o nosso público chega aos nossos textos, muitas vezes, por meio de pesquisa nos buscadores online – utilize as palavras “Rio Doce História” no Google e você poderá ver o feature snippet do Ciência (Imagem abaixo).

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Tentar conhecer o seu público talvez seja uma das coisas mais importantes que você pode fazer para aprimorar o conteúdo que produz. Nós sempre tentamos aprimorar o conteúdo e o formato do texto, assim como diversificar os assuntos abordados. Como muito de vocês, nós também aprendemos fazendo. E essa também não seria uma função importante do blog? Capacitar pessoas para fazer divulgação científica?

Então se a ideia era responder se os blogs morreram, a minha resposta é um sonoro não. Diferentes conteúdos contemplam diferentes públicos e está tudo bem ser assim. No mundo da divulgação científica, você está aberto à experimentação e pode procurar qual mídia se encaixa mais. Claro que sempre há a necessidade de pensar em formas de melhorar o conteudo do seu blog, vlog, podcast ou outros, mas assim como eu prefiro ler, outras pessoas também irão preferir. E você, também é de ler?

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Maria Letícia Bonatelli do blog Ciência Informativa

Blogs de Ciência da Unicamp – Ainda estamos aqui

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Quem escreve hoje é a Erica Mariosa Moreira Carneiro, do Blogs de Ciência da Unicamp.

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It’s Alive” – Frankenstein (1931)

 

O prognóstico de morte dos blogs já foi anunciado por diversas vezes na mídia, contudo muitas iniciativas continuam insistindo nessa plataforma e conseguindo resultados interessantes e promissores! Tais como  nos seguintes casos, Science Blogs – que está comemorando 10 anos com essa blogagem coletiva -, Ciência Informativa, Gene Repórter, Blogs da Ciência, Mural Científico e nós, do Blogs de Ciência da Unicamp, que desde 2015 promovemos divulgação científica escrita e produzida por pesquisadores, docentes e alunos da Unicamp.

Os blogs surgiram, de acordo com Malini (2008) e Paquet (2002), há mais de duas décadas. O objetivo principal era ser um espaço virtual para, por meio de textos, expressar ideias, informar e opinar sobre assuntos variados. Diferentemente das comunicações em massa, como televisão e rádio, os blogs ganharam notoriedade devido à possibilidade de liberdade de expressão e interação com os leitores.

O nome “blog” vem de web-log, ou diário de rede e foi usado inicialmente pelo norte americano Jorn Barger para se referir ao seu jornal online Robot Wisdom que, na época, tinha a intenção de ser uma ferramenta que indicava páginas através de links, de acordo com a importância que o próprio autor do conteúdo as atribuia.

Com a evolução da tecnologia, do acesso e da maior disponibilidade de ferramentas, os blogs foram sofrendo mudanças. Primeiramente em seu tamanho, depois ao agregar funções, como inclusão de imagens, áudios, vídeos, etc. O Blogs de Ciência da Unicamp surgiu em 2015 em meio a essas mudanças, com o propósito de ser um portal de blogs de divulgação científica com conteúdo exclusivo e inédito produzidos por cientistas. Atualmente o projeto conta com 31 blogs ativos e 25 em fase de construção.

Dos anos noventa até os dias de hoje muita tecnologia “nasceu” e “morreu” e outras se reinventaram para se manterem competitivas. Neste contexto, arautos do apocalipse sugeriram por diversas vezes como “os blogs perderam sua força”, já que  “as pessoas não lêem mais”.

OS BLOGS PERDERAM SUA FORÇA:

Enquanto surgiam iniciativas de blogs no Brasil, o mundo da tecnologia apresentava novos formatos de comunicação que chamavam a atenção dos blogueiros e de seu público, sendo assim, muitos blogs foram abandonados ou migraram para outras plataformas.

Esse fenômeno motivou um extenso debate no canal de Blogs Gene Repórter, do divulgador científico Roberto Takata, com o título “Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?”, rendendo 7 postagens de 2013 à 2015. Dentre as diversas colaborações, Takata destaca que mesmo sem ter dados precisos, é possível perceber a diminuição das postagens em canais que acompanha. Percepção essa que se concretiza com a pesquisas a seguir:

  • Realizada em 2015 pela agência Grumft e divulgada pela Agência Adnews conclui-se que a blogosfera brasileira possuía 200 milhões de blogs ativos.
  • Em 2017 a empresa BigData Corp atualizou os dados da blogosfera brasileira, constatando que existem mais de 5,5 milhões de blogs no Brasil. Sendo que mais de 90% dos blogs aliam a sua exposição a redes sociais e outras plataformas, 48,53% utilizam Facebook, 48,21% o Youtube e 33,97% Twitter.

