Blogar ou n√£o blogar? Eis a quest√£o!

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Hoje quem escreve é a Lais Moreira Granato coordenadora do Blog Descascando a Ciência.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

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Eu como blogueira, fico irritada quando leio algum post ou ouço alguém falar que os blogs morreram. Isso não é verdade!!

Segundo o Google Trends, a procura por “como iniciar um blog” vem crescendo nos √ļltimos anos.¬†Cada vez mais, cresce o n√ļmero de empresas que fazem uso do velho “blog” como uma forma de atualiza√ß√£o de seus clientes sobre assuntos relacionados ao produto que √© comercializado. Ou at√© mesmo como uma maneira de aproxima√ß√£o, j√° que um blog √© bem mais din√Ęmico que um site, por exemplo.

Al√©m das empresas, cientistas t√™m feito uso dos blogs como uma nova forma de divulgar os resultados de suas pesquisas e atrair a aten√ß√£o da sociedade para a ci√™ncia. Prova disso √© o n√ļmero crescente de novos blogs vinculados a rede de blogs da UNICAMP, que foi criada em 2015 e como o Science Blogs Brasil que est√° completando 10 anos!

O que aconteceu nos √ļltimos anos, √© que com o surgimento de novas tecnologias, novas tend√™ncias tamb√©m surgiram, e por isso foi preciso atualiza√ß√£o!

Hoje em dia “a cara” dos blogs mudou! Hoje os blogs utilizam v√≠deos e outras ferramentas multim√≠dias para incrementar seus textos e fazem uso das redes sociais para que consigam alcan√ßar um maior n√ļmero de pessoas. A cria√ß√£o de conte√ļdo n√£o √© mais apenas sobre palavras. A cria√ß√£o de conte√ļdo utiliza as palavras para criar uma hist√≥ria e essa ‚Äúhist√≥ria‚ÄĚ √© mais do que apenas uma narrativa, como era no in√≠cio dos blogs. Ela representa fortemente sentimentos, opini√Ķes e pontos de vista que permitem que o escritor se conecte fortemente com o leitor.

Hoje os blogs são uma ferramenta de comunicação, a voz de uma marca, que integra textos, imagens, vídeos e o mais importante: emoção!

Eis que os Blogs n√£o morreram! Na realidade, eles se tornaram muito mais efetivos com o passar do tempo. O importante √© a qualidade do conte√ļdo que se deseja transmitir. Coisas boas sempre geram interesse!!

Vamos blogar!

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Charge de Luiza Carvalho (https://dialogoscciencia.com/2013/07/24/a-divulgacao-cientifica-e-a-minha-formacao-no-bacharelado-de-ciencias-biologicas-da-ufmg/

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La√≠s Moreira Granato, bi√≥loga, mestre em Agricultura e Doutora em Gen√©tica e Biologia Molecular. Atualmente p√≥s-doutoranda no Centro de Citricultura ‚ÄúSylvio Moreira‚ÄĚ/IAC e coordenadora do Blog Descascando a Ci√™ncia.

Os blogues morreram? Spoiler alert: n√£o. Longa vida aos blogues.

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? E para essa inauguração chamamos o amigo Roberto Takata para falar da morte, ou não, dos blogs.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

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“O relato de minha morte foi um exagero.” Mark Twain 1897. [1]

Como já entrego no título, claro que os blogues não morreram. Basta constatarmos que você está lendo este texto em um.

Ok. Os blogues n√£o morreram. Mas est√£o em risco de extin√ß√£o em um futuro pr√≥ximo? A√≠ √© mais complicado de responder. Ao menos para os de ci√™ncia com autores brasileiros h√° alguns ind√≠cios nesse sentido. Como uma redu√ß√£o no padr√£o de atividade de uma amostra de 346 weblogs no estudo do qual tomei parte (Fig. 1). Ressalte-se, no entanto, que n√£o √© a √ļnica interpreta√ß√£o poss√≠vel – pode ser que novos blogues (de ci√™ncias) estejam surgindo e o nosso levantamento n√£o foi capaz de capt√°-los adequadamente. E pelo menos um estudo (com um n√ļmero menor de “di√°rios virtuais”) concluiu que estaria havendo um aumento.

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Figura 1. Varia√ß√£o do n√ļmero de blogues de ci√™ncias ativos com autores brasileiros. Reproduzido de: Fausto et al. 2017.

Os blogues em geral – n√£o nos restringindo aos de ci√™ncia em pt-br – aparentemente v√£o bem. No Worpress.com, a principal plataforma de blogues blogues* (isto √©, tirando microblogues como o twitter; fotologues como o instagram ou Pinterest; videoblogues como muitos canais do YouTube; e plataformas de blogues que s√£o mais um tipo de m√≠dia social como o tumblr), o n√ļmero total de postagens mensais v√™m mantendo a tend√™ncia de crescimento desde o seu lan√ßamento em 2005: de pouco menos de 600.000 postagens novas (25,6 milh√Ķes de pageviews) em outubro de 2006 a mais de 77 milh√Ķes de novos posts (20,7 bilh√Ķes de pageviews) em junho de 2018 (Fig. 2) (Uma cautela deve ser tomada, no entanto, j√° que se trata de n√ļmeros divulgados pela pr√≥pria plataforma sem declara√ß√£o de auditoria, e n√£o um levantamento independente.)

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Figura 2. Varia√ß√£o do n√ļmero de postagens dos blogues hospedados no WordPress.com ao longo do tempo. Fonte: WordPress.com.

Os blogues como formato de comunicação devem ainda continuar por vários anos com algum grau de influência (ainda que eventualmente setorial: para temas específicos ou para grupos específicos de pessoas). Verdade que isso é mais um desejo do que um prognóstico, especialmente para os de ciências. Se, de um lado, temos uma aparente crise na blogosfera cientófila brazuca independente (e mesmo internacional [vide nota 2]); de outro, talvez estejamos frente a um processo de institucionalização da divulgação científica através de blogues: em 2015 foi lançado o Blogs de Ciência da Unicamp e, em 2016, o portal UFRGS Ciência. De novo, mais um desejo do que um prognóstico, no entanto.

Embora atualmente na internet brasileira canais no YouTube – com centenas de milhares a milh√Ķes de views por epis√≥dio, como no caso do Manual do Mundo e do Nerdologia – e podcasts – com dezenas de milhares de ouvintes como o Drag√Ķes de Garagem ou o SciCast – tenham mais visibilidade, e v√°rias iniciativas comecem a explorar outras m√≠dias como o instagram, enxergo um papel importante dos blogues no ecossistema da comunica√ß√£o p√ļblica de ci√™ncias online. Estes s√£o plataformas que conseguem fazer a integra√ß√£o dessas outras m√≠dias – por meio da incorpora√ß√£o (’embedding’) – e, melhor do que as demais, explorar a comunica√ß√£o por meio do texto escrito. Por exemplo, equa√ß√Ķes s√£o dif√≠ceis de serem exploradas em m√≠dia de √°udio, √© poss√≠vel de serem apresentadas em v√≠deo, mas explica√ß√Ķes mais detalhadas podem ser prejudicadas pela din√Ęmica da narra√ß√£o de v√≠deos – no texto, as pessoas podem ir e voltar e saltar de modo mais eficiente; gr√°ficos interativos podem ser facilmente inseridos nos blogues; e tendem a consumir menos banda (o que √© um fator a se considerar quando uma fra√ß√£o significativa acessa via celular – se n√£o houver um wi-fi dispon√≠vel e confi√°vel por perto, arquivos de √°udio e v√≠deo podem esgotar rapidamente a franquia de dados). Textos tamb√©m s√£o mais male√°veis quanto √† acessibilidade (ao menos de pessoas alfabetizadas) e, por enquanto, t√™m vantagens na indexa√ß√£o em mecanismos de busca, de tradu√ß√£o e mesmo de procura do pr√≥prio navegador. Boa parte das outras m√≠dias t√™m limita√ß√Ķes para o fornecimento de hiperlinks, especialmente para fora do site que hospeda o servi√ßo, o que √© facilmente integrado nos textos de blogues (na verdade, os links s√£o parte do esp√≠rito blogueiro – para os leitores poderem se aprofundar, para indicar outros canais dignos de serem seguidos, para dar a fonte original…). E, possivelmente como caracter√≠stica principal, a produ√ß√£o e edi√ß√£o de texto tamb√©m tende a ser muito f√°ceis e baratas do que uma boa edi√ß√£o de √°udio e v√≠deo – facilitadas ainda pelo fato de a educa√ß√£o formal enfatizar a habilidade de escrita.

