iGEM 2012 Latin America: Aquilo que realmente importa

f√ļria de maca

La f√ļria de Macarena en Bogot√°!

Esse √© o quarto e √ļltimo post da minha prolixa descri√ß√£o de como foi a fase da Am√©rica Latina do iGEM de 2012. Quatro posts s√£o at√© pequenos para realmente explicar tudo o que aprendemos e o que √© realmente importante nisso tudo, mas espero que esses posts possam servir como refer√™ncia para futuros times do iGEM na organiza√ß√£o de suas equipes para competi√ß√Ķes futuras – pelo menos eu espero que hajam mais times brasileiros nos iGEMs futuros! Haha!

Os “finalmentes” da Competi√ß√£o

Festa

A organiza√ß√£o colombiana foi realmente muito boa. Al√©m do fato da Universidade dos Andes ter uma das melhores infra-estruturas que j√° vi em uma universidade, a organiza√ß√£o do iGEM latino criou um grupo de volunt√°rios sensacional que possibilitou muitas coisas legais durante o Jamboree. Uma dessas coisas foi uma festa logo ap√≥s a apresenta√ß√£o dos p√īsteres em um dos lugares mais malucos que j√° vimos: o bar/baladinha/restaurante/”campo recreativo”/churrascaria “Andres carne de res“, que fica em Chia, uma cidade perto de Bogot√°.

Mauro A. Fuentes çlvarez

Um exemplo da “maluquice” do Andres carne de res

Esse lugar √© completamente maluco porque parece uma pintura viva de Salvador Dal√≠: cheia de coisas nonsense que ao mesmo tempo pareciam ter um sentido maluco obscuro. As mesas, ao inv√©s de n√ļmeros, t√™m nomes. Os gar√ßons e gar√ßonetes usavam um avental marrom propositalmente remendado que parecia ter sido emprestado de um a√ßougue. E o mais bizarro (e engra√ßado) de tudo: a cada meia hora os banheiros masculino e feminino invertiam a restri√ß√£o de g√™nero; ent√£o se voc√™ foi em um banheiro em um momento e quiser ir de novo depois, √© preciso checar se ele ainda √© masculino/feminino (dependendo do seu sexo, √© claro) antes de entrar. Craziness! Eu poderia fazer um post s√≥ sobre esse lugar! Mas o que realmente importa aqui √© pudemos interagir bem melhor e conhecer mais pessoalmente os outros participantes da Am√©rica latina do iGEM. A organiza√ß√£o acertou em cheio em um lugar para impressionar os estrangeiros.

Cerim√īnia de Premia√ß√£o

Depois de termos feito uma t√≠pica e inc√īmoda barulheira-no-fundo-do-buz√£o brasileira na volta da festa (com direito a “fulano-roubou-p√£o-na-casa-do-jo√£o”), dormimos muito pouco e fomos sonolentos tentar nos orientar no confuso sistema de transporte transmilenio num dia de domingo.

A Universidade dos Andes (assim como provavelmente a maioria das universidades do mundo) estava semi-desértica no domingo. Fiquei preocupado se cairia narcolepticamente em sono pesado durante a premiação, o excelente café colombiano e a animada organização evitaram que isso acontecesse.

Antes de apresentarem os resultados e anunciarem os finalistas, houve uma pequena apresenta√ß√£o de v√≠deos dos projetos do iGEM e depois algo que me foi particularmente constrangedor: cada time escolhia um hombre e uma mujer para ir ao palco dan√ßar um dos ritmos latinos caracter√≠stico da col√īmbia (n√£o sei diferenciar qual porque para mim todos s√£o iguais). Adivinha quem o Brasil escolheu… Por motivos de preserva√ß√£o de imagem, vou me limitar apenas uma foto do ocorrido e n√£o o material de chantagem que meus colegas filmaram.

Baila Macarena!

Baila Macarena!

¬†Ah! S√≥ um detalhe: intencionalmente ou n√£o, eles escolheram um par para dan√ßar justamente de pa√≠ses¬† com praticamente nada a ver com os ritmos que os outros representantes da Am√©rica latina compartilhavam: Brasil e Argentina! Samba e Tango! Nada a ver com “os mambos”! E ainda de pa√≠ses rivais no futebol!

