Perguntas que n√£o acabam

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Fazer Ciência, minha vida de cientista. Hoje quem escreve é Gracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG.

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Imagine como se sente uma criança que adora ciência ao ver na TV como os cientistas conseguiram fazer crescer algo com o formato de uma orelha humana nas costas de um rato. Talvez você tenha sido uma destas crianças, certo? Pois é, este foi o momento exato em que eu decidi que seria cientista. O engraçado é que eu não me interesso tanto assim por orelhas humanas, ou mesmo por ratos; eu sempre adorei Ecologia (lembro nitidamente da aula na primeira série em que aprendi sobre o ciclo da água e entendi por que chove). Só que esse episódio do rato não tinha a ver com minhas perguntas preferidas: foi ali que eu vi como a ciência pode alcançar feitos incríveis, e eu queria que todo mundo percebesse isso. Talvez isso as fizesse acreditar que qualquer pessoa pode conquistar coisas incríveis, com o método certo.

Foi assim que me tornei ecóloga teórica com uma grande paixão por divulgação científica. Hoje estou fazendo doutorado em Ecologia e Evolução e sempre me metendo em projetos paralelos de comunicação científica e ciência aberta. Eu me dedico bastante a estes projetos porque eu acredito que a ciência pode empoderar todos nós, e estou sempre tentando convencer meus colegas a embarcarem comigo nessas aventuras. Então eu vou contar aqui como é essa minha vida de cientista um pouco menos tradicional. Vamos lá?

Bom, pra começar, desde 2014 sou pós-graduanda (com um intervalo aí no meio de pesquisa independente). Isso quer dizer que eu faço parte de uma categoria de trabalhadores que quase ninguém entende muito bem como funciona. Nossos direitos, deveres e verbas passeiam entre o Ministério da Educação e o da Ciência e Tecnologia. A gente assiste a aulas, apresenta trabalhos, faz matrícula, paga meia entrada no cinema. A gente também dá aulas, tem contrato de dedicação exclusiva, produz a maior parte do conhecimento e desenvolvimento tecnológico do país. Porém, não temos férias, aposentadoria, adicional de insalubridade, e só recentemente conseguimos licença maternidade.

Isso também significa que eu estou naquela janela da vida em que eu tenho que explorar todo o meu potencial, tentar botar pra funcionar todos os meus planos A, B e C pra ter como me sustentar depois do doutorado sem depender de concurso ou bolsas de pós-doc (cada vez mais raras). E também é nesta fase que eu tenho que desenvolver a cientista que eu quero ser nos próximos anos, e isso, definitivamente, não inclui somente a minha tese.

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Por isso a minha rotina inclui, por exemplo, um clube de revisão de preprints, porque quero exercitar a capacidade de analisar criticamente os artigos, sabendo identificar o que eles têm de bom e no que podem melhorar. Sem contar o benefício ENORME pra ciência que é a revisão de preprints, né, mores? Os preprints são artigos científicos completos que seus autores consideram prontos, mas que precisam de discussão e maturação antes da submissão à publicação em uma revista. Às vezes a revisão pela qual esse artigo passa enquanto é um preprint já adianta bastante o processo de publicação, fazendo toda a pesquisa andar mais rápido.

Minha rotina tamb√©m tem uma parte significativa dedicada √† divulga√ß√£o cient√≠fica de alguma forma. Ano passado, toda sexta-feira √† tarde eu escrevia algum texto, lia artigos sobre o assunto, atualizava a p√°gina do LEQ ou do TheMetaLand (meus labs ‚̧) no Facebook, ou ajudava algum colega com suas tarefas relacionadas √† DC. Este ano eu mudei esse dia da DC para as quartas, que eram os dias em que me reunia com o pessoal do Mozilla Open Leaders e trabalho no meu projeto aberto, o IGNITE. O Mozilla Open Leaders √© um programa de treinamento de l√≠deres de projetos abertos, aqueles em que tudo √© transparente e a lideran√ßa √© descentralizada, do jeitinho que eu gostaria que funcionasse o meu futuro laborat√≥rio. O MOL me ajudou a pensar de um jeito diferente na divulga√ß√£o cient√≠fica, na minha carreira e na minha pesquisa. Tamb√©m foi durante o MOL que eu aprendi ferramentas de gerenciamento de projetos que eu estou aplicando na minha tese com um plano de auto-mentoria.

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No meio disso tudo eu estudo como as espécies se organizam no espaço, do ponto de vista continental, e por quê. Quero entender o que tem nos locais em que as espécies estão que fazem elas estarem lá, ou o que tem nos locais onde elas não estão que fazem elas não estarem lá. Outro dia eu encontrei um texto (que infelizmente eu não sei quem escreveu) que descreve exatamente o que eu faço no meu dia-a-dia:

‚Äú[…] eu fa√ßo mundos que n√£o s√£o reais em computadores. Nestes mundos n√£o-reais, eu fa√ßo muitos, muitos animais n√£o-reais e fa√ßo eles brigarem muitas, e muitas, e muitas vezes. Ent√£o eu vejo quais animais brigaram mais. √Č muito legal.‚ÄĚ

Esta é parte da minha pesquisa. Só que nos meus mundos não-reais, estas brigas geram agrupamentos de espécies ou buracos sem espécies. Uma espécie empurra a outra mais pro cantinho, ou uma faz a outra sumir, todo esse tipo de coisa.

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Quando eu era criança, lá naquela época em que eu vi o ratinho com a orelha nas costas, eu queria crescer e ter um emprego em que eu pudesse responder perguntas, e sabia que este seria um trabalho infinito, porque as respostas de vez em quando acabam, mas as perguntas não. E esta é a minha vida de cientista hoje: respondendo perguntas que nunca acabam.

gracielleGracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG, escreve no blog Hipótese Nula e toca o projeto IGNITE de treinamento em divulgação científica.

Minha vida de matemático e lógico

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Fazer Ciência, minha vida de cientista. Hoje quem escreve é Walter Carnielli, professor Titular do Departamento de  Filosofia da Unicamp.

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Em novembro de 1023. Zach Weber, professor de Filosofia da Universidade de Otago, Nova Zel√Ęndia, entrevistou-me para a publica√ß√£o “The Reasoner” (Volume 7, N√ļmero 11, November 2013, ISSN 1757-0522 www.thereasoner.org, “Features: Interview with Walter Carnielli”)

Penso que as perguntas do Zach Weber foram muito bem colocadas (talvez as respostas nem tanto). Mas acredito que valha a pena rever algumas respostas, com novos detalhes, para a iniciativa “Fazer ci√™ncia, minha vida de cientista”.

Esta não é a entrevista na íntegra, apenas uma revisitação elaborada de algumas partes menos técnicas.

The Reasoner, ZW: Como começou sua  carreira em  matemática e lógica?

WAC: No in√≠cio do ensino m√©dio, eu tive um jovem professor que estava fazendo seu doutorado em l√≥gica. Um dia chovia pesadamente e apenas algumas crian√ßas vieram para a aula. Eu pedi que ele nos explicasse em duas frases o que era uma “tese de doutorado”. Ele explicou seu trabalho em indu√ß√£o matem√°tica, com alguns exemplos. Eu n√£o acho que o outros estudantes estavam prestando aten√ß√£o, mas eu achei surpreendente como algu√©m poderia dominar o infinito, provando coisas que eu pensava¬† que levaria uma eternidade, apenas com alguns passos! Eu pedi mais, e ele e o professor de f√≠sica me deram alguns problemas combinat√≥rios para resolver. N√≥s j√° hav√≠amos¬† tido aulas sobre l√≥gica, envolvendo tabelas de verdade elementares- tabelas de verdade, argumentos simples e afins – e eu achei muito impressionante como combinat√≥ria e l√≥gica tinham m√©todos semelhantes. Isso influenciou bastante minha carreira, e o que investigo ainda hoje.

Na verdade, essa espanto positivo j√° era¬† reflexo de algo muito interessante que havia na casa dos meus pais, quando eu era menino: havia dois lindos guarda-roupas antigos num quarto, um em frente ao outro, cada um com um grande espelho de cristal. Quando algu√©m se colocava no meio, via-se. uma imagem refletida na outra, indefinidamente, at√© o “infinito”… Nunca vi uma melhor imagem do infinito do que essa. A ci√™ncia n√£o sabe se o universo √© finito ou n√£o. N√£o h√° representa√ß√Ķes √≥bvias do infinito. Mas dois bons espelhos paralelos d√£o uma √≥tima ideia. Qualquer um pode tentar!

De repente, na aula chuvosa de matemática, tudo fez sentido. O jogo dos espelhos encontrava uma formulação matemática na indução aritmética. Decidi estudar isso e as coisas ligadas a isso para sempre!

Tamb√©m t√≠nhamos nos bons tempos do Col√©gio Culto √† Ci√™ncia em Campinas, muita geometria e desenho geom√©trico resolvendo problemas com linhas, planos, tri√Ęngulos, etc. A principal dica – isso levou anos para eu entender – era¬† sempre ‚Äúsuponha o problema resolvido, e a partir da√≠ resolva-o‚ÄĚ. Funcionava¬† em muitos casos, n√£o sempre, mas eu estava sempre intrigado: como voc√™ pode supor um problema resolvido e, em seguida, resolv√™-lo? E se fosse em princ√≠pio n√£o solucion√°vel? O professor n√£o sabia porqu√™ isso funcionava, Mais tarde, muito mais tarde, eu conheci o m√©todo anal√≠tico de Pappus de Alexandria (290 – 350), que inspirou Newton e Descartes entre outros. Parece misterioso, ligado de alguma forma √† auto-refer√™ncia a ao infinito, que apenas mentes mais elevadas poderiam realmente entender. Eu decidi, muito imodestamente como costuma ser a juventude (felizmente), estar mais perto das mentes mais elevadas estudando matem√°tica.

The Reasoner, ZW: Grande parte da sua pesquisa tem sido em lógica paraconsistente. Como você vê a relação entre a lógica clássica e a lógica não-clássica?