Algumas dessas vantagens poder√£o ser igualadas por √°udios e v√≠deos na medida em que algoritmos se tornarem confi√°veis em extrair os textos desses arquivos (permitindo, por exemplo, pular direto para trechos que falam diretamente de um termo ou assunto); outras, como links externos, dependem de altera√ß√Ķes de pol√≠ticas de servi√ßo dos provedores (embora a tend√™ncia seja oposta, por exemplo, no facebook, que deseja manter os usu√°rios em sua plataforma o m√°ximo de tempo poss√≠vel); mas o texto, em uma forma ou outra, tem resistido √† prova do tempo.

Mesmo que os blogues blogues* não resistam às tendências atuais e futuras; os blogues nem tão blogues (como o tumblr, facebook, instagram e outros) que incorporem pelo menos alguma possibilidade de inserção de textos e explorar parte de suas vantagens devem continuar o legado. Ainda que isso seja mais desejo do que um prognóstico.

Nota:

*Blogues Blogues – blogs em formato cl√°ssico como WordPress e Blogspot

[1] A citação mais completa é:
“James Ross Clemens, a cousin of mine, was seriously ill two or three weeks ago in London, but is well now. The report of my illness grew out of his illness; the report of my death was an exaggeration.” Mark Twain, 31 de maio de 1897.
[“James Ross Clemens, um primo meu, esteve seriamente adoentado h√° duas ou tr√™s semanas em Londres, mas agora est√° bem. O relato de minha enfermidade surgiu a partir da enfermidade dele; o relato de minha morte foi um exagero.”]

[2] Como com o fechamento da versão original americana do ScienceBlogs РATENÇÃO: o ScienceBlogs Brasil é um projeto independente e não foi afetado por essa decisão do grupo SEED.

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Neste inst√°vel mundo intern√©tico – do qual o cemit√©rio de projetos da Google √© um exemplo eloquente – n√£o √© qualquer empreitada que chega aos dois d√≠gitos de transla√ß√Ķes terrestres.

Mais do que parab√©ns, devo dizer muito obrigado, ScienceBlogs Brasil, pelo bel√≠ssimo trabalho que tem feito nesta √ļltima d√©cada. N√£o apenas tem informado e conscientizado seus incont√°veis leitores e fi√©is f√£s em rela√ß√£o a temas relacionados √†s ci√™ncias e dado visibilidade a tanto projetos e divulgadores incr√≠veis; como inspirado um sem n√ļmero de pessoas a seguirem a carreira cient√≠fica e de comunica√ß√£o de ci√™ncias. Um dos principais projetos de divulga√ß√£o de uma das principais institui√ß√Ķes brasileiras: o Blog de Ci√™ncias da Unicamp, √© um filho espiritual direto dos SbBr.

Desejar longa vida aos SbBr é, assim, mais do que um cumprimento a todos os colaboradores Рatuais e pregressos Рe a comunidade de leitores que se formou em torno; é uma obrigação moral para alguém que aprecia e valoriza a cultura científica.

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Roberto Takata, entre outras coisas, escreve no Gene Repórter.

Confer√™ncia EURAXESS Links: ‚ÄúConectando Pesquisadores Internacionais‚ÄĚ

*Este é um post patrocinado

Discussão aberta no Rio sobre oportunidades de cooperação em pesquisa e mobilidade entre europeus e brasileiros.

A 3a Confer√™ncia EURAXESS links – ‚ÄúConectando Pesquisadores Internacionais‚ÄĚ foi realizada no Rio de Janeiro em 11 de maio de 2016, celebrando as firmes rela√ß√Ķes cient√≠ficas e ampla mobilidade dos pesquisadores entre pa√≠ses europeus e latino-americanos. Esta foi a primeira edi√ß√£o desta confer√™ncia bienal no continente americano. Organizada pela Comiss√£o Europeia e pela EURAXESS Brasil, a confer√™ncia reuniu mais de 180 participantes, dentre eles pesquisadores, acad√™micos, representantes da ind√ļstria e √≥rg√£os p√ļblicos da Europa e do Brasil. O programa contou com palestrantes de alto n√≠vel, tais como o sr. Jo√£o Cravinho, embaixador da Uni√£o Europeia no Brasil, o professor Jorge Guimar√£es, presidente da EMBRAPII, o professor Pedricto Rocha Filho, presidente em exerc√≠cio da FINEP, bem como representantes das principais ag√™ncias de fomento da Comiss√£o Europeia, Marie Sklodowska Curie Actions (MSCA) e o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC).

A iniciativa da EURAXESS tem o objetivo de facilitar a mobilidade, aprimorar as carreiras de pesquisadores e aumentar a atratividade de oportunidades de pesquisa na Europa.

Por meio da confer√™ncia no Rio de Janeiro, os pesquisadores brasileiros aprenderam sobre as oportunidades existentes na Europa. Durante o workshop que ocorreu na parte da tarde, os pesquisadores foram treinados e receberam dicas e orienta√ß√Ķes para terem sucesso ao se candidatarem para bolsas de pesquisa na Europa, bem como outros ve√≠culos de fomento.

Com base em discuss√Ķes abertas, ao inv√©s de apresenta√ß√Ķes individuais, as sess√Ķes da confer√™ncia abordaram maneiras de aumentar o escopo da mobilidade de pesquisadores e atores da inova√ß√£o entre ambas as regi√Ķes, de como promover a uni√£o os setores da pesquisa e da ind√ļstria para formar parcerias e de aprimorar m√©todos de networking a fim de abordar as novas oportunidades.

‚ÄúA confer√™ncia atraiu um p√ļblico entusiasmado e engajado, o que √© muito promissor e auspicioso para que sejam alcan√ßados resultados pr√°ticos no relacionamento entre pesquisadores brasileiros e europeus. Como resultado deste evento, queremos ver mais oportunidades, mais projetos de pesquisa e mais coopera√ß√Ķes ocorrendo entre as duas comunidades de pesquisa‚ÄĚ, disse Charlotte Grawitz, representante nacional da EURAXESS Links Brasil.