¬†¬†Pois bem. Depois desse pre√Ęmbulo vexaminoso, a organiza√ß√£o (por algum motivo obscuro) ficou adiando constantemente o an√ļncio das medalhas, nos dizendo para termos paci√™ncia e esperarmos um pouco. Isso s√≥ serviu para escancarar a ansiedade nos olhos e nas conversas paralelas do grupo brasileiro. Como eu tinha dito no primeiro post,¬† eu sinceramente n√£o achava que levar√≠amos ouro. Acho que alguns do time tamb√©m n√£o, mas naqueles momentos vivos da cerim√īnia de premia√ß√£o a vontade de querer acreditar que era poss√≠vel se inflava. Eu me controlava para ser racional e me apegar a uma s√©rie de pensamentos que havia tecido em momentos de menor tens√£o. Resolvi me entregar ao esporte de twittar os acontecimentos antes do twitter do iGEM LA o fazer. Na verdade, eu estava mesmo preocupado como seria a rea√ß√£o das outras pessoas do nosso time ao recebermos os resultados.

Special Prizes

Primeiro foram anunciados os ganhadores dos special prizes. Basicamente, o time colombiano e um mexicano levaram quase todos os special prizes. E o best presentation ficou para o time chileno, como j√° esper√°vamos (e que relatei nesse post aqui). Confira os resultado abaixo:

Finalistas

O an√ļncio dos finalistas veio em um slide s√≥ e com todo o sensacionalismo que tem direito: uma anima√ß√£o para cada time sendo mostrado entre as quatro classifica√ß√Ķes poss√≠veis: ouro, prata, bronze e no medal.

Naqueles segundos entre uma revela√ß√£o e outra, o meu c√©rebro fez aquilo que os c√©rebros adoram fazer com os humanos em momentos decisivos: passar um inconveniente filminho de acontecimentos e sensa√ß√Ķes que nos levou at√© ali. Pensei no crowdfunding. Pensei em quando o Mateus teve que deixar o grupo para trabalhar na Braskem. Pensei nas reuni√Ķes quase “miadas” que organizei. Pensei em como eu me agarrei t√£o forte e teimosamente √†quele sonho depois que sa√≠ do Ci√™ncias Moleculares. Pensei nos dias decisivos em que consegui juntar ao barco pessoas important√≠ssimas para o grupo. Pensei nos problemas de laborat√≥rio. Pensei nas discuss√Ķes. Pensei nas jogadas de cintura para resolver os problemas que encontr√°vamos. Pensei nos nossos erros. Pensei em tudo o que tivemos que fazer para conseguir dinheiro para a viagem. Pensei que represent√°vamos universidades cheias de renome. Pensei que represent√°vamos o Brasil. Pensei no que significava estar ali n√£o s√≥ pra mim, mas para todos os outros malucos que foram comigo at√© l√°. Pensei que √©ramos brasileiros.

Enfim. Como vocês devem ter percebido a minha ingênua capacidade de ver os fatos analiticamente e sem emoção foi pra cucuia. Ao vermos o resultado da medalha de prata, fui invadido por uma sensação de trabalho cumprido. Não fiquei triste. Por incrível que pareça, todo aquele turbilhão de pensamentos desaguou na preocupação de como o grupo estava recebendo aquela notícia, e naquele momento, eu vi o quão teimosos e incríveis nós fomos. Nós fomos brasileiros.

Resultados do Jamboree LA

Resultados do Jamboree LA

Pós iGEM

Depois de algumas expectativas confirmadas e outras confrontadas, chegamos a um consenso de que tínhamos mandado bem. Como disse no primeiro post, não se mede o progresso até onde se chegou, mas de onde se saiu até onde se foi. O que importa é a derivada!

Depois da cerim√īnia eu via em muitos rostos aquela caracter√≠stica cara de digest√£o mental de pensamentos. Essa cara s√≥ ganhou outro molde na tradicional foto do Jamboree, onde todos os times posam para uma √ļnica foto.

Jamboree Photo

Jamboree Photo

E ainda pudemos tirar fotos com os times que mais conversamos durante a competição: Panamá, Argentina e um do México.

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Nós e o time panamenho.

Nós e os chilenos e argentinos - viva el Mercosul!

Nós e os chilenos e argentinos Рviva el Mercosul!

Apesar de o Fernando, o nosso representante da Unesp, ter ido embora no mesmo dia, nosso grupo se dividiu entre aqueles mortos de cansaço e aqueles que estavam chutando o balde. Tive meu momento em ambos os grupos.

Antes de podermos descansar, a organização ainda se deu ao agradável trabalho de organizar uma visita ao Museo del Oro e ao centro histórico de Bogotá.

Visitando a praça Simón Bolivar.

Visitando a praça Simón Bolivar.

Nós, colombianos, mexicanos e a profa. Tie.

Nós, colombianos, mexicanos e a profa. Tie.