WAC: Eu acho que a express√£o “l√≥gica cl√°ssica” n√£o √© mais do que uma “fa√ßon de parler“. A l√≥gica formal ou simb√≥lica como um todo √© apenas um modelo matem√°tico da linguagem natural e do racioc√≠nio, quer incorpore ou n√£o quaisquer ferramentas ou teorias que carregam o r√≥tulo ‚Äún√£o cl√°ssico‚ÄĚ. N√£o h√° rivalidade entre “l√≥gica cl√°ssica” e ‚Äúl√≥gicas n√£o cl√°ssicas‚ÄĚ. O que √© ‚Äď impropriamente – chamado por muitas pessoas ‚Äúl√≥gica cl√°ssica ‚ÄĚ √© simplesmente uma cole√ß√£o de princ√≠pios e leis herdados de Arist√≥teles. Mas a l√≥gica aristot√©lica e l√≥gica moderna, na tradi√ß√£o de Frege, Russell, Whitehead, Wittgenstein, etc., n√£o coincidem. Uma diferen√ßa substancial, entre outras, √© que a l√≥gica aristot√©lica e a l√≥gica moderna diferem fortemente na quest√£o da importa√ß√£o existencial. Acho que n√≥s podemos nos referir √† l√≥gica tradicional como uma contrapartida da l√≥gica moderna, e a l√≥gica contempor√Ęnea √© melhor vista como l√≥gica universal.

The Reasoner, ZW : Ent√£o tudo √© apenas “l√≥gica”, se visto de uma perspectiva suficientemente alta?

WAC: Se h√° alguma coisa que mere√ßa o nome “l√≥gica cl√°ssica”, √© a l√≥gica considerada adequada para as necessidades da maioria da matem√°tica. A matem√°tica, pelo menos em sua pr√°tica, n√£o envolve o passado ou tempos futuros, nem hermen√™utica, nem racioc√≠nio contra factual, adv√©rbios, modalidades, adjetivos, graus, etc. Outras √°reas n√£o t√£o imunes a perspectivas e interpreta√ß√Ķes filos√≥ficas, podem exigir distin√ß√Ķes mais sutis – e esse √© o ponto¬† onde surgem as chamadas ‚Äúl√≥gicas n√£o cl√°ssicas‚ÄĚ.

Mas depois de tudo, as l√≥gicas ‚Äún√£o-cl√°ssicas‚ÄĚ acabam se revelando aplic√°veis √† matem√°tica. √Č um ponto de vista filos√≥fico que justifica a matem√°tica intuicionista e construtiva, a chamada matem√°tica inconsistente, as teorias de conjunto paraconsistentes, as teorias de conjuntos difusos, etc.

No limite, novos objetos matem√°ticos beneficiam-se quando a distin√ß√£o cl√°ssica/ n√£o cl√°ssica √© deixada para tr√°s: √© bem conhecido que existem “topoi” (na teoria. dos¬† topos) que n√£o verificam a lei do terceiro exclu√≠do, e o matem√°tico que entende essa vis√£o contempor√Ęnea n√£o se sente desconcertado.

The Reasoner, ZW : Eu posso ver esse ponto de vista refletido em alguns de seus trabalhos. Você pode nos falar sobre as Lógicas da Inconsistência Formal (LFIs)?

WAC: Eu trabalhei, com colegas como Marcelo Coniglio e estudantes de doutorado √† √©poca como o agora professor Jo√£o Marcos¬† na formaliza√ß√£o da distin√ß√£o entre consist√™ncia e n√£o-contradi√ß√£o, o que levou √†s LFIs. Em termos sint√°ticos, isso √© feito simplesmente adicionando as no√ß√Ķes meta-te√≥ricas de consist√™ncia e inconsist√™ncia no n√≠vel da linguagem objeto, adicionando √† linguagem novos conectivos com o significado pretendido de ‚Äú√© consistente‚ÄĚ e ‚Äú√© inconsistente‚ÄĚ, e alguns axiomas relacionando as no√ß√Ķes de consist√™ncia e inconsist√™ncia com a nega√ß√£o e a contradi√ß√£o.

Um conceito mais amplo de paraconsist√™ncia surge da√≠, o qual incorpora v√°rios outros: apenas uma contradi√ß√£o sobre um assunto consistente leva √† explos√£o. Uma contradi√ß√£o sobre algo que n√£o temos certeza se se comporta de forma consistente, n√£o causa qualquer explos√£o dedutiva. Isso torna a l√≥gica paraconsistente completamente livre de quaisquer suposi√ß√Ķes metaf√≠sicas como objetos contradit√≥rios reais existentes no mundo, ou de qualquer influ√™ncia de Hegel. N√£o √© contr√°rio a Arist√≥teles, quando levamos a s√©rio seu famoso coment√°rio sobre acreditar em contradi√ß√Ķes no Livro őď da Metaf√≠sica: n√≥s podemos dizer as palavras, mas n√£o podemos realmente acreditar no que estamos dizendo.

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Walter Carnielli¬† √© Professor Titular do Departamento de¬† Filosofia da Unicamp. Membro e ex-diretor do Centro de L√≥gica, Epistemologia e Hist√≥ria da Ci√™ncia da Unicamp. Sua pesquisa atual envolve as rela√ß√Ķes entre l√≥gica,¬† probabilidade e racionalidade. Ganhador da Medalha Telesio-Galilei e Pr√™mio Jabuti.

Ascensão e queda da ciência brasileira

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana √© Ci√™ncia e Pol√≠tica. Hoje quem escreve √© Luciano Queiroz, cientista, bi√≥logo, divulgar de ci√™ncia no Drag√Ķes de Garagem e pr√©-candidato a deputado estadual pelo PT/SP.

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‚ÄúO n√ļmero de mestres e doutores formados no Brasil aumentou mais de cinco vezes (401%) desde 1996‚ÄĚ, √© assim que come√ßa a mat√©ria do jornalista Herton Escobar do dia 05 de julho de 2016. Esse n√ļmero nos diz muito e devemos analisar com calma.

Quero demonstrar que o aumento no n√ļmero de cientistas indica a ascens√£o da ci√™ncia brasileira em um primeiro momento e, como isso est√° se tornando um fardo, contribuindo para queda.

A maior parte da ci√™ncia brasileira √© feita dentro das universidades p√ļblicas. Bolsas de mestrado e doutorado, projetos de pesquisa e investimento em infraestrutura s√£o responsabilidades de dois minist√©rios Educa√ß√£o (MEC) e Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o (MCTI).

Os or√ßamentos de ambos os minist√©rios cresceram nesse mesmo per√≠odo e podemos dizer que o aumento no n√ļmero de mestres e doutores formados √© um reflexo desse aumento. Outro indicativo da ascens√£o da ci√™ncia brasileira foi o aumento no n√ļmero de publica√ß√Ķes em revistas cient√≠ficas. Aumento esse muito discutido nos √ļltimos anos por ser apenas em quantidade e n√£o em qualidade (dados mais detalhados aqui e aqui).

Esse crescimento foi cont√≠nuo at√© 2013 quando come√ßou a diminuir, vieram elei√ß√Ķes, crise econ√īmica e golpe parlamentar. Desde ent√£o, a maioria das not√≠cias que lemos sobre ci√™ncia e tecnologia cont√™m palavras como ‚Äúcortes‚ÄĚ, ‚Äúcontingenciamento‚ÄĚ, ‚Äúperda de recursos‚ÄĚ, ‚Äúdesmonte‚ÄĚ, etc. E, acompanhando os gr√°ficos do or√ßamento, inicia-se a queda da ci√™ncia brasileira.

Pretendo n√£o me aprofundar muito nos sucessivos cortes – iniciados ainda no governo Dilma, aproveitando para fazer aqui minha autocr√≠tica como petista – porque j√° dedicamos muito esfor√ßo para apont√°-los √† sociedade. Algo que j√° est√° ficando cansativo at√© para mim. Temos que avan√ßar na discuss√£o, temos que pensar solu√ß√Ķes pr√°ticas e agir.

A primeira coisa que devemos fazer é entender as consequências da nossa queda. E vale uma observação, na ciência, assim como em outras áreas, os efeitos são sentidos à médio e longo prazo.

Mesmo com os cortes, grupos de pesquisa ainda tinham projetos aprovados, recursos disponíveis e a maioria dos alunos possuíam suas bolsas de pesquisa. Vamos dizer que essa era a gordura que tínhamos para queimar, só que ela está acabando.

As universidades p√ļblicas brasileiras est√£o em uma situa√ß√£o grav√≠ssima, depois de termos experimentado a maior expans√£o do ensino superior p√ļblico com o REUNI, constru√ß√£o de centenas de universidade e institutos federais em todo o Brasil e aumento no n√ļmero de vagas de professores (entende-se: cientista, pesquisador, docente, administrador, adicione mais uma fun√ß√£o a sua escolha) e alunos. O efeito dos cortes, somado a emenda constitucional do teto de gastos (PEC do Fim do Mundo), est√° come√ßando a ser sentido com maior intensidade.

Diversas universidades estão tendo que cortar despesas com serviços de manutenção. A Universidade Federal do ABC (UFABC), como aponta matéria do G1, reduziu os contratos realizados com empresas terceirizadas para segurança e zeladoria, além de desligar os elevadores. Mas não só as universidades federais estão passando por isso, a UERJ está em situação muito mais complicada há mais tempo. Só para ficarmos em alguns exemplos.

Talvez voc√™ n√£o saiba, mas os alunos de p√≥s-gradua√ß√£o s√£o a principal m√£o de obra da ci√™ncia no mundo. Estamos passando pelo processo de forma√ß√£o cient√≠fica, realizamos nossos estudos que normalmente comp√Ķem um projeto maior do orientador. As publica√ß√Ķes com pequenas ou grandes descobertas, patentes e ideias s√£o frutos dos trabalhos realizados pelos alunos sob supervis√£o do orientador (mentor cient√≠fico).

Com os cortes, o interesse dos alunos pela carreira cient√≠fica tende a diminuir, mesmo porque os incentivos (bolsa de estudos, coloca√ß√£o no mercado) tamb√©m diminu√≠ram. Resumindo, o n√ļmero de alunos saindo da p√≥s-gradua√ß√£o est√° maior do que os que entram. E para onde eles est√£o indo? Alguns conseguem ocupando vagas em universidades p√ļblicas e privadas, apesar da diminui√ß√£o da oferta dessas vagas, outros v√£o para doc√™ncia no Ensino B√°sico ou, na pior das hip√≥teses, mudam de profiss√£o. Mas quero focar em um destino que tem me preocupado um pouco mais.

Esse destino j√° foi apontado pelo Cl√°udio √āngelo no texto ‚ÄúQuem matou a ci√™ncia brasileira?‚ÄĚ como a Op√ß√£o Bol√≠var (eu inventei esse nome). Citando o Cl√°udio √āngelo, ‚Äú√© fazer o que Simon Bol√≠var recomendou no fim da vida que se fizesse na Am√©rica: emigrar‚ÄĚ. Outros t√™m dito que o melhor caminho para o cientista brasileiro √© o aeroporto. E √© aqui que o aumento no n√ļmero de mestres e doutores se tornou um fardo.