Pesquisadores interessados e demais participantes do universo da pesquisa no Brasil que perderam a chance de comparecer ao evento podem assinar a newsletter da EURAXESS Links Brazil escrevendo para brazil@euraxess.net.

As apresenta√ß√Ķes feitas durante o evento, incluindo a sess√£o de treinamento sobre como enviar uma proposta bem-sucedida para a obten√ß√£o de fomento da EU est√£o dispon√≠veis aqui.

Laborat√≥rios h√≠bridos de interface arte/neuroci√™ncias – L’IMPLORANTE LAB

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– Por Jose Otavio Pompeu e Silva

Um encontro inusitado entre cientistas e artistas em um laborat√≥rio montado para funcionar durante o congresso IBRO 2015 que acontecer√° no Rio de Janeiro e √© um dos maiores encontros entre neurocientistas do mundo. Ser√£o duas apresenta√ß√Ķes de uma performance que une a proposta de uma pesquisadora de p√≥s-doutorado, a atriz Dorys Calvert; um aluno de mestrado, o pintor Danilo Moveo; a aluna de doutorado e videomaker Cristina Amazonas que assina a dire√ß√£o de arte e o som do pesquisador e DJ Eufr√°sio Prates. Jos√© Ot√°vio e Maira Fr√≥es, dois neurocientistas da UFRJ, comandam a interface arte/ci√™ncia que simula uma rede neural com oscila√ß√Ķes entre dados eletrofisiol√≥gicos e art√≠sticos criando um ambiente de imers√£o em que o tema universal dos sentimentos profundos da mulher √© mostrado no texto das cartas da artista francesa Camille Claudel.

O laborat√≥rio ArtSci L’Implorante trabalha com o conceito de ru√≠do que est√° por tr√°s de toda rede comportamental e cognitiva, integrando performance teatral, pintura abstrata ao vivo e m√ļsica eletr√īnica holofractal, combinada com abordagens neurofisiol√≥gicos cl√°ssicas, representada por grava√ß√Ķes electrod√©rmicas e eletroencefalogr√°ficas diretamente obtidas a partir dos arteistas e complementado por impress√Ķes subjetivas . Um encontro entre o subjetivo e o objetivo, artistas e cientistas contempor√Ęneos em busca das bases neurobiol√≥gicas da experi√™ncia humana. Vamos exercer nesses ambientes o potencial de inspirar e propor abordagens inovadoras para lidar com afirma√ß√Ķes cient√≠ficas para uma cogni√ß√£o emocional e afetiva incorporada no comando da cria√ß√£o humana.

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arte / neurociência e ciência / interfaces de sujeitos

. UMA QUESTÃO DE CORPO
8 de julho quarta-feira 17:00
Conceitos emergentes e conhecimentos experimentais de comportamentos emocionais e cognitivos incorporadas

. UMA QUESTÃO DE COR
9 de julho quinta-feira 17:00
Paletas da experiência humana objetiva e subjetiva com cores

. UMA QUESTÃO DE SOM
Sexta-feira 10 de julho 17:00
Palavras sonoras, soando imagens sonoras e
cérebros sonoros na ciência

Experiência interativa
A geração das interfaces de artsci ao vivo (a qualquer momento)

Sul America Centro de Conven√ß√Ķes – Mezanino
Av Paulo de Frontin , 1 -. Cidade Nova, no Rio de Janeiro
anatomiadaspaixoes.blogspot.com

Artistas, cientistas:
Caetano DABLE,
Cecilia Hedin-Pereira,
Cristina Amazonas,
Dandara Dantas,
Danilo Moveo,
Dorys Calvert,
Eufrasio Prates,
Fernando de La Rocque,
Franey Nogueira,
Gabriel Brasil,
Jo√£o Bosco
Bedeschi Filho,
José Otávio
Pompeu e Silva,
Maira Fróes,
Mario Fiorani Jr

 

Infecção Hospitalar: o perigo subestimado

hospital-staph_600Imagem: Mike Adams http://www.naturalnews.com/023156_MRSA_staph_infections.html

Autor: Samuel Pereira
Discente do quinto semestre do curso de Biomedicina na Universidade Estadual de Santa Cruz, onde também realiza iniciação científica.

Nos √ļltimos dias, quando a m√≠dia noticiou sobre o isolamento de uma bact√©ria resistente causando infec√ß√£o em dois pacientes, em um hospital de Bras√≠lia p√īs em discuss√£o a tem√°tica das infec√ß√Ķes hospitalares (IHs). No Brasil, as estat√≠sticas das IHs n√£o s√£o atualizadas com frequ√™ncia, mas o Minist√©rio da Sa√ļde (MS) estima que a taxa m√©dia no pa√≠s seja de 15,5%, muito acima da m√©dia mundial que √© de 5%.

O Minist√©rio da Sa√ļde por meio da portaria n¬ļ 2612 de 12 de maio de 1998 estabelece infec√ß√£o hospitalar como um processo infeccioso adquirido ap√≥s admiss√£o do paciente e que se manifesta durante interna√ß√£o ou ap√≥s alta, quando puder ser relacionado com interna√ß√£o ou procedimentos hospitalares. Desde a d√©cada de noventa o termo IH vem sendo substitu√≠do por Infec√ß√£o Relacionada √† Assist√™ncia em Sa√ļde (IRAS), por√©m as duas denomina√ß√Ķes s√£o utilizadas.

Os primeiros casos de infecção hospitalar surgiram logo após a criação dos hospitais, pois nestes ambientes coexistiam os fatores essenciais ao aparecimento das IRAS. A circulação de microrganismos, uma cadeia de transmissão e hospedeiros comprometidos, associados a ineficientes programas de prevenção e controle existentes em grande parte dos hospitais contribuem para uma incidência crescente das IRAS.

No Brasil, uma das primeiras medidas de preven√ß√£o e controle deste grave problema de sa√ļde p√ļblica foi o desenvolvimento das Comiss√Ķes de Controle de Infec√ß√£o Hospitalar (CCIH), na d√©cada de setenta. Por determina√ß√£o do Minist√©rio da Sa√ļde (portaria 196 de 24 de junho de 1983) as CCIHs deveriam existir em todos os hospitais brasileiros, sendo constitu√≠das por profissionais de sa√ļde capazes de estabelecer infer√™ncias e interven√ß√Ķes. Cerca de vinte anos ap√≥s essa determina√ß√£o do MS constatou-se que apenas 30% dos hospitais possu√≠am uma CCIH.

Ao longo dos anos, a utiliza√ß√£o de antibi√≥ticos funcionou como principal estrat√©gia tanto no combate √†s infec√ß√Ķes comunit√°rias, quanto √†s infec√ß√Ķes relacionadas com os servi√ßos de sa√ļde. No entanto, o que preocupa na comunidade cient√≠fica atual s√£o os recorrentes casos de resist√™ncia aos antimicrobianos dispon√≠veis no mercado. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Preven√ß√£o de Doen√ßas (CDC) divulgou estat√≠sticas mostrando que 16% (do total de IRAS) s√£o causados pela bact√©ria Staphylococcus aureus, sendo que 60% dessas bact√©rias apresentavam resist√™ncia a algum antibi√≥tico.

