Competi√ß√Ķes de Biotecnologia e os novos Rituais de um Fazer Ci√™ncia Marginal

Vários meses treinando. Às vezes anos. Tudo pra chegar nas Olimpíadas e ganhar um pedaço de metal que nem de longe paga o custo e esforço para chegar até ali naquele momento. A pessoa toda abandonada, sem dinheiro, sem apoio  Рaquela que vira o alvo preferido doa jornalistas quando ganha alguma coisa Рfaz tudo isso só por causa dessas benditas medalhas. Pra que todo esse esforço, não é mesmo?

Rio 2016 - Jud√ī

Mas v√° l√° e pergunte pro Diego Hyp√≥lito se ele pararia com isso. Ou se a Rafaela Silva desistiria¬†do jud√ī. At√© mesmo quem s√≥ assiste tudo de longe consegue sentir o qu√£o aquilo tudo √© emocionante – a n√£o ser que voc√™ tenha o cora√ß√£o de pedra, a√≠ voc√™ n√£o vai sentir nada mesmo. A quest√£o √© que essas pessoas e as competi√ß√Ķes que elas vivem s√£o reflexos de coisas muito mais antigas que as pr√≥prias Olimp√≠adas: os rituais do caminho do her√≥i; do caminho do indiv√≠duo ef√™mero na Terra. Em um dos seus livros mais famosos (O Her√≥i de Mil Faces), o mit√≥logo Joseph Campbell aponta como os rituais s√£o importantes no caminho do “her√≥i”. Essa figura √© presente em v√°rios contos, hist√≥rias e mitos de diversas culturas de diversas √©pocas e lugares do mundo, √© no fundo uma tradu√ß√£o cultural de coisas inexor√°veis na vida de todos: nascimento, morte, crescimento, separa√ß√£o, d√ļvida, medo, sexo… Os rituais seriam ent√£o muito importantes no desenvolvimento da percep√ß√£o e verdadeira viv√™ncia das diferentes fases da vida. N√≥s precisamos de rituais para viver, somos o her√≥i que precisa fazer suas passagens e travessias para salvar o mundo e a si mesmo. A aus√™ncia de rituais geraria portanto uma estagna√ß√£o, um sentimento de que as coisas n√£o acabaram quando deveriam – por isso, √† grosso modo, velamos nossos mortos, mudamos de corte de cabelo, arrumamos a casa, mudamos de endere√ßo. Segundo Campbell, na nossa sociedade contempor√Ęnea esses rituais tornam-se mais ausentes e a falta deles √© o que contribui para o desenvolvimento de transtornos da mente. Ent√£o, de certo modo, vivenciamos esse rituais como podemos. As competi√ß√Ķes, sejam elas quais forem, s√£o perfeitas para isso.

theherowithathousandfaces

Capa da primeira edi√ß√£o do “O Her√≥i de Mil Faces”

O Fazer cient√≠fico talvez seja um conjunto de rituais muito mais expl√≠cito que a maioria dos esportes. A situa√ß√£o pelo menos √© a mesma: pouco dinheiro, pouco apoio, falta de compreens√£o, reconhecimento como objetivo principal de carreira… A carreira cient√≠fica inclusive √© uma competi√ß√£o (para muitos). Os ritos s√£o ali√°s muito mais frequentes e expl√≠citos; pense na express√£o “inicia√ß√£o cient√≠fica”, nas roupas cerimoniais de formatura, nos chap√©us engra√ßados, nas cabe√ßas raspadas, “prova”, “defesa” de tese, na maneira como s√£o dadas as palavras e proferidos os juramentos – finja que voc√™ n√£o sabe o que √© a academia e tudo vai parecer uma seita muito bizarra. E tudo isso fica inclusive marcado em todo processo cient√≠fico, como por exemplo, a quem √© permitido (ou esperado) fazer determinados tipos de questionamentos, a quem pertence a fala, as decis√Ķes – tudo passa por um ritual de valida√ß√£o que transforma o “her√≥i” para capacit√°-lo a “ser”. Pelas ideias de Campbell, a academia seria excelente para preencher o vazio de rituais de passagem no nosso mundo contempor√Ęneo. S√≥ que n√£o. N√£o √© isso que acontece. Essa seita bizarra est√° mais para uma… uma gangue de drogas, dizem alguns. A forma n√£o est√° mais junta de significado, n√£o h√° her√≥i nem transforma√ß√£o modificadora de verdade nesses rituais. A n√£o ser no aspecto menos formal (e um tanto negligenciado) da universidade: a extens√£o.

Desde 2012 o Clube de Biologia Sint√©tica da USP √© o projeto de extens√£o brasileiro que mais gerou equipes para a competi√ß√£o internacional de m√°quinas geneticamente modificadas, o iGEM. Assim como o Diego Hyp√≥lito ou a Rafaela Silva, um monte de pessoas vieram e v√™m participar do Clube de Biologia Sint√©tica e vivenciam, talvez da maneira mais intensa que se pode, a jornada ritual√≠stica do her√≥i dentro do caminho da ci√™ncia que os empolgam: a biotecnologia. Essa ter√ßa-feira foi o √ļltimo dia para documentar todo o trabalho feito pelos times brasileiros da USP de Lorena, USP de S√£o Paulo¬†e pela Federal do Amazonas¬†em suas wikis, e √© √©poca perfeita para se olhar para tr√°s e se perguntar o que tudo isso significa – j√° que semana que vem todos est√£o embarcando para os EUA. Depois de participar de tr√™s iGEMs e um BIOMOD¬†posso dizer que o significado de fazer isso tudo √© exatamente por TER significado, coisa que os antigos rituais acad√™micos j√° n√£o fazem mais – novos e “verdadeiros” rituais s√£o uma necessidade para seguir em frente. Pensar o pr√≥prio projeto coletivamente e interdisciplinarmente “do zero”, buscar apoio, financiamento e espa√ßo; protagonismo, autonomia, trabalhar em equipe, organizar experimentos, resolver problemas experimentais inesperados, fazer a wiki, barganhar interesses, colaborar com outras equipes, viajar para Boston e ainda publicar os projetos em revistas cient√≠ficas! Todas essas prova√ß√Ķes e rituais tamb√©m refletem novas formas de se fazer ci√™ncia, questionando a quem pertence a capacidade de fazer perguntas, a quem deveria pertencer o poder de respond√™-las e quais s√£o as perguntas podem/deveriam ser feitas – n√£o √© √† toa que o movimento “DIYbio” ou biohacking e iniciativas de ci√™ncia cidad√£ ganharam mais for√ßa em boa parte √† partir de grupos ex-iGEMers¬†(o Clube de Synbio √© um exemplo vivo disso).

As minas do synbio extraindo uns DNAs, checando uns protocolos e conversando sobre technoporn no Garoa Hacker Clube.

As minas do synbio extraindo uns DNAs, checando uns protocolos e conversando sobre technoporn no Garoa Hacker Clube.

Mas a¬† ainda talvez demore alguns anos para a biotecnologia, que existe a d√©cadas, deixar de ser encarada como coisa de fic√ß√£o cient√≠fica, n√£o pertencida √† pessoas. Enquanto isso o que est√° em disputa s√£o diferentes formas de se fazer biotecnologia, cada uma com sua dial√©tica pr√≥pria e diferentes n√≠veis de consci√™ncia pol√≠tica. Mas quem sabe um dia, quando uma bact√©ria fluorescente n√£o for mais m√°gica do que um mini computador de bolso (vulgo celular), equipes do iGEM n√£o precisem mais passar t√£o batidas depois de tanto ralar para se fazer projetos de biotecnologia “marginais” na academia – e que conseguir apoio para esses projetos n√£o precise mais ser “parte do m√©rito”, como uma drama ol√≠mpico for√ßado do atleta que sofreu prova√ß√Ķes (vendendo mi√ßangas, por exemplo) antes do p√≥dio. At√© l√°, seguimos tumultuando tudo, passando batido e sendo uns mlks muito liso.