Com uma redução de 97% de blogs ativos no Brasil em dois anos de atuação é possível admitir que os blogs de fato perderam sua força, principalmente quando comparados a iniciativas de divulgação científica em outras plataformas, como o YouTube que possui uma audiência de 95% da população online brasileira – de acordo com os dados fornecidos pelo Youtube Insights 2017.

AS PESSOAS NÃO LÊEM MAIS:

Guimarães (2018) comenta que a última pesquisa sobre análise de comportamento de leitura foi aplicada em 2015, pelo Ibope Inteligência sob encomenda do Instituto Pró-Livro para o projeto Retratos da Leitura no Brasil[1], verificou-se que 56% da população brasileira é leitora, contudo o brasileiro lê poucos livros, uma média de 4 livros por ano, sendo que 2 dos livros não são terminados.

Entretanto, nessa análise precisamos também considerar o leitor virtual, ou seja, aquele que utiliza de blogs, e-books e redes sociais para ler. De acordo com o Instituto Reuters de Oxford[2] em 2016, 91% dos brasileiros usam a internet para se informar, sendo 72% desses, leitores de notícias.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE[3] em sua última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em seu suplemento de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) referente a 2016, concluiu que 64,7% da população brasileira está conectada a internet, desse montante, 71% usam a internet para educação e aprendizado e 68,6% para comunicação com outras pessoas. A partir dessas pesquisas, observa-se que o público leitor mantém-se “vivo” e utilizando cada vez mais o meio digital.

E o Blogs de Ciência da Unicamp, como se insere nesta discussão? Será que tem visto diferença, em seu público, desde seu lançamento nestes 2 anos e meio?

O BLOGS DE CIÊNCIA DA UNICAMP

Como o próprio nome já sugere, essa plataforma de blogs realiza divulgação científica a partir do conteúdo gerado pela Unicamp, sendo que as estratégias de divulgação de conteúdo para a sociedade acontece apenas de forma orgânica[4], em quatro redes sociais oficiais e quatro redes sociais em fase de teste.

Publicando ao menos uma postagem inédita ao dia direcionada ao seu público de interesse previamente identificado, realiza-se também sugestões de pauta para veículos de mídia, entre outras estratégias.

O projeto acaba de realizar sua 9a Integração com futuros blogueiros/cientistas da Unicamp. Desde o início do projeto, foram integrados 382 pesquisadores, dentre os quais 97 continuam ativos e 25 ainda estão em fase de desenvolvimento e preparação de seus blogs. A maioria dos participantes é formada por pós-graduandos (35% de doutorandos e 6% de pós doutorandos para 24% de docentes e) e mulheres (55%).

A administração do projeto é realizada por uma equipe de voluntários, divididos de acordo com suas atribuições e expertises pessoais, sendo 2 docentes, 1 doutor, 4 doutorandos, 1 mestre, 1 mestrando e 2 graduandos, desses são 7 mulheres e 4 homens.

Os resultados do projeto são medidos através dos analytics (oferecidos pelas mídias sociais, google e piwik). De 2015 até 2 de julho de 2018, segundo dados apresentados pelo Google Analytics, tivemos 75.851 leitores nas postagens do portal, destes 66% são de novos visitantes e 33% de visitantes que retornaram, 59,87% são mulheres e 40,13% são homens.

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Figura 1 – Visualizações no portal principal coletadas no Google Analytics

O Blogs de Ciência da Unicamp teve um aumento expressivo de leitores ao longo de 2 anos e meio de atuação, principalmente se considerarmos que não houve nenhum tipo de investimento financeiro em divulgação no projeto. Isso mostra que, apesar de novas tecnologias surgirem todos os dias, e a comunicação estar sempre se renovando, este tipo de mídia continua tendo um público cativo e crescente, que procura, se interessa e divulga seu conteúdo.

Talvez as iniciativas de divulgação científica que optem por esse formato não atinjam milhões de seguidores e algumas classes sociais rapidamente, como faz o YouTube, por exemplo. Contudo a função da divulgação científica escrita, o Blogs de Ciência da Unicamp tem se realizado satisfatoriamente.

É fundamental acrescentar que a dinâmica de acesso e o consumo do conteúdo escrito é diferente do conteúdo em vídeo ou áudio. Tal suporte não deve ser descartado por mera justificativa de procura de aumento de audiência, tendo seu nicho específico e, muitas vezes, complementar a outras plataformas e produções. É importante que conteúdos escritos de divulgação científica continuem sendo disponibilizados, já que a relação do leitor com o texto é diferente daquele que assiste com o vídeo. O ideal seria que os formatos se combinassem de forma complementar, com uma introdução mais simples em vídeo e seu aprofundamento por meio de um conteúdo textual.