As estrat√©gias de preven√ß√£o e controle adotadas at√© o momento n√£o foram suficientes para estabilizar o n√ļmero de casos de infec√ß√Ķes hospitalares. Buscar novas estrat√©gias √© indispens√°vel, uma alternativa s√£o as a√ß√Ķes de educa√ß√£o em sa√ļde que mostam resultados positivos no combate as infec√ß√Ķes comunit√°rias. As atividades de educa√ß√£o em sa√ļde podem ser efetivas ao aproximar o conhecimento te√≥rico da viv√™ncia pr√°tica de cada profissional envolvido na cadeia de transmiss√£o, permitindo que eles percebam a sua participa√ß√£o tanto no estabelecimento quanto no controle das IRAS. ¬†As atividades podem ser estendidas √† comunidade, visto que algumas pr√°ticas como o uso de antimicrobianos sem prescri√ß√£o m√©dica tamb√©m contribuem no surgimento de infec√ß√Ķes hospitalares.

 

REFERÊNCIAS

DF registra casos de superbactéria em três hospitais e uma UPA. 

BRASIL. Portaria n¬ļ 2616, de 12 de mar√ßo de 1998. Defini√ß√£o de infec√ß√£o hospitalar e outras provid√™ncias.

Azambuja, Eliana Pinho de, Denise Pires de Pires, and Marta Regina Cezar Vaz. “Preven√ß√£o e controle da infec√ß√£o hospitalar: as interfaces com o processo de forma√ß√£o do trabalhador.” Texto Contexto Enferm 13 (2004): 79-86.

Tortora, Gerard J., Berdell R. Funke, and Christine L. Case. Microbiologia. Artmed, 2012.

A morada inquieta

©Rodrigo Barreiro

©Rodrigo Barreiro

Este post √© o resultado de uma prova aplicada √† turma da disciplina de Virologia, da gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. A prova foi uma reda√ß√£o sobre o tema “V√≠rus √© vivo?” e as respostas seguem abaixo:

A defini√ß√£o do que realmente √© um v√≠rus al√©m de seus aspectos estruturais ou bioqu√≠micos foi e ainda √© uma quest√£o nebulosa nos estudos biol√≥gicos, est√£o eles vivos ou s√£o apenas objetos inanimados capazes de interagir intimamente com os seus hospedeiros? Boa parte da dificuldade em descobrir a resposta a essa pergunta est√° na discrep√Ęncia dos v√≠rus em rela√ß√£o √†s caracter√≠sticas intr√≠nsecas dos seres que comumente consideramos como vivos: v√≠rus n√£o tem c√©lulas, metabolismo e dependem totalmente do seu hospedeiro para as suas atividades. Mas, em contrapartida, eles t√™m o seu pr√≥prio material gen√©tico, que √© a mol√©cula mais elementar que caracteriza a vida, al√©m disso, est√£o sujeitos √† evolu√ß√£o e se reproduzem. √Č devido a esse contraste entre esses conjuntos de propriedades que v√≠rus s√£o considerados por estarem na fronteira do que √© ou n√£o √© vida.

Estruturalmente, a part√≠cula viral (tamb√©m chamada de v√≠rion) √© composta por uma fita de √°cido nucleico (DNA ou RNA ‚ÄĒ com o RNA podendo ser negativo ou positivo, fita simples ou dupla, linear ou circular) envolta por uma c√°psula proteica (caps√≠deo) codificada pelo seu genoma, algumas part√≠culas virais tamb√©m disp√Ķem de um envelope lipoproteico obtido do hospedeiro que infectaram. Sendo que considerarei essa part√≠cula viral distinta da sua forma ativa (o v√≠rus), essa √ļltima sendo a fase somente na qual a c√©lula √© ‚Äúsequestrada‚ÄĚ, seja no ciclo lisog√™nico ou l√≠tico; portanto, a fase de v√≠rion seria ent√£o o per√≠odo inativo, no qual n√£o h√° nenhum tipo de metabolismo.

O início da infecção, e com isso o início da formação do vírus propriamente dito, começa a partir do momento no qual o vírion reconhece por meio de receptores em sua superfície a célula alvo a qual deve infectar, ocorrendo a internalização da partícula viral pela célula ou então somente do material genético presente em seu interior, nesse estágio o vírus direciona os processos celulares para a produção de vários novos vírions, lisando a célula no final do ciclo. Esse seria o ciclo lítico, sendo que o ciclo lisogênico necessariamente resultará nele em algum período, caso contrário o material genético viral ficará para sempre incorporado ao DNA do hospedeiro, mas não que isso não seja possível.

Os primeiros problemas em considerar os vírus como seres vivos estão demonstrados nos parágrafos acima, primeiramente, ao contrário de todos os seres celulares, os vírus podem ter RNA como material genético, dependem totalmente do aparato celular do hospedeiro para se multiplicarem, além de que, as partículas virais são inertes fora de seus hospedeiros.

A maioria das pessoas questionaria: ‚Äúora, ent√£o por que considerar que v√≠rus est√£o vivos se eles n√£o se reproduzem por si s√≥s e geram part√≠culas inertes que carregam o seu material gen√©tico por a√≠?‚ÄĚ. O fato √© que a resposta √© mais complexa do que aparentar ser, dependendo essencialmente da defini√ß√£o do que √© vida e estar vivo. Se essa defini√ß√£o se basear em uma c√©lula com material gen√©tico em seu interior que vai controlar as suas fun√ß√Ķes biol√≥gicas (o ‚Äúsequestro‚ÄĚ da maquinaria celular) e ser passado de gera√ß√£o a gera√ß√£o (mediado pelo v√≠rion), ent√£o sim, v√≠rus estariam vivos, posto que, pelo diagrama de Baltimore, independentemente de qual tipo de material gen√©tico for composto o v√≠rus, ir√° ter o RNAm como ponto de converg√™ncia durante o processamento desse material at√© a forma√ß√£o da prote√≠na (explicitado no dogma central da biologia molecular), assim como no material gen√©tico de todos os outros organismos da Terra. N√£o importaria se o RNAm veio de uma bact√©ria, de uma ameba, do neur√īnio de um peixe ou de um v√≠rus, para a c√©lula n√£o importaria a origem, todas elas iriam causar um efeito na c√©lula, mesmo que esse efeito seja m√≠nimo, mesmo que seja a cataboliza√ß√£o da pr√≥pria fita ela causaria um efeito. Com isso, percebe-se que para a vida ser poss√≠vel seria necess√°ria uma estrutura celular, no caso do v√≠rus essa estrutura seria ‚Äúemprestada‚ÄĚ, mas n√£o deixaria de ser um tipo de vida sob certas condi√ß√Ķes.