Isso me preocupa porque fizemos um investimento grande (recursos) e longo (tempo), foram mais de 10 anos formando cientistas, enviando vários deles para o exterior a fim de se especializar e retornarem para o Brasil. Deixar que essa massa crítica vá embora é lamentável, não podemos forçá-los a ficar, mas mostra como a política influencia diretamente na vida do cientistas e, consequentemente, na sociedade como um todo que não terá o conhecimento daquele cientista a sua disposição. Além de perdemos o investimento financeiro, perdemos a pessoa.

E de onde vem a solu√ß√£o? Seria muito bom se tivesse uma resposta simples e direta para isso, mas n√£o tenho. A √ļnica solu√ß√£o a m√©dio e longo prazo que vejo √© o nosso envolvimento do pol√≠tica. Todos esses eventos de cortes e contingenciamentos acontecerem e n√≥s cientistas n√£o conseguimos responder a altura, ficamos esperando por um ‚Äúlogo melhora‚ÄĚ e acreditamos em promessas furadas. No fundo, espero que tudo isso sirva, e estou trabalhando nesse sentido, para que comecemos a criar uma identidade coletiva a partir dessa massa disforme de pessoas.

A pol√≠tica faz parte das nossas vidas e por mais que o tempo seja curto, que tenhamos reuni√Ķes longas e burocr√°ticas, que o prazo para entrega do relat√≥rio esteja chegando, que os experimentos n√£o est√£o dando certo‚Ķ n√≥s devemos participar da pol√≠tica. Nossa aus√™ncia est√° cobrando caro.

Talvez a queda da ci√™ncia brasileira seja apenas um decl√≠nio moment√Ęneo e logo voltamos a crescer, mas temos muito trabalho pela frente. Li uma frase ontem que resumiu bem meu sentimento, ‚ÄúNenhum pa√≠s ter√° futuro melhor se n√£o constru√≠-lo no presente‚ÄĚ. A ci√™ncia faz parte desse pa√≠s, desse futuro e presente.

luciano

Luciano Queiroz √© cientista, bi√≥logo, divulgar de ci√™ncia no Drag√Ķes de Garagem e pr√©-candidato a deputado estadual pelo PT/SP.

Quem matou a ciência brasileira?

Esse post √© parte da Blogagem Coletiva de comemora√ß√£o aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana √© Ci√™ncia e Pol√≠tica. Hoje quem escreve √© Claudio Angelo, dispensa maiores apresenta√ß√Ķes uma vez que ele escreve no Curupira, blog do Science Blogs Brasil.

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Rodrigo trabalhou de gar√ßom e faz bicos depois do p√≥s-doc na Inglaterra. Jefferson perdeu dez alunos e quatro p√≥s-doutorandos porque n√£o tinha como pag√°-los. Sidarta racha com outros professores a conta de internet de seu laborat√≥rio numa universidade federal. Sergio viu alunos irem embora do Brasil porque n√£o consegue manter a col√īnia de camundongos transg√™nicos da qual dependiam as teses deles. Jos√© Antonio n√£o tem para comprar reagentes. Ronald precisou escolher entre demitir pessoas e cancelar contratos de manuten√ß√£o de equipamentos sofisticados ‚Äď optou pela segunda.

Essas s√£o hist√≥rias reais, de cientistas brasileiros reais. Algumas delas me foram narradas pelos pr√≥prios. Qualquer pesquisador ou aluno de p√≥s do Brasil hoje tem um conto de terror para relatar, como testemunha ou como v√≠tima. Quem n√£o chegou ontem de J√ļpiter sabe que a ci√™ncia brasileira enfrenta o que talvez seja sua maior crise, que n√£o h√° solu√ß√£o √† vista e que os efeitos do tombo no desenvolvimento cient√≠fico, tecnol√≥gico e econ√īmico do pa√≠s ser√£o sentidos por muitos anos no futuro.

N√£o √© o caso de entrar nos detalhes num√©ricos aqui, mas o or√ßamento do Minist√©rio da Ci√™ncia, Tecnologia em seu auge, em 2010, era de cerca de R$ 9 bilh√Ķes. Em 2017 ele caiu para metade disso ‚Äď uma das propostas or√ßament√°rias feitas naquele ano correspondia a um ter√ßo desse valor. Em 2018, num requinte de crueldade, 10% dos R$ 4 bilh√Ķes or√ßados ainda foram congelados. Considere, ainda, que essa farinha pouca ainda precisa ser dividida com o pir√£o das Comunica√ß√Ķes ‚Äď e que a PEC do Teto inviabiliza recupera√ß√£o or√ßament√°ria significativa pelos pr√≥ximos 19 anos.

Como tudo no Brasil, esse or√ßamento vai sendo emendado por meio de cambalachos sucessivos: descongela um tico aqui, faz um decreto de suplementa√ß√£o ali. √Č uma esp√©cie de waterboarding financeiro: antes de a v√≠tima morrer voc√™ tira a cabe√ßa dela da √°gua, para ela respirar um pouco e agradecer por estar viva antes de mergulhar de novo. Esses remendos t√™m mantido as universidades e institutos de pesquisa (Uerjs da vida fora) mais ou menos funcionais, ao mesmo tempo em que d√£o a nossos distintos doutores e doutoras a ilus√£o de que ainda n√£o √© hora de fechar estradas, se imolar em pra√ßa p√ļblica ou invadir Bras√≠lia e quebrar a porra toda. M√° not√≠cia, amigues: essa hora j√° passou faz tempo.

Como o nosso empresariado ‚Äď que cresceu mamando no Estado e cujos l√≠deres hoje aplaudem Jair Bolsonaro e insinuam que canudo pl√°stico em est√īmago de baleia √© arma√ß√£o de ambientalista ‚Äď √© notoriamente avesso a investir em pesquisa e desenvolvimento, a ci√™ncia est√° √† merc√™ dos recursos federais e dos Estados que ainda t√™m ag√™ncias de fomento fortes (N=1). Quando a Uni√£o sai de cena, a ci√™ncia desmonta.

Excluindo os relatos aned√≥ticos sobre fuga de c√©rebros e uns dados preliminares quase dois anos atr√°s do Rog√©rio Meneghini, da Scielo, sobre queda na produ√ß√£o cient√≠fica, ainda n√£o vi nenhuma avalia√ß√£o sistem√°tica do preju√≠zo estrutural da crise sobre a pesquisa no Brasil. Mas essa conta vir√°, por quest√£o de simples aritm√©tica. O sistema cresceu muito durante a bonan√ßa da era Lula. Portanto, o tombo, causado principalmente (mas n√£o s√≥) pela Grande Recess√£o Brasileira (ela merece a grafia em caixa alta), √© maior do que as pinda√≠bas anteriores. No que isso d√° todo mundo sabe: menos pesquisadores igual a menos papers igual a menos quest√Ķes relevantes para o pa√≠s sendo abordadas igual a menos desenvolvimento, menos inova√ß√£o, menos dinheiro, menos bem-estar social, num c√≠rculo dif√≠cil de quebrar. O Brasil n√£o conseguir√° assegurar uma recupera√ß√£o econ√īmica duradoura sem um sistema de C&T restaurado.

Mas que fazer, al√©m de assaltar uns bancos? Esta √© a pergunta de 9 bilh√Ķes de reais. Talvez um bom come√ßo seja escapar da armadilha do punitivismo.

Nossa polariza√ß√£o pol√≠tica atual n√£o resiste a procurar culpados. Enquanto esquerda e direita brigam para saber quem bateu no iceberg, o conv√©s vai alagando. Muita gente de bem insiste em que a culpa √© do vampir√£o, o ‚Äúgolpista‚ÄĚ que aprovou a PEC do teto e extinguiu o MCTI. Esse povo se esquece de que a crise foi gestada por Dilma, A Breve. Mas talvez, cavando bem, suas ra√≠zes sejam encontradas em seu apogeu, na era Lula.

Ou, o que √© menos gostoso de ouvir, talvez quem matou a ci√™ncia brasileira de fato tenhamos sido eu e voc√™. Por omiss√£o. Ao eleger sucessivos governos sem uma plataforma consistente para a ci√™ncia. Ao permitir que o MCTI tenha sempre entrado na barganha pol√≠tica como um minist√©rio de consola√ß√£o para os partidos m√©dios da base. Ao deixar de ir para a rua contra o verdadeiro golpe ‚Äď o mais insidioso, pois mina nossa perspectiva de futuro, e o mais dif√≠cil de comunicar √† popula√ß√£o, porque, afinal, quem se importa com meia-d√ļzia de laborat√≥rios ‚Äď porque simpatizamos com tal partido ou odiamos o outro.

Na real, nada disso importa mais. Outubro vem aí, e o que fazer com o cadáver da ciência brasileira (entre os outros que se acumulam no morgue de ideias nacional) é essencialmente um não-assunto. Eu adoraria dizer os candidatos estão em silêncio porque estão dedicados à tarefa mais urgente de impedir uma escalada fascista no Brasil. Mas não: o sistema político e a imprensa estão presos ao loop de discutir quem vai levar o apoio do Centrão.

As urnas s√£o o locus prim√°rio de resist√™ncia e retomada, mas h√° dois problemas: um, o sistema representativo est√° estragado; dois, o principal foco de crise, o Congresso, tende a ter uma renova√ß√£o muito baixa devido √† engenhosidade maligna da minirreforma pol√≠tica. Candidaturas de cientistas s√£o uma excelente novidade e precisam ser fomentadas de toda forma, mas, mesmo na eventualidade de triunfarem, formar√£o mais uma bancada marginal numa C√Ęmara convertida em balc√£o de neg√≥cios. √ďbvio que isso √© melhor que nada.

De pr√°tico e no curto prazo, restam dois caminhos. Um √© a desobedi√™ncia civil em massa, que me foi aventada em 2016 por um cientista s√™nior (o que se viu em vez disso foi meia-d√ļzia de protestos comportadinhos dentro dos campi). Deu certo com os caminhoneiros, mas, francamente, o sex appeal deles √© muito maior. O outro √© fazer o que Simon Bol√≠var recomendou no fim da vida que se fizesse na Am√©rica: emigrar. Parece derrotismo, e √©. Mas talvez a di√°spora brasileira acumule massa cr√≠tica no exterior a ponto de facilitar o acesso de brasileiros a grupos de pesquisa globais em algum momento no futuro.

Não chega a ser um consolo, mas é o que temos para hoje.

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Claudio Angelo, é autor de A Espiral da Morte Рcomo a humanidade alterou a máquina do clima, vencedor do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática e tem o blog Curupira no ScienceBlogs Brasil.

Conflito e Governo

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Ricardo de João Braga, atualmente cursando mestrado em Democracia (Roads to Democracy) na Universidade de Siegen, na Alemanha.