FAQ #3 Como copiar o código em laboratório?

FAQ da Bioengenharia 3

Ah√°! Essa √© a pergunta que mudou a biotecnologia. At√© conseguirmos fazer isso, n√≥s (i.e. humanidade) passamos por um caminho bem interessante¬†envolvendo pr√™mios nobel e momentos epif√Ęnicos. O videozinho¬†explica muito melhor do que esse texto corrido como funciona a metodologia pra se fazer isso, a Rea√ß√£o em Cadeia da Polimerase (Polimerase Chain Reaction), o t√£o amado e odiado (quando simplesmente n√£o funciona) PCR!

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=vmlLj1aLZ7s”]

Encurtando a hist√≥ria: usando uma enzima que trabalha ‚Äúsentando‚ÄĚ no molde de uma fita √ļnica de DNA, aquecimento e desaquecimento (para ‚Äúligar‚ÄĚ e ‚Äúdesligar‚ÄĚ essa enzima) e pedacinhos de nucleot√≠deo, conseguimos fazer milh√Ķes de c√≥pias de apenas uma √ļnica mol√©cula de DNA – √© por isso que o pessoal do CSI (o seriado) consegue uma grande informa√ß√£o gen√©tica usando apenas res√≠duos quase desprez√≠veis de material biol√≥gico.

 pcr

Por Otto Heringer e Viviane Siratuti.

O Brasil no iGEM América Latina 2013

E lá fomos nós de novo viajar em nome do futuro da Biotecnologia do Brasil. Não só a gente, Manaus e Minas estavam lá junto , e nós junto com eles, é claro. Para começar a contar como tudo rolou, vamos começar falando da gente, os brazucas:

Os Brazucas

Os Brazucas todos juntos.

Minas, Manaus e São Paulo em um só lugar.

Foi muito legal ver times do iGEM surgindo pelo Brasil. Bonito em dois sentidos: em rela√ß√£o √† UFMG que surgiu com um time quase que espont√Ęneamente, e em rela√ß√£o √† UFAM e cia, onde mant√≠nhamos contatos a tempos com o professor Carlos Gustavo, com quem pudemos ajudar e inspirar de alguma forma a criar uma iniciativa firme e forte l√° na regi√£o ainda bem florestada do pa√≠s.

O Pedr√£o e o Grande Carlos.

O Pedr√£o e o Grande Carlos.

Eu gostaria de escrever uma b√≠blia aqui sobre os projetos de cada um dos Brazucas, mas para o bem do leitor eu vou dar uma “resumida” (a minha “resumida”):

Manaus

Como j√° disse antes, n√≥s j√° √©ramos amigos deles bem antes de n√≥s todos os conhecermos pessoalmente. Al√©m de uma conversa antiga com o Instructor deles, o Marcelo Boreto desfrutou das del√≠cias de ser um f√≠sico manjador de modelagem de sistemas biol√≥gicos e ganhou uma viagem l√° para Manaus para dar um workshop de modelagem para o iGEM, comer doces de cupua√ßu e fazer amizade √† moda antiga (na “RL”) com pessoas e outras criaturas, como a Costinha, a pregui√ßa de Lab – as piadas e trocadilhos ficam a cargo do leitor.

Marcelo e Preguiça

O Marcelo num dia que tava com preguiça

A grande ideia do time amazonense foi bem interessante. Eles usaram duas grandes coisas em seu projeto:

  1. o fato de que o chassi Shewanella putrefaciens consegue transportar elétrons (de uma maneira ainda não bem descrita, diga-se de passagem Рia escrever um post sobre isso outro dia) para o meio externo de maneira a gerar eletricidade (esse time alemão do iGEM se deu muito bem com esse tema),
  1. e a ideia de que a fonte desses elétrons poderia vir da degradação de lipídeos, mais especificamente de óleo de cozinha usado.

A grande tarefa deles foi tentar reprimir um inidor da via metabólica de degradação de lipídeos que a torna não-constitutiva e superexpressar genes relacionados ao transporte de lipídeos para a célula. Bem esperto. Levaram bronze medal pra casa e de quebra o prêmio de best presentation, dá um orgulho que só desse povo de Manaus! Veja a wiki deles aqui.

UFMG

O time de minas foi o mais “brasileiro”dos brasileiros, na minha opini√£o – e n√£o, n√£o √© porque nosso time da USP tem estrangeiros. Foi o mais brasileiro porque surgiu do nada, na ra√ßa, na gana, sem desistir nunca, e conseguiu o que precisava para ir pra final bem melhor do que n√≥s: que √© ter resultados concretos da caracteriza√ß√£o dos BioBricks. Tamb√©m foi time mais emocionante que foi pra final, o da comemora√ß√£o mais intensa. Sim, eu vi l√°grimas em alguns olhos mineiros ap√≥s a divulga√ß√£o dos finalistas. Fiquei genuinamente feliz por eles, senti o Brasil representado ali, principalmente com aquele jeitinho mineiro “comequieto” de ser.

Lembrando ainda que deve ser dado a C√©sar o que √© de C√©sar: conhecendo o time mais de perto como pude, consegui perceber o papel crucial e integrativo de cada membro da equipe (principalmente com os que conversei: Mariana, Carlos, J√ļlio – esse √ļltimo, grande companheiro dos rol√™s chilenos), mas gostaria de fazer jus principalmente ao comedido Lucas, que pelo o que senti, com toda sua mineirice, foi um dos grandes basti√Ķes que deu “liga” ao grupo (n√£o √© a t√īa que ele √© um dos idealizadores da Liga M√©dia, h√°!) e eu acho que todo mundo deve saber disso – a n√£o ser que ele me censure aqui, hahaha.

Os Mineiros e alguns argentinos (créditos portenhos às fotos).

O projeto deles foi interessant√≠ssimo. No iGEM o tipo de projeto que d√° para ser feito no tempo curto da competi√ß√£o sem deixar de atingir bons resultados pr√°ticos √©, sem d√ļvida, envolvendo biodetectores. Com uma excelente escolha de projeto integrando o know-how dos labs dos professores envolvidos e dos alunos (al√©m de ser completamente vi√°vel, diga-se de passagem), a proposta de biodetec√ß√£o foi criar um m√©todo completamente novo de diagn√≥stico de s√≠ndrome coron√°ria aguda (SCA) – que, em outras palavras avacalhadoras, √© praticamente um “pr√©-infarto”. Eles miraram em tr√™s biomarcadores dessa s√≠ndrome: uma albumina¬†modificada que aparece no sangue durante a SCA, um pept√≠deo¬†que em altas concentra√ß√Ķes indica fal√™ncia card√≠aca e um metab√≥lito que recentemente foi comprovado como indicador para ACS. Dentre os tr√™s, o m√©todo de detec√ß√£o mais esperto foi o albumina modificada, em que eles usaram o fato de ela ter uma taxa de liga√ß√£o menor a metais do que a albumina saud√°vel; o metal que “sobra” (que no caso era cobalto) ativa um promotor indicando a presen√ßa do biomarcador. Legal n√©? Vale a pena dar uma olhada na wiki bonitinha deles.

USP

Bem, e a gente? Nós tentamos fazer um biodetector do Metanol seguindo a ideia de uns posts (esse, e esse) que fizemos aqui no blog lá no começo de 2013. Esse ano fizemos um projeto bem mais completo e focado que o ano passado. Produzimos muito mais em diversos pontos que me 2012 tínhamos deixado de lado: biossegurança, a wiki, design, Human Practices e prototipagem. Dê uma olhada na wiki que fizemos, aqui.

√Č n√≥is! Ou melhor, √© metan√≥is!

√Č n√≥is! Ou melhor, √© metan√≥is!