No entanto, essa vis√£o, apesar de l√≥gica, acaba confluindo para a hip√≥tese de que, por exemplo, mitoc√īndrias e plasm√≠deos tamb√©m t√™m vida pr√≥pria, uma vez que s√£o ou possuem material gen√©tico, causam efeitos de n√≠vel celular, se replicam independentemente (pelo menos as mitoc√īndrias e alguns tipos de plasm√≠deos) e em at√© certo n√≠vel evoluem (por exemplo, um plasm√≠deo que tenha uma origem de replica√ß√£o ou transfer√™ncia n√£o efetiva pode n√£o se manter em uma popula√ß√£o de bact√©rias). E a menos que se considerem mitoc√īndrias e plasm√≠deos como seres vivos, a ideia de que v√≠rus s√£o vivos por terem um material gen√©tico que comanda processos celulares acaba n√£o fazendo muito sentido. Apesar disso, v√≠rus continuariam a ser algo a mais do que mitoc√īndrias ou plasm√≠deos. Se v√≠rus est√£o entre o que √© a vida e o que n√£o √©, seria presum√≠vel dizer que eles t√™m a potencialidade da vida (por serem mais do que um conjunto de mol√©culas biol√≥gicas), mas, que por diversos fatores, n√£o a desenvolvem em sua completude. Assim como a intera√ß√£o complexa e interdependente de uma cole√ß√£o de prote√≠nas, lip√≠deos, rea√ß√Ķes qu√≠micas, carboidratos, material gen√©tico e outros tijolos biol√≥gicos n√£o vivos comp√Ķem a vida, mas n√£o as partes separadas ou conjuntos dessas partes (uma prote√≠na n√£o tem vida, por exemplo). Com isso a vida seria mais do que um estado, e sim um processo cont√≠nuo dessas intera√ß√Ķes entre mol√©culas n√£o vivas. Da mesma maneira que a consci√™ncia n√£o √© formada por um neur√īnio e sim por um n√≠vel cr√≠tico de complexidade entre diversos deles, os v√≠rus n√£o conseguiriam atingir essa complexidade cr√≠tica para a vida, apesar de serem feito dos mesmos tijolos que a constr√≥i. Parafraseando um artigo de opini√£o: os v√≠rus, apesar de n√£o totalmente vivos, seriam mais do que mat√©ria inerte, eles tenderiam √† vida.

As duas vis√Ķes relativamente opostas apresentadas ao logo do texto ‚ÄĒ a primeira de que v√≠rus s√£o vivos por apresentarem material gen√©tico que causa efeitos de n√≠vel celular e a segunda de que v√≠rus tenderiam √† vida por n√£o atingirem a complexidade cr√≠tica necess√°ria para estarem vivos ‚ÄĒ s√£o na sua maior parte derivadas de um processo do pensamento humano: a tend√™ncia de enxergamos o mundo de uma forma polarizada. Ao longo da evolu√ß√£o organizar o mundo entre pares de opostos nos foi muito √ļtil para criarmos uma vis√£o do ambiente a nossa volta, distinguindo-se entre o que √© quente ou frio, r√°pido ou lento, noite ou dia, comida ou n√£o comida a esp√©cie humana conseguiu sobreviver √†s intemp√©ries, de forma que esse modo de pensamento se expandiu muito al√©m dos quesitos da sobreviv√™ncia; de fato, se a nossa percep√ß√£o da realidade n√£o fosse vista como pares de opostos o mundo n√£o funcionaria do mesmo modo como conhecemos hoje, isso se funcionasse.

Entretanto, questionados sobre se um p√°ssaro est√° vivo ou n√£o n√≥s conseguimos responder com consenso que sim, mas com os v√≠rus isso √© diferente, posto que se situam na fronteira do que se define como vida, sendo que a defini√ß√£o de vida em si n√£o obedece a pares de opostos, e √© por isso que √© t√£o dif√≠cil de defini-la, e talvez essa tarefa seja semelhante a se perguntar o porqu√™ de o universo existir, a ci√™ncia n√£o tem a resposta para a exist√™ncia do universo e nem para a defini√ß√£o da vida, e talvez nunca tenha (e objetivo da ci√™ncia nem √© encontrar respostas para tudo). A defini√ß√£o de vida ideal seria aquela n√£o somente v√°lida para a vida terrestre, mas tamb√©m para qualquer outra forma de vida que possa existir no universo, seria uma defini√ß√£o muito semelhante ao mundo das ideias de Plat√£o. O que acontece ent√£o √© a tentativa de descrever as caracter√≠sticas comuns de todos os seres vivos ao inv√©s de definir a vida propriamente dita: presen√ßa de c√©lula, capacidade de se reproduzir, estar sujeito √† evolu√ß√£o, ter metabolismo, entre outras caracter√≠sticas. Mas essa caracteriza√ß√£o volta ao problema da polariza√ß√£o, n√£o sendo aplic√°vel na determina√ß√£o dos v√≠rus, j√° que n√£o √© poss√≠vel reduzi-los a pares de opostos (por estarem na fronteira da vida). Em suma, a pergunta inicial se v√≠rus est√£o vivos se enquadra em duas diferentes situa√ß√Ķes, na primeira delas n√≥s encontrar√≠amos uma defini√ß√£o universal de vida (o que o autor desse texto acha muito pouco prov√°vel), e com isso saber√≠amos se os v√≠rus se encaixam ou n√£o a ela; ou ent√£o, na segunda situa√ß√£o, a partir de estudos cient√≠ficos descobrir√≠amos caracter√≠sticas dos v√≠rus que os aproximem ou os afastem dos seres que hoje consideramos vivos, ou seja, distanciar os v√≠rus da fronteira da vida, j√° que n√£o conseguimos defini-la, sendo que isso √© o que vem acontecendo gradualmente a partir dos √ļltimos anos com o desenvolvimento e aprimoramento de diversas t√©cnicas e m√©todos de pesquisa, que est√£o direcionando os v√≠rus no sentido de aproxim√°-los cada vez mais √† √°rea das coisas vivas do que o sentido contr√°rio, mas que ainda n√£o conseguiu atingir um est√°gio de singularidade.

 

Quem sou

Matheus ConforteMatheus Conforte √© estudante universit√°rio, entusiasta da ci√™ncia desde a inf√Ęncia e aficionado por m√ļsica, filmes e games (e pelo meu cachorro e gato). Pretende um dia seguir carreira cient√≠fica na √°rea biom√©dica em fisiologia, biologia celular ou microbiologia. N√£o gosta de ervilhas e tem avers√£o a calor ou frio extremos.

A definição de vida é tênue e os vírus podem ser incluídos nela

Existem duas teorias que tentam explicar o surgimento dos v√≠rus. A primeira √© que os v√≠rus surgiram antes da c√©lula como estruturas moleculares auto replicantes ainda no mundo do RNA. A segunda, mais amplamente aceita, √© que os v√≠rus sofreram uma ‚Äúevolu√ß√£o regressiva‚ÄĚ ‚Äď assim como a mitoc√īndria e a Rickettsia, procarioto parasita intracelular obrigat√≥rio ‚Äď que perderam seu metabolismo, seu material gen√©tico e a sua capacidade de sintetizar parte da maquinaria celular. De acordo com essa teoria, os v√≠rus n√£o tem um ancestral comum. Ambas essas teorias, a segunda principalmente, incluem os v√≠rus na √°rvore da vida. A primeira os define como os precursores da vida, o princ√≠pio da mat√©ria org√Ęnica e do material gen√©tico. A segunda vai al√©m: encaixa os v√≠rus como descendentes das coisas vivas, tornando l√≥gica sua classifica√ß√£o como vivos.

√Č importante notar aqui a diferen√ßa entre v√≠rion e v√≠rus. O primeiro sendo uma part√≠cula de mat√©ria org√Ęnica inanimada (a mais abundante no planeta), j√° o segundo √© o estado vegetativo do primeiro, quando infecta a c√©lula e controla sua maquinaria de replica√ß√£o (o ribossomo), sintetiza sua pr√≥pria maquinaria de replica√ß√£o (as polimerases virais) e guia o metabolismo celular. Nesse caso, n√£o s√≥ podem ser considerados vivos como a pr√≥pria c√©lula infectada pode ser considerada um v√≠rus em sua totalidade. Assim como os esporos f√ļngicos e bacterianos e os espermatozoides, os v√≠rus s√£o incapazes de replicar-se sem as condi√ß√Ķes adequadas ‚Äď nesse caso, a c√©lula.