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¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Conflitos s√£o inerentes √†s sociedades humanas e, devido √† sua presen√ßa permanente e principalmente aos seus efeitos muitas vezes danosos, foram objeto de reflex√£o permanente ao longo dos s√©culos. Conflitos ocorrem devido a disputas por recursos materiais escassos, por valores ¬≠‚Äď defini√ß√£o do que √© certo, bom, justo, etc. ‚Äď ou pela liberdade ‚Äď defini√ß√£o das esferas da vida submetidas ao coletivo ou independentes dele. Um conflito pode surgir porque ningu√©m √© t√£o fraco e o outro t√£o forte que alguma forma de a√ß√£o ou verbaliza√ß√£o n√£o possa ser manifestada. Conflitos relacionam-se √† viol√™ncia, ao poder e ao governo.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Op√Ķem-se ao conflito a ordem ou a harmonia. Nos extremos das possibilidades situam-se o ‚Äúestado de natureza‚ÄĚ ca√≥tico de Hobbes (escritor ingl√™s do s√©c. 17), onde o ‚Äúhomem √© o lobo do homem‚ÄĚ, isto √©, cada indiv√≠duo √© amea√ßado mortalmente por cada um dos seus pr√≥ximos, e no outro oposto, da absoluta ordem, o Admir√°vel Mundo Novo de Aldous Huxley (tamb√©m ingl√™s, mas do s√©c. 20), com sua ordem radical e f√ļnebre.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† A reflex√£o sobre o conflito, e suas extens√Ķes a governo, poder, autoridade, etc., diminui nossa ingenuidade sobre as rela√ß√Ķes pol√≠ticas e sociais, e em alguma medida aumenta nossos recursos de conviv√™ncia e avalia√ß√£o de alternativas pol√≠ticas.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O mote da semana, Ci√™ncia e Pol√≠tica, aqui ganha uma qualifica√ß√£o importante. A hist√≥ria da reflex√£o sobre o conflito n√£o apresenta propriamente uma avalia√ß√£o cient√≠fica no sentido moderno do termo, o qual pretende limitar-se √† an√°lise de fatos e objetos sem perspectivas de valor. De fato, a reflex√£o sobre conflito surgiu muito antes da concep√ß√£o moderna de ci√™ncia. Contudo, isto n√£o diminui o valor de tais reflex√Ķes. Em primeiro lugar tais reflex√Ķes basearam-se em boa medida na observa√ß√£o da realidade por homens de g√™nio e extrema habilidade discursiva (em geral s√£o grandes escritores), mas mais importante, ideias, argumentos e modelos criados nestas reflex√Ķes influenciaram a pr√°tica dos homens p√ļblicos ao longo dos s√©culos e ainda hoje. Assim, aqui se apresentam alguns marcos desta reflex√£o. Vamos a eles.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Plat√£o, no s√©c. 4 a.C., prop√īs a cria√ß√£o de uma sociedade harmoniosa, baseada numa r√≠gida divis√£o de tarefas. A sociedade seria governada por um pequeno grupo de ‚Äúreis fil√≥sofos‚ÄĚ que considerariam as necessidades da sociedade como um todo, atendendo somente a ela. Conflito para Plat√£o equivaleria a uma doen√ßa da sociedade, a uma divis√£o de vontades, vis√Ķes, valores.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Maquiavel, florentino do s√©c. 16, compreendia a sociedade como imersa no caos e sofrendo por isso toda sorte de mazelas. O criador da ordem seria o pr√≠ncipe afortunado e virtuoso, fundador do estado e da ordem. Fortuna aqui equivaleria ao toque gracioso da sorte, e virtuoso entende-se no sentido pol√≠tico, n√£o religioso. O bom pr√≠ncipe deveria saber usar a for√ßa e a ast√ļcia a fim de conquistar e manter o poder. Paradoxalmente, o afortunado e virtuoso pr√≠ncipe funda a ordem e p√Ķe fim ao conflito, contudo, o caos cria-se pois todos os seres humanos, potencialmente, det√™m esse germe da busca do poder, e muitos debatem-se por ele. Assim, os potenciais pr√≠ncipes criam o conflito, e o vencedor entre eles instaura a ordem.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Rousseau, genebrino do s√©c. 18, proclamava que n√£o deveria haver conflito entre os homens, se estes compreendem-se apropriadamente o mundo pol√≠tico. Todas as pessoas, para ele, deveriam se unir em torno da ‚Äúvontade geral‚ÄĚ. Esta ideia expressa o real interesse de todas as pessoas e det√©m uma superioridade metaf√≠sica. Difere da aglutina√ß√£o das vontades individuais, pois caso algu√©m tenha opini√£o diferente da vontade geral, diante de sua presen√ßa esta pessoa converter-se-ia a ela, compreendendo que incorria em erro em sua posi√ß√£o individual. Assim, como em Plat√£o, conflito aqui teria uma conota√ß√£o patol√≥gica.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Montesquieu, franc√™s tamb√©m do s√©c. 18, temia sobretudo os abusos do poder. Para ele, conflitos s√£o inerentes √†s sociedades humanas reais, e n√£o haveria como suprimi-los. O que se deveria buscar, sim, era controlar os conflitos. Poder demais num conflito poderia destruir tudo que √© valioso aos homens ‚Äď vida, liberdade. Sua famosa solu√ß√£o √© a divis√£o de poderes, a ideia de que o poder apenas det√©m-se diante de poder, e por isso sua divis√£o no estado entre Executivo, Legislativo e Judici√°rio ofereceria a saud√°vel solu√ß√£o. Os poderes de um estado confrontar-se-iam frequentemente, mas ningu√©m seria absoluto e desta forma encontraria limites as suas a√ß√Ķes. Esta preocupa√ß√£o com os limites do poder √© o germe do liberalismo.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Quando da aprova√ß√£o da Constitui√ß√£o dos EUA no final do s√©c. 18, tr√™s homens p√ļblicos envolvidos no processo constituinte lan√ßaram 85 artigos na imprensa a fim de explicar e granjear apoio para sua ratifica√ß√£o. Eram James Madison, Alexander Hamilton e John Jay. Leitores de Montesquieu, compreendiam o conflito como inerente √† sociedade, e o grande perigo a ser evitado era a concentra√ß√£o de poder, pois concentrado ele poderia trazer danos absolutos. A solu√ß√£o encontrada foi a divis√£o dos poderes no sentido horizontal, como j√° prescrevera Montesquieu, entre Executivo, Legislativo e Judici√°rio, e tamb√©m no sentido vertical, prescrevendo a federa√ß√£o, com poderes nacional, estadual e local. Assim, por mais que as pessoas diferenciassem-se, detivessem interesses distintos e fossem propensas ao conflito, a aus√™ncia de um poder majorit√°rio ‚Äď pois haveria um sem n√ļmero de fac√ß√Ķes ‚Äď impediria a domina√ß√£o de v√°rios grupos por um mais forte.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Marx, alem√£o do s√©c. 19, via a sociedade humana desolada sob uma radical explora√ß√£o, os capitalistas dominariam os prolet√°rios. Neste quadro, uma infinidade de conflitos surgiria, motivados pelas justas raz√Ķes dos que n√£o desejam ser oprimidos rebelarem-se contra os opressores. Contudo, no horizonte de Marx encontrava-se uma sociedade que haveria superado os conflitos, superado as classes, onde o proletariado venceria os conflitos e mudaria o mundo. Neste mundo ideal n√£o existiria conflito pois a verdade do desenvolvimento hist√≥rico seria incontorn√°vel, todos seriam iguais. Estas ideias s√£o a base do comunismo cient√≠fico, segundo Marx, e do comunismo real, aplicado em grande n√ļmero de pa√≠ses posteriormente a ele.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O s√©culo XX, experimentando a ascens√£o pol√≠tica das massas populares como nunca antes na hist√≥ria, viu crescer nos extremos ideol√≥gicos duas solu√ß√Ķes id√™nticas para os conflitos. √Ä direita o fascismo e o nazismo, √† esquerda o comunismo. Tais regimes visavam suprimir o conflito ao controlar todas as esferas da vida de cada cidad√£o. Acima de tudo estava o partido, a classe dirigente, e abaixo as massas submetiam todas suas a√ß√Ķes, manifesta√ß√Ķes e pensamentos a eles. Deu-se a isso o nome de regimes totalit√°rios, pois controlavam totalmente os indiv√≠duos.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Entre os extremos postou-se a democracia liberal representativa de nossos tempos. Para ela, o conflito √© inerente √† sociedade, mas deve ser controlado ¬≠‚Äď uma retomada das posi√ß√Ķes de Montesquieu e outros liberais. Acreditava-se numa pluralidade de grupos, indiv√≠duos, cren√ßas e posicionamentos na sociedade, mas estes por um lado deveriam controlar-se na esfera pol√≠tica pela grande dispers√£o, e na esfera jur√≠dica pela garantia de direitos b√°sicos do indiv√≠duo que n√£o poderiam ser suprimidos, como liberdade de express√£o, opini√£o, cren√ßa, etc. Na democracia liberal representativa, delimita-se uma esfera de conflitos poss√≠veis e controlados e outra de direitos individuais resguardados pela Justi√ßa.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Contemporaneamente, contudo, esta perspectiva de democracia liberal representativa foi questionada. Sua limita√ß√£o √†s elei√ß√Ķes como mecanismo √ļnico de participa√ß√£o pol√≠tica levaria ao recrudescimento de conflitos em casos de alto questionamento, como sociedades com clivagens sociais, culturais, √©tnicas importantes. Al√©m disso, brotam in√ļmeros questionamentos ao estado pelos resultados que estas democracias entregam aos cidad√£os, vistos como aqu√©m ao desejado e que assim deslegitimam o sistema pol√≠tico.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Diante dos problemas da democracia liberal representativa, surgiram as chamadas democracias participativa e deliberativa. Ambas, com √™nfases diferentes, enfatizam a cria√ß√£o e expans√£o de inst√Ęncias de di√°logo, livres e igualit√°rias, que promovam a cria√ß√£o de ideias e aproxima√ß√£o de posi√ß√Ķes entre os participantes. Os conflitos, aqui, deveriam diluir-se diante da pr√°tica do reconhecimento dos argumentos racionais, do valor do outro, e da conviv√™ncia, mas sem submeter o indiv√≠duo, e sim produzindo-se nele a concord√Ęncia livre, racional e aut√īnoma.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Como se v√™, o conflito, na hist√≥ria, permeou esta outra inescap√°vel realidade humana, a constitui√ß√£o de governos. Alguns objetivaram suprimir o conflito nivelando a todos, outros criando categorias estanques de governantes e governados. O conflito, contudo, tamb√©m foi aceito, e as solu√ß√Ķes passaram por dividir os grupos para que fosse imposs√≠vel surgirem vencedores e derrotados absolutos, e tamb√©m se garantiram direitos que deveriam ser resguardados de todos os conflitos, os direitos individuais. Por fim, atualmente, com a primazia do indiv√≠duo no mundo contempor√Ęneo e uma no√ß√£o mais radical de autodetermina√ß√£o, al√©m da presen√ßa dos mecanismos liberais cl√°ssicos de divis√£o de poderes e resguardo de direitos b√°sicos, busca-se a constru√ß√£o de solu√ß√Ķes de conv√≠vio que sejam livres e aut√īnomas. Para isso, os cidad√£os precisam compreender-se tanto como diferentes, postados em posi√ß√Ķes distintas com interesses e vis√Ķes diversos, quanto interdependentes e associados no destino de todos e de cada um. Assim, nada mais √ļtil para podermos cumprir bem nosso papel neste mundo cada vez mais complexo do que entender o que j√° se pensou sobre o conflito e o que se fez e faz para lidar com ele.