Também é preciso dizer que o blog é uma opção acessível ao cientista que opta por realizar divulgação científica independente dos canais de comunicação de seus institutos e universidades, pois esse tipo de plataforma não exige uma  infraestrutura cara, como câmeras, editor de vídeo ou áudio, por exemplo. Também se destaca a relativa independência do divulgador científico, que usa a escrita como meio, em função de outras plataformas exigirem mais pessoas envolvidas (e com qualificações diferentes) na produção de conteúdo e/ou maior desenvoltura do divulgador – o que pode gerar um dispêndio de tempo e custo maior também. Contudo, embora a escrita seja um modo de divulgação mais individualizado, não torna simples ou fácil ao pesquisador. O futuro divulgador científico deve se esforçar em utilizar uma linguagem acessível por qualquer público que possa vir a seguir o seu canal, sempre primando pela qualidade da informação.

Quanto a pergunta inicial desta postagem…

NÃO, OS BLOGS NÃO MORRERAM!

Mas a divulgação científica, independente do formato escolhido, ainda precisa de um maior reconhecimento, investimento e engajamento para continuar se desenvolvendo. Há muito chão pela frente! Que tal caminharmos juntos?

 Agradecimento especial a toda a equipe Blogs de Ciência da Unicamp que participa, escreve e contribui voluntariamente para que o projeto se mantenha vivo e operante.

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Erica Mariosa Moreira Carneiro – Administradora do Blogs de Ciência da Unicamp. Graduação em Comunicação Social em Relações Públicas – PUCCampinas. Pós Graduação em Jornalismo Científico – Labjor/Unicamp. Mestranda em Divulgação Científica e Cultural – Labjor/Unicamp. Experiência em Divulgação em Mídias Sociais com Práticas Não Onerosas.

Colaborações: André Garcia, Ana de Medeiros Arnt e Cássio Riedo

BIBLIOGRAFIA

FRANKENSTEIN: The movie. Direção de James Whale e Produção de Carl Laemmle Jr. Estados Unidos: James Whale, 1931. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=J8KHc3ipm-0>. Acesso em: 03. jul. 2018.

MALINI, F. Por uma genealogia da Blogosfera: considerações históricas (1997 a 2001), 2008. Disponível em: <http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/lcvt/article/view/35> Acesso em: 28 mar. 2017.

PAQUET, S. Personal knowledge publishing and its uses in research. 2002. Disponível em : <http://radio.weblogs.com/0110772/stories/2002/10/03/ personal Know ledgePublishingAndItsUsesInResearch.html>. Acesso em: 25 mar. 2017.

GUIMARÃES, P. Retratos da Leitura – Perfil do Leitor. 2017. Disponível em: <https://www.institutoguimaraes.com.br/single-post/2017/07/27/Retratos-da-Leitura-%E2%80%93-Perfil-do-Leitor>. Acesso em: 03 jul. 2018.

SANTOS, I. Manuel Castells: um país educado com internet progride; um país sem educação usa a internet para fazer estupidez. 2017. Disponível em: <https://www.fronteiras.com/entrevistas/manuel-castells-um-pais-educado-com-internet-progride>. Acesso em: 03 jul. 2018.

[1] Foram entrevistadas 5.012 pessoas de 5 anos ou mais, alfabetizadas, ou não, e foram considerados leitores aqueles que leram algum livro nos três meses anteriores à entrevista.

[2] Pesquisa Completa: https://www.poder360.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Pesquisa-instituto-Reuters.pdf

[3] pesquisa completa: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2015/default.shtm

[4] Divulgação feita com estratégias de comunicação sem a geração de custo para o projeto.

Blogar ou não blogar? Eis a questão!

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Hoje quem escreve é a Lais Moreira Granato coordenadora do Blog Descascando a Ciência.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

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Eu como blogueira, fico irritada quando leio algum post ou ouço alguém falar que os blogs morreram. Isso não é verdade!!

Segundo o Google Trends, a procura por “como iniciar um blog” vem crescendo nos últimos anos. Cada vez mais, cresce o número de empresas que fazem uso do velho “blog” como uma forma de atualização de seus clientes sobre assuntos relacionados ao produto que é comercializado. Ou até mesmo como uma maneira de aproximação, já que um blog é bem mais dinâmico que um site, por exemplo.