Todas as esp√©cies de eucariotos e procariotos dependem de outras formas de vida para sobreviver. Os v√≠rus n√£o s√£o diferentes: seu ecossistema √© o hospedeiro e seu nicho ecol√≥gico √© o parasitismo. Como todas as esp√©cies, os v√≠rus est√£o submetidos √†s propriedades do meio: quando esgotam seu ecossistema (matando a c√©lula hospedeira), seu crescimento cessa. N√£o s√£o o √ļnico exemplo, ali√°s, de um ecossistema dentro de outro nem de formas vivas que dependem intimamente de outras c√©lulas para crescer (e. g. Rickettsia, Chlamydia). Os v√≠rus desempenham ainda importante papel na biosfera, n√£o como for√ßas naturais, mas como agentes participantes ecologicamente: regulam a popula√ß√£o do hospedeiro e, ao matar c√©lulas no oceano (onde s√£o particularmente abundantes), garantem ferro e outros nutrientes essenciais √† sobreviv√™ncia do fitopl√Ęncton.

Finalmente, √© importante ressaltar que a discuss√£o ‚Äúv√≠rus s√£o vivos?‚ÄĚ √© infinita. Nunca haver√° um consenso nessa √°rea. E mesmo se houvesse, n√£o h√° forma emp√≠rica de prov√°-la. Diferente dO Guia do Mochileiro das Gal√°xias, onde a pergunta fundamental para a vida, o universo e tudo mais ‚Äď cuja resposta √© 42 ‚Äď est√° esculpida em letras colossais no alto de uma montanha, n√£o existe uma defini√ß√£o universal e inquestion√°vel sobre o conceito de vida que pode ser alcan√ßada empiricamente pelo m√©todo cient√≠fico. E nem pela filosofia, a prop√≥sito, considerando vida como um conceito arbitrariamente concebido pela humanidade, parcial e enviesado por ju√≠zos de valores e ideias antropoc√™ntricas. Como fen√īmeno do universo, nunca existir√° uma linha n√≠tida separando o mundo vivo do n√£o vivo. Para motivos did√°ticos, contudo, √© interessante definir o conceito de vida. Mas √© igualmente importante mostrar, mesmo para os mais jovens, que esse conceito tem um limite abstruso com o mundo n√£o vivo. E v√°rias coisas, carregadas de semelhan√ßas e diferen√ßas ‚Äď algumas mais diferentes que outras ‚Äď existem nesse limite: v√≠rus, vir√≥ides, virus√≥ides, v√≠rus sat√©lites (e. g. Sputnik, v√≠rus sat√©lite dos Mamav√≠rus e Mimiv√≠rus), pr√≠ons, Rickettsia, Chlamydia, a mitoc√īndria em sua curiosa simbiose com a c√©lula e at√© mesmo entidades mais curiosas como os plasm√≠deos, transposons e a ribozima. Todas essas entidades transitam cada um √† sua forma, na linha que a humanidade tenta desenhar entre o vivo e o n√£o vivo.

Quem sou

Davidson CorreaMeu nome é Davidson Correa, tenho 21 anos e estudo Ciências Biomédicas na Universidade de São Paulo. Estudo para entender como a vida funciona até seus níveis moleculares mais básicos. Adoro synthpop sueco e odeio açaí.

Uma quest√£o viral

©Rodrigo Barreiro

©Rodrigo Barreiro

Este post √© o resultado de uma prova aplicada √† turma da disciplina de Virologia, da gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. A prova foi uma reda√ß√£o sobre o tema “V√≠rus √© vivo?” e as respostas seguem abaixo:

A grande dificuldade em caracterizar v√≠rus como vivos ou n√£o est√° na complexidade em se definir o que √© vida, pois algumas das propriedades utilizadas para defini-la s√£o apresentadas pelo que n√£o √© considerado vivo, como, por exemplo, a capacidade de multiplica√ß√£o, pois cristais se “replicam” apenas pelo contato com novas mol√©culas em um certo padr√£o (principal est√°gio da cristaliza√ß√£o), mas n√£o por isso s√£o considerados vivos [1].

Já os vírus são, em minha opinião, organismos vivos; são formados por um capsídeo proteico, alguns envolvidos por membrana também (proveniente da célula infectada), material genético (DNA ou RNA, que podem ser de fita simples ou dupla) e podem codificar enzimas virais e conter proteínas receptoras em sua superfície, que reconhecem o meio externo e outras células. São parasitas intracelulares obrigatórios, pois necessitam e manipulam a maquinaria celular para se multiplicarem [2]. Mesmo que não apresentem atividade fora de células vivas, essa habilidade de se replicarem comandando a célula infectada e, portanto, a desnecessidade de carregarem toda a maquinaria consigo pode ser considerada uma razão de serem organismos vivos, além de que percebem e respondem ao ambiente em que estão.

A capacidade de multiplicação pelo comando da célula hospedeira também é apresentada pelos viroides, que são pequenas moléculas de RNA simples fita circular e sem nenhum capsídeo; porém, estes infectam células ao acaso e iniciam transcrição de genes, enquanto os vírus apresentam proteínas em sua superfície que reconhecem tipos celulares específicos (com determinados receptores) para infecção e, também, mecanismos de regulação da expressão de suas proteínas: possuem proteínas precoces, que são as primeiras a serem sintetizadas e atuam, em geral, na própria transcrição e replicação do genoma viral ou sobre o metabolismo celular, modificando-o para favorecer a síntese de componentes virais e as proteínas tardias, que são estruturais e irão compor a partícula viral [2].

Figura 1: Classificação de Baltimore para vírus. (+) e (-) indicam senso positivo e negativo, respectivamente, da fita de RNA. ds e ss indicam que a molécula de ácido nucleico é constituída de cadeia dupla ou simples, respectivamente. Imagem de GrahamColm, retirada da Wikimedia Commons.

Figura 1 –¬†Classifica√ß√£o de Baltimore para v√≠rus. (+) e (-) indicam senso positivo e negativo, respectivamente, da fita de RNA. ds e ss indicam que a mol√©cula de √°cido nucleico √© constitu√≠da de cadeia dupla ou simples, respectivamente. Imagem por¬†GrahamColm, retirada da Wikimedia Commons.

Segundo o Diagrama de Baltimore, os vírus são classificados em 7 grupos, dependendo do seu tipo de material genético e, portanto, dos processos necessários para a síntese de RNA mensageiro na célula hospedeira (que codificará as estruturas virais), uma vez que no processo de replicação de alguns vírus deve ocorrer a conversão do seu material genético em um DNA ou RNA intermediário antes da síntese do RNA mensageiro [3] (Figura 1). O fato de que o próprio vírus na maioria das vezes codifica ou carrega a enzima que irá possibilitar essa etapa, seja uma RNA ou DNA polimerase (inclusive transcriptase reversa), mostra que houve uma evolução e adaptação às células hospedeiras, já que em grande parte apenas as proteínas que não são providas pela célula são codificadas pelos vírus.

Figura 2: Classificação de Baltimore de vírus, apresentando quais enzimas são utilizadas por cada grupo.

Figura 2 РClassificação de Baltimore de vírus, apresentando quais enzimas são utilizadas por cada grupo. Imagem por Carter JB e Saunders VA, retirada de Wikimedia Commons.