Tivemos muito mais financiamento e apoio por causa dos trabalhos de 2012 e conseguimos nos unir em um coletivo que deu certo (unindo ainda mais gente de mais lugares diferentes da USP). √Č claro que com tudo isso havia a press√£o para que ganh√°ssemos a medalha de ouro para ir pra Boston, e ela foi grande! Muita gente ficou desapontada com a nossa medalha de prata, mas n√£o se deve negar que eles foram incr√≠veis: para caracterizarmos os BioBricks (que fatalmente √© o que d√° a desejada medalha), recebemos a s√≠ntese no come√ßo de agosto para entregar os resultados no final de setembro, e detalhe: ningu√©m do grupo tinha expri√™ncia com Pichia e n√£o t√≠nhamos padronizado a metodologia de utiliza√ß√£o do equipamento medidor de fluoresc√™ncia. Mesmo assim conseguimos levar √† competi√ß√£o pelo menos um resultado de fluoresc√™ncia de uma das linhagens que quer√≠amos testar para a caracateriza√ß√£o das partes, foi uma maratona insana de 2 meses (e inclua a escrita da wiki e a prepara√ß√£o da apresenta√ß√£o e poster nisso).

A cl√°ssica Jamboree picture - um pouco menos verticalizada que o de costume.

A cl√°ssica Jamboree picture – um pouco menos verticalizada que o de costume.

O que ficou engasgado mesmo √© que no evento dever√≠amos ter levado o best model. A argumenta√ß√£o usada pelo Ju√≠z, de que “um bom modelo deve usar dados experimentais”, apesar de ser verdadeira n√£o deveria valer para a premia√ß√£o espec√≠fica da modelagem. Afinal o que sendo est√° avaliado? O Modelo trabalhando nas hip√≥teses fixadas ou os resultados? Dessa maneira, um grupo de modelagem poderia elaborar o modelo mais inteligente e inovador da competi√ß√£o e mesmo assim n√£o ser premiado se seus dados experimentais forem insuficientes.

Conversando com os Ju√≠zes ap√≥s a competi√ß√£o, nos contaram que ficamos em segundo lugar para os “Best Prizes” em bastante coisa (best p√īster, best natural part, best modelling). O que explica isso √© a grande met√°fora da galinhada: preparamos aquele banquete super organizado, lindo e completo, mas faltou matar a galinha – e a galinha √© caracterizar o BioBrick.

Os HighLights Latinos do Jamboree

Aquele momento em que você acha que está dando highlights demais.

Aquele momento em que você acha que está dando highlights demais.

O Jamboree foi excelente. Principalmente porque dessa vez providenciaram mais oxig√™nio no ar colocando o evento em Santiago (e n√£o a algumas dezenas de centenas de metros acima do n√≠vel do mar). Essa cidade √© maravilhosa, √© tudo lindo, bonito e bem organizado. O tr√Ęnsito √© bem diferente de Bogot√°; fiquei com a impress√£o de que √© um tr√Ęnsito que funciona, sabe!? D√° vontade de fugir do Brasil e morar l√°, ainda mais sabendo que h√° um grande incentivo para empreendedores estrangeiros por parte do governo chileno, com inclusive brasileiros j√° espertos disso.

Todos devidamente abastecidos com produtos derivados de "l√£-de-lhama" (ou seria alpaca?).

Todos devidamente abastecidos com produtos derivados de “l√£-de-lhama” (ou seria alpaca?).

Os outros times do iGEM mandaram muito bem, o nível dos resultados atingidos pelas equipes realmente melhorou bastante Рainda há uma estrada levando além do horizonte que distancia os resultados que os times do hemisfério norte  e sul conseguem obter, mas isso fica pra um post futuro. Os grandes highlights latinos que precisamos fazer são:

  • Equipe UC Chile: Escolheram um tema de projeto bastante ambicioso e muito interessante, o de microcompartimentos bacterianos gen√©ricos para realiza√ß√£o de rea√ß√Ķes “localizadas”, assim como um vac√ļolo (em “plantinhas”), peroxissomo e lipossomo – da√≠ o nome do projeto deles “whateverisisome”. Al√©m disso, criaram tamb√©m um jogo (s√≥ que n√£o de cartas) como Human Prcatices. A wiki deles ficou muito linda, veja s√≥.
  • Equipe colombiana Uniandes: A equipe latinoamericana mais experiente no iGEM veio com dois projetos para o Jamboree: um sensor de glucocortic√≥ides que poderia ser um “sensor de stress” e um sistema de absor√ß√£o de n√≠quel que poderia ser usado para biorremedia√ß√£o. O highlight aqui √© a movimenta√ß√£o eficiente das c√©lulas do chassi que eles usaram em dire√ß√£o a um campo magn√©tico relativamente fraco. A wiki deles est√° muito legal tamb√©m, d√™ uma olhada. Sinceramente: eu pensei que eles seriam finalistas.
  • Equipe de Buenos Aires: Apesar de a wiki deles¬†aparentemente n√£o ter sido terminada a tempo, esse foi o projeto mais bem ranqueado no evento. A apresenta√ß√£o deles foi sensacional e envolvente. Conseguiram caracterizar otimamente os promotores sens√≠veis a ars√™nico que usaram para propor um biodetector desse contaminante na √°gua. O highlight aqui foi a colabora√ß√£o do time mexicano da TecMonterrey e o prot√≥tipo que eles proporam para um biodetector comercial.
  • Equipe mexicana de TecMonterrey: O projeto desse time¬†era sobre a biodetec√ß√£o e tratamento de c√Ęncer. Os grandes highlights s√£o a caracteriza√ß√£o conjunta de algumas partes para o time argentino – fazendo com que eles detectassem uma concentra√ß√£o absurda de ars√™nico em um dos rios de Monterey e fossem reconhecidos pelo governo de l√° por isso – e uma Human Practices genial: al√©m de workshops e eventos promovidos pelo grupo (que incluem um TEDx), eles traduziram um manual para auto-examina√ß√£o de c√Ęncer de mama para dois mais falados dialetos ind√≠genas no pa√≠s – Otom√≠ e Zapoteco. Muit√≠ssimo legal!

√Č l√≥gico que houveram outros resultados muito legais que estou me controlando pra n√£o mencionar. Mas highlights s√£o highlights e n√£o d√° pra destacar tudo sen√£o acaba a tinta da minha marca-texto mental.

The Good Fight

Enfim. Após esse ano cheio de altos e baixos como todo bom ano deve ser, estamos satisfeitos. Apesar de não termos correspondido às expectativas pressurizantes de alguns, conseguimos fazer muito bem aquilo que é mais importante: estimular as pessoas a criarem, saírem da ordem natural da academia e quebrar as paredes dos silos que contém (sim, contém, e não contêm!) a interdisciplinariedade efetiva. E também, é claro, estimular esse tipo de iniciativa por aí, papel do synbiobrasil que foi devidamente reconhecido conversando com o juízes. E é extamente isso que estamos fazendo agora: queremos espalhar essa experiência para outros campus da USP e outras universidades, bem como em nos formalizar institucionalmente aqui no campus da capital como uma organização devidamente reconhecida.

E √© isso a√≠. Let’s keep fighting the good fight. ūüôā

No pr√≥ximo post (que ser√° depois de um descanso merecido de final de ano), vamos come√ßar a contar como foi incr√≠vel evento mundial nos EUA com os “enviados especiais” (aka. penetras) que mandamos pra l√°, inflitrados no time mineiro. E esperamos j√° poder fazer isso vestindo o site novo com esses textos!

Um jogo para acabar com preconceitos

Qual é a melhor maneira de passar uma informação pra uma pessoa!?

Como os comerciais, filmes e canais de televis√£o est√£o a√≠ pra comprovar, o entretenimento passa muito mais pra voc√™ do que mera divers√£o. √Č com essa ideia que ficamos pensando em como fazer as pessoas entenderem os conceitos e finalidades da abordagem da Biologia Sint√©tica. Como n√£o perdemos tempo para arrumar uma desculpa para nos divertir, criamos durante esse ano um jogo de cartas – inspirado em elementos de¬†Munchkin,¬†Bohnanza, Magic¬†e War¬†– para, al√©m de ensinar de uma maneira divertida sobre conceitos de microbiologia e biologia molecular, informar melhor as pessoas e acabar com certos preconceitos envolvendo microrganismos bioengenheirados.