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Ricardo de João Braga tem graduação em economia, mestrado e doutorado em Ciência Política. Atualmente cursa mestrado em Democracia (Roads to Democracy) na Universidade de Siegen, na Alemanha.

Populismo: breves considera√ß√Ķes sobre seu significado

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Rodrigo Mayer, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

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Nas √ļltimas d√©cadas, muito se tem falado e escrito sobre o populismo. Seu uso se refere tanto a lideran√ßas e partidos √† direita (Trump, Le Pen, entre outros) quanto √† esquerda (Ch√°vez, Podemos, etc.) do espectro pol√≠tico que se op√Ķe as estruturas de poder vigentes. A origem do termo remete a expans√£o da participa√ß√£o popular na arena pol√≠tica, fato que foi utilizado por diversas lideran√ßas (Per√≥n e Vargas, s√£o os maiores exemplos na Am√©rica Latina) para se opor as for√ßas dominantes de seu per√≠odo e construir uma rela√ß√£o simb√≥lica com a popula√ß√£o e, assim, legitimar seu poder (WEFFORT, 1989).

Durante as décadas de 1950 e 1960 o termo caiu em desuso e foi retomado na década de 1980, para se referir a Frente Nacional francesa. Apesar de possuírem representantes à esquerda, os novos populistas são comumente identificados como conservadores, ou seja, as estratégias populistas não se restringem a apenas uma ideologia. Como consequência do processo de profissionalização dos partidos políticos e a maior fluidez das identidades, os novos populistas focam em diversas camadas sociais, porém mantém a característica essencial do populismo que é retirada de sua legitimidade através de vínculos emotivos com o povo e se auto intitularem defensores da população.

Embora muito utilizada, a defini√ß√£o de populismo ainda √© vaga e pode se referir tanto as lideran√ßas origin√°rias do processo de moderniza√ß√£o na Am√©rica Latina quanto a l√≠deres de outras regi√Ķes que buscam extrair seu poder por meio da rela√ß√£o direta com o povo descontente com os rumos da pol√≠tica.

Mas afinal, o que √© o populismo? Essa n√£o √© uma pergunta f√°cil de responder, pois o fen√īmeno pode ser definido como uma esp√©cie de ideologia, uma forma de governo ou como um fen√īmeno social (CERVI, 2001). Em comum, as tr√™s defini√ß√Ķes argumentam que o populismo se refere a constru√ß√£o de uma rela√ß√£o simb√≥lica entre o l√≠der e parte da popula√ß√£o atrav√©s de um apelo contr√°rio as elites, isso √©, a constru√ß√£o de um discurso de ‚Äún√≥s‚ÄĚ, a popula√ß√£o, contra setores privilegiados (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013).

O relacionamento com o povo ‚Äď que tamb√©m √© pouco teorizado ‚Äď √© a principal fonte de legitimidade da lideran√ßa populista. Ela, n√£o apenas discursa em seu nome, como tamb√©m fala em devolver o poder ao povo. A defini√ß√£o deste se encontra repleto de significados, que podem ser mais gerais ‚Äď como nacionalismo versus estrangeiros, popula√ß√£o contra a elite, etc. ‚Äď bem como mais espec√≠ficos, como representa√ß√Ķes de etnias e culturas (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013). O l√≠der, neste caso, n√£o √© apenas o auto intitulado porta voz das aspira√ß√Ķes populares, mas tamb√©m o que melhor sabe o que √© bom para o povo. Por fim, esse relacionamento pode ser interpretado de duas formas: a) positivo: o l√≠der √© tido como um indiv√≠duo que l√™ as demandas da popula√ß√£o e traz√™-las para a arena pol√≠tica e; b) negativa: em que a popula√ß√£o √© estigmatizada e considerada como incapaz de perceber apelos demag√≥gicos e de participar do processo eleitoral. √Č importante notar que a vis√£o positiva trata basicamente de caracter√≠sticas pessoais das lideran√ßas, enquanto a negativa, carrega uma certa dose de elitismo ao considerar a popula√ß√£o inapta a participa√ß√£o na esfera pol√≠tica

A emerg√™ncia de movimentos populistas se encontra intimamente relacionada com a insatisfa√ß√£o e problemas com os resultados das democracias. No primeiro momento, na Am√©rica Latina, o crescimento destes movimentos veio acompanhado com problemas decorrentes do processo de moderniza√ß√£o (passagem de uma sociedade urbana para rural, baixa qualidade dos empregos, intensas migra√ß√Ķes e, concentra√ß√£o do poder econ√īmico em poucas m√£os) (DI TELLA, 1997). Em um segundo momento, o populismo emana da insatisfa√ß√£o com as promessas n√£o cumpridas pelos regimes democr√°ticos (aumento de desigualdades econ√īmicas e sociais, crise de representa√ß√£o, corrup√ß√£o, etc. e a exclus√£o da popula√ß√£o do centro do poder decis√≥rio (CANOVAN, 2004). Como alternativa a esses problemas, os populistas prop√Ķem o uso de mecanismos de democracia direta (consultas, plebiscitos, referendos) ou apelar ao povo, de modo a se sobrepor as inst√Ęncias decis√≥rias institucionais.

Portanto, o populismo, apesar de muito citado, √© um fen√īmeno ainda pouco teorizado nas ci√™ncias sociais (e na ci√™ncia pol√≠tica, em particular). O fen√īmeno, de modo sint√©tico, trata basicamente da constru√ß√£o de uma rela√ß√£o simb√≥lica entre uma lideran√ßa do tipo carism√°tico e uma parcela da popula√ß√£o em oposi√ß√£o a grupos que s√£o identificados como portadores de privil√©gios.

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Rodrigo Mayer, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

 

Referências bibliográficas

CANOVAN, M. Trust the people! Populism and the two faces of democracy. Political studies, vol.47, n.1, p.2-16, 1999.

CANOVAN, M. Populism for political theorists? Journal of political ideologies, vol.9, n.3, p.241-252, 2004.

CERVI, E. As sete vidas do populismo. Revista Sociologia e Política, n.17, p.151-156, 2001.

DI TELLA, T. Populism into the twenty-first century. Government and opposition, vol.32, n.2, p. 187-200, 1997.

LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013.

WEFFORT, F. 1989. O populismo na política brasileira. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Ciência e política: duas coisas inseparáveis

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Eduardo Sato, autor do blog Torta de Maçã Primordial.

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Provavelmente muitos n√£o enxerguem quanto ci√™ncia e pol√≠tica est√£o atreladas e quanto uma afeta a outra, minha hip√≥tese √© que a ci√™ncia como forma cr√≠tica de interpretar o mundo n√£o √© ensinada nas escolas de maneira proposital, como diria Darcy Ribeiro: ‚ÄúA crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, n√£o √© uma crise, √© um projeto‚ÄĚ [1].

Talvez parte do problema seja o fato das pessoas não entenderem o que um cientista faz, ou mesmo o que é ciência de modo geral. Mas não se engane, isto não quer dizer de forma alguma que a população brasileira não tem interesse por ciência: uma enquete realizada em 2015 pelo Centro de Gestão em Estudos Estratégicos (CGCE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostra que 61% dos entrevistados se declararam interessados ou muito interessados pelo tema, porém 87% não soube informar o nome de um instituto de pesquisa científica brasileiro e 94% não conhece o nome de um cientista brasileiro [2].

Quando a (falta de) ciência afeta a política

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Existem dois pontos onde a falta de ci√™ncia √© bastante problem√°tica: na percep√ß√£o da popula√ß√£o sobre algumas decis√Ķes pol√≠ticas e nas pr√≥prias tomadas de decis√£o dos pol√≠ticos em quest√Ķes que envolvem ci√™ncia.

Um caso onde o primeiro ponto ficou bastante claro para mim aconteceu em 2016, quando Michel Temer assumiu a presidência e montou sua equipe de ministros sem ao menos uma mulher [3]. Na época, houve uma grande polêmica sobre este fato, como um claro exemplo de machismo, pois a probabilidade de isto acontecer ao acaso era muito baixa. Eu (que ainda não tinha nenhum envolvimento com divulgação científica) concordei com o argumento e supus que ninguém havia calculado esta probabilidade por preguiça, então eu fiz um modelinho simples, fiz o calculo e publiquei a imagem a seguir no Facebook.

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¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Figura 1: Probabilidade de uma equipe com 23 pessoas escolhida ao acaso contenha um n√ļmero m de mulheres, dado o pr√©-requisito de que todos sejam brasileiros, acima de 25 anos e possuam ensino superior completo [4].

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Acompanhando os coment√°rios, percebi que a grande maioria das pessoas nunca tinha visto um teste de hip√≥tese nula! Isto foi um choque para mim, pois no mundo das ci√™ncias exatas esta ferramenta √© usada de forma bastante corriqueira, por que n√£o ensinamos isto nas escolas? Outro choque para mim, foi o fato de muitos n√£o entenderem o que √© uma distribui√ß√£o binomial (esta inclusive √© parte do curr√≠culo do ensino m√©dio) fora do contexto bobo de lan√ßamento de v√°rios moedas para determinar o n√ļmero de caras e coroas.

Refletindo um pouco sobre este caso, comecei a pensar como a estat√≠stica e diversas outras ci√™ncias n√£o s√£o ensinadas nas escolas como ferramentas para interpretar o mundo, mas sim como coisas para se decorar para a prova. Em especial, a estat√≠stica √© apresentada como argumento em diversos meios de comunica√ß√£o, mas me respondam estimados leitores, voc√™s aprenderam no ensino m√©dio, o que significa por exemplo, a ‚Äúmargem de erro de 2% para mais ou para menos‚ÄĚ que tanto se fala nas pesquisas eleitorais?