Por exemplo, a maioria dos v√≠rus de DNA (Grupos I e II) √© capaz de codificar a DNA polimerase necess√°ria para sua replica√ß√£o e estas s√£o √ļnicas para cada um, ou seja, n√£o podem ser substitu√≠das pelas enzimas da c√©lula, mas apresentam grande similaridade com DNA polimerases de eucariotos e¬†Escherichia coli, mostrando que tais sequ√™ncias provavelmente s√£o provenientes de alguma c√©lula hospedeira e sofreram modifica√ß√Ķes com o passar do tempo; acredita-se que foi selecionada positivamente a posse de uma enzima pr√≥pria porque muitas vezes o v√≠rus se replica no citoplasma e, consequentemente, seu material n√£o tem acesso √†s polimerases da c√©lula, ou tamb√©m porque a c√©lula alvo n√£o se divide e, assim, n√£o expressa quantidade suficiente de tal enzima [4]. Outros exemplos s√£o os v√≠rus de RNA de senso negativo (Grupo V), que j√° cont√©m sua pr√≥pria RNA polimerase em sua part√≠cula e transcreve o RNA a senso positivo, o qual atua como RNA mensageiro; e os de RNA que geram mol√©culas de DNA dupla fita intermedi√°rias (Grupo VI), por meio da a√ß√£o da enzima transcriptase reversa, tamb√©m carregada j√° na part√≠cula viral (Figura 2).

Um exemplo de como os v√≠rus conseguem responder a varia√ß√Ķes no ambiente √© o caso dos bacteri√≥fagos, que infectam bact√©rias e s√£o capazes de integrar seu DNA ao bacteriano (caracterizando o ciclo lisog√™nico), o que √© vantajoso para ambas as partes: para a bact√©ria, por prevenir que haja infec√ß√£o e sua eventual lise; e para o fago, pois consegue se manter estavelmente e se replicar juntamente a ela. Por√©m quando a c√©lula est√° em uma situa√ß√£o de estresse que leve √† les√£o do DNA, deixa de ser interessante para o fago manter-se nesta bact√©ria, assim, por conta de mudan√ßas na sinaliza√ß√£o intracelular, como ativa√ß√£o de prote√≠nas da via SOS de reparo, ocorre a excis√£o de seu DNA e in√≠cio do ciclo l√≠tico, caracterizado pela s√≠ntese e montagem das estruturas virais e sua sa√≠da da c√©lula hospedeira [5].

Um fator que contribui para que v√≠rus n√£o sejam considerados vivos √© a aus√™ncia de ribossomos para s√≠ntese pr√≥pria de prote√≠nas, mas acredita-se na possibilidade de que haja v√≠rus com tal organela, uma vez que foram descobertos alguns que chegam a ser maiores que c√©lulas, tanto fisicamente como em rela√ß√£o ao conte√ļdo gen√©tico [1]. Outro √© a aus√™ncia, tamb√©m, de metabolismo pr√≥prio, mas, mesmo assim, os v√≠rus sofrem press√£o seletiva e conseguem responder ao ambiente, apresentando, portanto, evolu√ß√£o, como ocorre com organismos vivos. Se os v√≠rus n√£o fossem vivos, n√£o sofreriam adapta√ß√£o. A apresenta√ß√£o de novas estruturas e caracter√≠sticas por parte dos v√≠rus se deve em grande parte pela sua aquisi√ß√£o a partir das c√©lulas hospedeiras, poss√≠vel modifica√ß√£o no seu interior, por muta√ß√Ķes, por exemplo, e manuten√ß√£o das que forem vantajosas.

Quem sou

Nadine GiménezMeu nome é Nadine Giménez, tenho 18 anos e estou na graduação em Ciências Biomédicas pela USP. Tenho grande interesse por biologia molecular, pois busco entender os processos que ocorrem dentro do ser humano e também de microrganismos, que ilustram e, de certo modo, explicam a grande complexidade dos seres vivos.

 

 

 

 

Referências:

[1]¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄúAre Viruses Alive?‚ÄĚ [Online,¬†Accessed: 13-May-2015].

[2]          L. R. Trabulsi and F. Alterthum, Microbiologia. Editora Atheneu, 2004.

[3]¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† D. Baltimore, ‚ÄúExpression of animal virus genomes.,‚ÄĚ Bacteriol. Rev., vol. 35, no. 3, pp. 235‚Äď41, Sep. 1971.

[4]¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄúCoen, Donald M. ‚Äė16 Viral DNA Polymerases.‚Äô Cold Spring Harbor Monograph Archive 31 (1996): 495-523.‚ÄĚ [Online, Accessed: 13-May-2015].

[5]          Marques, Marilis do Valle. Biologia Molecular e Genética Bacteriana. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética, 2012.

Eterno debate

©Rodrigo Barreiro

©Rodrigo Barreiro

Este post √© o resultado de uma prova aplicada √† turma da disciplina de Virologia, da gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. A prova foi uma reda√ß√£o sobre o tema “V√≠rus √© vivo?” e as respostas seguem abaixo:

Para debater sobre o assunto de vírus serem vivos ou não é preciso primeiro estabelecer uma definição de vida. A definição mais aceita na biologia é a de que é vivo aquilo que apresenta um código genético, possui a capacidade de se auto replicar, apresenta alguma forma de metabolismo e possui respostas a estímulos externos. Vírus são geralmente tirados da categoria de seres vivos por não conseguirem se replicar sem a maquinaria celular e por não apresentarem metabolismo e respostas a estímulos fora de células. Porém, é possível olhar para estas características com outros olhos.

V√≠rus dependem inteiramente de c√©lulas para a sua sobreviv√™ncia. Mas n√≥s humanos e todos outros seres n√£o dependemos tamb√©m de fontes externas? Tudo do que nos alimentamos um dia foi vivo. C√©lulas s√£o apenas o ambiente em que os v√≠rus se adaptaram para sobreviver; da mesma maneira em que a t√™nia de adaptou para viver em nossos intestinos e precisa deles para se reproduzir. A √ļnica diferen√ßa √© o tamanho da unidade parasitada por cada esp√©cie.

Da mesma forma que v√≠rus s√£o parasitas intra celulares obrigat√≥rios, existem bact√©rias como a Rickettsia que tamb√©m s√£o. √Č poss√≠vel que essas bact√©rias estejam passando por uma evolu√ß√£o regressiva; perdendo os elementos que d√£o autonomia a elas. Isso n√£o quer dizer que ela v√° deixar de ser viva em algum momento; √© apenas um nicho em que ela est√° se adaptando.

Existem vírus que são bem maiores que a média e que possuem DNA e genes possuídos por células como o Mimivírus. Poderia se pensar que ele é um elo entre vírus e células mas, esse argumento é facilmente refutado dizendo que ele adquiriu esses genes por transferência horizontal. Este argumento, por sua vez, não tira os vírus do patamar da vida pois é provável que por pressão ambiental ele vá perder esses genes com o tempo se ele os tiver adquirido de fato por transferência horizontal. Essa é outra característica fundamental à vida: sofrer seleção natural, e os vírus não estão isentos.