E olha que legal: além de levarmos essa ideia como nossa Human Practices na competição internacional de máquinas geneticamente modificadas desse ano (e sermos bastante elogiados por esse trabalho), emplacamos primeiro lugar com o projeto na Olimpíada USP do Conhecimento!

primeiro lugar USP Conhecimento

√Č, senhora Sociedade, eu te disse que nossa brincadeira √© uma brincadeira s√©ria! T√£o s√©ria que esse projeto n√£o para aqui.

Game Crafter

O jogo estar√° dispon√≠vel para download (se voc√™ quiser imprimir a√≠ na sua casa) ou para compra atrav√©s do maravilhoso site “The Game Crafter“, que √© de uma empresa que imprime e vende jogos independentes, como o nosso. Desse jeito nosso jogo vai poder sempre fazer o que ele se prop√Ķe a fazer: ser jogado!

O jogo

O jogo funciona assim: cada jogador (até 4) escolhe uma carta de personagem personagem, como por exemplo o professor Fujita:

Senhor Fujita

OBS: procure o “easter egg”.

Como dá pra ver, cada pesquisador tem uma personalidade específica e um chassi com que desenvolve seus projetos. No caso o senhor Fujita é um pesquisador que não colabora muito mas bastante competente, trabalhando com a largamente usada Escherichia coli.

O grande objetivo do jogo √© construir primeiro que o seu colega um circuito g√™nico – afinal estamos falando de academia, minha gente! Para construir o circuito o jogador deve “criar”, acumular e trocar BioBricks, at√© que tenha a combina√ß√£o de Biobricks necess√°rios para completar o circuito, como por exemplo esse:

Carta Objetivo

OBS: nem todos os objetivos realmente podem ser feitos em alguns chassis.

Os Biobricks podem ser baixados com “pontos de metabolismo”, que √© a representa√ß√£o dos recursos metab√≥licos e energ√©ticos que o microrganismo tem para passar com sucesso pelo processo de transforma√ß√£o g√™nica de cada parte, a ser inserida sequencialmente na c√©lula (no exemplo anterior h√° 8 BioBricks).

A din√Ęmica das cartas se d√° quando elas ainda est√£o na sua m√£o e n√£o foram “baixadas” no organismo. H√° tamb√©m (no melhor estilo Munchkin – quem j√° jogou sabe do que estou falando!) cartas din√Ęmicas usadas por um jogador em si mesmo ou em outros jogadores, como essa abaixo:

Carta din√Ęmica

E, por √ļltimo, o √ļltimo elemento do jogo √© a t√£o temida aleatoriedade! Aquelas vari√°veis sem controle que sempre fazem seu experimento n√£o sair como voc√™ queria. Um jogador no final da rodada joga um dado: dependendo do n√ļmero tirado uma “carta aleat√≥ria” surge, ajudando ou prejudicando o ganho de pontos de metabolismo (que ocorre por rodada) dos chassis de cada pesquisador.

Cartas Aleatórias

Fizemos um overview do projeto num vídeo do youtube, dê uma olhada:

[youtube_sc url=” http://youtu.be/6Odd5-OKyHA”]
Quando o nosso novo site ficar pronto vamos ter um endere√ßo especial com o jogo, por enquanto fica aqui nossa promessa de acesso aberto a esse conte√ļdo. ūüôā

Acontece nos filmes, acontece na vida, acontece no Clube de Biologia Sintética

Este √© mais um projeto que surgiu das reuni√Ķes do Clube de Biologia Sint√©tica, feito por pessoas das mais diversas √°reas e que se conheceram no clube. Esse √© o objetivo principal do grupo: Reunir e ensinar pessoas de maneira divertida , integrar √°reas, criar projetos cient√≠ficos inovadores e criativos e, por fim, gerar impactos positivos na sociedade.

Voc√™ que compartilha dos nossos ideais, acompanhe nossas reuni√Ķes pessoalmente ou pelo ao vivo pelo streaming no nosso canal do youtube, ou ainda entre em contato pelo nosso email, canal do facebook e twitter!

Experiência em Biologia Sintética РMonique Gasparoto

Entrevista feita por Mira Melke.

A Biologia Sintética é extremamente motivadora. Para provar isso e para mostrar o quão importante e distinta pode ser uma experiência em Biologia Sintética acima do equador convidei uma amiga, companheira dos tempo de Biomol (Ciências Físicas e Biomoleculares) para escrever um pouquinho para a gente. 

Quem fala agora é a Monique:

Monique

Biologia sintética: impossível não se apaixonar!

Minha hist√≥ria com a Biologia Sint√©tica come√ßou como toda hist√≥ria de amor, umas paquerinhas para c√°, um google search para l√°, mas nada muito s√©rio. A primeira vez que ouvi falar da √°rea foi em 2009, quando nem havia descri√ß√Ķes em portugu√™s. O amor adormeceu enquanto eu me desdobrava para ser aprovada em todas as disciplinas do curso de Ci√™ncias F√≠sicas e Biomoleculares da USP de S√£o Carlos, do qual atualmente sou aluna do √ļltimo ano. Envolvi-me em outra √°rea de pesquisa, o mundo continuou a andar, mas quando eu menos esperava fui me reencontrar com minha paixonite dos tempos de caloura.

Como bolsista do programa Ci√™ncias sem Fronteiras, passei um ano na Boston University e al√©m da incr√≠vel experi√™ncia de interc√Ęmbio, tive a oportunidade de trabalhar no laborat√≥rio do professor Doug Densmore (CIDAR) e fazer parte do time do iGEM da Boston University. Eu n√£o poderia sonhar em um lugar mais incr√≠vel para me aproximar da Synbio: estar em Boston onde as primeiras bases da √°rea foram lan√ßadas, fazer pesquisa em um laborat√≥rio exclusivamente de Biologia Sint√©tica – em que todo mundo tem o site do Registry nos favoritos(!), assistir a palestras e semin√°rios dos pesquisadores refer√™ncia da √°rea, como o Jim Collins, com quem divid√≠amos espa√ßo de laborat√≥rio , visitar o Headquarters do iGEM e muitos outros aspectos me fizeram ter a certeza de que a Synbio veio para ficar n√£o s√≥ na minha vida, mas certamente na de todos os que a conhecem.

O projeto que desenvolvemos para a competi√ß√£o trabalhava os tr√™s pilares do iGEM: constru√ß√£o, caracteriza√ß√£o e compartilhamento das informa√ß√Ķes do Registry. Para isso introduzimos na competi√ß√£o o m√©todo de Clonagem Modular (MoClo) descrita por Weber et al, propusemos um protocolo de caracteriza√ß√£o padr√£o para circuitos com prote√≠nas fluorescentes usando citometria de fluxo e esbo√ßamos uma p√°gina comum a ser usada no Registry em que as¬† informa√ß√£o sobre as partes poderiam ser geradas automaticamente a partir do Clotho, uma plataforma para Biologia Sint√©tica desenvolvida pelo meu orientador, Doug Densmore.¬† Mais detalhes voc√™s podem conferir na nossa Wiki.

Foi um per√≠odo de aprendizado intenso, porque era a primeira vez que o Densmore Lab apoiava um time de WetLab, a tradi√ß√£o dos anos anteriores era o time de software. √Čramos dois alunos de gradua√ß√£o orientados por tr√™s alunos de doutorado e uma p√≥s-doc, e nunca imaginei participar de um ambiente t√£o colaborativo e estimulante. √Č claro que parte disso √© devido √† excelente estrutura do laborat√≥rio e √†s facilidades dos meios de pesquisa, quem n√£o ficaria feliz e contente com sequenciamentos de DNA que ficam prontos no mesmo dia e enzimas que chegam ao laborat√≥rio em no m√°ximo 48h ap√≥s a encomenda!? Mas o diferencial dessa experi√™ncia veio da oportunidade de vivenciar um ambiente de apaixonados por Biologia Sint√©tica e perceber como eles desenvolvem suas pesquisas: com muita compet√™ncia, muito estudo e muita motiva√ß√£o!