Outro problema que podemos apontar no aspecto de percep√ß√£o pol√≠tica √© que posi√ß√Ķes pol√≠ticas s√£o tratadas por muitos como uma cren√ßa, ou como uma parte da suas personalidades e n√£o como algo baseado em evid√™ncias: um estudo realizado pela University of Southern Carolina indica que pessoas tem mais resist√™ncia a mudar de opini√£o sobre quest√Ķes politicas quando apresentadas a contra-argumentos em rela√ß√£o a opini√Ķes sobre quest√Ķes n√£o pol√≠ticas [5].

Isto vai completamente contra o esp√≠rito do m√©todo cient√≠fico, onde se o mundo n√£o corresponde as previs√Ķes do nosso modelo devemos descartar completamente nossas hip√≥teses. Ent√£o fica a pergunta: se a popula√ß√£o tivesse um letramento cient√≠fico ‚Äúideal‚ÄĚ, ter√≠amos um reflexo disso nas vis√Ķes pol√≠ticas?

Com isso podemos pensar no segundo ponto: as tomadas de decis√Ķes pol√≠ticas. Segundo uma tese de doutorado defendida na London School of Economics, cientistas costumam ter pouca voz no processo de formula√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas na √°rea ambiental [6]. Possivelmente esta conclus√£o possa ser generalizada para as demais √°reas de ci√™ncia, onde dificilmente cientistas s√£o consultados em quest√Ķes t√©cnicas e prevalecem as opini√Ķes dos seres pol√≠ticos.

Um exemplo na cidade de São Paulo é a lei municipal 13.440 de 2002 (com redação alterada pela lei municipal 16.644 de 2017) que proíbe o uso de celulares em postos de gasolina [7], com a justificativa de que celulares poderiam produzir faíscas que levariam a acidentes devido a presença de materiais inflamáveis.  Quão absurda é a existência de uma lei assim?

Sabem o que produz fa√≠scas? Carros. Como ser√° que o redator dessa lei acha que funciona o sistema de igni√ß√£o de um carro? Ser√° que dever√≠amos todos empurrar nossos carros para fora do posto antes de lig√°-los? Ali√°s, as m√°quinas utilizadas na cobran√ßa de cart√Ķes de d√©bito/cr√©dito s√£o celulares disfar√ßados… elas tamb√©m s√£o proibidas? N√£o √© preciso um f√≠sico ou um engenheiro eletricista para perceber a inefic√°cia desta lei, mas se apenas um deles tivesse sido consultado, esta lei nunca existiria.

E n√£o s√≥ nas leis est√° o problema da falta de voz dos cientistas nas pautas que envolvem ci√™ncia, pois estes mesmos pol√≠ticos que n√£o confiam em ci√™ncia, decidem os or√ßamentos da ci√™ncia, atrav√©s dos repasses para ag√™ncias de fomento, universidades, laborat√≥rios nacionais e demais centros de pesquisas p√ļblicos.

Não é à toa que ao primeiro sinal de crise financeira tenhamos cortes enormes nos investimentos em ciência e tecnologia como os que acontecem atualmente e motivam diversas marchas pela ciência por todo o país.

Divulgação científica como parte da solução

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Com o apresentado fica claro que o letramento cient√≠fico n√£o √© o √ļnico fator para mudar as pol√≠ticas p√ļblicas, mas talvez parte da solu√ß√£o seja mudar a percep√ß√£o p√ļblica de ci√™ncia. Cientistas por muito tempo se dedicaram e ainda se dedicam exclusivamente √† ci√™ncia sem se importar em explicar √† popula√ß√£o (que financia as pesquisas) qual a import√Ęncia do seu trabalho, ou mesmo qual √© o trabalho de um cientista.

Está mais do que na hora dos cientistas saírem das suas torres de marfim e criarem um canal de dialogo aberto com a sociedade. Parte importante dessa comunicação já existe através dos meios de divulgação científica, mas o que temos ainda é pouco.

Neste contexto quero parabenizar o ScienceBlogs Brasil, pelos dez anos nessa jornada de levar ci√™ncia de forma acess√≠vel a popula√ß√£o e por servir como inspira√ß√£o para o surgimento de diversos outros canais de divulga√ß√£o cient√≠fica no Brasil, onde incluo n√≥s do Blogs de Ci√™ncia da Unicamp. N√≥s temos um papel de extrema import√Ęncia nessa media√ß√£o entre ci√™ncia e sociedade e precisamos n√£o s√≥ continuar este trabalho mas tamb√©m incentivar novas iniciativas que ampliem esta comunica√ß√£o! Continuemos escrevendo, pois como j√° conclu√≠mos os blogs n√£o morreram!

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Eduardo Sato é doutorando em física pela Unicamp, autor do blog Torta de Maçã Primordial e membro da equipe do Blogs de Ciência da Unicamp.

 

 

[1] Ribeiro, D. Sobre o óbvio. Em: Ensaios insólitos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

[2] Moraes B,  Caires L, Fontes H. Pesquisa revela que brasileiro gosta de ciência, mas sabe pouco sobre ela. Jornal da Unicamp. Campinas: 2017, Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/09/25/pesquisa-revela-que-brasileiro-gosta-de-ciencia-mas-sabe-pouco-sobre-ela

[3] Arbex T, Bilenky T. Ministério de Temer deve ser o primeiro sem mulheres desde Geisel. Folha de São Paulo, São Paulo: 2016, Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1770420-ministeriado-de-temer-deve-ser-o-primeiro-sem-mulheres-desde-geisel.shtml

[4] Sato, EA. Meus dois centavos sobre a falta de representatividade dos ministros de Temer. Facebook, Campinas: 2016, Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=999783896742911&set=a.255352981186010.71761.100001339318044&type=3&theater

[5] Kaplan JT, Gimbel SI, Harris H. Neural Correlates of maintaing one’s political beliefs in the face of counterevidence. Sci. Rep. 6, 39589; doi: 10.1038/srep39589 (2016). Dispon√≠vel em: https://www.nature.com/articles/srep39589

[6] Donadelli FMM, Reaping the seeds of discord: advocacy coalitions and changes in brazilian enviromental regulation. London School of Economics, PhD thesis, London: 2017, Disponível em: https://www.researchgate.net/project/PhD-Thesis-5

[7] Nunes R. Lei N¬ļ 16.644, de 9 de maio de 2017. Dispon√≠vel em: https://leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/lei-ordinaria/2017/1664/16644/lei-ordinaria-n-16644-2017-altera-a-redacao-dos-arts-1-e-2-da-lei-municipal-n-13440-de-14-de-outubro-de-2002-e-da-outras-providencias

 

Uma cientista no Parlamento

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Mariana Moura membro-fundadora do Movimento dos Cientistas Engajados e pré-candidata a deputada estadual.

Se você quiser participar saiba mais em: http://bit.ly/SBBr10anos

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Você consome tecnologia todos os dias. Está surpreso?

O nosso colchão, a toalha, a roupa que usamos no dia a dia, o café, o pão e o leite, o pacote de macarrão e o de molho de tomate. A luz que chega na nossa casa, a geladeira, a televisão, o rádio. O nosso despertador, o chuveiro. O celular e o computador. As paredes da nossa casa, a tinta, o nosso sofá. O remédio que tomamos quando estamos doentes e o conhecimento do médico que a gente consulta. Tudo isso é resultado da ciência. O conhecimento acumulado pela humanidade ao longo dos séculos transformado em produtos. Ciência é qualidade de vida.

√Č a casa mais barata e constru√≠da com materiais melhores. √Č o rem√©dio da doen√ßa que as empresas farmac√™uticas n√£o t√™m interesse em curar. √Č a comida mais barata porque a terra produz mais e porque chega mais r√°pido na nossa mesa. √Č a possibilidade de estudar √† noite porque tem energia el√©trica. √Č o emprego com sal√°rios melhores e a valoriza√ß√£o do sal√°rio m√≠nimo. Ci√™ncia √© Habita√ß√£o, Alimenta√ß√£o, Sa√ļde, Seguran√ßa, Educa√ß√£o e Emprego.

Os pa√≠ses centrais perceberam isso h√° d√©cadas. Perceberam tamb√©m que desenvolvimento cient√≠fico se produz com investimento do Estado. No Brasil, pelo contr√°rio, os investimentos em ci√™ncia s√£o sempre os primeiros a sofrer cortes quando chega uma crise. Desde 2013, os repasses federais para o Minist√©rio da Ci√™ncia e Tecnologia ca√≠ram quase pela metade chegando, no ano passado, a patamares do in√≠cio do S√©culo XX. O corte de 44% nos recursos deixaram a pasta com apenas R$ 3,7 bilh√Ķes para investir em 2017. Essa mentalidade est√° colocando em risco as pesquisas em andamento com o √™xodo de recursos humanos que levaram anos e muito investimento para serem formados. Formamos 20 mil doutores por ano, mas estes profissionais n√£o t√™m onde trabalhar no Brasil e acabam saindo do pa√≠s para continuar suas pesquisas. Um projeto como o LNLS, que cont√©m o laborat√≥rio de luz s√≠ncroton mais avan√ßado do mundo, e que foi or√ßado em R$ 1,8 bilh√£o, adiou suas atividades pela falta de recursos este ano. Para poder produzir novos materiais de constru√ß√£o, novos medicamentos, empregos com sal√°rios melhores √© preciso investimento p√ļblico maci√ßo e cont√≠nuo em Ci√™ncia e Tecnologia. A interrup√ß√£o desses recursos p√Ķe a perder o que foi feito antes.

N√≥s exportamos milh√Ķes de toneladas de min√©rio barato para comprar barras de a√ßo,¬† exportamos petr√≥leo para importar gasolina. Consumimos a tecnologia produzida por outros pa√≠ses a um custo anual de R$ 20 bilh√Ķes apenas para o pagamento de royalties e licen√ßas de uso. S√≥ para ter a permiss√£o de usar. Isso √© de uma irracionalidade sem tamanho. Temos todas as condi√ß√Ķes de transformar essa mat√©ria-prima gerando emprego e renda. Temos que mudar a l√≥gica e explorar conscientemente os materiais que temos respeitando limites ambientais e sociais do nosso territ√≥rio. O Brasil n√£o pode se dar ao luxo de n√£o investir em Ci√™ncia.

Um pa√≠s com tanta riqueza n√£o pode achar normal que existam pessoas sem um lugar para morar, sem saberem o que v√£o comer na pr√≥xima refei√ß√£o. S√£o 52 milh√Ķes de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. Isso √© inadmiss√≠vel! Especialmente em um pa√≠s que possui reservas minerais e naturais entre as maiores do mundo e em uma √©poca em que a cada dia, a cada hora, surgem novos mecanismos, novos processos, novos produtos que s√£o capazes de melhorar a vida das pessoas. Permitir que vivamos mais e melhor.