Durante isso aproveitamos e conversamos bastante com uma ju√≠za brasileira da competi√ß√£o, Tie Koide. Simp√°tica, ela respondeu a todos os questionamentos sobre o julgamento dos times que povoaram a mente do grupo ap√≥s a cerim√īnia de premia√ß√£o. Algumas (n√£o todas) confirma√ß√Ķes de expectativas foram:

  • Sim, a wiki ficou boa – apesar de estar faltando algumas coisas…
  • Sim, os resultados do Plug’nPlay foram convincentes!
  • Sim, aquela pergunta-de-quem-n√£o-entendeu-nada que nos apareceu p√≥s apresenta√ß√£o foi realmente vista como se n√≥s n√£o soub√©ssemos o que est√°vamos fazendo.

J√° algumas coisas que n√£o corresponderam ao que esper√°vamos foram:

  • N√£o, a Human Practices n√£o estava OK. Acho que o que fizemos com o Blog e o Clube de Biologia Sint√©tica foi sensacional nos par√Ęmetros brasileiros, mas se olhando no par√Ęmetro internacional n√£o √© grande coisa. Talvez tenhamos sofrido com um pouco de descontextualiza√ß√£o: um site sobre Biologia Sint√©tica (o synbiobrasil) em um pa√≠s que praticamente n√£o tem nada disso causa bem mais impacto do que um site em um pa√≠s que j√° faz algo do tipo, como nos EUA por exemplo. Apesar disso eu concordo que dever√≠amos ter nos preocupado mais com essa parte.
  • A modelagem ficou OK, mas poderia ser melhor. O que eles est√£o procurando mesmo √© algo al√©m de equa√ß√Ķes diferenciais. N√£o fomos t√£o bem como poder√≠amos por uma certa ingenuidade em n√£o saber ao certo como eles nos iriam avaliar.

No dia seguinte, dia que iríamos embora, aproveitamos e nos encontramos com algumas pessoas da organização com quem fizemos amizade e fomos dar mais uma volta por lugares históricos de Bogotá. Foi ótimo para tirar um pouco o stress.

O que realmente importa

Nos reunimos cerca de uma semana depois na USP para conversarmos sobre o que todos tinham aprendido com aquilo tudo; sobre quem ainda ia continuar na empreitada, o que precisava ser mudado, quais s√£o os novos planos e etc. Uma das coisas que mais me tocou foi saber aquilo que tinha ficado curioso em saber desde o dia da cerim√īnia de premia√ß√£o: o que diabos est√° se passando na cabe√ßa de todos!? Quando perguntei o que significou o iGEM para as pessoas do grupo, algumas pessoas disseram que era essa a √ļnica coisa que ainda a motivava a estar na universidade. Em meio a centenas de aulas meramente contemplativas, inicia√ß√Ķes cient√≠ficas desestimulantes (em que o aluno recebe o projeto pronto e n√£o tem liberdade de criar e fazer algo “seu” – dentro dos limites e a tem√°tica do lab em quest√£o, √© claro) e em um ambiente academicista desetimulador de atividades empreendedoras (pelo menos entre os institutos da maioria das pessoas envolvidas), o iGEM surgiu como a oportunidade dos alunos acharem seu prop√≥sito dentro da faculdade, de estimul√°-los a estudar, a criar, a fazer! Tamb√©m achei interessante que algumas pessoas s√≥ foram realmente entender o que √© o iGEM e todo o seu impacto s√≥ quando estavam l√° em Bogot√°.

O que realmente importa: as pessoas!

O que realmente importa: as pessoas!

Essa reuni√£o foi uma das reuni√Ķes mais importantes do Clube de Biologia Sint√©tica. Nela, ficou bem claro pra mim o que realmente importa – aquilo que √†s vezes se perde em meio ao stress e a prazos apertados. Como o Carlos¬†j√° havia me dito antes (mas s√≥ nesse momento percebi de verdade), a grande ideia do projeto em lab √© fazer as pessoas aprenderem e se desenvolverem como cientistas. O que vier al√©m disso √© lucro. Contudo o essencial √© isso: as pessoas. N√£o importa a medalha, a wiki, a apresenta√ß√£o, os experimentos e tudo mais se o que fazemos n√£o atinge direta ou indiretamente as pessoas, se n√£o √© uma oportunidade de mudar e gerar pessoas com capacidade de mudan√ßa.

Esperamos continuar a ser aquilo que fomos (e tentar melhorar um pouquinho mais!): teimosos, questionadores e pr√≥-ativos. Talvez assim consigamos manter acesa a chama da oportunidade de poder fazer algo diferente na academia, algo “com as pr√≥prias m√£os”, algo em busca de resultados. N√£o sei se vamos conseguir tudo isso, mas com certeza vamos fazer o que realmente importa: criar a oportunidade para pessoas crescerem e se reinventarem. Isso vale mais do que ouro.