O que mais me cativa nessa √°rea da ci√™ncia que agrega √† biologia molecular conceitos e ferramentas da engenharia √© que t√£o importante quanto o conhecimento t√©cnico, √© a inova√ß√£o e a criatividade. Caracter√≠sticas que eu pude testemunhar de perto em todos aqueles que participaram do iGEM, e que ficaram ainda mais n√≠tidas quando na fase final da competi√ß√£o em Boston, times do mundo inteiro, desde do Leste Asi√°tico at√© a Am√©rica do Sul se reuniram para sonhar, discutir e compartilhar suas propostas para tornar o mundo melhor, ‚Äúone part at a time‚ÄĚ.

Talvez n√£o haja outro grupo de (malucos) cientistas que acredite tanto que seus projetos e conhecimentos podem mudar o mundo. A√≠ est√° o brilho da Synbio, que uniu pesquisadores de fronteira que n√£o queriam mais ficar confinados √†s suas especialidades, mas decidiram sair de sua zona de conforto e ousar e empreender em grupos multidisciplinares. ¬†A ousadia desses bi√≥logos sint√©ticos √© t√£o grande que s√£o capazes de investir cifr√Ķes de patroc√≠nio e meses de trabalho em uma competi√ß√£o em que o grande pr√™mio, aos olhos dos mais c√©ticos, √© somente um BioBrick gigante. √Č como dizem por a√≠, a biologia sint√©tica tem raz√Ķes que a pr√≥pria raz√£o desconhece.

A biologia sintética pode tornar sua bebida mais segura? Reloaded РParte 2

Como o Pedro disse no v√≠deo publicado no √ļltimo post, eu vou tratar da parte um pouco mais cabeluda de se fazer um projeto: os problemas!
Nesse v√≠deo abaixo (que eu me esforcei para caber em quase 10 min), o meu trabalho foi explorar os outros contaminantes presentes nas bebidas “n√£o comerciais” (ou falsificadas): o carcinog√™nico carbamato de etila e o cobre.

O grande e emocionante desafio dessa parte √© estimar a viabilidade no projeto com base em alguns par√Ęmetros, como pre√ßo das t√©cnicas, acessibilidade a equipamentos, o know-how que temos e principalmente o tempo que tudo isso ir√° tomar at√© setembro (!!).

Com apenas as pesquisas que fizemos, tentei delinear informa√ß√Ķes importantes e determinantes para sabermos se o projeto √© fact√≠vel ou n√£o, com base em questionamentos simples, como: “Se tivermos uma amostra com uma bebida com o m√°ximo de contaminantes permitidos por lei, o sistema ir√° responder com os n√≠veis de atividade g√™nica que temos!?”.

O objetivo do “produto final” n√£o √© ser um detector como um cromat√≥grafo, da mesma maneira que o seu computador pessoal n√£o foi feito com o objetivo de ser um “Pensador Profundo“. A ideia aqui √© explorar √© criar um detector extremamente barato e descart√°vel, sem a necessidade de se encomendar an√°lise ou de comprar aparelhos caros. O “p√ļblico alvo” da tecnologia em pesquisa √© o cidad√£o comum. √Č o “Seu Ant√īnio” da distribidora de bebidas da esquina, que quer avaliar a qualidade de um novo fornecedor; ou at√© mesmo a vigil√Ęncia sanit√°ria de uma cidadezinha de Minas Gerais, que quer avaliar a qualidade das chacha√ßas de um festival regional. Imagine essas pessoas indo no supermercado mais pr√≥ximo comprar um “fermento” que pode fazer essas an√°lises.

Enfim: estamos abrindo esse projeto a ideias, sugest√Ķes e principalmente cr√≠ticas. Estamos precisando daquelas pessoas que nos digam que √© imposs√≠vel, mas que argumentem o melhor poss√≠vel suas opini√Ķes. Ao contr√°rio de muitos alunos de p√≥s-gradua√ß√£o, n√≥s adoramos que “falem mal” das nossas ideia de pesquisa – desde que seja pra gente! Apesar de aparentemente contradit√≥rio, √© assim que os projetos se tornam tang√≠veis.

Assistam o v√≠deo para descobrirem os furos que j√° encontramos da proposta do primeiro v√≠deo e o que estamos fazendo para “tap√°-los”:

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=YkjQHUoDRDU”]

Corre√ß√Ķes e Observa√ß√Ķes do V√≠deo:

A Biologia Sintética pode tornar sua bebida mais segura? РUm possível projeto para o iGEM 2013

Os preparativos para o iGEM 2013 já começaram e os times já avaliam as possibilidades de projetos. Nós, do time da USP, não ficamos para traz e já reunimos algumas boas idéias e começamos a explorá-las para sondarmos suas viabilidades.

Dentre essa id√©ias, apresento agora em uma s√©rie de dois v√≠deos curtos, a possibilidade de detectores de subst√Ęncias nocivas comuns encontradas em bebidas n√£o certificadas baseado em uma levedura. O primeiro v√≠deo traz uma abordagem geral e inicial que fiz do assunto e o segundo v√≠deo, feito por Otto Heringer, explora mais a fundo possibilidades e gargalos deste projeto.

Fiquem portanto com primeiro vídeo da série!

[youtube_sc url=”http://youtu.be/0CWPcHP8jVY”]

iGEM 2012 Latin America: Aquilo que realmente importa

f√ļria de maca

La f√ļria de Macarena en Bogot√°!

Esse √© o quarto e √ļltimo post da minha prolixa descri√ß√£o de como foi a fase da Am√©rica Latina do iGEM de 2012. Quatro posts s√£o at√© pequenos para realmente explicar tudo o que aprendemos e o que √© realmente importante nisso tudo, mas espero que esses posts possam servir como refer√™ncia para futuros times do iGEM na organiza√ß√£o de suas equipes para competi√ß√Ķes futuras – pelo menos eu espero que hajam mais times brasileiros nos iGEMs futuros! Haha!

Os “finalmentes” da Competi√ß√£o

Festa

A organiza√ß√£o colombiana foi realmente muito boa. Al√©m do fato da Universidade dos Andes ter uma das melhores infra-estruturas que j√° vi em uma universidade, a organiza√ß√£o do iGEM latino criou um grupo de volunt√°rios sensacional que possibilitou muitas coisas legais durante o Jamboree. Uma dessas coisas foi uma festa logo ap√≥s a apresenta√ß√£o dos p√īsteres em um dos lugares mais malucos que j√° vimos: o bar/baladinha/restaurante/”campo recreativo”/churrascaria “Andres carne de res“, que fica em Chia, uma cidade perto de Bogot√°.

Mauro A. Fuentes çlvarez

Um exemplo da “maluquice” do Andres carne de res

Esse lugar √© completamente maluco porque parece uma pintura viva de Salvador Dal√≠: cheia de coisas nonsense que ao mesmo tempo pareciam ter um sentido maluco obscuro. As mesas, ao inv√©s de n√ļmeros, t√™m nomes. Os gar√ßons e gar√ßonetes usavam um avental marrom propositalmente remendado que parecia ter sido emprestado de um a√ßougue. E o mais bizarro (e engra√ßado) de tudo: a cada meia hora os banheiros masculino e feminino invertiam a restri√ß√£o de g√™nero; ent√£o se voc√™ foi em um banheiro em um momento e quiser ir de novo depois, √© preciso checar se ele ainda √© masculino/feminino (dependendo do seu sexo, √© claro) antes de entrar. Craziness! Eu poderia fazer um post s√≥ sobre esse lugar! Mas o que realmente importa aqui √© pudemos interagir bem melhor e conhecer mais pessoalmente os outros participantes da Am√©rica latina do iGEM. A organiza√ß√£o acertou em cheio em um lugar para impressionar os estrangeiros.