Há décadas não temos grandes projetos científicos e o Plano Nacional de Ciência e Tecnologia, construído com pesquisadores, trabalhadores e agentes sociais de todo o país, foi abandonado em 2014 antes mesmo de ser colocado em prática. Tivemos recursos, mas não tínhamos projeto e, quando tivemos projeto, os recursos foram extraídos dele. Os atuais políticos do país pensam em ciência com base em um modelo não eficiente, sem visão global e gerenciado de modo não organizado que não trouxe os resultados esperados. Temos hoje excelência em setores pontuais, mas isso não chega à sociedade. Para reverter essa situação, é preciso pensar em Ciência como motor do desenvolvimento e inserir a produção científica no projeto nacional.

Por isso sou pré-candidata a deputada estadual em São Paulo.

E conto com vocês nesta empreitada!

Um forte abraço,

marianamoura

Mariana Moura –¬†Mestre em Ci√™ncias e doutoranda em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S√£o Paulo. Foi coordenadora geral da Associa√ß√£o de P√≥s Graduandos da USP Capital. √Č membro-fundadora do Movimento dos Cientistas Engajados e pr√©-candidata a deputada estadual pelo Partido P√°tria Livre

E você, também é de ler?

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Hoje quem escreve é Maria Leticia Bonatelli do Blog Ciência Informativa.

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O que voc√™ faz para atingir o seu p√ļblico alvo? Voc√™ conhece as pessoas que consomem o produto que voc√™ oferece? Existe uma f√≥rmula ideal para uma divulga√ß√£o cient√≠fica que realmente contemple TODOS?

Bom, essas s√£o perguntas que passam (ou deveriam passar) pela cabe√ßa de qualquer pessoa que produz conte√ļdo. Aqui eu vou falar de n√≥s, divulgadores cient√≠ficos. Como muitos de voc√™s, eu tenho um passado na p√≥s-gradua√ß√£o (mestrado e doutorado) e sempre tive interesse em compartilhar o meu conhecimento com o p√ļblico que, muitas vezes, n√£o tem acesso ao que √© discutido na academia.

Foi então que em meados de 2014, eu e um grupo de colegas iniciamos um projeto de divulgação científica chamado Ciência Informativa. O projeto incluía a criação de um blog de divulgação, no qual textos abordando diferentes tópicos da ciência seriam publicados semanalmente e, além disso, o mesmo espaço seria oferecido para que QUALQUER pesquisador ou aluno pudesse publicar textos de divulgação científica sobre a sua pesquisa.

E se voc√™ observar a data de cria√ß√£o do blog ‚Äď 2014 ‚Äď vai ver que n√£o foi exatamente no auge dos blogs. Outras m√≠dias ‚Äď vlogs, podcasts ‚Äď estavam surgindo e ganhando muita, ou at√© mais, aten√ß√£o que os blogs. Eu j√° ouvi de colegas da √°rea que deveria mudar de m√≠dia, que eu precisava ir para o Youtube e que os blogs j√° eram.

Mas, calma l√°. Se pensarmos nas tr√™s perguntas iniciais que fiz, existe uma m√≠dia que contemple todos? Um conte√ļdo que seja acessado por muitos p√ļblicos distintos? Crian√ßas, jovens e adultos? E voc√™, qual o produto que voc√™ mais consome na hora de se informar? Vlogs, podcasts ou blogs?

Particularmente, eu sou uma pessoa que gosta de ler para me manter informada. Consumo outros tipos de produtos tamb√©m, mas de longe prefiro ler artigos e an√°lises. E, ent√£o, ser√° que n√£o √© assim com as outras pessoas tamb√©m? Ser√° que diferentes conte√ļdos n√£o podem ser produzidos para contemplar diferentes p√ļblicos?

Um artigo publicado pela revista Nature em janeiro deste ano leva o t√≠tulo ‚ÄúWhy science blogging still matters‚ÄĚ e levanta diferentes pontos sobre a import√Ęncia e as dificuldades da blogagem ‚Äď se voc√™ ainda n√£o leu, recomendo. Segundo o artigo, blogar pode ser um desafio por conta da disponibilidade de tempo (ainda mais se voc√™ tamb√©m √© pesquisador) e ainda por competir com outras m√≠dias que acabam diluindo o impacto dos posts produzidos. Mas ainda assim, pode ser uma interessante forma de networking e, claro, de dissemina√ß√£o do conhecimento cient√≠fico ‚Äď seja entre pares ou n√£o.

Nesses quase 4 anos de blogagem ‚Äď o Ci√™ncia Informativa assopra velinhas em setembro de 2018 ‚Äď n√≥s vimos muitas mudan√ßas acontecerem no mundo da internet. De fato, √© dif√≠cil dizer qual ser√° a nova m√≠dia do momento ou qual app que usaremos daqui a seis meses. A mudan√ßa parece ser a √ļnica constante do mundo em que vivemos. E o blog, assim como as outras m√≠dias, tem que se adaptar a essa realidade.

Se voc√™ me pergunta: o Ci√™ncia Informativa atinge n√ļmeros de visualiza√ß√Ķes de Youtube? Minha resposta √© n√£o. Nosso crescimento √© mais lento e org√Ęnico. Conquistamos nosso p√ļblico ao longo desses anos, assim como os nossos colaboradores: cerca de 10% do conte√ļdo do blog foi escrito por pesquisadores e alunos que utilizaram a plataforma para realizar divulga√ß√£o cient√≠fica.

Sabemos sobre o que o nosso p√ļblico mais se interessa: textos sobre meio ambiente s√£o os mais acessados. Textos sobre linguagem e comportamento, que s√£o t√≥picos com conte√ļdo mais escasso na internet, tamb√©m s√£o muito acessados. Al√©m disso, sabemos que o nosso p√ļblico chega aos nossos textos, muitas vezes, por meio de pesquisa nos buscadores online ‚Äď utilize as palavras ‚ÄúRio Doce Hist√≥ria‚ÄĚ no Google e voc√™ poder√° ver o feature snippet do Ci√™ncia (Imagem abaixo).

rio doce historia

Tentar conhecer o seu p√ļblico talvez seja uma das coisas mais importantes que voc√™ pode fazer para aprimorar o conte√ļdo que produz. N√≥s sempre tentamos aprimorar o conte√ļdo e o formato do texto, assim como diversificar os assuntos abordados. Como muito de voc√™s, n√≥s tamb√©m aprendemos fazendo. E essa tamb√©m n√£o seria uma fun√ß√£o importante do blog? Capacitar pessoas para fazer divulga√ß√£o cient√≠fica?

Ent√£o se a ideia era responder se os blogs morreram, a minha resposta √© um sonoro n√£o. Diferentes conte√ļdos contemplam diferentes p√ļblicos e est√° tudo bem ser assim. No mundo da divulga√ß√£o cient√≠fica, voc√™ est√° aberto √† experimenta√ß√£o e pode procurar qual m√≠dia se encaixa mais. Claro que sempre h√° a necessidade de pensar em formas de melhorar o conteudo do seu blog, vlog, podcast ou outros, mas assim como eu prefiro ler, outras pessoas tamb√©m ir√£o preferir. E voc√™, tamb√©m √© de ler?

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Maria Letícia Bonatelli do blog Ciência Informativa

Blogs de Ciência da Unicamp РAinda estamos aqui

Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? Quem escreve hoje é a Erica Mariosa Moreira Carneiro, do Blogs de Ciência da Unicamp.

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It’s Alive” – Frankenstein (1931)

 

O prognóstico de morte dos blogs já foi anunciado por diversas vezes na mídia, contudo muitas iniciativas continuam insistindo nessa plataforma e conseguindo resultados interessantes e promissores! Tais como  nos seguintes casos, Science Blogs Рque está comemorando 10 anos com essa blogagem coletiva -, Ciência Informativa, Gene Repórter, Blogs da Ciência, Mural Científico e nós, do Blogs de Ciência da Unicamp, que desde 2015 promovemos divulgação científica escrita e produzida por pesquisadores, docentes e alunos da Unicamp.

Os blogs surgiram, de acordo com Malini (2008) e Paquet (2002), h√° mais de duas d√©cadas. O objetivo principal era ser um espa√ßo virtual para, por meio de textos, expressar ideias, informar e opinar sobre assuntos variados. Diferentemente das comunica√ß√Ķes em massa, como televis√£o e r√°dio, os blogs ganharam notoriedade devido √† possibilidade de liberdade de express√£o e intera√ß√£o com os leitores.

O nome ‚Äúblog‚ÄĚ vem de web-log, ou di√°rio de rede e foi usado inicialmente pelo norte americano Jorn Barger para se referir ao seu jornal online Robot Wisdom que, na √©poca, tinha a inten√ß√£o de ser uma ferramenta que indicava p√°ginas atrav√©s de links, de acordo com a import√Ęncia que o pr√≥prio autor do conte√ļdo as atribuia.

Com a evolu√ß√£o da tecnologia, do acesso e da maior disponibilidade de ferramentas, os blogs foram sofrendo mudan√ßas. Primeiramente em seu tamanho, depois ao agregar fun√ß√Ķes, como inclus√£o de imagens, √°udios, v√≠deos, etc. O Blogs de Ci√™ncia da Unicamp surgiu em 2015 em meio a essas mudan√ßas, com o prop√≥sito de ser um portal de blogs de divulga√ß√£o cient√≠fica com conte√ļdo exclusivo e in√©dito produzidos por cientistas. Atualmente o projeto conta com 31 blogs ativos e 25 em fase de constru√ß√£o.

Dos anos noventa at√© os dias de hoje muita tecnologia ‚Äúnasceu‚ÄĚ e ‚Äúmorreu‚ÄĚ e outras se reinventaram para se manterem competitivas. Neste contexto, arautos do apocalipse sugeriram por diversas vezes como ‚Äúos blogs perderam sua for√ßa‚ÄĚ, j√° que¬† ‚Äúas pessoas n√£o l√™em mais‚ÄĚ.

OS BLOGS PERDERAM SUA FORÇA:

Enquanto surgiam iniciativas de blogs no Brasil, o mundo da tecnologia apresentava novos formatos de comunica√ß√£o que chamavam a aten√ß√£o dos blogueiros e de seu p√ļblico, sendo assim, muitos blogs foram abandonados ou migraram para outras plataformas.