Além das empresas, cientistas têm feito uso dos blogs como uma nova forma de divulgar os resultados de suas pesquisas e atrair a atenção da sociedade para a ciência. Prova disso é o número crescente de novos blogs vinculados a rede de blogs da UNICAMP, que foi criada em 2015 e como o Science Blogs Brasil que está completando 10 anos!

O que aconteceu nos últimos anos, é que com o surgimento de novas tecnologias, novas tendências também surgiram, e por isso foi preciso atualização!

Hoje em dia “a cara” dos blogs mudou! Hoje os blogs utilizam vídeos e outras ferramentas multimídias para incrementar seus textos e fazem uso das redes sociais para que consigam alcançar um maior número de pessoas. A criação de conteúdo não é mais apenas sobre palavras. A criação de conteúdo utiliza as palavras para criar uma história e essa “história” é mais do que apenas uma narrativa, como era no início dos blogs. Ela representa fortemente sentimentos, opiniões e pontos de vista que permitem que o escritor se conecte fortemente com o leitor.

Hoje os blogs são uma ferramenta de comunicação, a voz de uma marca, que integra textos, imagens, vídeos e o mais importante: emoção!

Eis que os Blogs não morreram! Na realidade, eles se tornaram muito mais efetivos com o passar do tempo. O importante é a qualidade do conteúdo que se deseja transmitir. Coisas boas sempre geram interesse!!

Vamos blogar!

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Charge de Luiza Carvalho (https://dialogoscciencia.com/2013/07/24/a-divulgacao-cientifica-e-a-minha-formacao-no-bacharelado-de-ciencias-biologicas-da-ufmg/

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Laís Moreira Granato, bióloga, mestre em Agricultura e Doutora em Genética e Biologia Molecular. Atualmente pós-doutoranda no Centro de Citricultura “Sylvio Moreira”/IAC e coordenadora do Blog Descascando a Ciência.

Os blogues morreram? Spoiler alert: não. Longa vida aos blogues.

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? E para essa inauguração chamamos o amigo Roberto Takata para falar da morte, ou não, dos blogs.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

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“O relato de minha morte foi um exagero.” Mark Twain 1897. [1]

Como já entrego no título, claro que os blogues não morreram. Basta constatarmos que você está lendo este texto em um.

Ok. Os blogues não morreram. Mas estão em risco de extinção em um futuro próximo? Aí é mais complicado de responder. Ao menos para os de ciência com autores brasileiros há alguns indícios nesse sentido. Como uma redução no padrão de atividade de uma amostra de 346 weblogs no estudo do qual tomei parte (Fig. 1). Ressalte-se, no entanto, que não é a única interpretação possível – pode ser que novos blogues (de ciências) estejam surgindo e o nosso levantamento não foi capaz de captá-los adequadamente. E pelo menos um estudo (com um número menor de “diários virtuais”) concluiu que estaria havendo um aumento.

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Figura 1. Variação do número de blogues de ciências ativos com autores brasileiros. Reproduzido de: Fausto et al. 2017.

Os blogues em geral – não nos restringindo aos de ciência em pt-br – aparentemente vão bem. No Worpress.com, a principal plataforma de blogues blogues* (isto é, tirando microblogues como o twitter; fotologues como o instagram ou Pinterest; videoblogues como muitos canais do YouTube; e plataformas de blogues que são mais um tipo de mídia social como o tumblr), o número total de postagens mensais vêm mantendo a tendência de crescimento desde o seu lançamento em 2005: de pouco menos de 600.000 postagens novas (25,6 milhões de pageviews) em outubro de 2006 a mais de 77 milhões de novos posts (20,7 bilhões de pageviews) em junho de 2018 (Fig. 2) (Uma cautela deve ser tomada, no entanto, já que se trata de números divulgados pela própria plataforma sem declaração de auditoria, e não um levantamento independente.)

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Figura 2. Variação do número de postagens dos blogues hospedados no WordPress.com ao longo do tempo. Fonte: WordPress.com.

Os blogues como formato de comunicação devem ainda continuar por vários anos com algum grau de influência (ainda que eventualmente setorial: para temas específicos ou para grupos específicos de pessoas). Verdade que isso é mais um desejo do que um prognóstico, especialmente para os de ciências. Se, de um lado, temos uma aparente crise na blogosfera cientófila brazuca independente (e mesmo internacional [vide nota 2]); de outro, talvez estejamos frente a um processo de institucionalização da divulgação científica através de blogues: em 2015 foi lançado o Blogs de Ciência da Unicamp e, em 2016, o portal UFRGS Ciência. De novo, mais um desejo do que um prognóstico, no entanto.