Cerim√īnia de Premia√ß√£o

Depois de termos feito uma t√≠pica e inc√īmoda barulheira-no-fundo-do-buz√£o brasileira na volta da festa (com direito a “fulano-roubou-p√£o-na-casa-do-jo√£o”), dormimos muito pouco e fomos sonolentos tentar nos orientar no confuso sistema de transporte transmilenio num dia de domingo.

A Universidade dos Andes (assim como provavelmente a maioria das universidades do mundo) estava semi-desértica no domingo. Fiquei preocupado se cairia narcolepticamente em sono pesado durante a premiação, o excelente café colombiano e a animada organização evitaram que isso acontecesse.

Antes de apresentarem os resultados e anunciarem os finalistas, houve uma pequena apresenta√ß√£o de v√≠deos dos projetos do iGEM e depois algo que me foi particularmente constrangedor: cada time escolhia um hombre e uma mujer para ir ao palco dan√ßar um dos ritmos latinos caracter√≠stico da col√īmbia (n√£o sei diferenciar qual porque para mim todos s√£o iguais). Adivinha quem o Brasil escolheu… Por motivos de preserva√ß√£o de imagem, vou me limitar apenas uma foto do ocorrido e n√£o o material de chantagem que meus colegas filmaram.

Baila Macarena!

Baila Macarena!

¬†Ah! S√≥ um detalhe: intencionalmente ou n√£o, eles escolheram um par para dan√ßar justamente de pa√≠ses¬† com praticamente nada a ver com os ritmos que os outros representantes da Am√©rica latina compartilhavam: Brasil e Argentina! Samba e Tango! Nada a ver com “os mambos”! E ainda de pa√≠ses rivais no futebol!

¬†¬†Pois bem. Depois desse pre√Ęmbulo vexaminoso, a organiza√ß√£o (por algum motivo obscuro) ficou adiando constantemente o an√ļncio das medalhas, nos dizendo para termos paci√™ncia e esperarmos um pouco. Isso s√≥ serviu para escancarar a ansiedade nos olhos e nas conversas paralelas do grupo brasileiro. Como eu tinha dito no primeiro post,¬† eu sinceramente n√£o achava que levar√≠amos ouro. Acho que alguns do time tamb√©m n√£o, mas naqueles momentos vivos da cerim√īnia de premia√ß√£o a vontade de querer acreditar que era poss√≠vel se inflava. Eu me controlava para ser racional e me apegar a uma s√©rie de pensamentos que havia tecido em momentos de menor tens√£o. Resolvi me entregar ao esporte de twittar os acontecimentos antes do twitter do iGEM LA o fazer. Na verdade, eu estava mesmo preocupado como seria a rea√ß√£o das outras pessoas do nosso time ao recebermos os resultados.

Special Prizes

Primeiro foram anunciados os ganhadores dos special prizes. Basicamente, o time colombiano e um mexicano levaram quase todos os special prizes. E o best presentation ficou para o time chileno, como j√° esper√°vamos (e que relatei nesse post aqui). Confira os resultado abaixo:

Finalistas

O an√ļncio dos finalistas veio em um slide s√≥ e com todo o sensacionalismo que tem direito: uma anima√ß√£o para cada time sendo mostrado entre as quatro classifica√ß√Ķes poss√≠veis: ouro, prata, bronze e no medal.

Naqueles segundos entre uma revela√ß√£o e outra, o meu c√©rebro fez aquilo que os c√©rebros adoram fazer com os humanos em momentos decisivos: passar um inconveniente filminho de acontecimentos e sensa√ß√Ķes que nos levou at√© ali. Pensei no crowdfunding. Pensei em quando o Mateus teve que deixar o grupo para trabalhar na Braskem. Pensei nas reuni√Ķes quase “miadas” que organizei. Pensei em como eu me agarrei t√£o forte e teimosamente √†quele sonho depois que sa√≠ do Ci√™ncias Moleculares. Pensei nos dias decisivos em que consegui juntar ao barco pessoas important√≠ssimas para o grupo. Pensei nos problemas de laborat√≥rio. Pensei nas discuss√Ķes. Pensei nas jogadas de cintura para resolver os problemas que encontr√°vamos. Pensei nos nossos erros. Pensei em tudo o que tivemos que fazer para conseguir dinheiro para a viagem. Pensei que represent√°vamos universidades cheias de renome. Pensei que represent√°vamos o Brasil. Pensei no que significava estar ali n√£o s√≥ pra mim, mas para todos os outros malucos que foram comigo at√© l√°. Pensei que √©ramos brasileiros.

Enfim. Como vocês devem ter percebido a minha ingênua capacidade de ver os fatos analiticamente e sem emoção foi pra cucuia. Ao vermos o resultado da medalha de prata, fui invadido por uma sensação de trabalho cumprido. Não fiquei triste. Por incrível que pareça, todo aquele turbilhão de pensamentos desaguou na preocupação de como o grupo estava recebendo aquela notícia, e naquele momento, eu vi o quão teimosos e incríveis nós fomos. Nós fomos brasileiros.

Resultados do Jamboree LA

Resultados do Jamboree LA

Pós iGEM

Depois de algumas expectativas confirmadas e outras confrontadas, chegamos a um consenso de que tínhamos mandado bem. Como disse no primeiro post, não se mede o progresso até onde se chegou, mas de onde se saiu até onde se foi. O que importa é a derivada!

Depois da cerim√īnia eu via em muitos rostos aquela caracter√≠stica cara de digest√£o mental de pensamentos. Essa cara s√≥ ganhou outro molde na tradicional foto do Jamboree, onde todos os times posam para uma √ļnica foto.

Jamboree Photo

Jamboree Photo

E ainda pudemos tirar fotos com os times que mais conversamos durante a competição: Panamá, Argentina e um do México.

WP_000165

Nós e o time panamenho.

Nós e os chilenos e argentinos - viva el Mercosul!

Nós e os chilenos e argentinos Рviva el Mercosul!

Apesar de o Fernando, o nosso representante da Unesp, ter ido embora no mesmo dia, nosso grupo se dividiu entre aqueles mortos de cansaço e aqueles que estavam chutando o balde. Tive meu momento em ambos os grupos.

Antes de podermos descansar, a organização ainda se deu ao agradável trabalho de organizar uma visita ao Museo del Oro e ao centro histórico de Bogotá.

Visitando a praça Simón Bolivar.

Visitando a praça Simón Bolivar.

Nós, colombianos, mexicanos e a profa. Tie.

Nós, colombianos, mexicanos e a profa. Tie.

Durante isso aproveitamos e conversamos bastante com uma ju√≠za brasileira da competi√ß√£o, Tie Koide. Simp√°tica, ela respondeu a todos os questionamentos sobre o julgamento dos times que povoaram a mente do grupo ap√≥s a cerim√īnia de premia√ß√£o. Algumas (n√£o todas) confirma√ß√Ķes de expectativas foram:

  • Sim, a wiki ficou boa – apesar de estar faltando algumas coisas…
  • Sim, os resultados do Plug’nPlay foram convincentes!
  • Sim, aquela pergunta-de-quem-n√£o-entendeu-nada que nos apareceu p√≥s apresenta√ß√£o foi realmente vista como se n√≥s n√£o soub√©ssemos o que est√°vamos fazendo.

J√° algumas coisas que n√£o corresponderam ao que esper√°vamos foram:

  • N√£o, a Human Practices n√£o estava OK. Acho que o que fizemos com o Blog e o Clube de Biologia Sint√©tica foi sensacional nos par√Ęmetros brasileiros, mas se olhando no par√Ęmetro internacional n√£o √© grande coisa. Talvez tenhamos sofrido com um pouco de descontextualiza√ß√£o: um site sobre Biologia Sint√©tica (o synbiobrasil) em um pa√≠s que praticamente n√£o tem nada disso causa bem mais impacto do que um site em um pa√≠s que j√° faz algo do tipo, como nos EUA por exemplo. Apesar disso eu concordo que dever√≠amos ter nos preocupado mais com essa parte.
  • A modelagem ficou OK, mas poderia ser melhor. O que eles est√£o procurando mesmo √© algo al√©m de equa√ß√Ķes diferenciais. N√£o fomos t√£o bem como poder√≠amos por uma certa ingenuidade em n√£o saber ao certo como eles nos iriam avaliar.