Outro argumento que √© contra os v√≠rus possu√≠rem o status de vivos √© o de que eles s√£o seres polifil√©ticos. N√£o √© poss√≠vel tra√ßar um ancestral comum a todos os v√≠rus. Em contrapartida, √© poss√≠vel estatar que, por serem muito simples, v√≠rus evoluem muito r√°pido, e por isso √© esperado que possuam v√°rias origens. Por conta disso √© prov√°vel que eles tenham se originado depois das primeiras c√©lulas, tendo em vista que ele s√£o incapazes de sobreviver sem estas. √Č prov√°vel tamb√©m que eles tenham se originado de evolu√ß√£o tando regressiva quanto progressiva. Progressiva como heran√ßa “mundo de RNA” que teria existido antes do DNA surgir e regressiva por perda de autonomia como a Rickettsia.

Por √ļltimo, √© poss√≠vel dizer que v√≠rus s√£o elementos n√£o vivos mantidos na natureza simplesmente pelo fato de terem um papel crucial na evolu√ß√£o dos seres vivos. Mas o simples fato dos pr√≥prios v√≠rus sofrerem sele√ß√£o natural √© o bastante para refutar essa fala. Possivelmente v√≠rus s√£o os seres mais bem adaptados da Terra, mantendo-se vivos da forma mais simples poss√≠vel. A exemplo disso temos o vir√≥fago Sputnik; um v√≠rus que n√£o possui genes para utilizar a maquinaria celular e que sobrevive infectando amebas j√° infectadas pelo Mimiv√≠rus, sendo assim parasita de um parasita.

A conclusão disso é de que vírus são uma forma peculiar de vida acelular e polifilética. Vírus não escapam da definição de vida se consideradas as atividades que eles possuem dentro de células. Isso porém, é assunto pra um eterno debate.

Quem sou

Alvaro CastellaniMeu nome √© √Ālvaro Castellani e tenho 19 anos. Nasci em S√£o Paulo e estou no segundo ano de biomedicina na USP. Biologia e m√ļsica s√£o minhas paix√Ķes e optei por escolher um curso relacionado √† primeira. Espero algum dia poder ter meu pr√≥prio laborat√≥rio e seguir carreira em pesquisa.

Vírus não é pedra

©Rodrigo Barreiro

©Rodrigo Barreiro

Este post √© o resultado de uma prova aplicada √† turma da disciplina de Virologia, da gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. A prova foi uma reda√ß√£o sobre o tema “V√≠rus √© vivo?” e as respostas seguem abaixo:

Os organismos vivos s√£o conhecidamente indiv√≠duos compostos pela unidade b√°sica da vida: a c√©lula. ‚ÄúOs v√≠rus podem ser classificados como vida?‚ÄĚ A resposta para essa pergunta, dentro do conceito de vida citado, √© taxativamente negativa. Conceito esse um tanto quanto insuficiente, levando em considera√ß√£o todo o conhecimento microbiol√≥gico atual.

A defini√ß√£o de vida como necessariamente celular √© realmente restrita, pois ignora completamente a capacidade, por exemplo, que os v√≠rus t√™m de sofrer evolu√ß√£o Darwiniana ‚Äď uma caracter√≠stica predominante em organismos vivos. Significantes estudos recentes demonstram linhagens evolutivas virais e rela√ß√Ķes com a dita √°rvore da vida. Os v√≠rus, em geral, t√™m grande capacidade mutacional tamb√©m, como o HIV que expressa uma enzima polimerase de baixa fidelidade. Essas muta√ß√Ķes s√£o facilmente selecionadas atrav√©s de diversas intera√ß√Ķes que os v√≠rus t√™m com outros organismo vivos.

Inclusive, n√£o se pode deixar de ignorar as intera√ß√Ķes biol√≥gicas e o impacto viral em organismos vivos, sejam eles amebas ou seres humanos. V√≠rus s√£o capazes de alterar completamente a atividade celular, o que gera uma macro resposta no indiv√≠duo como um todo e, principalmente, na popula√ß√£o em que este indiv√≠duo est√° inserido. S√£o capazes de coevoluir com os indiv√≠duos infectados, modificando seu pr√≥prio genoma tanto quanto o do outro. Essa intera√ß√£o √© tamanha que j√° comprovou-se a presen√ßa, mesmo que pequena, de genoma viral no DNA humano.

H√° quem argumente que s√≥ √© vivo o (micro)organismo que tiver metabolismo pr√≥prio. Entretanto, essa √© uma abordagem completamente limitada. Inicialmente, h√° seres celulares, portanto considerados vivos, que apesar de terem metabolismo pr√≥prio, s√≥ se utilizam dele quando habitam o interior de outras c√©lulas. S√£o esses seres as bact√©rias dos g√™neros Rickettsia e Clamydia, conhecidas parasitas intracelulares obrigat√≥rias, ‚Äúinertes‚ÄĚ ao meio at√© que estejam em contato com o meio intracelular. Outro exemplo s√£o os esporos bacterianos e as sementes vegetais, formas celulares de vida dita ‚Äúlatente‚ÄĚ. Apesar de ter o seu metabolismo pr√≥prio, ele s√≥ √© ativamente utilizado quando encontra condi√ß√Ķes prop√≠cias ao seu desenvolvimento.

Todos os exemplos dados s√£o semelhantes ao v√≠rus, que age quando em meio intracelular, quando ‚Äúem condi√ß√Ķes prop√≠cios ao seu desenvolvimento‚ÄĚ. Por que ent√£o consider√°-lo um ser abi√≥tico se tudo o que lhe falta s√£o as condi√ß√Ķes necess√°rias para sua prolifera√ß√£o e maquinaria enzim√°tica para faz√™-lo? √Č preciso olhar o v√≠rus como um parasita perfeitamente econ√īmico: tem o suficiente para adentrar uma c√©lula, alter√°-la a seu favor, realizar o estrago que lhe for devido, replicar seu material gen√©tico e, ainda, tem o seu caps√≠deo, envolto ou n√£o de envelope lip√≠dico, para permitir a sua dissemina√ß√£o. Isso j√° n√£o ocorre com os plasm√≠deos e pr√≠ons e, portanto, n√£o trazem em sua bagagem intera√ß√Ķes tamanhas quanto √†s do v√≠rus.

De fato √© dif√≠cil admitir, mas √© preciso classificar os v√≠rus como vivos, eles que, com toda sua complexa simplicidade, s√£o capazes de reconhecer e infectar um tipo celular espec√≠fico, replicar-se e disseminar-se, al√©m de evoluir atrav√©s dos tempos. Analisando fatos como esse, √© bastante claro que os v√≠rus n√£o s√£o abi√≥ticos como uma pedra, e sim que eles s√£o respons√°veis por toda uma malha de intera√ß√Ķes com o meio vivo ‚Äď o que √© um argumento de bastante peso para defini-lo como vivo.

Contudo, e mais importante do que definir a vivacidade do v√≠rus, √© necess√°ria uma discuss√£o m√°ssica e intensa sobre o que √© a vida em si, o que a comp√Ķe e quais os seus conceitos. A partir da√≠, ent√£o, poder-se-√° chegar num consenso sobre o qu√£o vivo √© o v√≠rus.

Se sou vivo… quem sou?

Victor AgostinoSou Victor Agostino, aluno do curso de Ci√™ncias Biom√©dicas do ICB/USP. Paulista, 18 anos e em processo de encientifica√ß√£o pessoal. Um grande enamorado da imunologia e rom√Ęntico amante da fisiologia do cora√ß√£o.