Esse fen√īmeno motivou um extenso debate no canal de Blogs Gene Rep√≥rter, do divulgador cient√≠fico Roberto Takata, com o t√≠tulo ‚ÄúH√° uma crise nos blogues brazucas de ci√™ncias?‚ÄĚ, rendendo 7 postagens de 2013 √† 2015. Dentre as diversas colabora√ß√Ķes, Takata destaca que mesmo sem ter dados precisos, √© poss√≠vel perceber a diminui√ß√£o das postagens em canais que acompanha. Percep√ß√£o essa que se concretiza com a pesquisas a seguir:

  • Realizada em 2015 pela ag√™ncia Grumft e divulgada pela Ag√™ncia Adnews conclui-se que a blogosfera brasileira possu√≠a 200 milh√Ķes de blogs ativos.
  • Em 2017 a empresa BigData Corp atualizou os dados da blogosfera brasileira, constatando que existem mais de 5,5 milh√Ķes de blogs no Brasil. Sendo que mais de 90% dos blogs aliam a sua exposi√ß√£o a redes sociais e outras plataformas, 48,53% utilizam Facebook, 48,21% o Youtube e 33,97% Twitter.

Com uma redu√ß√£o de 97% de blogs ativos no Brasil em dois anos de atua√ß√£o √© poss√≠vel admitir que os blogs de fato perderam sua for√ßa, principalmente quando comparados a iniciativas de divulga√ß√£o cient√≠fica em outras plataformas, como o YouTube que possui uma audi√™ncia de 95% da populacŐßaŐÉo online brasileira – de acordo com os dados fornecidos pelo Youtube Insights 2017.

AS PESSOAS NÃO LÊEM MAIS:

Guimar√£es (2018) comenta que a √ļltima pesquisa sobre an√°lise de comportamento de leitura foi aplicada em 2015, pelo Ibope Intelig√™ncia sob encomenda do Instituto Pr√≥-Livro para o projeto Retratos da Leitura no Brasil[1], verificou-se que 56% da popula√ß√£o brasileira √© leitora, contudo o brasileiro l√™ poucos livros, uma m√©dia de 4 livros por ano, sendo que 2 dos livros n√£o s√£o terminados.

Entretanto, nessa análise precisamos também considerar o leitor virtual, ou seja, aquele que utiliza de blogs, e-books e redes sociais para ler. De acordo com o Instituto Reuters de Oxford[2] em 2016, 91% dos brasileiros usam a internet para se informar, sendo 72% desses, leitores de notícias.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠stica – IBGE[3] em sua √ļltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic√≠lios Cont√≠nua, em seu suplemento de Tecnologias da Informa√ß√£o e Comunica√ß√£o (TIC) referente a 2016, concluiu que 64,7% da popula√ß√£o brasileira est√° conectada a internet, desse montante, 71% usam a internet para educa√ß√£o e aprendizado e 68,6% para comunica√ß√£o com outras pessoas. A partir dessas pesquisas, observa-se que o p√ļblico leitor mant√©m-se ‚Äúvivo‚ÄĚ e utilizando cada vez mais o meio digital.

E o Blogs de Ci√™ncia da Unicamp, como se insere nesta discuss√£o? Ser√° que tem visto diferen√ßa, em seu p√ļblico, desde seu lan√ßamento nestes 2 anos e meio?

O BLOGS DE CIÊNCIA DA UNICAMP

Como o pr√≥prio nome j√° sugere, essa plataforma de blogs realiza divulga√ß√£o cient√≠fica a partir do conte√ļdo gerado pela Unicamp, sendo que as estrat√©gias de divulga√ß√£o de conte√ļdo para a sociedade acontece apenas de forma org√Ęnica[4], em quatro redes sociais oficiais e quatro redes sociais em fase de teste.

Publicando ao menos uma postagem in√©dita ao dia direcionada ao seu p√ļblico de interesse previamente identificado, realiza-se tamb√©m sugest√Ķes de pauta para ve√≠culos de m√≠dia, entre outras estrat√©gias.

O projeto acaba de realizar sua 9a Integração com futuros blogueiros/cientistas da Unicamp. Desde o início do projeto, foram integrados 382 pesquisadores, dentre os quais 97 continuam ativos e 25 ainda estão em fase de desenvolvimento e preparação de seus blogs. A maioria dos participantes é formada por pós-graduandos (35% de doutorandos e 6% de pós doutorandos para 24% de docentes e) e mulheres (55%).

A administra√ß√£o do projeto √© realizada por uma equipe de volunt√°rios, divididos de acordo com suas atribui√ß√Ķes e expertises pessoais, sendo 2 docentes, 1 doutor, 4 doutorandos, 1 mestre, 1 mestrando e 2 graduandos, desses s√£o 7 mulheres e 4 homens.

Os resultados do projeto são medidos através dos analytics (oferecidos pelas mídias sociais, google e piwik). De 2015 até 2 de julho de 2018, segundo dados apresentados pelo Google Analytics, tivemos 75.851 leitores nas postagens do portal, destes 66% são de novos visitantes e 33% de visitantes que retornaram, 59,87% são mulheres e 40,13% são homens.

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Figura 1 – Visualiza√ß√Ķes no portal principal coletadas no Google Analytics

O Blogs de Ci√™ncia da Unicamp teve um aumento expressivo de leitores ao longo de 2 anos e meio de atua√ß√£o, principalmente se considerarmos que n√£o houve nenhum tipo de investimento financeiro em divulga√ß√£o no projeto. Isso mostra que, apesar de novas tecnologias surgirem todos os dias, e a comunica√ß√£o estar sempre se renovando, este tipo de m√≠dia continua tendo um p√ļblico cativo e crescente, que procura, se interessa e divulga seu conte√ļdo.

Talvez as iniciativas de divulga√ß√£o cient√≠fica que optem por esse formato n√£o atinjam milh√Ķes de seguidores e algumas classes sociais rapidamente, como faz o YouTube, por exemplo. Contudo a fun√ß√£o da divulga√ß√£o cient√≠fica escrita, o Blogs de Ci√™ncia da Unicamp tem se realizado satisfatoriamente.

√Č fundamental acrescentar que a din√Ęmica de acesso e o consumo do conte√ļdo escrito √© diferente do conte√ļdo em v√≠deo ou √°udio. Tal suporte n√£o deve ser descartado por mera justificativa de procura de aumento de audi√™ncia, tendo seu nicho espec√≠fico e, muitas vezes, complementar a outras plataformas e produ√ß√Ķes. √Č importante que conte√ļdos escritos de divulga√ß√£o cient√≠fica continuem sendo disponibilizados, j√° que a rela√ß√£o do leitor com o texto √© diferente daquele que assiste com o v√≠deo. O ideal seria que os formatos se combinassem de forma complementar, com uma introdu√ß√£o mais simples em v√≠deo e seu aprofundamento por meio de um conte√ļdo textual.

Tamb√©m √© preciso dizer que o blog √© uma op√ß√£o acess√≠vel ao cientista que opta por realizar divulga√ß√£o cient√≠fica independente dos canais de comunica√ß√£o de seus institutos e universidades, pois esse tipo de plataforma n√£o exige uma¬† infraestrutura cara, como c√Ęmeras, editor de v√≠deo ou √°udio, por exemplo. Tamb√©m se destaca a relativa independ√™ncia do divulgador cient√≠fico, que usa a escrita como meio, em fun√ß√£o de outras plataformas exigirem mais pessoas envolvidas (e com qualifica√ß√Ķes diferentes) na produ√ß√£o de conte√ļdo e/ou maior desenvoltura do divulgador – o que pode gerar um disp√™ndio de tempo e custo maior tamb√©m. Contudo, embora a escrita seja um modo de divulga√ß√£o mais individualizado, n√£o torna simples ou f√°cil ao pesquisador. O futuro divulgador cient√≠fico deve se esfor√ßar em utilizar uma linguagem acess√≠vel por qualquer p√ļblico que possa vir a seguir o seu canal, sempre primando pela qualidade da informa√ß√£o.

Quanto a pergunta inicial desta postagem…

NÃO, OS BLOGS NÃO MORRERAM!

Mas a divulgação científica, independente do formato escolhido, ainda precisa de um maior reconhecimento, investimento e engajamento para continuar se desenvolvendo. Há muito chão pela frente! Que tal caminharmos juntos?

 Agradecimento especial a toda a equipe Blogs de Ciência da Unicamp que participa, escreve e contribui voluntariamente para que o projeto se mantenha vivo e operante.

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Erica Mariosa Moreira Carneiro –¬†Administradora do Blogs de Ci√™ncia da Unicamp. Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o Social em Rela√ß√Ķes P√ļblicas ‚Äď PUCCampinas. P√≥s Gradua√ß√£o em Jornalismo Cient√≠fico ‚Äď Labjor/Unicamp. Mestranda em Divulga√ß√£o Cient√≠fica e Cultural ‚Äď Labjor/Unicamp. Experi√™ncia em Divulga√ß√£o em M√≠dias Sociais com Pr√°ticas N√£o Onerosas.

Colabora√ß√Ķes: Andr√© Garcia, Ana de Medeiros Arnt e C√°ssio Riedo

BIBLIOGRAFIA

FRANKENSTEIN: The movie. Direção de James Whale e Produção de Carl Laemmle Jr. Estados Unidos: James Whale, 1931. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=J8KHc3ipm-0>. Acesso em: 03. jul. 2018.

MALINI, F. Por uma genealogia da Blogosfera: considera√ß√Ķes hist√≥ricas (1997 a 2001), 2008. Dispon√≠vel em: <http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/lcvt/article/view/35> Acesso em: 28 mar. 2017.

PAQUET, S. Personal knowledge publishing and its uses in research. 2002. Disponível em : <http://radio.weblogs.com/0110772/stories/2002/10/03/ personal Know ledgePublishingAndItsUsesInResearch.html>. Acesso em: 25 mar. 2017.

GUIMAR√ÉES, P. Retratos da Leitura ‚Äď Perfil do Leitor. 2017. Dispon√≠vel em: <https://www.institutoguimaraes.com.br/single-post/2017/07/27/Retratos-da-Leitura-%E2%80%93-Perfil-do-Leitor>. Acesso em: 03 jul. 2018.

SANTOS, I. Manuel Castells: um país educado com internet progride; um país sem educação usa a internet para fazer estupidez. 2017. Disponível em: <https://www.fronteiras.com/entrevistas/manuel-castells-um-pais-educado-com-internet-progride>. Acesso em: 03 jul. 2018.

[1] Foram entrevistadas 5.012 pessoas de 5 anos ou mais, alfabetizadas, ou não, e foram considerados leitores aqueles que leram algum livro nos três meses anteriores à entrevista.

[2] Pesquisa Completa: https://www.poder360.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Pesquisa-instituto-Reuters.pdf

[3] pesquisa completa: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2015/default.shtm

[4] Divulgação feita com estratégias de comunicação sem a geração de custo para o projeto.