No dia seguinte, dia que iríamos embora, aproveitamos e nos encontramos com algumas pessoas da organização com quem fizemos amizade e fomos dar mais uma volta por lugares históricos de Bogotá. Foi ótimo para tirar um pouco o stress.

O que realmente importa

Nos reunimos cerca de uma semana depois na USP para conversarmos sobre o que todos tinham aprendido com aquilo tudo; sobre quem ainda ia continuar na empreitada, o que precisava ser mudado, quais s√£o os novos planos e etc. Uma das coisas que mais me tocou foi saber aquilo que tinha ficado curioso em saber desde o dia da cerim√īnia de premia√ß√£o: o que diabos est√° se passando na cabe√ßa de todos!? Quando perguntei o que significou o iGEM para as pessoas do grupo, algumas pessoas disseram que era essa a √ļnica coisa que ainda a motivava a estar na universidade. Em meio a centenas de aulas meramente contemplativas, inicia√ß√Ķes cient√≠ficas desestimulantes (em que o aluno recebe o projeto pronto e n√£o tem liberdade de criar e fazer algo “seu” – dentro dos limites e a tem√°tica do lab em quest√£o, √© claro) e em um ambiente academicista desetimulador de atividades empreendedoras (pelo menos entre os institutos da maioria das pessoas envolvidas), o iGEM surgiu como a oportunidade dos alunos acharem seu prop√≥sito dentro da faculdade, de estimul√°-los a estudar, a criar, a fazer! Tamb√©m achei interessante que algumas pessoas s√≥ foram realmente entender o que √© o iGEM e todo o seu impacto s√≥ quando estavam l√° em Bogot√°.

O que realmente importa: as pessoas!

O que realmente importa: as pessoas!

Essa reuni√£o foi uma das reuni√Ķes mais importantes do Clube de Biologia Sint√©tica. Nela, ficou bem claro pra mim o que realmente importa – aquilo que √†s vezes se perde em meio ao stress e a prazos apertados. Como o Carlos¬†j√° havia me dito antes (mas s√≥ nesse momento percebi de verdade), a grande ideia do projeto em lab √© fazer as pessoas aprenderem e se desenvolverem como cientistas. O que vier al√©m disso √© lucro. Contudo o essencial √© isso: as pessoas. N√£o importa a medalha, a wiki, a apresenta√ß√£o, os experimentos e tudo mais se o que fazemos n√£o atinge direta ou indiretamente as pessoas, se n√£o √© uma oportunidade de mudar e gerar pessoas com capacidade de mudan√ßa.

Esperamos continuar a ser aquilo que fomos (e tentar melhorar um pouquinho mais!): teimosos, questionadores e pr√≥-ativos. Talvez assim consigamos manter acesa a chama da oportunidade de poder fazer algo diferente na academia, algo “com as pr√≥prias m√£os”, algo em busca de resultados. N√£o sei se vamos conseguir tudo isso, mas com certeza vamos fazer o que realmente importa: criar a oportunidade para pessoas crescerem e se reinventarem. Isso vale mais do que ouro.

iGEM 2012 – Projeto Campe√£o

Autor: Pedro Medeiros

O iGEM 2012 passou e muitas coisas interessantes rolaram. Falamos da fase regional, dos projetos que nela foram apresentados e das nossas impress√Ķes pessoais a respeito do evento mas, algo ainda falta ser mostrado!

Em uma s√©rie de 3 posts iremos falar um pouco sobre os grandes campe√Ķes do iGEM 2012, come√ßando pelo primeiro lugar: Groningen! O v√≠deo abaixo cont√©m uma uma apresenta√ß√£o dos principais pontos do projeto, bem como os fatores que, em nossa an√°lise, fizeram de sua campanha um sucesso.

O time de Groningen, uma universidade holandesa, foi campe√£o na fase regional europ√©ia, bem como levou os pr√™mios de melhor p√īster, melhor projeto em comida e energia e melhor apresenta√ß√£o com um projeto enxuto e muito bem delimitado. Um fato relevante diz respeito ao sucesso na cria√ß√£o de um produto real e de grande utilidade: Um dispositivo port√°til que sinaliza se a carne guardada em sua geladeira ainda est√° boa para ser comida ou se j√° est√° na hora de voc√™ se livrar desse f√≥ssil guardado em sua geladeira, haha.

Enfim, mais informa√ß√Ķes no v√≠deo abaixo! Enjoy!
[youtube_sc url=http://www.youtube.com/embed/eINwFGvXbA4]

 

iGEM 2012 Latin America: Nossa Apresenta√ß√£o e P√īsteres

Nossa Apresentação

nossa apresentação 2

Depois de muito desespero nos preparando at√© o √ļltimo dia para fazer uma apresenta√ß√£o que coubesse nos 20 min, conseguimos apresentar conforme o programado. Deu tudo certo, foi uma maravilha (pelo menos pra mim, que n√£o foi a pessoa que apresentou, hohoho)!

O time argentino, que estava em outra em outra sala, foi para onde estávamos para especialmente assistir nossa apresentação. Foi bem motivador. Quem diria hein!? Argentinos!

Mercosul! (Nós, os chilenos e os argentinos)

Mercosul! (Nós, os chilenos e os argentinos)

A √ļnica coisa ruim nisso tudo foi na hora de responder a uma das perguntas para o projeto de Rede de Mem√≥ria Associativa: “Comos voc√™s v√£o saber que a mem√≥ria foi inserida no sistema!?”. Essa foi uma pergunta um pouco descocertante. N√£o porque n√£o sab√≠amos responder, mas porque ela demonstrou que o juiz que fez a pergunta n√£o entendeu muita coisa desse projeto – o que n√£o √© totalmente culpa do juiz. Eu particularmente n√£o entendi o que realmente estava sendo perguntado e n√£o consegui captar que parte o juiz n√£o entendeu. Tentei mostrar que a mem√≥ria ia ser “testada” pelo padr√£o de ativa√ß√£o ap√≥s o est√≠mulo de algumas popula√ß√Ķes, mas ficou parecendo que eu estava repetindo o mais do mesmo.

Em uma conversa com o Carlos Hotta (do Brontossauros em meu Jardim), ele me fez enxergar o que estava “na cara” o tempo todo: muito provavelmente para aquele juiz, “mem√≥ria” √© o ato de se captar uma informa√ß√£o e armazen√°-la. Nosso projeto era sobre uma mem√≥ria associativa; a mem√≥ria j√° estaria estabelecida inicialmente no sistema. As popula√ß√Ķes de bact√©rias n√£o iam captar e armazenar a informa√ß√£o, a informa√ß√£o j√° estaria armazenada. √Ä partir da mesma informa√ß√£o incompleta, as popula√ß√Ķes de bact√©rias iriam associar essa informa√ß√£o incompleta √† duas mem√≥rias. A informa√ß√£o mais “parecida” com uma das mem√≥rias iria ativar da mem√≥ria em quest√£o. O que o juiz deve ter se perguntado foi algo do tipo: “Antes de verificar a associatividade de mem√≥ria, como eles tem certeza que eles colocaram a mem√≥ria?”. O ponto √© que o plano n√£o √© “colocar” a mem√≥ria, ela j√° estaria l√° geneticamente, constru√≠da com a bact√©ria.

No final das contas, acho que os √ļnicos que entenderam esse projeto foram os argentinos mesmo!

O resto das apresenta√ß√Ķes

Depois de apresentarmos houve um coffee Break e trocamos de sala. Vimos a apresenta√ß√£o de um dos times de Monterrey (j√° comentados anteriormente) e depois do time chileno. O time do Chile foi a melhor apresenta√ß√£o do iGEM LA, sem compara√ß√Ķes!