Embora atualmente na internet brasileira canais no YouTube – com centenas de milhares a milhões de views por episódio, como no caso do Manual do Mundo e do Nerdologia – e podcasts – com dezenas de milhares de ouvintes como o Dragões de Garagem ou o SciCast – tenham mais visibilidade, e várias iniciativas comecem a explorar outras mídias como o instagram, enxergo um papel importante dos blogues no ecossistema da comunicação pública de ciências online. Estes são plataformas que conseguem fazer a integração dessas outras mídias – por meio da incorporação (’embedding’) – e, melhor do que as demais, explorar a comunicação por meio do texto escrito. Por exemplo, equações são difíceis de serem exploradas em mídia de áudio, é possível de serem apresentadas em vídeo, mas explicações mais detalhadas podem ser prejudicadas pela dinâmica da narração de vídeos – no texto, as pessoas podem ir e voltar e saltar de modo mais eficiente; gráficos interativos podem ser facilmente inseridos nos blogues; e tendem a consumir menos banda (o que é um fator a se considerar quando uma fração significativa acessa via celular – se não houver um wi-fi disponível e confiável por perto, arquivos de áudio e vídeo podem esgotar rapidamente a franquia de dados). Textos também são mais maleáveis quanto à acessibilidade (ao menos de pessoas alfabetizadas) e, por enquanto, têm vantagens na indexação em mecanismos de busca, de tradução e mesmo de procura do próprio navegador. Boa parte das outras mídias têm limitações para o fornecimento de hiperlinks, especialmente para fora do site que hospeda o serviço, o que é facilmente integrado nos textos de blogues (na verdade, os links são parte do espírito blogueiro – para os leitores poderem se aprofundar, para indicar outros canais dignos de serem seguidos, para dar a fonte original…). E, possivelmente como característica principal, a produção e edição de texto também tende a ser muito fáceis e baratas do que uma boa edição de áudio e vídeo – facilitadas ainda pelo fato de a educação formal enfatizar a habilidade de escrita.

Algumas dessas vantagens poderão ser igualadas por áudios e vídeos na medida em que algoritmos se tornarem confiáveis em extrair os textos desses arquivos (permitindo, por exemplo, pular direto para trechos que falam diretamente de um termo ou assunto); outras, como links externos, dependem de alterações de políticas de serviço dos provedores (embora a tendência seja oposta, por exemplo, no facebook, que deseja manter os usuários em sua plataforma o máximo de tempo possível); mas o texto, em uma forma ou outra, tem resistido à prova do tempo.

Mesmo que os blogues blogues* não resistam às tendências atuais e futuras; os blogues nem tão blogues (como o tumblr, facebook, instagram e outros) que incorporem pelo menos alguma possibilidade de inserção de textos e explorar parte de suas vantagens devem continuar o legado. Ainda que isso seja mais desejo do que um prognóstico.

Nota:

*Blogues Blogues – blogs em formato clássico como WordPress e Blogspot

[1] A citação mais completa é:
“James Ross Clemens, a cousin of mine, was seriously ill two or three weeks ago in London, but is well now. The report of my illness grew out of his illness; the report of my death was an exaggeration.” Mark Twain, 31 de maio de 1897.
[“James Ross Clemens, um primo meu, esteve seriamente adoentado há duas ou três semanas em Londres, mas agora está bem. O relato de minha enfermidade surgiu a partir da enfermidade dele; o relato de minha morte foi um exagero.”]

[2] Como com o fechamento da versão original americana do ScienceBlogs – ATENÇÃO: o ScienceBlogs Brasil é um projeto independente e não foi afetado por essa decisão do grupo SEED.

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Neste instável mundo internético – do qual o cemitério de projetos da Google é um exemplo eloquente – não é qualquer empreitada que chega aos dois dígitos de translações terrestres.

Mais do que parabéns, devo dizer muito obrigado, ScienceBlogs Brasil, pelo belíssimo trabalho que tem feito nesta última década. Não apenas tem informado e conscientizado seus incontáveis leitores e fiéis fãs em relação a temas relacionados às ciências e dado visibilidade a tanto projetos e divulgadores incríveis; como inspirado um sem número de pessoas a seguirem a carreira científica e de comunicação de ciências. Um dos principais projetos de divulgação de uma das principais instituições brasileiras: o Blog de Ciências da Unicamp, é um filho espiritual direto dos SbBr.

Desejar longa vida aos SbBr é, assim, mais do que um cumprimento a todos os colaboradores – atuais e pregressos – e a comunidade de leitores que se formou em torno; é uma obrigação moral para alguém que aprecia e valoriza a cultura científica.

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Roberto Takata, entre outras coisas, escreve no Gene Repórter.

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