UC Chile

Com a apresentadora mais carism√°tica de todo o iGEM latino, no maior estilo TED Talk, o time chileno come√ßou com o seguinte discurso: “N√≥s quer√≠amos produzir cerveja √† partir de leveduras em um ambiente mais pr√≥ximo ao de biorreatores, em um pH √°cido. Ent√£o procuramos um chassi que pudesse gerar esse ambiente. Pesquisando, descobrimos que o Drag√£o de Komodo tem as caracter√≠sticas que precisamos para isso. Quer√≠amos juntar os genes de levedura aos do Drag√£o de Komodo¬† e colocar junto um Operon de asa de morcego para criar um drag√£o que cospe cerveja!”. Isso causou um estarrecimento sem igual. Eles criaram um instante de falso cl√≠max que fez com que ningu√©m soubesse em que acreditar. Por pelo menos um segundo eu confesso que realmente imaginei um Drag√£o de Komodo cuspidor de cerveja – how cool is that!? O anti-cl√≠max foi quebrado usando-se como desculpa uma das fatalidades mais comuns do iGEM: o atraso na encomenda de DNA sintetizado para fazer o drag√£o da cerveja. Isso substitu√≠u o falso cl√≠max da apresenta√ß√£o por um momento subliminar – e absurdo, por causa do suposto projeto fora-da-realidade – de empatia pelo time chileno (do tipo: “Tamb√©m tivemos problema semelhante, bem vindo ao clube!”). A impress√£o causada por esse original e arriscado in√≠cio de apresenta√ß√£o¬† foi uma mistura de bom humor, empatia, descontra√ß√£o e quebra-gelo. Quando foram realmente falar do verdadeiro projeto que tinham realizado, os chilenos tinham conquistado a aten√ß√£o de todos no recinto de uma maneira completamente envolvente.

Apresentação do chile e seu migué do dragão de cerveja.

Apresentação do chile e seu migué do dragão de cerveja.

O projeto deles foi bem simples mas muito bem realizado. A constru√ß√£o que fizeram tinha como parte central os BioBricks desenvolvidos pelo time de Cambridge em 2010, que consistem basicamente de uma s√©rie de luciferinas¬†(prote√≠na fosforescente) de v√°rias cores – um desses BioBricks √© muito legal e bem √ļtil: um operon¬†que expressa luciferina sem que seja necess√°ria a adi√ß√£o de luciferase¬†para fazer a rea√ß√£o fosforescente acontecer (luciferase = $$$)! A grande idea deles foi implementar um sistema de bioluminec√™ncia em cianobact√©rias acoplado ao ciclo circadiano dos bichinhos. Em outras palavras, eles propuseram criar uma “biol√Ęmpada” que consiste de uma cultura de cianobact√©rias fotossintetizantes que durante √† noite produzisse luz. Seria como se ela “recarregasse” de dia para produzir luz √† noite.

Bioluminescência que o pessoal de Cambridge conseguiu.

Bioluminescência que o pessoal de Cambridge conseguiu.

Foram o primeiro time a clonar BioBricks com sucesso na esp√©cie de cianobact√©rias que utilizaram, al√©m de conseguir mostrar que a biol√Ęmpada de fato funciona como esperavam! Isso n√£o quer dizer que eles criaram um novo artigo de ilumina√ß√£o de interiores. O grande problema que impediu que o time chegasse at√© esse produto final √© a compatibilidade dos BioBricks – um dos grandes desafios da Biologia Sint√©tica. Devido a v√°rias quest√Ķes de ambiente celular, as prote√≠nas bioluminescentes n√£o brilharam com toda a intensidade que os ingleses de Cambridge conseguiram ao criar os BioBricks e testarem em E.coli, a express√£o n√£o estava otimizada para cianobact√©ria. Mas a prova de conceito foi feita, mesmo em baixa luminosidade! Esse foi um dos times que levou ouro e foi para a final. Bem merecido! Veja a wiki deles aqui.

Costa Rica-TEC-UNA

A primeira coisa que os cabisbaixos apresentadores do time costa-riquenho disseram foi: “N√≥s n√£o temos resultados.”. A equipe criada por incentivo do time panamenho, apesar de empolgada com o evento, estava bem abatida com os maus resultados. Ap√≥s uma estranha introdu√ß√£o da apresenta√ß√£o em forma de propaganda tur√≠stica da Costa Rica, a equipe falou de um projeto envolvendo produ√ß√£o de biodiesel¬† atrav√©s de triglicer√≠deos produzidos em R. Oppacus, que seriam liberados atrav√©s de um “mecanismo suicida” das bact√©rias; os triglicer√≠deos reagiriam com lipases secretadas por E.coli, a√≠ bastam umas rea√ß√Ķes qu√≠micas entre o produto dessa rea√ß√£o e etanol para produzir biodiesel. Por ser a √ļltima do evento, a apresenta√ß√£o ficou um pouco massante e cansativa. A wiki deles pode ser checada aqui.

P√īsteres

Como todo bom congresso, h√° a parte em que se apresentam os p√īsteres, e no iGEM n√£o foi diferente!

apresentando o poster

Foi uma excelente oportunidade para interagir melhor com as pessoas dos outros times e fazer perguntas espec√≠ficas sobre os projetos. Muitas pessoas ficaram interessadas por ambos os projetos e acho que a estrat√©gia de ter um projeto inovador e um projeto pragm√°tico at√© que funcionou com os p√īsteres. Apesar de termos feito uma gambiarra para arrumar umas imagens que estavam erradas no p√īster, nos sa√≠mos muito bem.

Haviam basicamente tr√™s tipos de ju√≠zes: o pragm√°tico, o curioso e o detalhista. O pragm√°tico √© aquele que duvida de tudo aquilo que √© teoricamente muito complexo e est√° interessado mesmo nos resultados experimentais. O curioso √© aquele que chega de fininho, observa durante um bom tempo o p√īster e faz perguntas capsiosas, mais com a inten√ß√£o de entender/aprender sobre o projeto do que inquirir as pessoas. O detalhista √© o que voc√™ mais sente confian√ßa nos par√Ęmetros de avalia√ß√£o: chega se apresentando, diz que vai cronometrar a explica√ß√£o e pede para fazer um “tour” pelo projeto para depois fazer as perguntas espec√≠ficas e vai anotando tudo em uma prancheta. N√£o explicamos t√£o bem para o avaliador pragm√°tico, mas nos demos relativamente bem com os outros dois tipos de avalidores. Eu fiquei orgulhoso por ter explicado “o que √© mem√≥ria” para um dos avaliadores curiosos que indagaram sobre o projeto de mem√≥ria associativa com bact√©rias. Talvez seja uma das poucas vezes que eu consegui fazer uma pessoa entender bem o projeto rapidamente.

Nosso poster: sim, tem texto demais.

Nosso poster: sim, tem texto demais.

Algumas pessoas do grupo acharam que o fato de precisarmos de tr√™s pessoas para explicar completamente o poster foi um ponto negativo. Eu discordo. Acho que √© importante que todos tenham uma no√ß√£o geral do projeto, mas n√£o creio que seja uma desvantagem se criar especializa√ß√Ķes na hora de apresentar, em que diferentes pessoas s√£o “cabe√ßas” de diferentes partes do projeto – e portanto cada um apresenta sobre sua √°rea. Isso s√≥ garante uma melhor explica√ß√£o do projeto em uma natural (e bastante comum) estrutura de grupo – que √© a especializa√ß√£o de pessoas em diferentes tasks dos projetos.

No pr√≥ximo e √ļltimo post sobre a experi√™ncia no iGEM 2012 n√£o vou falar de projetos, times, medalhas, competi√ß√Ķes e etc. Vou falar daquilo que se percebe e se ganha em um prazo mais logo e que, no final das contas, √© o mais importante. iGEM 2012 Latin America: Aquilo que realmente importa!